{"id":642,"date":"2018-07-09T02:59:58","date_gmt":"2018-07-09T02:59:58","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=642"},"modified":"2018-07-09T03:12:00","modified_gmt":"2018-07-09T03:12:00","slug":"o-barril-de-amontillado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-barril-de-amontillado","title":{"rendered":"O Barril de Amontillado"},"content":{"rendered":"<p>Suportei o melhor que pude as inj\u00farias de Fortunato; mas, quando ousou insultar-me, jurei vingan\u00e7a. V\u00f3s, que t\u00e3o bem conheceis a natureza de meu car\u00e1ter, n\u00e3o havereis de supor, no entanto, que eu tenha proferido qualquer amea\u00e7a. No fim, eu seria vingado. Este era um ponto definitivamente assentado, mas a pr\u00f3pria decis\u00e3o com que eu assim decidira exclu\u00eda qualquer id\u00e9ia de perigo. Assim devia apenas castigar, mas castigar impunemente. Uma inj\u00faria permanece irreparada, quando o castigo alcan\u00e7a aquele que se vinga. Permanece, igualmente, sem reparado, quando o vingador deixa de fazer com que aquele que o ofendeu compreenda que e ele quem se vinga.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso que se saiba que, nem por meio de palavras, nem de qualquer ato, dei a Fortunato motivo para que duvidasse de minha boa vontade. Continuei, como de costume, a sorrir em sua presen\u00e7a, e ele n\u00e3o percebia que o meu sorriso, agora, tinha como origem a id\u00e9ia da sua imola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse tal Fortunato tinha um ponto fraco, embora, sob outros aspectos, fosse um homem digno de ser respeitado e, at\u00e9 mesmo, temido. Vangloriava-se sempre de ser entendido em vinhos. Poucos italianos possuem verdadeiro talento para isso. Na maioria das vezes, seu entusiasmo se adapta aquilo que a ocasi\u00e3o e a oportunidade exigem, tendo em vista enganar os milion\u00e1rios ingleses e austr\u00edacos. Em pintura e pedras preciosas, Fortunado, como todos os seus compatriotas, era um intruj\u00e3o; mas, com respeito a vinhos antigos, era sincero. Sob este aspecto, n\u00e3o havia grande diferen\u00e7a entre n\u00f3s \u2013 pois que eu tamb\u00e9m era h\u00e1bil conhecedor de vinhos italianos, comprando-os sempre em grande quantidade, sempre que podia. Uma tarde, quase ao anoitecer, em plena loucura do carnaval, encontrei o meu amigo. Acolheu-me com excessiva cordialidade, pois que havia bebido muito. Usava um traje de tru\u00e3o, muito justo e listrado, tendo \u00e0 cabe\u00e7a um chap\u00e9u c\u00f4nico, guarnecido de gizos.<\/p>\n<p>Fiquei t\u00e3o contente de encontr\u00e1-lo, que julguei que jamais estreitaria a sua m\u00e3o como naquele momento.<\/p>\n<p>\u2013 Meu caro Fortunato \u2013 disse-lhe eu -, foi uma sorte encontr\u00e1-lo. Mas, que bom aspecto tem voc\u00ea hoje! Recebi um barril como sendo de Amontillado, mas tenho minhas duvidas.<\/p>\n<p>\u2013 Como? \u2013 disse ele. \u2013 Amontillado? Um barril? Imposs\u00edvel! E em pleno carnaval!<\/p>\n<p>\u2013 Tenho minhas d\u00favidas \u2013 repeti \u2013 e seria tolo que o pagasse como sendo de Amontillado antes de consult\u00e1-lo sobre o assunto. N\u00e3o conseguia encontr\u00e1-lo em parte alguma, e receava perder um bom neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>\u2013 Amontillado!<\/p>\n<p>\u2013 Tenho minhas d\u00favidas.<\/p>\n<p>\u2013 Amontillado!<\/p>\n<p>\u2013 E preciso efetuar o pagamento.<\/p>\n<p>\u2013 Amontillado!<\/p>\n<p>\u2013 Mas, como voc\u00ea esta ocupado, irei \u00e0 procura de Luchesi. Se existe algu\u00e9m que conhe\u00e7a o assunto, esse algu\u00e9m \u00e9 ele. Ele me dir\u00e1 \u2026<\/p>\n<p>\u2013 Luchesi \u00e9 incapaz de distinguir entre um Amontillado e um Xerez.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o obstante, h\u00e1 alguns imbecis que acham que o paladar de Luchesi pode competir com o seu.<\/p>\n<p>-Vamos, vamos embora.<\/p>\n<p>\u2013 Para onde?<\/p>\n<p>\u2013 Para as suas adegas.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o, meu amigo. N\u00e3o quero abusar de sua bondade. Penso que voc\u00ea deve ter algum compromisso. Luchesi\u2026<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o tenho compromisso algum. Vamos.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o, meu amigo. Embora voc\u00ea n\u00e3o tenha compromisso algum, vejo que esta com muito frio. E as adegas s\u00e3o insuportavelmente \u00famidas. Est\u00e3o recobertas de salitre.<\/p>\n<p>\u2013 Apesar de tudo, vamos. N\u00e3o importa o frio. Amontillado! Voc\u00ea foi enganado. Quanto a Luchesi, n\u00e3o sabe distinguir entre Xerez e Amontillado.<\/p>\n<p>Assim falando, Fortunato tomou-me pelo bra\u00e7o. Pus uma m\u00e1scara de seda negra e, envolvendo-me bem em meu roquelaire, deixei-me conduzir ao meu palazzo.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia nenhum criado em casa, pois que todos haviam sa\u00eddo para celebrar o carnaval. Eu lhes dissera que n\u00e3o regressaria antes da manh\u00e3 seguinte, e lhes dera ordens estritas para que n\u00e3o arredassem p\u00e9 da casa. Essas ordens eram suficientes, eu bem o sabia, para assegurai o seu desaparecimento imediato, t\u00e3o logo eu lhes voltasse as costas. Tomei duas velas de seus candelabros e, dando uma a Fortunato, conduzi-o, curvado, atrav\u00e9s de uma seq\u00fc\u00eancia de compartimentos, \u00e0 passagem abobadada que levava \u00e0 adega.<\/p>\n<p>Chegamos, por fim, aos \u00faltimos degraus e detivemo-nos sobre o solo \u00famido das catacumbas dos Montresor.<\/p>\n<p>O andar de meu amigo era vacilante e os guizos de seu gorro retiniam a cada um de seus passos.<\/p>\n<p>\u2013 E o barril? \u2013 perguntou.<\/p>\n<p>\u2013 Est\u00e1 mais adiante \u2013 respondi. \u2013 Mas observe as brancas teias de aranha que brilham nas paredes dessas cavernas.<\/p>\n<p>Voltou-se para mim e olhou-me com suas nubladas pupilas, que destilavam as l\u00e1grimas da embriaguez.<\/p>\n<p>\u2013 Salitre? \u2013 perguntou, por fim.<\/p>\n<p>\u2013 Salitre \u2013 respondi. \u2013 H\u00e1 quanto tempo voc\u00ea tem essa tosse?<\/p>\n<p>Meu pobre amigo p\u00f4s-se a tossir sem cessar e, durante muitos minutos, n\u00e3o lhe foi poss\u00edvel responder.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o \u00e9 nada \u2013 disse afinal.<\/p>\n<p>\u2013 Vamos \u2013 disse-lhe com decis\u00e3o. \u2013 Vamos voltar. Sua sa\u00fade \u00e9 preciosa. Voc\u00ea \u00e9 rico, respeitado, admirado, amado; voc\u00ea \u00e9 feliz, como eu tamb\u00e9m o era. Voc\u00ea \u00e9 um homem cuja falta ser\u00e1 sentida. Quanto a mim, n\u00e3o impor-ta. Vamos embora. Voc\u00ea ficar\u00e1 doente, e n\u00e3o quero arcar com essa responsabilidade. Al\u00e9m disso, posso procurar Luchesi . . .<\/p>\n<p>\u2013 Basta \u2013 exclamou ele. \u2013 Esta tosse n\u00e3o tem import\u00e2ncia; n\u00e3o me matar\u00e1. N\u00e3o morrerei por causa de uma simples tosse.<\/p>\n<p>-\u00c9 verdade, \u00e9 verdade \u2013 respondi. \u2013 E eu, de fato, n\u00e3o tenho inten\u00e7\u00e3o alguma de alarm\u00e1-lo sem motivo. Mas voc\u00ea deve tomar precau\u00e7\u00f5es. Um gole deste Medoc nos defender\u00e1 da umidade.<\/p>\n<p>E, dizendo isto, parti o gargalo de uma garrafa que se achava numa longa<br \/>\nfila de muitas outras iguais, sobre o ch\u00e3o \u00famido.<\/p>\n<p>\u2013 Beba \u2013 disse, oferecendo-lhe o vinho.<\/p>\n<p>Levou a garrafa aos l\u00e1bios, olhando-me de soslaio. Fez uma pausa e saudou-me com familiaridade, enquanto seus guizos soavam.<\/p>\n<p>\u2013 Bebo \u2013 disse ele \u2013 \u00e0 sa\u00fade dos que repousam enterrados, em torno de n\u00f3s.<\/p>\n<p>\u2013 E eu para que voc\u00ea tenha vida longa. Tomou-me de novo o bra\u00e7o e prosseguimos. \u2013 Estas cavernas \u2013 disse-me \u2013 s\u00e3o extensas.<\/p>\n<p>\u2013 Os Montresor \u2013 respondi \u2013 formavam uma fam\u00edlia grande e numerosa.<\/p>\n<p>\u2013 Esqueci qual o seu bras\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 Um grande p\u00e9 de ouro, em campo azul. O p\u00e9 esmaga uma serpente amea\u00e7adora, cujas presas se acham cravadas no salto.<\/p>\n<p>\u2013 E a divisa?<\/p>\n<p>\u2013 Nemo me impune lacessit.<\/p>\n<p>\u2013 Muito bem! \u2013 exclamou.<\/p>\n<p>O vinho brilhava em seus olhos e os guizos retiniam. Minha pr\u00f3pria imagina\u00e7\u00e3o se animou, devido ao Medoc. Atrav\u00e9s de paredes de ossos empilhados, entremeados de barris e ton\u00e9is, penetramos nos recintos mais profundos das catacumbas. Detive-me de novo e, essa vez, me atrevi a segurar Fortunato pelo bra\u00e7o, acima do cotovelo.<\/p>\n<p>\u2013 O salitre! \u2013 exclamei. \u2013 Veja como aumenta. Prende-se, como musgo, nas ab\u00f3badas. Estamos sob o leito do rio. As gotas de umidade filtram-se por entre os ossos. Vamos. Voltemos, antes que seja tarde demais. Sua tosse\u2026<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o \u00e9 nada \u2013 respondeu ele. \u2013 Prossigamos. Mas, antes, tomemos outro gole do Medoc.<\/p>\n<p>Parti o gargalo de uma garrafa de vinho De Gr\u00e2ve a dei-a a Fortunato. Ele a esvaziou de um trago. Seus olhos cintilaram com brilho ardente. P\u00f4s-se a rir e atirou a garrafa para o ar, com gesticula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o compreendi.<\/p>\n<p>Olhei-o, surpreso. Repetiu o movimento, um movimento grotesco.<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea n\u00e3o compreende? \u2013 perguntou.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o, n\u00e3o compreendo \u2013 respondi.<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o \u00e9 porque voc\u00ea n\u00e3o pertence \u00e0 irmandade.<\/p>\n<p>\u2013 Como?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o pertence \u00e0 ma\u00e7onaria.<\/p>\n<p>\u2013 Sim, sim. Perten\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea? Imposs\u00edvel! Um ma\u00e7om?<\/p>\n<p>\u2013 Um ma\u00e7om \u2013 respondi.<\/p>\n<p>\u2013 Prove-o \u2013 disse ele.<\/p>\n<p>\u2013 Eis aqui \u2013 respondi, tirando de debaixo das dobras de meu roquelaire uma colher de pedreiro.<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea est\u00e1 gracejando! \u2013 exclamou recuando alguns passos. \u2013 Mas prossigamos: vamos ao Amontillado.<\/p>\n<p>\u2013 Est\u00e1 bem \u2013 disse eu, guardando outra vez a ferramenta debaixo da capa e oferecendo-lhe o bra\u00e7o. Apoiou-se pesadamente em mim. Continuamos nosso caminho, em busca do Amontillado. Passamos atrav\u00e9s de uma s\u00e9rie de baixas ab\u00f3badas, descemos, avan\u00e7amos ainda, tornamos a descer e chegamos, afinal, a uma profunda cripta, cujo ar, rarefeito, fazia com que nossas velas bruxuleassem, ao inv\u00e9s de arder normalmente.<\/p>\n<p>Na extremidade mais distante da cripta aparecia uma outra, menos espa\u00e7osa. Despojos humanos empilhavam-se ao longo de seus muros, at\u00e9 o alto das ab\u00f3badas, \u00e0 maneira das grandes catacumbas de Paris. Tr\u00eas dos lados dessa cripta eram ainda adornados dessa maneira. Do quarto, os ossos haviam sido retirados e jaziam espalhados pelo ch\u00e3o, formando, num dos cantos, um monte de certa altura. Dentro da parede, que, com a remo\u00e7\u00e3o dos ossos, ficara exposta, via-se ainda outra cripta ou recinto interior, de uns quatro p\u00e9s de profundidade, tr\u00eas de largura e seis ou sete de altura. N\u00e3o parecia haver sido constru\u00edda para qualquer uso determinado, mas constituir apenas um intervalo entre os dois enormes pilares que sustinham a c\u00fapula das catacumbas, tendo por fundo uma das paredes circundantes de s\u00f3lido granito.<\/p>\n<p>Foi em v\u00e3o que Fortunato, erguendo sua vela bruxuleante, procurou divisar a profundidade daquele recinto. A luz, fraca, n\u00e3o nos permitia ver o fundo.<\/p>\n<p>\u2013 Continue \u2013 disse-lhe eu. \u2013 O Amontillado est\u00e1 a\u00ed dentro. Quanto a Luchesi. . .<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 um ignorante \u2013 interrompeu o meu amigo, enquanto avan\u00e7ava com passo vacilante, seguido imediatamente por mim.<\/p>\n<p>Num momento, chegou ao fundo do nicho e, vendo o caminho interrompido pela rocha, deteve-se, estupidamente perplexo. Um momento ap\u00f3s, eu j\u00e1 o havia acorrentado ao granito, pois que, em sua superf\u00edcie, havia duas argolas de ferro, separadas uma da outra, horizontalmente, por um espa\u00e7o de cerca de dois p\u00e9s. De uma delas pendia uma corrente; da outra, um cadeado. Lan\u00e7ar a corrente em torno de sua cintura, para prend\u00ea-lo, foi coisa de segundos. Ele estava demasiado at\u00f4nito para oferecer qualquer resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Retirando a chave, recuei alguns passos.<\/p>\n<p>\u2013 Passe a m\u00e3o pela parede \u2013 disse-lhe eu. \u2013 N\u00e3o poder\u00e1 deixar de sentir o salitre. Est\u00e1, com efeito, muito \u00famida. Permita-me, ainda uma vez, que lhe implore para voltar. N\u00e3o? Ent\u00e3o, positivamente, tenho de deix\u00e1-lo. Mas, primeiro, devo prestar-lhe todos os pequenos obs\u00e9quios ao meu alcance.<\/p>\n<p>\u2013 O Amontillado! \u2013 exclamou o meu amigo, que ainda n\u00e3o se refizera de seu assombro.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 verdade \u2013 respondi -, o Amontillado.<\/p>\n<p>E, dizendo essas palavras, pus-me a trabalhar entre a pilha de ossos a que j\u00e1 me referi. Jogando-os para o lado, deparei logo com uma certa quantidade de pedras de constru\u00e7\u00e3o e argamassa. Com este material e com a ajuda de minha colher de pedreiro, comecei ativamente a tapar a entrada do nicho.<\/p>\n<p>Mal assentara a primeira fileira de minha obra de pedreiro, quando descobri que a embriaguez de Fortunato havia, em grande parte, se dissipado. O primeiro ind\u00edcio que tive disso foi um lamentoso grito, vindo do fundo do nicho. N\u00e3o era o grito de um homem embriagado. Depois, houve um longo e obstinado sil\u00eancio. Coloquei a segunda, a terceira e a quarta fileiras. Ouvi, ent\u00e3o, as furiosas sacudidas da corrente. O ru\u00eddo prolongou-se por alguns minutos, durante os quais, para deleitar-me com ele, interrompi o meu trabalho e sentei-me sobre os ossos. Quando, por fim, o ru\u00eddo cessou, apanhei de novo a colher de pedreiro e acabei de colocar, sem interrup\u00e7\u00e3o, a quinta, a sexta e a s\u00e9tima fileiras. A parede me chegava, agora, at\u00e9 a altura do peito. Fiz uma nova pausa e, segurando a vela por cima da obra que havia executado, dirigi a fraca luz sobre a figura que se achava no interior.<\/p>\n<p>Uma sucess\u00e3o de gritos altos e agudos irrompeu, de repente, da garganta do vulto acorrentado, e pareceu impelir-me violentamente para tr\u00e1s. Durante breve instante, hesitei\u2026 tremi. Saquei de minha espada e pus-me a desferir golpes no interior do nicho; mas um momento de reflex\u00e3o bastou para tranq\u00fcilizar-me. Coloquei a m\u00e3o sobre a parede maci\u00e7a da catacumba e senti-me satisfeito. Tornei a aproximar-me da parede e respondi aos gritos daquele que clamava. Repeti-os, acompanhei-os e os venci em volume e em for\u00e7a. Fiz isso, e o que gritava acabou por silenciar.<\/p>\n<p>J\u00e1 era meia-noite, a minha tarefa chegava ao fim. Completara a oitava, a nona e a d\u00e9cima fileiras. Havia terminado quase toda a d\u00e9cima primeira \u2013 e restava apenas uma pedra a ser colocada e rebocada em seu lugar. Ergui-a com grande esfor\u00e7o, pois que pesava muito, e coloquei-a, em parte, na posi\u00e7\u00e3o a que se destinava. Mas, ent\u00e3o, saiu do nicho um riso abafado que me p\u00f4s os cabelos em p\u00e9. Seguiu-se-lhe uma voz triste, que tive dificuldade em reconhecer como sendo a do nobre Fortunato. A voz dizia:<\/p>\n<p>\u2013 Ah! ah! ah! . . . eh! eh! eh! . . . Esta \u00e9 uma boa piada\u2026 uma excelente piada! Vamos rir muito no palazzo por causa disso . . . ah! ah! ah! . . . por causa do nosso vinho\u2026 ah! ah! ah!<\/p>\n<p>\u2013 O Amontillado! \u2013 disse eu.<\/p>\n<p>\u2013 Ah! ah! ah! . . . sim, sim . . . o Amontillado. Mas n\u00e3o est\u00e1 ficando tarde? N\u00e3o estar\u00e3o nos esperando no pal\u00e1cio. . . a Sra. Fortunato e os outros? Vamos embora.<\/p>\n<p>\u2013 Sim \u2013 respondi -, vamos embora.<\/p>\n<p>\u2013 Pelo amor de Deus, Montresor!<\/p>\n<p>\u2013 Sim \u2013 respondi -, pelo amor de Deus!<\/p>\n<p>Mas esperei em v\u00e3o qualquer resposta a estas palavras. Impacientei-me.<\/p>\n<p>Gritei, alto:<\/p>\n<p>\u2013 Fortunato!<\/p>\n<p>Nenhuma resposta.<\/p>\n<p>Tornei a gritar:<\/p>\n<p>\u2013 Fortunato!<\/p>\n<p>Ainda agora, nenhuma resposta. Introduzi uma vela pelo orif\u00edcio que restava e deixei-a cair dentro do nicho. Chegou at\u00e9 mim, como resposta, apenas um tilintar de guizos. Senti o cora\u00e7\u00e3o opresso, sem d\u00favida devido \u00e0 umidade das catacumbas. Apressei-me para terminar o meu trabalho. Com esfor\u00e7o, coloquei em seu lugar a \u00faltima pedra \u2013 e cobri-a com argamassa. De encontro \u00e0 nova parede, tornei a erguer a antiga muralha de ossos. Durante meio s\u00e9culo, mortal algum os perturbou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Suportei o melhor que pude as inj\u00farias de Fortunato; mas, quando ousou insultar-me, jurei vingan\u00e7a. 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