{"id":650,"date":"2018-07-09T03:07:49","date_gmt":"2018-07-09T03:07:49","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=650"},"modified":"2018-07-09T03:12:00","modified_gmt":"2018-07-09T03:12:00","slug":"a-queda-da-casa-de-usher","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/a-queda-da-casa-de-usher","title":{"rendered":"A Queda da Casa de Usher"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">Durante todo aquele triste, escuro e silencioso dia outonal, com o c\u00e9u encoberto por nuvens baixas e opressivas, estive percorrendo sozinho, a cavalo, uma regi\u00e3o rural singularmente deserta, at\u00e9 que enfim avistei, com as primeiras sombras da noite , a melanc\u00f3lica Casa de Usher. N\u00e3o sei por qu\u00ea, mas, assim que entrevi a constru\u00e7\u00e3o, um sentimento de intoler\u00e1vel tristeza apoderou-se de meu esp\u00edrito. Digo intoler\u00e1vel porque essa impress\u00e3o n\u00e3o era suavizada por qualquer sensa\u00e7\u00e3o meio prazenteira, porque po\u00e9tica, com que a mente geralmente recebe at\u00e9 mesmo as mais sombrias imagens naturais de desola\u00e7\u00e3o e de terror.<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">Observei a paisagem \u00e0 minha frente: a casa simples e a simplicidade do aspecto da propriedade, as paredes frias, as janelas semelhando \u00f3rbitas vazias, os poucos canteiros com ervas daninhas e alguns troncos esbranqui\u00e7ados de \u00e1rvores apodrecidas ? e senti na alma uma depress\u00e3o profunda que n\u00e3o posso comparar a nenhuma sensa\u00e7\u00e3o terrena sen\u00e3o ao que experimenta, ao despertar, o viciado em \u00f3pio: o amargo retorno \u00e0 vida cotidiana, o terr\u00edvel descair de um v\u00e9u. Havia um frio, uma prostra\u00e7\u00e3o, uma sensa\u00e7\u00e3o de repugn\u00e2ncia, uma irrecuper\u00e1vel afli\u00e7\u00e3o de pensamento que nenhum excitamento da imagina\u00e7\u00e3o conseguiria for\u00e7ar a transformar-se em algo sublime. Que era, parei para pensar, que era que tanto em perturbava ao contemplar a Casa de Usher? Era um mist\u00e9rio completamente insol\u00favel, e eu n\u00e3o conseguia controlar as sombrias imagens que me enchiam a cabe\u00e7a enquanto refletia isso. Fui for\u00e7ado a socorrer-me da conclus\u00e3o nada satisfat\u00f3ria de que existem, sem d\u00favida, combina\u00e7\u00f5es de objetos naturais muito simples, que t\u00eam o poder de nos afetar assim, embora a an\u00e1lise desse poder se situe em considera\u00e7\u00f5es al\u00e9m de nossa perspic\u00e1cia. Era poss\u00edvel, pensei, que um mero arranjo diferente nos pormenores da cena, dos detalhes do quadro, bastasse para modificar, ou talvez, parar suprimir sua capacidade de provocar impress\u00f5es aflitivas. Com essa ideia na cabe\u00e7a, guiei o cavalo at\u00e9 a margem \u00edngreme de um fosso negro e sinistro cujas \u00e1guas paradas refulgiam junto a casa e contemplei, com um arrepio ainda mais forte do que antes, a imagem invertida e modificada dos arbusto cinzentos, dos l\u00edvidos troncos de \u00e1rvores e das janelas semelhantes a \u00f3rbitas vazias.<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">Apesar disso, era nessa desolada mans\u00e3o que eu tencionava passar algumas semanas. O propriet\u00e1rio, Roderick Usher, havia sido um de meus joviais amigos de inf\u00e2ncia, mas muitos anos tinham se passado desde o nosso \u00faltimo encontro. Uma carta, no entanto, que me chegara recentemente numa parte distante do pa\u00eds ? uma carta dele ? exigia pela insist\u00eancia de seu teor resposta pessoal. A caligrafia revela agita\u00e7\u00e3o nervosa. O remetente falava de aguda doen\u00e7a f\u00edsica, de opressiva perturba\u00e7\u00e3o mental e do intenso desejo de me ver, como seu melhor e na verdade \u00fanico amigo pessoal, com a inten\u00e7\u00e3o de lograr, pela alegria de minha companhia, alguma al\u00edvio para sua doen\u00e7a. A maneira pela qual tudo isso e muito mais coisas foram ditas e o manifesto estado de esp\u00edrito expresso no pedido impediram-me qualquer hesita\u00e7\u00e3o e por esse motivo obedeci na mesma hora ao que ainda considerava como um convite muito estranho.<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">\n<p>Apesar de, quando crian\u00e7as, termos sido companheiros \u00edntimos, eu na verdade conhecia pouco meu amigo. Sua reserva sempre tinha sido excessiva e habitual. Eu sabia, no entanto, que sua fam\u00edlia, muito antiga, distinguia-se havia muito tempo pela peculiar sensibilidade de temperamento, demonstrada ao longo de muitos s\u00e9culos em not\u00e1veis obras de arte e que ultimamente se manifestava em repetidos atos de generosa e discreta caridade e tamb\u00e9m na apaixonada devo\u00e7\u00e3o pela complexidade da ci\u00eancia musical, talvez ainda mais do que por suas belezas naturais e f\u00e1ceis de reconhecer. Fiquei sabendo tamb\u00e9m de um fato incr\u00edvel: o tronco da linhagem dos Usher, embora t\u00e3o antiga, nunca tinha produzido qualquer ramo duradouro. Em outras palavras, a fam\u00edlia se perpetuara apenas em linha direta e assim continuava, com varia\u00e7\u00f5es bem poucos importantes e tempor\u00e1rias. Era essa defici\u00eancia, pensava eu, enquanto repassava em pensamento a perfeita harmonia entre o aspecto da propriedade e o car\u00e1ter de seus moradores, imaginando a poss\u00edvel influ\u00eancia que aquela podia ter exercido, ao longo dos s\u00e9culos, sobre estes ? era essa defici\u00eancia, talvez, de um ramo colateral e a conseq\u00fcente transmiss\u00e3o direta, de pai para filho, do patrim\u00f4nio e do nome da fam\u00edlia que haviam ao longo dos tempos identificado ambas de tal modo que fundiram o t\u00edtulo original da propriedade na estranha e equ\u00edvoca designa\u00e7\u00e3o de Casa de Usher ? designa\u00e7\u00e3o que, na mente dos camponeses que a utilizavam, parecia servir tanto para a fam\u00edlia quanto para a mans\u00e3o da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Eu disse que o \u00fanico efeito da minha experi\u00eancia um tanto infantil de olhar para o fosso havia sido aprofundar aquela primeira impress\u00e3o. Sem d\u00favida, quando tomei consci\u00eancia do r\u00e1pido aumento de minha supersti\u00e7\u00e3o (por que n\u00e3o usar esse termo?), isso serviu principalmente para intensificar o pr\u00f3prio aumento. Tal \u00e9, sei disso h\u00e1 muito tempo, a lei paradoxal de todos os sentimentos fundados no terror. E pode ter sido por essa \u00fanica raz\u00e3o que, ao levantar os olhos de sua imagem no fosso para a pr\u00f3pria mans\u00e3o, surgiu-me na mente uma estranha vis\u00e3o ? t\u00e3o estranha, de fato, que s\u00f3 a menciono para mostrar a intensa for\u00e7a das sensa\u00e7\u00f5es que me sufocavam. Minha imagina\u00e7\u00e3o mostrava-se t\u00e3o excitada que realmente acreditei que em volta da mans\u00e3o e da propriedade pairava uma atmosfera especial, pr\u00f3pria do lugar e de seus arredores, atmosfera que n\u00e3o se relacionava como o ar do c\u00e9u, emanando antes das \u00e1rvores apodrecidas, das paredes cinzentas, do fosso silencioso ? um vapor m\u00edstico e pestilento, espesso, entorpecido, sutil e l\u00edvido.<\/p>\n<p>Afastando do esp\u00edrito o que devia ser um sonho, examinei mais atentamente o aspecto real do edif\u00edcio. Sua caracter\u00edstica principal parecia ser a extrema antig\u00fcidade. Fora grande a descolora\u00e7\u00e3o causada pelos s\u00e9culos. Min\u00fasculos fungos cobriam todo o exterior, pendendo dos beirais qual fina e emaranhada teia. Mas nada disso indicava grande destrui\u00e7\u00e3o. Nenhum bloco de alvenaria tinha desmoronado, mas parecia haver um profundo contraste entre o encaixe ainda perfeito das partes e as p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de cada pedra. Isso me lembrou muito a enganosa integridade de antigas pe\u00e7as de madeira que apodreceram por longos anos em algum por\u00e3o esquecido, sem serem perturbadas pelo sopro do ar exterior. Afora esse ind\u00edcio de grande decad\u00eancia, por\u00e9m, a constru\u00e7\u00e3o n\u00e3o mostrava nenhum sinal de falta de seguran\u00e7a. Talvez o olho de um observador mais atento conseguisse descobrir uma fenda quase impercept\u00edvel que riscava a frente do edif\u00edcio desde o telhado, descendo em ziguezague pela parede at\u00e9 mergulhar nas \u00e1guas turvas do fosso.<\/p>\n<p>Observando tudo isso, atravessei a cavalo o curto carreiro que levava at\u00e9 a casa. Um cavalari\u00e7o levou minha montaria, e avancei pelo arco g\u00f3tico do vest\u00edbulo. Um criado de andar furtivo conduziu-me ent\u00e3o, calado, por muitas passagens escuras e tortuosas, at\u00e9 o gabinete de seu patr\u00e3o. Muitas das coisas que vi pelo caminho contribu\u00edam, n\u00e3o sei como, para fortalecer os imprecisos sentimentos de j\u00e1 falei. Os objetos \u00e0 minha volta ? os entalhes do forro, as sombrias tape\u00e7arias das paredes, o negrume de \u00e9bano do assoalho e as fantasmag\u00f3ricas armaduras que retiniam quando eu passava ? eram coisas com que eu estava, ou devia estar, familiarizado desde a inf\u00e2ncia, mas, embora n\u00e3o hesitasse em reconhec\u00ea-las como tais, ainda me espantava ao perceber como eram estranhas as vis\u00f5es que essas imagens t\u00e3o comuns produziam em mim. Numa das escadas, cruzei com o m\u00e9dico da fam\u00edlia. Julguei ver em sua fisionomia uma express\u00e3o desanimada e perplexa. Cumprimentou-me agitado e afastou-se. O criado ent\u00e3o abriu uma porta e me levou at\u00e9 a presen\u00e7a de seu patr\u00e3o.<\/p>\n<p>Achei-me numa sala muito ampla e alta. As janelas, compridas, estreitas e pontudas, tinham peitoris t\u00e3o afastados do assoalho de carvalho negro que era imposs\u00edvel alcan\u00e7a-los. Fracos raios de luz avermelhada penetravam pelas vidra\u00e7as guarnecidas com r\u00f3tulas, s\u00f3 conseguindo tornar vis\u00edveis os objetos pr\u00f3ximos mais volumosos. O Olhar, por\u00e9m, lutava em v\u00e3o para perceber os cantos mais distantes da sala ou os recessos do forro em ab\u00f3bada guarnecido com entalhes. Sombrias cortinas pendiam das paredes. O mobili\u00e1rio era excessivo, desconfort\u00e1vel, antigo e gasto. Os muitos livros e instrumentos musicais que jaziam dispersos n\u00e3o conseguiam dar vitalidade alguma ao ambiente. Senti que respirava uma atmosfera de tristeza. Uma ar de severo, profundo e irrecuper\u00e1vel desalento pairava sobre as coisas e impregnava a tudo.<\/p>\n<p>Assim que entrei, Usher levantou-se do sof\u00e1 onde estava deitado ao comprido e cumprimentou-me com calorosa vivacidade, na qual havia muito, de inicio julguei, de cordialidade for\u00e7ada, do esfor\u00e7o constrangido de um homem de sociedade entediado. Mas, olhando seu rosto, convenci-me de sua perfeita sinceridade. Sentamos e, por alguns momentos, como ele n\u00e3o falava nada, fiquei olhando-o com um sentimento misto de piedade e espanto. Com toda a certeza, nenhum homem jamais se transformara t\u00e3o terrivelmente, em per\u00edodo t\u00e3o curto, quanto Roderick Usher! S\u00f3 com muita dificuldade consegui admitir que o homem doentio diante de mim era o mesmo companheiro de inf\u00e2ncia. No entanto, suas fei\u00e7\u00f5es sempre tinham sido not\u00e1veis: tez cadav\u00e9rica; olhos grandes, l\u00edquidos e luminosos, sem compara\u00e7\u00e3o; l\u00e1bios um tanto finos e muito p\u00e1lidos, mas de conforma\u00e7\u00e3o extremamente bela; o nariz, com delicado desenho hebraico, mas exibindo narinas largas, incomuns nesse tipo; o queixo finamente delineado, revelando, pela aus\u00eancia de volume, car\u00eancia de energia moral; cabelos mais finos e macios que os fios de uma teia. Todos esses tra\u00e7os e mais o extraordin\u00e1rio desenvolvimento da fronte combinavam-se num aspecto dif\u00edcil de esquecer. E agora, com o mero exagero desses tra\u00e7os e da express\u00e3o que costumavam mostrar, havia tal mudan\u00e7a que cheguei a duvidar de que era com ele que falava. A cadav\u00e9rica palidez da pele e o brilho agora sobrenatural dos olhos, acima de tudo, surpreendiam-me e at\u00e9 me aterravam. O cabelo sedoso tamb\u00e9m tinha crescido descuidadamente e como, por causa da textura muito fina, flutuasse em vez de cair nos lados do rosto, eu n\u00e3o conseguia, mesmo com esfor\u00e7o, vincular sua express\u00e3o fant\u00e1stica com qualquer ideia de simples humanidade.<\/p>\n<p>Fiquei abalado ao perceber logo certa incoer\u00eancia nas maneiras de meu amigo, certa inconsist\u00eancia, e logo descobri que isso se devia a um s\u00e9rie de fracos e in\u00fateis esfor\u00e7os para dominar tremor freq\u00fcente, uma excessiva agita\u00e7\u00e3o nervosa. Eu estava preparado para encontrar algo assim, n\u00e3o s\u00f3 por sua carta, mas tamb\u00e9m pela lembran\u00e7a de certos tra\u00e7os juvenis e pelas conclus\u00f5es deduzidas de seu estado f\u00edsico e de seu temperamento. Suas atitudes alternavam da vivacidade ao des\u00e2nimo. A voz variava, rapidamente, passando da tr\u00eamula indecis\u00e3o (quando seu ardor parecia tornar-se profundamente entorpecido) para o tipo de energ\u00e9tica concis\u00e3o, para a abrupta, pesada, lenta e oca articula\u00e7\u00e3o, para a fala arrastada, controlada, gutural e perfeitamente modulada que se pode observar nos b\u00eabados costumazes e nos fumadores de \u00f3pio irrecuper\u00e1veis, durante os per\u00edodos mais intensos de excita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi assim que ele se referiu ao objetivo de minha visita, de seu grande desejo de me ver e do al\u00edvio que esperava encontrar em minha companhia. Depois, falou por algum tempo do que achava da natureza de sua doen\u00e7a. Segundo ele, era um mal de fam\u00edlia e de nascen\u00e7a, para o qual j\u00e1 tinha perdido a esperan\u00e7a de encontrar rem\u00e9dio; mera perturba\u00e7\u00e3o nervosa, disse logo em seguida, que sem d\u00favida ia passar logo. A doen\u00e7a se manifestava numa s\u00e9rie de sensa\u00e7\u00f5es antinaturais. Algumas, enquanto as ia descrevendo, me deixaram interessado e confuso, apesar talvez de que tenham influ\u00eddo os termos usados e a forma geral da descri\u00e7\u00e3o. Ele sofria, e muito, de doentia exagera\u00e7\u00e3o dos sentidos: s\u00f3 tolerava o mais \u00ednspido alimento; n\u00e3o podia usar sen\u00e3o roupas de determinadas texturas; os perfumes de todas as flores pareciam-lhe sufocantes; at\u00e9 a luz mais suave lhe torturava os olhos e s\u00f3 os sons especiais dos instrumentos de cordas n\u00e3o lhe provocavam horror.<\/p>\n<p>Compreendi que ele estava escravizado por uma esp\u00e9cie anormal de terror.<\/p>\n<p>\u2013 Vou morrer ? disse ele. ? Devo morrer nesta loucura lament\u00e1vel. Assim, assim e de nenhuma outra forma \u00e9 que vou me perder. Abomino os fatos do futuro, n\u00e3o em si mesmos, mas por seus resultados. Estreme\u00e7o diante da id\u00e9ia de qualquer incidente, at\u00e9 mesmo o mais trivial, que possa afetar essa intoler\u00e1vel agita\u00e7\u00e3o da alma. N\u00e3o tenho, na verdade, avers\u00e3o pelo perigo, a n\u00e3o ser em seu efeito absoluto: o terror. Neste deplor\u00e1vel estado de abatimento sinto que mais cedo ou mais tarde chegar\u00e1 um momento em que vou ter de abandonar ao mesmo tempo a vida e a raz\u00e3o, na luta com o fantasma sinistro do MEDO.<\/p>\n<p>Descobri tamb\u00e9m, aos poucos e atrav\u00e9s de pistas equ\u00edvocas fragmentadas, outro tra\u00e7o singular de seu estado mental. Ele estava acorrentado a certas impress\u00f5es supersticiosas quanto \u00e0 casa em que morava e da qual, por longos anos, n\u00e3o se aventurava a sair\u2026 a uma influ\u00eancia, cuja suposta for\u00e7a foi narrada em termos vagos demais para reproduzir aqui\u2026 influ\u00eancia que alguns detalhes da mat\u00e9ria e da forma da mans\u00e3o familiar tinham, \u00e0s custas de longo sofrimento, conseguindo exercer sobre seu esp\u00edrito\u2026 efeito f\u00edsico que as paredes e torres cinzentas e o sombrio fosso onde elas refletiam tinham acabado por exercer sobre o moral de sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Ele admitia, por\u00e9m, embora com hesita\u00e7\u00e3o, que grande parte do desalento que sofria talvez tivesse origem mais natural e bem mais palp\u00e1vel: na s\u00e9ria e prolongada doen\u00e7a (na verdade, na morte evidentemente pr\u00f3xima) de uma irm\u00e3 adorada, sua \u00fanica companheira por longos anos, sua \u00fanica e \u00faltima parenta nesta terra.<\/p>\n<p>\u2013 A morte dela ? disse ele, com amargura que nunca esquecerei ? tornar\u00e1 (a ele, fraco e sem esperan\u00e7as) o \u00faltimo representante da antiga ra\u00e7a dos Usher.<\/p>\n<p>Enquanto falava, Lady Madeline (pois era assim que se chamava) passou pela parte mais distante do aposento e, sem notar minha presen\u00e7a, desapareceu. Olhei-a com profunda surpresa e uma ponta de medo ? e, no entanto, n\u00e3o encontrava explica\u00e7\u00e3o para esses sentimentos. Uma sensa\u00e7\u00e3o de estupor me sufocava, enquanto seguia com os olhos seus passos. Quando uma porta, afinal, se fechou atr\u00e1s dela, meu olhar procurou instintiva e ansiosamente o irm\u00e3o, mas este escondera o rosto nas m\u00e3os, e s\u00f3 pude perceber que uma palidez maior que a normal tinha tomado conta dos dedos magros, pelos quais escorriam muitas l\u00e1grimas emocionadas.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a de Lady Madeline vinha desafiando, por muito tempo, a habilidade dos m\u00e9dicos. Apatia permanente, progressivo enfraquecimento f\u00edsico e crises freq\u00fcentes, mas passageiras, car\u00e1ter parcialmente catal\u00e9ptico eram o diagn\u00f3stico incomum. At\u00e9 ent\u00e3o ela tinha resistido firmemente contra o avan\u00e7o da doen\u00e7a, recusando-se a cair de cama, mas no final da tarde de minha chegada ela sucumbiu (como me contou o irm\u00e3o, \u00e0 noite, com indescrit\u00edvel agita\u00e7\u00e3o) ao poder destruidor do mal. E compreendi que a vis\u00e3o de relance de seu vulto seria provavelmente a \u00faltima e que n\u00e3o veria mais a mo\u00e7a, pelo menos com vida.<\/p>\n<p>No decorrer dos dias seguintes, seu nome n\u00e3o foi mencionado por Usher ou por mim. Durante esse per\u00edodo dediquei-me vivamente a aliviar a melancolia de meu amigo. Pint\u00e1vamos e l\u00edamos juntos; ou eu ouvia, como num sonho, as arrebatadas improvisa\u00e7\u00f5es que ele fazia em sua eloquente guitarra. E assim, \u00e0 medida que aumentava a intimidade que ia me revelando os recessos mais \u00edntimos de seu esp\u00edrito, mais amargamente eu percebia qu\u00e3o in\u00fateis seriam as tentativas de alegrar aquela mente da qual a escurid\u00e3o, como uma qualidade inerente e ativa, vertia sobre todos os objetos do mundo f\u00edsico e moral um incessante radia\u00e7\u00e3o de tristeza.<\/p>\n<p>Ficar\u00e3o para sempre gravadas em minha mem\u00f3ria as muitas horas solenes que passei a s\u00f3s como o chefe da Casa de Usher. Mas nunca conseguiria dar uma ideia do car\u00e1ter exato dos estudos ou das ocupa\u00e7\u00f5es em que ele me envolvia ou me conduzia. Uma idealidade excitada e altamente desequilibrada lan\u00e7ava um brilho sulfuroso sobre todas as coisas. Suas longas cantigas f\u00fanebres soar\u00e3o para sempre em meus ouvidos. Entre outras coisas, lembro-me dolorosamente de certa estranha altera\u00e7\u00e3o e amplifica\u00e7\u00e3o da rom\u00e2ntica melodia da \u00faltima valsa de Von Weber.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s pinturas em que extravasava sua elaborada fantasia e que se metamorfoseavam, pincelada por pincelada, at\u00e9 atingir uma indefini\u00e7\u00e3o que me causava estremecimentos ainda mais emocionantes, pois eu n\u00e3o sabia por que estremecia ? quanto a essas pinturas (t\u00e3o v\u00edvidas que at\u00e9 hoje tenho suas imagens diante dos olhos) em v\u00e3o me esfor\u00e7aria para retirar delas apenas uma pequena parte, pass\u00edvel de ser traduzida por simples palavras escritas. Atrav\u00e9s da extrema simplicidade e crueza do desenho, ele retinha e dominava a aten\u00e7\u00e3o. Se algum mortal jamais pintou uma ideia, esse mortal foi Roderick Usher. Para mim, pelo menos, na situa\u00e7\u00e3o em que ent\u00e3o em encontrava, dessas puras abstra\u00e7\u00f5es que o hipocondr\u00edaco conseguia projetar nas suas telas surgia um terror intenso e intoler\u00e1vel, assombro que nem de longe jamais senti nas fantasias (sem d\u00favida brilhantes) de Fuseli, mas ainda assim concretas demais.<\/p>\n<p>Uma das cria\u00e7\u00f5es fantasmag\u00f3ricas de meu amigo em que esse esp\u00edrito abstrato n\u00e3o era t\u00e3o r\u00edgido pode ser descrita, ainda que pobremente, em palavras. Era um quadro pequeno, representando o interior de uma c\u00e2mara ou t\u00fanel imensamente longo e retangular, com paredes baixas, lisas, brancas e sem qualquer interrup\u00e7\u00e3o ou adornos. Certos detalhes do desenho conseguiam dar muito bem a id\u00e9ia de que essa escava\u00e7\u00e3o ficava a uma extrema profundidade, abaixo da superf\u00edcie da terra. N\u00e3o se via qualquer abertura em toda a sua vasta extens\u00e3o nem se percebiam tochas ou qualquer outra fonte de luz artificial. No entanto, uma torrente de intensos raios jorrava, tudo banhando num esplendor cadav\u00e9rico e antinatural.<\/p>\n<p>Falei h\u00e1 pouco do estado m\u00f3rbido do nervo auditivo, que tornava intoler\u00e1vel qualquer m\u00fasica para esse sofredor, com exce\u00e7\u00e3o de certos efeitos de instrumentos de cordas. Foram, talvez, os estreitos limites a que ele se limitava na guitarra que deram origem, em grande parte, ao car\u00e1ter fant\u00e1stico de suas execu\u00e7\u00f5es. Mas a fervorosa facilidade de seus improvisos era inexplic\u00e1vel. Deviam ser e eram, tanto nas notas quanto nas palavras de suas loucas fantasias (pois ele muitas vezes acompanhava a m\u00fasica com improvisa\u00e7\u00f5es verbais rimadas), resultado da intensa e imperturb\u00e1vel concentra\u00e7\u00e3o mental de que j\u00e1 falei antes, s\u00f3 observ\u00e1veis nos momentos de maior excita\u00e7\u00e3o artificial. Lembro-me facilmente das palavras de uma dessas raps\u00f3dias. Fiquei, talvez, t\u00e3o impressionado quando ele as cantou, porque, na corrente subjacente ou m\u00edstica de seu significado, julguei perceber, pela primeira vez, que Usher tinha plena consci\u00eancia da instabilidade de sua mente altiva sobre seu trono. Os versos, intitulados \u201cO Pal\u00e1cio Assombrado\u201d, eram quase exatamente assim:<\/p>\n<p>I<\/p>\n<p>No mais verde de nosso vales,<br \/>\nPor bons anjos habitado,<br \/>\nOutrora um belo e rico pal\u00e1cio,<br \/>\nRadiante pal\u00e1cio, se erguia.<br \/>\nNos dom\u00ednios do rei Pensamento,<br \/>\nL\u00e1 estava ele!<br \/>\nNunca serafim algum abriu as asas<br \/>\nSobre t\u00e3o bela obra.<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>Bandeiras amarelas, gloriosas, douradas,<br \/>\nEm seus telhados flutuavam, ondulando<br \/>\n(Isso, tudo isso, ocorreu nos velhos tempos<br \/>\nDe antigamente)<br \/>\nE toda suave brisa que brincava,<br \/>\nNaqueles doces dias,<br \/>\nPelos muros p\u00e1lidos e engalanados,<br \/>\nUm sublime perfume desprendia.<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>Quem passava por esse vale feliz<br \/>\nPor duas janelas luminosas via<br \/>\nEsp\u00edritos deslizando, musicais,<br \/>\nAo som de ala\u00fade bem afinado,<br \/>\nEm volta de um tronco, onde sentava-se<br \/>\n(Porfirog\u00eanito (1)!),<br \/>\nNa grandeza de sua gl\u00f3ria muito justa,<br \/>\nO senhor desse reinado.<\/p>\n<p>IV<\/p>\n<p>Pela bela porta do pal\u00e1cio<br \/>\nBrilhante com p\u00e9rolas e rubis,<br \/>\nIa passando, passando, passando,<br \/>\nE sempre mais cintilando,<br \/>\nUma tropa de Ecos cujo doce dever<br \/>\nEra apenas cantar<br \/>\nCom vozes de insuper\u00e1vel beleza,<br \/>\nA viva sabedoria do rei.<\/p>\n<p>V<\/p>\n<p>Mas vultos maus, trajados de luto,<br \/>\nAtacaram o alto reino do monarca;<br \/>\n(Ah, choremos, pois nunca mais<br \/>\nO dia vai nascer para ele, o desolado!)<br \/>\nE, em volta do pal\u00e1cio, a gl\u00f3ria<br \/>\nQue brilhava e florescia<br \/>\nN\u00e3o passa agora de mal lembrada hist\u00f3ria<br \/>\nDos velhos tempos sepultados.<\/p>\n<p>VI<\/p>\n<p>E quem passa agora pelo vale,<br \/>\nPelas janelas rubras v\u00ea<br \/>\nEnormes formas que fant\u00e1sticas se movem,<br \/>\nAo som de melodia discordante;<br \/>\nEnquanto isso, como rio terr\u00edvel,<br \/>\nPela p\u00e1lida porta se precipita<br \/>\nPara sempre uma hedionda multid\u00e3o<br \/>\nQue gargalha, mas n\u00e3o mais sorri.<\/p>\n<p>Lembro-me bem de que as sugest\u00f5es despertadas pela balada nos levaram a uma linha de pensamento em que se tornou manifesta uma opini\u00e3o de Usher, que menciono n\u00e3o tanto por causa de sua novidade (pois outros homens (2) j\u00e1 pensaram desse modo), mas devido \u00e0 insist\u00eancia com que ele a defendia. Essa opini\u00e3o, em termo gerais, afirmava que todos os vegetais t\u00eam sensibilidade. Mas, na imagina\u00e7\u00e3o desordenada de Usher, essa ideia tinha assumido car\u00e1ter ainda mais ousado e chegava, sob certos aspectos, ao reino das coisa inorg\u00e2nicas. N\u00e3o encontro palavras para expressar toda a extens\u00e3o, ou melhor, a sincera espontaneidade de sua convic\u00e7\u00e3o. Tal cren\u00e7a, no entanto, relacionava-se (como j\u00e1 insinuei antes) com as pedras cinzentas da mans\u00e3o e seus antepassados. As condi\u00e7\u00f5es para essa sensibilidade eram realizadas, imaginava ele, no m\u00e9todo de coloca\u00e7\u00e3o das pedras e na ordem com que tinham sido organizadas, assim como na dos muitos fungos que as cobriam e nas \u00e1rvores agonizantes que existiam em volta, mas, acima de tudo, na longa e imperturb\u00e1vel dura\u00e7\u00e3o desse arranjo e na sua duplica\u00e7\u00e3o nas \u00e1guas paradas do fosso. A prova (a prova dessa sensibilidade) podia ser encontrada, dizia ele (e me assustei ao ouvir tal coisa), na lenta mas ineg\u00e1vel condensa\u00e7\u00e3o de uma atmosfera que lhes era pr\u00f3pria em torno das \u00e1guas e das paredes. O resultado podia ser percebido, acrescentou ele, na influ\u00eancia silenciosa, mas perturbadora e terr\u00edvel, que vinha moldando havia s\u00e9culos o destino de sua fam\u00edlia e que fizera dele, como eu podia ver agora, aquilo que ele era. Essas opini\u00f5es dispensam coment\u00e1rio e n\u00e3o farei nenhum.<\/p>\n<p>Nossos livros ? os livros que durante anos constitu\u00edram grande parte da exist\u00eancia mental do doente ? estavam , como se pode supor, em harmonia absoluta com esse car\u00e1ter fantasmag\u00f3rico. Lemos juntos, atentamente, obras como Vert Vert e a ep\u00edstola La Chartreuse, de Gresset; Belphegor, de Maquiavel; C\u00e9u e inferno, de Swendenborg; Viagem subterr\u00e2nea de Nils Klimm, de Holberg; Quiromancia, de Robert Flud, de Jean D`Indagin\u00e9 e de De la Chambre; Jornada \u00e0s dist\u00e2ncias azuis, de Tieck; e Cidade do sol, de Campanella. Um dos volumes preferidos era uma pequena edi\u00e7\u00e3o in-oitavo do Directorium Inquisitorum, do padre dominicano Eymerico de Gerona; e havia passagens de Pomponius Mela (3), sobre os velhos s\u00e1tiros africanos e mitol\u00f3gicos, sobre os quais Usher era capaz de sonhar durante horas. Seu maior prazer, no entanto, era a leitura de um raro e curioso livro em g\u00f3tico in-quarto, o manual de uma igreja esquecida, as Vigiliae Mortuorum secundum Chorum Ecclesiae Maguntinae.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o podia deixar de pensar no estranho ritual descrito nesse livro e na sua prov\u00e1vel influ\u00eancia sobre o hipocondr\u00edaco quando, uma noite, depois de me informar repentinamente que Lady Madeline havia morrido, ele disse que tinha inten\u00e7\u00e3o de manter o corpo por quinze dias (antes do enterro definitivo) em uma das muitas c\u00e2maras subterr\u00e2neas existentes no interior da mans\u00e3o. A raz\u00e3o profana para essa estranha atitude, no entanto, era tal que n\u00e3o me sentia \u00e0 vontade para discutir. Como irm\u00e3o, tinha sido levado a essa resolu\u00e7\u00e3o (assim me contou ele) por causa da natureza incomum da doen\u00e7a da falecida, de certas perguntas inconvenientes e ansiosas feitas pelos m\u00e9dicos e por causa da localiza\u00e7\u00e3o distante e exposta do jazigo da fam\u00edlia. N\u00e3o posso negar que, ao lembrar do rosto sinistro da pessoa que encontrei na escada no dia em que cheguei \u00e0quela casa, n\u00e3o senti nenhum impulso para me opor a uma preocupa\u00e7\u00e3o que me parecia inofensiva e de forma alguma antinatural.<\/p>\n<p>A pedido de Usher, ajudei-o nos preparativos do sepultamento provis\u00f3rio. Depois de colocar o corpo no caix\u00e3o, n\u00f3s dois, sozinhos, o levamos at\u00e9 o lugar de descanso. A c\u00e2mara em que o deixamos (e que estivera fechada por tanto tempo que nossas tochas, quase apagadas pela atmosfera abafada, n\u00e3o nos permitiram examinar) era pequena, \u00famida, sem nenhuma entrada para a luz e situada a grande profundidade, exatamente debaixo da parte da mans\u00e3o onde estava o meu quarto de dormir. Aparentemente, tinha sido usada em remotos tempos feudais para as piores finalidades de c\u00e1rcere privado e, mais recentemente, como dep\u00f3sito de p\u00f3lvora ou de alguma outra subst\u00e2ncia altamente inflam\u00e1vel, pois parte do ch\u00e3o e todo o interior da longa arcada que percorremos para chegar at\u00e9 ali estavam cuidadosamente revestidos de cobre. A porta, de ferro maci\u00e7o, tinha sido igualmente protegida. Quando girava as dobradi\u00e7as, seu imenso peso fazia um som incrivelmente agudo e \u00e1spero.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s depositar nossa triste carga sobre cavaletes nesse horrendo lugar, abrimos parcialmente a tampa do caix\u00e3o, ainda n\u00e3o parafusada, e olhamos o rosto da morta. A incr\u00edvel semelhan\u00e7a entre irm\u00e3o e irm\u00e3 me chamou a aten\u00e7\u00e3o, e Usher, adivinhando talvez meus pensamentos, explicou-me num murm\u00fario que ele e a falecida eram g\u00eameos e que afinidades de natureza quase incompreens\u00edvel sempre existiram entre eles. Mas nossos olhares n\u00e3o se demoraram muito tempo sobre a morta, pois era imposs\u00edvel fit\u00e1-la sem se perturbar. A enfermidade que assim levara ao t\u00famulo a jovem senhora tinha deixado, como \u00e9 normal em todas as doen\u00e7as de natureza estritamente catal\u00e9ptica, um arremedo de colora\u00e7\u00e3o no seio e no rosto e uma sombra de sorriso nos l\u00e1bios, que \u00e9 t\u00e3o terr\u00edvel na morte. Recolocamos e parafusamos a tampa do caix\u00e3o e, fechando a porta de ferro, voltamos abatidos para os c\u00f4modos pouco menos sinistros dos andares superiores da mans\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, passados alguns dias de amarga tristeza, ocorreu uma n\u00edtida mudan\u00e7a nos sintomas da perturba\u00e7\u00e3o mental de meu amigo. Seu modo de ser habitual desapareceu. Suas ocupa\u00e7\u00f5es di\u00e1rias eram negligenciadas ou esquecidas. Ele vagava a esmo de sala em sala, com passos apressados e irregulares. A palidez de seu rosto assumiu, se isso \u00e9 poss\u00edvel, um tom ainda mais cadav\u00e9rico, mas a luminosidade de seus olhos dissipou-se completamente. N\u00e3o se ouvia mais o tom \u00e1spero de sua voz, como \u00e0s vezes sucedia antes, e um tr\u00eamulo balbucio, como se estivesse tomado de horror extremo, passou a caracterizar o seu modo de falar. Houve momentos, na verdade, em que pensei que sua mente sempre agitada estava em luta com algum segredo opressivo, empenhando-se em reunir coragem para cont\u00e1-lo. Outras vezes era eu levado a atribuir tudo aquilo \u00e0 inexplic\u00e1vel confus\u00e3o da loucura, pois o via fitar o vazio durante horas, numa atitude da mais profunda aten\u00e7\u00e3o, como se estivesse ouvindo algum som imagin\u00e1rio. N\u00e3o era de admirar que seu estado me causasse terror e me contaminasse. Senti-me aos poucos, inexoravelmente, invadido pela estranha influ\u00eancia de suas fant\u00e1sticas mas impressionantes supersti\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Foi especialmente ao me deitar, j\u00e1 tarde da noite, sete ou oito dias depois de colocarmos o corpo de Lady Madeline na c\u00e2mara, que percebi toda a for\u00e7a de tais sentimentos. O sono n\u00e3o se aproximava de minha cama e as horas ecoavam-se lentamente. Lutei para controlar o nervosismo que me dominava. Esforcei-me por acreditar que muito, sen\u00e3o tudo o que estava sentindo, se devia \u00e0 perturbadora influ\u00eancia da soturna mob\u00edlia do aposento, das tape\u00e7arias escuras e esfarrapadas que, movidas pelo sopro de uma tempestade que se formava, oscilavam de modo irregular nas paredes e ro\u00e7avam inquietas pelos adornos do leito. Mas meus esfor\u00e7os foram in\u00fateis. Um tremor incontrol\u00e1vel aos poucos tomou conta de meu corpo e, afinal, instalou-se sobre meu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o o \u00edncubo de uma como\u00e7\u00e3o inteiramente infundada. Sacudindo essa sensa\u00e7\u00e3o com um arquejo e um sobressalto, ergui-me dos travesseiros e, sondando com o olhar a escurid\u00e3o do aposento, prestei aten\u00e7\u00e3o e ouvi ? n\u00e3o sei por qu\u00ea, talvez por um instinto que me agu\u00e7ou o esp\u00edrito ? ru\u00eddos baixos e indefinidos que nas pausas da tempestade, a longos intervalos, vinham n\u00e3o sabia de onde. Dominado por forte sentimento de horror, inexplic\u00e1vel e por isso mesmo imposs\u00edvel de suportar, vesti-me rapidamente (pois senti que seria imposs\u00edvel dormir naquela noite) e tentei livrar-me, caminhando de um lado para outro pelo aposento, do estado penoso em que me achava.<\/p>\n<p>Logo depois de iniciar as idas e vindas, um leve ru\u00eddo de passos numa escada pr\u00f3xima me chamou a aten\u00e7\u00e3o. Logo reconheci que era Usher. No instante seguinte, ele bateu de leve em minha porta e entrou, trazendo um lampi\u00e3o. Seu rosto estava, como sempre cadav\u00e9rico, mas al\u00e9m disso havia uma esp\u00e9cie de riso louco em seus olhos, e, e, seu modo de proceder, uma histeria evidentemente contida. Seu aspecto me aterrou, mas qualquer coisa era prefer\u00edvel \u00e0 solid\u00e3o por mim suportada durante tanto tempo e acolhi sua presen\u00e7a com grande al\u00edvio.<\/p>\n<p>\u2013 E voc\u00ea n\u00e3o o viu? ? perguntou ele de repente, depois de olhar em volta por alguns momentos, sem sil\u00eancio. ? N\u00e3o o viu? Mas espere! Voc\u00ea vai ver.<\/p>\n<p>Assim dizendo ? e enquanto protegia cuidadosamente o lampi\u00e3o ? correu para uma das janelas e a escancarou para a tempestade.<\/p>\n<p>A impetuosa f\u00faria das rajadas de vento quase nos levantou do ch\u00e3o. Era na verdade uma noite tempestuosa, mas ainda assim bela e espantosamente singular no seu terror e perfei\u00e7\u00e3o. Aparentemente, um redemoinho juntara todas as suas for\u00e7as ao nosso redor pois ocorriam freq\u00fcentes e violentas mudan\u00e7as na dire\u00e7\u00e3o do vento, e a extrema densidade das nuvens (t\u00e3o baixas que pareciam pesar sobre os torr\u00f5es da mans\u00e3o) n\u00e3o nos impedia de observar a viva velocidade com que deslizavam de todos os pontos, chocando-se umas contra as outras, sem desaparecer ao longe. Digo que nem mesmo a sua extrema densidade nos impossibilitava de perceber isto, embora n\u00e3o pud\u00e9ssemos vislumbrar a lua ou as estrelas, nem havia ali qualquer clar\u00e3o de rel\u00e2mpagos. Mas tanto a superf\u00edcie inferior das imensas massas de vapor agitando como todos os objetos terrenos das proximidades brilhavam, por efeito de uma luz antinatural que provinha de uma exala\u00e7\u00e3o gasosa ligeiramente luminosa e perfeitamente vis\u00edvel que envolvia toda a mans\u00e3o como uma mortalha.<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea n\u00e3o deve\u2026 n\u00e3o pode ficar olhando para isso! ? eu disse, estremecendo, a Usher, enquanto o afastava com leve viol\u00eancia da janela e o fazia sentar. ? Essas manifesta\u00e7\u00f5es que tanto perturbam voc\u00ea s\u00e3o meros fen\u00f4menos el\u00e9tricos, nada incomuns, ou talvez tenham origem nas exala\u00e7\u00f5es malcheirosas do fosso. Vamos fechar esta janela. O ar est\u00e1 gelado e \u00e9 perigoso para sua sa\u00fade. Eis aqui um de seus romances favoritos. Vou ler para voc\u00ea, e assim passaremos juntos esta noite terr\u00edvel.<\/p>\n<p>O volume antigo que peguei era o Mad Trist (Assembl\u00e9ia do loucos) de Sir Launcelot Canning. Disse que era um dos favoritos de Usher mais como triste gracejo do que a s\u00e9rio, pois, na verdade, sua prolixidade vulgar e est\u00e9ril muito pouco continha que pudesse interessar \u00e0 idealidade elevada e espiritual de meu amigo. Era, por\u00e9m, o \u00fanico livro \u00e0 m\u00e3o ? e nutri a vaga esperan\u00e7a de que a excita\u00e7\u00e3o que ent\u00e3o agitava o hipocondr\u00edaco talvez encontrasse algum al\u00edvio (pois a hist\u00f3ria das perturba\u00e7\u00f5es mentais est\u00e1 cheia de anomalias desse tipo), at\u00e9 mesmo nos excessos de imagina\u00e7\u00e3o que eu ia ler. A julgar pelo ar de intensa vivacidade como que ouvia, ou parecia ouvir a leitura, podia congratular-me pelo \u00eaxito de minha tentativa.<\/p>\n<p>E Ethereld, que tinha por natureza cora\u00e7\u00e3o audaz e agora se sentia muito forte, gra\u00e7as ao vigor do vinho que havia bebido, n\u00e3o gastou mais tempo em discutir com o eremita, que em verdade tinha car\u00e1ter obstinado e malicioso. Sentindo a chuva nos ombros e temendo que ca\u00edsse a tempestade, levantou a ma\u00e7a e, com v\u00e1rios golpes, logo abriu espa\u00e7o nas t\u00e1buas da porta, para passar a m\u00e3o com luva de ferro; brandindo-a com firmeza, quebrou e lascou e despeda\u00e7ou de tal foram a madeira que o eco desse ru\u00eddo seco e oco alarmou toda a floresta.<\/p>\n<p>Ao terminar esta frase, assustei-me e parei por um momento, pois em parecia (embora logo conclu\u00edsse que estava sendo iludido por minha excitada imagina\u00e7\u00e3o), me parecia que, de algum ponto remoto da mans\u00e3o, chegava indistintamente a meus ouvidos algo que, por sua exata semelhan\u00e7a, podia ser o eco (apesar de baixo e abafado) do ranger e estalar que Sir Launcelot descrevia t\u00e3o detalhadamente. Era, sem d\u00favida, apenas a coincid\u00eancia que me chamava a aten\u00e7\u00e3o, pois que, em meio do bater dos caixilhos das janelas e dos ru\u00eddos da tempestade crescente, o som nada tinha, por certo, que pudesse me interessar ou perturbar. E continuei com a hist\u00f3ria:<\/p>\n<p>Mas o bom paladino Ethelred, entrando agora pela porta, ficou dolorosamente enraivecido e surpreendido por n\u00e3o encontrar nem sinal do malicioso eremita, mas sim, em seu lugar, uma drag\u00e3o coberto de escamas, de apar\u00eancia prodigiosa e com l\u00edngua de fogo, que guardava um pal\u00e1cio de ouro com ch\u00e3o de prata. E sobre a muralha pendia um escudo de bronze reluzente onde estava escrita a legenda:<\/p>\n<p>Quem aqui penetrar, conquistador ser\u00e1;<br \/>\nQuem o drag\u00e3o matar, o escudo ganhar\u00e1.<\/p>\n<p>E Ethelred levantou a ma\u00e7a e golpeou a cabe\u00e7a do drag\u00e3o, que caiu a seus p\u00e9s, exalando o pestilento suspiro com um guincho t\u00e3o horr\u00edvel, \u00e1spero e penetrante que Ethelred teve de tapar os ouvidos com as m\u00e3os para suportar aquele terr\u00edvel som, como jamais tinha ouvido antes.<\/p>\n<p>Aqui, outra vez parei abruptamente, agora com a sensa\u00e7\u00e3o de tremenda surpresa, pois n\u00e3o podia haver qualquer d\u00favida de que, desta vez, ouvi realmente (embora fosse imposs\u00edvel dizer de onde provinha) um grito ou rangido baixo, aparentemente distante, mas \u00e1spero, prolongado, singularmente agudo e dissonante, a exata reprodu\u00e7\u00e3o daquilo que minha fantasia imaginava como o guincho do drag\u00e3o descrito pelo romancista.<\/p>\n<p>Oprimido, como eu naturalmente estava, diante dessa Segunda e t\u00e3o extraordin\u00e1ria coincid\u00eancia, por mil sensa\u00e7\u00f5es conflitantes, nas quais predominavam a perplexidade e o extremo terror, consegui ainda manter suficiente presen\u00e7a de esp\u00edrito para n\u00e3o agu\u00e7ar, com qualquer observa\u00e7\u00e3o, a sensibilidade nervosa de meu companheiro. N\u00e3o tinha certeza de que ele houvesse percebido os ru\u00eddos em quest\u00e3o, embora, sem d\u00favida, uma estranha altera\u00e7\u00e3o tenha ocorrido nos \u00faltimos minutos em seu rosto. Sentado diante de mim, fez girar pouco a pouco a cadeira at\u00e9 ficar de frente para a porta do aposento, de forma que eu s\u00f3 podia ver parcialmente seu rosto, apesar de perceber que seus l\u00e1bios tremiam, como se estivesse murmurando baixinho. Pendeu a cabe\u00e7a, mas eu sabia que n\u00e3o estava adormecido, porque o olho que via de perfil mantinha-se muito aberto e fixo. O movimento de seu corpo tamb\u00e9m desmentia essa id\u00e9ia, pois oscilava de um lado para o outro com um balan\u00e7o suave, embora constante e uniforme. Tendo notado rapidamente tudo isso, voltei para a narrativa de Sir Launcelot, que continuava assim:<\/p>\n<p>E agora o paladino, tendo escapado \u00e0 terr\u00edvel f\u00faria do drag\u00e3o e lembrando-se do escudo de bronze e da quebra do encantamento que sobre ele pesava, afastou a carca\u00e7a do caminho e valorosamente avan\u00e7ou pelo ch\u00e3o de prata do castelo na dire\u00e7\u00e3o da parede em que pendia o escudo, o qual, na verdade, n\u00e3o esperou que ele chegasse at\u00e9 perto, caindo-lhe aos p\u00e9s sobre o ch\u00e3o prateado, com horrendo e retumbante estrondo.<\/p>\n<p>Nem bem essas palavras me passaram pelos l\u00e1bios, ouvi distintamente como se um pesado escudo de bronze de fato tivesse ca\u00eddo, naquele momento, sobre um ch\u00e3o de prata uma reverbera\u00e7\u00e3o n\u00edtida, surda, met\u00e1lica e poderosa, apesar de aparentemente abafada. Inteiramente nervoso, fiquei em p\u00e9 de um salto, mas o movimento regular de balan\u00e7o de Usher n\u00e3o se alterou. Corri para a cadeira diante de si e todo o seu rosto apresentava rigidez de pedra. Mas, assim que lhe toquei o ombro com a m\u00e3o, forte estremecimento sacudiu todo o seu corpo, um sorriso doentio brincou em seus l\u00e1bios como se n\u00e3o tivesse consci\u00eancia de minha presen\u00e7a. Inclinando-me sobre ele, pude afinal compreender o sentido terr\u00edvel de suas palavras.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o ouve, agora?\u2026 Sim, estou ouvindo e j\u00e1 ouvi antes. H\u00e1 muitos, muitos, muitos, muitos minutos, muitas horas, muitos dias, venho ouvindo\u2026 e no entanto n\u00e3o tive a coragem\u2026 Oh, pobre de mim, miser\u00e1vel infeliz!\u2026 n\u00e3o tive coragem\u2026 n\u00e3o tive coragem de falar! N\u00f3s a enterramos viva! Eu n\u00e3o disse que meus sentidos eram agu\u00e7ados? Agora lhe digo que ouvi os primeiros movimentos dela no caix\u00e3o. Ouvi-os\u2026 h\u00e1 muitos, muitos dias\u2026 mas n\u00e3o tive coragem\u2026 n\u00e3o tive coragem de falar! E agora\u2026 esta noite\u2026 Ethelred\u2026 ha! h\u00e1!\u2026 o rompimento da porta do eremita e o grito de morte do drag\u00e3o e clangor do escudo!\u2026 Seria melhor dizer o destro\u00e7ar do caix\u00e3o e o ranger das dobradi\u00e7as de ferro de sua pris\u00e3o e sua luta l\u00e1 dentro das arcadas de cobre da cripta! Oh, para onde \u00e9 que vou fugir? Pois ela n\u00e3o vai chegar agora mesmo? N\u00e3o est\u00e1 vindo apressadamente para censurar minha sofreguid\u00e3o? N\u00e3o s\u00e3o seus passos que ou\u00e7o na escada? N\u00e3o \u00e9 a batida pesada e horr\u00edvel de seu cora\u00e7\u00e3o que estou ouvindo? Louco! ? e aqui levantou-se, de um salto, furioso, e berrou cada s\u00edlaba, como se estivesse entregando a pr\u00f3pria alma nesse esfor\u00e7o ? Louco! Digo-lhe que ela est\u00e1 agora, atr\u00e1s da porta!<\/p>\n<p>Como se a energia sobre-humana de suas palavras produzisse a for\u00e7a de um encantamento, a imensa e antiga porta para a qual apontava foi abrindo lentamente, nesse instante, suas mand\u00edbulas negras e pesadas. Havia sido obra do vento furioso ? mas al\u00e9m da porta estava de fato a figura alta e amortalhada de Lady Madeline de Usher. Havia sangue em suas vestes brancas e sinais de violenta luta por todo o seu corpo emagrecido. Por um momento ela permaneceu tr\u00eamula e vacilante no umbral. Depois, com um gemido baixo e queixoso, caiu pesadamente sobre o irm\u00e3o, e em sua violenta e agora final agonia. Arrastou-o consigo para o ch\u00e3o, j\u00e1 morto, v\u00edtima dos terrores que tinha previsto.<\/p>\n<p>Fugi aterrorizado daquele quarto e daquela mans\u00e3o. A tempestade ainda soprava com toda a f\u00faria l\u00e1 fora, quando atravessei o carreiro. De repente fulgurou sobre o caminho uma luz fant\u00e1stica, e me virei para ver de onde podia provir luminosidade t\u00e3o estranha, pois atr\u00e1s de mim s\u00f3 havia a vasta casa e suas sombras. A irradia\u00e7\u00e3o vinha da lua cheia e cor de sangue, j\u00e1 baixa no horizonte, e brilhava agora vivamente atrav\u00e9s daquela fenda antes quase invis\u00edvel, \u00e0 qual j\u00e1 me referi, que descia em ziguezague do teto at\u00e9 a base do edif\u00edcio. Enquanto eu a olhava, a fenda foi se alargando rapidamente\u2026 soprou uma feroz rajada de vento\u2026 O c\u00edrculo inteiro do sat\u00e9lite tornou-se vis\u00edvel aos meus olhos\u2026 Meu c\u00e9rebro vacilou quando vi aquelas s\u00f3lidas paredes desmoronarem\u2026 ouviu-se um longo e desordenado estrondo, como o retumbar de mil cataratas\u2026 e o fosso f\u00e9tido e profundo,<br \/>\na meus p\u00e9s, fechou-se, t\u00e9trica e silenciosamente, sobre os restos da Casa de Usher.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante todo aquele triste, escuro e silencioso dia outonal, com o c\u00e9u encoberto por nuvens baixas e opressivas, estive percorrendo sozinho, a cavalo, uma regi\u00e3o rural singularmente deserta, at\u00e9 que enfim avistei, com as primeiras&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[26],"class_list":["post-650","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-edgar-allan-poe"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/650","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=650"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/650\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":654,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/650\/revisions\/654"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=650"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=650"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=650"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}