{"id":646,"date":"2018-07-09T03:13:41","date_gmt":"2018-07-09T03:13:41","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=646"},"modified":"2018-07-09T03:13:41","modified_gmt":"2018-07-09T03:13:41","slug":"o-subsolo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-subsolo","title":{"rendered":"O Subsolo"},"content":{"rendered":"<p>Eu sou\u00a0um homem doente\u2026 Sou um ho\u00admem malvado. Sou um homem desa\u00adgrad\u00e1vel. Creio que tenho uma doen\u00e7a do f\u00edgado. Ali\u00e1s, n\u00e3o compreendo abso\u00adlutamente nada da minha mol\u00e9stia e n\u00e3o sei mesmo exatamente onde est\u00e1 o mal.<\/p>\n<p>N\u00e3o me cuido, nunca me cuidei, se bem que estime os m\u00e9\u00addicos e a medicina. Demais, sou extremamente supersticioso, o bastante, em todo o caso, para respeitar a medicina (sou bastante instru\u00eddo: poderia ent\u00e3o n\u00e3o ser supersticioso, mas sou). N\u00e3o! Se n\u00e3o me trato, \u00e9 pura maldade de minha parte. N\u00e3o sabe\u00adreis certamente compreender. Pois bem! eu compreendo. N\u00e3o po\u00adderei evidentemente explicar\u2011vos em que errei, agindo t\u00e3o malvada\u00admente: sei muito bem que n\u00e3o s\u00e3o os m\u00e9dicos que eu incomodo, recusando\u2011me a tratar\u2011me. N\u00e3o engano sen\u00e3o a mim mesmo; re\u00adconhe\u00e7o\u2011o melhor que ningu\u00e9m. Entretanto, \u00e9 mesmo por malvadez que n\u00e3o me trato. Sofro do f\u00edgado! Tanto melhor! E tanto melhor ainda se o mal piora.<\/p>\n<p>H\u00e1 muito tempo j\u00e1 que eu vivo assim: uns vinte anos, pouco mais ou menos. Fui funcion\u00e1rio, pedi demiss\u00e3o. Fui um funcion\u00e1rio muito ruim. Era grosseiro e tinha prazer em s\u00ea\u2011lo. Podia bem me compensar desta maneira, pois que eu n\u00e3o aceitava gorjetas (esta brincadeira n\u00e3o tem gra\u00e7a; mas n\u00e3o a suprimirei. Escrevi\u2011a crendo que teria esp\u00edrito; n\u00e3o a apagarei, entretanto, expressamente; porque vejo que queria me dar ares de import\u00e2ncia). Quando os solicitantes em busca de informa\u00e7\u00f5es se aproximavam da mesa diante da qual eu estava sentado, eu rangia os dentes; sentia uma vol\u00fapia indiz\u00edvel, quando conseguia causar\u2011lhes algum aborrecimento. Conseguia\u2011o quase sempre. Eram geralmente pessoas t\u00edmidas, acanhadas. Solicitantes, pois qu\u00ea! Mas havia \u00e0s vezes presumidos entre eles, petulantes, e eu detesta\u00adva particularmente certo oficial. Ele n\u00e3o entendia de submiss\u00e3o e arrastava o grande sabre, de um modo detest\u00e1vel. Durante um ano e meio movi\u2011lhe guerra, por causa desse sabre, e finalmente sa\u00ed vencedor: ele parou de teimar. Isto, ali\u00e1s, se passava no tempo da minha mocidade.<\/p>\n<p>Ora, sabeis, senhores, o que excitava sobretudo minha raiva, o que a tornava particularmente vil e est\u00fapida? \u00c9 que eu me intei\u00adrava vergonhosamente, mesmo quando a minha b\u00edlis se esparramava mais violentamente, que eu n\u00e3o era mau homem, no fundo, n\u00e3o era nem mesmo um homem azedo, e que tomava gosto, muito simplesmente, em assustar os pardais. Tenho espuma na boca; mas, trazei\u2011me uma boneca, oferecei\u2011me uma ch\u00e1vena de ch\u00e1 bem doce, e \u00e9 prov\u00e1vel que eu me acalme; sentir\u2011me\u2011ei mesmo muito comovido. \u00c9 verdade que, mais tarde, morderei os punhos de raiva, e de vergo\u00adnha perderei o sono durante alguns meses. Sim, eu sou assim.<\/p>\n<p>Menti antes, quando disse que tinha sido um mau funcion\u00e1rio. Foi por despeito que menti. Tentava muito simplesmente distrair\u00ad\u2011me com os solicitantes e esse oficial, e nunca pude conseguir tor\u00adnar\u2011me realmente mau. Com efeito, verificava sempre em mim a presen\u00e7a de um grande n\u00famero de elementos diversos que se opunham violentamente. Sentia\u2011os fervilharem em mim, por assim dizer. Sabia que estavam presentes sempre e aspiravam a mani\u00adfestar\u2011se do lado de fora, mas eu n\u00e3o os deixava; n\u00e3o, n\u00e3o lhes permitia evadirem\u2011se. Atormentavam\u2011me at\u00e9 \u00e0 vergonha, at\u00e9 \u00e0s con\u00advuls\u00f5es. Oh! como eu estava fatigado! como estava saturado!<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o vos parece, senhores, que eu me arrependo e que vos pe\u00e7o perd\u00e3o de n\u00e3o sei que crime? Estou certo, senhores, que ides imaginar isso\u2026 Mas ali\u00e1s, digo\u2011vos que, quer v\u00f3s o imagineis ou n\u00e3o, isso me \u00e9 indiferente\u2026<\/p>\n<p>Jamais consegui nada, nem mesmo me tomar malvado; n\u00e3o con\u00adsegui ser belo, nem mau, nem canalha, nem her\u00f3i, nem mesmo um inseto. E agora, termino a exist\u00eancia no meu cantinho, onde tento piedosamente me consolar, ali\u00e1s sem sucesso, dizendo\u2011me que um homem inteligente n\u00e3o consegue nunca se tornar alguma coisa, e que s\u00f3 o imbecil triunfa. Sim, meus senhores. o homem do s\u00e9culo XIX tem o dever de ser essencialmente destitu\u00eddo de car\u00e1\u00adter; est\u00e1 moralmente obrigado a isso. O homem que possui car\u00e1ter, o homem. de a\u00e7\u00e3o, \u00e9 um ser essencialmente med\u00edocre. Tal \u00e9 a convic\u00e7\u00e3o de meus quarenta anos de exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Tenho quarenta anos atualmente. Ora, quarenta anos, \u00e9 toda a vida, \u00e9 a profunda velhice. \u00c9 inconveniente, \u00e9 imoral, \u00e9 vil viver al\u00e9m dos quarenta. Quem vive depois dos quarenta anos? Respondei sinceramente, honestamente! Vou dizer\u2011vos, sim, eu: os imbecis, os patifes, esses vivem mais de quarenta anos. Eu o pro\u00adclamarei \u00e0 face de todos os velhos, de todos os respeit\u00e1veis velhos, de todos os velhos de cabelos cor de prata e perfumados! Eu, o proclamarei \u00e0 face do universo inteiro. Tenho o direito de falar ~ porque eu, eu viverei at\u00e9 os sessenta anos! at\u00e9 os setenta anos! at\u00e9 os oitenta anos! Mas esperai! Deixai\u2011me tomar f\u00f4lego!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Imaginais, certamente, senhores, que me proponho vos fazer rir? Enganais\u2011vos a esse respeito, como sobre o resto. N\u00e3o sou de modo algum tio divertido como vos parece, ou quanto vos pode parecer. De resto, se agastados por tida essa tagarelice (estais irritados, sinto j\u00e1), v\u00f3s me perguntais o que sou, afinal de contas, responderei: sou um assistente de col\u00e9gio. Entrei na administra\u00e7\u00e3o para poder comer (mas unicamente para isso), e quando no ano ~o um dos meus parentes afastados me legou por testamento seis mil rublos, pedi depressa minha demiss\u00e3o e me enterrei no meu canto; ali morava j\u00e1 h\u00e1 muito tempo, mas instalei\u2011me agora definitivamente. O quarto que ocupo nos confins da cidade \u00e9 feio, e desmantelado. Minha criada \u00e9 uma velha camponesa que a burri\u00adce tornou malvada; al\u00e9m disso, cheira mal. Dizem\u2011me que o clima de Petersburgo me \u00e9 prejudicial, e que a vida custa caro demais para os recursos \u00ednfimos de que disponho. Sei disso; sei bem melhor que todos esses s\u00e1bios conselheiros. Mas fico em Peters\u00adburgo. N\u00e3o deixarei Petersburgo porque.. . . Que eu parta ou n\u00e3o, ali\u00e1s, que importa!. ..<\/p>\n<p>Mas, do que um homem honesto pode falar com mais prazer?<\/p>\n<p>Resposta: de si mesmo.<\/p>\n<p>Pois bem! Vou ent\u00e3o falar de mim mesmo!<\/p>\n<p><strong>II<\/strong><\/p>\n<p>Quero agora contar\u2011vos, meus senhores, quer o desejeis ou n\u00e3o, por que eu n\u00e3o consegui nem mesmo me tornar um inseto. Declaro\u2011vos solenemente: um grande n\u00famero de vezes j\u00e1 tentei tor\u00adnar\u2011me um inseto; mas n\u00e3o fui julgado digno disso.<\/p>\n<p>Uma consci\u00eancia clarividente demais, asseguro\u2011vos, senhores, \u00e9 uma doen\u00e7a, uma doen\u00e7a muito real. Uma consci\u00eancia ordin\u00e1ria nos basta mais que amplamente em nossa vida cotidiana, isto \u00e9, lima por\u00e7\u00e3o igual \u00e0 metade, a um quarto da consci\u00eancia outorgada ao homem culto do nosso s\u00e9culo XIX e que, para sua desgra\u00e7a, habita Petersburgo, a mais abstrata, a mais \u201cpremeditada\u201d das ci\u00addades que existem sobre a terra (pois h\u00e1 cidades premeditadas e outras que n\u00e3o o s\u00e3o). Ter\u2011se\u2011ia, por exemplo, amplamente ~O suficiente dessa por\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia que possuem os homens ditos sinceros, espont\u00e2neos, assim como os homens de a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Imaginais, aposto, que escrevo tudo isto por atitude, para zom\u00adbar dos homens de a\u00e7\u00e3o, para me dar import\u00e2ncia, como esse arrastador de sabre de que falava h\u00e1 pouco, mas seria uma atitude de muito mau gosto. Quem pensaria ent\u00e3o, dizei\u2011me, senhores, em se glorificar com suas doen\u00e7as e fazer delas motivo de orgulho?<\/p>\n<p>Mas que digo eu! Todo o mundo age assim. \u00c9 precisamente de suas mol\u00e9stias que cada um tira gl\u00f3ria e eu, provavelmente, ainda mais que os outros. N\u00e3o discutamos! Minha obje\u00e7\u00e3o \u00e9 est\u00fapida.<\/p>\n<p>Entretanto \u2011 estou firmemente convencido \u2011 a consci\u00eancia, toda consci\u00eancia \u00e9 uma enfermidade. Eu o sustento. Mas deixe\u00admos isto por agora. Respondei\u2011me alisto: como era poss\u00edvel que sempre, no instante mesmo \u2011 sim, como se fosse de prop\u00f3sito \u2011 precisamente no instante em que eu era o mais capaz de apreciar todas as nuan\u00e7as do belo, do sublime, corno se dizia entre n\u00f3s h\u00e1 pouco tempo, me acontecesse n\u00e3o somente pensar, mas fazer coisas tio incongruentes que\u2026 a\u00e7\u00f5es, para ser breve, que todos levam a cabo talvez bem, mas que eu praticava justamente quando tinha perfeita consci\u00eancia de que era preciso me abster? Quanto mais o bem e todas as coisas \u201cbelas e sublimes\u201d se tomavam claras \u00e0 minha consci\u00eancia, mais profundamente eu me afundava na minha lama, mais eu me sentia capaz de me enterrar definitivamen\u00adte. Por\u00e9m o que era particularmente not\u00e1vel, \u00e9 que esse desacordo n\u00e3o parecia uma coisa fortuita, dependendo das circunst\u00e2ncias, mas parecia vir por si e se produzir muito naturalmente. Dir\u2011se\u2011ia que era meu estado normal e de modo nenhum uma doen\u00e7a ou um v\u00edcio; a tal ponto que, finalmente, perdi todo o desejo de lutar. Enfim, para concluir, admito quase (talvez o admita completamente) que tal era com efeito o estado normal do meu esp\u00edrito. Mas, antes, no come\u00e7o, quantos sofrimentos suportei pacientemente nessa luta! N\u00e3o acreditava que outros pudessem estar no mesmo caso, e durante toda a minha vida escondi esta particularidade como um segredo. Eu tinha vergonha (pode ser que tenha vergonha ainda hoje). Isto ia tio longe que me acontecia gozar uma esp\u00e9cie de prazer secreto, vil, anormal, ao entrar em casa, no meu buraco, por uma dessas noites petersburguesas sujas e feias, e repetindo\u2011me que tinha ainda cometido uma vilania, nesse dia, e que era imposs\u00edvel reaparecer l\u00e1 em cima. E inquietava\u2011me ent\u00e3o interiormente. Eu me atormentava, despeda\u00e7ava\u2011me, bebia longamente a minha amar\u00adgura, fartava\u2011me tanto, que finalmente sentia uma esp\u00e9cie de fra\u00adqueza vergonhosa, maldita, onde gozava uma vol\u00fapia real. Sim, uma vol\u00fapia! Uma vol\u00fapia! Insisto nisso. Comecei a falar disto, precisamente porque eu quero saber com justeza se os outros co\u00adnhecem tais vol\u00fapias.<\/p>\n<p>Explicar\u2011vos\u2011ei: a vol\u00fapia, neste caso, provinha de que eu me inteirava demais da minha humilha\u00e7\u00e3o; ela unia\u2011se \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o de ter atingido um \u00faltimo limite: tua situa\u00e7\u00e3o \u00e9 abomin\u00e1vel, mas n\u00e3o pode ser outra; n\u00e3o te resta nenhuma salda; nunca poder\u00e1s mudar, porque, mesmo que tivesses o tempo e a f\u00e9 necess\u00e1rios, tu mesmo n\u00e3o quererias tomar\u2011te um homem diferente; e, ali\u00e1s, ainda que quisesses mudar, serias incapaz: com efeito, mudar em qu\u00ea? \u2011N\u00e3o h\u00e1 talvez nada al\u00e9m disso!<\/p>\n<p>Mas o essencial \u2011 e isto \u00e9 o fim dos fins \u2011 \u00e9 que tudo se cumpre conforme as leis fundamentais e normais da consci\u00eancia requintada e dela flui diretamente, embora seja completamente imposs\u00edvel n\u00e3o somente mudar, mas em geral, reagir, de um modo qualquer. A consci\u00eancia requintada nos diz, por exemplo: \u201csim, tens raz\u00e3o, tu \u00e9s um canalha\u201d; mas o fato de eu poder verificar a minha pr\u00f3pria canalhice, n\u00e3o me consola de jeito nenhum de ser um canalha. Mas isto chega!\u2026 Quantas palavras, meu Deus. Mas que explicaste? De onde prov\u00e9m essa vol\u00fapia? Pro\u00adcuro explicar\u2011me entretanto. Irei at\u00e9 o fim. Foi para isto que tornei a pena\u2026<\/p>\n<p>Assim, por exemplo, tenho um amor\u2011pr\u00f3prio terr\u00edvel; sou t\u00e3o desconfiado e suscet\u00edvel como um corcunda, ou um an\u00e3o. Mas, verdadeiramente, houve minutos da minha exist\u00eancia em que, se me tivessem dado uma bofetada, eu teria sido muito feliz, talvez. Falo seriamente: teria podido certamente encontrar a\u00ed algum prazer, o prazer do desespero, evidentemente; \u00e9 o desespero que encobre as vol\u00fapias mais ardentes, sobretudo quando a situa\u00e7\u00e3o parece real\u00admente sem sa\u00edda. Ora, a\u00ed, no caso da bofetada, quanto aniquila\u00admento esta sensa\u00e7\u00e3o de ter sido esmagado assim!<\/p>\n<p>Mas o principal \u00e9 que sempre acontece que sou eu o culpado, de qualquer lado que se examinem as coisas, e, o que \u00e9 mais, culpado sem afinal o ser, ou dito por outra forma: de conformi\u00addade com as leis da natureza. Sou culpado, em primeiro lugar porque sou mais inteligente do que todos aqueles que me rodeiam (julguei\u2011me sempre mais inteligente do que aqueles que me cercam, e acontece\u2011me at\u00e9 \u2011 imaginai! \u2011 sentir\u2011me confuso com a mi\u00adnha superioridade, de tal modo que durante a minha vida tenho olhado as pessoas de esguelha, por assim dizer, e nunca pude enca\u00adr\u00e1\u2011las bem de frente). Sou culpado, al\u00e9m disso, porque mesmo que eu tivesse tido um sentimento qualquer de generosidade, a consci\u00eancia de sua inutilidade n\u00e3o teria servido sen\u00e3o para me atormentar ainda mais. Eu n\u00e3o teria podido certamente tirar nada da\u00ed: n\u00e3o teria podido perdoar, pois o ofensor teria me atacado conforme as leis da natureza, as quais n\u00e3o fazem caso do nosso perd\u00e3o; mas imposs\u00edvel, por outro lado, esquecer, pois o insulto, por mais natural que seja, nem por isso permanece menos. Enfim, mesmo que eu renunciasse a ser generoso e quisesse, ao contr\u00e1rio, vingar\u2011me do ofensor, n\u00e3o poderia faz\u00ea\u2011lo, porque me era impos\u00ads\u00edvel decidir\u2011me a agir, mesmo que tivesse esse direito.<\/p>\n<p>E afinal, por qu\u00ea? \u00c9 a esse respeito que eu queria dizer\u2011vos algumas palavras.<\/p>\n<p><strong>III<\/strong><\/p>\n<p>Como as coisas se passam entre aqueles que s\u00e3o capazes de se vingarem e, em geral, de se defenderem?<\/p>\n<p>Quando o desejo de vingan\u00e7a se apodera de seu esp\u00edrito, n\u00e3o h\u00e1 lugar neles sen\u00e3o para esse desejo. Precipitam\u2011se para a frente sem se desviarem, cornos abaixados, como touros furiosos, e n\u00e3o se det\u00eam na carreira sen\u00e3o quando se encontram diante de um muro. A prop\u00f3sito, diante de um muro, esses senhores, isto \u00e9, as pessoas simples e espont\u00e2neas, os homens de a\u00e7\u00e3o, se apagam e cedem com toda a sinceridade. Para eles esse muro n\u00e3o \u00e9 de maneira alguma o que \u00e9 para n\u00f3s outros, os que pensamos, e, por conseq\u00fc\u00eancia, n\u00e3o agimos: quer dizer, uma escusa; n\u00e3o \u00e9 de modo algum, a seus olhos, um pretexto c\u00f4modo para arrepiar caminho, pretexto no qual n\u00f3s outros n\u00e3o<\/p>\n<p><strong>VII<\/strong><\/p>\n<p>Mas n\u00e3o s\u00e3o sen\u00e3o sonhos de ouro!<\/p>\n<p>Oh! dizei\u2011me qual foi aquele que primeiro declarou, que proclamou primeiro que o homem n\u00e3o comete vilanias sen\u00e3o porque n\u00e3o se apercebe de seus pr\u00f3prios interesses, e que se fosse escla\u00adrecido, se lhe abrissem os olhos sobre seus verdadeiros interesses, sobre seus interesses normais, cessaria imediatamente de cometer vilanias, e se tornaria no mesmo instante bom e honesto, pois, esclarecido pela ci\u00eancia e compreendendo seus verdadeiros interesses; encontraria no bem sua pr\u00f3pria vantagem? Como est\u00e1 entendido que ningu\u00e9m pode agir conscientemente contra seu pr\u00f3prio interesse, o homem seria ent\u00e3o por assim dizer colocado na necessidade de fazer o bem. Oh! crian\u00e7a! crian\u00e7a pura e ing\u00eanua!<\/p>\n<p>Mas dar\u2011se-\u00e1 que o homem, no curso desses milhares de anos, n\u00e3o agiu sen\u00e3o segundo o seu interesse? Que faremos ent\u00e3o desses milh\u00f5es de fatos que atestam que os homens, tendo embora perfeita consci\u00eancia do seu interesse, o relegam a segundo plano e enveredam por um caminho totalmente diferente, cheio de riscos e de acasos? N\u00e3o s\u00e3o, entretanto, for\u00e7ados a isso; mas parece que querem precisamente evitar a estrada que se lhes indicava, para tra\u00e7ar livremente, caprichosamente, uma outra, cheia de difi\u00adculdades, absurda, mal reconhec\u00edvel, obscura. \u00ca que essa liberdade possui a seus olhos mais atrativos que seus pr\u00f3prios interesses \u2026 O interesse! Que \u00e9 o interesse? V\u00f3s vos empenhais em me de\u00adfinir com toda a exatid\u00e3o em que consiste o interesse do homem? Que direis v\u00f3s se um belo dia se vem a descobrir que o interesse humano em certos casos pode ou mesmo deve consistir em desejar, n\u00e3o uma vantagem, mas um mal? Se \u00e9 assim, se esse caso se pode apresentar, ent\u00e3o tudo desmorona. Que pensais disto? Tal caso pode se apresentar?<\/p>\n<p>V\u00f3s rides! Ride, senhores, mas respondei! Os interesses hu\u00admanos est\u00e3o enumerados com exatid\u00e3o? Ser\u00e1 que n\u00e3o existem alguns que n\u00e3o entram em nenhuma das vossas classifica\u00e7\u00f5es e n\u00e3o podem a\u00ed encontrar lugar? Com efeito, tanto quanto sei, senhores, orga\u00adnizastes vosso registro dos interesses humanos de acordo com as cifras m\u00e9dias das estat\u00edsticas e das f\u00f3rmulas econ\u00f4mico\u2011cient\u00edficas. Os interesses humanos s\u00e3o, pois, segundo v\u00f3s, a riqueza, a tran\u00adq\u00fcilidade, a liberdade, e assim por diante; de maneira que, o ho\u00admem que repelisse consciente e ostensivamente o vosso registro, deveria ser considerado, na vossa opini\u00e3o, e, ali\u00e1s, tamb\u00e9m na minha, como um obscurantista, um louco? N\u00e3o \u00e9 assim? Mas eis o que \u00e9 bem estranho: como \u00e9 poss\u00edvel que todos esses esta\u00adt\u00edsticos, esses s\u00e1bios, esses filantropos, deixem constantemente de lado um certo elemento, nos seus c\u00e1lculos de interesses humanos? Eles n\u00e3o querem mesmo lev\u00e1\u2011los em conta nas suas f\u00f3rmulas, cujos resultados assim falseiam. A coisa n\u00e3o seria dif\u00edcil, entretanto; por que n\u00e3o completar a lista e introduzir\u2011lhe o elemento em ques\u00adt\u00e3o ?\u2026 Mas a dificuldade prov\u00e9m de que esse elemento t\u00e3o par\u00adticular n\u00e3o pode encontrar lugar em nenhuma classifica\u00e7\u00e3o e n\u00e3o pode se inscrever em nenhuma lista. Eis um exemplo: eu tenho um amigo\u2026 Mas fico pensando nisso! V\u00f3s o conheceis tamb\u00e9m; ele \u00e9 o amigo de todo o mundo.<\/p>\n<p>Quando se prepara para agir, esse senhor come\u00e7a por explicar\u00ad\u2011vos muito claramente, com belas e grandes frases, como lhe \u00e9 preciso agir para se conformar \u00e0 raz\u00e3o e \u00e0 verdade. \u00c9 pouco dizer: ele discutir\u00e1 com paix\u00e3o, com entusiasmo, interesses reais e normais da Humanidade; escarnecer\u00e1 cegamente dos tolos que n\u00e3o compreendem nem seus verdadeiros interesses, nem o verdadeiro valor da virtude. Mas, um quarto de hora depois, nem mais cedo nem mais tarde, sem raz\u00e3o nenhuma, sob um impulso inte\u00adrior mais poderoso que todas as considera\u00e7\u00f5es do interesse, ele far\u00e1 uma coisa rid\u00edcula, uma tolice qualquer, e agir\u00e1 ent\u00e3o contra todos os preceitos que tinha citado, contra a raz\u00e3o, contra os seus interesses, contra tudo\u2026<\/p>\n<p>Previno\u2011vos, de resto, que meu amigo \u00e9 uma personalidade coletiva e que \u00e9 dif\u00edcil, por conseq\u00fc\u00eancia, conden\u00e1\u2011lo sozinho. \u00c9 precisamente a isto que quero chegar, senhores! N\u00e3o h\u00e1 uma coisa, com efeito, que nos seja a todos mais cara que os nossos interesses mais preciosos? Por outras palavras (para n\u00e3o violar a l\u00f3gica): n\u00e3o existe para n\u00f3s um interesse (aquele que se deixa de lado, aquele de que acabamos de falar) mais interessante que todos os outros interesses, mais precioso que todos eles, e pelo qual o homem est\u00e1 pronto, se for preciso, a agir contra todas as regras, isto \u00e9, contra a raz\u00e3o, sacrificando\u2011lhe sua honra, sua paz, sua felicidade, todas as coisas belas e vantajosas, em uma palavra, nada sen\u00e3o para atingir uma coisa \u00fanica que lhe \u00e9 mais cara que todas as outras, que constitui a seus olhos seu interesse supremo?<\/p>\n<p>\u2011 Sim, \u2011 direis, \u2011 mas \u00e9 ainda de interesse que se trata\u2026 \u2013 Permiti! Vamos nos explicar; n\u00e3o \u00e9 com jogos de palavras que se pode esclarecer a quest\u00e3o. O que faz a singularidade dessa coisa, desse interesse, \u00e9 que ele destr\u00f3i todas as nossas classifica\u00e7\u00f5es e altera todos os sistemas edificados pelos amigos do g\u00eanero humano para a felicidade do homem. Em uma palavra, \u00e9 um embara\u00e7o, um obst\u00e1culo. Mas antes de vos apontar essa coisa, quero me comprometer pessoalmente, e afirmo ent\u00e3o com altivez que todos esses belos sistemas, que todas essas teorias que pretendem explicar \u00e0 Humanidade em que consistem seus interesses normais, a fim de que ela se torne logo virtuosa e nobre no seu esfor\u00e7o para atin\u00adgir os ditos interesses, declaro que tudo isso n\u00e3o passa de log\u00edsti\u00adca. Sim, pura log\u00edstica! Crer que a renova\u00e7\u00e3o do g\u00eanero humano possa \u2011realizar\u2011se fazendo\u2011lhe conhecer seus verdadeiros interesses, eq\u00fcivale, no meu modo de pensar, a admitir com Buckle que a civiliza\u00e7\u00e3o suaviza o homem, que se torna cada vez menos sanguin\u00e1rio, menos guerreiro. Buckle chegou a esse resultado muito logicamente, creio. Mas o homem nutre tal paix\u00e3o pelos sistemas, pelas dedu\u00e7\u00f5es abstratas, que est\u00e1 pronto * desfigurar conscientemente a verdade, pronto a fechar os olhos * tapar os ouvidos diante da verdade, tudo para justificar sua. l\u00f3gica.<\/p>\n<p>Tomo este exemplo porque \u00e9 convincente. Olhai pois em torno de v\u00f3s! O sangue corre em borbot\u00f5es, alegremente mesmo, como champanha. V\u00eade nosso s\u00e9culo XIX, no qual viveu Buckle! Vede Napole\u00e3o, o outro, o grande, e o de hoje! Vede a Am\u00e9rica do Norte e sua uni\u00e3o, estabelecida para a eternidade! Vede enfim esse caricatural Schleswig\u2011Holstein. Ent\u00e3o em que \u00e9 que a civiliza\u00e7\u00e3o nos ado\u00e7a? A civiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o faz mais que desenvolver em n\u00f3s a diversidade das sensa\u00e7\u00f5es\u2026 nada mais. E gra\u00e7as ao desenvolvimento dessa diversidade, \u00e9 muito poss\u00edvel que o homem acabe por descobrir uma certa vol\u00fapia no sangue. Isto ali\u00e1s j\u00e1 aconteceu.<\/p>\n<p>Notastes j\u00e1 que os sanguin\u00e1rios mais refinados foram sempre senhores muito civilizados, junto dos quais todos esses \u00c1tila, todos esses Stenka Razine fariam uma figura bem mesquinha. Se esses senhores se fazem notar menos, \u00e9 que se encontram mais freq\u00fcentemente e estamos habituados com isso. Mas se a civiliza\u00ad\u00e7\u00e3o n\u00e3o tornou o homem mais sanguin\u00e1rio, tornou\u2011o sem d\u00favida mais sordidamente, mais covardemente sanguin\u00e1rio. Antigamente, o homem considerava que tinha o direito de derramar sangue, e era com a consci\u00eancia bem tranq\u00fcila que destru\u00eda o que bem lhe parecia. Hoje, embora considerando a efus\u00e3o de sangue uma a\u00e7\u00e3o conden\u00e1vel, nem por isso deixamos de matar, e mais freq\u00fcentemente ainda do que antes. Isto vale mais? Decidi v\u00f3s mesmos. Diz\u2011se que Cle\u00f3patra (desculpai este exemplo tirado da Hist\u00f3ria Romana) divertia\u2011se em espetar agulhas no seio das escravas e experimentava grande prazer com seus gritos e contor\u00e7\u00f5es. Dir\u2011me\u2011eis que isso se passava numa \u00e9poca relativamente b\u00e1rbara, que nosso s\u00e9culo \u00e9 b\u00e1rbaro tamb\u00e9m, pois continuam a espetar agulhas na carne, que o homem, se bem que tenha adquirido uma compreens\u00e3o mais clara das coisas que naqueles recuados tempos,, n\u00e3o p\u00f4de ainda se habituar \u00e0 seguir as normas da raz\u00e3o e da ci\u00eancia. Mas estais certos, n\u00e3o obstante, que ele se habituar\u00e1 quando se desfizer com\u00adpletamente de certas tend\u00eancias ruins, e quando o senso comum e a ci\u00eancia tiverem completamente reeducado a natureza humana, e a tiverem orientado para um caminho normal, Estais certos de qu\u00ea ent\u00e3o o homem deixar\u00e1 de se enganar deliberadamente e se ver\u00e1 por assim dizer na impossibilidade de querer opor sua vontade aos seus interesses normais.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 mais ainda: ent\u00e3o, dizeis, a ci\u00eancia ensinar\u00e1 ao homem (mas na minha opini\u00e3o, isto j\u00e1 \u00e9 um luxo sup\u00e9rfluo) que ele nunca teve vontade, nem caprichos, e que n\u00e3o passa, em suma, de uma tecla de piano, de um pedal de \u00f3rg\u00e3o; o que realiza, por conse\u00adguinte, realiza\u2011o, n\u00e3o segundo sua vontade, mas conforme \u00e0s leis da natureza. Basta pois descobrir essas leis, e o homem ent\u00e3o n\u00e3o poder\u00e1 mais ser considerado respons\u00e1vel por suas a\u00e7\u00f5es, e a vida se lhe tornar\u00e1 extremamente f\u00e1cil. Todas as a\u00e7\u00f5es humanas poderio ser evidentemente calculadas matematicamente, de acordo com essas leis, como se faz para os logaritmos, at\u00e9 q cent\u00e9simo mil\u00e9simo, e ser\u00e3o inscritas nas efem\u00e9rides, ou far\u2011se\u2011\u00e3o livros esti\u00adm\u00e1veis no g\u00eanero dos nossos dicion\u00e1rios enciclop\u00e9dicos, onde tudo ficar\u00e1 t\u00e3o bem calculado e previsto, que n\u00e3o haver\u00e1 mais aventuras, nem mesmo mais a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, e sois v\u00f3s quem continua a falar, ver\u2011se\u2011\u00e1 estabelecerem\u00ad\u2011se novas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, que ser\u00e3o, por sua vez, fixadas com precis\u00e3o matem\u00e1tica, que todas as d\u00favidas desaparecer\u00e3o logo, pela simples raz\u00e3o de que se ter\u00e3o descoberto todas as solu\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o se edificar\u00e1 um vasto pal\u00e1cio de cristal. Ent\u00e3o veremos o P\u00e1ssaro de Fogo, ent\u00e3o\u2026 N\u00e3o se pode certamente garantir (sou eu que falo agora) que n\u00e3o ser\u00e1 terrivelmente fastidioso (que fazer, com efeito, se tudo est\u00e1 calculado e fixado de antem\u00e3o?); em compensa\u00e7\u00e3o, ser\u00e3o todos muito s\u00e1bios. Evidentemente o t\u00e9dio pode ser mau conselheiro: \u00e9 o t\u00e9dio que nos faz enterrar agulhas de ouro na carne\u2026 Mas isto n\u00e3o \u00e9 nada ainda. O que \u00e9 mais grave (sou eu quem continua a falar) \u00e9 que talvez nos acharemos ent\u00e3o muito felizes de ter \u00e0 m\u00e3o agulhas de ouro: o homem \u00e9 bruto, terrivelmente bruto, ou melhor dizendo, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o bruto quanto ingrato, e \u00e9 dif\u00edcil encontrar quem seja mais ingrato que ele. Eu n\u00e3o ficaria pois admirado se, no meio dessa felicidade, se levantasse de s\u00fabito um cavalheiro despojado de eleg\u00e2ncia, com o rosto \u201cre\u00adtr\u00f3grado\u201d e escarninho, e que nos dissesse, pondo as m\u00e3os na cintura: \u201cPois bem, senhores! Se jog\u00e1ssemos por terra, de um s\u00f3 pontap\u00e9, toda essa felicidade tranq\u00fcila, nada mais que para mandar os logaritmos ao diabo e poder recome\u00e7ar a viver segundo a nossa tola fantasia?\u201d Isso n\u00e3o seria ainda nada; mas o mais terr\u00edvel \u00e9 que esse personagem encontraria certamente disc\u00edpulos. O homem \u00e9 feito assim. E tudo isso por causa de uma coisa \u00ednfima que se poderia desprezar completamente, parece: tudo isso porque todo e qualquer homem aspira, sempre e em todas \u00e0s si\u00adtua\u00e7\u00f5es, a agir segundo sua vontade e n\u00e3o de acordo com as pres\u00adcri\u00e7\u00f5es da raz\u00e3o e do interesse; ora, vossa vontade pode e deve mesmo, por vezes (esta id\u00e9ia me pertence, como propriedade par\u00adticular), se opor aos vossos interesses. Minha vontade livre, meu arb\u00edtrio, meu capricho, por estapaf\u00fardio que seja, minha fantasia sobreexcitada at\u00e9 a dem\u00eancia, eis precisamente a coisa que se p\u00f5e de lado, o interesse mais precioso que n\u00e3o pode encontrar lugar em nenhuma de vossas classifica\u00e7\u00f5es, e que quebra em mil peda\u00e7os todos os sistemas, todas as teorias.<\/p>\n<p>Onde, pois, aprenderam os nossos s\u00e1bios que o homem tem necessidade de n\u00e3o sei que vontade normal e virtuosa? Por que imaginaram eles que o homem tem aspira\u00e7\u00f5es ap\u00f3s uma certa von\u00adtade racional e \u00fatil? O homem n\u00e3o aspira sen\u00e3o depois de uma vontade independente, qualquer que seja o pre\u00e7o e sejam quais forem os resultados. Mas s\u00f3 o diabo sabe o que essa vontade vale\u2026<\/p>\n<p>Acreditamos geralmente, mas do qual nos aproveitamos com alegria. N\u00e3o, eles, eles cedem de todo o cora\u00e7\u00e3o. O muro \u00e9 a seus olhos um apaziguamento; ofe\u00adrece\u2011lhes uma solu\u00e7\u00e3o moral, definitiva, direi talvez mesmo m\u00edstica. Mas tomaremos a falar ainda desse muro.<\/p>\n<p>Pois bem, \u00e9 precisamente esse homem simples e espont\u00e2neo que considero como o homem normal por excel\u00eancia, no qual pen\u00adsava nossa terna m\u00e3e Natureza quando nos fazia amavelmente nascer sobre a terra. Invejo esse homem. N\u00e3o nego: ele \u00e9 est\u00fa\u00adpido. Mas que sabeis a esse respeito? \u00c9 poss\u00edvel que o homem normal deva ser burro. E poss\u00edvel mesmo que isto seja muito belo. E esta suposi\u00e7\u00e3o me parece tanto mais justificada quanto, se tomarmos a ant\u00edtese do homem normal, isto \u00e9, o homem com a consci\u00eancia refinada, o homem sa\u00eddo n\u00e3o do seio da natureza, mas de um alambique (\u00e9 quase misticismo, senhores; mas estou incli\u00adnado tamb\u00e9m a essa suspeita), v\u00ea\u2011se que esse homem alambicado se apaga por vezes a tal ponto diante da sua ant\u00edtese e lhe cede, que, malgrado todo o refinamento da sua consci\u00eancia, acontece\u2011lhe n\u00e3o mais se considerar sen\u00e3o t\u00e3o pequeno como um rato. Ser\u00e1 talvez um rato extremamente clarividente, mas nem por isso \u00e9 me\u00adnos um rato, e n\u00e3o um homem, enquanto que o outro \u00e9 bem um homem; em conseq\u00fc\u00eancia\u2026, etc., etc. Mas o pior \u00e9 que ele se considera a si mesmo como um ratinho, ele mesmo! Ningu\u00e9m, com efeito, exige dele essa confiss\u00e3o. E isto \u00e9 muito importante.<\/p>\n<p>Vejamos ent\u00e3o um pouco esse ratinho em a\u00e7\u00e3o. Ele tamb\u00e9m foi ofendido, por exemplo (Se se sente quase continuamente ofen\u00addido), e pretende se vingar. \u00c9 poss\u00edvel que acumule em si mais raiva ainda que o homem da natureza e da verdade. O desejo desprez\u00edvel e mesquinho de pagar ao seu ofensor o mal com o mal o domina, talvez ainda mais violentamente do que domina o homem da natureza e da verdade, porque este, em sua rudeza natural, considera sua vingan\u00e7a como urna a\u00e7\u00e3o perfeitamente justa, enquanto que o ratinho n\u00e3o lhe pode admitir a justi\u00e7a, por causa de sua consci\u00eancia mais clarividente. Mas eis\u2011nos enfim chegados ao ato mesmo, \u00e0 vingan\u00e7a. Em acr\u00e9scimo \u00e0 vilania inicial, o desgra\u00e7ado ratinho conseguiu acumular em torno de si, sob a forma de d\u00favidas e hesita\u00e7\u00f5es, tantas outras vilanias, \u00e0 primeira indaga\u00ad\u00e7\u00e3o ajuntou tantas outras, completamente insol\u00faveis, que, por mais que fa\u00e7a, criou em torno de si um atoleiro fatal, um loda\u00e7al fedo\u00adrento, um charco de lama, formado de suas hesita\u00e7\u00f5es, de suas suspeitas, de sua agita\u00e7\u00e3o, de todos os escarros que fazem chover sobre ele os homens de a\u00e7\u00e3o que o cercam, o julgam, o aconselham e dele riem a bandeiras despregadas.<\/p>\n<p>N\u00e3o lhe resta ent\u00e3o mais nada a fazer, evidentemente, que abandonar tudo, simulando desprezo, e desaparecer vergonhosamen\u00adte no seu buraco. E l\u00e1, num sujo e lamacento subterr\u00e2neo, nosso ratinho, insultado, batido e escarnecido, lentamente mergulha na sua raiva fria, envenenada e sobretudo inesgot\u00e1vel. Durante qua\u00adrenta anos \u00eale se lembrar\u00e1 do insulto sofrido, em todos os seus pormenores mais vergonhosos, e acrescentando\u2011lhe de cada vez outros mais vergonhosos ainda, excitando\u2011se malvadamente, ati\u00e7ando\u2011lhe a imagina\u00e7\u00e3o. Ele pr\u00f3prio ter\u00e1 vergonha, mas evocar\u00e1 todas as min\u00facias, passar\u00e1 em revista uma a uma todas as circunst\u00e2ncias, inventar\u00e1 mesmo outras, sob o pretexto de que elas teriam podido acontecer, e n\u00e3o perdoar\u00e1 nada.<\/p>\n<p>Talvez mesmo tente se vingar, mas em segredo, em pequenas doses, inc\u00f3gnito, sem nenhuma confian\u00e7a nem em seu direito nem no sucesso da sua vingan\u00e7a, e sabendo muito bem que suas tenta\u00adtivas de vingan\u00e7a o far\u00e3o sofrer muito mais a ele mesmo do que \u00e0quele contra o qual s\u00e3o dirigidas, e que nem sequer provavelmente as notar\u00e1. No seu leito de morte, ele se recordar\u00e1 de novo e a\u00ed reunir\u00e1 os proveitos acumulados, e ent\u00e3o\u2026 Mas \u00e9 precisa\u00admente essa mistura abomin\u00e1vel e gelada de desespero e de esperan\u00e7a, \u00e9 precisamente esse sepultamento volunt\u00e1rio, e esta exist\u00eancia de emparedado vivo, esta aus\u00eancia, claramente percebida, mas sempre duvidosa, de toda solu\u00e7\u00e3o, \u00e9 esse v\u00ednculo de desejos insatisfeitos e enfurnados, de decis\u00f5es febris tomadas para a eternidade mas imediatamente seguidas de remorsos, \u00e9 isso precisamente o que se\u00adgrega esta vol\u00fapia estranha de que falava antes. Ela \u00e9 t\u00e3o sutil, \u00e0s vezes, escapa a tal ponto \u00e0 consci\u00eancia, que as pessoas um tanto med\u00edocres \u2011 ou mesmo aqueles que t\u00eam simplesmente os nervos s\u00f3lidos \u2011 nada percebem. \u201cTampouco compreender\u00e3o, ajuntareis talvez zombeteiramente, aqueles que nunca foram estapeados.\u201d E v\u00f3s me fareis polidamente entender assim que recebi uma bofetada e que falo com conhecimento de causa. Aposto que o pensastes. Mas tranq\u00fcilizai\u2011vos, senhores, n\u00e3o fui esbofeteado, e de resto, o que possais pensar a esse respeito me \u00e9 completamente indiferente. Talvez seja eu quem lamente ter distribu\u00eddo pouqu\u00edssimos bofet\u00f5es em minha exist\u00eancia. Mas basta! nem mais uma palavra sobre esse assunto, por mais interessante que seja para v\u00f3s!<\/p>\n<p>Continuo ent\u00e3o tranq\u00fcilamente a respeito das pessoas de nervos s\u00f3lidos que n\u00e3o saboreiam certas vol\u00fapias sutis. Se bem que esses senhores d\u00eaem mugidos como touros em certos casos, se bem que isso seja muito honroso para eles, entretanto, como eu disse, diante do imposs\u00edvel eles cedem, apagam\u2011se. Impossibilidade! portanto, muralha de pedra. Mas que muralha \u00e9 essa? S\u00e3o as leis naturais evidentemente, os resultados das ci\u00eancias exatas, as matem\u00e1ticas. Se vos demonstram, por exemplo, que descendeis do macaco, in\u00fatil fazer cara feia! deveis aceit\u00e1\u2011lo. Se vos provam que uma s\u00f3 gota de vossa pr\u00f3pria gordura vos deve ser mais cara que cem mil dos vossos semelhantes, e que \u00e9 por isso que desabrocham todas as virtudes, todas as obriga\u00e7\u00f5es e outras fantasias e preconceitos, n\u00e3o h\u00e1 nada a fazer, deveis aceit\u00e1\u2011lo, porque duas vezes dois s\u00e3o quatro; \u00e9 da for\u00e7a das matem\u00e1ticas. Tentai um pouco discutir!<\/p>\n<p>\u201cPerd\u00e3o! exclamar\u00e3o, v\u00f3s n\u00e3o podeis protestar: duas vezes dois s\u00e3o quatro. A natureza n\u00e3o se importa com as vossas pre\u00adtens\u00f5es; ela n\u00e3o se preocupa com os vossos desejos e se suas leis n\u00e3o vos conv\u00eam, pouco se lhe d\u00e1. Sois obrigado a aceit\u00e1\u2011la tal como \u00e9, assim como todas as conseq\u00fc\u00eancias. Um muro \u00e9 um muro\u2026\u201d, etc., etc. Mas que me importam, meu Deus! as leis da natureza e a aritm\u00e9tica, se, por uma raz\u00e3o ou por outra, essas leis e este \u201cduas vezes dois quatro\u201d n\u00e3o me agradam? N\u00e3o po\u00adderei evidentemente quebrar esse muro com a cabe\u00e7a, se minhas for\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o suficientes; mas recuso\u2011me a me humilhar diante desse obst\u00e1culo, pela \u00fanica raz\u00e3o de que \u00e9 um muro de pedra e que minhas for\u00e7as s\u00e3o insuficientes!<\/p>\n<p>Como se esse muro pudesse me trazer um apaziguamento qual\u00adquer, como se algu\u00e9m se pudesse reconciliar com o imposs\u00edvel pela \u00fanica raz\u00e3o de ter sido estabelecido \u201cdois e dois serem quatro\u201d. Oh! o mais absurdo de todos os absurdos!<\/p>\n<p>Quanto \u00e9 mais penoso compreender tudo, tomar consci\u00eancia de todas as impossibilidades, de todos os muros de pedra; por\u00e9m n\u00e3o se humilhar diante de nenhuma dessas impossibilidades, diante de nenhuma dessas muralhas se isso te repugna, chegar, seguindo as dedu\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas mais inelut\u00e1veis, \u00e0s conclus\u00f5es mais desespera\u00addoras, no tocante a esse tema eterno de tua parte de responsabili\u00addade nessa muralha de pedra, se bem que esteja claro at\u00e9 a evid\u00eancia que tu n\u00e3o est\u00e1s aqui para nada, e em conseq\u00fc\u00eancia, mergulhares silenciosamente, mas rangendo deliciosamente os dentes, na tua in\u00e9r\u00adcia, pensando que n\u00e3o podes mesmo te revoltar contra seja o que for, porque n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m em suma, porque isto n\u00e3o \u00e9 ~ uma farsa, sen\u00e3o urna falcatrua, porque \u00e9 uma trapalhada, n\u00e3o se sabe o qu\u00ea nem se sabe quem, por\u00e9m que, malgrado todas estas velhacadas, malgrado esta ignor\u00e2ncia, tu sofres, e tanto mais quanto menos compreendes.<\/p>\n<p><strong>IV<\/strong><\/p>\n<p>\u201cAh! Ah! Ah! Se \u00e9 assim, voc\u00ea chegar\u00e1 a descobrir uma certa vol\u00fapia at\u00e9 na dor de dentes!\u201d, exclamais v\u00f3s, rindo.<\/p>\n<p>\u2013 Mas, sim, responderei; h\u00e1 uma vol\u00fapia na dor de dentes: tive dor de dentes um m\u00eas inteiro; sei o que digo. N\u00e3o se sofre em sil\u00eancio, neste caso; geme\u2011se. Mas a esses gemidos falta fran\u00adqueza; h\u00e1 neles certa malignidade, e tudo est\u00e1 ali, precisamente. Esses gemidos exprimem a vol\u00fapia daquele que sofre; se a doen\u00e7a n\u00e3o lhe trouxesse um certo prazer, ele cessaria de se \u2018queixar. \u00c9 um exemplo excelente, senhores, e vou desenvolv\u00ea\u2011lo.<\/p>\n<p>Esses gemidos exprimem, primeiramente; a consci\u00eancia t\u00e3o hu\u00admilhante da perfeita inutilidade de vosso sofrimento, sua legali\u00addade do ponto de vista da natureza, sobre a qual escarrais, evidente\u00admente, mas que vos faz sofrer, permanecendo perfeitamente impass\u00edvel. Significam tamb\u00e9m \u2011 que v\u00f3s compreendeis que o inimigo n\u00e3o existe, mas que a dor est\u00e1 l\u00e1, mesmo assim, e que, com todos os vossos Wagenheim, sois o escravo de vossos dentes: quando calhar, vossos dentes cessar\u00e3o de doer; mas se foi decidido de outra maneira, eles vos far\u00e3o ainda sofrer durante tr\u00eas meses. E, se v\u00f3s recusais a vos submeter e protestais apesar de tudo, n\u00e3o vos resta outro meio de vos consolardes sen\u00e3o o de vos esbofeteardes e de quebrardes os punhos contra a parede. Pois bem! s\u00e3o preci\u00adsamente essas ofensas sangrentas, essas chala\u00e7as, que se permite n\u00e3o se sabe quem, s\u00e3o elas que suscitam esta sensa\u00e7\u00e3o de prazer, a qual atinge por vezes a suprema vol\u00fapia.<\/p>\n<p>Eu vos suplico, senhores, prestai aten\u00e7\u00e3o uma vez aos gemidos de um homem culto do s\u00e9culo XIX que sofre dos dentes h\u00e1 dois ou tr\u00eas dias, quando ele se p\u00f5e a gemer de modo diferente do primeiro dia, isto \u00e9, n\u00e3o unicamente porque tem uma dor, n\u00e3o como um grosseiro campon\u00eas, mas como um ser instru\u00eddo que se p\u00f4s em contato com a civiliza\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia, como um homem \u201cdes\u00adligado do solo natal e dos princ\u00edpios nacionais\u201d, como se diz hoje em dia. Seus gemidos se fazem maus, raivosos e n\u00e3o cessam mais, nem de dia nem de noite. Ele pr\u00f3prio sente muito bem, entretanto, que n\u00e3o lhe s\u00e3o de nenhuma utilidade. Melhor que ningu\u00e9m, sabe que irrita os que o rodeiam e os tortura, e se tortura a si mesmo, sem proveito nenhum. Sabe que o p\u00fablico e a fam\u00edlia, diante da qual se debate, n\u00e3o experimentam mais que desgosto com suas queixas, n\u00e3o mais acreditam nelas, e compreendem que poderia gemer de outra maneira, mais simplesmente, sem todos esses trinados, sem todas essas atitudes, e que ele exagera por mal\u00edcia e por malvadez\u2026 Pois bem! a\u00ed est\u00e1! 9 justamente nessa humi\u00adlha\u00e7\u00e3o claramente vista que jaz a vol\u00fapia. \u201cAh! eu vos desoriento, dilacero\u2011vos o cora\u00e7\u00e3o, impe\u00e7o de dormir toda a casa! Pois bem! Tanto melhor! N\u00e3o durmais ent\u00e3o! Convencei\u2011vos de que tenho dor de dentes! N\u00e3o sou mais para v\u00f3s esse her\u00f3i que pretendia ser; n\u00e3o passo de um pobre poltr\u00e3o, de um patife! Tanto me\u00adlhor! Estou feliz, mesmo que me tenhais adivinhado enfim! Meus miser\u00e1veis gemidos vos s\u00e3o penosos de ouvir? Tanto pior! Eu vos lan\u00e7arei numa roda\u2011viva mais bela ainda!. . .<\/p>\n<p>Continuais a n\u00e3o compreender, senhores? \u2011 Sim, para poder apanhar todas as nuan\u00e7as dessa vol\u00fapia sensual, \u00e9 preciso que vossa consci\u00eancia atinja uma grande profundidade. Rides? Sou muito feliz. Minhas brincadeiras, senhores, s\u00e3o de muito mau gosto, cer\u00adtamente; s\u00e3o embrulhadas e soam falso. Tudo isto prov\u00e9m de que eu n\u00e3o me respeito: mas aquele que se conhece pode se estimar, por pouco que seja?<\/p>\n<p><strong>V<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel verdadeiramente sentir ainda algum respeito por si mesmo, aquele que se dedicou a descobrir uma certa vol\u00fapia. na consci\u00eancia da sua pr\u00f3pria humilha\u00e7\u00e3o? Isto que digo n\u00e3o \u00e9 e modo algum ditado por ins\u00edpido remorso. E em geral, detesto dizer: \u2011Perdoe\u2011me, papai, n\u00e3o o farei nunca mais!\u201d N\u00e3o porque seja incapaz de pronunciar estas palavras, mas talvez muito ao contr\u00e1rio, porque sou capaz demais!<\/p>\n<p>E como um fato expresso, eu me precipitava para a frente precisamente quando n\u00e3o estava absolutamente para nada no ne\u00adg\u00f3cio. Era o que havia de mais repugnante. E com isto eu me enternecia, confessava\u2011me, chorava e, por fim, naturalmente, enga\u00adnava\u2011me a mim mesmo, n\u00e3o dissimulando, entretanto: era meu co\u00adra\u00e7\u00e3o quem me pregava estas partidas de mau gosto.<\/p>\n<p>Neste caso nem sequer nos pod\u00edamos queixar das leis da na\u00adtureza, embora essas leis me tivessem feito sofrer numerosos ve\u00adxames no curso da minha exist\u00eancia. \u00c9 penoso recordar tudo isto, e, de resto, naquele momento era muito penoso tamb\u00e9m. Com efeito, um minuto mais, e conven\u00e7o\u2011me raivosamente de que tudo isto n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o mentira, mentira ign\u00f3bil, infame com\u00e9dia \u2011 esta contri\u00e7\u00e3o, este enternecimento, estes juramentos de vida nova! V\u00f3s me perguntareis porque me torturava, porque me des\u00adlocava assim? Resposta: porque me aborrecia demais permanecer de bra\u00e7os cruzados; eis a\u00ed porque me entreguei a essas contor\u00e7\u00f5es. Era assim, asseguro. Observai bem, senhores, e verificareis ent\u00e3o que as coisas se passam precisamente assim. Eu imaginava aven\u00adturas e criava para mim uma exist\u00eancia fant\u00e1stica para viver de um modo ou de outro. Quantas vezes, por exemplo, cheguei a me ofender, por motivos absurdos, de prop\u00f3sito: sabes bem, tu mesmo, que n\u00e3o h\u00e1 por que se zangar, e que te excitas a frio, mas te aqueces a tal ponto que chegas finalmente a te encolerizar sinceramente.<\/p>\n<p>Tive sempre o gosto por estas hist\u00f3rias. Tanto e t\u00e3o bem que finalmente perdi todo poder sobre mim mesmo. Uma vez, duas vezes mesmo, quis me for\u00e7ar a me apaixonar. Sofri mesmo, se\u00adnhores, garanto. N\u00e3o se acredita nesse sofrimento, no fundo da alma, ri\u2011se dele, quase, mas sofre\u2011se verdadeiramente, de maneira muito real; fica\u2011se com ci\u00fame, fora de si \u2026 E a causa de tudo isto, \u00e9 o t\u00e9dio, meus senhores; a in\u00e9rcia nos esmaga. O fruto le\u00adg\u00edtimo, o fruto natural da consci\u00eancia \u00e9 com efeito a in\u00e9rcia: cru\u00adzam\u2011se os bra\u00e7os com conhecimento de causa. j\u00e1 falei disso. Digo e repito com insist\u00eancia: todos os homens simples e sinceros, todos os homens ativos, s\u00e3o ativos justamente porque s\u00e3o obtusos e me\u00add\u00edocres.<\/p>\n<p>Como explicar isto? Eis aqui: por causa de sua estreiteza de esp\u00edrito, eles tomam as causas secund\u00e1rias, imediatas, pelas causas primeiras; e bem mais facilmente, bem mais rapidamente que os outros, imaginam ter encontrado raz\u00f5es s\u00f3lidas, fundamentais, para sua atividade. Ent\u00e3o eles se tranq\u00fcilizam; ora, isto \u00e9 o principal. Para poder agir, com efeito, \u00e9 preciso previamente atingir uma perfeita tranq\u00fcilidade e n\u00e3o mais conservar nenhuma d\u00favida. Mas como alcan\u00e7ar essa tranq\u00fcilidade de esp\u00edrito? Onde poderia eu encontrar os princ\u00edpios fundamentais sobre os quais possa construir? Onde est\u00e1 minha base? onde iria procur\u00e1\u2011la?<\/p>\n<p>Excito\u2011me pensando. Por outras palavras, toda a causa em mim arrasta imediatamente uma outra ap\u00f3s ela, ainda mais pro\u00adfunda, mais fundamental, e assim em seguida, at\u00e9 o infinito. Tal \u00e9 a ess\u00eancia de todo o pensamento, de toda a consci\u00eancia. Encon\u00adtramo\u2011nos ent\u00e3o diante das leis da natureza. E o resultado? \u00c9 sempre o mesmo, lembrai\u2011vos! Falei\u2011vos antes em vingan\u00e7a (cer\u00adtamente n\u00e3o penetrastes muito bem a coisa). Diz\u2011se: o homem se vinga porque considera que isso \u00e9 justo. Encontra ent\u00e3o o princ\u00edpio fundamental que procurava: \u00e9 a justi\u00e7a. Sente\u2011se ent\u00e3o completamente apaziguado e vinga\u2011se com toda a tranq\u00fcilidade e com pleno sucesso, estando persuadido que cumpre uma a\u00e7\u00e3o justa e honesta. Ora, quanto a mim, eu n\u00e3o vejo nisso nada de justo nem de bom; e, se, por conseguinte, tento me vingar, \u00e9 pura malvadez da minha parte. A raiva poderia evidentemente vencer todas as hesita\u00e7\u00f5es e seria ent\u00e3o capaz de desempenhar com sucesso o papel dessa raz\u00e3o fundamental, precisamente porque ela n\u00e3o pode ser considerada como tal. Mas que fazer, se n\u00e3o sou sufi\u00adcientemente malvado? (Indiquei\u2011o desde o come\u00e7o.)<\/p>\n<p>Minha raiva \u00e9 submetida a uma esp\u00e9cie de decomposi\u00e7\u00e3o qu\u00ed\u00admica, em virtude justamente dessas mesmas malditas leis da cons\u00adci\u00eancia. Mal distingui o objeto do meu \u00f3dio, ei\u2011lo que se desva\u00adnece, os motivos se dissipam, o respons\u00e1vel desapareceu, o insulto n\u00e3o \u00e9 mais insulto, mas um golpe do destino, alguma coisa como uma dor de dentes, de que ningu\u00e9m \u00e9 culpado. E n\u00e3o me resta mais ent\u00e3o outro consolo que quebrar meus punhos contra a parede. Na impossibilidade de encontrar as causas primeiras, re\u00adnuncio ent\u00e3o \u00e0 minha vingan\u00e7a com um desd\u00e9m afetado. Ah! se a gente tentasse abandonar\u2011se a seu sentimento, cegamente, sem reflex\u00e3o alguma, sem procurar nenhuma raz\u00e3o, afastando para bem longe de si toda a consci\u00eancia, nem que fosse por algum tempo Seria ent\u00e3o uma coisa muito diferente! Maldize ou adora, mas n\u00e3o permane\u00e7as de bra\u00e7os cruzados. A partir do depois de ama\u00adnh\u00e3 \u2011 \u00faltimo adiamento \u2011 tu te desprezar\u00e1s de ter conscientemente te enganado a ti mesmo. Resultado final: bolha de sab\u00e3o, in\u00e9rcia.<\/p>\n<p>Ah! senhores! \u00e9 poss\u00edvel que eu me considere extremamente inteligente pela \u00fanica raz\u00e3o de que, em toda a minha vida, nunca pude come\u00e7ar nem acabar fosse o que fosse. N\u00e3o passo pois de um tagarela, de um tagarela inofensivo, de um impertinente como n\u00f3s todos. Mas que fazer, senhores, se o destino de todo homem inteligente \u00e9 tagarelar, isto \u00e9, derramar \u00e1gua numa peneira! VI<\/p>\n<p>Oh! se eu n\u00e3o tivesse passado de um pregui\u00e7oso! como eu me teria respeitado a mim mesmo! Ter\u2011me\u2011ia respeitado precisamen\u00adte porque me teria visto capaz ao menos de pregui\u00e7a, porque teria possu\u00eddo ent\u00e3o ao menos uma qualidade definida, da qual estaria certo. Pergunta: Quem \u00e9s? Resposta: um pregui\u00e7oso! Teria sido verdadeiramente muito agrad\u00e1vel ouvir chamar\u2011se assim. Tu est\u00e1s ent\u00e3o definido de maneira positiva; h\u00e1 alguma coisa ent\u00e3o a dizer da tua pessoa. .. \u201cUm pregui\u00e7oso!\u201d \u2011 \u00c9 um t\u00edtulo, \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma carreira, meus senhores! N\u00e3o riais disto; \u00e9 assim. Teria sido, assim, por direito, membro do primeiro clube do universo e teria passado todo o meu tempo a me respeitar. Conheci um sujei\u00adto cujo orgulho era ser entendido em Laffitte. Considerava essa qualidade como uma virtude muito preciosa e n\u00e3o duvidou jamais dele. Morreu com a consci\u00eancia n\u00e3o somente tranq\u00fcila, mas triunfante mesmo, e teve raz\u00e3o. Eu teria nesse caso escolhido uma carreira: teria sido um pregui\u00e7oso e um glut\u00e3o; n\u00e3o um guloso vulgar, mas um gozador, interessando\u2011se por \u201ctudo que \u00e9 belo e sublime\u201d. Que pensais? H\u00e1 muito tempo sonho isso. \u201cO belo e o sublime\u201d pesam como chumbo sobre a minha nuca desde que fiz quarenta anos. Desde que tenho quarenta anos! Mas antes? teria sido muito diferente! Teria logo encontrado uma forma de atividade adaptada ao meu car\u00e1ter: por exemplo, beber \u00e0 sa\u00fade de todas as coisas \u201cbelas e sublimes\u201d. Teria agarrado cada ocasi\u00e3o de beber \u00e0 gl\u00f3ria \u201cdo belo e do sublime\u201d, depois de ter, previamente, deixado cair uma l\u00e1grima na minha ta\u00e7a. Eu teria ent\u00e3o tor\u00adnado todas as coisas \u201cbelas e sublimes\u201d; teria descoberto \u201co belo e o sublime\u201d, at\u00e9 nas torpezas mais incontest\u00e1veis; teria derramado prantos tio abundantes, como aqueles que deixa escapar uma espon\u00adja. Um pintor, por exemplo, comp\u00f4s um quadro digno de Gh\u00ea, logo eu bebo \u00e0 sa\u00fade desse pintor, porque amo tudo que \u00e9 \u201cbelo e sublime\u201d. Um poeta escreveu Como Agradar a Cada Um , e eu bebo depressa \u00e0 sa\u00fade de cada um, \u2011 porque amo \u201co belo e o sublime\u201d. Isto me valer\u00e1 o respeito geral; exigirei esse respeito; perseguirei com a minha c\u00f3lera aquele que mo recusar. Vivo pacificamente, morro solenemente. N\u00e3o \u00e9 admir\u00e1vel? N\u00e3o \u00e9 esquisito? Teria deixado crescer um ventre t\u00e3o opulento, teria erguido para o alto um nariz t\u00e3o gorduroso, teria ornado meu rosto com um queixo t\u00e3o vasto, que todos ao me verem teriam exclamado: \u201cEis a\u00ed um ser bem real, um ser positivo!\u201d Como quiserdes, mas \u00e9 bem agrad\u00e1vel ouvir dizer tais coisas a seu respei\u00adto em nosso s\u00e9culo, t\u00e3o essencialmente negativo.<\/p>\n<p><strong>VII<\/strong><\/p>\n<p>Mas n\u00e3o s\u00e3o sen\u00e3o sonhos de ouro!<\/p>\n<p>Oh! dizei\u2011me qual foi aquele que primeiro declarou, que proclamou primeiro que o homem n\u00e3o comete vilanias sen\u00e3o porque n\u00e3o se apercebe de seus pr\u00f3prios interesses, e que se fosse escla\u00adrecido, se lhe abrissem os olhos sobre seus verdadeiros interesses, sobre seus interesses normais, cessaria imediatamente de cometer vilanias, e se tornaria no mesmo instante bom e honesto, pois, esclarecido pela ci\u00eancia e compreendendo seus verdadeiros interesses; encontraria no bem sua pr\u00f3pria vantagem? Como est\u00e1 entendido que ningu\u00e9m pode agir conscientemente contra seu pr\u00f3prio interesse, o homem seria ent\u00e3o por assim dizer colocado na necessidade de fazer o bem. Oh! crian\u00e7a! crian\u00e7a pura e ing\u00eanua!<\/p>\n<p>Mas dar\u2011se-\u00e1 que o homem, no curso desses milhares de anos, n\u00e3o agiu sen\u00e3o segundo o seu interesse? Que faremos ent\u00e3o desses milh\u00f5es de fatos que atestam que os homens, tendo embora perfeita consci\u00eancia do seu interesse, o relegam a segundo plano e enveredam por um caminho totalmente diferente, cheio de riscos e de acasos? N\u00e3o s\u00e3o, entretanto, for\u00e7ados a isso; mas parece que querem precisamente evitar a estrada que se lhes indicava, para tra\u00e7ar livremente, caprichosamente, uma outra, cheia de difi\u00adculdades, absurda, mal reconhec\u00edvel, obscura. \u00ca que essa liberdade possui a seus olhos mais atrativos que seus pr\u00f3prios interesses \u2026 O interesse! Que \u00e9 o interesse? V\u00f3s vos empenhais em me de\u00adfinir com toda a exatid\u00e3o em que consiste o interesse do homem? Que direis v\u00f3s se um belo dia se vem a descobrir que o interesse humano em certos casos pode ou mesmo deve consistir em desejar, n\u00e3o uma vantagem, mas um mal? Se \u00e9 assim, se esse caso se pode apresentar, ent\u00e3o tudo desmorona. Que pensais disto? Tal caso pode se apresentar?<\/p>\n<p>V\u00f3s rides! Ride, senhores, mas respondei! Os interesses hu\u00admanos est\u00e3o enumerados com exatid\u00e3o? Ser\u00e1 que n\u00e3o existem alguns que n\u00e3o entram em nenhuma das vossas classifica\u00e7\u00f5es e n\u00e3o podem a\u00ed encontrar lugar? Com efeito, tanto quanto sei, senhores, orga\u00adnizastes vosso registro dos interesses humanos de acordo com as cifras m\u00e9dias das estat\u00edsticas e das f\u00f3rmulas econ\u00f4mico\u2011cient\u00edficas. Os interesses humanos s\u00e3o, pois, segundo v\u00f3s, a riqueza, a tran\u00adq\u00fcilidade, a liberdade, e assim por diante; de maneira que, o ho\u00admem que repelisse consciente e ostensivamente o vosso registro, deveria ser considerado, na vossa opini\u00e3o, e, ali\u00e1s, tamb\u00e9m na minha, como um obscurantista, um louco? N\u00e3o \u00e9 assim? Mas eis o que \u00e9 bem estranho: como \u00e9 poss\u00edvel que todos esses esta\u00adt\u00edsticos, esses s\u00e1bios, esses filantropos, deixem constantemente de lado um certo elemento, nos seus c\u00e1lculos de interesses humanos? Eles n\u00e3o querem mesmo lev\u00e1\u2011los em conta nas suas f\u00f3rmulas, cujos resultados assim falseiam. A coisa n\u00e3o seria dif\u00edcil, entretanto; por que n\u00e3o completar a lista e introduzir\u2011lhe o elemento em ques\u00adt\u00e3o ?\u2026 Mas a dificuldade prov\u00e9m de que esse elemento t\u00e3o par\u00adticular n\u00e3o pode encontrar lugar em nenhuma classifica\u00e7\u00e3o e n\u00e3o pode se inscrever em nenhuma lista. Eis um exemplo: eu tenho um amigo\u2026 Mas fico pensando nisso! V\u00f3s o conheceis tamb\u00e9m; ele \u00e9 o amigo de todo o mundo.<\/p>\n<p>Quando se prepara para agir, esse senhor come\u00e7a por explicar\u00ad\u2011vos muito claramente, com belas e grandes frases, como lhe \u00e9 preciso agir para se conformar \u00e0 raz\u00e3o e \u00e0 verdade. \u00c9 pouco dizer: ele discutir\u00e1 com paix\u00e3o, com entusiasmo, interesses reais e normais da Humanidade; escarnecer\u00e1 cegamente dos tolos que n\u00e3o compreendem nem seus verdadeiros interesses, nem o verdadeiro valor da virtude. Mas, um quarto de hora depois, nem mais cedo nem mais tarde, sem raz\u00e3o nenhuma, sob um impulso inte\u00adrior mais poderoso que todas as considera\u00e7\u00f5es do interesse, ele far\u00e1 uma coisa rid\u00edcula, uma tolice qualquer, e agir\u00e1 ent\u00e3o contra todos os preceitos que tinha citado, contra a raz\u00e3o, contra os seus interesses, contra tudo\u2026<\/p>\n<p>Previno\u2011vos, de resto, que meu amigo \u00e9 uma personalidade coletiva e que \u00e9 dif\u00edcil, por conseq\u00fc\u00eancia, conden\u00e1\u2011lo sozinho. \u00c9 precisamente a isto que quero chegar, senhores! N\u00e3o h\u00e1 uma coisa, com efeito, que nos seja a todos mais cara que os nossos interesses mais preciosos? Por outras palavras (para n\u00e3o violar a l\u00f3gica): n\u00e3o existe para n\u00f3s um interesse (aquele que se deixa de lado, aquele de que acabamos de falar) mais interessante que todos os outros interesses, mais precioso que todos eles, e pelo qual o homem est\u00e1 pronto, se for preciso, a agir contra todas as regras, isto \u00e9, contra a raz\u00e3o, sacrificando\u2011lhe sua honra, sua paz, sua felicidade, todas as coisas belas e vantajosas, em uma palavra, nada sen\u00e3o para atingir uma coisa \u00fanica que lhe \u00e9 mais cara que todas as outras, que constitui a seus olhos seu interesse supremo?<\/p>\n<p>\u2011 Sim, \u2011 direis, \u2011 mas \u00e9 ainda de interesse que se trata\u2026 \u2013 Permiti! Vamos nos explicar; n\u00e3o \u00e9 com jogos de palavras que se pode esclarecer a quest\u00e3o. O que faz a singularidade dessa coisa, desse interesse, \u00e9 que ele destr\u00f3i todas as nossas classifica\u00e7\u00f5es e altera todos os sistemas edificados pelos amigos do g\u00eanero humano para a felicidade do homem. Em uma palavra, \u00e9 um embara\u00e7o, um obst\u00e1culo. Mas antes de vos apontar essa coisa, quero me comprometer pessoalmente, e afirmo ent\u00e3o com altivez que todos esses belos sistemas, que todas essas teorias que pretendem explicar \u00e0 Humanidade em que consistem seus interesses normais, a fim de que ela se torne logo virtuosa e nobre no seu esfor\u00e7o para atin\u00adgir os ditos interesses, declaro que tudo isso n\u00e3o passa de log\u00edsti\u00adca. Sim, pura log\u00edstica! Crer que a renova\u00e7\u00e3o do g\u00eanero humano possa \u2011realizar\u2011se fazendo\u2011lhe conhecer seus verdadeiros interesses, eq\u00fcivale, no meu modo de pensar, a admitir com Buckle que a civiliza\u00e7\u00e3o suaviza o homem, que se torna cada vez menos sanguin\u00e1rio, menos guerreiro. Buckle chegou a esse resultado muito logicamente, creio. Mas o homem nutre tal paix\u00e3o pelos sistemas, pelas dedu\u00e7\u00f5es abstratas, que est\u00e1 pronto * desfigurar conscientemente a verdade, pronto a fechar os olhos * tapar os ouvidos diante da verdade, tudo para justificar sua. l\u00f3gica.<\/p>\n<p>Tomo este exemplo porque \u00e9 convincente. Olhai pois em torno de v\u00f3s! O sangue corre em borbot\u00f5es, alegremente mesmo, como champanha. V\u00eade nosso s\u00e9culo XIX, no qual viveu Buckle! Vede Napole\u00e3o, o outro, o grande, e o de hoje! Vede a Am\u00e9rica do Norte e sua uni\u00e3o, estabelecida para a eternidade! Vede enfim esse caricatural Schleswig\u2011Holstein. Ent\u00e3o em que \u00e9 que a civiliza\u00e7\u00e3o nos ado\u00e7a? A civiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o faz mais que desenvolver em n\u00f3s a diversidade das sensa\u00e7\u00f5es\u2026 nada mais. E gra\u00e7as ao desenvolvimento dessa diversidade, \u00e9 muito poss\u00edvel que o homem acabe por descobrir uma certa vol\u00fapia no sangue. Isto ali\u00e1s j\u00e1 aconteceu.<\/p>\n<p>Notastes j\u00e1 que os sanguin\u00e1rios mais refinados foram sempre senhores muito civilizados, junto dos quais todos esses \u00c1tila, todos esses Stenka Razine fariam uma figura bem mesquinha. Se esses senhores se fazem notar menos, \u00e9 que se encontram mais freq\u00fcentemente e estamos habituados com isso. Mas se a civiliza\u00ad\u00e7\u00e3o n\u00e3o tornou o homem mais sanguin\u00e1rio, tornou\u2011o sem d\u00favida mais sordidamente, mais covardemente sanguin\u00e1rio. Antigamente, o homem considerava que tinha o direito de derramar sangue, e era com a consci\u00eancia bem tranq\u00fcila que destru\u00eda o que bem lhe parecia. Hoje, embora considerando a efus\u00e3o de sangue uma a\u00e7\u00e3o conden\u00e1vel, nem por isso deixamos de matar, e mais freq\u00fcentemente ainda do que antes. Isto vale mais? Decidi v\u00f3s mesmos. Diz\u2011se que Cle\u00f3patra (desculpai este exemplo tirado da Hist\u00f3ria Romana) divertia\u2011se em espetar agulhas no seio das escravas e experimentava grande prazer com seus gritos e contor\u00e7\u00f5es. Dir\u2011me\u2011eis que isso se passava numa \u00e9poca relativamente b\u00e1rbara, que nosso s\u00e9culo \u00e9 b\u00e1rbaro tamb\u00e9m, pois continuam a espetar agulhas na carne, que o homem, se bem que tenha adquirido uma compreens\u00e3o mais clara das coisas que naqueles recuados tempos,, n\u00e3o p\u00f4de ainda se habituar \u00e0 seguir as normas da raz\u00e3o e da ci\u00eancia. Mas estais certos, n\u00e3o obstante, que ele se habituar\u00e1 quando se desfizer com\u00adpletamente de certas tend\u00eancias ruins, e quando o senso comum e a ci\u00eancia tiverem completamente reeducado a natureza humana, e a tiverem orientado para um caminho normal, Estais certos de qu\u00ea ent\u00e3o o homem deixar\u00e1 de se enganar deliberadamente e se ver\u00e1 por assim dizer na impossibilidade de querer opor sua vontade aos seus interesses normais.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 mais ainda: ent\u00e3o, dizeis, a ci\u00eancia ensinar\u00e1 ao homem (mas na minha opini\u00e3o, isto j\u00e1 \u00e9 um luxo sup\u00e9rfluo) que ele nunca teve vontade, nem caprichos, e que n\u00e3o passa, em suma, de uma tecla de piano, de um pedal de \u00f3rg\u00e3o; o que realiza, por conse\u00adguinte, realiza\u2011o, n\u00e3o segundo sua vontade, mas conforme \u00e0s leis da natureza. Basta pois descobrir essas leis, e o homem ent\u00e3o n\u00e3o poder\u00e1 mais ser considerado respons\u00e1vel por suas a\u00e7\u00f5es, e a vida se lhe tornar\u00e1 extremamente f\u00e1cil. Todas as a\u00e7\u00f5es humanas poderio ser evidentemente calculadas matematicamente, de acordo com essas leis, como se faz para os logaritmos, at\u00e9 q cent\u00e9simo mil\u00e9simo, e ser\u00e3o inscritas nas efem\u00e9rides, ou far\u2011se\u2011\u00e3o livros esti\u00adm\u00e1veis no g\u00eanero dos nossos dicion\u00e1rios enciclop\u00e9dicos, onde tudo ficar\u00e1 t\u00e3o bem calculado e previsto, que n\u00e3o haver\u00e1 mais aventuras, nem mesmo mais a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, e sois v\u00f3s quem continua a falar, ver\u2011se\u2011\u00e1 estabelecerem\u00ad\u2011se novas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, que ser\u00e3o, por sua vez, fixadas com precis\u00e3o matem\u00e1tica, que todas as d\u00favidas desaparecer\u00e3o logo, pela simples raz\u00e3o de que se ter\u00e3o descoberto todas as solu\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o se edificar\u00e1 um vasto pal\u00e1cio de cristal. Ent\u00e3o veremos o P\u00e1ssaro de Fogo, ent\u00e3o\u2026 N\u00e3o se pode certamente garantir (sou eu que falo agora) que n\u00e3o ser\u00e1 terrivelmente fastidioso (que fazer, com efeito, se tudo est\u00e1 calculado e fixado de antem\u00e3o?); em compensa\u00e7\u00e3o, ser\u00e3o todos muito s\u00e1bios. Evidentemente o t\u00e9dio pode ser mau conselheiro: \u00e9 o t\u00e9dio que nos faz enterrar agulhas de ouro na carne\u2026 Mas isto n\u00e3o \u00e9 nada ainda. O que \u00e9 mais grave (sou eu quem continua a falar) \u00e9 que talvez nos acharemos ent\u00e3o muito felizes de ter \u00e0 m\u00e3o agulhas de ouro: o homem \u00e9 bruto, terrivelmente bruto, ou melhor dizendo, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o bruto quanto ingrato, e \u00e9 dif\u00edcil encontrar quem seja mais ingrato que ele. Eu n\u00e3o ficaria pois admirado se, no meio dessa felicidade, se levantasse de s\u00fabito um cavalheiro despojado de eleg\u00e2ncia, com o rosto \u201cre\u00adtr\u00f3grado\u201d e escarninho, e que nos dissesse, pondo as m\u00e3os na cintura: \u201cPois bem, senhores! Se jog\u00e1ssemos por terra, de um s\u00f3 pontap\u00e9, toda essa felicidade tranq\u00fcila, nada mais que para mandar os logaritmos ao diabo e poder recome\u00e7ar a viver segundo a nossa tola fantasia?\u201d Isso n\u00e3o seria ainda nada; mas o mais terr\u00edvel \u00e9 que esse personagem encontraria certamente disc\u00edpulos. O homem \u00e9 feito assim. E tudo isso por causa de uma coisa \u00ednfima que se poderia desprezar completamente, parece: tudo isso porque todo e qualquer homem aspira, sempre e em todas \u00e0s si\u00adtua\u00e7\u00f5es, a agir segundo sua vontade e n\u00e3o de acordo com as pres\u00adcri\u00e7\u00f5es da raz\u00e3o e do interesse; ora, vossa vontade pode e deve mesmo, por vezes (esta id\u00e9ia me pertence, como propriedade par\u00adticular), se opor aos vossos interesses. Minha vontade livre, meu arb\u00edtrio, meu capricho, por estapaf\u00fardio que seja, minha fantasia sobreexcitada at\u00e9 a dem\u00eancia, eis precisamente a coisa que se p\u00f5e de lado, o interesse mais precioso que n\u00e3o pode encontrar lugar em nenhuma de vossas classifica\u00e7\u00f5es, e que quebra em mil peda\u00e7os todos os sistemas, todas as teorias.<\/p>\n<p>Onde, pois, aprenderam os nossos s\u00e1bios que o homem tem necessidade de n\u00e3o sei que vontade normal e virtuosa? Por que imaginaram eles que o homem tem aspira\u00e7\u00f5es ap\u00f3s uma certa von\u00adtade racional e \u00fatil? O homem n\u00e3o aspira sen\u00e3o depois de uma vontade independente, qualquer que seja o pre\u00e7o e sejam quais forem os resultados. Mas s\u00f3 o diabo sabe o que essa vontade vale\u2026<\/p>\n<p><strong>VIII<\/strong><\/p>\n<p>\u201cAh! ah! ah! mas a vontade, isso \u00e9 coisa que n\u00e3o existe!\u201d \u2011v\u00f3s me interrompeis rindo. \u2011 \u201cA ci\u00eancia j\u00e1 conseguiu t\u00e3o bem dissecar o homem que, a partir de agora, sabemos que a vontade e o que se chama de livre arb\u00edtrio n\u00e3o passam de\u2026\u201d<\/p>\n<p>Permiti, senhores! Eu pr\u00f3prio me preparava para come\u00e7ar assim. Tive mesmo medo, confesso\u2011vos: ia gritar que a vontade depende, sabe o diabo de qu\u00ea, e que talvez se trate de algo muito bom, mas lembrei\u2011me da ci\u00eancia e mordi a l\u00edngua: foi ent\u00e3o que me interrompestes. Com efeito, se se conseguir descobrir a f\u00f3rmula de todos os nossos desejos, de todos os nossos caprichos, isto \u00e9, de onde prov\u00eam, de acordo com que leis se desenvolvem, como se reproduzem, para que fins tendem em tais ou tais casos, etc., \u00e9 prov\u00e1vel, ent\u00e3o, que o homem deixe logo de querer, nem sequer \u00e9 prov\u00e1vel, \u00e9 certo. Que prazer haver\u00e1 em n\u00e3o querer sen\u00e3o em conformidade com t\u00e1buas de c\u00e1lculos? Mas isto \u00e9 dizer pouco ainda: o homem cair\u00e1 imediatamente na categoria de uma simples pe\u00e7a. Na verdade que \u00e9 um homem despojado de desejo, de vontade, sen\u00e3o uma pe\u00e7a, uma transmiss\u00e3o?! Que pensais disto? Examinemos pois as probabilidades: tal ou tal coisa poder\u00e1 se produzir ou n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2011 Hum! \u2011 dizeis. \u2011 Nossos desejos se enganam muito fre\u00adq\u00fcentemente, porque nos enganamos na avalia\u00e7\u00e3o dos nossos interesses. Acontece\u2011nos querermos coisas ineptas porque, com a ajuda da nossa estupidez, cremos nos aproximarmos assim do que consi\u00adderamos como particularmente interessante. Mas quando tudo esti\u00adver explicado, quando tudo for posto em ordem e fixado de antem\u00e3o (o que \u00e9 muito poss\u00edvel, pois \u00e9 rid\u00edculo, pois \u00e9 est\u00fapido crer que certas leis da natureza permanecer\u00e3o indecifr\u00e1veis), ent\u00e3o, evidente\u00admente, n\u00e3o haver\u00e1 mais lugar para o que se chama de desejos. Se nossa vontade entra ent\u00e3o em conflito com a, nossa raz\u00e3o, pode\u00adremos raciocinar e n\u00e3o querer, porque \u00e9 imposs\u00edvel a um ser ra\u00adcional desejar in\u00e9pcias, contradizer conscientemente a raz\u00e3o e pro\u00adcurar prejudicar\u2011se\u2026 E urna vez que todos os desejos e todos os racioc\u00ednios poder\u00e3o ser calculados antecipadamente, porque estar\u00e3o descobertas as leis do nosso suposto livre arb\u00edtrio, tornar\u2011se-\u00e1 pos\u00ads\u00edvel, um dia, (eu n\u00e3o gracejo) organizar uma esp\u00e9cie de lista, e ter vontade, reportando\u2011nos a ela. Admitamos que me seja pro\u00advado um dia que se eu mostrei o punho fechado a algu\u00e9m, \u00e9 que n\u00e3o podia agir de outra forma, e que devia fechar o punho precisamente assim; de que liberdade disponho eu ainda, sobretudo se sou eu pr\u00f3prio instru\u00eddo e se possuo um diploma? Posso ent\u00e3o calcular minha exist\u00eancia com trinta anos de anteced\u00eancia. Numa palavra, se isto se realizar, n\u00e3o teremos mais nada a fazer sen\u00e3o compreender. E, em geral, devemos repetir\u2011nos sem descanso que nesse instante e precisamente nessa circunst\u00e2ncia, a natureza n\u00e3o se preocupa conosco de maneira nenhuma, e que \u00e9 preciso aceit\u00e1\u2011la como \u00e9, e n\u00e3o como a enfeita a nossa fantasia, e que se aspiramos realmente \u00e0s f\u00f3rmulas, \u00e0s efem\u00e9rides, aos alambiques, n\u00e3o h\u00e1 nada a fazer, \u00e9 preciso aceitar o alambique; sen\u00e3o ele passar\u00e1 perfeita\u00admente sem a nossa aprova\u00e7\u00e3o,<\/p>\n<p>Sim, mas \u00e9 aqui justamente que me aparece a dificuldade. Mas, perdoai\u2011me por me ter posto assim a filosofar. N\u00e3o o esque\u00e7ais: tenho quarenta anos de subsolo. Permiti\u2011me soltar as r\u00e9deas \u00e0 minha fantasia. Vede, senhores, a raz\u00e3o \u00e9 uma coisa excelente; isto \u00e9 incontest\u00e1vel; mas a raz\u00e3o \u00e9 a raz\u00e3o e n\u00e3o satisfaz sen\u00e3o a faculdade de racioc\u00ednio do homem, enquanto que o desejo \u00e9 a express\u00e3o da totalidade da vida, isto \u00e9, da vida humana inteira, inclusive a raz\u00e3o e seus escr\u00fapulos; e, se bem que nossa vida, tal como se exprime assim, se revista freq\u00fcentemente de um aspecto muito velhaco, nem por isso \u00e9 menos vida, e n\u00e3o a extra\u00e7\u00e3o da raiz quadrada.<\/p>\n<p>Assim comigo, por exemplo: eu quero viver, naturalmente, a fim de satisfazer minha faculdade de exist\u00eancia em sua totalidade e n\u00e3o para satisfazer unicamente a minha faculdade de racioc\u00ednio, que n\u00e3o representa, em suma, sen\u00e3o a vig\u00e9sima parte das for\u00e7as que est\u00e3o em mim. Que sabe a raz\u00e3o? A raz\u00e3o n\u00e3o sabe sen\u00e3o o que aprendeu (ela n\u00e3o saber\u00e1 nunca outra coisa, provavelmente; e embora isso n\u00e3o seja uma consola\u00e7\u00e3o, n\u00e3o o devemos dissimular), enquanto que a natureza humana age com todo o seu peso, por assim dizer, com tudo que ela cont\u00e9m em si, consciente e incons\u00adcientemente; acontece\u2011lhe cometer disparates, mas vive.<\/p>\n<p>Suspeito, senhores, que me considerais com um certo desd\u00e9m: v\u00f3s me repetis que \u00e9 imposs\u00edvel a um homem esclarecido e culto, ao homem do futuro, em uma palavra, que lhe \u00e9 imposs\u00edvel querer deliberadamente o que for contr\u00e1rio aos seus interesses; \u00e9 claro como as matem\u00e1ticas. Estou inteiramente de acordo: sim, \u00e9 matematicamente exato. Mas repito\u2011vos pela cent\u00e9sima vez: existe um caso, um \u00fanico, em que o homem pode deliberadamente, expressa\u00admente, rebuscar o que lhe \u00e9 desfavor\u00e1vel, o que lhe parece est\u00fapido, inepto, com o \u00fanico fim de se subtrair \u00e0 obriga\u00e7\u00e3o de escolher o aproveit\u00e1vel, o digno. Porque essa in\u00e9pcia, esse capricho, talvez seja, efetivamente, meus senhores, o que h\u00e1 de mais vantajoso para n\u00f3s sobre a terra, sobretudo em certos casos. \u00c9 poss\u00edvel mesmo que essa vantagem seja superior a todas as outras, mesmo quando nos \u00e9 manifestamente prejudicial e contradiz as conclus\u00f5es mais justas do nosso racioc\u00ednio. Conserva\u2011nos, com efeito, o principal, o que nos \u00e9 mais caro, isto \u00e9, nossa personalidade. Alguns afir\u00admam. que isso \u00e9 precisamente o que temos de mais precioso. A vontade pode querer por vezes se p\u00f4r de acordo com a raz\u00e3o, so\u00adbretudo se n\u00e3o se abusa desse acordo e se dele se aproveita mo\u00adderadamente. Isto pode ser \u00fatil e digno de aprova\u00e7\u00e3o. Mas, muito freq\u00fcentemente, o mais freq\u00fcente mesmo, \u00e9 a vontade recusar\u00ad\u2011se obstinadamente a concordar com a raz\u00e3o, e ent\u00e3o\u2026 ent\u00e3o\u2026 Mas sabeis que isto tamb\u00e9m \u00e9 extremamente \u00fatil e digno de apro\u00adva\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Admitamos, senhores, que o homem n\u00e3o \u00e9 um bruto. N\u00e3o se dizer, com efeito, que ele o seja, porque se o fosse, quem poderia ent\u00e3o reivindicar a intelig\u00eancia? Mas se n\u00e3o \u00e9 um bruto, \u00e9 no m\u00ednimo monstruosamente ingrato, extraordinariamente ingra\u00adto. Creio mesmo que \u00e9 a melhor defini\u00e7\u00e3o que se possa dar do homem: um ser com dois p\u00e9s e ingrato. Mas n\u00e3o \u00e9 tudo ainda: esse n\u00e3o \u00e9 ainda o seu principal defeito. Seu principal defeito \u00e9 o mau car\u00e1ter, que ele conservou inalter\u00e1vel, desde o dil\u00favio uni\u00adversal at\u00e9 o per\u00edodo schleswig\u2011holsteiniano de nossa Hist\u00f3ria. Mau car\u00e1ter, e, em conseq\u00fc\u00eancia, conduta insensata, porque se sabe h\u00e1 muito tempo, que esta decorre daquele. Tentai, lan\u00e7ai um olhar pela Hist\u00f3ria da Humanidade! Que vedes? \u00c9 grandioso, dizeis? \u2011 Sim, bem pode ser; s\u00f3 o colosso de Rodes j\u00e1 representa alguma coisa. E n\u00e3o \u00e9 em v\u00e3o que M. Anajevski nos lembra que, segundo uns, o colosso era uma obra humana, ao passo que outros afirmavam que era o produto das for\u00e7as naturais. Estareis choca\u00addos pela variedade? Sim, h\u00e1 nisso uma certa variedade: para disso nos convencermos, basta lan\u00e7armos uma olhadela pelos grandes uniformes civis e militares, e se lhes ajuntarmos as pequenas far\u00addas, perder\u2011nos\u2011emos completamente; nenhum historiador resistir\u00e1 a isso. Mon\u00f3tono, direis? \u2011 \u00c9 poss\u00edvel. N\u00e3o se faz sen\u00e3o guer\u00adrear, com efeito. Luta\u2011se hoje, lutou\u2011se ontem, lutar\u2011se-\u00e1 amanh\u00e3 mesmo um pouco mon\u00f3tono demais, confessai!<\/p>\n<p>Numa palavra, pode\u2011se dizer tudo da Hist\u00f3ria Universal, tudo que se apresentar \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o mais desregrada. Mas \u00e9 imposs\u00edvel dizer que ela \u00e9 racional; equivocar\u2011vos\u2011eis desde a primeira s\u00edlaba. E, ademais, eis ainda o que se passa constantemente: homens apa\u00adrecem, sensatos e de bons costumes, filantropos, cujo fim \u00e9 levar uma exist\u00eancia racional e honesta, a fim de agirem pelo exemplo sobre seus semelhantes e de provar\u2011lhes que \u00e9 poss\u00edvel viver sabiamente. Mas que acontece, ent\u00e3o? Sabe\u2011se que grande n\u00famero desses amantes da sabedoria acabam, mais cedo ou mais tarde, por trair suas id\u00e9ias e se comprometem em escandalosas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Pois bem! Eu vos pergunto: o que se pode ent\u00e3o esperar do homem, desse ser dotado de qualidades t\u00e3o estranhas? Tentai derramar sobre ele todos os bens da terra; mergulhai\u2011o na felici\u00addade, t\u00e3o profundamente, que n\u00e3o se distingam mais na superf\u00edcie sen\u00e3o algumas bolhas de ar: satisfazei suas necessidades econ\u00f4micas t\u00e3o completamente que ele n\u00e3o tenha mais nada a fazer sen\u00e3o dormir, comer p\u00e3es de mel, e pensar nos meios de fazer durar a His\u00adt\u00f3ria Universal \u2011 pois bem! mesmo nesse caso o homem, por pura ingratid\u00e3o, por necessidade de se emporcalhar, cometer\u00e1, \u00e0 guisa de agradecimento, uma vilania qualquer. Correr\u00e1 at\u00e9 o risco de perder os seus p\u00e3es de mel e procurar\u00e1 as in\u00e9pcias mais perigo\u00adsas, os absurdos menos proveitosos, s\u00f3 para misturar a essa sabe\u00addoria t\u00e3o positiva um elemento fant\u00e1stico, pernicioso. S\u00e3o precisa\u00admente os seus sonhos mais fant\u00e1sticos, \u00e9 a sua asnice mais vulgar, que ele pretender\u00e1 conservar, unicamente para provar a si mesmo (como se isso fosse verdadeiramente t\u00e3o necess\u00e1rio) que os homens s\u00e3o homens e n\u00e3o teclas de piano, sobre as quais se dignam tocar, \u00e9 verdade, as leis da natureza, que tocam de resto com tal brio que muito em breve n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel querer seja o que for sem se referir aos calend\u00e1rios. E depois, mesmo que se achasse que o homem n\u00e3o passa realmente de uma tecla de piano, se se chegasse a lho demonstrar matematicamente, mesmo nesse caso, ele n\u00e3o toma\u00adria ju\u00edzo e cometeria alguma incongru\u00eancia, apenas para marcar bem sua ingratid\u00e3o e perseverar no seu capricho. E, no caso em que os outros meios lhe faltassem, ele se afundaria na destrui\u00e7\u00e3o, no caos; desencadearia n\u00e3o sei que males, mas n\u00e3o faria finalmente sen\u00e3o o que lhe desse na cabe\u00e7a. Lan\u00e7ar\u00e1 sua maldi\u00e7\u00e3o sobre o mundo, e como s\u00f3 ao homem \u00e9 dado amaldi\u00e7oar (isto \u00e9 bem um privil\u00e9gio seu, que o distingue muito particularmente dos outros rimais) alcan\u00e7ar\u00e1 assim os seus fins, isto \u00e9, convencer\u2011se de que um homem e n\u00e3o uma pe\u00e7a.<\/p>\n<p>Se me disserdes que o caos, as trevas, as maldi\u00e7\u00f5es, que tudo isso pode tamb\u00e9m ser calculado de antem\u00e3o, se bem que a s\u00f3 possibilidade desse c\u00e1lculo ir\u00e1 paralisar o impulso do homem e que a raz\u00e3o triunfar\u00e1, assim, uma vez mais, ent\u00e3o eu vos confessarei que o homem s\u00f3 ter\u00e1 um meio de fazer o que lhe apraz, que \u00e9 perder a raz\u00e3o e tornar\u2011se completamente louco.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 \u00f3bvio para mim; eu vo\u2011lo garanto, pois parece claro que desde todos os tempos a grande preocupa\u00e7\u00e3o do homem foi pro\u00advir sem cessar a si mesmo, que ele era um homem e n\u00e3o uma engrenagem. Com isso arriscava a pele, mas provava\u2011o: vivia como um troglodita, mas provava\u2011o. E como, depois de tudo isto, n\u00e3o pecar, como n\u00e3o nos felicitarmos por n\u00e3o estarmos ainda nessa situa\u00e7\u00e3o e por a nossa vontade depender ainda n\u00e3o se sabe de qu\u00ea?<\/p>\n<p>V\u00f3s exclamais (se me fazeis ainda a honra de gritar) que nin\u00adgu\u00e9m pensa em me privar de minha vontade, que a gente s\u00f3 se agita para arrumar as coisas de tal maneira, que por si mesma, por sua pr\u00f3pria iniciativa, minha vontade possa p\u00f4r\u2011se de acordo COM os meus interesses normais, com as leis naturais, com a arit\u00adm\u00e9tica.<\/p>\n<p>Ora vamos, senhores! Que restar\u00e1 da minha vontade, quando tudo estiver nas t\u00e1buas de calcular e quando n\u00e3o houver mais que \u201cduas vezes dois quatro\u201d? Duas vezes dois ser\u00e3o quatro sem que minha vontade se incomode com isso. A vontade quer saber de coisa bem diferente!<\/p>\n<p><strong>IX<\/strong><\/p>\n<p>Senhores, gracejo evidentemente e eu pr\u00f3prio sei que meus gracejos n\u00e3o s\u00e3o muito bons; mas, ali\u00e1s, n\u00e3o se trata unicamente de gracejos. \u00c9 rangendo os dentes, talvez, que gracejo. Senhores, h\u00e1 problemas que me atormentam: ajudai\u2011me a resolv\u00ea\u2011los. Assim, quereis libertar o homem de seus antigos h\u00e1bitos e corrigir\u2011lhe a vontade segundo os dados da ci\u00eancia e conforme ao senso comum. Mas como sabeis que o homem pode e deve ser corrigido? De onde conclu\u00edstes que a vontade do homem deve necessariamente ser educada? Em uma palavra: por que pensais que essa educa\u00e7\u00e3o lhe \u00e9 realmente \u00fatil? E para dizer tudo: por que estais t\u00e3o firme\u00admente persuadidos que \u00e9 sempre vantajoso para o homem n\u00e3o contradizer seus interesses normais, reais, garantidos pelo racioc\u00ednio e pela aritm\u00e9tica? Isto n\u00e3o \u00e9, em suma, sen\u00e3o uma suposi\u00e7\u00e3o vossa. Admitamos mesmo que tal seja com efeito a lei l\u00f3gica; mas ser\u00e1 verdadeiramente a lei humana? Pensais, talvez, que sou louco, senhores? Permiti\u2011me que me explique.<\/p>\n<p>Admito: o homem \u00e9 um animal essencialmente construtor, obri\u00adgado a se dirigir conscientemente para um fim qualquer; \u00e9 um engenheiro. Deve, pois, constantemente tra\u00e7ar caminhos novos, n\u00e3o importa em que dire\u00e7\u00f5es. Mas \u00e9 talvez por causa disso, preci\u00adsamente que tem por vezes desejo de escapar pela tangente, pre\u00adcisamente porque est\u00e1 condenado a tra\u00e7ar um caminho e tamb\u00e9m porque, por est\u00fapido que seja o homem de a\u00e7\u00e3o, ele adivinha por vezes que toda estrada leva sempre a alguma parte, e que n\u00e3o \u00e9 a sua dire\u00e7\u00e3o que importa, mas o pr\u00f3prio fato de que ela o conduz para um lugar qualquer, a fim de que o menino sabido n\u00e3o se lembre de desprezar seu of\u00edcio de engenheiro e n\u00e3o se abandone \u00e0 pregui\u00e7a, a qual \u00e9, como se sabe, a m\u00e3e de todos os v\u00edcios. \u00c9 indiscut\u00edvel que o homem gosta muito de construir e tra\u00e7ar cami\u00adnhos; mas como acontece ent\u00e3o que ele ame t\u00e3o apaixonadamente a destrui\u00e7\u00e3o e o caos? Dizei\u2011me. Mas eu mesmo gostaria de vos dizer algumas palavras a esse respeito.<\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 que ama tanto a destrui\u00e7\u00e3o e o caos (Se os ama \u00e0s vezes, \u00e9 indiscut\u00edvel) porque tem instintivamente medo de atingir o fim e terminar o edif\u00edcio que constr\u00f3i? O que sabeis disso? Ele n\u00e3o ama talvez esse edif\u00edcio, sen\u00e3o de longe, e n\u00e3o de perto. Apraz\u2011lhe, talvez, construi\u2011lo, mas n\u00e3o morar nele, e est\u00e1 pronto talvez a abandon\u00e1\u2011lo aos animais dom\u00e9sticos. \u00e0s formigas, aos car\u00adneiros, etc. As formigas, sim, t\u00eam outros gostos; possuem nesse g\u00eanero um edif\u00edcio verdadeiramente extraordin\u00e1rio, constru\u00eddo para os s\u00e9culos, o formigueiro.<\/p>\n<p>Foi por um formigueiro que come\u00e7aram as honradas formigas e \u00e9 prov\u00e1vel que tal seja tamb\u00e9m o termo da sua carreira, o que faz honra \u00e0 sua const\u00e2ncia e ao seu senso pr\u00e1tico. Mas o homem \u00e9 um ser vers\u00e1til, e \u00e9 poss\u00edvel que, \u00e0 semelhan\u00e7a do jogador de xadrez, n\u00e3o ame sen\u00e3o a a\u00e7\u00e3o mesma e n\u00e3o o fim a atingir. E quem sabe? (n\u00e3o se pode garantir) \u00e9 poss\u00edvel que o \u00fanico fim para o qual tende a Humanidade n\u00e3o consista sen\u00e3o nesse esfor\u00e7o, nessa a\u00e7\u00e3o; ou por outra: a vida n\u00e3o teria fim exterior, o qual n\u00e3o pode evidentemente ser sen\u00e3o aquele \u201cduas vezes dois quatro\u201d, isto \u00e9, uma f\u00f3rmula. Ora, senhores, duas vezes dois quatro \u00e9 um princ\u00edpio de morte e n\u00e3o um princ\u00edpio de vida. Em todo o caso, o homem sempre teve medo desse \u201cduas vezes dois quatro\u201d e eu tamb\u00e9m tenho.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que o homem n\u00e3o se ocupa sen\u00e3o da procura desses \u201cduas vezes dois quatro\u201d; atravessa oceanos, arrisca a vida em sua persegui\u00e7\u00e3o; mas quanto a encontr\u00e1\u2011los, quanto a apanh\u00e1\u2011los real\u00admente \u2011 juro\u2011vos que tem medo, pois ele se d\u00e1 conta que, uma vez encontrados, nada mais tem a fazer. Depois de terminarem o trabalho e de terem recebido, os oper\u00e1rios v\u00e3o ao botequim, para acabarem a noite na cadeia; t\u00eam ent\u00e3o a sua conta ao menos por uma semana. Enquanto que o homem, que se tomar\u00e1 ele? Em todo o caso, observa\u2011se constantemente nele certo constrangimento, sempre que atinge um fim. Tenta aproximar\u2011se do fim, mas t\u00e3o logo o atinge, n\u00e3o est\u00e1 mais satisfeito; e isto \u00e9 verdadeiramente bem c\u00f4mico. Em uma palavra: o homem \u00e9 constru\u00eddo de uma maneira muito c\u00f4mica, e tudo isto faz o efeito de um calemburgo. Mas seja como for, \u201cduas vezes dois quatro\u201d \u00e9 uma coisa bem insu\u00adport\u00e1vel. \u201cDuas vezes dois quatro\u201d, na minha opini\u00e3o, respira impud\u00eancia. \u201cDuas vezes dois quatro\u201d nos desfigura insolentemen\u00adte. De m\u00e3os nos quadris, ele se nos atravessa no caminho e nos cospe na cara. Admito que \u201cduas vezes dois quatro\u201d seja uma coisa excelente, mas se \u00e9 preciso louvar tudo, eu vos direi que \u201cduas vezes dois cinco\u201d \u00e9 tamb\u00e9m \u00e0s vezes uma coisinha muito encantadora.<\/p>\n<p>E por que pois estais t\u00e3o inabalavelmente, t\u00e3o solenemente convictos de que s\u00f3 \u00e9 necess\u00e1rio o normal, o positivo, o bem\u2011estar, em uma palavra? A raz\u00e3o n\u00e3o se engana em seus ju\u00edzos? E poss\u00edvel que o homem n\u00e3o ame sen\u00e3o o bem\u2011estar. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que ele ame na mesma medida o sofrimento? N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que o sofrimento lhe seja t\u00e3o vantajoso quanto o bem\u2011estar? O homem se p\u00f5e por vezes a amar apaixonadamente o sofrimento; isso \u00e9 um fato. N\u00e3o h\u00e1 necessidade de consultar a esse prop\u00f3sito a Hist\u00f3ria Universal. Indagai v\u00f3s mesmos se unicamente sois ho\u00admens, e se tendes vivido, por pouco que seja. No que toca \u00e0 minha opini\u00e3o pessoal, dir\u2011vos\u2011ei que \u00e9 mesmo inconveniente s\u00f3 amar o bem\u2011estar. Est\u00e1 bem? Est\u00e1 mal? Isso eu n\u00e3o sei, mas \u00e0s vezes \u00e9 agrad\u00e1vel quebrar alguma coisa. N\u00e3o \u00e9 precisamente o sofrimento que defendo aqui, ou o bem\u2011estar: \u00e9 meu capricho, e insisto para que ele me seja garantido, se for preciso. Nas com\u00e9dias, por exemplo, n\u00e3o se admitem os sofrimentos, eu sei; tampouco podemos admiti\u2011los num pal\u00e1cio de cristal: h\u00e1 d\u00favida, h\u00e1 nega\u00e7\u00e3o no so\u00adfrimento, mas o que seria ent\u00e3o de um pal\u00e1cio de cristal do qual se pudesse duvidar? Ora, estou certo de que o homem n\u00e3o re\u00adnunciar\u00e1 jamais ao verdadeiro sofrimento, isto \u00e9, \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o e ao caos.<\/p>\n<p>O sofrimento! Mas \u00e9 a causa \u00fanica da consci\u00eancia! Eu vos declarei, \u00e9 verdade, no in\u00edcio, que a consci\u00eancia, na minha opini\u00e3o, \u00e9 um dos maiores males do homem; mas sei que o homem a ama e n\u00e3o a trocar\u00e1 por nenhuma \u2011satisfa\u00e7\u00e3o, seja qual for. A consci\u00eancia, por exemplo, \u00e9 infinitamente superior a \u201cduas vezes dois quatro\u201d. Depois de \u201cduas vezes dois\u201d, n\u00e3o resta evidentemente mais nada, n\u00e3o somente a fazer, mas mesmo a conhecer. A \u00fanica coisa que nos resta, ent\u00e3o, \u00e9 tapar nossos cinco sentidos e mergu\u00adlharmos na contempla\u00e7\u00e3o. Com a consci\u00eancia chega\u2011se, \u00e9 verdade, a um resultado id\u00eantico, isto \u00e9, \u00e0 ina\u00e7\u00e3o, mas poder\u2011se\u2011\u00e1, ent\u00e3o, pelo menos dar\u2011lhe uma chicotada, de vez em quando, o que vi\u00advifica um pouco o esp\u00edrito, apesar de tudo. \u00c9 muito reacion\u00e1rio, mas sempre vale mais do que nada.<\/p>\n<p><strong>X<\/strong><\/p>\n<p>Credes no pal\u00e1cio de cristal, indestrut\u00edvel, para a eternidade, ao qual n\u00e3o se poder\u00e1 mostrar a l\u00edngua, nem mostrar os punhos \u00e0s escondidas. Pois bem! eu, se desconfio do pal\u00e1cio de cristal, \u00e9 talvez justamente porque \u00e9 de cristal e indestrut\u00edvel e porque n\u00e3o se poder\u00e1 lhe mostrar a l\u00edngua, mesmo \u00e0s escondidas.<\/p>\n<p>Vede: se em lugar de um pal\u00e1cio de cristal eu s\u00f3 disponho de um galinheiro, quando chove, eu me insinuarei talvez no ga\u00adlinheiro, para fugir \u00e0 chuva, mas ficando\u2011lhe embora muito agrade\u00adcido por ter me preservado, n\u00e3o tomarei meu galinheiro por um pa\u00adl\u00e1cio. Rides, dizeis\u2011me que em semelhante caso pal\u00e1cio e galinheiro se eq\u00fcivalem. Sim, responderei, se se vivesse apenas para n\u00e3o estar molhado.<\/p>\n<p>Mas que fazer, se se me meteu na cabe\u00e7a que n\u00e3o se vive somente para isso e que, se se vive, \u00e9 num pal\u00e1cio que \u00e9 preciso se instalar? Isto \u00e9 minha vontade, isto \u00e9 meu desejo, V\u00f3s n\u00e3o conseguireis me arrancar esta vontade, sen\u00e3o quando tiverdes mo\u00addificado meus desejos. Pois bem! modificai\u2011os, apresentai\u2011me um outro fim, oferecei\u2011me um outro ideal! Mas, enquanto espero, recuso\u2011me a tomar um galinheiro por um pal\u00e1cio de cristal. \u00c9 poss\u00edvel que o pal\u00e1cio de cristal n\u00e3o seja sen\u00e3o um mito, que as leis da natureza n\u00e3o o admitam e que eu o tenha inventado por tolice, impelido por certos h\u00e1bitos irracionais da nossa gera\u00e7\u00e3o. Mas que me importa que ele seja inadmiss\u00edvel! Que me importa, pois que ele existe nos meus desejos, ou, para dizer melhor, pois que existe tanto quanto existem meus desejos? Continuais a rir, penso. Ride tanto quanto vos agrade! Aceitarei todas as zom\u00adbarias, mas recusar\u2011me\u2011ei a me declarar saciado, quando ainda tenho fome; n\u00e3o me contentarei com um compromisso, com um zero se renovando indefinidamente, pela \u00fanica raz\u00e3o de que est\u00e1 confor\u00adme as leis da natureza e existe realmente. N\u00e3o admitirei que o coroamento dos meus desejos possa ser uma casa de tijolos, com alojamentos a pre\u00e7o m\u00f3dico, arrendados por mil anos e osten\u00adtando a tabuleta do dentista Wagenheim. Destru\u00ed meus desejos, derrubai meu ideal, apresentai\u2011me um fim melhor e eu vos seguirei. Dir\u2011me\u2011eis, talvez, que n\u00e3o vale a pena ocupardes\u2011vos de mim; mas neste caso posso vos responder do mesmo modo. N\u00f3s discuti\u00admos seriamente, e se n\u00e3o vos dignardes me conceder vossa aten\u00e7\u00e3o, pois bem! n\u00e3o vou chorar por isso. Eu tenho meu subsolo.<\/p>\n<p>Mas, enquanto existo, enquanto desejo, que minhas m\u00e3os se. quem se levo um tijolinho que seja a essa casa! N\u00e3o me digais que eu mesmo renunciei cedo ao pal\u00e1cio de cristal, pelo \u00fanico mo\u00adtivo de n\u00e3o lhe poder mostrar a l\u00edngua. Se falei assim, n\u00e3o \u00e9 que eu goste tanto de mostrar a l\u00edngua. Acontece por\u00e9m que, e \u00e9 isto precisamente que me irrita, de todos os vossos edif\u00edcios n\u00e3o h\u00e1 um ao qual n\u00e3o se possa mostrar a l\u00edngua. Ao contr\u00e1rio, eu faria cortar minha l\u00edngua, por gratid\u00e3o, se se arranjassem as coisas de tal maneira que eu n\u00e3o tivesse mais desejo de a mostrar. Que me importa que as coisas n\u00e3o possam se arranjar assim e que seja preciso contentarmo\u2011nos com alojamentos a pre\u00e7os m\u00f3dicos! Por que te\u00adnho eu tais desejos? N\u00e3o sou feito assim, sen\u00e3o para poder ve\u00adrificar que essa constitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o uma brincadeira de mau gosto? \u00c9 esse verdadeiramente o \u00fanico fim? \u2011 N\u00e3o o admito.<\/p>\n<p>De resto, sabeis o que vou dizer\u2011vos? estou persuadido de que n\u00f3s outros, homens do subsolo, devemos ser mantidos na trela. O homem do subsolo \u00e9 capaz de permanecer silencioso no seu subsolo durante quarenta anos; mas, se sai do seu buraco, ele de\u00adsabafa, e ent\u00e3o fala, fala, fala\u2026<\/p>\n<p><strong>XI<\/strong><\/p>\n<p>O fim dos fins, senhores, \u00e9 n\u00e3o fazer nada, absolutamente nada. A in\u00e9rcia contemplativa \u00e9 prefer\u00edvel seja ao que for. Assim pois, viva o subsolo! Se bem, que eu tenha dito antes que inve\u00adjava o homem normal at\u00e9 a derradeira gota da minha b\u00edlis, quando o vejo tal qual \u00e9, renuncio ao ser normal (n\u00e3o cessando todavia de ter inveja dele). N\u00e3o! n\u00e3o! apesar de tudo o subsolo vale mais. L\u00e1 ao menos se pode\u2026 Ah! c\u00e1 que minto de novo! Minto, porque sei, t\u00e3o claramente quanto duas vezes dois s\u00e3o quatro, que n\u00e3o \u00e9 o subsolo que vale mais, mas algo muito dife\u00adrente a que aspiro, mas que n\u00e3o posso descobrir. Para o diabo o subsolo!<\/p>\n<p>Se eu pudesse crer ao menos numa s\u00f3 palavra do que escrevo aqui! juro\u2011vos, senhores, que n\u00e3o creio em uma s\u00f3 palavra, em uma \u00fanica e miser\u00e1vel palavrinha! Ou melhor dizendo: creio, talvez, mas sinto no mesmo momento, suspeito, n\u00e3o sei por qu\u00ea, que minto descaradamente.<\/p>\n<p>\u2011 Mas, nesse caso, por que escreveu tudo isto? \u2011 pergun\u00adtareis certamente.<\/p>\n<p>Que ter\u00edeis dito se eu vos tivesse encerrado durante quarenta anos, sem fazer nada, e se, decorrido esse tempo, eu fosse visi\u00adtar\u2011vos no vosso subsolo para verificar no que vos t\u00ednheis tornado?<\/p>\n<p>Bem que eu gostaria de vos ver l\u00e1! Pode\u2011se deixar durante quarenta anos um homem s\u00f3 e sem ocupa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u201cMas n\u00e3o \u00e9 vergonhoso, n\u00e3o \u00e9 humilhante!\u201d \u2011 me direis talvez, meneando a cabe\u00e7a, com desprezo, \u2011 \u201cVoc\u00ea tem sede de vida, mas quer resolver as quest\u00f5es vitais por meio de mal\u00ad\u2011entendidos l\u00f3gicos. E que obstina\u00e7\u00e3o! Que impud\u00eancia com isso!<\/p>\n<p>Mas tem medo, apesar de tudo. Voc\u00ea diz in\u00e9pcias, mas sente\u2011se feliz com elas. Diz insol\u00eancias, mas tem medo e se desculpa. Declara que n\u00e3o receia ningu\u00e9m, mas busca as nossas boas gra\u00e7as. Voc\u00ea nos assegura que range os dentes, mas graceja ao mesmo tem\u00adpo, para nos fazer rir. Sabe que as suas senten\u00e7as n\u00e3o valem nada, mas parece muito satisfeito com a sua literatura. \u00c9 poss\u00edvel que voc\u00ea tenha sofrido, mas n\u00e3o tem nenhum respeito pelo. seu sofri\u00admento. H\u00e1 certa verdade em suas palavras, mas falta\u2011lhes pudor. Sob a a\u00e7\u00e3o da vaidade mais mesquinha, voc\u00ea traz a sua verdade t para a pra\u00e7a p\u00fablica, exp\u00f5e\u2011na no mercado, para alvo de chacota. Voc\u00ea tem alguma coisa a dizer, mas o temor faz\u2011lhe escamotear a \u00faltima palavra, pois \u00e9 insolente, mas n\u00e3o audaz. Gaba a sua consci\u00eancia, mas n\u00e3o \u00e9 capaz sen\u00e3o de hesita\u00e7\u00e3o, porque embora sua intelig\u00eancia trabalhe, seu cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 emporcalhado pela libertinagem; ora, se o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 puro, a consci\u00eancia n\u00e3o pode ser clarividente, nem completa. E como voc\u00ea \u00e9 importuno, como \u00e9 molesto! Que palha\u00e7ada, a sua! Mentira tudo isso! Mentira! Mentira!\u201d<\/p>\n<p>Todas estas palavras, fui eu quem mas \u201c, evidentemente. Elas tamb\u00e9m prov\u00eam do subsolo. Durante quarenta anos, prestei aten\u00e7\u00e3o por uma pequena fenda a esses discursos. Eu pr\u00f3prio os compus, pois n\u00e3o tinha outra coisa a fazer. Por isso foi\u2011me f\u00e1cil decor\u00e1\u2011los e imprimir\u2011lhes; uma forma liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Mas, pudestes crer, verdadeiramente, que eu ia imprimir tudo isto e vo\u2011lo dar para ler? E eis ainda o que n\u00e3o compreendo: por que me dirijo a v\u00f3s, chamando\u2011vos de \u201csenhores\u201d, como se f\u00f3sseis leitores meus? N\u00e3o se publicam, n\u00e3o se d\u00e3o a ler a nin\u00adgu\u00e9m as confid\u00eancias que eu me preparo para fazer aqui. EU, em todo o caso, n\u00e3o sou suficientemente forte para agir assim, e, de resto, n\u00e3o vejo a necessidade disso. Mas, vede, veio\u2011me alma fantasia, e quero realiz\u00e1\u2011la custe o que custar. Eis do que se trata:<\/p>\n<p>Entre as lembran\u00e7as que cada um de n\u00f3s possui, h\u00e1 algumas que n\u00e3o contamos sen\u00e3o aos nonos amigos. H\u00e1 outras ainda que n\u00e3o confessaremos nem mesmo aos nossos amigos, que n\u00e3o repe\u00adtiremos sen\u00e3o a n\u00f3s mesmos, e ali\u00e1s, sob o signo do segredo. Mas existem enfim coisas que o homem n\u00e3o consente nem em confessar a si mesmo. No curso de sua exist\u00eancia, todo homem honesto acumulou dessas lembran\u00e7as suficientemente. Direi mesmo que seu n\u00famero \u00e9 tanto mais importante, quanto o homem \u00e9 mais honesto. Eu, em toda o caso, n\u00e3o faz muito tempo que me decidi a me lem\u00adbrar de certas antigas aventuras minhas; at\u00e9 aqui, evitei\u2011as, e n\u00e3o sem um tanto de inquieta\u00e7\u00e3o. Ora, agora, quando as evoco e quero mesmo anot\u00e1\u2011las, agora tenho a prova: \u00e9 poss\u00edvel ser franco e sincero, ao menos cara a cara consigo mesmo, e poder\u2011se\u2011\u00e1 dizer toda a verdade? Observarei a este prop\u00f3sito que Heine assegura que n\u00e3o podem existir autobiografias exatas, e que o homem mente sempre, quando fala de si mesmo.. Rousseau, com seu ponto de vista, certamente nos enganou nas sua Confiss\u00f5es e mesmo delibe\u00adradamente, por vaidade. Estou certo de que Heine tem raz\u00e3o: compreendo muito bem que nos possamos sobrecarregar de crimes abomin\u00e1veis, apenas por vaidade, e compreendo tamb\u00e9m o que pode ser esse sentimento. Mas Heine tinha em vista as confiss\u00f5es p\u00fa\u00adblicas; ora, eu n\u00e3o escrevo sen\u00e3o para mim sozinho e declaro de lima Vez por todas que, se pare\u00e7o dirigir\u2011me ao leitor, \u00e9 simples\u00admente iam processo de que me sirvo para maior facilidade. N\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o uma forma, uma forma vazia; e quanto aos leitores, n\u00e3o. os terei jamais. j\u00e1 o declarei.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero ser incomodado em nada na reda\u00e7\u00e3o das minhas notas. N\u00e3o observarei nenhuma ordem, nenhum sistema. Escre\u00adverei simplesmente o que me lembrar.<\/p>\n<p>Mas v\u00f3s poder\u00edeis me pegar na palavra desde o come\u00e7o e me perguntar: se \u00e9 verdade que n\u00e3o pensa em seus leitores, por que ent\u00e3o combina consigo mesmo \u2011 e no papel \u2011 ainda! \u2011 que n\u00e3o observar\u00e1 nenhuma ordem, nenhum sistema, que registrar\u00e1 o que lhe passar pela cabe\u00e7a, etc.? Por que se explica? Por que essas desculpas ?<\/p>\n<p>Pois bem! eis a\u00ed! \u00e9 assim!<\/p>\n<p>H\u00e1, de resto, a\u00ed, um caso psicol\u00f3gico interessante. \u00c9 poss\u00edvel que eu seja muito simplesmente um covarde. Mas \u00e9 poss\u00edvel tamb\u00e9m que imagine diante de mim um p\u00fablico, a fim de n\u00e3o perder o sentido das \u2011conveni\u00eancias. \u00c9 poss\u00edvel ter milhares desses motivos\u2026<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 ainda outra coisa: por que, em suma, pus\u2011me a escre\u00adver?\u2019 Se n\u00e3o \u00e9 para o p\u00fablico, n\u00e3o posso evocar minhas lem\u00adbran\u00e7as sem as lan\u00e7ar ao papel?<\/p>\n<p>Com efeito, mas quando estiverem fixadas no papel, adqui\u00adrir\u00e3o um aspecto mais solene. Isto me constranger\u00e1, julgar\u2011me\u2011ei melhor e meu estilo ganhar\u00e1. Demais, \u00e9 poss\u00edvel que isto me traga certo consolo. Assim, hoje, estou particularmente oprimi\u00addo por uma lembran\u00e7a long\u00ednqua; surgiu em mim muito nitida\u00admente h\u00e1 alguns dias, e, desde ent\u00e3o, me persegue sem tr\u00e9guas, como um desses motivos musicais que n\u00e3o pretendem vos largar. Ora, \u00e9 preciso absolutamente que eu me desembarace dela. Tenho centenas de recorda\u00e7\u00f5es desse g\u00eanero; mas uma delas \u00e0s vezes des\u00adperta de s\u00fabito e me agarra pela garganta. Eu imagino, n\u00e3o sei mesmo por qu\u00ea, que se a registrar, ficarei livre. Por que n\u00e3o tentaria?<\/p>\n<p>E depois, enfim, eu me aborre\u00e7o e nunca fa\u00e7o nada. Escrever as lembran\u00e7as \u00e9 um trabalho. Diz\u2011se que o trabalho torna o ho\u00admem bom e honesto. \u00c9 ent\u00e3o uma oportunidade que se me ofe\u00adrece\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu sou\u00a0um homem doente\u2026 Sou um ho\u00admem malvado. Sou um homem desa\u00adgrad\u00e1vel. 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