{"id":635,"date":"2018-07-09T02:59:23","date_gmt":"2018-07-09T02:59:23","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=635"},"modified":"2018-07-09T03:12:01","modified_gmt":"2018-07-09T03:12:01","slug":"o-corvo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-corvo","title":{"rendered":"O Corvo"},"content":{"rendered":"<p>Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,<br \/>\nVagos, curiosos tomos de ci\u00eancias ancestrais,<br \/>\nE j\u00e1 quase adormecia, ouvi o que parecia<br \/>\nO som de alg\u00faem que batia levemente a meus umbrais.<br \/>\n\u201cUma visita\u201d, eu me disse, \u201cest\u00e1 batendo a meus umbrais.<br \/>\n\u00c9 s\u00f3 isto, e nada mais.\u201d<br \/>\nAh, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,<br \/>\nE o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.<br \/>\nComo eu qu\u2019ria a madrugada, toda a noite aos livros dada<br \/>\nP\u2019ra esquecer (em v\u00e3o!) a amada, hoje entre hostes celestiais<br \/>\nEssa cujo nome sabem as hostes celestiais,<br \/>\nMas sem nome aqui jamais!<br \/>\nComo, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo<br \/>\nMe incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!<br \/>\nMas, a mim mesmo infundido for\u00e7a, eu ia repetindo,<br \/>\n\u201c\u00c9 uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;<br \/>\nUma visita tardia pede entrada em meus umbrais.<br \/>\n\u00c9 s\u00f3 isto, e nada mais\u201d.<br \/>\nE, mais forte num instante, j\u00e1 nem tardo ou hesitante,<br \/>\n\u201cSenhor\u201d, eu disse, \u201cou senhora, decerto me desculpais;<br \/>\nMas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,<br \/>\nT\u00e3o levemente batendo, batendo por meus umbrais,<br \/>\nQue mal ouvi\u2026\u201d E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.<br \/>\nNoite, noite e nada mais.<\/p>\n<p>A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,<br \/>\nD\u00fabio e tais sonhos sonhando que os ningu\u00e9m sonhou iguais.<br \/>\nMas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,<br \/>\nE a \u00fanica palavra dita foi um nome cheio de ais \u2013<br \/>\nEu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.<br \/>\nIsso s\u00f3 e nada mais.<\/p>\n<p>Para dentro est\u00e3o volvendo, toda a alma em mim ardendo,<br \/>\nN\u00e3o tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.<br \/>\n\u201cPor certo\u201d, disse eu, \u201caquela bulha \u00e9 na minha janela.<br \/>\nVamos ver o que est\u00e1 nela, e o que s\u00e3o estes sinais.\u201d<br \/>\nMeu cora\u00e7\u00e3o se distra\u00eda pesquisando estes sinais.<br \/>\n\u201c\u00c9 o vento, e nada mais.\u201d<\/p>\n<p>Abri ent\u00e3o a vidra\u00e7a, e eis que, com muita nega\u00e7a,<br \/>\nEntrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.<br \/>\nN\u00e3o fez nenhum cumprimento, n\u00e3o parou nem um momento,<br \/>\nMas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,<br \/>\nNum alvo busto de Atena que h\u00e1 por sobre meus umbrais,<br \/>\nFoi, pousou, e nada mais.<\/p>\n<p>E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura<br \/>\nCom o solene decoro de seus ares rituais.<br \/>\n\u201cTens o aspecto tosquiado\u201d, disse eu, \u201cmas de nobre e ousado,<br \/>\n\u00d3 velho corvo emigrado l\u00e1 das trevas infernais!<br \/>\nDize-me qual o teu nome l\u00e1 nas trevas infernais.\u201d<br \/>\nDisse o corvo, \u201cNunca mais\u201d.<\/p>\n<p>Pasmei de ouvir este raro p\u00e1ssaro falar t\u00e3o claro,<br \/>\nInda que pouco sentido tivessem palavras tais.<br \/>\nMas deve ser concedido que ningu\u00e9m ter\u00e1 havido<br \/>\nQue uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,<br \/>\nAve ou bicho sobre o busto que h\u00e1 por sobre seus umbrais,<br \/>\nCom o nome \u201cNunca mais\u201d.<\/p>\n<p>Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,<br \/>\nQue essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.<br \/>\nNem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento<br \/>\nPerdido, murmurei lento, \u201cAmigo, sonhos \u2013 mortais<br \/>\nTodos \u2013 todos j\u00e1 se foram. Amanh\u00e3o tamb\u00e9m te vais\u201d.<br \/>\nDisse o corvo, \u201cNunca mais\u201d.<\/p>\n<p>A alma s\u00fabito movida por frase t\u00e3o bem cabida,<br \/>\n\u201cPor certo\u201d, disse eu, \u201cs\u00e3o estas vozes usuais,<br \/>\nAprendeu-as de algum dono, que a desgra\u00e7a e o abandono<br \/>\nSeguiram at\u00e9 que o entono da alma se quebrou em ais,<br \/>\nE o bord\u00e3o de desesp\u2019ran\u00e7a de seu canto cheio de ais<br \/>\nEra este \u201cNunca mais\u201d.<\/p>\n<p>Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,<br \/>\nSentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;<br \/>\nE, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira<br \/>\nQue qu\u2019ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,<br \/>\nEsta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,<br \/>\nCom aquele \u201cNunca mais\u201d.<\/p>\n<p>Comigo isto discorrendo, mas nem s\u00edlaba dizendo<br \/>\n\u00c0 ave que na minha alma cravava os olhos fatais,<br \/>\nIsto e mais ia cismando, a cabe\u00e7a reclinando<br \/>\nNo veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,<br \/>\nNaquele veludo one ela, entre as sobras desiguais,<br \/>\nReclinar-se-\u00e1 nunca mais!<\/p>\n<p>Fez-se ent\u00e3o o ar mais denso, como cheio dum incenso<br \/>\nQue anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.<br \/>\n\u201cMaldito!\u201d, a mim disse, \u201cdeu-te Deus, por anjos concedeu-te<br \/>\nO esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,<br \/>\nO nome da que n\u00e3o esqueces, e que faz esses teus ais!\u201d<br \/>\nDisse o corvo, \u201cNunca mais\u201d.<\/p>\n<p>\u201cProfeta\u201d, disse eu, \u201cprofeta \u2013 ou dem\u00f4nio ou ave preta!<br \/>\nFosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,<br \/>\nA este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,<br \/>\nA esta casa de \u00e2ncia e medo, dize a esta alma a quem atrais<br \/>\nSe h\u00e1 um b\u00e1lsamo long\u00ednquo para esta alma a quem atrais!<br \/>\nDisse o corvo, \u201cNunca mais\u201d.<\/p>\n<p>\u201cProfeta\u201d, disse eu, \u201cprofeta \u2013 ou dem\u00f4nio ou ave preta!<br \/>\nPelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.<br \/>\nDize a esta alma entristecida se no \u00c9dem de outra vida<br \/>\nVer\u00e1 essa hoje perdida entre hostes celestiais,<br \/>\nEssa cujo nome sabem as hostes celestiais!\u201d<br \/>\nDisse o corvo, \u201cNunca mais\u201d.<\/p>\n<p>\u201cQue esse grito nos aparte, ave ou diabo!\u201d, eu disse. \u201cParte!<br \/>\nTorna \u00e0 noite e \u00e0 tempestade! Torna \u00e0s trevas infernais!<br \/>\nN\u00e3o deixes pena que ateste a mentira que disseste!<br \/>\nMinha solid\u00e3o me reste! Tira-te de meus umbrais!<br \/>\nTira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!\u201d<br \/>\nDisse o corvo, \u201cNunca mais\u201d.<\/p>\n<p>E o corvo, na noite infinda, est\u00e1 ainda, est\u00e1 ainda<br \/>\nNo alvo busto de Atena que h\u00e1 por sobre os meus umbrais.<br \/>\nSeu olhar tem a medonha cor de um dem\u00f4nio que sonha,<br \/>\nE a luz lan\u00e7a-lhe a tristonha sombra no ch\u00e3o h\u00e1 mais e mais,<br \/>\nLibertar-se-\u00e1\u2026 nunca mais!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste, Vagos, curiosos tomos de ci\u00eancias ancestrais, E j\u00e1 quase adormecia, ouvi o que parecia O som de alg\u00faem que batia levemente a meus umbrais. \u201cUma visita\u201d,&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[26],"class_list":["post-635","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-edgar-allan-poe"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/635","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=635"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/635\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":641,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/635\/revisions\/641"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=635"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=635"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=635"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}