{"id":644,"date":"2018-07-09T03:01:15","date_gmt":"2018-07-09T03:01:15","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=644"},"modified":"2018-07-09T03:12:00","modified_gmt":"2018-07-09T03:12:00","slug":"sombra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/sombra","title":{"rendered":"Sombra"},"content":{"rendered":"<p>V\u00f3s que me ledes\u00a0por certo estais ainda entre os vivos; mas eu que escrevo terei partido h\u00e1 muito para a regi\u00e3o das sombras. Por que de fato estranhas coisas acontecer\u00e3o, e coisas secretas ser\u00e3o conhecidas, e muitos s\u00e9culos passar\u00e3o antes que estas mem\u00f3rias caiam sob vistas humanas. E, ao serem lidas, algu\u00e9m haver\u00e1 que nelas n\u00e3o acredite, algu\u00e9m que delas duvide e, contudo, uns poucos encontrar\u00e3o muito motivo de reflex\u00e3o nos caracteres aqui gravados com estiletes de ferro. O ano tinha sido um ano de terror e de sentimentos mais intensos que o terror, para os quais n\u00e3o existe nome na Terra. Pois muitos prod\u00edgios e sinais haviam se produzido, e por toda a parte, sobre a terra e sobre o mar, as negras asas da Peste se estendiam. Para aqueles, todavia, conhecedores dos astros, n\u00e3o era desconhecido que os c\u00e9us apresentavam um aspecto de desgra\u00e7a, e para mim, o grego Oinos, entre outros, era evidente que ent\u00e3o sobreviera a altera\u00e7\u00e3o daquele ano 794, em que, \u00e0 entrada do Carneiro, o planeta J\u00fapiter entra em conjun\u00e7\u00e3o com o anel vermelho do terr\u00edvel Saturno. O esp\u00edrito caracter\u00edstico do firmamento, se muito n\u00e3o me engano, manifestava-se n\u00e3o somente no orbe f\u00edsico da Terra, mas nas almas, imagina\u00e7\u00f5es e medita\u00e7\u00f5es da Humanidade. \u00c9ramos sete, certa noite, em torno de algumas garrafas de rubro vinho de Quios, entre as paredes do nobre sal\u00e3o, na sombria cidade de Ptolemais. Para a sala em que nos ach\u00e1vamos a \u00fanica entrada que havia era uma alta porta de feitio raro e trabalhada pelo artista Corinos, aferrolhada por dentro. Negras cortinas, adequadas ao sombrio aposento, privavam-nos da vis\u00e3o da lua, das l\u00fagubres estrelas e das ruas despovoadas; mas o ressentimento e a lembran\u00e7a do flagelo n\u00e3o podiam ser assim exclu\u00eddos.<\/p>\n<p>Havia em torno de n\u00f3s e dentro de n\u00f3s coisas das quais n\u00e3o me \u00e9 poss\u00edvel dar conta, coisas materiais e espirituais: atmosfera pesada, sensa\u00e7\u00e3o de sufocamento, ansiedade; e, sobretudo, aquele terr\u00edvel estado de exist\u00eancia que as pessoas nervosas experimentam quando os sentidos est\u00e3o vivos e despertos, e as faculdades do pensamento jazem adormecidas. Um peso mortal nos acabrunhava. Oprimia nossos ombros, os m\u00f3veis da sala, os copos em que beb\u00edamos. E todas se sentiam opressas e prostradas, todas as coisas exceto as chamas das sete l\u00e2mpadas de ferro que iluminavam nossa orgia. Elevando-se em filetes finos de luz, assim que permaneciam, ardendo, p\u00e1lidas e imotas. E no espelho que seu fulgor formava sobre a redonda mesa de \u00e9bano a que est\u00e1vamos sentados, cada um de n\u00f3s, ali reunidos, contemplava o palor de seu pr\u00f3prio rosto e o brilho inquieto nos olhos abatidos de seus companheiros. N\u00e3o obstante, r\u00edamos e est\u00e1vamos alegres, a nosso modo \u2013 que era hist\u00e9rico \u2013 , e cant\u00e1vamos as can\u00e7\u00f5es de Anacreonte \u2013 que s\u00e3o doidas -, e beb\u00edamos intensamente, embora o vinho purpurino nos lembrasse a cor do sangue. Pois ali havia ainda outra pessoa em nossa sala, o jovem Zoilo. Morto, estendido a fio comprido, amortalhado, era como o g\u00eanio e o dem\u00f4nio da cena. Mas ah! N\u00e3o tomava ele parte em nossa alegria! Seu rosto, convulsionado pela doen\u00e7a, e seus olhos, em que a Morte havia apenas extinguido metade do fogo da peste, pareciam interessar-se pela nossa alegria,, na medida em que, talvez, possam os mortos interessar-se pela alegria dos que t\u00eam de morrer. Mas embora eu, Oinos, sentisse os olhos do morto cravados sobre mim, ainda assim obrigava-me a n\u00e3o perceber a amargura de sua express\u00e3o. E mergulhando fundamente a vista nas profundezas do espelho de \u00e9bano, cantava em voz alta e sonorosa as can\u00e7\u00f5es do filho de Teios. Mas, Pouco a pouco, minhas can\u00e7\u00f5es cessaram e seus ecos, ressoando ao longe, entre os reposteiros negros do aposento, tornavam-se fracos e indistintos, esvanecendo-se. E eis que dentre aqueles negros reposteiros, onde ia morrer o rumor das can\u00e7\u00f5es, se destacou uma sombra negra e imprecisa, uma sombra tal como a da lua quando baixa no c\u00e9u, e se assemelha ao vulto dum homem: mas n\u00e3o era a sombra de um homem, nem a de um deus, nem a de qualquer outro ente conhecido. E, tremendo um instante entre os reposteiros do aposento, mostrou-se afinal plenamente sobre a superf\u00edcie da porta de \u00e9bano. Mas a sombra era vaga, informe, imprecisa, e n\u00e3o era sombra nem de homem, nem de deus, de deus da<\/p>\n<p>Gr\u00e9cia, de deus da Cald\u00e9ia, de deus eg\u00edpcio. E a sombra permanecia sobre a porta de bronze, por baixo da cornija arqueada, e n\u00e3o se movia, nem dizia palavra alguma, mas ali ficava parada e imut\u00e1vel. Os p\u00e9s do jovem Zoilo, amortalhado, encontravam-se, se bem me lembro, na porta sobre a qual a sombra repousava. N\u00f3s, por\u00e9m, os sete ali reunidos, tendo avistado a sombra no momento em que se destacava dentre os reposteiros, n\u00e3o ous\u00e1vamos olh\u00e1-la fixamente, mas baix\u00e1vamos os olhos e fix\u00e1vamos sem desvio as profundezas do espelho de \u00e9bano. E afinal, eu, Oinos, pronunciando algumas palavras em voz baixa, indaguei da sombra seu nome e lugar de nascimento. E a sombra respondeu: \u201cEu sou a SOMBRA e minha morada est\u00e1 perto das catacumbas de Ptolemais, junto daquelas sombrias plan\u00edcies infernais que orlam o sujo canal de Caronte\u201d. E ent\u00e3o, todos sete, erguemo-nos, cheios de horror, de nossos assentos, tr\u00eamulos, enregelados, espavoridos, porque o tom da voz da sombra n\u00e3o era de um s\u00f3 ser, mas de uma multid\u00e3o de seres e, variando suas inflex\u00f5es, de s\u00edlaba para s\u00edlaba, vibrava aos nossos ouvidos confusamente, como se fossem as entona\u00e7\u00f5es familiares e bem relembradas dos muitos milhares de amigos que a morte ceifara.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>V\u00f3s que me ledes\u00a0por certo estais ainda entre os vivos; mas eu que escrevo terei partido h\u00e1 muito para a regi\u00e3o das sombras. 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