{"id":630,"date":"2018-07-09T02:53:51","date_gmt":"2018-07-09T02:53:51","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=630"},"modified":"2018-07-09T03:12:01","modified_gmt":"2018-07-09T03:12:01","slug":"manuscrito-encontrado-numa-garrafa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/manuscrito-encontrado-numa-garrafa","title":{"rendered":"Manuscrito Encontrado numa Garrafa"},"content":{"rendered":"<blockquote class=\"cit\"><p>Qui n\u2019a plus qu\u2019un moment \u00e0 vivre<br \/>\nN\u2019a plus rien \u00e0 dissimuler.<br \/>\nQuinault, Atys<\/p><\/blockquote>\n<blockquote class=\"citr\"><p>Quem tem apenas um momento mais de vida<br \/>\nNada mais tem a dissimular.<\/p><\/blockquote>\n<p class=\"n\">Da minha terra e da minha fam\u00edlia pouco tenho a dizer. Os maus costumes e o acumular dos anos afastaram-me da primeira e alhearam-me da segunda. O meu patrim\u00f4nio proporcionou-me uma educa\u00e7\u00e3o pouco comum e uma disposi\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito contemplativa permitiu-me ordenar metodicamente as aquisi\u00e7\u00f5es diligentemente reunidas pelo estudo precoce. O estudo dos fil\u00f3sofos alem\u00e3es fez particularmente as minhas del\u00edcias: n\u00e3o por qualquer mal-avisada admira\u00e7\u00e3o pela sua eloq\u00fcente loucura, mas antes pela facilidade com que os meus h\u00e1bitos de racioc\u00ednio rigoroso me facultavam a detec\u00e7\u00e3o dos seus erros. Fui muitas vezes admoestado pela aridez do meu g\u00eanio; imputavam-me, como se de um crime se tratasse, falta de imagina\u00e7\u00e3o, e o pirronismo das minhas opini\u00f5es sempre me tornou notado. De fato, receio bem que uma forte atra\u00e7\u00e3o pela filosofia f\u00edsica me tenha impregnado o esp\u00edrito de um defeito muito comum nesta \u00e9poca: refiro-me ao h\u00e1bito de reportar os acontecimentos, mesmo os menos suscept\u00edveis de o serem, aos princ\u00edpios de tal ci\u00eancia. Em suma, ningu\u00e9m seria menos dado que eu a deixar-se desviar das estritas fronteiras da verdade pelos\u00a0<em>ignes fatui<\/em>\u00a0da supersti\u00e7\u00e3o. Achei que se justificaria esta introdu\u00e7\u00e3o, sob pena de o incr\u00edvel relato que se segue ser tomado mais pelo del\u00edrio de uma imagina\u00e7\u00e3o desenfreada do que pela experi\u00eancia positiva de um esp\u00edrito para o qual os devaneios da fantasia sempre foram letra morta e coisa de nulo valor.<\/p>\n<p class=\"n\">Ap\u00f3s muitos anos passados em desloca\u00e7\u00f5es pelo estrangeiro, larguei no ano de 18\u2026 do porto de Bat\u00e1via, na rica e populosa ilha de Java, em viagem ao arquip\u00e9lago de Sunda. Embarquei como passageiro, sem outro est\u00edmulo que n\u00e3o fosse uma qualquer nervosa irrequietude que me obcecava como esp\u00edrito mal\u00e9fico.<\/p>\n<p class=\"n\">O nosso navio era um belo veleiro de umas quatrocentas toneladas, constru\u00eddo de teca do Malabar em Bombaim. Levava um carregamento de algod\u00e3o em rama e azeite, proveniente das ilhas Lacadivas. Transport\u00e1vamos ainda fibra de coco, a\u00e7\u00facar mascavado, manteiga, cocos e algumas caixas de \u00f3pio. A estiva tinha sido feita de modo descuidado, pelo que o navio ia adornado.<\/p>\n<p class=\"n\">Largamos sob um t\u00eanue bafejo de vento e mantivemo-nos durante v\u00e1rios dias ao longo da costa oriental de Java, sem mais incidentes que iludissem a monotonia da nossa singradura para al\u00e9m do encontro ocasional com alguns\u00a0<em>grabs<\/em>\u00a0(1) do arquip\u00e9lago a que nos mant\u00ednhamos confinados.<\/p>\n<p class=\"n\">Uma tarde, debru\u00e7ado \u00e0 balaustrada da popa, observei uma nuvem isolada muito estranha, a noroeste. Era singular, quer pela cor, quer por ser a primeira com que depar\u00e1vamos desde a largada de Bat\u00e1via. Contemplei-a atentamente at\u00e9 ao sol-p\u00f4r, altura em que alastrou repentinamente para leste e oeste, cercando o horizonte de uma estreita faixa de vapor e assemelhando-se a uma baixa linha de costa. N\u00e3o tardou que a minha aten\u00e7\u00e3o fosse subseq\u00fcentemente atra\u00edda pelo aspecto vermelho-escuro da Lua e pelo invulgar estado do mar. Este sofreu uma r\u00e1pida altera\u00e7\u00e3o e a \u00e1gua parecia mais transparente do que o habitual. Embora conseguisse ver distintamente o fundo, ao lan\u00e7ar a sonda verifiquei que a profundidade local era de vinte bra\u00e7as. O ar tornara-se agora intoleravelmente quente e estava carregado de exala\u00e7\u00f5es espirais semelhantes \u00e0s que se desprendem do ferro quando aquecido. Com o tombar da noite, o vento caiu totalmente, sendo imposs\u00edvel conceber calmaria mais completa. A chama da lanterna sobre a popa ardia sem o menor movimento percept\u00edvel, e um cabelo comprido, seguro entre o polegar e o indicador, pendia sem que pudesse observar-se a mais pequena ondula\u00e7\u00e3o. No entanto, como o comandante dissesse que n\u00e3o se apercebia de qualquer ind\u00edcio de perigo, e uma vez que est\u00e1vamos a abater totalmente para terra, mandou ferrar as velas e fundear. N\u00e3o se passou a regime de quartos e a tripula\u00e7\u00e3o, constitu\u00edda principalmente por malaios, veio deitar-se deliberadamente no conv\u00e9s. Desci aos alojamentos \u2013 n\u00e3o sem um forte pressentimento de desastre. De facto, todas as apar\u00eancias me levavam a suspeitar da aproxima\u00e7\u00e3o do simum. Dei parte dos meus temores ao comandante, mas este n\u00e3o prestou a menor aten\u00e7\u00e3o \u00e0s minhas palavras e deixou-me sem ao menos se dignar de responder. Todavia, a inquieta\u00e7\u00e3o n\u00e3o me deixou dormir e, perto da meia-noite, subi ao conv\u00e9s. Ao colocar o p\u00e9 no \u00faltimo degrau da escada, fui surpreendido por um forte ru\u00eddo sussurrante como produzido por r\u00e1pida rota\u00e7\u00e3o de moinho e, antes que pudesse averiguar o seu significado, apercebi-me de que o navio estremecia na dire\u00e7\u00e3o do seu centro. No instante imediato, um cach\u00e3o de espuma fez-nos adornar subitamente e, passando sobre n\u00f3s, varreu todo o conv\u00e9s de popa a proa.<\/p>\n<p class=\"n\">A extrema viol\u00eancia do choque veio, em grande parte, a ser a salva\u00e7\u00e3o do navio. Embora completamente inundado, quando os mastros foram pela borda fora, ergueu-se pesadamente das \u00e1guas um minuto depois e, vacilando um instante sob a intensa press\u00e3o da tempestade, endireitou-se finalmente.<\/p>\n<p class=\"n\">N\u00e3o sei dizer por que milagre escapei \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o. Atordoado pelo embate de \u00e1gua, dei por mim, uma vez refeito, entalado entre o cadaste e o leme. com grande dificuldade, pus-me de p\u00e9 e, olhando confusamente ao redor, fui inicialmente assaltado pela id\u00e9ia de que estiv\u00e9ssemos no meio de recifes, de tal modo terr\u00edvel e inimagin\u00e1vel era o turbilh\u00e3o do oceano alteroso e espumejante em que est\u00e1vamos mergulhados. Passados algum tempo ouvi a voz de um velho sueco, que embarcara conosco no momento em que larg\u00e1vamos do porto. Gritei-lhe com todas as for\u00e7as e ele acabou por dirigir-se, a cambalear, para a popa. Depressa descobrimos que \u00e9ramos os \u00fanicos sobreviventes do acidente. Todos os que estavam no conv\u00e9s, exceto n\u00f3s, tinham sido varridos pela borda fora; o comandante e os oficiais deviam ter perecido durante o sono, visto que os camarotes se encontravam totalmente alagados. Sem aux\u00edlio, pouco poder\u00edamos contar fazer pela seguran\u00e7a do navio e os nossos esfor\u00e7os foram de princ\u00edpio paralisados pela perspectiva moment\u00e2nea de irmos a pique. Era evidente que a amarra se quebrara como se fosse uma guita ao primeiro sopro do furac\u00e3o, pois de contr\u00e1rio ter\u00edamos sido instantaneamente esmagados. Corr\u00edamos com o furac\u00e3o a uma velocidade assustadora e as \u00e1guas abriam brechas vis\u00edveis \u00e0 nossa frente. A estrutura da popa tinha sofrido enormes danos e, praticamente sob todos os aspectos, f\u00f4ramos objeto de consider\u00e1veis avarias; mas para nossa extrema alegria, descobrimos que as bombas n\u00e3o tinham ficado obstru\u00eddas e que o lastro n\u00e3o sofrera grande desloca\u00e7\u00e3o. A maior f\u00faria da tempestade tinha j\u00e1 amainado e a viol\u00eancia do vento n\u00e3o parecia oferecer grande perigo: contudo, ansi\u00e1vamos, consternados, por que ele cessasse completamente, pois est\u00e1vamos em crer que, com tais estragos, inevitavelmente perecer\u00edamos na ondula\u00e7\u00e3o tremenda que sobreviria. Contudo, esta just\u00edssima apreens\u00e3o n\u00e3o parecia de modo algum em vias de concretizar-se. Durante cinco dias e cinco noites \u2013 no decurso dos quais tivemos por \u00fanico alimento uma pequena por\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar mascavado, obtido com grande dificuldade no castelo da proa \u2013 o calhambeque correu a uma velocidade que desafiava qualquer c\u00e1lculo, impulsionado por rajadas de vento que se sucediam rapidamente, as quais, sem contudo se compararem \u00e0 viol\u00eancia inicial do simum, eram ainda mais terr\u00edveis do que qualquer tempestade que at\u00e9 ent\u00e3o eu tivesse presenciado. O nosso rumo durante os primeiros quatro dias foi, com insignificantes varia\u00e7\u00f5es, sueste quarta a sul, e dever\u00edamos ir parar \u00e0s costas da Nova Holanda. No quinto dia come\u00e7ou a fazer-se sentir um frio extremo, embora o vento tivesse rondado mais uma quarta para norte. O Sol despontou com um fulgor amarelo doentio e ergueu-se apenas alguns graus acima do horizonte \u2013 sem emitir uma luz definida. N\u00e3o havia nuvens \u00e0 vista, mas o vento continuava a refrescar e soprava com uma viol\u00eancia irregular e inst\u00e1vel. Cerca do meio-dia, tanto quanto nos era poss\u00edvel estimar, a nossa aten\u00e7\u00e3o foi novamente desperta pela apar\u00eancia do Sol. N\u00e3o emitia luz propriamente dita, mas antes um clar\u00e3o morti\u00e7o e soturno sem reverbera\u00e7\u00e3o, como se todos os seus raios estivessem polarizados. Imediatamente antes de mergulhar no mar t\u00fargido, a sua chama central extinguiu-se de s\u00fabito, como que pressurosamente apagada por algum inexplic\u00e1vel poder. Era apenas um arco esbatido e quase prateado ao precipitar-se no oceano insond\u00e1vel.<\/p>\n<p class=\"n\">Aguardamos em v\u00e3o a chegada do sexto dia: esse dia para mim n\u00e3o chegou: para o sueco, n\u00e3o existiu sequer. De ent\u00e3o em diante, vimo-nos amortalhados numa escurid\u00e3o de breu, de tal modo que n\u00e3o conseguir\u00edamos ver um objeto a vinte passo do navio. A noite eterna come\u00e7ou a envolver-nos, nem sequer mitigada pela fosforesc\u00eancia das \u00e1guas a que nos habitu\u00e1ramos nos tr\u00f3picos. Observamos igualmente que, embora a tempestade continuasse a bramir com inquebrant\u00e1vel viol\u00eancia, j\u00e1 n\u00e3o conseguia descortinar-se o habitual aparecimento de rebenta\u00e7\u00e3o ou espuma, que at\u00e9 ent\u00e3o nos havia acompanhado. \u00c0 nossa volta tudo era horror, trevas profundas e um negro e abrasador deserto de \u00e9bano. Um terror supersticioso come\u00e7ou a invadir progressivamente o c\u00e9rebro do velho sueco, e meu pr\u00f3prio esp\u00edrito estava mergulhado em profundo espanto. Abandon\u00e1ramos todos os cuidados do navio, mais do que in\u00fateis, e, amarrando-nos o melhor que pudemos ao mastro da mezena, observ\u00e1vamos amargamente a imensid\u00e3o do oceano. N\u00e3o t\u00ednhamos maneira de calcular o tempo nem faz\u00edamos a menor id\u00e9ia de qual a nossa posi\u00e7\u00e3o. Contudo, est\u00e1vamos perfeitamente cientes de que hav\u00edamos navegado mais para sul do que qualquer outro mareante e experimentamos grande admira\u00e7\u00e3o por se n\u00e3o nos depararem os habituais obst\u00e1culos de gelo. Entrementes, cada instante amea\u00e7ava ser o \u00faltimo da nossa vida: n\u00e3o havia vaga alterosa que n\u00e3o se precipitasse para nos esmagar. A ondula\u00e7\u00e3o ultrapassava tudo o que eu imaginara poss\u00edvel e o fato de o mar n\u00e3o nos ter sepultado instantaneamente constitu\u00eda um milagre. O meu companheiro referiu-se ao pouco peso da carga que transport\u00e1vamos e recordou-me as excelentes qualidades do navio; fosse como fosse, eu n\u00e3o conseguia deixar de sentir o extremo desespero da pr\u00f3pria esperan\u00e7a e preparei-me melancolicamente para a morte que acreditava nada poder adiar por mais que uma hora, visto que, a cada n\u00f3 que o navio avan\u00e7ava, a agita\u00e7\u00e3o das prodigiosas \u00e1guas negras se tornava cada vez mais lugubremente aterradora. Por vezes, ao elevarmo-nos mais ainda que um albatroz, perd\u00edamos a respira\u00e7\u00e3o; outras fic\u00e1vamos atordoados com a velocidade com que o navio se afundava em qualquer inferno aqu\u00e1tico, onde o ar estagnava e nenhum som perturbava o sono do\u00a0<em>kraken<\/em>\u00a0(2).<\/p>\n<p class=\"n\">Encontr\u00e1vamo-nos no fundo de um desses abismos quando um s\u00fabito grito do meu companheiro rompeu temerosamente na noite:<\/p>\n<p class=\"n\">\u2013 Olhe! Olhe! \u2013 gritou angustiadamente aos meus ouvidos. \u2013 Deus todo-poderoso! Olhe! Olhe!<\/p>\n<p class=\"n\">Enquanto ele falava, apercebi-me do clar\u00e3o morti\u00e7o e sombrio de uma luz vermelha que se escoava de um e outro lado do abismo em que est\u00e1vamos mergulhados, e lan\u00e7ava um brilho incerto sobre o nosso conv\u00e9s. Erguendo a vista, observei um espet\u00e1culo que me fez gelar o sangue nas veias. A uma altura descomunal acima de n\u00f3s, e precisamente na orla precip\u00edcio das \u00e1guas, pairava um gigantesco navio de umas quatro mil toneladas. Apesar de alcandorado na crista de uma vaga que tinha mais de cem vezes a sua altura, as suas dimens\u00f5es aparentes ainda assim excediam as de qualquer navio de linha ou da Companhia das \u00cdndias. O seu casco enorme era de um negro profundo, nem sequer atenuado por qualquer dos habituais ornatos que os navios ostentam. Uma fileira \u00fanica de pe\u00e7as de artilharia de bronze emergia das escotilhas abertas e as suas superf\u00edcies polidas refletiam os clar\u00f5es das in\u00fameras lanternas de combate que balou\u00e7avam de um lado para outro na mastrea\u00e7\u00e3o. Todavia, o que fundamentalmente nos encheu de horror e espanto foi que ele navegava a todo o pano, a despeito daquele mar sobrenatural e do incontrol\u00e1vel furac\u00e3o. Quando o avistamos a primeira vez, apenas se lhe via a proa, ao erguer-se lentamente do sombrio e horr\u00edvel fosso que ia deixando para tr\u00e1s. Por um instante de intenso terror, deteve-se sobre o cume vertiginoso, como que imerso na contempla\u00e7\u00e3o da sua pr\u00f3pria magnific\u00eancia, ap\u00f3s o que estremeceu, vacilou e\u2026 iniciou a queda.<\/p>\n<p class=\"n\">Nesse instante, n\u00e3o sei que s\u00fabita serenidade me invadiu o esp\u00edrito. Avan\u00e7ando a cambalear para a popa o mais que me foi poss\u00edvel, aguardei sem receio a cat\u00e1strofe que certamente nos iria esmagar. O nosso pr\u00f3prio navio come\u00e7ava a abandonar a luta e a mergulhar a proa nas \u00e1guas. O choque daquela mole que se abatia atingiu-o, por conseguinte, naquele por\u00e7\u00e3o da estrutura que estava j\u00e1 sob a \u00e1gua, e o resultado inevit\u00e1vel foi precipitar-me, com irresist\u00edvel viol\u00eancia, de encontro ao cordame do intruso.<\/p>\n<p class=\"n\">Quando ca\u00ed, o navio aproou ao vento e virou de bordo; foi \u00e0 confus\u00e3o que se seguiu que atribu\u00ed o fato de ter passado despercebido aos olhos da tripula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o encontrei dificuldade em abrir caminho sem ser detectado at\u00e9 \u00e0 escotilha principal, que estava parcialmente aberta, e pouco tardou que se me deparasse uma ocasi\u00e3o prop\u00edcia para me ocultar no por\u00e3o. N\u00e3o sei exatamente por que raz\u00e3o o fiz. Talvez uma indefinida sensa\u00e7\u00e3o de temor, que desde a primeira vis\u00e3o dos tripulantes do navio se me apoderara do esp\u00edrito, estivesse na origem desta tentativa de buscar esconderijo. N\u00e3o me sentia inclinado a confiar numa ra\u00e7a de gente que havia revelado, perante o olhar apressado que lhes deitara, tantos motivos de vaga estranheza, d\u00favida e apreens\u00e3o. Julguei, pois, acertado arranjar um lugar no por\u00e3o onde pudesse ocultar-me. Fi-lo deslocando uma por\u00e7\u00e3o de pranchas, de modo a obter um abrigo adequado entre o cavername enorme do navio.<\/p>\n<p class=\"n\">Mal terminara ainda a tarefa, quando o som de passos no por\u00e3o me obrigou a utiliz\u00e1-lo. Um homem de andar d\u00e9bil e incerto passou junto ao meu esconderijo. N\u00e3o pude ver-lhe o rosto, mas tive ocasi\u00e3o de observar-lhe o aspecto geral. Apresentava ind\u00edcios de idade avan\u00e7ada e de doen\u00e7a. Os joelhos vacilavam ao peso dos anos e todo o corpo estremecia sob o seu fardo. Murmurava de si para si, em tom grave e entrecortado, quaisquer palavras numa l\u00edngua que n\u00e3o logrei distinguir e tateou a um canto entre uma pilha de instrumentos de aspecto invulgar e de cartas de navega\u00e7\u00e3o apodrecidas. O seu comportamento era uma estranha mistura de rabugice da segunda inf\u00e2ncia e da solene dignidade de um deus. Acabou por regressar ao conv\u00e9s e n\u00e3o voltei a v\u00ea-lo.<\/p>\n<p class=\"n\">* * *<\/p>\n<p class=\"n\">Um sentimento que n\u00e3o sei designar apossou-se-me do esp\u00edrito: uma sensa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o admite an\u00e1lise, para a qual os ensinamentos do passado de nada servem e, receio, nem o porvir me fornecer\u00e1 a chave. Para um esp\u00edrito da estrutura do meu, esta \u00faltima considera\u00e7\u00e3o \u00e9 uma tortura. Nunca hei de ser esclarecido \u2013 sei que nunca o serei \u2013 relativamente \u00e0 natureza das minhas concep\u00e7\u00f5es. E contudo n\u00e3o ser\u00e1 de estranhar que tais concep\u00e7\u00f5es sejam mal definidas, posto que t\u00eam a sua origem em causas t\u00e3o inteiramente in\u00e9ditas. Um novo sentido \u2013 uma nova entidade \u2013 foi acrescentada \u00e0 minha alma.<\/p>\n<p class=\"n\">Faz j\u00e1 muito que pisei pela primeira vez o conv\u00e9s deste terr\u00edvel navio e julgo que os raios do meu destino convergem para um foco. Homens incompreens\u00edveis! Imersos em medita\u00e7\u00f5es cuja natureza n\u00e3o logro adivinhar, passam por mim sem darem pela minha presen\u00e7a. O fato de me esconder \u00e9 puro disparate da minha parte, pois esta gente\u00a0<em>n\u00e3o quer<\/em>\u00a0ver. Ainda h\u00e1 instantes passei diretamente pela frente do imediato; n\u00e3o faz muito tempo que me aventurei a penetrar mesmo no camarote individual do comandante e de l\u00e1 tirei o material com o qual escrevo e tenho vindo a escrever. Continuarei este di\u00e1rio de quando em quando. \u00c9 certo que posso n\u00e3o ter ocasi\u00e3o de transmiti-lo ao mundo, mas n\u00e3o deixarei de o tentar. No \u00faltimo momento meterei o manuscrito numa garrafa e lan\u00e7\u00e1-la-ei ao mar.<\/p>\n<p class=\"n\">* * *<\/p>\n<p class=\"n\">Deu-se um incidente que me forneceu novos motivos de reflex\u00e3o. Ser\u00e1 tudo isto obra de um desordenado Acaso? Tinha-me aventurado a sair ao conv\u00e9s e estendi-me, sem despertar a menor aten\u00e7\u00e3o, no meio de um amontoado de cabos de enx\u00e1rcias e de velas usadas, no fundo do escaler. Enquanto meditava sobre a singularidade do meu destino, rabisquei inconscientemente com uma brocha de alcatr\u00e3o as orlas de um cutelo cuidadosamente dobrado que tinha perto de mim sobre uma barrica. O cutelo est\u00e1 agora envergado no navio e as pinceladas irrefletidas da brocha, com a vela esticada, formam a palavra DESCOBERTA.<\/p>\n<p class=\"n\">Ultimamente fiz v\u00e1rias observa\u00e7\u00f5es sobre a estrutura do navio. Embora bem armado, creio que n\u00e3o se trata de um navio de guerra. Quer o cordame, quer a constru\u00e7\u00e3o, quer o equipamento em geral levam a por de lado tal hip\u00f3tese. O que ele\u00a0<em>n\u00e3o \u00e9<\/em>\u00a0posso eu facilmente compreender; receio \u00e9 que seja imposs\u00edvel dizer o que\u00a0<em>\u00e9<\/em>. N\u00e3o sei como, mas, ao perscrutar o seu estranho modelo e a forma singular da mastrea\u00e7\u00e3o, o seu enorme tamanho, o exagerado n\u00famero de jogos de velas, a sua proa austeramente simples e a popa antiquada, acontece vir uma ou outra vez ao meu esp\u00edrito uma sensa\u00e7\u00e3o de coisas familiares, e a essas sombras indistintas da mem\u00f3ria mistura-se sempre uma inexplic\u00e1vel reminisc\u00eancia de velhas cr\u00f4nicas estrangeiras e de \u00e9pocas remotas.<\/p>\n<p class=\"n\">Estive a observar o madeiramento do navio. O material de que \u00e9 feito \u00e9-me desconhecido. H\u00e1 uma caracter\u00edstica peculiar da madeira que me choca como se a tornasse inadequada para o fim ao qual foi destinada: refiro-me \u00e0 sua extrema\u00a0<em>porosidade<\/em>, considerada independentemente do fato dos estragos que os parasitas provocam nestes mares e para al\u00e9m da podrid\u00e3o concomitante com a idade. Isto poder\u00e1 porventura parecer uma observa\u00e7\u00e3o algo sutil, mas esta madeira teria todas as caracter\u00edsticas do carvalho espanhol se este tivesse sido distendido por quaisquer meios n\u00e3o naturais.<\/p>\n<p class=\"n\">Ao reler a frase anterior, ocorre-me intacto \u00e0 mem\u00f3ria o curioso ad\u00e1gio de um velho marinheiro holand\u00eas forjado nas intemp\u00e9ries: \u201c\u00c9 t\u00e3o verdade\u201d, costumava dizer quando algu\u00e9m albergava qualquer d\u00favida sobre a veracidade do que contava, \u201ccomo \u00e9 verdade existir um mar onde o pr\u00f3prio navio aumenta de volume como o corpo vivo de um marinheiro\u201d.<\/p>\n<p class=\"n\">H\u00e1 cerca de uma hora, ousei introduzir-me num grupo de tripulantes. N\u00e3o me deram a menor aten\u00e7\u00e3o e, embora estivesse mesmo no meio de todos eles, pareceram completamente alheios \u00e0 minha presen\u00e7a. Tal como o que tinha visto antes no por\u00e3o, qualquer deles apresentava ind\u00edcios de encanecida velhice. Os joelhos tremiam-lhes de doen\u00e7a; tinham os ombros duplamente abaulados devido \u00e0 decrepitude; os seus rostos ressequidos abanavam ao vento; as vozes eram baixas, tr\u00eamulas e entrecortadas; os olhos cintilavam-lhes com a reuma dos anos e os cabelos grisalhos tremulavam espantosamente na tempestade. Em redor deles, por todo o conv\u00e9s, estavam espalhados instrumentos matem\u00e1ticos da mais singular e obsoleta estrutura.<\/p>\n<p class=\"n\">Referi um pouco atr\u00e1s o envergar de um cutelo. Desde essa altura o navio, correndo com o vento, continuou a sua assustadora carreira para sul, com todo pano largado, dos topos dos mastros aos botal\u00f3s dos cutelos baixos, e balan\u00e7ando a cada instante as vergas do joanete no mais aterrador inferno marinho que a imagina\u00e7\u00e3o humana possa conceber. Acabo de abandonar o conv\u00e9s, onde conclu\u00ed ser imposs\u00edvel manter-me, embora a tripula\u00e7\u00e3o n\u00e3o pare\u00e7a experimentar grande incomodidade. Afigura-se-me o milagre dos milagres o fato de a massa enorme de nosso navio n\u00e3o ser tragada de uma vez por todas. Estamos certamente condenados a pairar continuamente sobre a orla da Eternidade, sem dar um mergulho final no abismo. Deslizamos entre vagas mil mais tremendas do que alguma vez vi, com a facilidade da sagitada gaivota; e as ondas colossais erguem as cristas sobre n\u00f3s como dem\u00f4nios das profundezas, mas como dem\u00f4nios limitados a meras amea\u00e7as e impedidos de destruir. Sinto-me tentado a atribuir esta repetida salva\u00e7\u00e3o \u00e0 unica causa natural que pode explicar tal efeito: devo supor que o navio est\u00e1 sob a influ\u00eancia de uma forte corrente, de uma impetuosa ressaca.<\/p>\n<p class=\"n\">Vi o comandante cara a cara, e no seu pr\u00f3prio camarote; mas, como esperava, n\u00e3o me prestou aten\u00e7\u00e3o. Embora nada haja no seu aspecto, para um observador pouco atento, que possa sugerir ser ele alguma coisa mais ou menos do que humano, misturaram-se-me uma irreprim\u00edvel rever\u00eancia e temor \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o de espanto com que o observei. A estatura dele \u00e9 quase a mesma que a minha, isto \u00e9, certa de um metro e setenta. \u00c9 de complei\u00e7\u00e3o proporcionada e compacta, sem ser robusto nem quanto ao resto digno de nota. \u00c9, por\u00e9m, a singularidade da express\u00e3o que lhe anima o rosto, \u00e9 o intenso, maravilhoso e empolgante testemunho de velhice, de uma t\u00e3o extrema velhice que suscita no meu esp\u00edrito um sentimento, uma sensa\u00e7\u00e3o inef\u00e1vel. A sua fronte, conquanto pouco enrugada, parece transportar a marca de uma mir\u00edade de anos. Os seus cabelos grisalhos s\u00e3o registros do passado e os olhos ainda mais cinzentos s\u00e3o sibilas do futuro. O pavimento do camarote estava densamente juncado de in-f\u00f3lios com fivelas de ferro, de esboroados instrumentos cient\u00edficos e de cartas obsoletas e h\u00e1 muito abandonadas. Tinha a cabe\u00e7a inclinada sobre as m\u00e3os e lia atentamente, com um ardente olhar inquieto, um papel que tomei por uma carta de comando e que, em qualquer caso, apresentava a assinatura de um monarca. Murmurava de si para si, em voz baixa e rabugenta, como fazia o primeiro marinheiro que eu vira no por\u00e3o, quaisquer s\u00edlabas de uma l\u00edngua estrangeira, e, embora falasse mesmo junto de mim, a sua voz parecia chegar-me aos ouvidos vinda de uma milha de dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p class=\"n\">O navio e todos os que nele seguem est\u00e3o imbu\u00eddos do esp\u00edrito de Antanho. A tripula\u00e7\u00e3o desliza para um lado e para outro como fantasmas de s\u00e9culos enterrados; os seus olhares t\u00eam uma express\u00e3o ansiosa e intranq\u00fcila; e quando os seus dedos, \u00e0 minha passagem, caem sob o brilho cru das lanternas de combate, sinto o que nunca antes senti, embora toda a vida tenha negociado em antiguidades e me tenha impregnado das sombras das colunas ca\u00eddas de Balbec, Tadmor, e Pers\u00e9polis, at\u00e9 a minha pr\u00f3pria alma se converter numa ru\u00edna.<\/p>\n<p class=\"n\">Quando olho em redor envergonho-me das minhas apreens\u00f5es iniciais. Se tremi ante a tempestade que at\u00e9 agora nos acompanhou, n\u00e3o deveria ficar horrorizado perante a adversidade do vendo e do oceano, que as palavras\u00a0<em>tornado<\/em>\u00a0e\u00a0<em>simum<\/em>\u00a0se tornam banais e ineficazes para descrever? Tudo o que se encontra na imediata proximidade do navio \u00e9 a escurid\u00e3o da noite eterna e um caos de \u00e1gua sem espuma; mas, cerca de uma l\u00e9gua para um e outro bordo, podem ver-se, indistintamente e de quando em quando, enormes baluartes de gelo, que se erguem ao longe contra o c\u00e9u desolado, semelhantes \u00e0s muralhas do universo.<\/p>\n<p class=\"n\">Conforme imaginei, prova-se que o navio est\u00e1 sob a a\u00e7\u00e3o de uma corrente, se \u00e9 que assim se pode apelidar uma mar\u00e9 que, gemendo e uivando atrav\u00e9s da brancura do gelo, troveja para o sul com uma velocidade semelhante \u00e0 impetuosa precipita\u00e7\u00e3o de uma catarata.<\/p>\n<p class=\"n\">Creio ser totalmente imposs\u00edvel transmitir o horror das minhas sensa\u00e7\u00f5es; por\u00e9m, a curiosidade de penetrar os mist\u00e9rios destas horr\u00edveis regi\u00f5es prevalece mesmo sobre o meu desespero e reconcilia-me com o aspecto mais hediondo da morte. Torna-se evidente que corremos ao encontro de qualquer revela\u00e7\u00e3o emocionante: algum segredo que nunca ser\u00e1 transmitido, descoberta \u00e9 o termo da vida. Talvez esta corrente nos leve ao pr\u00f3prio P\u00f3lo Sul. Devo considerar que esta suposi\u00e7\u00e3o, aparentemente t\u00e3o estranha, tem todas as probabilidades de estar correta.<\/p>\n<p class=\"n\">A tripula\u00e7\u00e3o percorre o conv\u00e9s com passo inquieto e tr\u00eamulo; mas h\u00e1 na sua atitude uma express\u00e3o que \u00e9 mais da \u00e2nsia da esperan\u00e7a do que da apatia do desespero.<\/p>\n<p class=\"n\">Entretanto, temos ainda o vento na popa e, como navegamos com imenso pano, o navio \u00e9 por vezes erguido do mar em peso. Oh, horror sobre horror! O gelo abre-se simultaneamente \u00e0 direita e \u00e0 esquerda e come\u00e7amos a rodopiar vertiginosamente em imensos c\u00edrculos conc\u00eantricos, em torno de um gigantesco anfiteatro, de paredes cuja altura se perde na escurid\u00e3o e na dist\u00e2ncia. Mas pouco tempo me restar\u00e1 para ponderar sobre o meu destino: os c\u00edrculos estreitam rapidamente\u2026 mergulhamos loucamente nas garras do turbilh\u00e3o\u2026 e, por entre o rugir, o bramir e o ribombar do oceano e da tempestade, o navio come\u00e7a a estremecer e \u2013 meu Deus! \u2013 e\u2026 a afundar. (3)<\/p>\n<p class=\"n\"><strong>Notas:<br \/>\n<\/strong>1) Embarca\u00e7\u00e3o oriental armada de velas latinas e normalmente de dois mastros. (N. do T.)<br \/>\n2) Monstro marinho lend\u00e1rio das costas escandinavas. (N. do T.)<br \/>\n3)\u00a0<em>O Manuscrito encontrado numa garrafa<\/em>\u00a0foi publicado pela primeira vez em 1831, e s\u00f3 muitos anos mais tarde tomei conhecimento das cartas de Mercator, nas quais o oceano \u00e9 representado a precipitar-se, por quatro embocaduras, no Abismo Polar (do Norte), para ser absorvido pelas entranhas da terra, sendo o pr\u00f3prio p\u00f3lo representado por um rochedo negro que se ergue a uma altura prodigiosa. (N. do A.)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Qui n\u2019a plus qu\u2019un moment \u00e0 vivre N\u2019a plus rien \u00e0 dissimuler. Quinault, Atys Quem tem apenas um momento mais de vida Nada mais tem a dissimular. 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