{"id":589,"date":"2018-07-05T15:08:38","date_gmt":"2018-07-05T15:08:38","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=589"},"modified":"2018-07-05T15:09:36","modified_gmt":"2018-07-05T15:09:36","slug":"a-aia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/a-aia","title":{"rendered":"A Aia"},"content":{"rendered":"<p>Era uma vez um rei, mo\u00e7o e valente, senhor de um reino abundante em cidades e searas, que partira a batalhar por terras distantes, deixando solit\u00e1ria e triste a sua rainha e um filhinho, que ainda vivia no seu ber\u00e7o, dentro das suas faixas.<\/p>\n<p>A lua cheia que o vira marchar, levado no seu sonho de conquista e de fama, come\u00e7ava a minguar, quando um dos seus cavaleiros apareceu, com as armas rotas, negro do sangue seco e do p\u00f3 dos caminhos, trazendo a amarga nova de uma batalha perdida e da morte do rei, trespassado por sete lan\u00e7as entre a flor da sua nobreza, \u00e0 beira de um grande rio.<\/p>\n<p>A rainha chorou magnificamente o rei. Chorou ainda desoladamente o esposo, que era formoso e alegre. Mas, sobretudo, chorou ansiosamente o pai, que assim deixava o filhinho desamparado, no meio de tantos inimigos da sua fr\u00e1gil vida e do reino que seria seu, sem um bra\u00e7o que o defendesse, forte pela for\u00e7a e forte pelo amor.<\/p>\n<p>Desses inimigos o mais temeroso era seu tio, irm\u00e3o bastardo do rei, homem depravado e bravio; consumido de cobi\u00e7as grosseiras, desejando s\u00f3 a realeza por causa dos seus tesoiros, e que havia anos vivia num castelo sobre os montes, com uma horda de rebeldes, \u00e0 maneira de um lobo que, de atalaia no seu fojo, espera a presa. Ai! a presa agora era aquela criancinha, rei de mama, senhor de tantas prov\u00edncias, e que dormia no seu ber\u00e7o com seu guizo de oiro fechado na m\u00e3o!<\/p>\n<p>Ao lado dele, outro menino dormia noutro ber\u00e7o. Mas era um escravozinho, filho da bela e robusta escrava que amamentava o pr\u00edncipe. Ambos tinham nascido na mesma noite de Ver\u00e3o. O mesmo seio os criara. Quando a rainha, antes de adormecer, vinha beijar o principezinho, que tinha o cabelo louro e fino, beijava tamb\u00e9m, por amor dele, o escravozinho, que tinha o cabelo negro e crespo. Os olhos de ambos reluziam como pedras preciosas. Somente, o ber\u00e7o de um era magn\u00edfico de marfim entre brocados, e o ber\u00e7o de outro, pobre e de verga. A leal escrava, por\u00e9m, a ambos cercava de carinho igual, porque, se um era o seu filho, o outro seria o seu rei.<\/p>\n<p>Nascida naquela casa real, ela tinha a paix\u00e3o, a religi\u00e3o dos seus senhores. Nenhum pranto correra mais sentidamente do que o seu pelo rei morto \u00e0 beira do grande rio. Pertencia, por\u00e9m, a uma ra\u00e7a que acredita que a vida da terra se continua no c\u00e9u. O rei seu amo, decerto, j\u00e1 estaria agora reinando em outro reino, para al\u00e9m das nuvens, abundante tamb\u00e9m em searas e cidades. O seu cavalo de batalha, as suas armas, os seus pajens tinham subido com ele \u00e0s alturas. Os seus vassalos, que fossem morrendo, prontamente iriam, nesse reino celeste, retomar em torno dele a sua vassalagem. E ela, um dia, por seu turno, remontaria num raio de lua a habitar o pal\u00e1cio do seu senhor, e a fiar de novo o linho das suas t\u00fanicas, e a acender de novo a ca\u00e7oleta dos seus perfumes; seria no c\u00e9u como fora na terra, e feliz na sua servid\u00e3o.<\/p>\n<p>Todavia, tamb\u00e9m ela tremia pelo seu principezinho! Quantas vezes, com ele pendurado do peito, pensava na sua fragilidade, na sua longa inf\u00e2ncia, nos anos lentos que correriam, antes que ele fosse ao menos do tamanho de uma espada, e naquele tio cruel, de face mais escura que a noite e cora\u00e7\u00e3o mais escuro que a face, faminto do trono, e espreitando de cima do seu rochedo entre os alfanges da sua borda! Pobre principezinho da sua alma! Com uma ternura maior o apertava nos bra\u00e7os. Mas o seu filho chalrava ao lado, era para ele que os seus bra\u00e7os corriam com um ardor mais feliz. Esse, na sua indig\u00eancia, nada tinha a recear a vida. Desgra\u00e7as, assaltos da sorte m\u00e1 nunca o poderiam deixar mais despido das gl\u00f3rias e bens do mundo do que j\u00e1 estava ali no seu ber\u00e7o, sob o peda\u00e7o de linho branco que resguardava a sua nudez. A exist\u00eancia, na verdade, era para ele mais preciosa e digna de ser conservada que a do seu pr\u00edncipe, porque nenhum dos duros cuidados com que ela enegrece a alma dos senhores ro\u00e7aria sequer a sua alma livre e simples de escravo. E, como se o amasse mais por aquela humildade ditosa, cobria o seu corpinho gordo de beijos pesados e devoradores, dos beijos que ela fazia ligeiros sobre as m\u00e3os do seu pr\u00edncipe.<\/p>\n<p>No entanto, um grande temor enchia o pal\u00e1cio, onde agora reinava uma mulher entre mulheres. O bastardo, o homem de rapina, que errava no cimo das serras, descera \u00e0 plan\u00edcie com a sua horda, e j\u00e1 atrav\u00e9s de casais e aldeias felizes ia deixando um sulco de matan\u00e7a e ru\u00ednas. As portas da cidade tinham sido seguras com cadeias mais fortes. Nas atalaias ardiam lumes mais altos. Mas \u00e0 defesa faltava disciplina viril. Uma roca n\u00e3o governa como uma espada. Toda a nobreza fiel perecera na grande batalha. E a rainha desventurosa apenas sabia correr a cada instante ao ber\u00e7o do seu filhinho e chorar sobre ele a sua fraqueza de vi\u00fava. S\u00f3 a ama leal parecia segura, como se os bra\u00e7os em que estreitava o seu pr\u00edncipe fossem muralhas de uma cidadela que nenhuma aud\u00e1cia pode transpor.<\/p>\n<p>Ora uma noite, noite de sil\u00eancio e de escurid\u00e3o, indo ela a adormecer, j\u00e1 despida, no seu catre, entre os seus dois meninos, adivinhou, mais que sentiu, um curto rumor de ferro e de briga, longe, \u00e0 entrada dos verg\u00e9is reais. Embrulhada \u00e0 pressa num pano, atirando os cabelos para tr\u00e1s, escutou ansiosamente. Na terra areada, entre os jasmineiros, corriam passos pesados e rudes. Depois houve um gemido, um corpo tombando molemente, sobre lajes, como um fardo. Descerrou violentamente a cortina. E al\u00e9m, ao fundo da galeria, avistou homens, um clar\u00e3o de lanternas, brilhos de armas\u2026 Num relance tudo compreendeu: o pal\u00e1cio surpreendido, o bastardo cruel vindo roubar, matar o seu pr\u00edncipe! Ent\u00e3o, rapidamente, sem uma vacila\u00e7\u00e3o, uma d\u00favida, arrebatou o pr\u00edncipe do seu ber\u00e7o de marfim, atirou-o para o pobre ber\u00e7o de verga, e, tirando o seu filho do ber\u00e7o servil, entre beijos desesperados, deitou-o no ber\u00e7o real que cobriu com um brocado.<\/p>\n<p>Bruscamente um homem enorme, de face flamejante, com um manto negro sobre a cota de malha, surgiu \u00e0 porta da c\u00e2mara, entre outros, que erguiam lanternas. Olhou, correu o ber\u00e7o de marfim onde os brocados luziam, arrancou a crian\u00e7a como se arranca uma bolsa de oiro, e, abafando os seus gritos no manto, abalou furiosamente.<\/p>\n<p>O pr\u00edncipe dormia no seu novo ber\u00e7o. A ama ficara im\u00f3vel no sil\u00eancio e na treva.<\/p>\n<p>Mas brados de alarme atroaram, de repente, o pal\u00e1cio. Pelas janelas perpassou o longo flamejar das tochas. Os p\u00e1tios ressoavam com o bater das armas. E desgrenhada, quase nua, a rainha invadiu a c\u00e2mara, entre as aias, gritando pelo seu filho! Ao avistar o ber\u00e7o de marfim, com as roupas desmanchadas, vazio, caiu sobre as lajes num choro, despeda\u00e7ada. Ent\u00e3o, calada, muito lenta, muito p\u00e1lida, a ama descobriu o pobre ber\u00e7o de verga\u2026 O pr\u00edncipe l\u00e1 estava quieto, adormecido, num sonho que o fazia sorrir, lhe iluminava toda a face entre os seus cabelos de oiro. A m\u00e3e caiu sobre o ber\u00e7o, com um suspiro, como cai um corpo morto.<\/p>\n<p>E nesse instante um novo clamor abalou a galeria de m\u00e1rmore. Era o capit\u00e3o das guardas, a sua gente fiel. Nos seus clamores havia, por\u00e9m, mais tristeza que triunfo. O bastardo morrera! Colhido, ao fugir, entre o pal\u00e1cio e a cidadela, esmagado pela forte legi\u00e3o de archeiros, sucumbira, ele e vinte da sua horda. O seu corpo l\u00e1 ficara, com flechas no flanco, numa po\u00e7a de sangue. Mas, ai! dor sem nome! O corpozinho tenro do pr\u00edncipe l\u00e1 ficara tamb\u00e9m envolto num manto, j\u00e1 frio, roxo ainda das m\u00e3os ferozes que o tinham esganado! Assim tumultuosamente lan\u00e7avam a nova cruel os homens de armas, quando a rainha, deslumbrada, com l\u00e1grimas entre risos, ergueu nos bra\u00e7os, para lho mostrar, o pr\u00edncipe que despertara.<\/p>\n<p>Foi um espanto, uma aclama\u00e7\u00e3o. Quem o salvara? Quem?\u2026 L\u00e1 estava junto do ber\u00e7o de marfim vazio, muda e hirta, aquela que o salvara! Serva sublimemente leal! Fora ela que, para conservar a vida ao seu pr\u00edncipe, mandara \u00e0 morte o seu filho\u2026 Ent\u00e3o, s\u00f3 ent\u00e3o, a m\u00e3e ditosa, emergindo da sua alegria ext\u00e1tica, abra\u00e7ou apaixonadamente a m\u00e3e dolorosa, e a beijou, e lhe chamou irm\u00e3 do seu cora\u00e7\u00e3o\u2026 E de entre aquela multid\u00e3o que se apertava na galeria veio uma nova, ardente aclama\u00e7\u00e3o, com s\u00faplicas de que fosse recompensada magnificamente a serva admir\u00e1vel que salvara o rei e o reino.<\/p>\n<p>Mas como? Que bolas de oiro podem pagar um filho? Ent\u00e3o um velho de casta nobre lembrou que ela fosse levada ao Tesoiro real, e escolhesse de entre essas riquezas, que eram como as maiores dos maiores tesoiros da \u00cdndia, todas as que o seu desejo apetecesse\u2026<\/p>\n<p>A rainha tomou a m\u00e3o da serva. E sem que a sua face de m\u00e1rmore perdesse a rigidez, com um andar de morta, como um sonho, ela foi assim conduzida para a C\u00e2mara dos Tesoiros. Senhores, aias, homens de armas, seguiam, num respeito t\u00e3o comovido, que apenas se ouvia o ro\u00e7ar das sand\u00e1lias nas lajes. As espessas portas do Tesoiro rodaram lentamente. E, Quando um servo destrancou as janelas, a luz da madrugada, j\u00e1 clara e r\u00f3sea, entrando pelos gradeamentos de ferro, acendeu um maravilhoso e faiscante inc\u00eandio de oiro e pedrarias! Do ch\u00e3o de rocha at\u00e9 \u00e0s sombrias ab\u00f3badas, por toda a c\u00e2mara, reluziam, cintilavam, refulgiam os escudos de oiro, as armas marchetadas, os mont\u00f5es de diamantes, as pilhas de moedas, os longos fios de p\u00e9rolas, todas as riquezas daquele reino, acumuladas por cem r\u00e9is durante vinte s\u00e9culos. Um longo \u2014 ah! \u2014 lento e maravilhado, passou por sobre a turba que emudecera. Depois houve um sil\u00eancio ansioso. E no meio da c\u00e2mara, envolta na refulg\u00eancia preciosa. a ama n\u00e3o se movia\u2026 Apenas os seus olhos, brilhantes e secos, se tinham erguido para aquele c\u00e9u que, al\u00e9m das grades, se tingia de rosa e de oiro. Era l\u00e1, nesse c\u00e9u fresco de madrugada, que estava agora o seu menino. Estava l\u00e1, e j\u00e1 o Sol se erguia, e era tarde, e o seu menino chorava decerto, e procurava o seu peito!\u2026 E ent\u00e3o a ama sorriu e estendeu a m\u00e3o. Todos seguiam, sem respirar aquele lento mover da sua m\u00e3o aberta. Que j\u00f3ia maravilhosa, que fio de diamantes, que punhado de rubis ia ela escolher?<\/p>\n<p>A ama estendia a m\u00e3o, e sobre um escabelo ao lado, entre um molho de armas, agarrou um punhal. Era um punhal de um velho rei, todo cravejado de esmeraldas, e que valia uma prov\u00edncia.<\/p>\n<p>Agarrara o punhal, e com ele apertado fortemente na m\u00e3o, apontando para o c\u00e9u, onde subiam os primeiros raios do Sol, encarou a rainha, a multid\u00e3o, e gritou:<\/p>\n<p>\u2014 Salvei o meu pr\u00edncipe, e agora\u2026 vou dar de mamar ao meu filho<\/p>\n<p>E cravou o punhal no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era uma vez um rei, mo\u00e7o e valente, senhor de um reino abundante em cidades e searas, que partira a batalhar por terras distantes, deixando solit\u00e1ria e triste a sua rainha e um filhinho, que&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[24],"class_list":["post-589","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-eca-de-queiros"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/589","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=589"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/589\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":590,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/589\/revisions\/590"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=589"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=589"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=589"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}