{"id":586,"date":"2018-07-05T15:08:18","date_gmt":"2018-07-05T15:08:18","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=586"},"modified":"2018-07-05T15:09:37","modified_gmt":"2018-07-05T15:09:37","slug":"civilizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/civilizacao","title":{"rendered":"Civiliza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>I<br \/>\nEu possuo preciosamente um amigo (o seu nome \u00e9 Jacinto) que nasceu num pal\u00e1cio, com quarenta contos de renda em pingues terras de p\u00e3o, azeite e gado.<\/p>\n<p>Desde o ber\u00e7o, onde sua m\u00e3e, senhora gorda e cr\u00e9dula de Tr\u00e1s-os-Montes, espalhava, para reter as Fadas Ben\u00e9ficas, funcho e \u00e2mbar, Jacinto fora sempre mais resistente e s\u00e3o que um pinheiro das dunas. Um lindo rio, murmuroso e transparente, com um leito muito liso de areia muito branca, reflectindo apenas peda\u00e7os lustrosos de um c\u00e9u de Ver\u00e3o ou ramagens sempre verdes e de bom aroma, n\u00e3o ofereceria, \u00e0quele que o descesse numa barca cheia de almofadas e de champanhe gelado, mais do\u00e7ura e facilidades do que a vida oferecia ao meu camarada Jacinto. N\u00e3o teve sarampo e n\u00e3o teve lombrigas. Nunca padeceu, mesmo na idade em que se l\u00ea Balzac e Musset, os tormentos da sensibilidade. Nas suas amizades foi sempre t\u00e3o feliz como o cl\u00e1ssico Orestes. Do amor s\u00f3 experimentara o mel \u2014 esse mel que o amor invariavelmente concede a quem o pratica, como as abelhas, com ligeireza e mobilidade. Ambi\u00e7\u00e3o, sentira somente a de compreender bem as ideias gerais e a \u00abponta do seu intelecto\u00bb (como diz o velho cronista medieval) n\u00e3o estava ainda romba nem ferrugenta\u2026 E todavia, desde os vinte e oito anos, Jacinto j\u00e1 se vinha repastando de Schopenhauer, do Eclesiastes, de outros pessimistas menores, e tr\u00eas, quatro vezes por dia, bocejava, com um bocejo cavo e lento, passando os dedos finos sobre as faces, com se nelas s\u00f3 palpasse palidez e ru\u00edna. Porqu\u00ea?<\/p>\n<p>Era ele, de todos os homens que conheci, o mais complexamente civilizado \u2014 ou, antes, aquele que se munira da mais vasta soma de civiliza\u00e7\u00e3o material, ornamental e intelectual. Nesse pal\u00e1cio (floridamente chamado o Jasmineiro) que seu pai, tamb\u00e9m Jacinto, constru\u00edra sobre uma honesta casa do s\u00e9culo XVII, assoalhada a pinho e branqueada a cal \u2014 existia, creio eu, tudo quanto para bem do esp\u00edrito ou da mat\u00e9ria os homens t\u00eam criado, atrav\u00e9s da incerteza e dor, desde que abandonaram o vale feliz de Septa-Sindu, a Terra das \u00c1guas F\u00e1ceis, o doce pa\u00eds ariano. A biblioteca \u2014 que em duas salas, amplas e claras como pra\u00e7as, forrava as paredes, inteiramente, desde os tapetes de Caram\u00e2nia at\u00e9 ao tecto, donde, alternadamente, atrav\u00e9s de cristais, o sol e a electricidade vertiam uma luz estudiosa e calma \u2014 continha vinte e cinco mil volumes, instalados em \u00e9bano, magnificamente revestidos de marroquim escarlate. S\u00f3 sistemas filos\u00f3ficos (e com justa prud\u00eancia, para poupar espa\u00e7o, o bibliotec\u00e1rio apenas coleccionara os que irreconciliavelmente se contradizem) havia mil e oitocentos e dezassete!<\/p>\n<p>Uma tarde que eu desejava copiar um ditame de Adam Smith, percorri, buscando este economista ao longo das estantes, oito metros de economia pol\u00edtica! Assim se achava formidavelmente abastecido o meu amigo Jacinto de todas as obras essenciais da intelig\u00eancia \u2014 e mesmo da estupidez. E o \u00fanico inconveniente deste monumental armaz\u00e9m do saber era que todo aquele que l\u00e1 penetrava, inevitavelmente l\u00e1 adormecia, por causa das poltronas, que, providas de finas pranchas m\u00f3veis para sustentar o livro, o charuto, o l\u00e1pis das notas, a ta\u00e7a de caf\u00e9, ofereciam ainda uma combina\u00e7\u00e3o oscilante e fl\u00e1cida de almofadas, onde o corpo encontrava logo, para mal do esp\u00edrito, a do\u00e7ura, a profundidade e a paz estirada de um leito.<\/p>\n<p>Ao fundo, e como um altar-mor, era o gabinete de trabalho de Jacinto. A sua cadeira, grave e abacial, de couro, com bras\u00f5es, datava do s\u00e9culo XIV, e em torno dela pendiam numerosos tubos ac\u00fasticos, que, sobre os panejamentos de seda cor de musgo e cor de hera, pareciam serpentes adormecidas e suspensas num velho muro de quinta. Nunca recordo sem assombro a sua mesa, recoberta toda de sagazes e subtis instrumentos para cortar papel, numerar p\u00e1ginas, colar estampilhas, agu\u00e7ar l\u00e1pis, raspar emendas, imprimir datas, derreter lacre, cintar documentos, carimbar contas! Uns de n\u00edquel, outros de a\u00e7o, rebrilhantes e frios, todos eram de um manejo laborioso e lento: alguns, com as molas r\u00edgidas, as pontas vivas, brilhavam e feriam: e nas largas folhas de papel Whatman em que ele escrevia, e que custavam quinhentos r\u00e9is, eu por vezes surpreendi gotas de sangue do meu amigo. Mas a todos ele considerava indispens\u00e1veis para compor as suas cartas (Jacinto n\u00e3o compunha obras), assim como os trinta e cinco dicion\u00e1rios, e os manuais, e as enciclop\u00e9dias, e os guias, e os direct\u00f3rios, atulhando uma estante isolada, esguia, em forma de torre, que silenciosamente girava sobre o seu pedestal, e que eu denominara o Farol. O que, por\u00e9m, mais completamente imprimia \u00e0quele gabinete um portentoso car\u00e1cter de civiliza\u00e7\u00e3o eram, sobre as suas peanhas de carvalho, os grandes aparelhos, facilitadores do pensamento \u2014 a m\u00e1quina de escrever, os autocopistas, o tel\u00e9grafo Morse, o fon\u00f3grafo, o telefone, o teatrofone, outros ainda, todos com metais luzidios, todos com longos fios. Constantemente sons curtos e secos retiniam no ar morno daquele santu\u00e1rio. Tique, tique, tique! Dlim, dlim, dlim! Craque, craque, craque! Trrre, Trrre, Trrre!\u2026 Era o meu amigo comunicando. Todos esses fios mergulhados em for\u00e7as universais transmitiam for\u00e7as universais. E elas nem sempre, desgra\u00e7adamente, se conservavam domadas e disciplinadas! Jacinto recolhera no fon\u00f3grafo a voz do conselheiro Pinto Porto, uma voz oracular e rotunda, no momento de exclamar com respeito, com autoridade:<\/p>\n<p>\u2014 Maravilhosa inven\u00e7\u00e3o! Quem n\u00e3o admirar\u00e1 os progressos deste s\u00e9culo?<\/p>\n<p>Pois, numa doce noite de S. Jo\u00e3o, o meu supercivilizado amigo, desejando que umas senhoras parentas de Pinto Porto (as am\u00e1veis Gouveias) admirassem o fon\u00f3grafo, fez romper do bocarr\u00e3o do aparelho, que parece uma trompa, a conhecida voz rotunda e oracular:<\/p>\n<p>\u2014 Quem n\u00e3o admirar\u00e1 os progressos deste s\u00e9culo?<\/p>\n<p>Mas, in\u00e1bil ou brusco, certamente desconcertou alguma mola vital \u2014 porque de repente o fon\u00f3grafo come\u00e7a a redizer, sem descontinua\u00e7\u00e3o, interminavelmente, com uma sonoridade cada vez mais rotunda, a senten\u00e7a do conselheiro:<\/p>\n<p>\u2014 Quem n\u00e3o admirar\u00e1 os progressos deste s\u00e9culo?<\/p>\n<p>Debalde Jacinto, p\u00e1lido, com os dedos tr\u00e9mulos, torturava o aparelho. A exclama\u00e7\u00e3o recome\u00e7ava, rolava, oracular e majestosa:<\/p>\n<p>\u2014 Quem n\u00e3o admirar\u00e1 os progressos deste s\u00e9culo?<\/p>\n<p>Enervados, retir\u00e1mos para uma sala distante, pesadamente revestida de panos de Arr\u00e1s. Em v\u00e3o! A voz de Pinto Porto l\u00e1 estava, entre os panos de Arr\u00e1s, implac\u00e1vel e rotunda:<\/p>\n<p>\u2014 Quem n\u00e3o admirar\u00e1 os progressos deste s\u00e9culo?<\/p>\n<p>Furiosos, enterr\u00e1mos uma almofada na boca do fon\u00f3grafo, atir\u00e1mos por cima mantas, cobertores espessos, para sufocar a voz abomin\u00e1vel. Em v\u00e3o! Sob a morda\u00e7a, sob as grossas l\u00e3s, a voz rouquejava, surda mas oracular<\/p>\n<p>\u2014 Quem n\u00e3o admirar\u00e1 os progressos deste s\u00e9culo?<\/p>\n<p>As am\u00e1veis Gouveias tinham abalado, apertando desesperadamente os xales sobre a cabe\u00e7a. Mesmo \u00e0 cozinha, onde nos refugi\u00e1mos, a voz descia, engasgada e gosmosa:<\/p>\n<p>\u2014 Quem n\u00e3o admirar\u00e1 os progressos deste s\u00e9culo?<\/p>\n<p>Fugimos espavoridos para a rua.<\/p>\n<p>Era de madrugada. Um fresco bando de raparigas, de volta das fontes, passava cantando com bra\u00e7ados de flores:<\/p>\n<p>Todas as ervas s\u00e3o bentas<\/p>\n<p>Em manh\u00e3 de S. Jo\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>Jacinto, respirando o ar matinal, limpava as bagas lentas do suor. Recolhemos ao Jasmineiro, com o sol j\u00e1 alto, j\u00e1 quente. Muito de manso abrimos as portas, como no receio de despertar algu\u00e9m. Horror! Logo da antec\u00e2mara percebemos sons estrangulados, roufenhos: \u00abadmirar\u00e1\u2026 progressos\u2026 s\u00e9culo!\u2026\u00bb S\u00f3 de tarde um electricista p\u00f4de emudecer aquele fon\u00f3grafo horrendo.<\/p>\n<p>Bem mais apraz\u00edvel (para mim) do que esse gabinete temerosamente atulhado de civiliza\u00e7\u00e3o \u2014 era a sala de jantar, pelo seu arranjo compreens\u00edvel, f\u00e1cil e \u00edntimo. \u00c0 mesa s\u00f3 cabiam seis amigos, que Jacinto escolhia com crit\u00e9rio na literatura, na arte e na metaf\u00edsica e que, entre as tape\u00e7arias de Arr\u00e1s, representando colinas, pomares e p\u00f3rticos da \u00c1tica, cheias de classicismo e de luz, renovavam ali repetidamente banquetes que, pela sua intelectualidade, lembravam os de Plat\u00e3o. Cada garfada se cruzava com um pensamento ou com palavras destramente arranjadas em forma de pensamento.<\/p>\n<p>E a cada talher correspondiam seis garfos, todos de feitios dissemelhantes e astuciosos \u2014 um para as ostras, outro para o peixe, outro para as carnes, outro para os legumes, outro para a fruta, outro para o queijo. Os copos, pela diversidade dos contornos e das cores, faziam, sobre a toalha mais reluzente que esmalte, como ramalhetes silvestres espalhados por cima de neve. Mas Jacinto e os seus fil\u00f3sofos, lembrando o que o experiente Salom\u00e3o ensina sobre as ru\u00ednas e amarguras do vinho, bebiam apenas em tr\u00eas gotas de \u00e1gua uma gota de bord\u00e9us Chateaubriand, 1860. Assim o recomendam Hes\u00edodo no seu Nereu, D\u00edocles nas suas Abelhas. E de \u00e1guas havia sempre no Jasmineiro um luxo redundante \u2014 \u00e1guas geladas, \u00e1guas carbonatadas, \u00e1guas esterilizadas, \u00e1guas gasosas, \u00e1guas de sais, \u00e1guas minerais, outras ainda, em garrafas s\u00e9rias, com tratados terap\u00eauticos impressos no r\u00f3tulo\u2026 O cozinheiro, mestre Sard\u00e3o, era daqueles que Anax\u00e1goras equiparava dos Ret\u00f3ricos, aos Oradores, a todos os que sabem a arte divina de \u00abtemperar e servir a Ideia\u00bb: e em S\u00edbaris, cidade do Viver Excelente, os magistrados teriam votado a mestre Sard\u00e3o, pelas festas de Juno Lac\u00ednia, a coroa de folhas de ouro e a t\u00fanica mil\u00e9sia que se devia aos benfeitores c\u00edvicos. A sua sopa de alcachofras e ovas de carpa; os seus filetes de veado macerados em velho madeira com pur\u00e9 de nozes; as suas amoras geladas em \u00e9ter, outros acepipes ainda, numerosos e profundos (e os \u00fanicos que tolerava o meu Jacinto), eram obras de um artista, superior pela abund\u00e2ncia das ideias novas \u2014 e juntavam sempre a raridade do sabor \u00e0 magnific\u00eancia da forma. Tal prato desse mestre incompar\u00e1vel parecia, pela ornamenta\u00e7\u00e3o, pela gra\u00e7a Dorida dos lavores, pelo arranjo dos coloridos frescos e cantantes, uma j\u00f3ia esmaltada do cinzel de Cellini ou Meurice. Quantas tardes eu desejei fotografar aquelas composi\u00e7\u00f5es de excelente fantasia, antes que o trinchante as retalhasse! E esta superfinidade do comer condizia deliciosamente com a do servir. Por sobre um tapete, mais fofo e mole que o musgo da floresta da Brocelanda, deslizavam, como sombras fardadas de branco, cinco criados e um pajem preto, \u00e0 maneira vistosa do s\u00e9culo XVIII. As travessas (de prata) subiam da cozinha e da copa por dois ascensores, um para as iguarias quentes, forrado de tubos onde a \u00e1gua fervia; outro, mais lento, para as iguarias frias, forrado de zinco, am\u00f3nia e sal, e ambos escondidos por flores t\u00e3o densas e vi\u00e7osas, que era como se at\u00e9 a sopa sa\u00edsse fumegando dos rom\u00e2nticos jardins de Armida. E muito bem me lembro de um domingo de Maio em que, jantando com Jacinto um bispo, o erudito bispo de Chorazin, o peixe emperrou no meio do ascensor, sendo necess\u00e1rio que acudissem, pura o extrair, pedreiros com alavancas.<\/p>\n<p>II<br \/>\nNas tardes em que havia \u00abbanquete de Plat\u00e3o\u00bb (que assim denomin\u00e1vamos essas festas de trufas e ideias gerais), eu, vizinho e \u00edntimo, aparecia ao declinar do Sol, e subia familiarmente ao quarto do nosso Jacinto \u2014 onde o encontrava sempre incerto entre as suas casacas, porque as usava alternadamente de seda, de pano, de flanelas Jaegher, e de foulard das \u00cdndias. O quarto respirava o frescor e aroma do jardim por duas vastas janelas, providas magnificamente (al\u00e9m das cortinas de seda mole Lu\u00eds XV) de uma vidra\u00e7a exterior de cristal inteiro, de uma vidra\u00e7a interior de cristais mi\u00fados, de um toldo rolando na cimalha, de um estore de sedinha frouxa, de gazes que franziam e se enrolavam como nuvens e de uma gelosia m\u00f3vel de gradaria mourisca. Todos estes resguardos (s\u00e1bia inven\u00e7\u00e3o de Holland &#038; E.C\u00aa de Londres) serviam a graduar a luz e o ar \u2014 segundo os avisos de term\u00f3metros, bar\u00f3metros e higr\u00f3metros, montados em \u00e9bano, e a que um meteorologista (Cunha Guedes) vinha, todas as semanas, verificar a precis\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre estas duas varandas rebrilhava a mesa de toilette, uma mesa enorme de vidro, toda de vidro, para a tornar impenetr\u00e1vel aos micr\u00f3bios, e coberta de todos esses utens\u00edlios de asseio e alinho que o homem do s\u00e9culo XIX necessita numa capital, para n\u00e3o desfear o conjunto sumptu\u00e1rio da civiliza\u00e7\u00e3o. Quando o nosso Jacinto, arrastando as suas engenhosas chinelas de pelica e seda, se acercava desta ara \u2014 eu, bem aconchegado num div\u00e3, abria com indol\u00eancia uma revista, ordinariamente a Revista Electrop\u00e1tica, ou a das Indaga\u00e7\u00f5es Ps\u00edquicas. E Jacinto come\u00e7ava\u2026 Cada um desses utens\u00edlios de a\u00e7o, de marfim, de prata, impunham ao meu amigo, pela influ\u00eancia omnipoderosa que as coisas exercem sobre o dono (sunt tyrannioe rerum) o dever de o utilizar com aptid\u00e3o e defer\u00eancia. E assim as opera\u00e7\u00f5es do alindamento de Jacinto apresentavam a prolixidade, reverente e insuprim\u00edvel, dos ritos de um sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>Come\u00e7ava pelo cabelo\u2026 Com uma escova chata, redonda e dura, acamava o cabelo, corredio e louro, no alto, aos lados da risca; com uma escova estreita e recurva, \u00e0 maneira do alfange de um persa, ondeava o cabelo sobre a orelha; com uma escova c\u00f4ncava, em forma de telha, empastava o cabelo, por tr\u00e1s, sobre a nuca\u2026 Respirava e sorria. Depois, com uma escova de longas cerdas, fixava o bigode; com uma escova leve e fl\u00e1cida acurvava as sobrancelhas; com uma escova feita de penugem regularizava as pestanas. E deste modo Jacinto ficava diante do espelho, passando p\u00ealos sobre o seu p\u00ealo, durante catorze minutos.<\/p>\n<p>Penteado e cansado, ia purificar as m\u00e3os. Dois criados, ao fundo, manobravam com per\u00edcia e vigor os aparelhos do lavat\u00f3rio \u2014 que era apenas um resumo dos maquinismos monumentais da sala de banho. Ali, sobre o m\u00e1rmore verde e r\u00f3seo do lavat\u00f3rio, havia apenas dois duches (quente e frio) para a cabe\u00e7a; quatro jactos, graduados desde zero at\u00e9 cem graus; o vaporizador de perfumes; a fonte de \u00e1gua esterilizada (para os dentes); o repuxo para a barba; e ainda torneiras que rebrilhavam e bot\u00f5es de \u00e9bano que, de leve ro\u00e7ados, desencadeavam o marulho e o estridor de torrentes nos Alpes\u2026 Nunca eu, para molhar os dedos, me cheguei \u00e0quele lavat\u00f3rio sem terror \u2014 escarmentado da tarde amarga de Janeiro em que bruscamente, dessoldada a torneira, o jacto de \u00e1gua a cem graus rebentou, silvando e fumegando, furioso, devastador\u2026 Fugimos todos, espavoridos. Um clamor atroou o Jasmineiro. O velho Grilo, escudeiro que fora do Jacinto pai, ficou coberto de empolas na face, nas m\u00e3os fi\u00e9is.<\/p>\n<p>Quando Jacinto acabava de se enxugar laboriosamente a toalhas de felpo, de linho, de corda entran\u00e7ada (paca restabelecer a circula\u00e7\u00e3o), de seda trouxa (para lustrar a pele) bocejava, com um bocejo cavo e lento.<\/p>\n<p>E era este bocejo, perp\u00e9tuo e vago, que nos inquietava a n\u00f3s, seus amigos e fil\u00f3sofos. Que faltava a este homem excelente? Ele tinha a sua inabal\u00e1vel sa\u00fade de pinheiro bravo, crescido nas dunas; uma luz da intelig\u00eancia, pr\u00f3pria a tudo alumiar, firme e clara sem tremor ou morr\u00e3o; quarenta magn\u00edficos contos de renda; todas as simpatias de uma cidade chasqueadora e c\u00e9ptica; uma vida varrida de sombras, mais liberta e lisa do que um c\u00e9u de Ver\u00e3o\u2026 E todavia bocejava constantemente, palpava na face, com os dedos finos, a palidez e as rugas. Aos trinta anos Jacinto corcovava, como sob um fardo injusto! E pela moralidade desconsolada de toda a sua ac\u00e7\u00e3o parecia ligado desde os dedos at\u00e9 \u00e0 vontade, pelas malhas apertadas de uma rede que se n\u00e3o via e que o travava. Era doloroso testemunhar o fastio com que ele, para apontar um endere\u00e7o, tomava o seu l\u00e1pis pneum\u00e1tico, a sua pena el\u00e9ctrica \u2014 ou, para avisar o cocheiro, apanhava o tubo telef\u00f3nico!\u2026 Neste mover lento do bra\u00e7o magro, nos vincos que lhe arrepanhavam o nariz, mesmo nos seus sil\u00eancios, longos e derreados, se senda o brado constante que lhe ia na alma: \u00abQue ma\u00e7ada! Que ma\u00e7ada!\u00bb Claramente a vida era para Jacinto um cansa\u00e7o \u2014 ou por laboriosa e dif\u00edcil, ou por desinteressante e oca. Por isso o meu pobre amigo procurava constantemente juntar \u00e0 sua vida novos interesses, novas facilidades. Dois inventores, homens de muito zelo e pesquisa, estavam encarregados, um em Inglaterra, outro na Am\u00e9rica, de lhe noticiar e de lhe fornecer todas as inven\u00e7\u00f5es, as mais mi\u00fadas, que concorressem a aperfei\u00e7oar a confortabilidade do Jasmineiro. De resto, ele pr\u00f3prio se correspondia com Edison. E, pelo lado do pensamento, Jacinto n\u00e3o cessava tamb\u00e9m de buscar interesses e emo\u00e7\u00f5es que o reconciliassem com a vida \u2014 penetrando \u00e0 cata dessas emo\u00e7\u00f5es e desses interesses pelas veredas mais desviadas do saber, a ponto de devorar, desde Janeiro a Mar\u00e7o, setenta e sete volumes sobre a evolu\u00e7\u00e3o das ideias morais entre as ra\u00e7as negr\u00f3ides. Ah! nunca homem deste s\u00e9culo batalhou mais esfor\u00e7adamente contra a seca de viver! Debalde! Mesmo de explora\u00e7\u00f5es t\u00e3o cativantes como essa, atrav\u00e9s da moral dos negr\u00f3ides, Jacinto regressava mais murcho, com bocejos mais cavos!<\/p>\n<p>E era ent\u00e3o que ele se refugiava intensamente na leitura de Schopenhauer e do Ecclesiastes. Porqu\u00ea? Sem d\u00favida porque ambos esses pessimistas o confirmavam nas conclus\u00f5es que ele tirava de uma experi\u00eancia paciente e rigorosa, \u00abque tudo \u00e9 vaidade ou dor, que quanto mais se sabe, mais se pena, e que ter sido rei de Jerusal\u00e9m e obtido os gozos todos na vida s\u00f3 leva a maior amargura\u2026\u00bb Mas porque rolara assim a t\u00e3o escura desilus\u00e3o \u2014 o saud\u00e1vel, rico, sereno e intelectual Jacinto? O velho escudeiro Grilo pretendia que \u00abSua Excel\u00eancia sofria de fartura!\u00bb<\/p>\n<p>III<br \/>\nOra, justamente depois desse Inverno, em que ele se embrenhara na moral dos negr\u00f3ides e instalara a luz el\u00e9ctrica entre os arvoredos do jardim, sucedeu que Jacinto teve a necessidade moral inilud\u00edvel de partir para o Norte, para o seu velho solar de Torges. Jacinto n\u00e3o conhecia Torges, e foi com desusado t\u00e9dio que ele se preparou, durante sete semanas, para essa jornada agreste. A quinta fica nas serras \u2014 e a rude casa solarenga, onde ainda resta uma torre do s\u00e9culo XV estava ocupada, havia trinta anos pelos caseiros, boa gente de trabalho, que comia o seu caldo entre a fumara\u00e7a da lareira e estendia o trigo a secar nas salas senhoriais.<\/p>\n<p>Jacinto, logo nos come\u00e7os de Mar\u00e7o, escrevera cuidadosamente ao seu procurador Sousa, que habitava a aldeia de Torges, ordenando-lhe que compusesse os telhados, caiasse os muros, envidra\u00e7asse as janelas. Depois mandou expedir, por comboios r\u00e1pidos, em caixotes que transpunham a custo os port\u00f5es do Jasmineiro, todos os confortos necess\u00e1rios a duas semanas de montanha \u2014 camas de penas, poltronas, div\u00e3s, l\u00e2mpadas de Carcel, banheiras de n\u00edquel, tubos ac\u00fasticos para chamar os escudeiros, tapetes persas para amaciar os soalhos. Um dos cocheiros partiu com um cup\u00e9, uma vit\u00f3ria, um breque, mulas e guizos.<\/p>\n<p>Depois foi o cozinheiro, com a bateria, a garrafeira, a geleira, bocais de trufas, caixas profundas de \u00e1guas minerais. Desde o amanhecer, nos p\u00e1tios largos do palacete, se pregava, se martelava, como na constru\u00e7\u00e3o de uma cidade. E as bagagens, desfilando, lembravam uma p\u00e1gina de Her\u00f3doto ao narrar a invas\u00e3o persa. Jacinto emagrecera com os cuidados daquele \u00caxodo. Por fim, larg\u00e1mos numa manh\u00e3 de Junho, com o Grilo e trinta e sete malas.<\/p>\n<p>Eu acompanhava Jacinto, no meu caminho para Go\u00e3es, onde vive minha tia, a uma l\u00e9gua farta de Torges: e \u00edamos num vag\u00e3o reservado, entre vastas almofadas, com perdizes e champanhe num cesto. A meio da jornada dev\u00edamos mudar de comboio \u2014 nessa esta\u00e7\u00e3o que tem um nome sonoro em ola e um t\u00e3o suave e c\u00e2ndido jardim de roseiras brancas. Era domingo de imensa poeira e sol \u2014 e encontr\u00e1mos a\u00ed, enchendo a plataforma estreita, todo um povar\u00e9u festivo que vinha da romaria de S. Greg\u00f3rio da Serra.<\/p>\n<p>Para aquele trasbordo, em tarde de arraial, o hor\u00e1rio s\u00f3 nos concedia tr\u00eas minutos avaros. O outro comboio j\u00e1 esperava, rente aos alpendres, impaciente e silvando. Uma sineta badalava com furor. E, sem mesmo atender \u00e0s lindas mo\u00e7as que ali saracoteavam, aos bandos, afogueadas, de len\u00e7os flamejantes, o seio farto coberto de ouro, e a imagem do santo espetada no chap\u00e9u \u2014 corremos, empurr\u00e1mos, fur\u00e1mos, salt\u00e1mos para o outro vag\u00e3o, j\u00e1 reservado, marcado por um cart\u00e3o com as iniciais de Jacinto. Imediatamente o trem rolou. Pensei ent\u00e3o no nosso Grilo, nas trinta e sete malas! E debru\u00e7ado da portinhola avistei ainda junto ao cunhal da esta\u00e7\u00e3o, sob os eucaliptos, um monte de bagagens, e homens de bon\u00e9 agaloado que, diante delas, bracejavam com desespero.<\/p>\n<p>Murmurei, recaindo nas almofadas:<\/p>\n<p>\u2014 Que servi\u00e7o!<\/p>\n<p>Jacinto, ao canto, sem descerrar os olhos, suspirou:<\/p>\n<p>\u2014 Que ma\u00e7ada!<\/p>\n<p>Toda uma hora desliz\u00e1mos lentamente entre trigais e vinhedo; e ainda o sol batia nas vidra\u00e7as, quente e poeirento, quando cheg\u00e1mos \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de Gondim, onde o procurador de Jacinto, o excelente Sousa, nos devia esperar com cavalos para treparmos a serra at\u00e9 ao solar de Torges. Por tr\u00e1s do jardim da esta\u00e7\u00e3o, todo florido tamb\u00e9m de rosas e margaridas, Jacinto reconheceu logo as suas carruagens, ainda empacotadas em lona.<\/p>\n<p>Mas quando nos ape\u00e1mos no pequeno cais branco e fresco \u2014 s\u00f3 houve em torno de n\u00f3s solid\u00e3o e sil\u00eancio\u2026 Nem procurador, nem cavalos! O chefe da esta\u00e7\u00e3o, a quem eu perguntara com ansiedade \u00abse n\u00e3o aparecera ali o Sr. Sousa, se n\u00e3o conhecia o Sr. Sousa\u00bb, tirou afavelmente o seu bon\u00e9 de gal\u00e3o. Era um mo\u00e7o gordo e redondo, com cores de ma\u00e7\u00e3 camoesa, que trazia sob o bra\u00e7o um volume de versos. \u00abConhecia perfeitamente o Sr. Sousa! Tr\u00eas semanas antes jogara ele a manilha com o Sr. Sousa! Nessa tarde, por\u00e9m, infelizmente, n\u00e3o avistara o Sr. Sousa!\u00bb O comboio desaparecera por detr\u00e1s das fragas altas que ali pendem sobre o rio. Um carregador enrolava o cigarro, assobiando. Rente da grade do jardim, uma velha, toda de negro, dormitava agachada no ch\u00e3o, diante de uma cesta de ovos. E o nosso Grilo, e as nossas bagagens?\u2026 O chefe encolheu risonhamente os ombros n\u00e9dios. Todos os nossos bens tinham encalhado, decerto, naquela esta\u00e7\u00e3o de roseiras brancas que tem um nome sonoro em ola. E n\u00f3s ali est\u00e1vamos, perdidos na serra agreste, sem procurador, sem cavalos, sem Grilo, sem malas.<\/p>\n<p>Para que esfiar miudamente o lance lament\u00e1vel? Ao p\u00e9 da esta\u00e7\u00e3o, numa quebrada da serra, havia um casal foreiro \u00e0 quinta, onde alcan\u00e7\u00e1mos, para nos levarem e nos guiarem a Torges, uma \u00e9gua lazarenta, um jumento branco, um rapaz e um podengo. E a\u00ed come\u00e7\u00e1mos a trepar, enfastiadamente, estes caminhos agrestes \u2014 os mesmos, decerto, por onde vinham e iam, de monte a rio, os Jacintos do s\u00e9culo XV. Mas, passada uma tr\u00e9mula ponte de pau que galga um ribeiro todo quebrado por fragas (e onde abunda a truta ador\u00e1vel) os nossos males esqueceram, ante a inesperada, incompar\u00e1vel beleza daquela serra bendita. O divino artista que est\u00e1 nos C\u00e9us compusera, certamente, csse monte numa das suas manh\u00e3s de mais solene e buc\u00f3lica inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A grandeza era tanta como a gra\u00e7a\u2026 Dizer os vales fofos de verdura, os bosques quase sacros, os pomares cheirosos e em flor, a frescura das \u00e1guas cantantes, as ermidinhas branqueando nos altos, as rochas musgosas, o ar de uma do\u00e7ura de Para\u00edso, toda a majestade e toda a lindeza \u2014 n\u00e3o \u00e9 para mim, homem de pequena arfe. Nem creio mesmo que fosse para mestre Hor\u00e1cio. Quem pode dizer a beleza das coisas, t\u00e3o simples e inexprim\u00edvel? Jacinto adiante, na \u00e9gua tarda, murmurava:<\/p>\n<p>\u2014 Ah! que beleza!<\/p>\n<p>Eu atr\u00e1s, no burro, com as pernas bambas, murmurava:<\/p>\n<p>\u2014 Ah! que beleza!<\/p>\n<p>Os espertos regatos riam, saltando de rocha em rocha. Finos ramos de arbustos floridos ro\u00e7avam as nossas faces, com familiaridade e carinho. Muito tempo um melro nos seguiu, de choupo para castanheiro, assobiando os nossos louvores. Serra bem acolhedora e am\u00e1vel\u2026 Ah! que beleza!<\/p>\n<p>Por entre estes \u00abAhs!\u00bb maravilhados cheg\u00e1mos a uma avenida de faias, que nos pareceu cl\u00e1ssica e nobre. Atirando uma nova vergastada ao burro e \u00e0 \u00e9gua, o nosso rapaz, com o seu podengo ao lado, gritava:<\/p>\n<p>\u2014 Aqui \u00e9 que estemos!<\/p>\n<p>E ao fundo das faias havia com efeito um port\u00e3o de quinta, que um escudo de armas de velha pedra, ro\u00edda de musgo, grandemente afidalgava. Dentro j\u00e1 os c\u00e3es ladravam com furor. E, mal Jacinto, e eu atr\u00e1s dele no burro de Sancho, transpusemos o limiar solarengo, correu para n\u00f3s, do alto de uma escadaria, um homem branco, rapado como um cl\u00e9rigo, sem colete, sem jaleca, que erguia para o ar, num assombro, os bra\u00e7os esgazeados. Era o caseiro, o Z\u00e9 Br\u00e1s. E logo ali, nas pedras do p\u00e1tio, entre o latir dos c\u00e3es, surdiu uma tumultuosa hist\u00f3ria que o pobre Br\u00e1s balbuciava, aturdido, e que enchia a face de Jacinto de lividez e de c\u00f3lera. O caseiro n\u00e3o esperava Sua Excel\u00eancia. Ningu\u00e9m esperava Sua Excel\u00eancia. (Ele dizia sua insel\u00eancia.)<\/p>\n<p>O procurador, o Sr. Sousa, estava para a raia desde Maio, a tratar a m\u00e3e que levara um couce de mula. E decerto houvera engano, cartas perdidas\u2026 Porque o Sr. Sousa s\u00f3 contava com Sua Excel\u00eancia, em Setembro, para a vindima. Na casa nenhuma obra come\u00e7ara. E infelizmente para Sua Excel\u00eancia os telhados ainda estavam sem telhas, e as janelas sem vidra\u00e7as\u2026<\/p>\n<p>Cruzei os bra\u00e7os, num justo espanto. Mas os caixotes \u2014 esses caixotes remetidos para Torges, com tanta prud\u00eancia, em Abril, repletos de colch\u00f5es, de regalos, de civiliza\u00e7\u00e3o?\u2026 O caseiro, vago, sem compreender, arregalava os olhos mi\u00fados, onde j\u00e1 bailavam l\u00e1grimas. Os caixotes?! Nada chegara, nada aparecera. E na sua perturba\u00e7\u00e3o o Z\u00e9 Br\u00e1s procurava entre as arcadas do p\u00e1tio, nas algibeiras das pantalonas\u2026 Os caixotes? N\u00e3o, n\u00e3o tinha os caixotes!<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que o cocheiro de Jacinto (que trouxera os cavalos e as carruagens) se acercou, gravemente. Esse era um civilizado \u2014 e acusou logo o governo. J\u00e1 quando ele servia o senhor visconde de S. Francisco se tinham assim perdido, por desleixo do governo, da cidade para a serra, dois caixotes com vinho velho da Madeira e roupa branca de senhora. Por isso ele, escarmentado, sem confian\u00e7a na Na\u00e7\u00e3o, n\u00e3o largara as carruagens \u2014 e era tudo o que restava a Sua Excel\u00eancia: o breque, a vit\u00f3ria, o cup\u00e9 e os guizos. Somente, naquela rude montanha, n\u00e3o havia estradas onde elas rolassem. E corno s\u00f3 podiam subir para a quinta em grandes carros de bois \u2014 ele l\u00e1 as deixara em baixo, na esta\u00e7\u00e3o, quietas, empacotadas na lona\u2026<\/p>\n<p>Jacinto ficara plantado diante de mim, com as m\u00e3os nos bolsos:<\/p>\n<p>\u2014 E agora?<\/p>\n<p>Nada restava sen\u00e3o recolher, cear o caldo do Z\u00e9 Br\u00e1s, e dormir nas palhas que os fados nos concedessem. Subimos. A escadaria nobre conduzia a uma varanda, toda coberta, em alpendre, acompanhando a fachada do casar\u00e3o e ornada, entre os seus grossos pilares de granito, por caixotes cheios de terra, em que floriam cravos. Colhi um cravo. Entr\u00e1mos. \u00c9 o meu pobre Jacinto contemplou, enfim, as salas do seu solar! Eram enormes, com as altas paredes rebocadas a cal que o tempo e o abandono tinham enegrecido, e vazias, desoladamente nuas, oferecendo apenas como vest\u00edgio de habita\u00e7\u00e3o e de vida, pelos cantos, algum monte de cestos ou algum molho de enxadas. Nos tectos remotos de carvalho negro alvejavam manchas \u2014 que era o c\u00e9u j\u00e1 p\u00e1lido do fim da tarde, surpreendido atrav\u00e9s dos buracos do telhado. N\u00e3o restava uma vidra\u00e7a. Por vezes, sob os nossos passos, uma t\u00e1bua podre rangia e cedia.<\/p>\n<p>Par\u00e1mos, enfim, na \u00faltima, a mais vasta, onde havia duas arcas tulheiras para guardar o gr\u00e3o; e a\u00ed depusemos, melancolicamente, o que nos ficara de trinta e sete malas \u2014 os palet\u00f3s alvadios, uma bengala e um Jornal da Tarde. Atrav\u00e9s das ]anelas desvidra\u00e7adas, por onde se avistavam copas de arvoredos e as serras azuis de al\u00e9m-rio, o ar entrava, montesino e largo, circulando plenamente como em um eirado, com aromas de pinheiro bravo. E l\u00e1 de baixo, dos vales, subia, desgarrada e triste, uma voz de pegureira cantando. Jacinto balbuciou:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 horroroso!<\/p>\n<p>Eu murmurei:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 campestre!<\/p>\n<p>IV<br \/>\nO Z\u00e9 Br\u00e1s, no entanto, com as m\u00e3os na cabe\u00e7a, desaparecera a ordenar a ceia para suas insel\u00eancias. O pobre Jacinto, esbarrondado pelo desastre, sem resist\u00eancia contra aquele brusco desaparecimento de toda a civiliza\u00e7\u00e3o, ca\u00edra pesadamente sobre o poial de uma janela, e dali olhava os montes. E eu, a quem aqueles ares serranos e o cantar da pegureira sabiam bem, terminei por descer \u00e0 cozinha, conduzido pelo cocheiro, atrav\u00e9s de escadas e becos, onde a escurid\u00e3o vinha menos do crep\u00fasculo do que de densas teias de aranha.<\/p>\n<p>A cozinha era uma espessa massa de tons e formas negras, cor de fuligem, onde refulgia ao fundo, sobre o ch\u00e3o de terra, uma fogueira vermelha que lambia grossas panelas de ferro e se perdia em fumarada pela grade escassa que no alto coava a luz. A\u00ed, um bando alvora\u00e7ado e palreiro de mulheres depenava frangos, batia ovos, escarolava arroz, com santo fervor\u2026 Do meio delas o bom caseiro, estonteado, investiu para mim jurando que \u00aba ceia de suas insel\u00eancias n\u00e3o demorava um credo\u00bb. E, como eu o interrogava a respeito de camas, o digno Br\u00e1s teve um murm\u00fario vago e t\u00edmido sobre \u00abenxergazinhas no ch\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o que basta, Sr. Z\u00e9 Br\u00e1s \u2014 acudi eu para o consolar.<\/p>\n<p>\u2014 Pois assim Deus seja servido! \u2014 suspirou o homem excelente, que atravessava, nessa hora, o transe mais amargo da sua vida serrana.<\/p>\n<p>Voltando a cima, com estas consolantes novas de ceia e cama, encontrei ainda o meu Jacinto no poial da janela, embebendo-se todo da doce paz crepuscular, que lenta e caladamente se estabelecia sobre vale e monte. No alto j\u00e1 tremeluzia uma estrela, a V\u00e9sper diamantina, que \u00e9 tudo o que neste c\u00e9u crist\u00e3o resta do esplendor corporal de V\u00e9nus! Jacinto nunca considerara bem aquela estrela \u2014 nem assistira a este majestoso e doce adormecer das coisas. Esse enegrecimento de montes e arvoredos, casais claros fundindo-se na sombra, um toque dormente de sino que vinha pelas quebradas, o cochichar das \u00e1guas entre as relvas baixas \u2014 eram para ele como inicia\u00e7\u00f5es. Eu estava defronte, no outro poial. E senti-o suspirar como um homem que enfim descansa.<\/p>\n<p>Assim nos encontrou nesta contempla\u00e7\u00e3o o Z\u00e9 Br\u00e1s com o doce aviso de que estava na mesa a ceiazinha. Era adiante, noutra sala mais nua, mais negra. E, a\u00ed, o meu supercivilizado Jacinto recuou com um pavor genu\u00edno. Na mesa de pinho, recoberta com uma toalha de m\u00e3os, encostada \u00e0 parede s\u00f3rdida, uma vela de sebo, meio derretida num casti\u00e7al de lat\u00e3o, alumiava dois pratos de lou\u00e7a amarela, ladeados por colheres de pau e por garfos de ferro. Os copos, de vidro grosso e ba\u00e7o, conservavam o tom roxo do vinho que neles passara em fartos anos de fartas vindimas. O covilhete de barro com as azeitonas deleitaria, pela sua singeleza \u00e1tica, o cora\u00e7\u00e3o de Di\u00f3genes. Na larga broa estava cravado um facalh\u00e3o\u2026 Pobre Jacinto!<\/p>\n<p>Mas l\u00e1 abancou resignado, e muito tempo, pensativamente, esfregou com o seu len\u00e7o o garfo negro e a colher de pau. Depois, mudo, desconfiado, provou um gole curto do caldo, que era de galinha e rescendia. Provou, e levantou para mim, seu companheiro e amigo, uns olhos largos que luziam, surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada do caldo, mais cheia, mais lenta\u2026 E sorriu, murmurando com espanto:<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 bom!<\/p>\n<p>Estava realmente bom: tinha f\u00edgado e tinha moela: o seu perfume enternecia. Eu, tr\u00eas vezes, com energia, ataquei aquele caldo: foi Jacinto que rapou a sopeira. Mas j\u00e1 arredando a broa, arredando a vela, o bom Z\u00e9 Br\u00e1s pousara na mesa uma travessa vidrada, que transbordava de arroz com favas. Ora, apesar de a fava (que os Gregos chamaram ciboria) pertencer \u00e0s \u00e9pocas superiores da civiliza\u00e7\u00e3o e promover tanto a sapi\u00eancia que havia em S\u00edcio, na Gal\u00e1cia, um templo dedicado a Minerva Ciboriana \u2014 Jacinto sempre detestara favas. Tentou todavia uma garfada t\u00edmida. De novo os seus olhos, alargados pelo assombro, procuraram os meus. Outra garfada, outra concentra\u00e7\u00e3o\u2026 E eis que o meu dific\u00edlimo amigo exclama:<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 \u00f3ptimo!<\/p>\n<p>Eram os picantes ares da serra? Era a arte deliciosa daquelas mulheres que em baixo remexiam as panelas, cantando o Vira, meu bem? N\u00e3o sei \u2014 mas os louvores de Jacinto a cada travessa foram ganhando em amplid\u00e3o e firmeza. E diante do frango louro, assado no espeto de pau, terminou por bradar:<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 divino!<\/p>\n<p>Nada, por\u00e9m, o entusiasmou como o vinho, o vinho caindo de alto, da grossa caneca verde, um vinho gostoso, penetrante, vivo, quente, que tinha em si mais alma que muito poema ou livro santo! Mirando \u00e0 luz de sebo o copo rude que ele orlava de espuma, eu recordava o dia ge\u00f3rgico em que Virg\u00edlio, em casa de Hor\u00e1cio, sob a ramada, cantava o fresco palhete da R\u00e9tica. E Jacinto, com uma cor que eu nunca vira na sua palidez schopenh\u00e1urica, sussurrou logo o doce verso:<\/p>\n<p>Rethica quo te carmina dicat<\/p>\n<p>Quem dignamente te cantar\u00e1, vinho daquelas serras?!<\/p>\n<p>Assim jant\u00e1mos deliciosamente, sob os ausp\u00edcios do Z\u00e9 Br\u00e1s. E depois volt\u00e1mos para as alegrias \u00fanicas da casa, para as janelas desvidra\u00e7adas, a contemplar silenciosamente um sumptuoso c\u00e9u de Ver\u00e3o, t\u00e3o cheio de estrelas que todo ele parecia uma densa poeirada de ouro vivo, suspensa, im\u00f3vel, por cima dos montes negros. Como eu observei ao meu Jacinto, na cidade nunca se olham os astros por causa dos candeeiros \u2014 que os ofuscam: e nunca se entra por isso numa completa comunh\u00e3o com o universo. O homem nas capitais pertence \u00e0 sua casa, ou, se o impelem fortes tend\u00eancias de sociabilidade, ao seu bairro. Tudo o isola e o separa da restante Natureza \u2014 os pr\u00e9dios obstrutores de seis andares, a fuma\u00e7a das chamin\u00e9s, o rolar moroso e grosso dos \u00f3nibus, a trama encarceradora da vida urbana\u2026 Mas que diferen\u00e7a, num cimo de monte, como Torges! A\u00ed todas essas belas estrelas olham para n\u00f3s rebrilhando, \u00e0 maneira de olhos conscientes, umas fixamente, com sublime indiferen\u00e7a, outras ansiosamente, com uma luz que palpita, uma luz que chama, como se tentassem revelar os seus segredos ou compreender os nossos\u2026 E \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o sentir uma solidariedade perfeita entre esses imensos mundos e os nossos pobres corpos. Todos s\u00e3o obra da mesma vontade. Todos vivem da ac\u00e7\u00e3o dessa vontade imanente. Todos, portanto, desde os \u00daranos at\u00e9 aos Jacintos, constitu\u00edmos modos diversos de um ser \u00fanico, e atrav\u00e9s das suas transforma\u00e7\u00f5es somam a mesma unidade. N\u00e3o h\u00e1 ideia mais consoladora do que esta \u2014 que eu, e tu, e aquele monte, e o Sol que, agora, se esconde s\u00e3o mol\u00e9culas do mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim. Desde logo se somem as responsabilidades torturantes do individualismo. Que somos n\u00f3s? Formas sem for\u00e7a, que uma For\u00e7a impele. E h\u00e1 um descanso delicioso nesta certeza, mesmo fugitiva, de que se \u00e9 o gr\u00e3o de p\u00f3 irrespons\u00e1vel e passivo que vai levado no grande vento, ou a gota perdida na torrente! Jacinto concordava, sumido na sombra. Nem ele nem eu sab\u00edamos os nomes desses astros admir\u00e1veis. Eu, por causa da maci\u00e7a e indesbast\u00e1vel ignor\u00e2ncia de bacharel, com que sa\u00ed do ventre de Coimbra, minha m\u00e3e espiritual. Jacinto, porque na sua ponderosa biblioteca tinha trezentos e dezoito tratados sobre astronomia! Mas que nos importava, de resto, que aquele astro al\u00e9m se chamasse S\u00edrio e aquele outro Aldebar\u00e3? Que lhes importava a eles que um de n\u00f3s fosse Jos\u00e9 e o outro Jacinto? \u00c9ramos formas transit\u00f3rias do mesmo ser eterno \u2014 e em n\u00f3s havia o mesmo Deus. E se eles tamb\u00e9m assim o compreendiam, est\u00e1vamos ali, n\u00f3s \u00e0 janela num casar\u00e3o serrano, eles no seu maravilhoso infinito, perfazendo um acto sacrossanto, um perfeito acto de Gra\u00e7a \u2014 que era sentir conscientemente a nossa unidade, e realizar, durante um instante na consci\u00eancia, a nossa diviniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim enevoadamente filosof\u00e1vamos \u2014 quando Z\u00e9 Br\u00e1s, com uma candeia na m\u00e3o, veio avisar que \u00abestavam preparadas as camas de suas insel\u00eancias\u2026\u00bb Da idealidade descemos gostosamente \u00e0 realidade, e que vimos ent\u00e3o n\u00f3s, os irm\u00e3os dos astros? Em duas salas tenebrosas e c\u00f4ncavas, duas enxergas, postas no ch\u00e3o, a um canto, com duas cobertas de chita; \u00e0 cabeceira um casti\u00e7al de lat\u00e3o, pousado sobre um alqueire: e aos p\u00e9s, como lavat\u00f3rio, um alguidar vidrado em cima de uma cadeira de pau!<\/p>\n<p>Em sil\u00eancio, o meu supercivilizado amigo palpou a sua enxerga e sentiu nela a rigidez de um granito. Depois, correndo pela face desca\u00edda os dedos murchos, considerou que, perdidas as suas malas, n\u00e3o tinha nem chinelas nem roup\u00e3o! E foi ainda Z\u00e9 Br\u00e1s que providenciou, trazendo ao pobre Jacinto, para ele desafogar os p\u00e9s, uns tremendos tamancos de pau, e para ele embrulhar o corpo, docemente educado em S\u00edbaris, uma camisa da caseira, enorme, de estopa mais \u00e1spera que estamenha de penitente, e com folhos crespos e duros como lavores em madeira\u2026 Para o consolar, lembrei que Plat\u00e3o, quando compunha o Banquete, Xenofonte, quando comandava os Dez Mil, dormiam em piores catres. As enxergas austeras fazem as fortes almas \u2014 e \u00e9 s\u00f3 vestido de estamenha que se penetra no Para\u00edso.<\/p>\n<p>\u2014 Tem voc\u00ea \u2014 murmurou o meu amigo, desatento e seco \u2014 alguma coisa que eu leia?\u2026 Eu n\u00e3o posso adormecer sem ler!<\/p>\n<p>Eu possu\u00eda apenas o n\u00famero do Jornal da Tarde, que rasguei pelo meio e partilhei com ele fraternalmente. E quem n\u00e3o viu ent\u00e3o Jacinto, senhor de Torges, aca\u00e7apado \u00e0 borda da enxerga, junto da vela que pingava sobre o alqueire, com os p\u00e9s nus encafuados nos grossos socos, perdido dentro da camisa da patroa, toda em folhos, percorrendo na metade do Jornal da Tarde, com os olhos turvos, os an\u00fancios dos paquetes \u2014 n\u00e3o pode saber o que \u00e9 uma vigorosa e real imagem do desalento!<\/p>\n<p>Assim o deixei \u2014 e da\u00ed a pouco, estendido na minha enxerga tamb\u00e9m espartina, subia, atrav\u00e9s de um sonho jovial e erudito, ao planeta V\u00e9nus, onde encontrava, entre os olmos e os ciprestes, num vergel, Plat\u00e3o e o Z\u00e9 Br\u00e1s, em alta camaradagem intelectual, bebendo o vinho da R\u00e9tica pelos copos de Torges! Trav\u00e1mos todos tr\u00eas bruscamente uma controv\u00e9rsia sobre o s\u00e9culo XIX. Ao longe, por entre uma floresta de roseiras mais altas que carvalhos, alvejavam os m\u00e1rmores de uma cidade e ressoavam cantos sacros. N\u00e3o recordo o que Xenofonte sustentou acerca da civiliza\u00e7\u00e3o e do fon\u00f3grafo. De repente tudo foi turbado por fuscas nuvens, atrav\u00e9s das quais eu distinguia Jacinto, fugindo num burro que ele impelia furiosamente com os calcanhares, com uma vergasta, com berros, para os lados do Jasmineiro!<\/p>\n<p>V<br \/>\nCedo, de madrugada, sem rumor, para n\u00e3o despertar Jacinto, que, com as m\u00e3os sobre o peito, dormia placidamente no seu leito de granito \u2014 parti para Go\u00e3es. E durante tr\u00eas quietas semanas, naquela vila onde se conservam os h\u00e1bitos e as ideias do tempo de el-rei D. Dinis, n\u00e3o soube do meu desconsolado amigo, que decerto fugira dos seus tectos esburacados e remergulhara na civiliza\u00e7\u00e3o. Depois, por uma abrasada manh\u00e3 de Agosto, descendo de Go\u00e3es, de novo trilhei a avenida de faias, e entrei o port\u00e3o solarengo de Torges, entre o furioso latir dos rafeiros. A mulher do Z\u00e9 Br\u00e1s apareceu alvoro\u00e7ada \u00e0 porta da tulha. E a sua nova foi logo que o Sr. D. Jacinto (em Torges, o meu amigo tinha dom) andava l\u00e1 em baixo com o Sousa nos campos de Freixomil.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, ainda c\u00e1 est\u00e1 o Sr. D. Jacinto?<\/p>\n<p>Sua insel\u00eancia ainda estava em Torges \u2014 e sua insel\u00eancia ficava para a vindima!\u2026 Justamente eu reparava que as janelas do solar tinham vidra\u00e7as novas; e a um canto do p\u00e1tio pousavam baldes de cal; uma escada de pedreiro ficara arrimada contra a varanda; e num caixote aberto, ainda cheio de palha de empacotar, dormiam dois gatos.<\/p>\n<p>\u2014 E o Grilo apareceu?<\/p>\n<p>\u2014 O Sr. Grilo est\u00e1 no pomar, \u00e0 sombra.<\/p>\n<p>\u2014 Bem! E as malas?<\/p>\n<p>\u2014 O Sr. D. Jacinto j\u00e1 tem o seu saquinho de couro\u2026<\/p>\n<p>Louvado Deus! O meu Jacinto estava, enfim, provido de civiliza\u00e7\u00e3o! Subi contente. Na sala nobre, onde o soalho fora composto e esfregado, encontrei uma mesa recoberta de oleado, prateleiras de pinho com lou\u00e7a branca de Barcelos e cadeiras de palhinha, orlando as paredes muito caiadas que davam uma frescura de capela nova. Ao lado, noutra sala, tamb\u00e9m de faiscante alvura, havia o conforto inesperado de tr\u00eas cadeiras de verga da Madeira, com bra\u00e7os largos e almofadas de chita; sobre a mesa de pinho, o papel alma\u00e7o, o candeeiro de azeite, as penas de pato espetadas num tinteiro de frade, pareciam preparadas para um estudo calmo e ditoso das humanidades; e na parede, suspensa de dois pregos, uma estantezinha continha quatro ou cinco livros, folheados e usados, o D. Quixote, um Virg\u00edlio, uma Hist\u00f3ria de Roma, as Cr\u00f3nicas de Froissart. Adiante era certamente o quarto de D. Jacinto, um quarto claro e casto de estudante, com um catre de ferro, um lavat\u00f3rio de ferro, a roupa pendurada de cabides toscos. Tudo resplandecia de asseio e ordem. As janelas cerradas defendiam do sol de Agosto, que escaldava fora, os peitoris de pedra. Do soalho, borrifado de \u00e1gua, subia uma fresquid\u00e3o consoladora. Num velho vaso azul, um molho de cravos alegrava e perfumava. N\u00e3o havia um rumor. Torges dormia no esplendor da sesta. E, envolvido naquele repouso de convento remoto, terminei por me estender numa cadeira de verga junto \u00e0 mesa, abri languidamente o Virg\u00edlio, murmurando:<\/p>\n<p>Fortunate Jacinthe! tu inter arua nota<br \/>\nEt fontes sacros frigus captabis opacum.<\/p>\n<p>J\u00e1 mesmo irreverentemente adormecera sobre o divino bucolista, quando me despertou um brado amigo. Era o nosso Jacinto. E imediatamente o comparei a uma planta, meio murcha e estiolada no escuro, que fora profusamente regada e revivera em pleno sol. N\u00e3o corcovava. Sobre a sua palidez de supercivilizado, o ar da serra ou a reconcilia\u00e7\u00e3o com a vida tinham espalhado um tom trigueiro e forte que o virilizava soberbamente. Dos olhos, que na cidade eu lhe conhecera sempre crepusculares, saltava agora um brilho de meio-dia, decidido e largo, que mergulhava francamente na beleza das coisas. J\u00e1 n\u00e3o passava as m\u00e3os murchas sobre a face \u2014 batia com elas rijamente na coxa\u2026 Que sei eu? Era uma reencarna\u00e7\u00e3o. E tudo o que me contou, pisando alegremente com os sapatos brancos o soalho, foi que se sentira, ao fim de tr\u00eas dias em Torges, como desanuviado, mandara comprar um colch\u00e3o macio, reunira cinco livros nunca lidos, e ali estava\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Para todo o Ver\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Para todo o sempre! E agora, homem das cidades, vem almo\u00e7ar umas trutas que eu pesquei, e compreende enfim o que \u00e9 o C\u00e9u.<\/p>\n<p>As trutas eram, com efeito, celestes. E apareceu tamb\u00e9m uma salada fria de couve-flor e vagens, e um vinho branco de Az\u00e3es\u2026 Mas quem condignamente vos cantar\u00e1 comeres e beberes daquelas serras?<\/p>\n<p>De tarde, finda a calma, passe\u00e1mos pelos caminhos coleando a vasta quinta, que vai de vales a montes. Jacinto parava a contemplar com carinho os milhos altos. Com a m\u00e3o espalmada e forte batia no tronco dos castanheiros, como nas costas de amigos recuperados. Todo o fio de \u00e1gua, todo o tufo de erva, todo o p\u00e9 de vinha o ocupava como vidas filiais por que fosse respons\u00e1vel. Conhecia certos melros que cantavam em certos choupos. Exclamava enternecido:<\/p>\n<p>\u2014 Que encanto, a flor do trevo!<\/p>\n<p>\u00c0 noite, depois de um cabrito assado no forno, a que mestre Hor\u00e1cio teria dedicado uma ode (talvez mesmo um carme her\u00f3ico) convers\u00e1mos sobre o Destino e a Vida. Eu citei, com discreta mal\u00edcia, Schopenhauer e o Ecclesiastes\u2026 Mas Jacinto ergueu os ombros, com seguro desd\u00e9m. A sua confian\u00e7a nesses dois sombrios explicadores da vida desaparecera, e irremediavelmente, sem poder mais voltar, como uma n\u00e9voa que o sol espalha. Tremenda tolice! Afirmar que a vida se comp\u00f5e, meramente, de uma longa ilus\u00e3o \u2014 \u00e9 erguer um aparatoso sistema sobre um ponto especial e estreito da vida, deixando fora do sistema toda a vida restante, como uma contradi\u00e7\u00e3o permanente e soberba. Era como se ele, Jacinto, apontando para uma urtiga, crescida naquele p\u00e1tio, declarasse, triunfalmente: \u00abAqui est\u00e1 uma urtiga! Toda a quinta de Torges, portanto, \u00e9 uma massa de urtigas.\u00bb \u2014 Mas bastaria que o h\u00f3spede erguesse os olhos, para ver as searas, os pomares e os vinhedos!<\/p>\n<p>De resto, desses dois ilustres pessimistas, um, o alem\u00e3o, que conhecia ele da vida \u2014 dessa vida de que fizera, com doutoral majestade, uma teoria definitiva e dolente? Tudo o que pode conhecer quem, como este genial farsante, viveu cinquenta anos numa soturna hospedaria de prov\u00edncia, levantando apenas os \u00f3culos dos livros para conversar, \u00e0 mesa\u2014redonda, com os alferes da guarni\u00e7\u00e3o! E o outro, o israelita, o homem dos Cantares, o muito pedantesco rei de Jerusal\u00e9m, s\u00f3 descobre que a vida \u00e9 uma ilus\u00e3o aos setenta e cinco anos, quando o poder lhe escapa das m\u00e3os tr\u00e9mulas, e o seu serralho de trezentas concubinas se torna ridiculamente sup\u00e9rfluo \u00e0 sua carca\u00e7a frigida. Um dogmatiza funebremente sobre o que n\u00e3o sabe \u2014 e o outro sobre o que n\u00e3o pode. Mas que se d\u00ea a esse bom Schopenhauer uma vida t\u00e3o completa e cheia como a de C\u00e9sar, e onde estar\u00e1 o seu schopenhauerismo? Que se restitua a esse sult\u00e3o, besuntado de literatura, que tanto edificou e professorou em Jerusal\u00e9m, a sua virilidade \u2014 e onde estar\u00e1 o Ecclesiastes? De resto, que importa bendizer ou maldizer da vida? Afortunada ou dolorosa, fecunda ou v\u00e3, ela tem de ser vivida. Loucos aqueles que, para a atravessar, se embrulham desde logo em pesados v\u00e9us de tristeza e desilus\u00e3o, de sorte que na sua estrada tudo lhes seja negrume, n\u00e3o s\u00f3 as l\u00e9guas realmente escuras, mas mesmo aquelas em que cintila um sol am\u00e1vel. Na Terra tudo vive \u2014 e s\u00f3 o homem sente a dor e a desilus\u00e3o da vida. E tanto mais as sente, quanto mais alarga e acumula a obra dessa intelig\u00eancia que o torna homem, e que o separa da restante Natureza, impensante e inerte. \u00c9 no m\u00e1ximo da civiliza\u00e7\u00e3o que ele experimenta o m\u00e1ximo de t\u00e9dio. A sapi\u00eancia, portanto, este em recuar at\u00e9 esse honesto m\u00ednimo de civiliza\u00e7\u00e3o, que consiste em ter um tecto de colmo, uma leira de terra e o gr\u00e3o para nela semear. Em resumo, para reaver a felicidade, \u00e9 necess\u00e1rio regressar ao Para\u00edso \u2014 e ficar l\u00e1, quieto, na sua folha de vinha, inteiramente desguarnecido de civiliza\u00e7\u00e3o, contemplando o anho aos saltos entre o tomilho, e sem procurar, nem com o desejo, a \u00e1rvore funesta da Ci\u00eancia! Dixi!<\/p>\n<p>Eu escutava, assombrado, este Jacinto nov\u00edssimo. Era verdadeiramente uma ressurrei\u00e7\u00e3o no magn\u00edfico estilo de L\u00e1zaro. Ao surge et ambula que lhe tinham sussurrado as \u00e1guas e os bosques de Torges, ele erguia-se do fundo da cova do Pessimismo, desembara\u00e7ava-se das suas casacas de Poole, et ambulabat, e come\u00e7ava a ser ditoso. Quando recolhi ao meu quarto, \u00e0quelas horas honestas que conv\u00eam ao campo e ao Optimismo tomei entre as minhas a m\u00e3o j\u00e1 firme do meu amigo, e pensando que ele enfim alcan\u00e7ara a verdadeira realeza, porque possu\u00eda a verdadeira liberdade, gritei-lhe os meus parab\u00e9ns \u00e0 maneira do moralista de T\u00edbure:<\/p>\n<p>Vive et regna, fortunate Jacinthe!<\/p>\n<p>Da\u00ed a pouco, atrav\u00e9s da porta aberta que nos separava, senti uma risada fresca, mo\u00e7a, genu\u00edna e consolada. Era Jacinto que lia o D. Quixote. Oh bem\u2014aventurado Jacinto! Conservava o agudo poder de criticar, e recuperara o dom divino de rir!<\/p>\n<p>Quatro anos v\u00e3o passados. Jacinto ainda habita Torges. As paredes do seu solar continuam bem caiadas, mas nuas.<\/p>\n<p>De Inverno enverga um gab\u00e3o de briche e acende um braseiro. Para chamar o Grilo ou a mo\u00e7a, bate as m\u00e3os, como fazia Cat\u00e3o. Com os seus deliciosos vagares, j\u00e1 leu a Il\u00edada. N\u00e3o faz a barba. Nos caminhos silvestres p\u00e1ra e fala com as crian\u00e7as. Todos os casais da serra o bendizem. Ou\u00e7o que vai casar com uma forte, s\u00e3 e bela rapariga de Go\u00e3es. Decerto crescer\u00e1 ali uma tribo, que ser\u00e1 grata ao Senhor!<\/p>\n<p>Como ele, recentemente, me mandou pedir livros da sua livraria (uma Vida de Buda, uma Hist\u00f3ria da Gr\u00e9cia e as obras de S. Francisco de Sales) fui, depois destes quatro anos, ao Jasmineiro deserto. Cada passo meu sobre os fofos tapetes de Caram\u00e2nia soou triste como num ch\u00e3o de mortos. Todos os brocados estavam engelhados, esga\u00e7ados. Pelas paredes pendiam, como olhos fora de \u00f3rbitas, os bot\u00f5es el\u00e9ctricos das campainhas e das luzes \u2014 e havia vagos fios de arame, soltos, enroscados, onde a aranha regalada e reinando tecera teias espessas. Na livraria, todo o vasto saber dos s\u00e9culos jazia numa imensa mudez, debaixo de uma imensa poeira. Sobre as lombadas dos sistemas filos\u00f3ficos alvejava o bolor: vorazmente a tra\u00e7a devastara as Hist\u00f3rias Universais: errava ali um cheiro mole de literatura apodrecida \u2014 e eu abalei, com o len\u00e7o no nariz, certo de que naqueles vinte mil volumes n\u00e3o restava uma verdade viva! Quis lavar as m\u00e3os, maculadas pelo contacto com estes detritos de conhecimentos humanos. Mas os maravilhosos aparelhos do lavat\u00f3rio, da sala de banho, enferrujados, perros, dessoldados, n\u00e3o largaram uma gota de \u00e1gua; e, como chovia nessa tarde de Abril, tive de sair \u00e0 varanda, pedir ao c\u00e9u que me lavasse.<\/p>\n<p>Ao descer, penetrei no gabinete de trabalho de Jacinto e tropecei num mont\u00e3o negro de ferragens, rodas, l\u00e2minas, campainhas, parafusos\u2026 Entreabri a janela, e reconheci o telefone, o teatrofone, o fon\u00f3grafo, outros aparelhos, tombados das suas peanhas, s\u00f3rdidos, desfeitos sob a poeira dos anos. Empurrei com o p\u00e9 este lixo do engenho humano. A m\u00e1quina de escrever, escancarada, com os buracos negros marcando as letras desarraigadas era como uma boca alvar e desdentada. O telefone parecia esborrachado, enrodilhado nas suas tripas de arame.<\/p>\n<p>Na trompa do fon\u00f3grafo, torta, esbei\u00e7ada, para sempre muda, fervilhavam carochas. E ali jaziam, t\u00e3o lament\u00e1veis e grotescas, aquelas geniais inven\u00e7\u00f5es, que eu sa\u00ed rindo, como de uma enorme fac\u00e9cia, daquele supercivilizado pal\u00e1cio.<\/p>\n<p>A chuva de Abril secara: os telhados remotos da cidade negrejavam sobre um poente de carmesim e ouro. E, atrav\u00e9s das ruas mais frescas, eu ia pensando que este nosso magn\u00edfico s\u00e9culo XIX se assemelharia um dia \u00e0quele Jasmineiro abandonado, e que os outros homens, com uma certeza mais pura do que \u00e9 a Vida e a Felicidade, dariam como eu com o p\u00e9 no lixo da superciviliza\u00e7\u00e3o, e, como eu, ririam alegremente da grande ilus\u00e3o que findara, in\u00fatil e coberta de ferrugem.<\/p>\n<p>\u00c0quela hora, decerto, Jacinto, na varanda em Torges, sem fon\u00f3grafo e sem telefone, reentrado na simplicidade, via, sob a paz lenta da tarde, ao tremeluzir da primeira estrela, a boiada recolher entre o canto dos boiadeiros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>I Eu possuo preciosamente um amigo (o seu nome \u00e9 Jacinto) que nasceu num pal\u00e1cio, com quarenta contos de renda em pingues terras de p\u00e3o, azeite e gado. 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