{"id":653,"date":"2018-07-09T03:08:08","date_gmt":"2018-07-09T03:08:08","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=653"},"modified":"2018-07-09T03:12:00","modified_gmt":"2018-07-09T03:12:00","slug":"o-poco-e-o-pendulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-poco-e-o-pendulo","title":{"rendered":"O Po\u00e7o e o P\u00eandulo"},"content":{"rendered":"<p>Estava exausto, mortalmente exausto com aquela longa agonia e, quando por fim me desamarraram e pude sentar-me, senti que perdia os sentidos. A senten\u00e7a \u2013 a terr\u00edvel senten\u00e7a de morte \u2013 foi a \u00faltima frase que chegou, claramente, aos meus ouvidos. Depois, o som das vozes dos inquisidores pareceu apagar-se naquele zumbido indefinido de sonho. O ru\u00eddo despertava em minha alma a id\u00e9ia de rota\u00e7\u00e3o, talvez devido \u00e0 sua associa\u00e7\u00e3o, em minha mente, com o ru\u00eddo caracter\u00edstico de uma roda de moinho. Mas isso durou pouco, pois, logo depois, nada mais ouvi. N\u00e3o obstante, durante alguns momentos, pude ver, mas com que terr\u00edvel exagero! Via os l\u00e1bios dos ju\u00edzes vestidos de preto. Pareciam-me brancos, mais brancos do que a folha de papel em que tra\u00e7o estas palavras, e grotescamente finos \u2013 finos pela intensidade de sua express\u00e3o de firmeza, pela sua inflex\u00edvel resolu\u00e7\u00e3o, pelo severo desprezo ao sofrimento humano. Via que os decretos daquilo que para mim representava o destino sa\u00edam ainda daqueles l\u00e1bios. Vi-os contorcerem-se numa frase mortal; vi-os pronunciarem as s\u00edlabas de meu nome \u2013 e estremeci, pois nenhum som lhes acompanhava os movimentos. Vi, tamb\u00e9m, durante alguns momentos de del\u00edrio e terror, a suave e quase impercept\u00edvel. ondula\u00e7\u00e3o das negras tape\u00e7arias que cobriam as paredes da sala, e o meu olhar caiu ent\u00e3o sobre as sete grandes velas que estavam em cima da mesa. A princ\u00edpio, tiveram para mim o aspecto de uma claridade, e pareceram-me anjos brancos e esguios que deveriam salvar-me. Mas, de repente, uma n\u00e1usea mortal invadiu-me a alma, e senti que cada fibra de meu corpo estremecia como se houvesse tocado os fios de uma bateria galv\u00e2nica. As formas ang\u00e9licas se converteram em inexpressivos espectros com cabe\u00e7as de chama, e vi que n\u00e3o poderia esperar delas aux\u00edlio algum. Ent\u00e3o, como magn\u00edfica nota musical, insinuou-se em minha imagina\u00e7\u00e3o a id\u00e9ia do doce repouso que me aguardava no t\u00famulo. Chegou suave, furtivamente \u2013 e penso que precisei de muito tempo para apreci\u00e1-la devidamente. Mas, no instante preciso em que meu esp\u00edrito come\u00e7ava a sentir e alimentar essa id\u00e9ia, as figuras dos ju\u00edzes se dissiparam, como por arte de m\u00e1gica, ante os meus olhos. As grandes velas reduziram-se a nada; suas chamas se apagaram por completo e sobreveio o negror das trevas; todas as sensa\u00e7\u00f5es pareceram desaparecer como numa queda louca da alma at\u00e9 o Hades. E o universo transformou-se em noite, sil\u00eancio, imobilidade.<\/p>\n<p>Eu desmaiara; mas, n\u00e3o obstante, n\u00e3o posso dizer que houvesse perdido de todo a consci\u00eancia. N\u00e3o procurarei definir, nem descrever sequer, o que dela me restava. Nem tudo, por\u00e9m, estava perdido. Em meio do mais profundo sono\u2026 n\u00e3o! Em meio do del\u00edrio\u2026 n\u00e3o! Em meio do desfalecimento. . . n\u00e3o! Em meio da morte\u2026 n\u00e3o! Nem mesmo na morte tudo est\u00e1 perdido. Do contr\u00e1rio, n\u00e3o haveria imortalidade para o homem. Quando despertamos do mais profundo sono, desfazemos as teias de aranha de algum sonho. E, n\u00e3o obstante, um segundo depois n\u00e3o nos lembramos de haver sonhado, por mais delicada que tenha sido a teia. Na volta a vida, depois do desmaio, h\u00e1 duas fases: o sentimento da exist\u00eancia moral ou espiritual e o da exist\u00eancia f\u00edsica. Parece prov\u00e1vel que, se ao chegar \u00e0 segunda fase tiv\u00e9ssemos de evocar as impress\u00f5es da primeira, tornar\u00edamos a encontrar todas as lembran\u00e7as eloq\u00fcentes do abismo do outro mundo. E qual \u00e9 esse abismo? Como, ao menos, poderemos distinguir suas sombras das do t\u00famulo?<\/p>\n<p>Mas, se as impress\u00f5es do que chamamos primeira fase n\u00e3o nos acodem de novo ao chamado da vontade, acaso n\u00e3o nos aparecem depois de longo intervalo, sem ser solicitadas, enquanto, maravilhados, perguntamos a n\u00f3s mesmos de onde prov\u00eam? Quem nunca perdeu os sentidos n\u00e3o descobrir\u00e1 jamais estranhos pal\u00e1cios e rostos singularmente familiares entre as chamas ardentes; n\u00e3o contemplar\u00e1, flutuante no ar, as melanc\u00f3licas vis\u00f5es que muitos talvez jamais contemplem; n\u00e3o meditar\u00e1 nunca sobre o perfume de alguma flor desconhecida, nem mergulhar\u00e1 no mist\u00e9rio de alguma melodia que jamais lhe chamou antes a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em meio de meus freq\u00fcentes e profundos esfor\u00e7os para recordar, em meio de minha luta tenaz para apreender algum vest\u00edgio desse estado de v\u00e1cuo aparente em que minha alma mergulhara, houve breves, brev\u00edssimos instan-tes em que julguei triunfar, momentos fugidios em que cheguei a reunir lembran\u00e7as que, em ocasi\u00f5es posteriores, meu racioc\u00ednio, l\u00facido, me afirmou n\u00e3o poderem referir-se sen\u00e3o a esse estado em que a consci\u00eancia parece aniquilada. Essas sombras de lembran\u00e7as apresentavam, indistintamente, grandes figuras que me carregavam, transportando-me, silenciosamente, para baixo\u2026 para baixo\u2026 ainda mais para baixo\u2026 at\u00e9 que uma vertigem horr\u00edvel me oprimia, ante a id\u00e9ia de que n\u00e3o tinha mais fim tal descida. Tamb\u00e9m me lembro de que despertavam um vago horror no fundo de meu cora\u00e7\u00e3o, devido precisamente \u00e0 tranq\u00fcilidade sobrenatural desse mesmo cora\u00e7\u00e3o. Depois, o sentimento de uma s\u00fabita imobilidade em tudo o que me cercava, como se aqueles que me carregavam (espantosa comitiva!) ultrapassassem, em sua descida, os limites do ilimitado, e fizessem uma pausa, vencidos pelo cansa\u00e7o de seu esfor\u00e7o. Depois disso, lembro-me de uma sensa\u00e7\u00e3o de monotonia e de umidade. Depois, tudo \u00e9 loucura \u2013 a loucura da mem\u00f3ria que se agita entre coisas proibidas.<\/p>\n<p>S\u00fabito, voltam \u00e0 minha alma o movimento e o som \u2013 o movimento tumultuoso do cora\u00e7\u00e3o e, em meus ouvidos, o som de suas batidas. Em seguida, uma pausa, em que tudo \u00e9 vazio. Depois, de novo, o som, o movimento e o tato, como uma sensa\u00e7\u00e3o vibrante que penetra em meu ser. Logo ap\u00f3s, a simples consci\u00eancia da minha exist\u00eancia, sem pensamento \u2013 estado que durou muito tempo. Depois, de maneira extremamente s\u00fabita, o pensamento, e um tr\u00eamulo terror \u2013 o esfor\u00e7o enorme para compreender o meu verdadeiro estado. Logo ap\u00f3s, vivo desejo de mergulhar na insensibilidade. Depois, um brusco renascer da alma e um esfor\u00e7o bem sucedido para mover-me. E, ent\u00e3o, a lembran\u00e7a completa do que acontecera, dos ju\u00edzes, das tape\u00e7arias negras, da senten\u00e7a, da fraqueza, do desmaio. Esquecimento completo de tudo o que acontecera \u2013 e que somente mais tarde, gra\u00e7as aos mais vivos esfor\u00e7os, consegui recordar vagamente.<\/p>\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o abrira ainda os olhos. Sentia que me achava deitado de costas, sem que estivesse atado. Estendi a m\u00e3o e ela caiu pesadamente sobre alguma coisa \u00famida e dura. Deixei que ela l\u00e1 ficasse durante muitos minutos, enquanto me esfor\u00e7ava por imaginar onde \u00e9 que eu estava e o que \u00e9 que poderia ter acontecido comigo. Desejava, mas n\u00e3o me atrevia a fazer uso dos olhos. Receava o primeiro olhar sobre as coisas que me cercavam. N\u00e3o que me aterrorizasse contemplar coisas terr\u00edveis, mas tinha medo de que n\u00e3o houvesse nada para ver. Por fim, experimentando horr\u00edvel desespero em meu cora\u00e7\u00e3o, abri rapi-damente os olhos. Meus piores pensamentos foram, ent\u00e3o, confirmados. Envolviam-me as trevas da noite eterna. Esforcei-me por respirar. A intensidade da escurid\u00e3o parecia oprimir-me, asfixiar-me. O ar era intoleravelmente pesado. Continuei ainda im\u00f3vel, e esforcei-me por fazer uso da raz\u00e3o. Lembrei-me dos procedimentos inquisitoriais e, partindo da\u00ed, procurei deduzir qual a minha situa\u00e7\u00e3o real.<\/p>\n<p>A senten\u00e7a fora proferida, e parecia-me que, desde ent\u00e3o, transcorrera longo espa\u00e7o de tempo. N\u00e3o obstante, n\u00e3o imaginei um momento sequer que estivesse realmente morto. Tal suposi\u00e7\u00e3o, pese o que lemos nos livros de fic-\u00e7\u00e3o, \u00e9 absolutamente incompat\u00edvel com a exist\u00eancia real. Mas onde me encontrava e qual era o meu estado? Sabia que os condenados \u00e0 morte pereciam, com freq\u00fc\u00eancia, nos autos-de-f\u00e9 \u2013 e um desses autos havia-se realizado na noite do dia em que eu fora julgado. Teria eu permanecido em meu calabou\u00e7o, \u00e0 espera do sacrif\u00edcio seguinte, que n\u00e3o se realizaria sen\u00e3o dentro de muitos meses? Vi, imediatamente, que isso n\u00e3o poderia ser. As v\u00edtimas eram exigidas sem cessar. Al\u00e9m disso, meu calabou\u00e7o, bem como as celas de todos os candenados, em Toledo, tinha piso de pedra e a luz n\u00e3o era inteiramente exclu\u00edda.<\/p>\n<p>De repente, uma id\u00e9ia terr\u00edvel acelerou violentamente o sangue em meu cora\u00e7\u00e3o e, durante breve espa\u00e7o, mergulhei de novo na insensibilidade. Ao recobrar os sentidos, pus-me logo de p\u00e9, a tremer convulsivamente. Alucinado, estendi os bra\u00e7os para o alto e em torno de mim, em todas as dire\u00e7\u00f5es. N\u00e3o senti nada. N\u00e3o obstante, receava dar um passo, com medo de ver os meus movimentos impedidos pelos muros de um t\u00famulo. O suor brotava-me de todos os poros e grossas gotas frias me salpicavam a testa. A ang\u00fastia da incerteza tornou-se, por fim, insuport\u00e1vel e avancei com cautela, os bra\u00e7os estendidos, os olhos a saltar-me das \u00f3rbitas, na esperan\u00e7a de descobrir algum t\u00eanue raio de luz. Dei muitos passos, mas, n\u00e3o obstante, tudo era treva e v\u00e1cuo. Sentia a respira\u00e7\u00e3o mais livre. Parecia-me evidente que o meu destino n\u00e3o era, afinal de contas, o mais espantoso de todos.<\/p>\n<p>Continuei a avan\u00e7ar cautelosamente e, enquanto isso, me vieram \u00e0 mem\u00f3ria mil vagos rumores dos horrores de Toledo. Sobre calabou\u00e7os, contavam-se coisas estranhas \u2013 f\u00e1bulas, como eu sempre as considerara; coisas, contudo, estranhas, e demasiado horr\u00edveis para que a gente as narrasse a n\u00e3o ser num sussurro. Acaso fora eu ali deixado para morrer de fome naquele subterr\u00e2neo mundo de trevas, ou<\/p>\n<p>quem sabe um destino ainda mais terr\u00edvel me aguardava? Conhecia demasiado bem o car\u00e1ter de meus ju\u00edzes para duvidar de que o resultado de tudo aquilo seria a morte, e uma morte mais amarga do que a habitual. Como seria ela e a hora de sua execu\u00e7\u00e3o eram os \u00fanicos pensa-mentos que me ocupavam o esp\u00edrito, causando-me ang\u00fastia.<\/p>\n<p>Minhas m\u00e3os estendidas encontraram, afinal, um obst\u00e1culo s\u00f3lido. Era uma parede que parecia de pedra, muito lisa, \u00famida e fria. Segui junto a ela, caminhando com a cautelosa desconfian\u00e7a que certas narra\u00e7\u00f5es antigas me haviam inspirado. Por\u00e9m, essa opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o me proporcionava meio algum de averiguar as dimens\u00f5es de meu calabou\u00e7o; podia dar a volta e tornar ao ponto de partida sem perceber exatamente o lugar em que me encontrava, pois a parede me parecia perfeitamente uniforme. Por isso, procurei um canivete que tinha num dos bolsos quando fui levado ao tribunal, mas havia desaparecido. Minhas roupas tinham sido substitu\u00eddas por uma vestimenta de sarja grosseira. A fim de identificar o ponto de partida, pensara em enfiar a l\u00e2mina em alguma min\u00fascula fenda da parede. A dificuldade, apesar de tudo, n\u00e3o era insuper\u00e1vel, embora, em meio \u00e0 desordem de meus pensamentos, me parecesse, a princ\u00edpio, uma coisa insuper\u00e1vel. Rasguei uma tira da barra de minha roupa e coloquei-a ao comprido no ch\u00e3o. formando um \u00e2ngulo reto com a parede. Percorrendo as palpadelas o caminho em torno de meu calabou\u00e7o, ao terminar o circuito teria de encontrar o peda\u00e7o de fazenda. Foi, pelo menos, o que pensei; mas n\u00e3o levara em conta as dimens\u00f5es do calabou\u00e7o, nem a minha fraqueza. O ch\u00e3o era \u00famido e escorregadio. Cambaleante, dei alguns passos, quando, de repente, tropecei e ca\u00ed. Meu grande cansa\u00e7o fez com que permanecesse ca\u00eddo e, naquela posi\u00e7\u00e3o, o sono n\u00e3o tardou em apoderar-se de mim.<\/p>\n<p>Ao acordar e estender o bra\u00e7o, encontrei ao meu lado um peda\u00e7o de p\u00e3o e um p\u00facaro com \u00e1gua. Estava demasiado exausto para pensar em tais circunst\u00e2ncias, e bebi e comi avidamente. Pouco depois, reiniciei minha viagem em torno do calabou\u00e7o e, com muito esfor\u00e7o, consegui chegar ao peda\u00e7o de sarja. At\u00e9 o momento em que ca\u00ed, j\u00e1 havia contado cinq\u00fcenta e dois passos e, ao recome\u00e7ar a andar at\u00e9 chegar ao peda\u00e7o de pano, mais quarenta e oito. Portanto, havia ao todo cem passos e, supondo que dois deles fossem uma jarda, calculei em cerca de cinq\u00fcenta jardas a circunfer\u00eancia de meu calabou\u00e7o. No entanto, deparara com numerosos \u00e2ngulos na parede, e isso me impedia de conjeturar qual a forma da caverna, pois n\u00e3o havia d\u00favida alguma de que se tratava de uma caverna.<\/p>\n<p>Tais pesquisas n\u00e3o tinham objetivo algum e, certamente, eu n\u00e3o alimentava nenhuma esperan\u00e7a; mas uma vaga curiosidade me Ievava a continu\u00e1-las. Deixando a parede, resolvi atravessar a \u00e1rea de minha pris\u00e3o. A princ\u00edpio, procedi com extrema cautela, pois o ch\u00e3o, embora aparentemente revestido de material s\u00f3lido, era trai\u00e7oeiro, devido ao limo. Por fim, ganhei coragem e n\u00e3o hesitei em pisar com firmeza, procurando seguir cm linha t\u00e3o reta quanto poss\u00edvel. Avancei, dessa maneira, uns dez ou doze passos, quando o que restava da barra de minhas vestes se emaranhou em minhas pernas. Pisei num peda\u00e7o da fazenda e ca\u00ed violentamente de bru\u00e7os.<\/p>\n<p>Na confus\u00e3o causada pela minha queda, n\u00e3o reparei imediatamente numa circunst\u00e2ncia um tanto surpreendente, a qual, no entanto, decorridos alguns instantes, enquanto me encontrava ainda estirado, me chamou a aten\u00e7\u00e3o. Era que o meu queixo estava apoiado sobre o ch\u00e3o da pris\u00e3o, mas os meus l\u00e1bios e a parte superior de minha cabe\u00e7a, embora me parecessem colocados numa posi\u00e7\u00e3o menos elevada do que o queixo, n\u00e3o tocavam em nada. Por outro lado, minha testa parecia banhada por um vapor pegajoso, e um cheiro caracter\u00edstico de cogumelos em decomposi\u00e7\u00e3o me chegou \u00e0s narinas. Estendi o bra\u00e7o para a frente e tive um estremecimento, ao verificar que ca\u00edra bem junto \u00e0s bordas de um po\u00e7o circular cuja circunfer\u00eancia, naturalmente, n\u00e3o me era poss\u00edvel verificar no momento. Apalpando os tijolos, pouco abaixo da boca do po\u00e7o, consegui deslocar um pequeno fragmento e deixei-o cair no abismo. Durante alguns segundos, fiquei atento aos seus ru\u00eddos, enquanto, na queda, batia de encontro \u00e0s paredes do po\u00e7o; por fim, ouvi um mergulho surdo na \u00e1gua, seguido de ecos fortes. No mesmo momento, ouvi um som que se assemelhava a um abrir e fechar de porta. acima de minha cabe\u00e7a, enquanto um d\u00e9bil raio de luz irrompeu subitamente atrav\u00e9s da escurid\u00e3o e se extinguiu de pronto.<\/p>\n<p>Percebi claramente a armadilha que me estava prepa-rada, e congratulei-me comigo mesmo pelo oportuno acidente que me fizera escapar de tal destino. Outro passo antes de minha queda, e o mundo jamais me veria de novo. E a morte de que escapara por pouco era daquelas que eu sempre considerara como fabulosas e fr\u00edvolas nas narra\u00e7\u00f5es que diziam respeito \u00e0 Inquisi\u00e7\u00e3o. Para as v\u00edtimas de sua tirania, havia a escolha entre a morte com as suas ang\u00fastias f\u00edsicas imediatas e a morte com os seus espantosos horrores morais. Eu estava destinado a esta \u00faltima. Devido aos longos sofrimentos, meus nervos estavam \u00e0 flor da pele, a ponto de tremer ao som de minha pr\u00f3pria voz, de modo que era, sob todos os aspectos, uma v\u00edtima adequada para a esp\u00e9cie de tortura que me aguardava.<\/p>\n<p>Tremendo dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a, voltei, \u00e0s apalpadelas, at\u00e9 a parede, resolvido antes a ali perecer do que a arrostar os terrores dos po\u00e7os, que a minha imagina\u00e7\u00e3o agora pintava. em v\u00e1rios lugares do calabou\u00e7o. Em outras condi\u00e7\u00f5es de esp\u00edrito, poderia ter tido a coragem de acabar de vez com a minha mis\u00e9ria, mergulhando num daqueles po\u00e7os; mas eu era, ent\u00e3o, o maior dos covardes. Tampouco podia esquecer o que lera a respeito daqueles po\u00e7os: que a s\u00fabita extin\u00e7\u00e3o da vida n\u00e3o fazia parte dos planos de meus algozes.<\/p>\n<p>A agita\u00e7\u00e3o em que se debatia o meu esp\u00edrito fez-me permanecer acordado durante longas horas; contudo, acabei por adormecer de novo. Ao acordar, encontrei ao meu lado, como antes, um p\u00e3o e um p\u00facaro com \u00e1gua. Consumia-me uma sede abrasadora, e esvaziei o recipiente de um gole s\u00f3. A \u00e1gua devia conter alguma droga, pois, mal acabara de beber, tornei-me irresistivelmente sonolento. Invadiu-me profundo sono \u2013 um sono como o da morte. Quanto tempo aquilo durou, certamente, n\u00e3o posso dizer; mas, quando tornei a abrir os olhos, os objetos em torno eram vis\u00edveis. Um forte clar\u00e3o cor de enxofre, cuja origem n\u00e3o pude a princ\u00edpio determinar, permitia-me ver a extens\u00e3o e o aspecto da pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Quanto ao seu tamanho, enganara-me completamente. A extens\u00e3o das paredes, em toda a sua. volta, n\u00e3o passava. de vinte e cinco jardas. Durante alguns minutos, tal fato me causou um mundo de preocupa\u00e7\u00f5es in\u00fateis. In\u00fateis, de fato, pois o que poderia ser menos importante, nas circunst\u00e2ncias em que me encontrava, do que as simples dimens\u00f5es de minha cela? Mas minha alma se interessava vivamente por coisas insignificantes, e eu me empenhava em explicar a mim mesmo o erro cometido em meus c\u00e1lculos. Por fim, a verdade fez-se-me subitamente clara. Em minha primeira tentativa de explora\u00e7\u00e3o, eu contara cinq\u00fcenta e dois passos at\u00e9 o momento em que ca\u00ed; devia estar, ent\u00e3o, a um ou dois passos do peda\u00e7o de sarja; na verdade, havia quase completado toda a volta do calabou\u00e7o. Nessa altura, adormeci e, ao despertar, devo ter voltado sobre meus pr\u00f3prios passos \u2013 supondo, assim, que o circuito do calabou\u00e7o era quase o dobro do que realmente era. A confus\u00e3o de esp\u00edrito em que me encontrava impediu-me de notar que come\u00e7ara a volta seguindo a parede pela esquerda, e que a terminara seguindo-a para a direita.<\/p>\n<p>Enganara-me, tamb\u00e9m, quanto ao formato da cela. Ao seguir o meu caminho, deparara com muitos \u00e2ngulos, o que me deu id\u00e9ia de grande irregularidade, t\u00e3o poderoso \u00e9 o efeito da escurid\u00e3o total sobre algu\u00e9m que desperta do sono ou de um estado de torpor! Os \u00e2ngulos n\u00e3o passavam de umas poucas reentr\u00e2ncias, ou nichos, situadas em intervalos iguais. A forma geral da pris\u00e3o era retangular. O que me parecera alvenaria, parecia-me, agora, ferro, ou algum outro metal, disposto em enormes pranchas, cujas suturas ou juntas produziam as depress\u00f5es. Toda a superf\u00edcie daquela constru\u00e7\u00e3o met\u00e1lica era revestida grosseiramente de v\u00e1rios emblemas horrorosos e repulsivos nascidos das supersti\u00e7\u00f5es sepulcrais dos monges. Figuras de dem\u00f4nios de aspectos amea\u00e7adores, com formas de esqueleto, bem como outras imagens ainda mais terr\u00edveis, enchiam e desfiguravam as paredes. Observei que os contornos de tais monstruosidades eram bastante n\u00edtidos, mas que as cores pareciam desbotadas e apagadas, como por efeito da umidade. Notei, ent\u00e3o, que o piso era de pedra. Ao centro, abria-se o po\u00e7o circular de cujas fauces eu escapara \u2013 mas era o \u00fanico existente no calabou\u00e7o.<\/p>\n<p>Vi tudo isso confusamente e com muito esfor\u00e7o, pois minha condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica mudara bastante durante o sono. Estava agora estendido de costas numa esp\u00e9cie de andaime de madeira muito baixo, ao qual me achava fortemente atado por uma longa tira de couro. Esta dava muitas voltas em torno de meus membros e de meu corpo, deixando apenas livre a minha cabe\u00e7a e o meu bra\u00e7o esquerdo, de modo a permitir que eu, com muito esfor\u00e7o, me servisse do aumento que se achava sobre um prato de barro, colocado no ch\u00e3o. Vi, horrorizado, que o p\u00facaro havia sido retirado, pois uma sede intoler\u00e1vel me consumia. Pareceu-me que a inten\u00e7\u00e3o de meus verdugos era exasperar essa sede, j\u00e1 que o alimento que o prato continha consistia de carne muita salgada.<\/p>\n<p>Levantei os olhos e examinei o teto de minha pris\u00e3o. Tinha de nove a doze metros de altura e o material de sua constru\u00e7\u00e3o assemelhava-se ao das paredes laterais. Chamou-me a aten\u00e7\u00e3o uma de suas figuras, bastante singular. Era a figura do Tempo, tal como \u00e9 comumente representado, salvo que, em lugar da foice, segurava algo que me pareceu ser, ao primeiro olhar, um imenso p\u00eandulo, como esses que vemos nos rel\u00f3gios antigos. Havia alguma coisa, por\u00e9m, na apar\u00eancia desse objeto, que me fez olh\u00e1-lo com mais aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto a observava diretamente, olhando para cima, pois se achava colocada exatamente sobre minha cabe\u00e7a, tive a impress\u00e3o de que o p\u00eandulo se movia. Um instante depois, vi que minha impress\u00e3o se confirmava. Seu oscilar era curto e, por conseguinte, lento. Observei-o, durante alguns minutos, com certo receio, mas, principalmente, com espanto. Cansado, por fim, de observar o seu mon\u00f3tono movimento, voltei o olhar para outros objetos existentes na cela.<\/p>\n<p>Um ligeiro ru\u00eddo atraiu-me a aten\u00e7\u00e3o e, olhando para o ch\u00e3o, vi que enormes ratos o atravessavam. Tinham sa\u00eddo do po\u00e7o, que ficava a direita. bem diante de meus olhos. Enquanto os olhava, sa\u00edam do po\u00e7o em grande n\u00famero, apressadamente, com olhos vorazes, atra\u00eddos pelo cheiro da carne. Foi preciso muito esfor\u00e7o e aten\u00e7\u00e3o de minha parte para afugent\u00e1-los.<\/p>\n<p>Talvez houvesse transcorrido meia hora, ou mesmo uma hora \u2013 pois n\u00e3o me era poss\u00edvel perceber bem a passa-gem do tempo -, quando levantei de novo os olhos para o teto. O que ent\u00e3o vi me deixou at\u00f4nito, perplexo. O oscilar do p\u00eandulo havia aumentado muito, chegando quase a uma jarda. Como conseq\u00fc\u00eancia natural, sua velocidade era tamb\u00e9m muito maior. Mas o que me perturbou, principal-mente, foi a id\u00e9ia de que havia, imperceptivelmente, descido. Observei, ent\u00e3o \u2013 tomado de um horror que bem se pode imaginar -, que a sua extremidade inferior era formada de uma lua crescente feita de a\u00e7o brilhante, de cerca de um p\u00e9 de comprimento de ponta a ponta. As pontas estavam voltadas pura cima e o fio inferior era, evidentemente, afiado como uma navalha. Tamb\u00e9m como uma navalha, parecia pesada e maci\u00e7a, alargando-se, desde o fio, numa estrutura larga e s\u00f3lida. Presa a cela havia um grosso cano de cobre, e tudo isso assobiava, ao mover-se no ar.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o me era poss\u00edvel alimentar qualquer d\u00favida quanto \u00e0 sorte que me reservara o terr\u00edvel engenho monacal de torturas. Os agentes da Inquisi\u00e7\u00e3o tinham conhecimento de que eu descobrira o po\u00e7o \u2013 o po\u00e7o cujos horrores haviam sido destinados a um herege t\u00e3o temer\u00e1rio quanto eu -, o po\u00e7o, imagem do inferno, considerado como a \u00daltima Tule de todos os seus castigos. Um simples acaso me impedira de cair no po\u00e7o, e eu sabia que a surpresa, ou uma armadilha que levasse ao supl\u00edcio constitu\u00edam uma parte importante de tudo o que havia de grotesco naqueles calabou\u00e7os de morte. Ao que parecia, tendo fracassado a minha queda no po\u00e7o, n\u00e3o fazia parte do plano demon\u00edaco o meu lan\u00e7amento no abismo e, assim, n\u00e3o havendo outra alternativa, aguardava-me uma forma mais suave de destrui\u00e7\u00e3o. Mais suave! Em minha ang\u00fastia, esbocei um sorriso ao pensar no emprego dessas palavras.<\/p>\n<p>Para que falar das longas, longas horas de horror mais do que mortal, durante as quais contei as r\u00e1pidas oscila\u00e7\u00f5es do a\u00e7o? Polegada a polegada, linha a linha, descia aos poucos, de um modo s\u00f3 percept\u00edvel a intervalos que para mim pareciam s\u00e9culos. E cada vez descia mais, descia mais!\u2026<\/p>\n<p>Passaram-se dias, talvez muitos dias, antes que chegasse a oscilar t\u00e3o perto de mim a ponto de me ser poss\u00edvel sentir o ar acre que deslocava. Penetrava-me as narinas o cheiro do a\u00e7o afiado. Rezei \u2013 cansando o c\u00e9u com as minhas preces \u2013 para que a sua descida fosse mais r\u00e1pida. Tomado de fren\u00e9tica loucura, esforcei-me para erguer o corpo e ir ao encontro daquela espantosa e oscilante cimitarra. Depois, de repente, apoderou-se de mim uma grande calma e permaneci sorrindo diante daquela morte cintilante, como uma crian\u00e7a diante de um brinquedo raro.<\/p>\n<p>Seguiu-se outro intervalo de completa insensibilidade -um intervalo muito curto, pois, ao voltar de novo \u00e0 vida, n\u00e3o me pareceu que o p\u00eandulo houvesse descido de maneira percept\u00edvel. Mas \u00e9 poss\u00edvel que haja decorrido muito tempo; sabia que existiam seres infernais que tomavam nota de meus desfalecimentos e podiam deter, \u00e0 vontade, o movimento do p\u00eandulo. Ao voltar a mim, senti um mal-estar \u00e9 uma fraqueza indescrit\u00edveis, como se estivesse a morrer de inani\u00e7\u00e3o. Mesmo entre todas as ang\u00fastias por que esta-va passando, a natureza humana ansiava por alimento. Com penoso esfor\u00e7o, estendi o bra\u00e7o esquerdo tanto quanto me permitiam as ataduras e apanhei um resto de comida que conseguira evitar que os ratos comessem. Ao levar um bocado \u00e0 boca, passou-me pelo esp\u00edrito um vago pensamento de alegria\u2026 de esperan\u00e7a. N\u00e3o obstante, .que \u00e9 que tinha com a ver com a esperan\u00e7a? Era, como digo, um pensamento vago \u2013 desses que ocorrem a todos com freq\u00fc\u00eancia, mas que n\u00e3o se completam. Mas senti que era de alegria, de esperan\u00e7a. Como senti, tamb\u00e9m, que se extinguira antes de formar-se. Esforcei-me em v\u00e3o por complet\u00e1-lo\u2026 por reconquist\u00e1-lo. Meus longos sofrimentos haviam quase aniquilado todas as Faculdades de meu esp\u00edrito. Eu era um imbecil, um idiota.<\/p>\n<p>A oscila\u00e7\u00e3o do p\u00eandulo se processava num plano que tormava um \u00e2ngulo reto com o meu corpo. Vi que a l\u00e2mina fora colocada de modo a atravessar-me a regi\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o. Rasgaria a ininha roupa, voltaria e repetiria a opera\u00e7\u00e3o\u2026 de novo, de novo. Apesar da grande extens\u00e2o do espa\u00e7o percorrido \u2013 uns trinta p\u00e9s, mais ou menos \u2013 e da sibilante energia de sua oscila\u00e7\u00e3o, suficiente para partir ao meio aquelas pr\u00f3prias paredes de ferro, tudo o que podia fazer, durante v\u00e1rios minutos, seria apenas rasgar as minhas roupas. E, ao pensar nisso, detive-me. N\u00e3o ousava ir al\u00e9m de tal reflex\u00e3o. Insisti sobre ela com toda aten\u00e7\u00e3o, como se com essa insist\u00eancia pudesse parar ali a descida da l\u00e2mina. Comecei a pensar no som que produziria ao passar pelas minhas r\u00f3upas, bem como na estranha e arrepiante sensa\u00e7\u00e3o que o rasgar de uma fazenda produz sobre os nervos. Pensei em todas essas coisas fazendo os dentes rangerem, de t\u00e3o contra\u00eddos.<\/p>\n<p>Descia\u2026 cada vez descia mais a l\u00e2mina. Sentia um prazer fren\u00e9tico ao comparar sua velocidade de cima a baixo com a sua velocidade lateral. Para a direita\u2026 para a esquerda\u2026 num amplo oscilar\u2026 com o grito agudo de uma alma penada; para o meu cora\u00e7\u00e3o, com o passo furtivo de um tigre! Eu ora ria, ora uivava, quando esta ou aquela id\u00e9ia se tornava predominante.<\/p>\n<p>Sempre para baixo\u2026 certa e inevitavelmente! Movia-se, agora, a tr\u00eas polegadas do meu peito! Eu lutava violentamente, furiosamente. para livrar o bra\u00e7o esquerdo. Este estava livre apenas desde o cotovelo at\u00e9 a m\u00e3o. Podia mover a m\u00e3o, com grande esfor\u00e7o, apenas desde o prato, que haviam colocado ao meu lado, at\u00e9 a boca. Nada mais. Se houvesse podido romper as ligaduras acima do cotovelo, teria apanhado o p\u00eandulo e tentado det\u00ea-lo. Mas isso seria o mesmo que tentar deter uma avalancha!<\/p>\n<p>Sempre mais baixo, incessantemente, inevitavelmente mais baixo! Arquejava e me debatia a cada vibra\u00e7\u00e3o. Encolhia-me convulsivamente a cada oscila\u00e7\u00e3o. Meus olhos seguiam as subidas e descidas da l\u00e2mina com a ansiedade do mais completo desespero; fechavam-se espasmodicamente a cada descida, como se a morte houvesse sido um al\u00edvio\u2026 oh, que al\u00edvio indiz\u00edvel! N\u00e3o obstante, todos os meus nervos tremiam. \u00e0 id\u00e9ia de que bastaria que a m\u00e1quina descesse um pouco mais para que aquele machado afiado e reluzente se precipitasse sobre o meu peito. Era a esperan\u00e7a que fazia com que meus nervos estremecessem, com que todo o meu corpo se encolhesse. Era a esperan\u00e7a \u2013 a esperan\u00e7a que triunfa mesmo sobre o supl\u00edcio -, a que sussurrava aos ouvidos dos condenados \u00e0 morte, mesmo nos calabou\u00e7os da Inquisi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vi que mais umas dez ou doze oscila\u00e7\u00f5es poriam o a\u00e7o em contato imediato com as minhas roupas e, com essa observa\u00e7\u00e3o, invadiu-me o esp\u00edrito toda a calma condensada e viva do desespero. Pela primeira vez durante muitas horas \u2013 ou, talvez dias \u2013 consegui pensar. Ocorreu-me, ent\u00e3o, que a tira ou correia que me envolvia o corpo era inteiri\u00e7a. N\u00e3o estava amarrada por meio de cordas isoladas.<\/p>\n<p>O primeiro golpe da l\u00e2mina em forma. de meia lua sobre qualquer lugar da correia a desataria, de modo a permitir que minha m\u00e3o a desenrolasse de meu corpo. Mas como era terr\u00edvel, nesse caso, a sua proximidade. O resultado do mais leve movimento, de minha parte, seria mortal! Por outro lado, acaso os sequazes do verdugo n\u00e3o teriam previsto e impedido tal possibilidade? E seria prov\u00e1vel que a correia que me atava atravessasse o meu peito justamente no lugar em. que o p\u00eandulo passaria? Temendo ver frustrada essa minha fraca e, ao que parecia, \u00faltima esperan\u00e7a, levantei a cabe\u00e7a o bastante par ver bem o meu peito. A correia, envolvia-me os membros e o corpo fortemente em todas as dire\u00e7\u00f5es, menos no lugar em que deveria passar a l\u00e2mina assassina.<\/p>\n<p>Mal deixei cair a cabe\u00e7a em sua posi\u00e7\u00e3o anterior, quando senti brilhar em meu esp\u00edrito algo que s\u00f3 poderia descrever proximadamente, dizendo que era como que a metade n\u00e3o formada da id\u00e9ia de liberdade a que aludi anteriormente, e da qual apenas uma parte flutuou vaga-mente em meu esp\u00edrito quando levei o alimento aos meus l\u00e1bios febris. Agora, todo o pensamento estava ali presente \u2013 d\u00e9bil, quase insensato, quase indefinido -, mas, de qualquer maneira, completo. Procurei imediatamente, com toda a energia nervosa do desespero, p\u00f4-lo em execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Havia v\u00e1rias horas, um n\u00famero enorme de ratos se agitava junto do catre em que me achava estendido. Eram temer\u00e1rios, ousados, vorazes; fitavam sobre mim os olhos vermelhos, como se esperassem apenas minha imobilidade para fazer-me sua presa. \u201cA que esp\u00e9cie de alimento\u201d, pensei, \u201cest\u00e3o eles habituados no po\u00e7o?\u201d Haviam devorado, apesar de todos os meus esfor\u00e7os para o impedir, quase tudo o alimento que se encontrava no prato, salvo uma pequena parte. Minha m\u00e3o se acostumara a um movimento oscilat\u00f3rio sobre o prato e, no fim, a uniformidade inconsciente de tal movimento deixou de produzir efeito. Em sua veracidade, cravavam freq\u00fcentemente em meus dedos os dentes agudos. Com o resto da carne oleosa e picante que ainda sobrava. esfreguei fortemente, at\u00e9 o ponto em que podia alcan\u00e7\u00e1-la, a correia com que me haviam atado. Depois, erguendo a m\u00e3o do ch\u00e3o, permaneci im\u00f3vel, quase sem respirar.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio, os vorazes animais ficaram surpresos c aterrorizados com a mudan\u00e7a verificada \u2013 com a cessa\u00e7\u00e3o de qualquer movimento. Mas isso apenas durante um momento. N\u00e3o fora em v\u00e3o que eu contara com a sua voracidade. Vendo que eu permanecia im\u00f3vel, dois ou tr\u00eas dos mais ousados soltaram sobre o catre e puseram-se a cheirar a correia. Dir-se-ia que isso foi o sinal para a investida geral. Vindos da parede, arremeteram em novos bandos. Agarraram-se ao estrado, galgaram-no e pularam. as centenas sobre o meu corpo. O movimento r\u00edtmico do p\u00eandulo n\u00e3o os perturbava de maneira alguma. Evitando seus golpes, atiraram-se \u00e0 correia besuntada. Apertavam-se, amontoavam-se sobre mim. Contorciam-se sobre meu pesco\u00e7o; seus focinhos, frios. procuravam meus l\u00e1bios. Sentia-me quase sufocado sob o seu peso. Um asco espantoso, para o qual n\u00e3o existe nome, enchia-me o peito e gelava-me, com pegajosa umidade, o cora\u00e7\u00e3o. Mais um minuto, e percebia que a opera\u00e7\u00e3o estaria terminada. Sentia claramente que a correia afrouxava. Sabia que, em mais de um lugar, j\u00e1 devia estar completamente partida. Com uma determina\u00e7\u00e3o sobre-humana continuei im\u00f3vel.<\/p>\n<p>N\u00e3o errei em meus c\u00e1lculos; todos esses sofrimentos n\u00e3o foram em v\u00e3o. Senti, afinal, que estava livre. A correia pendia, em peda\u00e7os, de meu corpo. Mas o movimento do p\u00eandulo j\u00e1 se realizava sobre o meu peito. Tanto a sarja da minha roupa, como a camisa que vestia j\u00e1 haviam sido cortadas. O p\u00eandulo oscilou ainda por duas vezes, e uma dor aguda me penetrou todos os nervos. Mas chegara o momento da salva\u00e7\u00e3o. A um gesto de minha m\u00e3o, meus libertadores fugiram tumultuosamente. Com um movimento decidido, mas cauteloso, deslizei encolhido, lentamente, para o lado, livrando-me das correias e da l\u00e2mina da cimi-tarra. Pelo menos naquele momento, estava livre.<\/p>\n<p>Livre! E nas garras da Inquisi\u00e7\u00e3o! Mal havia escapado daquele meu leito de horror e dado uns passos pelo piso de pedra da pris\u00e3o, quando cessou o movimento da m\u00e1-quina infernal e eu a vi subir, como que atra\u00edda por alguma for\u00e7a invis\u00edvel, para o teto. Aquela foi uma li\u00e7\u00e3o que guardei desesperadamente no cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o havia d\u00favida de que os meus menores gestos eram observados. Livre! Escapara por pouco \u00e0 morte numa determinada forma de agonia, apenas para ser entregue a uma outra, pior do que a morte. Com este pensamento, volvi os olhos, nervosamente, para as paredes de ferro que me cercavam. Algo estranho \u2013 uma mudan\u00e7a que, a princ\u00edpio, n\u00e3o pude apreciar claramente \u2013 havia ocorrido, evidentemente, em minha cela. Durante muitos minutos de tr\u00eamula abstra\u00e7\u00e3o, perdi-me em conjeturas v\u00e3s e incoerentes. Pela primeira vez percebi a origem da luz sulfurosa que alumiava a cela. Procedia de uma fenda, de cerca de meia polegada de largura, que se estendia em torno do calabou\u00e7o, junto a base das paredes, que pareciam, assim, e, na verdade estavam, completamente separadas do solo. Procurei, inutilmente, olhar atrav\u00e9s dessa abertura.<\/p>\n<p>Ao levantar-me, depois dessa tentativa, o mist\u00e9rio da modifica\u00e7\u00e3o verificada tornou-se-me, subitamente, claro. J\u00e1 observara que, embora os contornos dos desenhos das paredes fossem bastante n\u00edtidos, suas cores, n\u00e3o obstante, pareciam apagadas e indefinidas. Essas cores, agora, haviam adquirido, e estavam ainda adquirindo, um brilho intenso e surpreendente, que dava \u00e0s imagens fant\u00e1sticas e diab\u00f3licas um aspecto que teria arrepiado nervos mais firmes do que os meus. Olhos demon\u00edacos, de uma vivacidade sinistra e feroz, cravavam-se em mim de todos os lados, de lugares onde antes nenhum deles era vis\u00edvel, com um brilho amea\u00e7ador que eu, em v\u00e3o, procurei considerar como irreal.<\/p>\n<p>Irreal! Bastava-me respirar para que me chegasse \u00e0s narinas o vapor de ferros em brasa! Um cheiro sufocante invadia a pris\u00e3o! Um brilho cada vez mais profundo se fixava nos olhos cravados em minha agonia! Um vermelho mais vivo estendia-se sobre aquelas pinturas horrorosas e sangrentas. Eu arquejava. Respirava com dificuldade. N\u00e3o poderia haver d\u00favida quanto \u00e0 inten\u00e7\u00e3o de meus verdugos, os mais implac\u00e1veis, os mais demon\u00edacos de todos os ho-mens! Afastei-me do metal incandescente,colocando-me ao centro da cela. Ante a perspectiva da morte pelo fogo,que me aguardava, a id\u00e9ia da frescura do po\u00e7o chegou \u00e0 minha alma como um b\u00e1lsamo. Precipitei-me para as suas bordas mortais. Lancei o olhar para o fundo. O resplendor da ab\u00f3bada iluminava as suas cavidades mais profundas. N\u00e3o obstante, durante um minuto de desvario, meu esp\u00edrito se recusou a compreender o significado daquilo que eu via. Por fim, aquilo penetrou, \u00e0 for\u00e7a, em minha alma, gravando-se a fogo em minha tr\u00eamula raz\u00e3o. Oh, indescrit\u00edvel! Oh, horror dos horrores! Com um grito, afastei-me do po\u00e7o e afundei o rosto nas m\u00e3os, a solu\u00e7ar amargamente.<\/p>\n<p>O calor aumentava rapidamente e, mais uma vez, olhei para cima, sentindo um calafrio. Operara-se uma grande mudan\u00e7a na cela \u2013 e, dessa vez, a mudan\u00e7a era, evidentemente, de forma. Como acontecera antes, procurei inutilmente apreciar ou compreender o que ocorria. Mas n\u00e3o me deixaram muito tempo em d\u00favida. A vingan\u00e7a da Inquisi\u00e7\u00e3o se exacerbara por eu a haver frustrado por duas vezes \u2013 e n\u00e3o mais permitiria que zombasse dela! A cela, antes, era quadrada. Notava, agora, que dois de seus \u00e2ngulos de ferro eram agudos, sendo os dois outros, por conseguinte, obtusos. Com um ru\u00eddo surdo, gemente, aumentava rapidamente o terr\u00edvel contraste. Num instante, a cela adquirira a forma de um losango. Mas a modifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o parou a\u00ed \u2013 nem eu esperava ou desejava que parasse. Poderia haver apertado as paredes incandescentes de encontro ao peito, como se fossem uma vestimenta de eterna paz. \u201cA morte\u201d, disse de mim para comigo. \u201cQualquer morte, menos a do po\u00e7o!\u201d Insensato! Como n\u00e3o pude compreender que era para o po\u00e7o que o ferro em brasa me conduzia? Resistiria eu ao seu calor? E, mesmo que resistisse, suporturia sua press\u00e3o? E cada vez o losango se aproximava mais, com uma rapidez que n\u00e3o me deixava tempo para pensar. Seu centro e, naturalmente, a sua parte mais larga chegaram at\u00e9 bem junto do abismo aberto. Recuei, mas as paredes, que avan\u00e7avam, me empurravam, irresistivelmente, para a frente. Por fim, j\u00e1 n\u00e3o existia, para o meu corpo chamuscado e contorcido, sen\u00e3o um ex\u00edguo lugar para firmar os p\u00e9s, no solo da pris\u00e3o. Deixei de lutar, mas a ang\u00fastia de minha alma se extravasou em forte e prolongado grito de desespero. Senti que vacilava \u00e0 boca do po\u00e7o, e desviei os olhos\u2026 Mas ouvi, ent\u00e3o, um ru\u00eddo confuso de vozes humanas! O som vibrante de muitas trombetas! E um rugido poderoso, como de mil trov\u00f5es, atroou os ares! As paredes de fogo recuaram precipitadamente! Um bra\u00e7o estendido agarrou o meu, quando eu, j\u00e1 quase desfalecido, ca\u00eda no abismo. Era o bra\u00e7o do General Lassalle. O ex\u00e9rcito franc\u00eas entrara em Toledo. A Inquisi\u00e7\u00e3o estava nas m\u00e3os de seus inimigos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estava exausto, mortalmente exausto com aquela longa agonia e, quando por fim me desamarraram e pude sentar-me, senti que perdia os sentidos. 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