{"id":651,"date":"2018-07-09T03:03:35","date_gmt":"2018-07-09T03:03:35","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=651"},"modified":"2018-07-09T03:12:00","modified_gmt":"2018-07-09T03:12:00","slug":"o-rei-peste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-rei-peste","title":{"rendered":"O Rei Peste"},"content":{"rendered":"<blockquote class=\"citr\"><p><em>Os deuses suportam nos reis, e permitem,<br \/>\nas coisas que odeiam em meio \u00e0 ral\u00e9.<\/em><\/p>\n<p>BUCKHURST: A Trag\u00e9dia de Ferrex e Porrex.<\/p><\/blockquote>\n<p class=\"n\">Por volta da meia-noite de um dia do m\u00eas de outubro, durante o cavalheiresco reinado de Eduardo III, dois marinheiros pertencentes a tripula\u00e7\u00e3o do Free and Easy (Livre e Feliz), escuna de com\u00e9rcio que trafegava entre Eclusa (B\u00e9lgica) e o T\u00e2misa, e ent\u00e3o ancorado neste rio, ficaram bem surpresos ao se acharem sentados na ala duma cervejaria da par\u00f3quia de Santo Andr\u00e9, em Londres, a qual tinha como ins\u00edgnia a tabuleta dum \u201cAlegre Marinheiro\u201d. embora mal constru\u00edda, enegrecida de fuligem, acachapada de todos os outros aspectos, semelhante \u00e0s demais tabernas daquela \u00e9poca, estava, n\u00e3o obstante, na opini\u00e3o dos grotescos grupos de freq\u00fcentadores ali dentro espalhados, muito bem adaptada a seu fim.<\/p>\n<p class=\"n\">Dentre aqueles grupos, formavam nossos dois marinheiros, creio eu, o mais interessante, se n\u00e3o o mais not\u00e1vel.<\/p>\n<p class=\"n\">O que parecia mais velho e a quem seu companheiro se dirigia, chamando-o pelo caracter\u00edstico apelido de Legs (Pernas) era tamb\u00e9m o mais alto dos dois. Mediria talvez uns dois metros e dez cent\u00edmetros de altura e a inevit\u00e1vel conseq\u00fc\u00eancia de t\u00e3o grande estatura se via no h\u00e1bito de andar de ombros curvados. O excesso de altura era, por\u00e9m, mais que compensado por defici\u00eancias de outra natureza. Era excessivamente magro e poderia, como afirmavam seus companheiros, substituir, quando b\u00eabedo, um galhardete no topete do mastro, ou servir de pau de bujarrona, se n\u00e3o estivesse embriagado. Mas essas pilh\u00e9rias e outras de igual natureza jamais produziam, evidentemente, qualquer efeito sobre os m\u00fasculos cachinadores do marinheiro. Com as ma\u00e7\u00e3s do rosto salientes, grande nariz adunco, queixo fugidio, pesado maxilar inferior e grandes olhos protuberantes e brancos, a express\u00e3o de sua fisionomia, embora repassada duma esp\u00e9cie de indiferen\u00e7a intrat\u00e1vel por assuntos e coisas em geral, nem por isso deixava de ser extremamente solene e s\u00e9ria, fora de qualquer possibilidade de imita\u00e7\u00e3o ou descri\u00e7\u00e3o. O marujo mais mo\u00e7o era, pelo menos aparentemente, o inverso de seu companheiro. Sua estatura n\u00e3o ia al\u00e9m de um metro e vinte. Um par de pernas atarracadas e arqueadas suportava-lhe o corpo pesado e rechonchudo, enquanto os bra\u00e7os, descomunalmente curtos e grossos, de punhos incomuns, pendiam balou\u00e7antes dos lados, como as barbatanas duma tartaruga-marinha. Os olhos pequenos de cor imprecisa, brilhavam-lhe encravados fundamente nas \u00f3rbitas. O nariz se afundava na massa de carne, que lhe envolvia a cara redonda, cheia, purpurina. O grosso l\u00e1bio superior descansava sobre o inferior, ainda mais carnudo, com um ar de complacente satisfa\u00e7\u00e3o pessoal, mais acentuada pelo h\u00e1bito que tinha o dono de lamber seus bei\u00e7os, de vez em quando. E evidente que ele olhava seu camarada alto com um sentimento meio de espanto, meio de zombaria, e, quando, \u00e0s vezes, erguia a vista para encar\u00e1-lo, parecia o vermelho sol poente a fitar os penhascos de Ben Nevis. V\u00e1rias e aventurosas haviam, por\u00e9m, sido as peregrina\u00e7\u00f5es do digno par, pelas diversas cervejarias da vizinhan\u00e7a, durante as primeiras horas da noite. Mas os cabedais, por mais vastos que sejam n\u00e3o podem durar sempre e foi de bolsos vazios que nossos amigos se aventuraram a entrar na taberna aludida. No momento preciso, pois, em que esta est\u00f3ria come\u00e7a, Legs e seu companheiro, Hugh Tarpaulin, est\u00e3o sentados, com os cotovelos apoiados na grande mesa de carvalho, em meio da sala e a cara metida entre as m\u00e3os. Olhavam, por tr\u00e1s duma enorme garrafa de humming-stuff a pagar, as agourentas palavras: N\u00e3o se fia, que para indigna\u00e7\u00e3o e espanto deles, estavam escritas a giz na porta de entrada. N\u00e3o que o dom de decifrar caracteres escritos \u2013 dom considerado ent\u00e3o, entre o povo, pouco menos cabal\u00edstico do que a arte de escrever \u2013 pudesse, em estrita justi\u00e7a, ter sido deixado a cargo dos dois disc\u00edpulos do mar; mas havia, para falar a verdade, certa contor\u00e7\u00e3o no formato das letras, uma indescrit\u00edvel guinada no conjunto, que pressagiava, na opini\u00e3o dos dois marinheiros uma longa viagem de tempo ruim, e os decidia a, imediatamente na linguagem aleg\u00f3rica do pr\u00f3prio Legs, \u201ccorrer \u00e0s bombas, ferrar todas as velas e correr com o vento em popa\u201d.<\/p>\n<p class=\"n\">Tendo, consequentemente, consumido o que restava da cerveja e abotoado seus curtos gib\u00f5es, trataram afinal de saltar para a rua. Embora Tarpaulin houvesse, por duas vezes, entrado de chamin\u00e9 adentro, pensando tratar-se da porta, conseguiram por fim com \u00eaxito a escapada, e meia hora depois da meia-noite achavam-se nossos her\u00f3is prontos para outra e correndo a bom correr por uma escura viela, na dire\u00e7\u00e3o da Escada de Santo Andr\u00e9, encarni\u00e7adamente perseguidos pela taberneira do \u201cAlegre Marinheiro\u201d.<\/p>\n<p class=\"n\">Periodicamente, durante muitos anos antes e depois da \u00e9poca desta dram\u00e1tica est\u00f3ria, ressoava por toda a Inglaterra, e mais especialmente na metr\u00f3pole, o espantoso grito de: \u201cPeste!\u201d A cidade estava em grande parte despovoada, e naqueles horr\u00edveis bairros das vizinhan\u00e7as do T\u00e2misa, onde, entre aquelas vielas e becos escuros, estreitos e imundos, O Dem\u00f4nio da Peste tinha, como se dizia, seu ber\u00e7o, a Ang\u00fastia, o Terror e a Supersti\u00e7\u00e3o passeavam, como \u00fanicos senhores, \u00e0 vontade.<\/p>\n<p class=\"n\">Por ordem do rei, estavam aqueles bairros condenados e as pessoas proibidas, sob pena de morte, de penetrar-lhes a l\u00fagubre solid\u00e3o. Contudo, nem o decreto do monarca, nem as enormes barreiras erguidas \u00e0s entradas das ruas, nem a perspectiva daquela hedionda morte que, com quase absoluta certeza, se apoderaria do desgra\u00e7ado a quem nenhum perigo poderia deter de ali aventurar-se, impediam que as habita\u00e7\u00f5es vazias e desmobiliadas fossem despojadas, pelos rapinantes noturnos, de coisas como ferro, cobre ou chumbo, que pudessem, de qualquer maneira, ser transformadas em lucro apreci\u00e1vel. Verificava-se, sobretudo, por ocasi\u00e3o da abertura anual das barreiras, no inverno, que fechaduras, ferrolhos e subterr\u00e2neos secretos n\u00e3o passavam de fraca prote\u00e7\u00e3o para aqueles ricos dep\u00f3sitos de vinhos e licores que, dados os riscos e inc\u00f4modos da remo\u00e7\u00e3o, muitos dos numerosos comerciantes, com estabelecimentos na vizinhan\u00e7a tinham consentido em confiar, durante o per\u00edodo de ex\u00edlio, a t\u00e3o insuficiente seguran\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"n\">Mas poucos eram, entre o povo aterrorizado, os que atribu\u00edam tais fatos \u00e0 a\u00e7\u00e3o de m\u00e3os humanas. Os esp\u00edritos, os duendes da peste, os dem\u00f4nios da febre eram, para o povo, os autores das fa\u00e7anhas. E tamanhas est\u00f3rias arrepiantes se contavam a toda hora que toda a massa de edif\u00edcios proibidos ficou, afinal, como que envolta numa mortalha de horror e os pr\u00f3prios ladr\u00f5es, muitas vezes, se deixavam tomar de pavor que suas depreda\u00e7\u00f5es haviam criado e abandonaram todo o vasto recinto do bairro proibido, \u00e0s trevas, ao sil\u00eancio, e \u00e0 morte. Foi uma daquelas terrificas barreiras j\u00e1 mencionadas e que indicavam estar o bairro adiante sob a condena\u00e7\u00e3o da Peste que deteve, de repente a disparada em que vinham, beco adentro, Legs e o digno Tarpaulin. Arrepiar caminho estava fora de cogita\u00e7\u00e3o e n\u00e3o havia tempo a perder, pois os perseguidores se achavam quase a seus calcanhares. Para marinheiros chapados era um brinquedo subir por aquela tosca arma\u00e7\u00e3o de madeira; exasperados pela dupla excita\u00e7\u00e3o do licor e da corrida, pularam sem hesitar para dentro do recinto e, continuando sua carreira de \u00e9brios, com berros e urros, em breve se perderam naquelas profundezas intrincadas e pestilentas .<\/p>\n<p class=\"n\">N\u00e3o se achassem eles t\u00e3o embriagados, a ponto de haverem perdido o senso moral, o horror de sua situa\u00e7\u00e3o lhes teria paralisado os passos vacilantes. O ar era frio e nevoento. As pedras do cal\u00e7amento, arrancadas do seu leito, jaziam em absoluta desordem, em meio do capim alto e vi\u00e7oso, que lhes subia em torno dos p\u00e9s e tornozelos.<\/p>\n<p class=\"n\">Casas desmoronadas obstru\u00edam as ruas. Os odores mais f\u00e9tidos e mais delet\u00e9rios dominavam por toda a parte, e, gra\u00e7as \u00e0quela luz l\u00edvida que, mesmo \u00e0 meia-noite, nunca deixa de emanar duma atmosfera pestilencial e brumosa, podiam-se perceber, jacentes nos atalhos e becos, ou apodrecendo nas casas sem janelas, as carca\u00e7as de muitos saqueadores noturnos, detidos pela m\u00e3o da peste, no momento mesmo da perpetra\u00e7\u00e3o de seu roubo.<\/p>\n<p class=\"n\">Mas n\u00e3o estava no poder de imagens, sensa\u00e7\u00f5es ou obst\u00e1culos como esses deter a corrida de homens que, naturalmente corajosos e, especialmente naquela ocasi\u00e3o, repletos de coragem e de humming-stuff, teriam ziguezagueado, t\u00e3o eretos quanto lhes permitia seu estado, sem temor, at\u00e9 mesmo dentro das fauces da morte. Na frente, sempre na frente, caminhava o disforme Legs, fazendo aquele deserto solene soar e ressoar, com berros semelhantes aos terr\u00edveis urros de guerra dos \u00edndios; e para a frente, sempre para a frente rebolava o atarracado Tarpaulin, agarrado ao gib\u00e3o de seu companheiro mais ativo, levando-lhe enorme vantagem nos tenazes esfor\u00e7os, \u00e0 moda de m\u00fasica vocal, com seus mugidos taurinos arrancados das profundezas de seus pulm\u00f5es estent\u00f3ricos.<\/p>\n<p class=\"n\">Haviam agora evidentemente alcan\u00e7ado o reduto da peste. A cada passo, ou a cada trope\u00e7\u00e3o, o caminho que seguiam se tornava mais fedorento e mais horr\u00edvel, as veredas mais estreitas e mais intrincadas. Enormes pedras e vigas que caiam de repente dos telhados desmoronados demonstravam, com sua queda soturna e pesada, a altura prodigiosa das casas circunvizinhas; e quando lhes era necess\u00e1rio imediato esfor\u00e7o para for\u00e7ar passagem atrav\u00e9s de freq\u00fcentes mont\u00f5es de cali\u00e7a, n\u00e3o era raro que a m\u00e3o ca\u00edsse sobre um esqueleto ou pousasse num cad\u00e1ver ainda com carne.<\/p>\n<p class=\"n\">De repente, ao trope\u00e7arem os marujos, \u00e0 entrada dum elevado e sinistro edif\u00edcio, um berro, mais retumbante que os outros, irrompeu da garganta do excitado Legs e l\u00e1 de dentro veio uma em r\u00e1pida sucess\u00e3o de ferozes e diab\u00f3licos guinchos, semelhantes a risadas. Sem se intimidarem com aqueles sons que, pela sua natureza, pela ocasi\u00e3o e pelo lugar, teriam gelado todo o sangue de cora\u00e7\u00f5es menos irrevogavelmente incendiados, o par de b\u00eabados embarafustou pela porta, escancarando-a e, cambaleantes, com um chorrilho de pragas, se viram em meio dum mont\u00e3o de coisas.<\/p>\n<p class=\"n\">A sala em que se encontravam era uma loja de cangalheiro; mas um al\u00e7ap\u00e3o, a um canto do soalho, perto da entrada, dava para uma longa fileira de adegas, cujas profundezas, reveladas pelo ocasional rumor de garrafas que se partiam, estavam bem sortidas do conte\u00fado apropriado. No meio da sala havia uma mesa, em cujo centro se erguia uma enorme cuba, cheia, ao que parecia, de ponche. Garrafas de v\u00e1rios vinhos e cordiais, juntamente com jarros, pich\u00e9is e garraf\u00f5es de todo formato e qualidade, estavam espalhadas profusamente pela mesa. Em torno desta via-se um grupo de seis indiv\u00edduos sentados em catafalcos. Vou tentar descrev\u00ea-los um por um.<\/p>\n<p class=\"n\">Em frente \u00e0 porta de entrada e em plano acima dos companheiros estava sentado um personagem que parecia ser o presidente da mesa. Era descarnado e alto, e Legs sentiu-se confuso ao notar nele um aspecto mais emaciado do que o seu. Tinha o rosto a\u00e7afroado, mas nenhum de seus tra\u00e7os, exce\u00e7\u00e3o feita de um, era bastante caracter\u00edstico para merecer descri\u00e7\u00e3o especial. Aquele tra\u00e7o \u00fanico consistia numa fronte t\u00e3o ins\u00f3lita e t\u00e3o horrivelmente elevada que tinha a apar\u00eancia de um bon\u00e9 ou coroa de carne acrescentada \u00e0 cabe\u00e7a natural. Sua boca, enrugada, encovava-se numa express\u00e3o de afabilidade horr\u00edvel, e seus olhos, bem como os olhos de todos quantos se achavam em torno \u00e0 mesa, tinham aquele humor v\u00edtreo da embriaguez. Esse cavalheiro trajava, da cabe\u00e7a aos p\u00e9s, mortalha de veludo de seda negra, ricamente bordada, que lhe envolvia, com displic\u00eancia, o corpo \u00e0 moda duma capa espanhola. Estava com a cabe\u00e7a cheia de plumas negras mortu\u00e1rias, que ele fazia ondular para l\u00e1 e para c\u00e1, com um ar afetado e presun\u00e7oso e na m\u00e3o direita segurava um enorme f\u00eamur humano, com o qual parecia ter acabado de bater em algum dos presentes para que cantasse. Defronte dele, e de costas para a porta, estava uma mulher de fisionomia n\u00e3o menos extraordin\u00e1ria. Embora t\u00e3o alta quanto o personagem que acabamos de descrever, n\u00e3o tinha direito de se queixar da mesma magreza anormal. Encontrava-se, evidentemente, no derradeiro grau de uma hidropisia e seu todo era bem semelhante ao imenso pipote de cerveja-de-outubro que se erguia, de tampa arrombada, a seu lado, a um canto do aposento. Seu rosto era excessivamente redondo, vermelho e cheio e a mesma peculiaridade, ou antes falta de peculiaridade, ligada \u00e0 sua fisionomia, que j\u00e1 mencionei no caso do presidente, isto \u00e9, somente uma fei\u00e7\u00e3o de seu rosto era suficientemente destacada para merecer caracteriza\u00e7\u00e3o especial. De fato, o perspicaz Tarpaulin notou logo que a mesma observa\u00e7\u00e3o podia ser feita a respeito de um dos indiv\u00edduos ali presentes. Cada um deles parecia monopolizar alguma por\u00e7\u00e3o particular de fisionomia. Na dama em quest\u00e3o, essa parte era a boca. Come\u00e7ando na orelha direita, rasgava-se, em aterrorizante fenda, at\u00e9 a esquerda. Ela fazia, no entanto, todos os esfor\u00e7os para conservar a boca fechada, com ar de dignidade. Seu traje consistia num sud\u00e1rio, recentemente engomado e passado a ferro, chegando-lhe at\u00e9 o queixo, com uma gola encrespada de musselina de cambraia. \u00c0 sua direita sentava-se uma mocinha chocha, a quem ela parecia amadrinhar. Essa delicada criaturinha deixava ver, pelo tremor de seus dedos descarnados, pela l\u00edvida cor de seus l\u00e1bios e pela leve mancha h\u00e9ctica que lhe tingia a tez, ali\u00e1s cor de chumbo, sintomas de tuberculose galopante. Um ar de extrema distin\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, dominava em toda a sua apar\u00eancia. Usava, duma maneira graciosa e negligente, uma larga e bela mortalha da mais fina cambraia, indiana. Seu cabelo ca\u00eda-lhe em cachos sobre o pesco\u00e7o. Um leve sorriso pairava-lhe nos l\u00e1bios, mas seu nariz extremamente comprido, delgado, sinuoso, flex\u00edvel e cheio de borbulhas, acavalava por demais sobre o l\u00e1bio inferior; e, a despeito da delicada maneira pela qual ela, de vez em quando, o movia para um lado e outro com a l\u00edngua, dava-lhe \u00e0 fisionomia uma express\u00e3o um tanto quanto equ\u00edvoca.<\/p>\n<p class=\"n\">Do outro lado, e \u00e0 esquerda da dama hidr\u00f3pica, estava sentado um velho pequeno, inchado, asm\u00e1tico e gotoso, cujas bochechas lhe repousavam sobre os ombros como dois imensos odres de vinho do Porto. De bra\u00e7os cruzados e uma perna enfaixada posta sobre a mesa, parecia achar-se com direito a alguma considera\u00e7\u00e3o. Evidentemente orgulhava-se bastante de cada polegada de sua apar\u00eancia pessoal, mas sentia mais especial deleite em chamar a aten\u00e7\u00e3o para seu sobretudo de cores vistosas. Para falar a verdade, n\u00e3o deveria este ter custado pouco dinheiro e lhe assentava esplendidamente bem, talhado como estava em uma dessas cobertas de seda, curiosamente bordadas, pertencentes \u00e0queles gloriosos escudos que, na Inglaterra e noutros lugares, s\u00e3o ordinariamente suspensos, em algum lugar patente, nas resid\u00eancias de aristocratas falecidos.<\/p>\n<p class=\"n\">Junto dele, e \u00e0 direita do presidente, via-se um cavalheiro, com compridas meias brancas e ceroulas de algod\u00e3o. Seu corpo tremelicava de maneira rid\u00edcula, num acesso daquilo que Tarpaulin chamava \u201cos terrores\u201d. Seus queixos, recentemente barbeados, estavam estreitamente atados por uma faixa de musselina, e, tendo os bra\u00e7os amarrados nos pulsos da mesma maneira, n\u00e3o lhe era poss\u00edvel servir-se muito \u00e0 vontade, dos licores que se achavam sobre a mesa, precau\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, na opini\u00e3o de Legs, gra\u00e7as \u00e0 express\u00e3o caracteristicamente idiota e tremulenta de seu rosto. Sem embargo, um par de prodigiosas orelhas, que sem d\u00favida era imposs\u00edvel ocultar, alteava-se na atmosfera do aposento e, de vez em quando, arrebitavam-se espasmodicamente ao rumor das rolhas que espoucavam. Defronte dele, sentava-se o sexto e \u00faltimo personagem, de apar\u00eancia r\u00edgida que, sofrendo de paralisia, devia sentir-se, falando s\u00e9rio, muito mal \u00e0 vontade nos seus trajes nada c\u00f4modos. Essa roupa um tanto singular, consistia em um novo e belo ata\u00fade de mogno. Sua tampa ou capacete apertava-se sobre o cr\u00e2nio do sujeito e estendia-se sobre ele, \u00e0 moda de um elmo, dando-lhe a todo o rosto um ar de indescrit\u00edvel interesse. Cavas para os bra\u00e7os tinham sido cortadas dos lados, mais por conveni\u00eancia que por eleg\u00e2ncia; apesar disso, o traje impedia seu propriet\u00e1rio de se sentar direito como seus companheiros. E como se sentasse reclinado de encontro a um cavalete, formando um \u00e2ngulo de quarenta e cinco graus, um par de enormes olhos esbugalhados revirava suas apavorantes escler\u00f3ticas para o teto, num absoluto espanto de sua pr\u00f3pria enormidade.<\/p>\n<p class=\"n\">Diante de cada um dos presentes estava a metade dum cr\u00e2nio, usada como copo. Por cima, pendia um esqueleto humano, pendurado duma corda amarrada numa das pernas e presa a uma argola no forro. A outra perna, sem nenhuma amarra, saltava do corpo em angulo reto, fazendo flutuar e girar toda a carca\u00e7a desconjuntada e chocalhante, ao sabor de qualquer sopro de vento que penetrasse no aposento. O cr\u00e2nio daquela hedionda coisa continha certa quantidade de carv\u00e3o em brasa, que lan\u00e7ava uma luz vacilante, mas viva, sobre a cena, enquanto ata\u00fades e outras mercadorias de casa mortu\u00e1ria empilhavam-se at\u00e9 o alto, em toda a sala e contra as janelas, impedindo assim que qualquer raio de luz se projetasse na rua.<\/p>\n<p class=\"n\">\u00c0 vista de t\u00e3o extraordin\u00e1ria assembl\u00e9ia e de seus mais extraordin\u00e1rios adornos, nossos dois marujos n\u00e3o se conduziram com aquele grau de decoro que era de esperar. Legs, encostando-se \u00e0 parede junto da qual se encontrava, deixou cair o queixo ainda mais baixo do que de costume e arregalou os olhos at\u00e9 mais n\u00e3o poder, quanto Hugh Tarpaulin, abaixando-se a ponto de colocar o nariz ao n\u00edvel da mesa e dando palmadas nas coxas, explodiu numa desenfreada e extempor\u00e2nea gargalhada, que mais parecia um rugido longo, poderoso e atroador.<\/p>\n<p class=\"n\">Sem, no entanto, ofender-se diante de procedimento t\u00e3o excessivamente grosseiro, o escanifrado presidente sorriu com toda a gra\u00e7a para os intrusos, fazendo-lhes um gesto cheio de dignidade com a cabe\u00e7a empenachada de negro, e, levantando-se, pegou-os pelos bra\u00e7os e levou-os aos assentos que alguns dos outros presentes tinham colocado, enquanto isso, para que eles estivessem a c\u00f4modo. Legs nenhuma resist\u00eancia ofereceu a tudo isso sentando-se no lugar indicado, ao passo que o galanteador Hugh removendo cavalete de ata\u00fade do lugar perto da cabeceira da mesa para junto da mocinha tuberculosa, da mortalha ondulante derreou-se a seu lado, com grande j\u00fabilo, e, emborcando um cr\u00e2nio de vinho vermelho, esvaziou-o em honra de suas mais \u00edntimas rela\u00e7\u00f5es. Diante de tamanha presun\u00e7\u00e3o, o cavalheiro teso do ata\u00fade mostrou-se excessivamente exasperado, e s\u00e9rias conseq\u00fc\u00eancias poderiam ter-se seguido n\u00e3o houvesse o presidente, batendo com o bast\u00e3o na mesa, distra\u00eddo a aten\u00e7\u00e3o de todos os presentes para o seguinte discurso:<\/p>\n<p class=\"n\">\u2013 \u00c9 nosso dever nosso na atual feliz ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"n\">\u2013 Pare com isso! \u2013 interrompeu Legs, com toda a seriedade. Cale essa boca, digo- lhe eu, e diga-nos que diabos s\u00e3o voc\u00eas todos e que est\u00e3o fazendo aqui, com essas farpelas de diabos sujos e bebendo a boa pinga armazenada para o inverno pelo meu honrado camarada Will Wimble, o cangalheiro!<\/p>\n<p class=\"n\">\u00c0 vista daquela imperdo\u00e1vel amostra de m\u00e1 educa\u00e7\u00e3o, toda a esquip\u00e1tica assembl\u00e9ia se soergueu e emitiu aqueles mesmos r\u00e1pidos e sucessivos guinchos ferozes e diab\u00f3licos que j\u00e1 haviam chamado antes a aten\u00e7\u00e3o dos marinheiros. O presidente, por\u00e9m, foi primeiro a retomar sua compostura e por fim, voltando-se para Legs com grande dignidade, recome\u00e7ou:<\/p>\n<p class=\"n\">\u2013 De muito boa-vontade satisfaremos qualquer curiosidade razo\u00e1vel da parte de h\u00f3spedes t\u00e3o ilustres, embora n\u00e3o convidados. Ficai, pois, sabendo que, nestes dom\u00ednios, sou o monarca e governo, com indivisa autoridade, com o t\u00edtulo de \u201cRei Peste I.\u201d Esta sala, que supondes injuriosamente ser a loja do cangalheiro Will Wimble, homem que n\u00e3o conhecemos e cujo sobrenome plebeu jamais ressoara, at\u00e9 esta noite, aos nossos reais ouvidos\u2026 esta sala, repito, \u00e9 a Sala do Trono de nosso pal\u00e1cio. Consagrada aos conselhos de nosso reino e outros destinos de natureza sagrada e superior.<\/p>\n<p class=\"n\">A nobre dama sentada \u00e0 nossa frente \u00e9 a Rainha Peste, nossa Seren\u00edssima Esposa. Os outros personagens ilustres que vedes pertencem todos \u00e0 nossa fam\u00edlia e usam as ins\u00edgnias do sangue real nos respectivos t\u00edtulos de: \u201cSua Gra\u00e7a o Arquiduque Peste-Ifero\u201d, \u201cSua Gra\u00e7a o Duque Pest- Ilencial\u201d, \u201cSua Gra\u00e7a o Duque Tem-Pestuoso\u201d e \u201cSua Serena Alteza a Arquiduquesa Ana-Peste\u201d.<\/p>\n<p class=\"n\">Quanto \u00e0 vossa pergunta \u2013 continuou ele -, a respeito do que nos tr\u00e1s aqui reunidos em conselho, ser-nos-ia l\u00edcito responder que, concerne e concerne exclusivamente, ao nosso pr\u00f3prio e particular interesse e n\u00e3o tem import\u00e2ncia para ningu\u00e9m mais que n\u00e3o n\u00f3s mesmos. Mas em considera\u00e7\u00e3o aos direitos de que, na qualidade de h\u00f3spedes e estrangeiros, possais julgar-vos merecedores, explicar-vos-emos entanto, que estamos aqui, esta noite, preparados por intensa pesquisa e acurada investiga\u00e7\u00e3o, a examinar, analisar e determinar, indubitavelmente, o indefin\u00edvel esp\u00edrito, as incompreens\u00edveis qualidades e natureza desses inestim\u00e1veis tesouros do paladar que s\u00e3o os vinhos, cervejas e licores desta formosa metr\u00f3pole. Assim procedemos n\u00e3o s\u00f3 para melhorar nossa pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o, mas para o bem-estar verdadeiro daquela soberana sobrenatural que reina sobre todos n\u00f3s, cujos dom\u00ednios n\u00e3o t\u00eam limites e cujo nome \u00e9 \u201cMorte\u201d.<\/p>\n<p class=\"n\">\u2013 Cujo nome \u00e9 Davi Jones! \u2013 exclamou Tarpaulin, oferecendo \u00e0 sua vizinha um cr\u00e2nio de licor e emborcando ele pr\u00f3prio um segundo.<\/p>\n<p class=\"n\">\u2013 Lacaio profanador! \u2013 exclamou o presidente, voltando agora para o digno Hugh. \u2013 Miser\u00e1vel e execrando profanador. Dissemos que, em considera\u00e7\u00e3o \u00e0queles direitos que, mesmo na tua imunda pessoa, n\u00e3o nos sentimos com inclina\u00e7\u00e3o para violar, condescendemos em responder \u00e0s tuas grosseiras e desarrazoadas indaga\u00e7\u00f5es. Contudo, tendo em vista a vossa profana intrus\u00e3o no recinto de nossos conselhos, acreditamos ser de nosso dever multar-te a ti e a teu companheiro, num gal\u00e3o de Black Strap, que bebereis pela prosperidade de nosso reino, dum s\u00f3 gole e de joelhos; logo depois estareis livres para continuar vosso caminho ou permanecerdes e serdes admitidos aos privil\u00e9gios de nossa mesa, se acordo com vossos respectivos gostos pessoais.<\/p>\n<p class=\"n\">\u2013 Ser\u00e1 coisa de absoluta impossibilidade \u2013 replicou Legs, a quem a impon\u00eancia e a dignidade do Rei Peste I tinham evidentemente inspirado alguns sentimentos de respeito, e que se levantara, ficando de p\u00e9 junto da mesa, enquanto aquele falava.<\/p>\n<p class=\"n\">\u2013 Ser\u00e1, com licen\u00e7a de Vossa Majestade, coisa extremamente imposs\u00edvel arrumar no meu por\u00e3o at\u00e9 mesmo a quarta parte desse tal licor que vossa Majestade acaba de mencionar. N\u00e3o falando das mercadorias colocadas esta manh\u00e3 a bordo para servir de lastro, e n\u00e3o mencionando as v\u00e1rias cervejas e licores embarcados esta noite em v\u00e1rios portos, tenho, presentemente, uma carga completa de humming-tuff, entrada e devidamente paga na taberna do \u201cAlegre Marinheiro\u201d. De modo que h\u00e1 de Vossa Majestade ter a bondade de tomar a ten\u00e7\u00e3o como coisa realizada, pois n\u00e3o posso de modo algum, nem quero, engolir outro trago e muito menos um trago dessa repugnante \u00e1gua-de-por\u00e3o que responde ao nome de Black Strap.<\/p>\n<p class=\"n\">\u2013 Pare com isso! \u2013 interrompeu Tarpaulin, espantado n\u00e3o s\u00f3 pelo tamanho do discurso de seu companheiro como pela natureza de sua recusa. \u2013 Pare com isso, seu marinheiro de \u00e1gua doce! Repito, Legs, pare com esse palavreado! O meu casco est\u00e1 ainda leve, embora, confesse-o, esteja o seu mais pesado em cima que em baixo. Quanto \u00e0 est\u00f3ria de sua parte da carga, em vez de provocar uma borrasca, acharei jeito de arrum\u00e1-la eu mesmo no por\u00e3o, mas\u2026<\/p>\n<p class=\"n\">\u2013 Este modo de proceder \u2013 interferiu o presidente \u2013 n\u00e3o est\u00e1 de modo algum em acordo com os termos da multa ou senten\u00e7a que \u00e9 de natureza m\u00e9dia e n\u00e3o pode ser alterada nem apelada. As condi\u00e7\u00f5es que impusemos devem ser cumpridas \u00e0 risca, e isto sem um instante de hesita\u00e7\u00e3o\u2026 sem o qu\u00ea, decretamos que sejais amarrados, pesco\u00e7os e calcanhares juntos, e devidamente afogados, rebeldes, naquela pipa de cerveja-de-outubro!<\/p>\n<p class=\"n\">\u2013 Que senten\u00e7a! Que senten\u00e7a! Que senten\u00e7a justa e direita! decreto glorioso! A condena\u00e7\u00e3o mais digna, mais irrepreens\u00edvel, sagrada! \u2013 gritaram todos os membros da fam\u00edlia Peste ao mesmo tempo.<\/p>\n<p class=\"n\">O rei franziu a testa em rugas inumer\u00e1veis; o homenzinho gotoso soprava, como um par de foles; a dona da mortalha de cambraia movia o nariz para um lado para o outro; o cavalheiro de ceroulas de algod\u00e3o arrebitou as orelhas; a mulher do sud\u00e1rio ofegava como um peixe agonizante, e o sujeito do ata\u00fade entesou-se mais, arregalando os olhos para cima.<\/p>\n<p class=\"n\">\u2013 Oh, uh, uh! \u2013 ria Tarpaulin, entre dentes, sem notar a excita\u00e7\u00e3o geral. \u2013 Uh, uh, \u2026 Uh, uh, uh\u2026 Estava eu dizendo quando aqui o Sr. Rei Peste veio meter seu bedelho, que a respeito da quest\u00e3o de dois ou tr\u00eas gal\u00f5es mais ou menos de Black Strap era uma bagatela para um barco s\u00f3lido como eu que n\u00e3o est\u00e1 sobrecarregado; e quando se tratar de beber \u00e0 sa\u00fade do Diabo (que Deus lhe perdoe) e de me p\u00f4r de joelhos diante dessa horrenda majestade aqui presente, que eu conhe\u00e7o t\u00e3o bem como sei que sou um pecador, e que n\u00e3o \u00e9 outro sen\u00e3o Tim Hurlygurly, o palha\u00e7o!\u2026 Ora essa, \u00e9 muito outra coisa, e vai muito al\u00e9m de minha compreens\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"n\">N\u00e3o lhe permitiram que terminasse tranq\u00fcilamente seu discurso ao nome de Tim Hurlygurly, todos os presente pularam dos assentos.<\/p>\n<p class=\"n\">\u2013 Trai\u00e7\u00e3o! \u2013 gritou Sua Majestade o Rei Peste I.<\/p>\n<p class=\"n\">\u2013 Trai\u00e7\u00e3o! \u2013 disse o homenzinho gotoso.<\/p>\n<p class=\"n\">\u2013 Trai\u00e7\u00e3o! \u2013 esgani\u00e7ou a Arquiduquesa Ana-Peste.<\/p>\n<p class=\"n\">\u2013 Trai\u00e7\u00e3o! \u2013 murmurou o homem dos queixos amarrados.<\/p>\n<p class=\"n\">\u2013 Trai\u00e7\u00e3o! \u2013 grunhiu o sujeito do ata\u00fade.<\/p>\n<p class=\"n\">\u2013 Trai\u00e7\u00e3o, trai\u00e7\u00e3o! \u2013 berrou Sua Majestade, a mulher da bocarra. E, agarrando o infeliz Tarpaulin pela traseira das cal\u00e7as, o qual estava justamente enchendo outro cr\u00e2nio de licor, ergueu-o no ar e deixou-o bem alto no ar, e deixou-o cair sem cerim\u00f4nia no imenso barril aberto de sua cerveja predileta. Boiando para l\u00e1 e para c\u00e1, durante alguns segundos, como uma ma\u00e7\u00e3 numa tigela de ponche, desapareceu afinal no turbilh\u00e3o de espuma que, no j\u00e1 efervescente licor, haviam provocado seus esfor\u00e7os de safar-se.<\/p>\n<p class=\"n\">N\u00e3o se resignou, por\u00e9m, o marinheiro alto com a derrota de seu camarada. Empurrando o Rei Peste para dentro do al\u00e7ap\u00e3o aberto, Legs deixou cair a tampa do al\u00e7ap\u00e3o sobre ele, com uma praga, e correu para o meio da sala. Ali, puxando para baixo o esqueleto que pendia sobre a mesa, com tamanha for\u00e7a e vontade que o fez que conseguiu fazer saltar os miolos do homenzinho gotoso, ao tempo que morriam os derradeiros lampejos de luz dentro da sala.<\/p>\n<p class=\"n\">Precipitando-se, ent\u00e3o, com toda a sua energia, contra a pipa fatal cheia de cerveja-de-outubro e de Hugh Tarpaulin, revirou-a, num instante, de lado. Dela jorrou um dil\u00favio de licor t\u00e3o impetuoso, violento, t\u00e3o irresist\u00edvel, que a sala ficou inundada de parede a parede, as mesas carregadas viraram de pernas para o ar, os cavaletes rebolaram uns por cima dos outros, a tina de ponche foi lan\u00e7ada na chamin\u00e9 da lareira\u2026 e as damas ca\u00edram com ataques hist\u00e9ricos. Montes de artigos f\u00fanebres boiavam. Jarros, pich\u00e9is e garraf\u00f5es confundiam-se, numa misturada enorme, e as garrafas de vime embatiam-se, desesperadamente, com cantis tran\u00e7ados. O homem dos tremeliques afogou-se imediatamente. O sujeito flutuava no seu caix\u00e3o\u2026 e o vitorioso Legs, agarrando pela cintura pela criatura a mulher gorda do sud\u00e1rio, arrastou-a para a rua e em linha reta, a dire\u00e7\u00e3o do Free and Easy, seguido, a bom pano, pelo tem\u00edvel Hugh Tarpaulin, que, tendo espirrado tr\u00eas ou quatro vezes, ofegava e bufava atr\u00e1s dele, puxando a Arquiduquesa Ana-Peste.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os deuses suportam nos reis, e permitem, as coisas que odeiam em meio \u00e0 ral\u00e9. BUCKHURST: A Trag\u00e9dia de Ferrex e Porrex. Por volta da meia-noite de um dia do m\u00eas de outubro, durante o&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[26],"class_list":["post-651","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-edgar-allan-poe"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/651","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=651"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/651\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":652,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/651\/revisions\/652"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=651"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=651"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=651"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}