{"id":636,"date":"2018-07-09T02:59:39","date_gmt":"2018-07-09T02:59:39","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=636"},"modified":"2018-07-09T03:12:01","modified_gmt":"2018-07-09T03:12:01","slug":"berenice","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/berenice","title":{"rendered":"Berenice"},"content":{"rendered":"<p>Desgra\u00e7a \u00e9 variada. O infort\u00fanio da terra \u00e9 multiforme. Estendendo-se pelo vasto horizonte, como o arco-\u00edris, suas cores s\u00e3o como as deste, variadas, distintas e, contudo, intimamente misturadas. Estendendo-se pelo vasto horizonte, como o arco-\u00edris! Como \u00e9 que, da beleza, derivei eu um exemplo de fei\u00fara? Da alian\u00e7a da paz, um s\u00edmile de tristeza? Mas \u00e9 que, assim como na \u00e9tica o mal \u00e9 uma conseq\u00fc\u00eancia do bem, igualmente, na realidade, da alegria nasce a tristeza. Ou a lembran\u00e7a da felicidade passada \u00e9 a ang\u00fastia de hoje, ou as agonias que existem agora t\u00eam sua origem nos \u00eaxtases que podiam ter existido<\/p>\n<p>Meu nome de batismo \u00e9 Egeu; o de minha fam\u00edlia n\u00e3o o mencionarei. E, no entanto, n\u00e3o h\u00e1 torres no pa\u00eds mais vetustas do que as salas cinzentas e melanc\u00f3licas do solar de meus av\u00f3s. Nossa estirpe tem sido chamada uma ra\u00e7a de vision\u00e1rios. Em muitos pormenores not\u00e1veis, no car\u00e1ter da mans\u00e3o familiar, nos afrescos do sal\u00e3o principal, nas tape\u00e7arias dos dormit\u00f3rios, nas cinzeladuras de algumas colunas da sala de armas, por\u00e9m mais especialmente na galeria de pinturas antigas, no estilo da biblioteca, e, por fim, na natureza muito peculiar dos livros que ela continha, h\u00e1 mais que suficiente evid\u00eancia a garantir minha assertiva.<\/p>\n<p>As recorda\u00e7\u00f5es de meus primeiros anos est\u00e3o intimamente ligadas \u00e0quela sala e aos seus volumes, dos quais nada mais direi. Ali morreu minha m\u00e3e. Ali nasci. Mas \u00e9 ocioso dizer que eu n\u00e3o havia vivido antes, que a alma n\u00e3o tem exist\u00eancia pr\u00e9via. V\u00f3s negais isto? N\u00e3o discutamos o assunto. Convencido eu mesmo, n\u00e3o procuro convencer. H\u00e1, por\u00e9m, uma lembran\u00e7a de forma a\u00e9rea, de olhos espirituais e expressivos, de sons musicais embora tristes; uma lembran\u00e7a que jamais ser\u00e1 apagada; uma reminisc\u00eancia parecida a uma sombra, vaga, vari\u00e1vel, indefinida, inst\u00e1vel; e t\u00e3o parecida a uma sombra, tamb\u00e9m, que me vejo na impossibilidade de livrar-me dela enquanto a luz de minha raz\u00e3o existir.<\/p>\n<p>Foi naquele quarto que nasci. Emergindo assim da longa noite daquilo que parecia mas n\u00e3o era, o nada, para logo cair nas mesmas regi\u00f5es da terra das fadas, num pal\u00e1cio fant\u00e1stico, nos estranhos dom\u00ednios do pensamento mon\u00e1stico e da erudi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 de estranhar que tenha eu lan\u00e7ado em torno de mim um olhar ardente e espantado, que tenha consumido minha inf\u00e2ncia nos livros e dissipado minha juventude em devaneios; mas \u00e9 estranho que, com o correr dos anos, e tendo o apogeu da maturidade me encontrado ainda na mans\u00e3o de meus pais; \u00e9 maravilhoso que a in\u00e9rcia tenha tombado sobre as fontes da minha vida; \u00e9 maravilhoso como total invers\u00e3o se operou na natureza de meus pensamentos mais comuns. As realidades do mundo me afetavam como vis\u00f5es, e somente como vis\u00f5es, enquanto as loucas id\u00e9ias da terra dos sonhos tornavam-se, por sua vez, n\u00e3o o estofo de minha exist\u00eancia cotidiana, mas, na realidade, a pr\u00f3pria exist\u00eancia em si, completa e unicamente.<\/p>\n<p>Berenice e eu \u00e9ramos primos e crescemos juntos no solar paterno. Mas crescemos diferentemente: eu, de m\u00e1 sa\u00fade e mergulhado na minha melancolia, ela, \u00e1gil, graciosa e exuberante de energia; ela, entregue aos passeios pelas encostas da colina, eu, aos estudos no claustro. Eu, encerrado dentro do meu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o e dedicado, de corpo e alma, \u00e0 mais intensa e penosa medita\u00e7\u00e3o, ela, divagando descuidosa pela vida, sem pensar em sombras no seu caminho ou no v\u00f4o saliente das horas de asas lutulentas. Berenice! \u2013 invoco-lhe o nome \u2013 Berenice! \u2013 e das ru\u00ednas sombrias da mem\u00f3ria repontam milhares de tumultuosas recorda\u00e7\u00f5es ao som da invoca\u00e7\u00e3o! Ah! bem viva tenho agora a sua imagem diante de mim, como nos velhos dias de sua jovialidade e alegria! Oh! deslumbrante, por\u00e9m fant\u00e1stica beleza! Oh! s\u00edlfide entre arbustos de Arnheim! Oh! n\u00e1iade entre as suas fontes! E depois. . . depois tudo \u00e9 mist\u00e9rio e horror, uma hist\u00f3ria que n\u00e3o deveria ser contada. Uma doen\u00e7a, uma fatal doen\u00e7a, soprou, como o simum, sobre seu corpo. E precisamente quando a contemplava, o esp\u00edrito da metamorfose arrojou-se sobre ela invadindo-lhe a mente, os h\u00e1bitos e o car\u00e1ter e, da maneira mais sutil e terr\u00edvel, perturbando-lhe a pr\u00f3pria personalidade! Ah! o destruidor veio e se foi! E a v\u00edtima. . . onde estava ela? N\u00e3o a conhecia. . . ou n\u00e3o mais a conhecia como Berenice!<\/p>\n<p>Entre a numerosa s\u00e9rie de males, acarretados por aquele fatal e primeiro que ocasionou uma revolu\u00e7\u00e3o de t\u00e3o horr\u00edvel esp\u00e9cie no ser moral e f\u00edsico de minha prima, pode-se mencionar como o mais aflitivo e obstinado em sua natureza, uma esp\u00e9cie de epilepsia, que, n\u00e3o raro, terminava em transe catal\u00e9ptico, transe muito semelhante \u00e0 morte efetiva e da qual despertava ela quase sempre duma maneira assustadoramente subit\u00e2nea. Entrementes, minha pr\u00f3pria doen\u00e7a \u2013 pois me fora dito que eu n\u00e3o poderia dar-lhe outro nome \u2013 minha pr\u00f3pria doen\u00e7a aumentou e assumiu afinal um car\u00e1ter de monomania, de forma nova e extraordin\u00e1ria, e a cada hora e momento crescia em vigor e por fim veio a adquirir sobre mim a mais incompreens\u00edvel ascend\u00eancia. Esta monomania, se devo assim cham\u00e1-la, consistia numa irritabilidade m\u00f3rbida daquelas faculdades do esp\u00edrito denominadas pela ci\u00eancia metaf\u00edsica \u201cfaculdades da aten\u00e7\u00e3o \u201c. \u00c9 mais que prov\u00e1vel n\u00e3o me entenderem, mas temo, deveras, que me seja totalmente imposs\u00edvel transmitir \u00e0 mente do comum dos leitores uma id\u00e9ia adequada daquela nervosa INTENSIDADE DE ATEN\u00c7\u00c3O com que, no meu caso, as faculdades meditativas (para evitar a linguagem t\u00e9cnica) se aplicavam e absorviam na contempla\u00e7\u00e3o dos mais vulgares objetos do mundo.<\/p>\n<p>Meditar infatigavelmente longas horas, com a aten\u00e7\u00e3o voltada para alguma frase fr\u00edvola, \u00e0 margem de um livro ou no seu aspecto tipogr\u00e1fico; ficar absorto, durante a melhor parte dum dia de ver\u00e3o, na contempla\u00e7\u00e3o duma sombra extravagante, projetada obliquamente sobre a tape\u00e7aria, ou sobre o soalho; perder uma noite inteira olhando a chama im\u00f3vel duma l\u00e2mpada, ou as brasas de um fog\u00e3o; sonhar dias inteiros com o perfume de uma flor; repetir, monotonamente, alguma palavra comum, at\u00e9 que o som, \u00e0 for\u00e7a da repeti\u00e7\u00e3o freq\u00fcente, cessasse de representar ao esp\u00edrito a menor id\u00e9ia, qualquer que fosse; perder toda a no\u00e7\u00e3o de movimento ou de exist\u00eancia f\u00edsica, em virtude de uma absoluta quieta\u00e7\u00e3o do corpo, prolongada e obstinadamente mantida \u2013 tais eram os mais comuns e menos perniciosos caprichos provocados por um estado de minhas faculdades mentais, n\u00e3o, de fato, absolutamente sem paralelo, mas certamente desafiando qualquer esp\u00e9cie de an\u00e1lise ou explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sejamos, por\u00e9m, mais expl\u00edcitos. A excessiva, \u00e1vida e m\u00f3rbida aten\u00e7\u00e3o assim excitada por objetos, em sua pr\u00f3pria natureza triviais, n\u00e3o deve ser confundida, a prop\u00f3sito, com aquela propens\u00e3o ruminativa comum a toda a humanidade e, mais especialmente, do agrado das pessoas de imagina\u00e7\u00e3o ardente. Nem era tampouco, como se poderia a princ\u00edpio supor, um estado extremo, ou um a exagera\u00e7\u00e3o de tal propens\u00e3o, mas prim\u00e1ria e essencialmente distinta e diferente dela. Naquele caso, o sonhador ou entusiasta, estando interessado por um objeto, geralmente n\u00e3o trivial, perde imperceptivelmente de vista esse objeto atrav\u00e9s duma imensidade de dedu\u00e7\u00f5es, e sugest\u00f5es dele provindas, at\u00e9 que, chegando ao fim daquele sonho acordado, muitas vezes repleto de voluptuosidade, descobre estar o incitamentum, ou causa primeira de suas medita\u00e7\u00f5es, inteiramente esvanecido e esquecido. No meu caso, o ponto de partida era invariavelmente fr\u00edvolo, embora assumisse, por for\u00e7a de minha vis\u00e3o doentia, uma import\u00e2ncia irreal e refratada. Nenhuma ou poucas reflex\u00f5es eram feitas e estas poucas voltavam, obstinadamente, ao objeto primitivo, como a um centro. As medita\u00e7\u00f5es nunca eram agrad\u00e1veis, e, ao fim do devaneio, a causa primeira, longe de estar fora de vista, atingira aquele interesse sobrenaturalmente exagerado, que era a caracter\u00edstica principal da doen\u00e7a. Em uma palavra, as faculdades da mente, mais particularmente exercitadas em mim, eram, como j\u00e1 disse antes, as da aten\u00e7\u00e3o ao passo que no sonhador-acordado s\u00e3o as especulativas.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, os meus livros, se n\u00e3o contribu\u00edam efetivamente para irritar a mol\u00e9stia, participavam largamente, como \u00e9 f\u00e1cil perce-ber-se, pela sua natureza imaginativa e inconseq\u00fcente, das qualidades caracter\u00edsticas da pr\u00f3pria doen\u00e7a. Bem me lembro, entre outros, do tratado do nobre italiano Coelius Secundus Curio \u2018De AMPLITUDINE BEATI REGNI DEI;\u201d da grande obra de Santo Agostinho, \u201cA CIDADE DE DEUS\u201d; do \u201cDe CARNE CHRISTI\u201d, de Tertuliano, no qual a paradoxal senten\u00e7a: MORTUS EST DEI FILIUS; CREDIBILE EST QUIA INEPTUM EST: ET SEPULTUS RESUR-REXIT; CERTUM EST QUIA IMPOSSIBiLE EST\u201d, absorveu meu tempo todo, durante semanas de laboriosa e infrut\u00edfera investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dessa forma, minha raz\u00e3o perturbada, no seu equil\u00edbrio, por coisas simplesmente triviais, assemelhava-se \u00e0quele penhasco mar\u00edtimo, de que fala Ptolomeu Hefesti\u00e3o, que resistia inabal\u00e1vel aos ataques da viol\u00eancia humana e ao furioso ataque das \u00e1guas e dos ventos, mas tremia ao simples toque da flor chamada asf\u00f3delo. E embora a um pensador desatento possa parecer fora de d\u00favida que a altera\u00e7\u00e3o produzida pela lastim\u00e1vel mol\u00e9stia no estado moral de Berenice fornecesse motivos v\u00e1rios para o exerc\u00edcio daquela intensa e anormal medita\u00e7\u00e3o, cuja natureza tive dificuldades em explicar, contudo tal n\u00e3o se deu absolutamente. Nos intervalos l\u00facidos de minha enfermidade, a desgra\u00e7a que a feria me mortificava realmente, e me afetava fundamente o cora\u00e7\u00e3o aquela ru\u00edna total de sua vida alegre e doce. Por isso n\u00e3o deixava de refletir muitas vezes, e amargamente, nas causas prodigiosas que tinham t\u00e3o subitamente produzido modifica\u00e7\u00f5es t\u00e3o estranhas. Mas essas reflex\u00f5es n\u00e3o participavam da idiossincrasia de minha doen\u00e7a, e eram as mesmas que teriam ocorrido, em id\u00eanticas circunst\u00e2ncias, \u00e0 massa ordin\u00e1ria dos homens. Fiel a seu pr\u00f3prio car\u00e1ter, minha desordem mental preocupava-se com as menos importantes, por\u00e9m mais chocantes mudan\u00e7as, operadas na constitui\u00e7\u00e3o f\u00edsica de Berenice, na estranha e verdadeiramente espantosa altera\u00e7\u00e3o de sua personalidade.<\/p>\n<p>De modo algum, jamais a amara durante os dias mais brilhantes de sua incompar\u00e1vel beleza. Na estranha anomalia de minha exist\u00eancia, os sentimentos nunca me provinham do cora\u00e7\u00e3o, e minhas paix\u00f5es eram sempre do esp\u00edrito. Atrav\u00e9s do crep\u00fasculo matutino, entre as sombras estriadas da floresta, ao meio-dia, e no sil\u00eancio de minha biblioteca, \u00e0 noite, esvoa\u00e7ara ela diante de meus olhos e eu a contemplara, n\u00e3o como a viva e respirante Berenice, mas como a Berenice de um sonho; n\u00e3o como um ser da terra, terreno, mas como a abstra\u00e7\u00e3o de tal ser; n\u00e3o como coisa para admirar, mas para analisar; n\u00e3o como um objeto de amor, mas como o tema da mais abstrusa, embora inconstante, especula\u00e7\u00e3o. E agora. . . agora eu estremecia na sua presen\u00e7a e empalidecia \u00e0 sua aproxima\u00e7\u00e3o; embora lamentando amargamente sua decad\u00eancia, e sua desolada condi\u00e7\u00e3o, lembrei-me de que ela me amava desde h\u00e1 muito e num momento fatal, falei-lhe em casamento.<\/p>\n<p>Aproximava-se, enfim, o per\u00edodo de nossas n\u00fapcias quando, numa tarde de inverno, de um daqueles dias intempestivamente c\u00e1lidos, sossegados e nevoentos, que s\u00e3o a alma do belo Alc\u00edone, sentei-me no mais rec\u00f4ndito gabinete da biblioteca. Julgava estar sozinho, mas, erguendo a vista, divisei Berenice, em p\u00e9 \u00e0 minha frente.<\/p>\n<p>Foi a minha pr\u00f3pria imagina\u00e7\u00e3o excitada, ou a nevoenta influ\u00eancia da atmosfera, ou o crep\u00fasculo impreciso do aposento, ou as cinzentas roupagens que lhe caiam em torno do corpo, que lhe deram aquele contorno indeciso e vacilante? N\u00e3o sei diz\u00ea-lo. Ela n\u00e3o disse uma palavra e eu, por forma alguma, podia emitir uma s\u00f3 s\u00edlaba. Um g\u00e9lido calafrio correu-me pelo corpo, uma sensa\u00e7\u00e3o de intoler\u00e1vel ansiedade me oprimia, uma curiosidade devoradora invadiu-me a alma e, recostando-me na cadeira, permaneci por algum tempo im\u00f3vel e sem respirar, com os olhos fixos no seu vulto. Ai! sua magreza era excessiva e nenhum vest\u00edgio da criatura de outrora se vislumbrava numa linha sequer de suas formas. O meu olhar ardente pousou-se afinal em seu rosto.<\/p>\n<p>A fronte era alta e muito p\u00e1lida e de uma placidez singular. O cabelo, outrora negro, de azeviche, ca\u00eda-lhe parcialmente sobre a testa e sombreava as fontes encovadas com numerosos an\u00e9is, agora dum amarelo vivo, discordando, pelo seu car\u00e1ter fant\u00e1stico, da melancolia reinante em suas fei\u00e7\u00f5es. Os olhos, sem vida e sem brilho, pareciam estar desprovidos de pupilas, e desviei involuntariamente a vista de sua fixidez v\u00edtrea para contemplar-lhe os l\u00e1bios delgados e contra\u00eddos. Entreabriram-se e, num sorriso bem significativo, os dentes da Berenice transformada se foram lentamente mostrando. Prouvera a Deus nunca os tivesse visto, ou que, tendo-os visto, tivesse morrido!<\/p>\n<p>O batido duma porta me assustou e, erguendo a vista, vi que minha prima havia abandonado o aposento. Mas do aposento desordenado do meu c\u00e9rebro n\u00e3o havia sa\u00eddo, ai de mim! e n\u00e3o queria sair, o espectro branco e horr\u00edvel de seus dentes. Nem uma mancha se via em sua superf\u00edcie, nem um matiz em seu esmalte, nem uma falha nas suas bordas, que aquele breve tempo de seu sorriso n\u00e3o me houvesse gravado na mem\u00f3ria. Via-os agora, mesmo mais distintamente do que os vira antes. Os dentes!. . \u2013 Os dentes! Estavam aqui e ali e por toda a parte, vis\u00edveis, palp\u00e1veis, diante de mim. Compridos, estreitos e excessivamente brancos, com os p\u00e1lidos l\u00e1bios contra\u00eddos sobre eles, como no instante mesmo do seu primeiro e terr\u00edvel crescimento. Ent\u00e3o desencadeou-se a plena f\u00faria de minha monomania e em v\u00e3o lutei contra sua estranha e irresist\u00edvel influ\u00eancia. Os m\u00faltiplos objetos do mundo exterior n\u00e3o me despertavam outro pensamento que n\u00e3o fosse o daqueles dentes, Queria-os com fren\u00e9tico desejo. Todos os assuntos e todos os interesses diversos foram absorvidos por aquela exclusiva contempla\u00e7\u00e3o. Eles. Somente eles estavam presentes aos olhos de meu esp\u00edrito, e eles, na sua \u00fanica individualidade, se tornaram a ess\u00eancia de minha vida mental. Via-os sob todos os aspectos. Revolvia-os em todas as suas peculiaridades. Meditava em sua conforma\u00e7\u00e3o. Refletia na altera\u00e7\u00e3o de sua natureza. Estremecia ao atribuir-lhes, em imagina\u00e7\u00e3o, faculdades de sentimento e sensa\u00e7\u00e3o e, mesmo quando desprovidos dos l\u00e1bios, capacidade de express\u00e3o moral. Dizia-se, com raz\u00e3o, de Mademoiselle de Sall\u00e9; que tous ses pas \u00eataient des sentiments\u201d e de Berenice, com mais s\u00e9ria raz\u00e3o acreditava \u201cque toutes ses dents \u00e9taient des id\u00e9es\u201d. Id\u00e9es! Ah! esse foi o pensamento absurdo que me destruiu! Des id\u00e9es! ah! eis porque eu os cobi\u00e7ava t\u00e3o loucamente! Sentia que somente a posse deles poderia restituir-me a paz, e devolver-me a raz\u00e3o.<\/p>\n<p>E assim cerrou-se a noite em torno de mim. Vieram as trevas, demoraram, foram embora. E o dia raiou mais uma vez. E os nevoeiros de uma segunda noite de novo se adensavam em torno de mim. E eu ainda continuava sentado, im\u00f3vel, naquele quarto solit\u00e1rio, ainda mergulhado em minha medita\u00e7\u00e3o, ainda com o fantasma dos dentes, mantendo sua terr\u00edvel ascend\u00eancia sobre mim, a flutuar, com a mais viva e hedionda nitidez, entre as luzes e sombras mut\u00e1veis do aposento. Afinal, explodiu em meio de meus sonhos um grito de horror e de consterna\u00e7\u00e3o, ao qual se seguiu, depois de uma pausa, o som de vozes aflitas, entremeadas de surdos lamentos de tristeza e pesar. Levantei-me e, escancarando uma das portas da biblioteca, vi, de p\u00e9, na antec\u00e2mara, uma criada, toda em l\u00e1grimas, que me disse que Berenice n\u00e3o mais. . \u2013 vivia! Fora tomada de um ataque epil\u00e9ptico pela manh\u00e3 e agora ao cair da noite, a cova estava pronta para receber seu morador e todos os preparativos do enterro estavam terminados.<\/p>\n<p>Com o cora\u00e7\u00e3o cheio de ang\u00fastia, oprimido pelo temor, dirigi-me, com repugn\u00e2ncia, para o quarto de dormir da defunta. Era um quarto vasto, muito escuro, e eu me chocava, a cada passo, com os preparativos do sepultamento. Os cortinados do leito, disse-me um criado, estavam fechados sobre o ata\u00fade e naquele ata\u00fade, acrescentou ele, em voz baixa, jazia tudo quanto restava de Berenice.<\/p>\n<p>Quem, pois, me perguntou se eu n\u00e3o queria ver o corpo ?- N\u00e3o vi moverem-se os l\u00e1bios de ningu\u00e9m; entretanto, a pergunta fora realmente feita e o eco das \u00faltimas s\u00edlabas ainda se arrastava pelo quarto. Era imposs\u00edvel resistir e, com uma sensa\u00e7\u00e3o opressiva, dirigi-me a passos tardos para o leito. Ergui de manso as sombrias dobras das cortinas mas, deixando-as cair de novo, desceram elas sobre meus ombros e, separando-me do mundo dos vivos, me encerraram na mais estreita comunh\u00e3o com a defunta.<\/p>\n<p>Todo o ar do quarto respirava morte; mas o cheiro caracter\u00edstico do ata\u00fade me fazia mal e imaginava que um odor delet\u00e9rio se exalava j\u00e1 do cad\u00e1ver. Teria dado mundos para escapar, para livrar-me da perniciosa influ\u00eancia mortu\u00e1ria, para respirar, uma vez ainda, o ar puro dos c\u00e9us eternos. Mas, faleciam-me as for\u00e7as para mover-me, meus joelhos tremiam e me sentia como que enraizado no solo, contemplando fixamente o r\u00edgido cad\u00e1ver, estendido ao comprido, no caix\u00e3o aberto.<\/p>\n<p>Deus do c\u00e9u! Seria poss\u00edvel? Ter-se-ia meu c\u00e9rebro transviado? Ou o dedo da defunta se mexera no sud\u00e1rio que a envolvia? Tremendo de inexprim\u00edvel terror, ergui lentamente os olhos para ver o rosto do cad\u00e1ver. Haviam-lhe amarrado o queixo com um len\u00e7o, o qual, n\u00e3o sei como, se desatara. Os l\u00e1bios l\u00edvidos se torciam numa esp\u00e9cie de sorriso, e, por entre sua moldura melanc\u00f3lica, os dentes de Berenice, brancos luzentes, terr\u00edveis, me fixavam ainda, com uma realidade demasiado vivida. Afastei-me convulsivamente do leito e sem pronunciar uma palavra, como louco, corri para fora daquele quarto de mist\u00e9rio, de horror e de morte.<\/p>\n<p>Achei-me de novo sentado na biblioteca, e de novo ali estava s\u00f3. Parecia-me que, havia pouco, despertara de um sonho confuso e agitado. Sabia que era ent\u00e3o meia-noite e bem ciente estava de que, desde o p\u00f4r-do-sol, Berenice tinha sido enterrada. Mas, do que ocorrera durante esse t\u00e9trico intervalo, eu n\u00e3o tinha qualquer percep\u00e7\u00e3o positiva, ou pelo menos definida. Sua recorda\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, estava repleta de horror, horror mais horr\u00edvel porque impreciso, terror mais terr\u00edvel porque amb\u00edguo. Era uma p\u00e1gina espantosa do registro de minha exist\u00eancia, toda escrita com sombrias, medonhas e inintelig\u00edveis recorda\u00e7\u00f5es. Tentava decifr\u00e1-la, mas em v\u00e3o; e de vez em quando, como o esp\u00edrito de um som evadido, parecia-me retinir nos ouvidos o grito agudo e lancinante de uma voz de mulher. Eu fizera alguma coisa; que era, por\u00e9m? Interrogava-me em voz alta e os ecos do aposento me respondiam \u201cQue era?\u201d<\/p>\n<p>Sobre a mesa, a meu lado, ardia uma l\u00e2mpada e, perto dela, estava uma caixinha. N\u00e3o era de aspecto digno de nota e eu freq\u00fcentemente a vira antes, pois pertencia ao m\u00e9dico da fam\u00edlia; mas, como viera ter ali, sobre minha mesa, e por que estremecia eu ao contempl\u00e1-la? N\u00e3o valia a pena importar-me com tais coisas e meus olhos, por fim, ca\u00edram sobre as p\u00e1ginas abertas de um livro e sobre uma senten\u00e7a nelas sublinhada. Eram as palavras singulares, por\u00e9m simples, do poeta Ebn Zaiat: \u201cDicebant mihi sodales, si sepulchrum amicae visitarem, curas meas aliquantulum fore levatas\u2019. Por que, ent\u00e3o, ao l\u00ea-las, os cabelos de minha cabe\u00e7a se eri\u00e7aram at\u00e9 a ponta, e o sangue de meu corpo se congelou nas veias?<\/p>\n<p>Uma leve pancada soou na porta da biblioteca e, p\u00e1lido como o habitante de um sepulcro, um criado entrou, na ponta dos p\u00e9s. Sua fisionomia estava transtornada de pavor e ele me falou em voz tr\u00eamula, rouca e muito baixa. Que disse? Ouvi frases truncadas. Falou-me de um grito selvagem, que perturbara o sil\u00eancio da noite. -da acorr\u00eancia dos moradores da casa. \u2013 \u2013 de uma busca do lugar de onde viera o som. E depois sua voz se tornou penetrantemente distinta, ao murmurar a respeito de um t\u00famulo violado \u2014 . de um corpo desfigurado, desamortalhado, mas ainda respirante, ainda pal-pitante, ainda vivo!<\/p>\n<p>Apontou para minhas roupas; estavam sujas de barro e de co\u00e1gulos de sangue. Eu nada falava e ele pegou-me levemente na m\u00e3o; havia, gravadas nela, sinais de unhas humanas. Chamou-me a aten\u00e7\u00e3o para certo objeto encostado \u00e0 parede, que contemplei por alguns minutos: era uma p\u00e1.<\/p>\n<p>Com um grito, saltei para a mesa e agarrei a caixa que sobre ela jazia. Mas n\u00e3o pude arromb\u00e1-la; e, no meu tremor, ela deslizou de minhas m\u00e3os e caiu com for\u00e7a, quebrando-se em peda\u00e7os. E dela, com um som tintinante, rolaram v\u00e1rios instrumentos de cirurgia dent\u00e1ria, de mistura com trinta e duas coisas brancas, pequenas, como que de marfim, que se espalharam por todo o assoalho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desgra\u00e7a \u00e9 variada. O infort\u00fanio da terra \u00e9 multiforme. Estendendo-se pelo vasto horizonte, como o arco-\u00edris, suas cores s\u00e3o como as deste, variadas, distintas e, contudo, intimamente misturadas. 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