{"id":647,"date":"2018-07-09T03:02:55","date_gmt":"2018-07-09T03:02:55","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=647"},"modified":"2018-07-09T03:12:00","modified_gmt":"2018-07-09T03:12:00","slug":"silencio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/silencio","title":{"rendered":"Sil\u00eancio"},"content":{"rendered":"<p>Escuta \u2013 disse o dem\u00f4nio, pousando a m\u00e3o sobre a minha cabe\u00e7a. \u2013 O pa\u00eds de que te falo \u00e9 um pa\u00eds l\u00fagubre, na L\u00edbia, \u00e0s margens do rio Zaire. E ali n\u00e3o h\u00e1 repouso nem sil\u00eancio. As \u00e1guas do rio, amarelas e insalubres, n\u00e3o correm para o mar, mas palpitam sempre sob o olhar ardente do Sol, com um movimento convulsivo. De cada lado do rio, sobre as margens lodosas, estende-se ao longe um deserto sombrio de gigantescos nen\u00fafares, que suspiram na solid\u00e3o, erguendo para o c\u00e9u os longos pesco\u00e7os espectrais e meneando tristemente as cabe\u00e7as sempiternas. E do meio deles sai um sussurro confuso, semelhante ao murm\u00fario de uma torrente subterr\u00e2nea. E os nen\u00fafares, voltados uns para os outros, suspiram na solid\u00e3o.<\/p>\n<p>E o seu imp\u00e9rio tem por limite uma floresta alta, cerrada, medonha! L\u00e1, \u2013 como as vagas em torno das H\u00edbridas, pequenos arbustos agitam-se sem repouso, contudo n\u00e3o h\u00e1 vento no c\u00e9u! \u2013 e as grandes \u00e1rvores primitivas oscilam continuamente, com um estr\u00e9pito enorme. E dos seus cumes elevados filtra, gota a gota, um orvalho eterno. A seus p\u00e9s contorcem-se num sono agitado, flores desconhecidas \u2013 venenosas. E por cima das suas cabe\u00e7as, com um ruge-ruge retumbante, precipitam-se as nuvens negras a caminho do ocidente, at\u00e9 rolarem as cataratas para tr\u00e1s da muralha abrasada do horizonte. E nas margens do rio Zaire h\u00e1 repouso nem sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Era noite e a chuva ca\u00eda enquanto ca\u00eda, era \u00e1gua mas quando chegava ao ch\u00e3o era sangue! E eu estava na plan\u00edcie lodosa, por entre os nen\u00fafares, vendo a chuva que ca\u00eda sobre mim. E os nen\u00fafares voltados uns para os outros suspira na solenidade da sua desola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De repente apareceu a lua atrav\u00e9s do nevoeiro f\u00fanebre vinha toda carmesim! e o meu olhar caiu sobre um rochedo enorme, sombrio, que se erguia a borda do Zaire, refletindo a claridade da lua; era um rochedo sombrio sinistro de uma altura descomunal!<\/p>\n<p>Sobre o seu cume estavam gravadas algumas letras. Caminhei atrav\u00e9s dos p\u00e2ntanos de nen\u00fafares, at\u00e9 a margem para ler as letras gravadas na pedra; mas n\u00e3o pude decifr\u00e1-las. Ia voltar quando a lua brilhou mais viva e mais vermelha; olhando outra vez para o rochedo distingui s\u00f3 caracteres. E esses caracteres diziam: desola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Levantei os olhos; na crista do rochedo estava um homem de figura majestosa. Pendia-lhe dos ombros a antiga toga romana, cobrindo-se at\u00e9 aos p\u00e9s. Os contornos da sua pessoa n\u00e3o se distinguiam, mas as fei\u00e7\u00f5es eram as da divindade porque brilhavam atrav\u00e9s da escurid\u00e3o da noite a do nevoeiro. Tinha a fronte alta e pensativa, os olhos profundos e melanc\u00f3licos. Nas rugas do semblante, liam-se as legendas da desgra\u00e7a e da fadiga o aborrecimento da humanidade e o amor da solid\u00e3o. Escondi-me no meio dos nen\u00fafares para ver o que aquele homem fazia ali.<\/p>\n<p>E o homem assentou-se no rochedo, deixou pender a cabe\u00e7a sobre a m\u00e3o e espraiou a vista pela soledade, contemplou os arbustos buli\u00e7osos e as grandes \u00e1rvores primitivas; depois, ergueu os olhos para a c\u00e9u a para a lua carmesim. Eu observava as a\u00e7\u00f5es do homem escondido no meio dos nen\u00fafares e o homem tremia na solid\u00e3o. Todavia a noite avan\u00e7ava e ele continuava assentado sobre o rochedo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o homem desviou os olhos do c\u00e9u para o rio l\u00fagubre para as \u00e1guas amarelas do Zaire, e para as legi\u00f5es sinistras dos nen\u00fafares; escutou-lhes os suspiros melanc\u00f3licos e as oscila\u00e7\u00f5es murmurantes E eu o espreitava sempre, do meu esconderijo e o homem tremia na solid\u00e3o. Todavia a noite avan\u00e7ava e ele continuava assentado sobre o rochedo.<\/p>\n<p>Embrenhei-me na profundezas long\u00ednquas do p\u00e2ntano, caminhei sobre e as flores dos nen\u00fafares e chamei os hipop\u00f3tamos que habitavam a espessura do bosque. E os hipop\u00f3tamos ouviram o meu chamado e vieram os Behemothes at\u00e9 o p\u00e9 do rochedo e soltaram um rugido medonho. E eu, escondido por entre os nen\u00fafares, espreitava os movimentos do homem e o homem tremia na solid\u00e3o. Todavia a noite avan\u00e7ava e ele continuava assentado sobre o rochedo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o invoquei os elementos e uma tempestade horrorosa rosa sobreveio. E o c\u00e9u tornou-se l\u00edvido pela viol\u00eancia da tempestade e a chuva ca\u00eda em torrente sobre a cabe\u00e7a do homem e as ondas do rio transbordavam e o rio espumava enfurecido e os nen\u00fafares suspiravam com mais for\u00e7a, e a floresta debatia-se com o vento, e o trov\u00e3o ribombava e os raios flamejavam, e o rochedo estremecia.<\/p>\n<p>Irritei-me e amaldi\u00e7oei a tempestade, o rio e os nen\u00fafares, o vento e as floresta, o c\u00e9u e o trov\u00e3o. E na minha maldi\u00e7\u00e3o os elementos emudeceram e a lua parou na sua carreira, e o trov\u00e3o expirou e o raio deixou de faiscar, e as nuvens ficaram im\u00f3veis e as \u00e1guas tornaram n repousar no seu imenso leito, e as \u00e1rvores cessaram de se agitar, e os nen\u00fafares n\u00e3o suspiraram mais e na floresta n\u00e3o se tornou a ouvir o m\u00ednimo murm\u00fario, nem a sombra de um som no vasto deserto sem limites. Olhei para os caracteres escritos no rochedo e os caracteres diziam agora: Sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Volvi outra vez os olhos para o homem, e o seu rosto estava p\u00e1lido de terror. De repente, levantou a cabe\u00e7a, ergueu-se sobre o rochedo e p\u00f4s o ouvido \u00e0 escuta. Mas n\u00e3o se ouviu nem uma voz no deserto ilimitado. E os caracteres gravados no rochedo diziam sempre: Sil\u00eancio. E o homem estremeceu e fugiu e para t\u00e3o longe fugiu que jamais o tornei a ver.<\/p>\n<p>Ora, os livros dos magos, os melanc\u00f3licos livros dos magos encerram belos contos, espl\u00eandidas hist\u00f3rias do c\u00e9u, da terra e do mar poderosos; dos g\u00eanios que t\u00eam reinado sobre a terra, sobre o mar e sobre o c\u00e9u sublime. H\u00e1 muita ci\u00eancia na palavra das Sibilas. E das florestas sombrias de Dodona sa\u00edam outrora or\u00e1culos profundos.<\/p>\n<p>Mas jamais se ouviu uma hist\u00f3ria t\u00e3o espantosa como esta! Foi o dem\u00f4nio que ma contou, assentado ao um lado, na solid\u00e3o do t\u00famulo. Quando acabou de falar, desatou a rir e como n\u00e3o pudesse rir com ele, amaldi\u00e7oou-me. Ent\u00e3o o lince, que vive eternamente no t\u00famulo, saiu do seu esconderijo e veio deitar-se aos p\u00e9s do dem\u00f4nio, olhando-o fixamente nas pupilas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escuta \u2013 disse o dem\u00f4nio, pousando a m\u00e3o sobre a minha cabe\u00e7a. \u2013 O pa\u00eds de que te falo \u00e9 um pa\u00eds l\u00fagubre, na L\u00edbia, \u00e0s margens do rio Zaire. 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