{"id":633,"date":"2018-07-09T02:59:08","date_gmt":"2018-07-09T02:59:08","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=633"},"modified":"2018-07-09T03:12:01","modified_gmt":"2018-07-09T03:12:01","slug":"o-gato-preto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-gato-preto","title":{"rendered":"O Gato Preto"},"content":{"rendered":"<div class=\"separator\">N\u00e3o espero nem pe\u00e7o que acreditem nesta narrativa ao mesmo tempo estranha e despretensiosa que estou a ponto de escrever. Seria realmente doido se esperasse, neste caso em que at\u00e9 mesmo meus sentidos rejeitaram a pr\u00f3pria evid\u00eancia. Todavia, n\u00e3o sou louco e certamente n\u00e3o sonhei o que vou narrar. Mas amanh\u00e3 morrerei e quero hoje aliviar minha alma. Meu prop\u00f3sito imediato \u00e9 o de colocar diante do mundo, simplesmente, sucintamente e sem coment\u00e1rios, uma s\u00e9rie de eventos nada mais do que dom\u00e9sticos. Atrav\u00e9s de suas consequ\u00eancias, esses acontecimentos me terrificaram, torturaram e destru\u00edram. Entretanto, n\u00e3o tentarei explic\u00e1- los nem justific\u00e1-los. Para mim significaram apenas Horror, para muitos parecer\u00e3o menos terr\u00edveis do que g\u00f3ticos ou grotescos. Mais tarde, talvez, algum intelecto surgir\u00e1 para reduzir minhas fantasmagorias a lugares-comuns \u2013 alguma intelig\u00eancia mais calma, mais l\u00f3gica, muito menos excit\u00e1vel que a minha; e esta perceber\u00e1, nas circunst\u00e2ncias que descrevo com espanto, nada mais que uma sucess\u00e3o ordin\u00e1ria de causas e efeitos muito naturais.<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">Desde a inf\u00e2ncia observaram minha docilidade e a humanidade de meu car\u00e1ter. A ternura de meu cora\u00e7\u00e3o era de fato t\u00e3o consp\u00edcua que me tornava alvo dos gracejos de meus companheiros. Gostava especialmente de animais e, assim, meus pais permitiam que eu criasse um grande n\u00famero de mascotes. Passava a maior parte de meu tempo com eles e meus momentos mais felizes transcorriam quando os alimentava ou acariciava. Esta peculiaridade de car\u00e1ter cresceu comigo e, ao tornar-me homem, prossegui derivando dela uma de minhas principais fontes de prazer. Todos aqueles que estabeleceram uma rela\u00e7\u00e3o de afeto com um c\u00e3o inteligente e fiel dificilmente precisar\u00e3o que eu me d\u00ea ao trabalho de explicar a natureza da intensidade da gratifica\u00e7\u00e3o que deriva de tal relacionamento. Existe alguma coisa no amor altru\u00edsta e pronto ao sacrif\u00edcio de um animal que vai diretamente ao cora\u00e7\u00e3o daquele que teve ocasi\u00f5es frequentes de testar a amizade mesquinha e a fr\u00e1gil fidelidade dos homens.<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">Casei-me cedo e tive a felicidade de encontrar em minha esposa uma disposi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o era muito diferente da minha. Observando como gostava de animais dom\u00e9sticos, ela n\u00e3o perdeu oportunidade para me trazer representantes das esp\u00e9cies mais agrad\u00e1veis. T\u00ednhamos p\u00e1ssaros, peixinhos dourados, um belo c\u00e3o, coelhos, um macaquinho e um gato.<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">Este \u00faltimo era um animal notavelmente grande e belo, completamente preto e dotado de uma sagacidade realmente admir\u00e1vel. Ao falar de sua intelig\u00eancia, minha esposa, cujo cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o era afetado pela m\u00ednima supersti\u00e7\u00e3o, fazia frequentes alus\u00f5es \u00e0 antiga cren\u00e7a popular de que todos os gatos pretos eram bruxas disfar\u00e7adas. N\u00e3o que ela jamais mencionasse esse assunto seriamente \u2013 e se falo nele \u00e9 simplesmente porque me recordei agora do fato.<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">Pluto \u2013 esse era o nome do gato \u2013 era minha mascote favorita e era com ele que passava mais tempo. Era s\u00f3 eu que o alimentava e o animal me acompanhava em qualquer parte da casa em que eu fosse. De fato, era dif\u00edcil impedi-lo de sair \u00e0 rua comigo e acompanhar-me.<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">Nossa amizade perdurou desta forma por diversos anos, durante os quais meu temperamento geral e meu car\u00e1ter \u2013 devido \u00e0 interfer\u00eancia da Intemperan\u00e7a criada pelo Dem\u00f4nio \u2013 tinham (meu rosto se cobre de rubor ao confess\u00e1-lo) sofrido uma mudan\u00e7a radical para pior. A cada dia que se passava eu ficava mais mal-humorado, mais irrit\u00e1vel, menos interessado nos sentimentos alheios. Permitia-me usar linguagem grosseira com minha pr\u00f3pria esposa. Ap\u00f3s um certo per\u00edodo de tempo, cheguei a torn\u00e1-la alvo de viol\u00eancia pessoal. Naturalmente, minhas mascotes sentiram a diferen\u00e7a em minha disposi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o apenas as negligenciava, como chegava a trat\u00e1-las mal. Mas com rela\u00e7\u00e3o a Pluto, entretanto, eu ainda conservava suficiente considera\u00e7\u00e3o para conter-me antes de maltrat\u00e1-lo, ao passo que n\u00e3o tinha escr\u00fapulos em judiar dos coelhos, do macaco e at\u00e9 mesmo do c\u00e3o quando, por acidente ou at\u00e9 mesmo por afei\u00e7\u00e3o, eles se atravessavam em meu caminho. Por\u00e9m minha doen\u00e7a cresceu cada vez mais \u2013 pois que doen\u00e7a \u00e9 pior que o v\u00edcio do alcoolismo? \u2013 e, finalmente, at\u00e9 Pluto, que estava agora ficando velho e, em consequ\u00eancia, um tanto impertinente, at\u00e9 Pluto come\u00e7ou a experimentar os efeitos de meu mau humor.<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">Uma noite, ao chegar em casa bastante embriagado, depois de um de meus passeios sem destino atrav\u00e9s da cidade, imaginei que o gato estava evitando minha presen\u00e7a. Agarrei-o \u00e0 for\u00e7a; e ent\u00e3o, assustado por minha viol\u00eancia, ele infligiu uma pequena ferida em minha m\u00e3o com os dentinhos. A f\u00faria de um dem\u00f4nio possuiu-me instantaneamente. Nem sequer conseguia reconhecer a mim mesmo. Minha alma original parecia ter fugido imediatamente de meu corpo; e uma malevol\u00eancia mais do que sat\u00e2nica, alimentada pelo gim, assumiu o controle de cada fibra de meu corpo. Tirei um canivete do bolso de meu colete, abri a l\u00e2mina, agarrei a pobre besta pela garganta e deliberadamente arranquei da \u00f3rbita um de seus olhos. Encho-me de rubor e meu corpo todo estremece enquanto registro esta abomin\u00e1vel atrocidade.<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">Quando a manh\u00e3 me trouxe de volta \u00e0 raz\u00e3o \u2013 depois que o sono tinha apagado a maior parte do fogo de minha orgia alco\u00f3lica \u2013, experimentei um sentimento misto de horror e de remorso pelo crime que havia cometido. Mas este sentimento foi no m\u00e1ximo d\u00e9bil e elusivo e a alma permaneceu intocada. Novamente mergulhei em meus excessos e logo afoguei na bebida toda lembran\u00e7a de minha m\u00e1 a\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">Enquanto isso, o gato lentamente se recuperou. A \u00f3rbita vazia do olho perdido apresentava, naturalmente, uma apar\u00eancia assustadora, mas ele n\u00e3o parecia estar sofrendo mais nenhuma dor. Andava pela casa, como de costume, mas, como se poderia esperar, fugia de mim em extremo terror cada vez que chegava perto dele. Ainda me restava uma certa parte de meu \u00e2nimo anterior e a princ\u00edpio lamentei que agora me detestasse tanto uma criatura que j\u00e1 me havia amado. Mas este sentimento logo deu lugar \u00e0 irrita\u00e7\u00e3o. E ent\u00e3o fui acometido, como se fosse para minha queda final e irrevog\u00e1vel, pelo esp\u00edrito da Perversidade. A pr\u00f3pria filosofia n\u00e3o estudou este esp\u00edrito. E todavia, assim como tenho certeza de possuir uma alma vivente, \u00e9 minha convic\u00e7\u00e3o que a perversidade \u00e9 um dos impulsos primitivos do cora\u00e7\u00e3o humano \u2013 uma das faculdades prim\u00e1rias e indivis\u00edveis, um dos sentimentos que d\u00e3o origem e orientam o car\u00e1ter do Homem. Quem j\u00e1 n\u00e3o se flagrou uma centena de vezes a cometer uma a\u00e7\u00e3o vil ou meramente tola por nenhuma raz\u00e3o exceto sentir que n\u00e3o devia? N\u00e3o temos todos n\u00f3s uma inclina\u00e7\u00e3o perp\u00e9tua e contr\u00e1ria a nosso melhor julgamento para violar as Leis, simplesmente porque compreendemos que s\u00e3o obrigat\u00f3rias? Pois foi este esp\u00edrito de Perversidade, digo eu, que veio a causar minha queda final. Foi este anseio insond\u00e1vel da alma, que anela por prejudicar a si mesma, por oferecer viol\u00eancia \u00e0 sua pr\u00f3pria natureza, por praticar o mal pelo amor ao mal e nada mais, que me impulsionou a prosseguir e finalmente consumar a inj\u00faria que tinha infligido sobre a pequena besta inofensiva. Uma manh\u00e3, a sangue-frio, passei-lhe um la\u00e7o ao redor da garganta e o pendurei no galho de uma \u00e1rvore \u2013 enforquei-o com l\u00e1grimas nos olhos, sentindo ao mesmo tempo o remorso mais amargo em meu cora\u00e7\u00e3o \u2013, assassinei o pobre gato porque sabia que ele me tinha amado e porque eu entendia muito bem que ele n\u00e3o me tinha dado raz\u00e3o alguma de queixa \u2013 matei-o porque sabia que ao faz\u00ea-lo estava cometendo um pecado \u2013 um pecado mortal que iria manchar minha alma imortal ao ponto de coloc\u00e1-la \u2013 se isso fosse poss\u00edvel \u2013 fora do alcance at\u00e9 mesmo da infinita miseric\u00f3rdia do Deus Mais Misericordioso e Mais Terr\u00edvel.<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">Na noite seguinte ao dia em que pratiquei esta a\u00e7\u00e3o cruel, fui despertado do sono por gritos de \u201cFogo!\u201d. As cortinas de meu leito estavam em chamas. A casa inteira estava ardendo. Foi com grande dificuldade que minha esposa, uma criada e eu mesmo escapamos da conflagra\u00e7\u00e3o. A destrui\u00e7\u00e3o foi completa. Todos os meus bens materiais foram consumidos e a partir desse momento entreguei-me ao desespero.<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">Estou acima da fraqueza de tentar estabelecer uma sequ\u00eancia de causa e efeito entre o desastre e a atrocidade. Mas estou detalhando um encadeamento de fatos \u2013 e n\u00e3o desejo deixar imperfeito um s\u00f3 dos elos da corrente. No dia que se seguiu ao inc\u00eandio, visitei as ru\u00ednas. Todas as paredes tinham desabado, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o de uma \u00fanica. Esta exce\u00e7\u00e3o foi a de um aposento interno, uma parede n\u00e3o muito grossa, que se erguia mais ou menos na metade da casa, justamente aquela contra a qual descansava a cabeceira de minha cama. O pr\u00f3prio reboco tinha ali, em grande parte, resistido \u00e0 a\u00e7\u00e3o do fogo \u2013 segundo julguei, porque era feito de argamassa nova, talvez ainda um pouco \u00famida. Em torno desta parede estava reunida uma grande multid\u00e3o; e muitas pessoas pareciam estar examinando um trecho especial dela, com minuciosa aten\u00e7\u00e3o. As palavras \u201cestranho\u201d, \u201csingular\u201d e outras semelhantes excitaram-me a curiosidade. Aproximei-me e vi, como se estivesse gravado em bas relief [1] sobre a superf\u00edcie branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem estava desenhada com uma precis\u00e3o realmente maravilhosa. Havia uma corda esbo\u00e7ada ao redor do pesco\u00e7o do animal.<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">Da primeira vez que contemplei esta apari\u00e7\u00e3o \u2013 porque dificilmente poderia cham\u00e1-la de algo menos assombroso \u2013, meu espanto e meu terror foram extremos. Mas, finalmente, o racioc\u00ednio e a reflex\u00e3o vieram em meu amparo. O gato, segundo recordava, tinha sido enforcado em um jardim adjacente \u00e0 casa. Logo que fora dado o alarme de inc\u00eandio, este jardim ficou imediatamente cheio de basbaques, um dos quais provavelmente tinha cortado a corda que prendia \u00e0 arvore o gato e jogado o animal dentro de meu quarto atrav\u00e9s de uma janela aberta. Talvez at\u00e9 mesmo a inten\u00e7\u00e3o fosse boa, quem sabe queriam acordar-me do sono e lan\u00e7assem o animal janela adentro para esse fim. A queda das outras paredes tinha comprimido a v\u00edtima de minha crueldade na pr\u00f3pria subst\u00e2ncia do reboco rec\u00e9m-aplicado; o cal contido nele, misturado \u00e0 am\u00f4nia proveniente da carca\u00e7a, com o calor das chamas, tinha ent\u00e3o realizado o retrato que contemplava agora.<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">Embora eu satisfizesse minha raz\u00e3o assim rapidamente, se bem que n\u00e3o tivesse podido acalmar totalmente minha consci\u00eancia e tentasse desse modo descartar o fato assombroso que acabei de descrever, isso n\u00e3o impediu que produzisse forte impress\u00e3o sobre minha imagina\u00e7\u00e3o. Durante meses n\u00e3o conseguia livrar minha vis\u00e3o interna do fantasma do gato; e, durante esse per\u00edodo, retornou a meu esp\u00edrito uma esp\u00e9cie de sentimento que se assemelhava a remorso, mas n\u00e3o era exatamente isso. Cheguei ao ponto de lamentar a perda do animal e a procurar, nos ambientes ordin\u00e1rios que agora habitualmente frequentava, outra mascote da mesma esp\u00e9cie, cuja apar\u00eancia fosse semelhante e pudesse ocupar o vazio deixado pela primeira.<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">Uma noite eu estava sentado, entorpecido de tanto beber, em um botequim da pior esp\u00e9cie, quando minha aten\u00e7\u00e3o foi subitamente atra\u00edda para um objeto preto que repousava sobre a tampa de uma das imensas bordalesas de gim ou de rum que constitu\u00edam o principal mobili\u00e1rio da pe\u00e7a. H\u00e1 v\u00e1rios minutos eu j\u00e1 contemplava fixamente a tampa desse barril, e o que agora me causava surpresa era o fato de que n\u00e3o houvesse percebido antes o objeto que se encontrava sobre ele. Aproximei-me a passos vacilantes, estendi a m\u00e3o e toquei-o. Era um gato preto \u2013 um animal muito grande \u2013, t\u00e3o grande quanto Pluto e extremamente parecido com ele em todos os detalhes, salvo um: Pluto n\u00e3o tinha um pelo branco sequer em qualquer por\u00e7\u00e3o de seu corpo; mas este gato tinha uma mancha branca bastante grande, embora de formato indefinido, cobrindo-lhe quase inteiramente o peito.<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">Assim que o toquei, o animal ergueu-se imediatamente, ronronou bem alto, esfregou-se contra minha m\u00e3o e pareceu encantado com minha aten\u00e7\u00e3o. Tinha encontrado a pr\u00f3pria criatura que vinha procurando. Imediatamente fui falar com o taverneiro e ofereci-me para comprar o bichano, mas ele disse que o animal n\u00e3o lhe pertencia \u2013 que nunca o tinha visto antes e que n\u00e3o fazia a menor ideia de onde tinha vindo ou a quem pudesse pertencer.<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">Continuei com minhas car\u00edcias, e, quando me dispus a ir para casa, o animal demonstrou estar disposto a me acompanhar. Permiti-lhe que o fizesse; de fato, durante o caminho, ocasionalmente parava, curvava-me e fazia-lhe car\u00edcias. Quando chegamos \u00e0 casa em que agora eu morava, ele familiarizou-se de imediato, adquirindo em seguida as boas gra\u00e7as de minha esposa.<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">Quanto a mim, para meu desapontamento, logo descobri que n\u00e3o gostava do animal. Isto era justamente o reverso do que havia antecipado; por\u00e9m \u2013 n\u00e3o sei como nem por que \u2013 o evidente prazer que o gato achava em minha companhia me aborrecia e enojava. Lenta e progressivamente, estes sentimentos de desgosto e aborrecimento se transformaram em rancor e \u00f3dio. Evitava a criatura, sempre que podia; uma certa sensa\u00e7\u00e3o de vergonha e a lembran\u00e7a de meu antigo feito de crueldade evitaram que eu o machucasse fisicamente. Durante algumas semanas, eu n\u00e3o bati nele nem o maltratei violentamente; mas gradualmente \u2013 muito gradualmente \u2013 comecei a encar\u00e1-lo com uma repugn\u00e2ncia indescrit\u00edvel e a fugir silenciosamente de sua presen\u00e7a odienta, como se estivesse tentando escapar do sopro sufocante de um p\u00e2ntano ou do h\u00e1lito pestilento de uma praga.<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">Sem a menor d\u00favida, o que originou meu rancor pelo animal foi a descoberta, logo na manh\u00e3 seguinte \u00e0 noite em que o trouxe para casa, de que ele, exatamente como Pluto, tamb\u00e9m tivera um dos olhos arrancado. Esta circunst\u00e2ncia, entretanto, s\u00f3 levou minha esposa a gostar ainda mais dele, a qual, conforme relatei anteriormente, possu\u00eda em alto grau aquela humanidade de sentimentos que em \u00e9pocas passadas fora tamb\u00e9m um de meus tra\u00e7os caracter\u00edsticos e a fonte de muitos de meus prazeres mais simples e puros.<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">\u00c0 medida que aumentava minha avers\u00e3o pelo gato, seu amor por mim parecia crescer na mesma propor\u00e7\u00e3o. Seguia meus passos com uma pertin\u00e1cia que seria dif\u00edcil fazer o leitor compreender. Onde quer que me assentasse, vinha enroscar-se embaixo de minha cadeira ou saltar sobre meus joelhos, cobrindo-me de carinhos nojentos. Se eu me erguesse para caminhar, ele se intrometia entre meus p\u00e9s e quase me fazia cair; ou, ent\u00e3o, cravava suas unhas longas e afiadas em minhas roupas e procurava, desta forma, trepar at\u00e9 chegar a meu peito. Nessas ocasi\u00f5es, embora eu ansiasse por rebent\u00e1-lo \u00e0 pancada, ainda me sentia incapaz de faz\u00ea-lo, em parte pela recorda\u00e7\u00e3o de meu crime anterior, mas especialmente \u2013 confessarei de imediato \u2013 porque tinha absoluto pavor daquele animal.<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">Este pavor n\u00e3o era exatamente um temor da possibilidade de algum dano f\u00edsico, todavia n\u00e3o sou capaz de defini-lo de outra forma. Estou quase envergonhado de admitir \u2013 sim, mesmo nesta cela de condenado tenho quase vergonha de admitir \u2013 que o terror e horror que o animal me inspirava tinham sido muito aumentados por uma das mais ilus\u00f3rias quimeras que teria sido poss\u00edvel conceber. Minha esposa me tinha chamado a aten\u00e7\u00e3o, mais de uma vez, para o car\u00e1ter da mancha de pelo branco que j\u00e1 mencionei e que constitu\u00eda a \u00fanica diferen\u00e7a aparente entre o estranho animal e aquele que eu tinha morto. O leitor h\u00e1 de lembrar que esta marca, embora grande, era originalmente muito indefinida; por\u00e9m, muito lentamente, de uma forma quase impercept\u00edvel, uma forma que por muito tempo minha Raz\u00e3o lutou para considerar como meramente fantasiosa, acabou por assumir um contorno rigorosamente distinto. Era agora a representa\u00e7\u00e3o de um objeto tal que a simples ideia de mencion\u00e1-lo me faz tremer. Era por isso, acima de tudo, que eu detestava e temia tanto aquele monstro e teria me livrado dele, se ao menos eu ousasse. Essa imagem, escrevo agora, era a imagem de uma coisa horr\u00edvel, uma coisa apavorante&#8230; a imagem de uma FORCA! Ah, melanc\u00f3lico e terr\u00edvel instrumento de Horror e de Crime \u2013 de Agonia e de Morte!<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">E agora eis que me encontrava realmente desgra\u00e7ado, um miser\u00e1vel al\u00e9m da desgra\u00e7a e da mis\u00e9ria da natureza humana. E era um animal sem alma, cujo companheiro eu tinha destru\u00eddo com desprezo, era um animal sem alma que originava em mim \u2013 eu, que era um homem, criado \u00e0 imagem do Deus Alt\u00edssimo \u2013 tanta ang\u00fastia intoler\u00e1vel! Ai de mim! Nem de dia, nem de noite eu era mais aben\u00e7oado pelo Repouso! Durante o dia a criatura n\u00e3o me deixava por um \u00fanico momento; e, de noite, eu me acordava de hora em hora, despertado de sonhos cheios de um pavor indescrit\u00edvel, para encontrar a respira\u00e7\u00e3o quente daquela coisa soprando diretamente sobre meu rosto e seu enorme peso \u2013 um pesadelo encarnado do qual eu n\u00e3o poderia jamais me acordar, oprimindo e esmagando eternamente o meu cora\u00e7\u00e3o!<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">Sob a press\u00e3o de tormentos assim, os d\u00e9beis tra\u00e7os que restavam de minha boa natureza sucumbiram totalmente. Os maus pensamentos se tornaram meus amigos \u00edntimos, meus \u00fanicos amigos, logo os pensamentos mais \u00edmpios e mais mal\u00e9ficos. O mau humor de minha disposi\u00e7\u00e3o habitual transformou-se em um rancor indefinido voltado para todas as coisas e para toda a humanidade; e os acessos de f\u00faria s\u00fabitos, frequentes e incontrol\u00e1veis aos quais eu agora me abandonava cegamente e sem o menor remorso eram descarregados \u2013 ai de mim! \u2013 precisamente sobre minha esposa, a sofredora mais paciente e mais constante, que nunca emitia sequer uma palavra de queixa ou de revolta contra mim.<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">Um dia ela me acompanhou, com a inten\u00e7\u00e3o de executar alguma tarefa dom\u00e9stica, ao por\u00e3o do velho edif\u00edcio em que nossa pobreza atual nos obrigava a morar. O gato me seguiu pelos degraus \u00edngremes e, quando me fez trope\u00e7ar e quase me levou a cair escada abaixo, deixou-me exasperado a ponto de enlouquecer. Erguendo um machado, esquecido em minha c\u00f3lera do medo infantil que at\u00e9 ent\u00e3o havia impedido que levantasse um dedo contra ele, dirigi um golpe ao animal que, sem a menor d\u00favida, teria sido fatal se tivesse acertado onde eu queria. Por\u00e9m a machadada foi impedida pela m\u00e3o de minha esposa a segurar-me o bra\u00e7o. Esta interfer\u00eancia me lan\u00e7ou em uma raiva mais do que demon\u00edaca: arranquei o bra\u00e7o de seu aperto e, com um \u00fanico golpe, enterrei o machado na cabe\u00e7a dela. Ela caiu morta no mesmo lugar, sem soltar um \u00fanico gemido.<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">Tendo cometido este assassinato pavoroso, imediatamente, sem remorsos e da maneira mais deliberada poss\u00edvel, voltei-me para a tarefa de esconder o corpo. Sabia que n\u00e3o podia remov\u00ea-lo da casa, tanto de dia como de noite, sem correr o risco de ser observado pelos vizinhos. Uma s\u00e9rie de projetos passou por minha cabe\u00e7a. Durante algum tempo, pensei em cortar o corpo em min\u00fasculos fragmentos que depois destruiria no fogo. Depois pensei em cavarlhe uma cova no ch\u00e3o do por\u00e3o. Tamb\u00e9m me passou pela cabe\u00e7a jogar o cad\u00e1ver no po\u00e7o que ficava no p\u00e1tio; ou coloc\u00e1-lo dentro de uma caixa, como se fosse uma mercadoria, aplicando todos os cuidados que em geral se dedica \u00e0 prepara\u00e7\u00e3o de tais volumes e contratando um carregador para retir\u00e1-lo da casa. Finalmente, imaginei o que me pareceu ser um expediente melhor que qualquer um desses. Resolvi empared\u00e1-lo em um dos cantos do por\u00e3o \u2013 conforme dizem que os monges da Idade M\u00e9dia costumavam fazer com suas v\u00edtimas.<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">O por\u00e3o estava perfeitamente adaptado para esse prop\u00f3sito. Suas paredes tinham sido muito mal- constru\u00eddas e h\u00e1 pouco tempo tinham sido novamente rebocadas com uma argamassa grosseira, que a umidade do ambiente n\u00e3o deixara endurecer. Al\u00e9m disso, em uma das paredes havia uma proje\u00e7\u00e3o, causada por uma falsa chamin\u00e9 ou lareira que tinha sido preenchida com tijolos na inten\u00e7\u00e3o de assemelh\u00e1-la ao restante das paredes do por\u00e3o. N\u00e3o tinha d\u00favidas de que poderia facilmente retirar os tijolos neste ponto, enfiar o cad\u00e1ver e depois restaurar a parede inteira ao estado anterior, de tal modo que olhar algum poderia detectar qualquer coisa suspeita.<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">N\u00e3o me enganava neste ponto. Com um p\u00e9 de cabra retirei facilmente os tijolos e, depois de depositar o corpo cuidadosamente contra a parede interna, ergui-o de modo a deix\u00e1-lo em p\u00e9, apoiado contra a parede. Com pouca dificuldade recoloquei os tijolos e deixei a estrutura precisamente da maneira em que se achava antes. Tendo trazido cal, areia e uma por\u00e7\u00e3o de pelos de animais retirados de couros, como era costume na \u00e9poca, preparei, com todas as precau\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, uma argamassa que n\u00e3o podia ser diferente da que recobria o restante da parede e com esta reboquei muito cuidadosamente os tijolos que havia recolocado. Ao terminar, sentia-me satisfeito com a perfei\u00e7\u00e3o do trabalho. A parede n\u00e3o apresentava o menor sinal de que tinha sido modificada. Recolhi a cali\u00e7a do ch\u00e3o com o cuidado mais minucioso. Olhei ao meu redor triunfantemente e congratulei-me: \u201cPelo menos desta vez n\u00e3o trabalhei em v\u00e3o\u201d.<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">Minha pr\u00f3xima tarefa era a de procurar a besta que tinha sido a causa de tamanha desgra\u00e7a, porque tinha, finalmente, a firme resolu\u00e7\u00e3o de mat\u00e1-la. Se nesse momento tivesse podido encontr\u00e1-la, seu destino estaria selado, mas aparentemente o animal ardiloso tinha pressentido alguma coisa ou se amedrontado com a viol\u00eancia de minha raiva anterior, evitando apresentar-se diante de mim enquanto durasse minha m\u00e1 disposi\u00e7\u00e3o. \u00c9 imposs\u00edvel descrever ou imaginar a sensa\u00e7\u00e3o de al\u00edvio profunda e aben\u00e7oada que a aus\u00eancia da detestada criatura causou em meu peito. Melhor ainda, o gato n\u00e3o apareceu nessa noite \u2013 e assim, ao menos por uma noite, desde que o desgra\u00e7ado se introduzira em minha casa, dormi profunda e tranquilamente; sim, dormi o sono dos justos, mesmo que tivesse agora o peso de um assassinato em minha alma!<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">Passaram-se o segundo e o terceiro dias e meu atormentador n\u00e3o regressou. Novamente eu respirava como um homem livre. O monstro tinha fugido aterrorizado e deixado para sempre minha companhia! Nunca mais iria v\u00ea-lo! Minha felicidade era suprema! O remorso ocasionado por minha a\u00e7\u00e3o t\u00e3o negra e perversa praticamente n\u00e3o me perturbava. Algumas perguntas haviam sido feitas, mas fora f\u00e1cil responder. At\u00e9 mesmo havia sido feita uma busca pela pol\u00edcia, mas naturalmente n\u00e3o haviam descoberto nada. Pensei que minha felicidade futura estava assegurada.<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">Mas no quarto dia depois do assassinato, uma patrulha da pol\u00edcia retornou, muito inesperadamente, entrou em minha casa e recome\u00e7ou a fazer uma investiga\u00e7\u00e3o rigorosa do pr\u00e9dio. Achava-me seguro, todavia, devido \u00e0 impenetrabilidade do lugar em que escondera o cad\u00e1ver, e assim n\u00e3o me senti nem um pouco constrangido pela busca. Os policiais ordenaram-me que os acompanhasse enquanto procuravam. N\u00e3o deixaram nem canto nem escaninho sem explorar. Finalmente, pela terceira ou quarta vez, desceram ao por\u00e3o. N\u00e3o senti estremecer nem um s\u00f3 de meus m\u00fasculos. Meu cora\u00e7\u00e3o batia calmamente como o de algu\u00e9m perfeitamente inocente. Caminhei de ponta a ponta do por\u00e3o. Cruzei os bra\u00e7os e fiquei andando de um lado para outro. A pol\u00edcia finalmente satisfez-se e estava a ponto de partir, desta vez em definitivo. A alegria em meu cora\u00e7\u00e3o era grande demais para ser contida. Ansiava para dizer ao menos uma palavra de triunfo e queria garantir-me duplamente de que eles me julgavam inocente.<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">\u2013 Cavalheiros \u2013 disse finalmente, enquanto o grupo subia as escadas \u2013, estou encantado por ter desfeito todas as suas suspeitas. Desejo a todos uma boa sa\u00fade e um pouco mais de cortesia. A prop\u00f3sito, cavalheiros esta casa, esta casa \u00e9 muito bem-constru\u00edda. (Tomado de um violento desejo de aparentar a maior naturalidade, falava sem prestar muita aten\u00e7\u00e3o no que dizia.) Posso at\u00e9 dizer que \u00e9 uma casa excelentemente bem-constru\u00edda. Estas paredes \u2013 j\u00e1 est\u00e3o de partida, cavalheiros? \u2013, estas paredes s\u00e3o muito s\u00f3lidas.<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">E foi neste ponto que, tomado por um est\u00fapido frenesi de bravata, bati pesadamente com uma bengala que tinha na m\u00e3o justamente sobre aquela por\u00e7\u00e3o da parede atr\u00e1s da qual jazia o cad\u00e1ver da esposa que tinha apertado tantas vezes contra o peito.<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">Possa Deus escudar-me e proteger-me das presas do Pai dos Dem\u00f4nios! T\u00e3o logo a reverbera\u00e7\u00e3o dos golpes que havia dado desapareceu no sil\u00eancio, foi respondida por uma voz de dentro do t\u00famulo! \u2013 respondida por um grito, a princ\u00edpio abafado e entrecortado, como os solu\u00e7os de uma crian\u00e7a, mas rapidamente se avolumando em um grito longo, alto e cont\u00ednuo, totalmente anormal e desumano \u2013 um uivo \u2013, um guincho lamentoso, meio de horror e meio de triunfo, tal como s\u00f3 poderia ter subido das profundezas do inferno, um berro emitido conjuntamente pelas gargantas de centenas de condenados \u00e0 dana\u00e7\u00e3o eterna, torturados em sua agonia, e pelos dem\u00f4nios que exultam em sua condena\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div class=\"separator\">\u00c9 tolice tentar descrever meus pensamentos. Sentindo-me desmaiar, cambaleei at\u00e9 a parede oposta. Por um instante, o grupo de policiais que subia as escadas permaneceu im\u00f3vel, em um misto de espanto e profundo terror. No momento seguinte, uma d\u00fazia de bra\u00e7os robustos esfor\u00e7ava-se por esboroar a parede. Ela caiu inteira. O cad\u00e1ver, j\u00e1 bastante decomposto e coberto de sangue coagulado, estava ereto perante os olhos dos espectadores, na mesma posi\u00e7\u00e3o em que eu o deixara. Mas sobre sua cabe\u00e7a, com a boca vermelha escancarada e uma chispa de fogo no \u00fanico olho, sentava-se a besta horrenda cujos ardis me tinham levado ao assassinato e cuja voz denunciadora agora me levaria ao carrasco. Eu havia emparedado o monstro dentro do t\u00famulo!<\/div>\n<div class=\"separator\"><\/div>\n<div><strong>Notas:<\/strong><\/div>\n<div class=\"separator\">1) Baixo-relevo. Em franc\u00eas no original. (N.T.)<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o espero nem pe\u00e7o que acreditem nesta narrativa ao mesmo tempo estranha e despretensiosa que estou a ponto de escrever. 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