{"id":583,"date":"2018-07-05T15:07:57","date_gmt":"2018-07-05T15:07:57","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=583"},"modified":"2018-07-05T15:09:37","modified_gmt":"2018-07-05T15:09:37","slug":"o-defunto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-defunto","title":{"rendered":"O Defunto"},"content":{"rendered":"<p>I<br \/>\nNo ano de 1474, que foi por toda a Cristandade t\u00e3o abundante em merc\u00eas divinas, reinando em Castela el-rei Henrique IV, veio habitar na cidade de Seg\u00f3via, onde herdara moradias e uma horta, um cavaleiro mo\u00e7o, de muito limpa linhagem e gentil parecer, que se chamava D. Rui de Cardenas.<\/p>\n<p>Essa casa, que lhe legara seu tio, arcediago e mestre em c\u00e2nones, ficava ao lado e na sombra silenciosa da igreja de Nossa Senhora do Pilar; e, em frente, para al\u00e9m do adro, onde cantavam as tr\u00eas bicas de um chafariz antigo, era o escuro e gradeado pal\u00e1cio de D. Alonso de Lara, fidalgo de grande riqueza e maneiras sombrias, que j\u00e1 na madureza da sua idade, todo grisalho, desposara uma menina falada em Castela pela sua alvura, cabelos cor de sol claro, e colo de gar\u00e7a real. D. Rui tivera justamente por madrinha, ao nascer, Nossa Senhora do Pilar, de quem sempre se conservou devoto e fiel servidor; ainda que, sendo de sangue bravo e alegre, amava as armas, a ca\u00e7a, os saraus bem galanteados, e mesmo por vezes uma noite ruidosa de taverna com dados e pich\u00e9is de vinho. Por amor, e pelas facilidades desta santa vizinhan\u00e7a, tomara ele o piedoso costume, desde a sua chegada a Seg\u00f3via, de visitar todas as manh\u00e3s, \u00e0 hora de Prima, a sua divina madrinha e de lhe pedir, em tr\u00eas Ave-Marias, a b\u00ean\u00e7\u00e3o e a gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Ao escurecer, mesmo depois de alguma rija correria por campo e monte com lebr\u00e9us ou falc\u00e3o, ainda voltava para, \u00e0 sauda\u00e7\u00e3o de V\u00e9speras, murmurar docemente uma Salve-Rainha.<\/p>\n<p>E todos os domingos comprava no adro, a uma ramalheteira mourisca, algum ramo de junquilhos, ou cravos, ou rosas singelas, que espalhava, com ternura e cuidado galante, em frente ao altar da Senhora.<\/p>\n<p>A esta venerada igreja do Pilar vinha tamb\u00e9m cada domingo D. Leonor, a t\u00e3o falada e formosa mulher do senhor de Lara, acompanhada por uma aia carrancuda, de olhos mais abertos e duros que os de uma coruja, e por dois possantes lacaios que a ladeavam e guardavam como torres. T\u00e3o ciumento era o senhor D. Alonso que, s\u00f3 por lho haver severamente ordenado o seu confessor, e com medo de ofender a Senhora, sua vizinha, permitia esta visita fugitiva, a que ele ficava espreitando sofregamente, de entre as rexas de uma gelosia, os passos e a demora. Todos os lentos dias da lenta semana os passava a senhora D. Leonor no encerro do gradeado solar de granito negro, n\u00e3o tendo, para se recrear e respirar, mesmo nas calmas do Estio, mais que um fundo de jardim verde-negro, cercado de t\u00e3o altos muros, que apenas se avistava, emergindo deles, aqui, al\u00e9m, alguma ponta de triste cipreste. Mas essa curta visita a Nossa Senhora do Pilar bastou para que D. Rui se enamorasse dela tresloucadamente, na manh\u00e3 de Maio em que a viu de joelhos ante o altar, numa r\u00e9stia de sol, aureolada pelos seus cabelos de ouro, com as compridas pestanas pendidas sobre o livro de Horas, o ros\u00e1rio caindo de entre os dedos finos, fina toda ela e macia, e branca, de uma brancura de l\u00edrio aberto na sombra, mais branca entre as rendas negras e os negros cetins que \u00e0 volta do seu corpo cheio de gra\u00e7as se quebravam, em pregas duras, sobre as lajes da capela, velhas lajes de sepulturas. Quando depois dum momento de enleio e de delicioso pasmo se ajoelhou, foi menos para a Virgem do Pilar, sua divina Madrinha, do que para aquela apari\u00e7\u00e3o mortal, de quem n\u00e3o sabia o nome nem a vida, e s\u00f3 que por ela daria vida e nome, se ela se rendesse por t\u00e3o incerto pre\u00e7o. Balbuciando, com uma prece ingrata, as tr\u00eas Ave-Marias com que cada manh\u00e3 saudava Maria, apanhou o seu sombreiro, desceu levemente a nave sonora e no portal se quebrou, esperando por ela entre os mendigos lazarentos que se catavam ao sol. Mas, quando ao cabo de um tempo, em que D. Rui sentiu no cora\u00e7\u00e3o um desusado bater de ansiedade e medo, a senhora D. Leonor passou e se deteve, molhando os dedos na pia de m\u00e1rmore de \u00e1gua benta, os seus olhos, sob o v\u00e9u descido, n\u00e3o se ergueram para ele, ou t\u00edmidos ou desatentos. Com a aia de olhos muito abertos colada aos vestidos, entre os dois lacaios, como entre duas torres, atravessou vagarosamente a adro, pedra por pedra, gozando decerto, como encarcerada, o desafogado ar e o livre sol que o inundavam. E foi espanto para D. Rui quando ela penetrou na sombria arcada, de grossos pilares, sobre que assentava o pal\u00e1cio, e desapareceu por uma esguia porta recoberta de ferragens. Era, pois, essa a t\u00e3o falada D. Leonor, a linda e nobre senhora de Lara\u2026<\/p>\n<p>Ent\u00e3o come\u00e7aram sete arrastados dias, que ele gastou sentado a um poial da sua janela, considerando aquela negra porta recoberta de ferragens como se fosse a do Para\u00edso, e por ela devesse sair um anjo para lhe anunciar a Bem-Aventuran\u00e7a. At\u00e9 que chegou o vagaroso domingo: e passando ele no adro, \u00e0 hora de Prima, ao repicar dos sinos, com um molho de cravos amarelos para a sua divina Madrinha, cruzou D. Leonor, que sa\u00eda de entre os pilares da escura arcada, branca, doce e pensativa, como uma lua de entre nuvens. Os cravos quase lhe ca\u00edram naquele gostoso alvoro\u00e7o em que o peito lhe arfou mais que um mar, e a alma toda lhe fugiu em tumulto atrav\u00e9s do olhar com que a devorava. E ela ergueu tamb\u00e9m os olhos para D. Rui, mas uns olhos repousados, uns olhos serenos, em que n\u00e3o luzia curiosidade, nem mesmo consci\u00eancia de se estarem trocando com outros, t\u00e3o acesos e enegrecidos pelo desejo. O mo\u00e7o cavaleiro n\u00e3o entrou na igreja, com piedoso receio de n\u00e3o prestar \u00e0 sua Madrinha divina a aten\u00e7\u00e3o, que decerto lhe roubaria toda aquela que era s\u00f3 humana, mas dona j\u00e1 do seu cora\u00e7\u00e3o, e nele divinizada.<\/p>\n<p>Esperou sofregamente \u00e0 porta, entre os mendigos, secando os cravos com o ardor das m\u00e3os tr\u00eamulas, pensando quanto era demorado o ros\u00e1rio que ela rezava. Ainda D. Leonor descia a nave, j\u00e1 ele sentia dentro de alma o doce rugir das sedas fortes que ela arrastava nas lajes. A branca senhora passou \u2014 e o mesmo distra\u00eddo olhar, desatento e calmo, que espalhou pelos mendigos e pelo adro, o deixou escorregar sobre ele, ou porque n\u00e3o compreendesse aquele mo\u00e7o que de repente se tornara t\u00e3o p\u00e1lido, ou porque n\u00e3o o diferenciava ainda das coisas e das formas indiferentes.<\/p>\n<p>D. Rui abalou, com um fundo suspiro; e, no seu quarto, p\u00f4s devotamente ante a imagem da Virgem as flores que n\u00e3o oferecera, na igreja, ao seu altar. Toda a sua vida se tornou ent\u00e3o um longo queixume por sentir t\u00e3o fria e desumana aquela mulher, \u00fanica entre as mulheres, que prendera e tornara s\u00e9rio o seu cora\u00e7\u00e3o ligeiro e errante. Numa esperan\u00e7a, a que antevia bem o desengano, come\u00e7ou a rondar os muros altos do jardim \u2014 ou embu\u00e7ado numa capa, com o ombro contra uma esquina, lentas horas se quedava contemplando as grades das gelosias, negras e grossas como as dum c\u00e1rcere. Os muros n\u00e3o se fendiam, das grades n\u00e3o sa\u00eda sequer um rasto de luz prometedora. Toda o solar era como um jazigo onde jazia uma insens\u00edvel, e por tr\u00e1s das frias pedras havia ainda um frio peito. Para se desafogar comp\u00f4s, com piedoso cuidado, em noites veladas sobre o pergaminho, trovas gementes que o n\u00e3o desafogavam. Diante do altar da Senhora do Pilar, sobre as mesmas lajes onde a vira ajoelhada, pousava ele os joelhos, e ficava, sem palavras de ora\u00e7\u00e3o, num cismar amargo e doce, esperando que o seu cora\u00e7\u00e3o serenasse e se consolasse, sob a influ\u00eancia d\u2019Aquela que tudo consola e serena. Mas sempre se erguia mais desditoso e tendo apenas a sensa\u00e7\u00e3o de quanto eram frias e r\u00edgidas as pedras sobre que ajoelhara. O mundo todo s\u00f3 lhe parecia conter rigidez e frieza.<\/p>\n<p>Outras claras manh\u00e3s de domingo encontrou D. Leonor: e sempre os olhos dela permaneciam descuidados e como esquecidos, ou quando se cruzavam com os seus era t\u00e3o singelamente, t\u00e3o limpos de toda a emo\u00e7\u00e3o, que D. Rui os preferiria ofendidos e faiscando de ira, ou soberbamente desviados com soberbo desd\u00e9m. Decerto D. Leonor j\u00e1 conhecia: \u2014 mas, assim, conhecia tamb\u00e9m a ramalheteira mourisca agachada diante do seu cesto \u00e4 beira da fonte; ou os pobres que se catavam ao sol diante do portal da Senhora. Nem D. Rui j\u00e1 podia pensar que ela fosse desumana e fria. Era apenas soberanamente remota, como uma estrela que nas alturas gira e refulge, sem saber que, em baixo, num mundo que ela n\u00e3o distingue, olhos que ela n\u00e3o suspeita a contemplam, a adoram e lhe entregam o governo da sua ventura e sorte.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o D. Rui pensou:<\/p>\n<p>\u2014 Ela n\u00e3o quer, eu n\u00e3o posso: foi um sonho que findou, e Nossa Senhora a ambos nos tenha na sua gra\u00e7a!<\/p>\n<p>E como era cavaleiro muito discreto, desde que a reconheceu assim inabal\u00e1vel na sua indiferen\u00e7a, n\u00e3o procurou, nem sequer ergueu mais os olhos para as grades das suas janelas, e at\u00e9 nem penetrava na igreja de Nossa Senhora quando casualmente, do portal, a avistava ajoelhada, com a sua cabe\u00e7a t\u00e3o cheia de gra\u00e7a e de ouro, pendida sobre o Livro de Horas.<\/p>\n<p>II<br \/>\nA velha aia, de olhos mais abertos e duros que os de uma coruja, n\u00e3o tardara em contar ao senhor de Lara que um mo\u00e7o audaz, de gentil parecer, novo morador nas velhas casas do arcediago, constantemente se atravessava no adro, se postava diante da igreja para atirar o cora\u00e7\u00e3o pelos olhos \u00e0 senhora D. Leonor. Bem amargamente o sabia j\u00e1 o ciumento fidalgo, porque quando da sua janela espreitava, como um falc\u00e3o, a airosa senhora a caminho da igreja, observara os giros, as esperas, os olhares dardejados daquele mo\u00e7o galante \u2014 e puxara as barbas de furor. Desde ent\u00e3o, na verdade, a sua mais intensa ocupa\u00e7\u00e3o era odiar D. Rui, o impudente sobrinho do c\u00f4nego, que ousava erguer o seu baixo desejo at\u00e9 \u00e0 alta senhora de Lara. Constantemente agora o trazia vigiado por um servi\u00e7al \u2014 e conhecia todos os seus passos e pousos, e os amigos com quem ca\u00e7ava ou folgava, e at\u00e9 quem lhe talhava os gib\u00f5es, e at\u00e9 quem lhe polia a espada, e cada hora do seu viver. E mais ansiosamente ainda vigiava D. Leonor \u2014 cada um dos seus movimentos, os mais fugitivos modos, os sil\u00eancios e o conversar com as aias, as distra\u00e7\u00f5es sobre o bordado, o jeito de cismar sob as \u00e1rvores do jardim, e o ar e a cor com que recolhia da igreja\u2026 Mas t\u00e3o inalteradamente serena, no seu sossego de cora\u00e7\u00e3o, se mostrava a senhora D. Leonor, que nem o ci\u00fame mais imaginador de culpas poderia achar manchas naquela pura neve. Redobradamente \u00e1spero ent\u00e3o se voltava o rancor de D. Alonso contra o sobrinho do c\u00f4nego por ter apetecido aquela pureza, e aqueles cabelos cor de sol claro, e aquele colo de gar\u00e7a real, que eram s\u00f3 seus, para espl\u00eandido gosto da sua vida. E quando passeava na sombria galeria do solar, sonora e toda de ab\u00f3bada, embrulhado na sua samarra orlada de peles, com o bico de barba grisalha espetado para diante, a grenha crespa eri\u00e7ada para tr\u00e1s e os punhos cerrados, era sempre remoendo o mesmo fel:<\/p>\n<p>\u2014 Tentou contra a virtude dela, tentou contra a minha honra\u2026 \u00c9 culpado por duas culpas e merece duas mortes!<\/p>\n<p>Mas o seu furor quase se misturou um terror, quando soube que D. Rui j\u00e1 n\u00e3o esperava no adro a senhora D. Leonor, nem rondava amorosamente os muros do palacete, nem penetrava na igreja quando ela l\u00e1 rezava, aos domingos; e que t\u00e3o inteiramente se alheava dela que uma manh\u00e3, estando rente da arcada, e sentindo bem ranger e abrir a porta por onde a senhora ia aparecer, permanecera de costas voltadas, sem se mover, rindo com um cavaleiro gordo, que lhe lia um pergaminho. T\u00e3o bem afetada indiferen\u00e7a s\u00f3 servia decerto (pensou D. Alonso) a esconder alguma bem danada ten\u00e7\u00e3o! Que tramava ele, o destro enganador? Tudo no desabrido fidalgo se exacerbou \u2014 ci\u00fame, rancor, vigil\u00e2ncia, pesar da sua idade grisalha e feia. No sossego de D. Leonor suspeitou manha e fingimento; \u2014 e imediatamente lhe vedou as visitas \u00e0 Senhora do Pilar.<\/p>\n<p>Nas manh\u00e3s costumadas corria ele \u00e0 igreja para rezar o ros\u00e1rio, a levar as desculpas de D. Leonor \u2014 \u201cque no puede venir (murmurava curvado diante do altar) por lo que sabeis, virgem purissima!\u201d Cuidadosamente visitou e refor\u00e7ou todos os negros ferrolhos das portas do seu solar.<\/p>\n<p>De noite soltava dois mastins nas sombras do jardim murado.<\/p>\n<p>\u00c0 cabeceira do vasto leito, junto da mesa onde ficava a l\u00e2mpada, um relic\u00e1rio e o copo de vinho quente com canela e cravo para lhe retemperar as for\u00e7as \u2014 luzia sempre uma grande espada nua. Mas, com tantas seguran\u00e7as, mal dormia \u2014 e a cada instante se solevava em sobressalto de entre as fundas almofadas, agarrando a senhora D. Leonor com m\u00e3o bruta e s\u00f4frega, que lhe pisava o colo, para rugir muito baixo, numa \u00e2nsia: \u201cDiz que me queres s\u00f3 a mim!\u2026\u201d Depois, com a alvorada, l\u00e1 se empoleirava, a espreitar, como um falc\u00e3o, as janelas de D. Rui. Nunca o avistava, agora, nem \u00e0 porta da igreja \u00e0s horas de missa, nem recolhendo do campo, a cavalo, ao toque de Ave-Marias.<\/p>\n<p>E por o sentir assim sumido dos s\u00edtios e giros costumados \u2014 \u00e9 que mais o suspeitava dentro do cora\u00e7\u00e3o de D. Leonor.<\/p>\n<p>Enfim, uma noite, depois de muito trilhar o lajedo da galeria, remoendo surdamente desconfian\u00e7as e \u00f3dios, gritou pelo intendente e ordenou que se preparassem trouxas e cavalgaduras. Cedo, de madrugada, partiria, com a senhora D. Leonor, para a sua herdade de Cabril, a duas l\u00e9guas de Seg\u00f3via! A partida n\u00e3o foi de madrugada, como uma fuga de avarento que vai esconder longe o seu tesouro: \u2014 mas, realizada com aparato e demora, ficando a liteira diante da arcada, a esperar longas horas, de cortinas abertas, enquanto um cavalari\u00e7o passeava pelo adro a mula branca do fidalgo, enxairelada \u00e0 mourisca, e do lado do jardim a r\u00e9cua de machos, carregados de ba\u00fas, presos \u00e0s argolas, sob o sol e a mosca, aturdiam a viela com o tilintar dos guizos. Assim D. Rui soube a jornada do senhor de Lara: \u2014 e assim a soube toda a cidade.<\/p>\n<p>Fora um grande contentamento para D. Leonor, que gostava de Cabril, dos seus vi\u00e7osos pomares, dos jardins, para onde abriam, rasgadamente e sem grades, as janelas dos seus aposentos claros: a\u00ed ao menos tinha largo ar, pleno sol, e alegretes a regar, um viveiro de p\u00e1ssaros, e t\u00e3o compridas ruas de loureiro ou teixo, que eram quase a liberdade. E depois esperava que no campo se aligeirassem aqueles cuidados que traziam, nos derradeiros tempos, t\u00e3o enrugado e taciturno seu marido e senhor. Mas n\u00e3o logrou esta esperan\u00e7a, porque ao cabo de uma semana ainda se n\u00e3o desanuviara a face de D. Alonso \u2014 nem decerto havia frescura de arvoredos, sussurros de \u00e1guas correntes, ou aromas esparsos nos rosais em flor, que calmassem agita\u00e7\u00e3o t\u00e3o amarga e funda. Como em Seg\u00f3via, na galeria sonora de grande ab\u00f3bada, sem descanso passeava, enterrado na sua samarra, com o bico da barba espetado para diante, a grenha basta eri\u00e7ada para tr\u00e1s, e um jeito de arreganhar silenciosamente o bei\u00e7o, como se meditasse maldades a que gozava de antem\u00e3o o sabor acre. E todo o interesse da sua vida de concentrava num servi\u00e7al, que constantemente galopava entre Seg\u00f3via e Cabril, e que ele por vezes esperava no come\u00e7o da aldeia, junto ao Cruzeiro, ficando a escutar o homem que desmontava, ofegante, e logo lhe dava novas apressadas.<\/p>\n<p>Uma noite em que D. Leonor, no seu quarto, rezava o ter\u00e7o com as aias, \u00e0 luz duma tocha de cera, o senhor de Lara entrou muito vagarosamente, trazendo na m\u00e3o uma folha de pergaminho e uma penha mergulhada no seu tinteiro de osso. Com um rude aceno despediu as aias, que o temiam como a um lobo. E, empurrando um escabelo para junto da mesa, volvendo para D. Leonor a face a que impusera tranq\u00fcilidade e agrado, como se apenas viesse p\u00f4r coisas naturais e f\u00e1ceis:<\/p>\n<p>\u2014 Senhora \u2014 disse \u2014 quero que me escrevais aqui uma carta que muito conv\u00e9m escrever\u2026<\/p>\n<p>T\u00e3o costumada era nela a submiss\u00e3o, que, sem outro reparo ou curiosidade, indo apenas pendurar na barra do leito o ros\u00e1rio em que rezara, se acomodou sobre o escabelo, e os seus dedos finos, com muita aplica\u00e7\u00e3o, para que a letra fosse esmerada e clara, tra\u00e7aram a primeira linha curta que o Senhor de Lara ditara e era: \u201cMeu cavaleiro\u2026\u201d Mas quando ele ditou a outra, mais longa, e dum modo amargo, D. Leonor arrojou a pena, como se a pena a escaldasse, e, recuando da mesa, gritou, numa afli\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 Senhor, para que conv\u00e9m que eu escreva tais coisas e t\u00e3o falsas?\u2026<\/p>\n<p>Num brusco furor, o senhor de Lara arrancou do cinto um punhal, que lhe agitou junto \u00e0 face, rugindo surdamente:<\/p>\n<p>\u2014 Ou escreveis o que vos mando e que a mim me conv\u00e9m, ou, por Deus, que vos vara o cora\u00e7\u00e3o!\u2026<\/p>\n<p>Mais branca que a cera da tocha que os alumiava, com a carne arrepiada ante aquele ferro que luzia, num tremor supremo e que tudo aceitava, D. Leonor murmurou:<\/p>\n<p>\u2014 Pela Virgem Maria, n\u00e3o me fa\u00e7ais mal!\u2026 Nem vos agasteis, senhor, que eu vivo para vos obedecer e servir\u2026 Agora, mandai, que eu escreverei.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, com os punhos cerrados nas bordas da mesa, onde pousara o punhal, esmagando a fr\u00e1gil e desditosa mulher sob o olhar duro que fuzilava, o senhor de Lara ditou, atirou roucamente, aos peda\u00e7os, aos repel\u00f5es, uma carta que dizia, quando finda e tra\u00e7ada em letra bem incerta e tr\u00eamula: \u2014 \u201cMeu cavaleiro: Muito mal haveis compreendido, ou muito mal pagais o amor que vos tenho, e que n\u00e3o vos pude nunca, em Seg\u00f3via, mostrar claramente\u2026 Agora aqui estou em Cabril, ardendo por vos ver; e se o vosso desejo corresponde ao meu, bem facilmente o podeis realizar, pois que meu marido se acha ausente noutra herdade, e esta de Cabril \u00e9 toda f\u00e1cil e aberta. Vinde esta noite, entrai pela porta do jardim, do lado da azinhaga, passando o tanque, at\u00e9 o terra\u00e7o. A\u00ed avistareis uma escada encostada a uma janela da casa, que \u00e9 a janela do meu quarto, onde sereis bem docemente agasalhado p\u00f4r quem ansiosamente vos espera\u2026.\u201d<\/p>\n<p>\u2014 Agora, senhora, assinai por baixo o vosso nome, que isso sobretudo conv\u00e9m!<\/p>\n<p>D. Leonor tra\u00e7ou vagarosamente o seu nome, t\u00e3o vermelha como se a despissem diante de uma multid\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 E agora \u2014 ordenou o marido mais surdamente, atrav\u00e9s dos dentes cerrados \u2014endere\u00e7ai a D. Rui de Cardenas!<\/p>\n<p>Ela ousou erguer os olhos, na surpresa daquele nome desconhecido.<\/p>\n<p>\u2014 Andai!\u2026 A D. Rui de Cardenas! \u2014 gritou o homem sombrio.<\/p>\n<p>E ela endere\u00e7ou a sua desonesta carta a D. Rui de Cardenas.<\/p>\n<p>D. Alonso meteu o pergaminho no cinto, junto ao punhal que embainhara, e saiu em sil\u00eancio com a barba espetada, abafando o rumor dos passos nas lajes do corredor.<\/p>\n<p>Ela ficara sobre o escabelo, as m\u00e3os cansadas e ca\u00eddas no rega\u00e7o, num infinito espanto, o olhar perdido na escurid\u00e3o da noite silente. Menos escura lhe parecia a morte que essa escura aventura em que se sentia envolvida e levada! Quem era esse D. Rui de Cardenas, de quem nunca ouvira falar, que nunca atravessara a sua vida, t\u00e3o quieta, t\u00e3o pouco povoada de mem\u00f3rias e de homens? E ele decerto a conhecia, a encontrara, a seguira, ao menos com os olhos, pois que era coisa natural e bem ligada receber dela carta de tanta paix\u00e3o e promessa\u2026<\/p>\n<p>Assim, um homem, e mo\u00e7o decerto bem nascido, talvez gentil, penetrava no seu destino bruscamente, trazido pela m\u00e3o de seu marido? T\u00e3o intimamente mesmo se entranhara esse homem na sua vida, sem que ela se apercebesse, que j\u00e1 para ele se abria de noite a porta do seu jardim, e contra a sua janela, para ele subir, se arrumava de noite uma escada!\u2026 E era seu marido que muito secretamente escancarava a porta, e muito secretamente levantava a escada\u2026 Para qu\u00ea?\u2026<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, num relance, D. Leonor compreendeu a verdade, a vergonhosa verdade, que lhe arrancou um grito ansiado e mal sufocado. Era uma cilada! O senhor de Lara atra\u00eda a Cabril esse D. Rui com uma promessa magn\u00edfica, para dele se apoderar, e decerto o matar, indefeso e solit\u00e1rio! E ela, o seu amor, o seu corpo, eram as promessas que se faziam rebrilhar ante os olhos seduzidos do mo\u00e7o desventuroso. Assim seu marido usava a sua beleza, o seu leito, como a rede de ouro em que devia cair aquela presa estouvada! Onde haveria maior ofensa? E tamb\u00e9m quanta imprud\u00eancia! Bem poderia esse D. Rui de Cardenas desconfiar, n\u00e3o aceder a convite t\u00e3o abertamente amoroso, e depois mostrar por toda a Seg\u00f3via, rindo e triunfando, aquela carta em que lhe fazia oferta do seu leito e do seu corpo a mulher de Alonso de Lara! Mas n\u00e3o! o desventurado correria a Cabril \u2014 e para morrer, miseravelmente morrer no negro sil\u00eancio da noite, sem padre, nem sacramentos, com a alma encharcada em pecado de amor! Para morrer, decerto \u2014 porque nunca o senhor de Lara permitiria que vivesse o homem que recebera tal carta. Assim, aquele mo\u00e7o morria por amor dela, e por um amor que, sem lhe valer nunca um gosto, lhe valia logo a morte! Decerto por amor dela \u2014 pois que tal \u00f3dio do senhor de Lara, \u00f3dio que, com tanta deslealdade e vilania, se cevava, s\u00f3 podia nascer de ci\u00fames, que lhe escureciam todo o dever de cavaleiro e de crist\u00e3o. Sem d\u00favida ele surpreendera olhares, passos, ten\u00e7\u00f5es deste senhor D. Rui, mal acautelado por bem namorado.<\/p>\n<p>Mas como? quando? Confusamente se lembrava ela de um mo\u00e7o que um domingo a cruzara no adro, a esperara ao portal da igreja, com um molho de cravos na m\u00e3o\u2026 Seria esse? Era de nobre parecer, muito p\u00e1lido, com grandes olhos negros e quentes. Ela passara \u2014 indiferente\u2026. Os cravos que segurava na m\u00e3o eram vermelhos e amarelos\u2026 A quem os levava?\u2026 Ah! se o pudesse avisar, bem cedo, de madrugada!<\/p>\n<p>Como, se n\u00e3o havia em Cabril servi\u00e7al ou aia de quem se fiasse? Mas deixar que uma bruta espada varasse trai\u00e7oeiramente aquele cora\u00e7\u00e3o, que vinha cheio dela, palpitando por ela, todo na esperan\u00e7a dela!\u2026<\/p>\n<p>Oh! A desabrida e ardente correria de D. Rui, desde Seg\u00f3via a Cabril, com a promessa de encantador jardim aberto, da escada posta contra a janela, sob a mudez e prote\u00e7\u00e3o da noite! Mandaria realmente o senhor de Lara encostar uma escada \u00e0 janela? Decerto, para com mais facilidade o poderem matar, ao pobre, e doce, e inocente mo\u00e7o, quando ele subisse, mal seguro sobre um fr\u00e1gil degrau, as m\u00e3os embara\u00e7adas, a espada a dormir na bainha\u2026. E assim, na outra noite, em face ao seu leito, a sua janela estaria aberta, e uma escada estaria erguida contra a sua janela \u00e0 espera de um homem! Emboscado na sombra do quarto, seu marido seguramente mataria esse homem\u2026<\/p>\n<p>Mas se o senhor de Lara esperasse fora dos muros da quinta, assaltasse brutalmente, nalguma azinhaga, aquele D. Rui de Cardenas, e, ou por menos destro, ou por menos forte, num ter\u00e7ar de armas, ca\u00edsse ele traspassado, sem que o outro conhecesse a quem matara? E ela, no seu quarto, sem saber, e todas as portas abertas, e a escada erguida, e aquele homem assomado \u00e0 janela na sombra macia da noite t\u00e9pida, e o marido que a devia defender morto no fundo duma azinhaga\u2026 Que faria ela, Virgem M\u00e3e? Oh! Decerto repeliria, soberbamente, o mo\u00e7o temer\u00e1rio. Mas o espanto dele e a c\u00f3lera do seu desejo enganado! \u201cPor V\u00f3s \u00e9 que eu vim chamado, senhora!\u201d E ali trazia, sobre o cora\u00e7\u00e3o, a carta dela, com seu nome, que a sua m\u00e3o tra\u00e7ara. Como lhe poderia contar a emboscada e o dolo? Era t\u00e3o longo de contar, naquele sil\u00eancio e solid\u00e3o da noite, enquanto os olhos dele, \u00famidos e negros, a estivessem suplicando e trespassando\u2026 Desgra\u00e7ada dela se o senhor de Lara morresse, a deixasse solit\u00e1ria, sem defesa, naquela vasta casa aberta! Mas quanto desgra\u00e7ada tamb\u00e9m se aquele mo\u00e7o, chamado por ela, e que a amava, e que por esse amor vinha correndo deslumbrante, encontrasse a morte no s\u00edtio da sua esperan\u00e7a, que era o s\u00edtio do seu pecado, e, morto em pleno pecado, rolasse para a eterna desesperan\u00e7a\u2026 Vinte e cinco anos, ele \u2014 se era o mesmo de quem se lembrava, p\u00e1lido, e t\u00e3o airoso, com um gib\u00e3o de veludo roxo e um ramo de cravos na m\u00e3o, \u00e0 porta da igreja, em Seg\u00f3via\u2026.<\/p>\n<p>Duas l\u00e1grimas saltaram dos cansados olhos de D. Leonor. E dobrando os joelhos, levantando a alma toda para o c\u00e9u, onde a Lua se come\u00e7ava a levantar, murmurou, numa infinita m\u00e1goa e f\u00e9:<\/p>\n<p>\u2014 Oh! Santa Virgem do Pilar, Senhora minha, vela por n\u00f3s ambos, vela por todos n\u00f3s!\u2026.<\/p>\n<p>III<br \/>\nD. Rui entrava, pela hora da calma, no fresco p\u00e1tio da sua casa, quando de um banco de pedra, na sombra, se ergueu um mo\u00e7o de campo, que tirou de dentro do surr\u00e3o uma carta, lhe entregou, murmurando:<\/p>\n<p>\u2014 Senhor, dai-vos pressa em ler, que tenho de voltar a Cabril, a quem me mandou\u2026<\/p>\n<p>D. Rui abriu o pergaminho; e, no deslumbramento que o tomou, bateu com ele contra o peito, como para o enterrar no cora\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>O mo\u00e7o do campo insistia, inquieto:<\/p>\n<p>\u2014 Aviai, senhor, aviai! Nem precisais responder. Basta que me deis um sinal de vos ter vindo o recado\u2026<\/p>\n<p>Muito p\u00e1lido, D. Rui arrancou uma das luvas bordadas a retr\u00f3s, que o mo\u00e7o enrolou e sumiu no surr\u00e3o. E j\u00e1 abalava na ponta das alpercatas leves, quando, com um aceno, D. Rui ainda o deteve:<\/p>\n<p>\u2014 Escuta. Que caminho tomas tu para Cabril?<\/p>\n<p>\u2014 O mais curto e sozinho para gente afoita, que \u00e9 pelo Cerro dos Enforcados.<\/p>\n<p>\u2014 Bem.<\/p>\n<p>D. Rui galgou as escadas de pedra, e no seu aposento, sem mesmo tirar o sombreiro, de novo leu junto da gelosia aquele pergaminho divino, em que D. Leonor o chamava de noite ao seu quarto, \u00e0 posse inteira do seu ser. E n\u00e3o o maravilhava esta oferta \u2014 depois de uma t\u00e3o constante, imperturbada indiferen\u00e7a. Antes nela logo percebeu um amor muito astuto, por ser muito forte que, com grande paci\u00eancia, se esconde ante os estorvos e os perigos, e mudamente prepara a sua hora de contentamento, melhor e mais deliciosa por t\u00e3o preparada. Sempre ela o amara, pois, desde a manh\u00e3 bendita em que os seus olhos se tinham cruzado no portal de Nossa Senhora. E enquanto ele rondava aqueles muros do jardim, maldizendo uma frieza que lhe parecia mais fria que a dos frios muros, j\u00e1 ela lhe dera a sua alma, e cheia de const\u00e2ncia, com amorosa sagacidade, recalcando o menor suspiro, adormecendo desconfian\u00e7as, preparava a noite radiante em que lhe daria tamb\u00e9m o seu corpo.<\/p>\n<p>Tanta firmeza, t\u00e3o fino engenho nas coisas do amor, ainda lha tornavam mais bela e mais apetecida!<\/p>\n<p>Com que impaci\u00eancia olhava ent\u00e3o o Sol, t\u00e3o desapressado nessa tarde em descer para os montes! Sem repouso, no seu quarto, com a gelosias cerradas para melhor concentrar a sua felicidade, tudo aprontava amorosamente para a triunfal jornada: as finas roupas, as finas rendas, um gib\u00e3o de veludo negro e as ess\u00eancias perfumadas. Duas vezes desceu \u00e0 cavalari\u00e7a a verificar se o seu cavalo estava bem ferrado e bem pensado. Sobre o soalho, vergou e revergou, para a experimentar, a folha da espada que levaria \u00e0 cinta\u2026 Mas o seu maior cuidado era o caminho para Cabril, apesar de bem o conhecer, e a aldeia apinhada em torno ao mosteiro franciscano, e a velha ponte romana com o seu Calv\u00e1rio, e a azinhaga funda que levava \u00e0 herdade do senhor de Lara. Ainda nesse Inverno p\u00f4r l\u00e1 passara, indo montear com dois amigos de Astorga, e avistara a torre dos de Lara, e pensara: \u2014 \u201cEis a torre da minha ingrata!\u201d Como se enganava! As noites agora eram de Lua, e ele sairia de Seg\u00f3via caladamente, pela porta de S. Mauros. Um galope curto o punha no Cerro dos Enforcados\u2026 Bem o conhecia tamb\u00e9m, esse s\u00edtio de tristeza e pavor, com os seus quatro pilares de pedra, onde se enforcavam os criminosos, e onde os seus corpos ficavam, baloi\u00e7ados da ventania, ressequidos do sol, at\u00e9 que as cordas apodrecessem e as ossadas ca\u00edssem, brancas e limpas da carne pelo bico dos corvos. Por tr\u00e1s do cerro era a lagoa das Donas. A derradeira vez que por l\u00e1 andara, fora em dia do ap\u00f3stolo S. Matias, quando o corregedor e as confrarias de caridade e paz, em prociss\u00e3o, iam dar sepultura sagrada \u00e0s ossadas ca\u00eddas no ch\u00e3o negro, esburgadas pelas aves. Da\u00ed o caminho, depois, corria liso e direito a Cabril.<\/p>\n<p>Assim D. Rui meditava a sua jornada venturosa, enquanto a tarde ia caindo. Mas, quando escureceu, e em torno \u00e0s torres da igreja come\u00e7aram a girar os morcegos, e nas esquinas do adro se acenderam os nichos das Almas, o valente mo\u00e7o sentiu um medo estranho, o medo daquela felicidade que se acercava e que lhe parecia sobrenatural. Era, pois, certo, que essa mulher de divina formosura, famosa em Castela, e mais inacess\u00edvel que um astro, seria sua, toda sua, no sil\u00eancio e seguran\u00e7a duma alcova, dentro em breves instantes, quando ainda se n\u00e3o tivessem apagado diante dos ret\u00e1bulos das Almas aqueles lumes devotos? E o que fizera ele para lograr t\u00e3o grande bem? Pisara as lajes de um adro, esperara no portal de uma igreja, procurando com os olhos outros dois olhos, que n\u00e3o se erguiam, indiferentes ou desatentos. Ent\u00e3o, sem dor, abandonara a sua esperan\u00e7a\u2026 E eis que de repente aqueles olhos distra\u00eddos o procuram, e aqueles bra\u00e7os fechados se lhe abrem, largos e nus, e com o corpo e com a alma aquela mulher lhe grita: \u2014 \u201cOh! mal-avisado, que n\u00e3o me entendeste! Vem! Quem te desanimou j\u00e1 te pertence!\u201d Houvera jamais igual ventura? T\u00e3o alta, t\u00e3o rara era, que decerto atr\u00e1s dela, se n\u00e3o erra a lei humana, j\u00e1 devia caminhar a desventura! J\u00e1 na verdade caminhava; \u2014 pois quanta desventura em saber que depois de tal ventura, quando de madrugada, saindo dos divinos bra\u00e7os, ele recolhesse a Seg\u00f3via, a sua Leonor, o bem sublime da sua vida, t\u00e3o inesperadamente adquirido por um instante, recairia logo sob o poder de outro amo!<\/p>\n<p>Que importava! Viessem depois dores e zelos! Aquela noite era esplendidamente sua, o mundo todo uma apar\u00eancia v\u00e3 e a \u00fanica realidade esse quarto de Cabril, mal alumiado, onde ela o esperaria, com os cabelos soltos! Foi com sofreguid\u00e3o que desceu a escada, se arremessou sobre o seu cavalo. Depois, por prud\u00eancia, atravessou o adro muito lentamente, com o sombreiro bem levantado da face, como um passeio natural, a procurar fora dos muros a frescura da noite. Nenhum encontro o inquietou at\u00e9 \u00e0 porta de S. Mauros. A\u00ed, um mendigo, agachado na escurid\u00e3o dum arco, e que tocava monotonamente a sua sanfona, pediu, em lam\u00faria, \u00e0 virgem e a todos os santos, que levassem aquele gentil cavaleiro na sua doce e santa guarda. D. Rui parara para lhe atirar uma esmola, quando se lembrou que nessa tarde n\u00e3o fora \u00e0 igreja, \u00e0 hora de v\u00e9speras, rezar e pedir a b\u00ean\u00e7\u00e3o \u00e0 sua divina madrinha. Com um salto, desceu logo do cavalo, porque, justamente, rente ao velho arco, tremeluzia uma l\u00e2mpada alumiando um ret\u00e1bulo. Era uma imagem da Virgem com o peito traspassado p\u00f4r sete espadas. D. Rui ajoelhou, pousou o sombreiro nas lajes e com as m\u00e3os erguidas, muito zelosamente, rezou uma Salve-Rainha. O clar\u00e3o amarelo da luz envolvia o rosto da Senhora, que, sem sentir as dores dos sete ferros, ou como se eles s\u00f3 dessem inef\u00e1veis gozos, sorria com os l\u00e1bios muito vermelhos. Enquanto ele rezava, no convento de S\u00e3o Domingos, ao lado, a sinete come\u00e7ou a tocar a agonia. De entre a sombra negra do arco, cessando a sanfona, o mendigo murmurou: \u2014 \u201cL\u00e1 est\u00e1 um frade a morrer!\u201d D. Rui disse uma Ave-Maria pelo frade que morria. A Virgem das sete espadas sorria docemente \u2014 o toque de agonia n\u00e3o era, pois, de mau press\u00e1gio! D. Rui cavalgou alegremente e partiu.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m da porta de S. Mauros, depois de alguns casebres de oleiros, o caminho seguia, esguio e negro, entre altas piteiras. Por tr\u00e1s das colinas, ao fundo da plan\u00edcie escura, subia o primeiro clar\u00e3o amarelo e l\u00e2nguido, da Lua-cheia, ainda escondida. E D. Rui marchava a passo, receando chegar a Cabril muito cedo, antes que as aias e os mo\u00e7os findassem o ser\u00e3o e o ros\u00e1rio. Por que n\u00e3o lhe marcara D. Leonor a hora, naquela carta t\u00e3o clara e t\u00e3o pensada?\u2026 Ent\u00e3o a sua imagina\u00e7\u00e3o corria adiante, rompia pelo jardim de Cabril, galgava aladamente a escada prometida \u2014 e ele largava tamb\u00e9m atr\u00e1s, numa carreira s\u00f4frega, que arrancava as pedras do caminho mal junto. Depois sofreava o cavalo ofegante. Era cedo, era cedo! E retomava o passo penoso, sentindo o cora\u00e7\u00e3o contra o peito, como ave presa que bate \u00e0s grades.<\/p>\n<p>Assim chegou ao Cruzeiro, onde a estrada se fendia em duas, mais juntas que as pontas de uma forquilha, ambas cortando atrav\u00e9s de pinheiral. Descoberto diante da imagem crucificada, D. Rui teve um instante de ang\u00fastia, pois n\u00e3o se recordava qual delas levava ao Cerro dos Enforcados. J\u00e1 se embrenhara na mais cerrada, quando, de entre os pinheiros calados, uma luz surgiu, dan\u00e7ando no escuro. Era uma velha em farrapos, com as longas melenas soltas, vergada sobre um bord\u00e3o e levando uma candeia.<\/p>\n<p>\u2014 Para onde vai este caminho? \u2014 gritou Rui.<\/p>\n<p>A velha balan\u00e7ou mais alto a candeia, para mirar o cavaleiro.<\/p>\n<p>\u2014 Para Xarama.<\/p>\n<p>E luz e velha imediatamente se sumiram, fundidas na sombra, como se ali tivessem surgido somente para avisar o cavaleiro do seu caminho errado\u2026. J\u00e1 ele virara arrebatadamente; e, rodeando o Calv\u00e1rio, galopou pela outra estrada mais larga, at\u00e9 avistar, sobre claridade do c\u00e9u os pilares negros, os madeiros negros do Cerro dos Enforcados. Ent\u00e3o estacou, direito nos estribos. Num c\u00f4moro alto, seco, sem erva ou urze, ligados por um muro baixo, todo esbrechado, l\u00e1 se erguiam, negros, enormes, sobre a amarelid\u00e3o do luar, os quatro pilares de granito semelhantes aos quatro cunhais duma casa desfeita. Sobre os pilares pousavam quatro grossas traves. Das traves pendiam quatro enforcados negros e r\u00edgidos, no ar parado e mudo. Tudo em torno parecia morto como eles.<\/p>\n<p>Gordas aves de rapina dormiam empoleiradas sobre os madeiros. Para al\u00e9m, rebrilhava lividamente a \u00e1gua morta da lagoa das Donas. E, no c\u00e9u, a Lua ia grande e cheia.<\/p>\n<p>D. Rui murmurou o Padre-Nosso devido por todo o crist\u00e3o \u00e0quelas almas culpadas. Depois impeliu o cavalo, e passava \u2014 quando, no imenso sil\u00eancio e na imensa solid\u00e3o, se ergueu, ressoou uma voz, uma voz que o chamava, suplicante e lenta:<\/p>\n<p>\u2014 Cavaleiro, detende-vos, vinde c\u00e1!\u2026.<\/p>\n<p>D. Rui colheu bruscamente as r\u00e9deas e, erguido sobre os estribos, atirou os olhos espantados por todo o sinistro ermo. S\u00f3 avistou o cerro \u00e1spero, a \u00e1gua rebrilhante e muda, os madeiros, os mortos. Pensou que fora ilus\u00e3o da noite ou ousadia de algum dem\u00f4nio errante. E, serenamente, picou o cavalo, sem sobressalto ou pressa, como numa rua de Seg\u00f3via. Mas, por tr\u00e1s, a voz tornou, mais urgentemente o chamou, ansiosa quase aflita:<\/p>\n<p>\u2014 Cavaleiro, esperai, n\u00e3o vos vades, voltai, chegai aqui!\u2026<\/p>\n<p>De novo D. Rui estacou e, virado sobre a sela, encarou afoitamente os quatro corpos pendurados das travas. Do lado deles soava a voz, que, sendo humana, s\u00f3 podia sair de forma humana! Um desses enforcados, pois, o chamara, com tanta pressa e \u00e2nsia.<\/p>\n<p>Restaria nalguns, por maravilhosa merc\u00ea de Deus, alento e vida? Ou seria que, por maior maravilha, uma dessa carca\u00e7as meio apodrecidas o detinha para lhe transmitir avisos de Al\u00e9m-da-Campa?\u2026 Mas que a voz rompesse dum peito vivo ou dum peito morto, grande covardia era abalar, espavoridamente, sem a atender e a ouvir.<\/p>\n<p>Atirou logo para dentro do cerro o cavalo, que tremia; e, parando, direito e calmo, com a m\u00e3o na ilharga, depois de fitar, um por um, os quatro corpos suspensos, gritou:<\/p>\n<p>\u2014 Qual de v\u00f3s, homens enforcados, ousou chamar p\u00f4r D. Rui de Cardenas?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o aquele que voltava as costas \u00e0 Lua-cheia, respondeu, do alto da corda, muito quieta e naturalmente, como um homem que conversa da sua janela para a rua:<\/p>\n<p>\u2014 Senhor, fui eu.<\/p>\n<p>D. Rui fez avan\u00e7ar para diante dele o cavalo. N\u00e3o lhe distinguia a face, enterrada no peito, escondida pelas longas e negras melenas pendentes. S\u00f3 percebeu que tinha as m\u00e3os soltas e desamarradas, e tamb\u00e9m soltos os p\u00e9s nus, j\u00e1 ressequidos e da cor do betume.<\/p>\n<p>\u2014 Que me queres?<\/p>\n<p>O enforcado, suspirando, murmurou:<\/p>\n<p>\u2014 Senhor, fazei-me a grande merc\u00ea de me cortar esta corda em que estou pendurado.<\/p>\n<p>D. Rui arrancou a espada e de um golpe certo, cortou a corda meio apodrecida. Com um sinistro som de ossos entrechocados o corpo caiu no ch\u00e3o, onde jazeu um momento, estirado. Mas, imediatamente, se endireitou sobre os p\u00e9s mal seguros e ainda dormentes \u2014 e ergueu para D. Rui uma face morta, que era uma caveira com a pele muito colada, e mais amarela que a Lua que nela batia. Os olhos n\u00e3o tinham movimento nem brilho. Ambos os bei\u00e7os se lhe arreganhavam num sorriso empedernido. De entre os dentes, muito brancos, surdia uma ponta de l\u00edngua muito negra.<\/p>\n<p>D. Rui n\u00e3o mostrou terror, nem asco. E embainhando serenamente a espada:<\/p>\n<p>\u2014 Tu est\u00e1s morto ou vivo? \u2014 perguntou.<\/p>\n<p>O homem encolheu os ombros com lentid\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 Senhor, n\u00e3o sei\u2026 Quem sabe o que \u00e9 a vida? Quem sabe o que \u00e9 a morte?<\/p>\n<p>\u2014 Mas que queres de mim?<\/p>\n<p>O enforcado, com os longos dedos descarnados, alargou o n\u00f3 da corda que ainda lhe la\u00e7ava o pesco\u00e7o e declarou muito serena e firmemente:<\/p>\n<p>\u2014 Senhor, eu tenho de ir convosco a Cabril, onde v\u00f3s ides.<\/p>\n<p>O cavaleiro estremeceu num t\u00e3o forte assombro, repuxando as r\u00e9deas, que o seu bom cavalo se empinou como assombrado tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 Comigo a Cabril?!\u2026<\/p>\n<p>O homem curvou o espinha\u00e7o, a que se viam os ossos todos, mais agudos que os dentes de uma serra, atrav\u00e9s de um longo rasg\u00e3o da camisa de estamenha:<\/p>\n<p>\u2014 Senhor \u2014 suplicou \u2014 n\u00e3o mo negueis. Que eu tenho a receber grande sal\u00e1rio se vos fizer grande servi\u00e7o!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o D. Rui pensou de repente que bem podia ser aquela uma tra\u00e7a formid\u00e1vel do Dem\u00f3nio. E, cravando os olhos muito brilhantes na face morta que para ele se erguia, ansiosa, \u00e0 espera do seu consentimento \u2014 fez um lento e largo Sinal-da-Cruz.<\/p>\n<p>O enforcado vergou os joelhos com assustada rever\u00eancia:<\/p>\n<p>\u2014 Senhor, para que me experimentais com esse sinal? S\u00f3 por ele alcan\u00e7amos remiss\u00e3o, e eu s\u00f3 dele espero miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o D. Rui pensou que, se esse homem n\u00e3o era mandado pelo Dem\u00f4nio, bem podia ser mandado por Deus! E logo devotamente, com um gesto submisso em que tudo entregava ao C\u00e9u, consentiu, aceitou o pavoroso companheiro:<\/p>\n<p>\u2014 Vem comigo, pois, a Cabril, se Deus te manda! Mas eu nada te pergunto e tu nada me perguntes.<\/p>\n<p>Desceu logo o cavalo \u00e0 estrada, toda alumiada da Lua. O enforcado seguia ao seu lado, com passos t\u00e3o ligeiros, que mesmo quando D. Rui galopava ele se conservava rente ao estribo, como levado por um vento mudo. Por vezes, para respirar mais livremente, repuxava o n\u00f3 da corda que lhe enroscava o pesco\u00e7o. E, quando passavam entre sebes onde errasse o aroma de flores silvestres, o homem murmurava com infinito al\u00edvio e delicia:<\/p>\n<p>\u2014 Como \u00e9 bom correr!<\/p>\n<p>D. Rui ia num assombro, num tormentoso cuidado. Bem compreendia agora que era aquele um cad\u00e1ver reanimado por Deus, para um estranho e encoberto servi\u00e7o. Mas para que lhe dava Deus t\u00e3o medonho companheiro? Para o proteger? Para impedir que D. Leonor, amada do C\u00e9u pela sua piedade, ca\u00edsse em culpa mortal? E, para t\u00e3o divina incumb\u00eancia de t\u00e3o alta merc\u00ea, j\u00e1 n\u00e3o tinha o Senhor anjos no C\u00e9u, que necessitasse empregar um supliciado?\u2026 Ah! como ele voltaria alegremente a r\u00e9dea para Seg\u00f3via, se n\u00e3o fora a galante lealdade de cavaleiro, o orgulho de nunca recuar, e a submiss\u00e3o \u00e0s ordens de Deus, que sentia sobre si pesarem\u2026<\/p>\n<p>Dum alto da estrada, de repente, avistaram Cabril, as torres do convento franciscano alvejando ao luar, os casais adormecidos entre as hortas. Muito silenciosamente, sem que um c\u00e3o ladrasse detr\u00e1s das cancelas ou de cima dos muros, desceram a velha ponte romana. Diante do Calv\u00e1rio, o enforcado caiu de joelhos nas lajes, ergueu os l\u00edvidos ossos da m\u00e3os, ficou longamente rezando, entre longos suspiros. Depois ao entrar na azinhaga, bebeu muito tempo, e consoladamente, de uma fonte que corria e cantava sob as frondes de um salgueiro. Como a azinhaga era muito estreita, ele caminhava adiante do cavaleiro, todo encurvado, os bra\u00e7os cruzados fortemente sobre o peito, sem um rumor.<\/p>\n<p>A Lua ia alta no c\u00e9u. D. Rui considerava com amargura aquele disco, cheio e lustroso, que espargia tanta claridade, e t\u00e3o indiscreta, sobre o seu segredo. Ah! como se estragava a noite que devia ser divina! Uma enorme Lua surdia de entre os montes para tudo alumiar. Um enforcado descia da forca para o seguir e tudo saber. Deus assim o ordenara. Mas que tristeza chegar \u00e0 doce porta, docemente prometida, com tal intruso ao seu lado, sob aquele c\u00e9u todo claro!<\/p>\n<p>Bruscamente, o enforcado estacou, erguendo o bra\u00e7o, de onde a manga pendia em farrapos. Era o fim da azinhaga que desembocava em caminho mais largo e mais batido: \u2014 e diante deles alvejava o comprido muro da Quinta do senhor de Lara, tendo a\u00ed um mirante, com varandins de pedra, e todo revestido de hera.<\/p>\n<p>\u2014 Senhor \u2014 murmurou o enforcado, segurando com respeito o estribo de D. Rui \u2014 logo a poucos passos deste mirante \u00e9 a porta por onde deveis penetrar no jardim. Conv\u00e9m que aqui deixeis o cavalo, amarrado a uma \u00e1rvore, se o tendes por seguro e fiel. Que na empresa em que vamos, j\u00e1 \u00e9 de mais o rumor dos nossos p\u00e9s!\u2026<\/p>\n<p>Silenciosamente D. Rui apeou, prendeu o cavalo, que sabia fiel e seguro, ao tronco dum \u00e1lamo seco.<\/p>\n<p>E t\u00e3o submisso se tornara \u00e0quele companheiro imposto por Deus, que sem outro reparo o foi seguindo rente do muro que o luar batia.<\/p>\n<p>Com vagarosa cautela, e na ponta dos p\u00e9s nus, avan\u00e7ava agora o enforcado, vigiando o alto do muro, sondando a negrura da sebe, parando a escutar rumores que s\u00f3 para ele eram perceb\u00edveis \u2014 porque nunca D. Rui conhecera noite mais fundamente adormecida e muda.<\/p>\n<p>E tal susto, em quem devia ser indiferente a perigos humanos, foi lentamente enchendo tamb\u00e9m o valoroso cavaleiro de t\u00e3o viva desconfian\u00e7a, que tirava o punhal da bainha, enrodilhava a capa no bra\u00e7o, e marchava em defesa, com o olhar faiscando, como num caminho de emboscada e briga. Assim chegaram a uma porta baixa, que o enforcado empurrou, e que se abriu sem gemer nos gonzos. Penetraram numa rua ladeada de espessos teixos at\u00e9 a um tanque cheio de \u00e1gua, onde boiavam folhas de nen\u00fafares, e que toscos bancos de pedra circundavam, cobertos pela rama de arbustos em flor.<\/p>\n<p>\u2014 Por ali! \u2014 murmurou o enforcado, estendendo o bra\u00e7o mirrado.<\/p>\n<p>Era, al\u00e9m do tanque, uma avenida que densas e velhas \u00e1rvores abobadavam e escureciam. Por ela se meteram, como sombras na sombra, o enforcado adiante, D. Rui seguindo muito subtilmente, sem ro\u00e7ar um ramo, mal pisando a areia. Um leve fio de \u00e1gua sussurrava entre relvas. Pelos troncos subiam rosas trepadeiras, que cheiravam docemente. O cora\u00e7\u00e3o de D. Rui recome\u00e7ou a bater numa esperan\u00e7a de amor.<\/p>\n<p>\u2014 Chuta! \u2014 fez o enforcado.<\/p>\n<p>E D. Rui quase trope\u00e7ou no sinistro homem que estacava, com os bra\u00e7os abertos como as traves de uma cancela. Diante deles quatro degraus de pedra subiam a um terra\u00e7o, onde a claridade era larga e livre. Agachados, treparam os degraus \u2014 e ao fundo dum jardim sem \u00e1rvores, todo em canteiros de flores bem recortados, orlados de buxo curto, avistaram um lado da casa batido pela Lua-cheia. Ao meio, entre as janelas de peitoril fechadas, um balc\u00e3o de pedra, com manjeric\u00f5es aos cantos, conservava as vidra\u00e7as abertas, largamente. O quarto, dentro, apagado, era como um buraco de treva na claridade da fachada que o luar banhava. E, arrimada contra o balc\u00e3o, estava uma escada com degraus de corda.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o enforcado empurrou D. Rui vivamente dos degraus para a escurid\u00e3o da avenida. E a\u00ed, com um modo urgente, dominando o cavaleiro, exclamou:<\/p>\n<p>\u2014 Senhor! Conv\u00e9m agora que me deis o vosso sombreiro e a capa! V\u00f3s quedais aqui na escurid\u00e3o destas \u00e1rvores. Eu vou trepar \u00e0quela escada e espreitar para aquele quarto\u2026 E se for como desejais, aqui voltarei, e com Deus sede feliz\u2026<\/p>\n<p>D. Rui recuou no horror de que tal criatura subisse a tal janela!<\/p>\n<p>E bateu o p\u00e9, gritou surdamente:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, por Deus!<\/p>\n<p>Mas a m\u00e3o do enforcado, l\u00edvida na escurid\u00e3o, bruscamente lhe arrancou o sombreiro da cabe\u00e7a, lhe puxou a capa do bra\u00e7o. E j\u00e1 se cobria, j\u00e1 se embu\u00e7ava, murmurando agora, numa s\u00faplica ansiosa:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o mo negueis, senhor, que se vos fizer grande servi\u00e7o, ganharei grande merc\u00ea!<\/p>\n<p>E galgou os degraus: \u2014 estava no alumiado e largo terra\u00e7o.<\/p>\n<p>D. Rui subiu, atontado, e espreitou. E \u2014 oh maravilha! \u2014 era ele, D. Rui, todo ele, na figura e no modo, aquele homem que, por entre os canteiros e o buxo curto, avan\u00e7ava, airoso e leve, com a m\u00e3o na cintura, a face erguida risonhamente para a janela, a longa pluma escarlate do chap\u00e9u balan\u00e7ando em triunfo. O homem avan\u00e7ava no luar espl\u00eandido. O quarto amoroso l\u00e1 estava esperando, aberto e negro. E D. Rui olhava, com olhos que faiscavam, tremendo de pasmo e c\u00f3lera. O homem chegara \u00e0 escada: destra\u00e7ou a capa, assentou o p\u00e9 no degrau de corda! \u2014 \u201cOh! l\u00e1 sobe, o maldito!\u201d \u2014 rugiu D. Rui. O enforcado subia. J\u00e1 a alta figura, que era dele, D. Rui, estava a meio da escada, toda negra contra a parede branca. Parou!\u2026 N\u00e3o! n\u00e3o parara: subia, chegava, \u2014 j\u00e1 sobre o rebordo da varanda pousara o joelho cauteloso. D. Rui olhava, desesperadamente, com os olho, com a alma, com todo o seu ser\u2026 E eis que, de repente, do quarto negro surge um negro vulto, uma furiosa voz brada: \u2014 \u201cvil\u00e3o, vil\u00e3o!\u201d \u2014 e uma l\u00e2mina de adaga faisca, e cai, e outra vez se ergue, e rebrilha, e se abate, e ainda refulge, e ainda se embebe!\u2026 Como um fardo, do alto da escada, pesadamente, o enforcado cai sobre a terra mole. Vidra\u00e7as, portadas do balc\u00e3o logo se fecham com fragor, E n\u00e3o houve mais sen\u00e3o o sil\u00eancio, a serenidade macia, a Lua muito alta e redonda no c\u00e9u de Ver\u00e3o.<\/p>\n<p>Num relance D. Rui compreendera a trai\u00e7\u00e3o, arrancara a espada, recuando para a escurid\u00e3o da avenida \u2014 quando \u2014 oh milagre! correndo atrav\u00e9s do terra\u00e7o, aparece o enforcado, que lhe agarra a manga e lhe grita:<\/p>\n<p>\u2014 A cavalo, senhor, e abalar, que o encontro n\u00e3o era de amor, mas de morte!\u2026.<\/p>\n<p>Ambos descem arrebatadamente a avenida, costeiam o tanque sob o ref\u00fagio dos arbustos em flor, metem pela rua estreita orlada de teixos, varam a porta \u2014 e um momento param, ofegantes, na estrada, onde a Lua, mais refulgente, mais cheia, fazia como um puro dia.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o, s\u00f3 ent\u00e3o, D. Rui descobriu que o enforcado conservava cravada no peito, at\u00e9 aos copos, a adaga, cuja ponta lhe saia pelas costas, luzidia e limpa!\u2026 Mas j\u00e1 o pavoroso homem o empurrava, o apressava:<\/p>\n<p>\u2014 A cavalo, senhor, e abalar, que ainda est\u00e1 sobre n\u00f3s a trai\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Arrepiado, numa \u00e2nsia de findar aventura t\u00e3o cheia de milagre e de horror, D. Rui colheu as r\u00e9deas, cavalgou sofregamente. E logo, em grande pressa, o enforcado saltou tamb\u00e9m para a garupa do cavalo fiel. Todo se arrepiou o bom cavaleiro, ao sentir nas suas costas o ro\u00e7ar daquele corpo morto, dependurado de uma forca, atravessado por uma adaga. Com que desespero galopou ent\u00e3o pela estrada infind\u00e1vel! Em carreira t\u00e3o violenta o enforcado nem oscilava, r\u00edgido sobre a garupa, como um bronze num pedestal. E D. Rui a cada momento sentia um frio mais regelado que lhe regelava os ombros, como se levasse sobre eles um saco cheio de gelo. Ao passar no cruzeiro murmurou: \u2014 \u201cSenhor, valei-me!\u201d \u2014 Para al\u00e9m do cruzeiro, de repente, estremeceu com o quim\u00e9rico medo de que t\u00e3o f\u00fanebre companheiro, para sempre, o ficasse acompanhando, e se tornasse seu destino galopar atrav\u00e9s do mundo, numa noite eterna, levando um morto \u00e0 garupa\u2026 E n\u00e3o se conteve, gritou para tr\u00e1s, no vento da carreira que os vergastava:<\/p>\n<p>\u2014 Para onde quereis que vos leve?<\/p>\n<p>O enforcado, encostando tanto o corpo a D. Rui que o magoou com os copos da adaga, segredou:<\/p>\n<p>\u2014 Senhor, conv\u00e9m que me deixeis no Cerro! Doce e infinito al\u00edvio para o bom cavaleiro \u2014 pois o Cerro estava perto, e j\u00e1 lhe avistava, na claridade desmaiada, os pilares e as traves negras\u2026 Em breve estacou o cavalo, que tremia, branqueando de espuma.<\/p>\n<p>Logo o enforcado, sem rumor, escorregou da garupa, segurou, como bom servi\u00e7al, o estribo de D. Rui. E com a caveira erguida, a l\u00edngua negra mais sa\u00edda de entre os dentes brancos, murmurou em respeitosa s\u00faplica:<\/p>\n<p>\u2014 Senhor, fazei-me agora a grande merc\u00ea de me pendurar outra vez da minha trave.<\/p>\n<p>D. Rui estremeceu de horror:<\/p>\n<p>\u2014 Por Deus! Que vos enforque, eu?\u2026.<\/p>\n<p>O homem suspirou, abrindo os bra\u00e7os compridos:<\/p>\n<p>\u2014 Senhor, por vontade de Deus \u00e9, e por vontade d`Aquela que \u00e9 mais cara a Deus!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, resignado, submisso aos mandados do Alto, D. Rui apeou \u2014 e come\u00e7ou a seguir o homem, que subia para o Cerro pensativamente, vergando o dorso, de onde sa\u00eda, espetada e luzidia, a ponta da adaga. Pararam ambos sob a trave vazia. Em torno das outras traves pendiam as outras carca\u00e7as. O sil\u00eancio era mais triste e fundo que os outros sil\u00eancios da terra. A \u00e1gua da lagoa enegrecera. A Lua descia e desfalecia.<\/p>\n<p>D. Rui considerou a trave onde restava, curto no ar, o peda\u00e7o de corda que ele cortara com a espada.<\/p>\n<p>\u2014 Como quereis que vos pendure? \u2014 exclamou. \u2014 \u00c0quele peda\u00e7o de corda n\u00e3o posso chegar com a m\u00e3o: nem eu s\u00f3 basto para l\u00e1 vos i\u00e7ar.<\/p>\n<p>\u2014 Senhor \u2014 respondeu o homem \u2014 a\u00ed a um canto deve haver um longo rolo de corda. Uma ponta dela ma atareis a este n\u00f3 que trago no pesco\u00e7o: a outra ponta a arremessareis por cima da trave, e puxando depois, forte como sois, bem me podereis reenforcar.<\/p>\n<p>Ambos curvados, com passos lentos, procuraram o rolo de corda. E foi o enforcado que o encontrou, o desenrolou\u2026 Ent\u00e3o D. Rui descal\u00e7ou as luvas. E ensinado por ele (que t\u00e3o bem o aprendera do carrasco) atou uma ponta da corda ao la\u00e7o que o homem conservava no pesco\u00e7o, e arremessou fortemente a outra ponta, que ondeou no ar, passou sobre a trave, ficou pendurada rente ao ch\u00e3o. E o rijo cavaleiro, fincando os p\u00e9s, retesando os bra\u00e7os, puxou, i\u00e7ou o homem, at\u00e9 ele se quedar, suspenso, negro no ar, como um enforcado natural entre os outros enforcados.<\/p>\n<p>\u2014 Estais bem assim?<\/p>\n<p>Lenta e sumida, veio a voz do morto:<\/p>\n<p>\u2014 Senhor, estou como devo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o D. Rui, para o fixar, enrolou a corda em voltas grossa ao pilar de pedra. E tirando o sombreiro, limpando com as costas da m\u00e3o o suor que o alagava, contemplou o seu sinistro e miraculoso companheiro. Estava j\u00e1 r\u00edgido como antes, com a face pendida sob as melenas ca\u00eddas, os p\u00e9s inteiri\u00e7ados, todo pu\u00eddo e carcomido como uma velha carca\u00e7a. No peito conservava a adaga cravada. Por cima, dois corvos dormiam quietos.<\/p>\n<p>\u2014 E agora que mais quereis? \u2014 perguntou D. Rui, come\u00e7ando a cal\u00e7ar as luvas.<\/p>\n<p>Sumidamente, do alto, o enforcado murmurou:<\/p>\n<p>\u2014 Senhor, muito vos rogo agora que, ao chegar a Seg\u00f3via, tudo conteis fielmente a Nossa Senhora do Pilar, vossa madrinha, que dela espero grande merc\u00ea para a minha alma, por este servi\u00e7o que, a seu mandado, vos fez o meu corpo!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, D. Rui de Cardenas tudo compreendeu \u2014 e, ajoelhando devotamente sobre o ch\u00e3o de dor e morte, rezou uma longa ora\u00e7\u00e3o por aquele bom enforcado.<\/p>\n<p>Depois galopou para Seg\u00f3via. A manh\u00e3 clareava, quando ele transp\u00f4s a porta de S. Mauros. No ar fino os sinos claros tocavam a matinas. E entrando na igreja de Nossa Senhora do Pilar, ainda no desalinho da sua terr\u00edvel jornada, D. Rui, de rojo ante o altar, narrou \u00e3 sua Divina Madrinha a ruim ten\u00e7\u00e3o que levara a Cabril, o socorro que do C\u00e9u recebera, e, com quentes l\u00e1grimas de arrependimento e gratid\u00e3o, lhe jurou que nunca mais poria desejo onde houvesse pecado, nem no seu cora\u00e7\u00e3o daria entrada a pensamento que viesse do Mundo e do Mal.<\/p>\n<p>IV<br \/>\nA essa hora, em Cabril, D. Alonso de Lara, com olhos esbugalhados de pasmo e terror, esquadrinhava todas as ruas e recantos e sombras do seu jardim.<\/p>\n<p>Quando ao alvorecer, depois de escutar \u00e3 porta da c\u00e2mara onde nessa noite encerrara D. Leonor, ele descera subtilmente ao jardim e n\u00e3o encontrara, debaixo do balc\u00e3o, rente \u00e0 escada, como deliciosamente esperava, o corpo de D. Rui de Cardenas, teve por certo que o homem odioso, ao tombar, ainda com um resto d\u00e9bil de vida, se arrastara sangrando e arquejando, na tentativa de alcan\u00e7ar o cavalo e abalar de Cabril\u2026 mas, com aquela rija adaga que ele tr\u00eas vezes lhe enterrara no peito, e que no peito lhe deixara, n\u00e3o se arrastaria o vil\u00e3o por muitas jardas, e nalgum canto devia jazer frio e inteiri\u00e7ado. Rebuscou ent\u00e3o cada rua, cada sombra, cada maci\u00e7o de arbustos. E \u2014 maravilhoso caso! \u2014 n\u00e3o descobria o corpo, nem pegadas, nem terra que houvesse sido remexida, nem sequer rasto de sangue sobre a terra! E todavia, com m\u00e3o certeira e faminta de vingan\u00e7a, tr\u00eas vezes ele lhe embebera a adaga no peito, e no peito lha deixara!<\/p>\n<p>E era Rui de Cardenas o homem que ele matara \u2014 que muito bem o conhecera logo, do fundo apagado do quarto de onde espreitava, quando ele, \u00e0 claridade da Lua, veio atrav\u00e9s do terra\u00e7o, confiado, ligeiro, com a m\u00e3o na cintura, a face risonhamente erguida e a pluma do sombreiro meneando em triunfo! Como podia ser coisa t\u00e3o rara \u2014 um corpo mortal sobrevivendo a um ferro, que tr\u00eas vezes lhe vara o cora\u00e7\u00e3o e no cora\u00e7\u00e3o lhe fica cravado? E a maior raridade era que nem no ch\u00e3o, debaixo da varanda, onde corria ao longo do muro uma tira de goivos e cec\u00e9ns, deixara um vest\u00edgio aquele corpo forte, caindo de t\u00e3o alto pesadamente, inertemente, como um fardo! Nem uma flor machucada \u2014 todas direitas, vi\u00e7osas, como novas, com gotas leves de orvalho! Im\u00f3vel de espanto, quase de terror, D. Alonso de Lara ali parava, considerando o balc\u00e3o, medindo a altura da escada, olhando esgazeadamente os goivos direitos, frescos, sem uma haste ou folha vergada. Depois recome\u00e7ava a correr loucamente o terra\u00e7o, a avenida, a rua de teixos, na esperan\u00e7a ainda duma pegada, dum galho partido, de uma n\u00f3doa de sangue na areia fina.<\/p>\n<p>Nada! Todo o jardim oferecia um desusado arranjo e limpeza nova, como se sobre ele nunca houvesse passado nem o vento que desfolha, nem o sol que murcha.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, ao entardecer, devorado pela incerteza e mist\u00e9rio, tomou um cavalo, e sem escudeiro ou cavalari\u00e7o, partiu para Seg\u00f3via. Curvado e escondidamente, como um foragido, penetrou no seu pal\u00e1cio pela porta do pomar: e o seu primeiro cuidado foi correr \u00e0 galeria de ab\u00f3bada, destrancar as portas da janela e espreitar avidamente a casa de D. Rui de Cardenas. Todas as gelosias da velha morada do arcediago estavam escuras, abertas, respirando a fresquid\u00e3o da noite: \u2014 e \u00e0 porta, sentado num banco de pedra, um mo\u00e7o de cavalari\u00e7a afinava pregui\u00e7osamente a bandurra.<\/p>\n<p>D. Alonso de Lara desceu \u00e0 sua c\u00e2mara, l\u00edvido, pensando que n\u00e3o houvera certamente desgra\u00e7a em casa onde todas as janelas se abrem para refrescar, e no port\u00e3o da rua os mo\u00e7os folgam. Ent\u00e3o bateu as palmas, pediu furiosamente a ceia. E, apenas sentado, ao topo da mesa, na sua alta sede de couro lavrado, mandou chamar o intendente, a quem ofereceu logo, com estranha familiaridade, um copo de vinho velho. Enquanto o homem, de p\u00e9, bebia respeitosamente, D. Alonso, metendo os dedos pelas barbas e for\u00e7ando a sua sombria face a sorrir, perguntava pelas novas e rumores de Seg\u00f3via. Nesses dias da sua estada em Cabril, nenhum caso criara pela cidade espanto e murmura\u00e7\u00e3o?\u2026 O intendente limpou os bei\u00e7os, para afirmar que nada ocorrera em Seg\u00f3via de que andasse murmura\u00e7\u00e3o, a n\u00e3o ser que a filha do senhor D. Gutierres, t\u00e3o mo\u00e7a e t\u00e3o rica herdeira, tomara o v\u00e9u no convento das Carmelitas Descal\u00e7as. D. Alonso insistia, fitando vorazmente o intendente. E n\u00e3o se travara uma grande briga?\u2026 n\u00e3o se encontrara ferido, na estrada de Cabril, um cavaleiro mo\u00e7o, muito falado?\u2026 O intendente encolhia os ombros: nada ouvira, pela cidade, de brigas ou de cavaleiros feridos.Com um aceno desabrido D. Alonso despediu o intendente.<\/p>\n<p>Apenas ceara, parcamente, logo voltou \u00e0 galeria a espreitar as janelas de D. Rui. Estavam agora cerradas; na \u00faltima, da esquina, tremeluzia uma claridade. Toda a noite D. Alonso velou, remoendo incansavelmente o mesmo espanto. Como pudera escapar aquele homem, com uma adaga atravessada no cora\u00e7\u00e3o? Como pudera?\u2026 Ao luzir da manh\u00e3, tomou uma capa, um largo sombreiro, desceu ao adro, todo embu\u00e7ado e encoberto, e ficou rondando por diante da casa de D. Rui. Os sinos tocaram a matinas. Os mercadores, com os gib\u00f5es mal abotoados, sa\u00edam a erguer as portadas das lojas, a pendurar as tabuletas. J\u00e1 os hortel\u00f5es, picando os burros carregados de seiras, atiravam os preg\u00f5es da hortali\u00e7a fresca, e frades descal\u00e7os, com o alforge aos ombros, pediam esmola, benziam as mo\u00e7as.<\/p>\n<p>Beatas embiocadas, com grossos ros\u00e1rios negros, enfiavam gulosamente para a igreja. Depois o pregoeiro da cidade, parando a um canto do adro, tocou uma buzina, e numa voz tremenda come\u00e7ou a ler um edital.<\/p>\n<p>O senhor de Lara, parava junto do chafariz, pasmado, como embebido no cantar das tr\u00eas bicas de \u00e1gua. De repente pensou que aquele edital, lido pelo pregoeiro da cidade, se referia talvez a D. Rui, ao seu desaparecimento\u2026 Correu \u00e0 esquina do adro \u2014 mas j\u00e1 o homem enrolara o papel, se afastava majestosamente, batendo nas lajes com a sua vara branca. E, quando se voltava para espiar de novo a casa, eis que os seus olhos at\u00f4nitos encontram D. Rui, D. Rui que ele matara \u2014 e que vinha caminhando para a igreja de Nossa Senhora, ligeiro, airoso, a face risonha e erguida no fresco ar da manh\u00e3, de gib\u00e3o claro, de plumas claras, com uma das m\u00e3os pousando na cinta, a outra meneando distraidamente um bast\u00e3o com borlas de tor\u00e7al de ouro!<\/p>\n<p>D. Alonso recolheu ent\u00e3o a casa com passos arrastados e envelhecidos. No alto da escadaria de pedra, achou o seu velho capel\u00e3o, que o viera saudar, e que, penetrando com ele na antec\u00e2mara, depois de pedir, com rever\u00eancia, novas da senhora D. Leonor, lhe contou logo dum prodigioso caso, que causava pela cidade grave murmura\u00e7\u00e3o e espanto. Na v\u00e9spera, de tarde, indo o corregedor visitar o cerro das forcas, pois se acercava a festa dos Santos Ap\u00f3stolos, descobrira, com muito pasmo e muito esc\u00e2ndalo, que um dos enforcados tinha uma adaga cravada no peito! Fora gracejo de um p\u00edcaro sinistro? Vingan\u00e7a que nem a morte saciara?\u2026 E para maior prod\u00edgio ainda, o corpo fora despendurado da forca, arrastado em horta ou jardim (pois que presas aos velhos farrapos se encontravam folhas tenras) e depois novamente enforcado e com nova!\u2026 E assim ia a turbul\u00eancia dos tempos, que nem os mortos se furtavam a ultrajes!<\/p>\n<p>D. Alonso escutava com as m\u00e3os a tremer, os p\u00ealos arrepiados. E imediatamente, numa ansiosa agita\u00e7\u00e3o, bradando, trope\u00e7ando contra as portas, quis partir, e por seus olhos verificar a f\u00fanebre profana\u00e7\u00e3o. Em duas mulas ajaezadas \u00e0 pressa, ambos abalaram para o Cerro dos Enforcados, ele e o capel\u00e3o arastado e aturdido. Numeroso povo de Seg\u00f3via se juntara j\u00e1 no Cerro, pasmando para o maravilhoso horror \u2014 o morto que fora morto!\u2026 Todos se arredaram ante o nobre senhor de Lara, que arremessando-se pelo cabe\u00e7o acima, estacara o olhar, esgazeado e l\u00edvido, para o enforcado e para a adaga que lhe varava o peito. Era a sua adaga: \u2014 fora ele que matara o morto!<\/p>\n<p>Galopou espavoridamente para Cabril. E a\u00ed se encerrou com o seu segredo, come\u00e7ando logo a amarelecer, a definhar, sempre arredado da senhora D. Leonor, escondido pelas ruas sombrias do jardim, murmurando palavras ao vento, at\u00e9 que na madrugada de S. Jo\u00e3o uma serva, que voltava da fonte com a sua bilha, o encontrou morto, por baixo do balc\u00e3o de pedra, todo estirado no ch\u00e3o, com os dedos encravados no canteiro de goivos, onde parecia ter longamente esgaravatado a terra, a procurar\u2026<\/p>\n<p>V<br \/>\nPara fugir a t\u00e3o lament\u00e1veis mem\u00f3rias, a senhora D. Leonor, herdeira de todos os bens da casa da Lara, recolheu ao seu pal\u00e1cio de Seg\u00f3via. Mas como agora sabia que o senhor D. Rui de Cardenas escapara miraculosamente \u00e0 emboscada de Cabril, e como cada manh\u00e3, espreitando de entre as gelosias, meio cerradas, o seguia, com olhos que se n\u00e3o fartavam e se umedeciam, quando ele cruzava o adro para entrar na igreja, n\u00e3o quis ela, com receio das pressas e impaci\u00eancias do seu cora\u00e7\u00e3o, visitar a Senhora do Pilar enquanto durasse o seu luto. Depois, uma manh\u00e3 de Domingo, quando, em vez de crepes negros, se p\u00f4de cobrir de sedas roxas, desceu a escadaria do seu pal\u00e1cio, p\u00e1lida de uma emo\u00e7\u00e3o nova e divina, pisou as lajes do adro, transp\u00f4s as portas da igreja. D. Rui de Cardenas estava ajoelhado diante do altar, onde depusera o seu ramo votivo de cravos amarelos e brancos. Ao rumor das sedas finas, ergueu os olhos com uma esperan\u00e7a muito pura e toda feita de gra\u00e7a celeste, como se um anjo o chamasse. D. Leonor ajoelhou, com o peito a arfar, t\u00e3o p\u00e1lida e t\u00e3o feliz que a cera das tochas n\u00e3o era mais p\u00e1lida, nem mais felizes as andorinhas que batiam as asas livres pelas ogivas da velha igreja.<\/p>\n<p>Ante esse altar, e de joelhos nessas lajes, foram eles casados pelo bispo de Seg\u00f3via, D. Martinho, no Outono do ano da Gra\u00e7a de 1475, sendo j\u00e1 reis de Castela Isabel e Fernando, muito fortes e muito cat\u00f3licos, por quem Deus operou grandes feitos sobre a terra e sobre o mar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>I No ano de 1474, que foi por toda a Cristandade t\u00e3o abundante em merc\u00eas divinas, reinando em Castela el-rei Henrique IV, veio habitar na cidade de Seg\u00f3via, onde herdara moradias e uma horta, um&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[24],"class_list":["post-583","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-eca-de-queiros"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/583","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=583"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/583\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":585,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/583\/revisions\/585"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=583"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=583"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=583"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}