{"id":656,"date":"2018-07-09T03:11:21","date_gmt":"2018-07-09T03:11:21","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=656"},"modified":"2018-07-09T03:11:38","modified_gmt":"2018-07-09T03:11:38","slug":"historia-de-alibe-o-persa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/historia-de-alibe-o-persa","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria de Alibe, o Persa"},"content":{"rendered":"<p>O X\u00e1 Abas, rei da P\u00e9rsia, durante uma viagem, distanciou-se de todo o seu s\u00e9quito a fim de passar pelo campo sem ser reconhecido e para a\u00ed apreciar o povo em toda a sua liberdade natural; levou consigo apenas um de seus cortes\u00e3os. \u201cN\u00e3o conhe\u00e7o absolutamente, disse-lhe o soberano, os verdadeiros costumes dos homens; tudo o que de n\u00f3s se aproxima est\u00e1 disfar\u00e7ado. \u00c9 a arte, e n\u00e3o a simples natureza, que se nos apresenta. Quero estudar a vida r\u00fastica e ver essa esp\u00e9cie de homens que \u00e9 t\u00e3o desprezada, embora sejam o verdadeiro sustent\u00e1culo de toda sociedade humana. Estou enfadado de ver palacianos que me observam para me surpreender com lisonjas; preciso ver agricultores e pastores que n\u00e3o me conhe\u00e7am\u201d.<\/p>\n<p>Passou ele, com seu confidente, por muitas aldeias onde havia dan\u00e7as e maravilhava-se ao encontrar, longe dos pal\u00e1cios, prazeres tranq\u00fcilos e nada dispendiosos. Fez uma refei\u00e7\u00e3o numa cabana e, como estivesse com muita fome, ap\u00f3s haver andado mais que de costume, os simples alimentos que a\u00ed encontrou souberam-lhe melhor que todas as finas iguarias de sua mesa. Ao passar numa campina matizada de flores, marginada por l\u00edmpido regato, avistou um pastorzinho que tocava flauta \u00e0 sombra de um grande olmo, junto a seus carneiros; aproximou-se dele, observou-o, achou-lhe uma fisionomia agrad\u00e1vel, um ar simples e ing\u00eanuo, mas nobre e gracioso.<\/p>\n<p>Os trapos que o pastor vestia em nada empanavam o brilho de sua beleza. O rei julgou, a principio, que fosse algu\u00e9m de nascimento ilustre que se houvesse disfar\u00e7ado, mas soube pelo pastor que seu pai e sua m\u00e3e habitavam uma aldeia pr\u00f3xima e que seu nome era Alibe.<\/p>\n<p>A medida que o soberano o interrogava, ia apreciando nele um esp\u00edrito firme e sensato. Seus olhos eram vivos e nada possu\u00edam de violento ou selvagem; a voz era doce, insinuante e pr\u00f3pria para sensibilizar. O rosto nada possu\u00eda de r\u00fastico, mas sua beleza n\u00e3o era uma beleza indolente, afeminada. O pastor, de dezesseis anos aproximadamente, n\u00e3o sabia que era assim como os outros o viam; julgava pensar, falar, ser, enfim, como todos os outros pastores de sua aldeia; mas, sem educa\u00e7\u00e3o, aprendera tudo que a raz\u00e3o ensina \u00e0queles que a ouvem. O soberano, depois de conversar com ele familiarmente, sentiu-se encantado; foi por ele informado das condi\u00e7\u00f5es dos povos, de tudo que os reis nunca v\u00eam a saber da multid\u00e3o de bajuladores que os rodeia. De vez em quando se ria da ingenuidade daquela crian\u00e7a que se expressava com absoluta liberdade; era uma grande novidade para o rei ouvir algu\u00e9m falar t\u00e3o espontaneamente. Fez sinal ao cortes\u00e3o que o acompanhava para n\u00e3o dizer quem ele era; porque temia que Alibe perdesse num instante toda a sua naturalidade e seu encanto, caso soubesse com quem falava.<\/p>\n<p>\u201cBem vejo, dizia o pr\u00edncipe ao cortes\u00e3o, que a natureza n\u00e3o \u00e9 menos bela nas condi\u00e7\u00f5es mais humildes que nas mais eminentes. Jamais filho algum de rei me pareceu melhor nascido que este guardador de carneiros; sentir-me-ia muito feliz em ter um filho t\u00e3o belo, t\u00e3o sensato, t\u00e3o am\u00e1vel. Parece-me apto para tudo e, caso se tenha o cuidado de instru\u00ed-lo, certamente ser\u00e1, algum dia um grande homem; quero que seja educado junto a mim.\u201d<\/p>\n<p>O rei levou Alibe, que muito surpreso ficou quando soube a quem havia agradado. Ensinaram-lhe a ler, a escrever, a cantar e deram-lhe depois professores das artes e ci\u00eancias que adornam o esp\u00edrito. A princ\u00edpio ficou um tanto maravilhado com a corte, e a grande modifica\u00e7\u00e3o do seu destino lhe afetou um tanto o cora\u00e7\u00e3o. Sua idade e a valia de que desfrutava, reunidas, alteraram um pouco sua sabedoria e sua modera\u00e7\u00e3o; ao inv\u00e9s do seu cajado, da sua flauta e do seu traje de pastor, vestiu um traje de p\u00farpura bordado a ouro com um turbante coberto de pedrarias. Sua beleza superou tudo que a corte possu\u00eda de mais agrad\u00e1vel; ele se tornou apto para os neg\u00f3cios mais s\u00e9rios e mereceu a confian\u00e7a de seu senhor que, conhecendo o gosto requintado de Alibe por todas as magnific\u00eancias de um pal\u00e1cio, acabou dando-lhe um cargo muito importante na P\u00e9rsia, qual seja o de guardar tudo que o pr\u00edncipe possui em pedrarias e em alfaias de valor.<\/p>\n<p>Durante toda a vida do grande x\u00e1 Abas, a valia de Alibe n\u00e3o cessou de aumentar. A medida que ele ia alcan\u00e7ando idade mais madura, mais se lembrava de sua condi\u00e7\u00e3o antiga e muitas vezes dela sentia saudade: \u2018\u00d3 belos dias, dizia consigo, dias inocentes, dias em que desfrutei uma alegria pura e sem perigo, dias depois dos quais outros n\u00e3o tive t\u00e3o apraz\u00edveis, ser\u00e1 que n\u00e3o vos tornarei a ver? Aquele que de v\u00f3s me privou, ao me dar tantas riquezas, privou-me de tudo.\u201d Quis rever sua aldeia; comoveu-se em todos os lugares onde outrora dan\u00e7ara, cantara, tocara flauta com seus companheiros. Fez algum bem a todos os seus parentes e amigos; mas almejou-lhes como principal felicidade, que jamais deixassem a vida campestre e nunca experimentassem as desditas da corte.<\/p>\n<p>Tais desditas ele as sentiu, ap\u00f3s a morte do seu bom senhor o x\u00e1 Abas. A este sucedeu o filho, x\u00e1 Sefi. Cortes\u00e3os invejosos e dominados pela ambi\u00e7\u00e3o acharam meios e modos de preveni-lo contra Alibe: \u201cEle abusou, diziam, da confian\u00e7a do falecido rei; acumulou tesouros imensos e desviou muitas coisas de alt\u00edssimo valor, das quais era o deposit\u00e1rio.\u201d O x\u00e1 Sefi era jovem e pr\u00edncipe; tanto n\u00e3o era necess\u00e1rio para ser cr\u00e9dulo, desatento e incauto. Teve a vaidade de querer parecer reformar aquilo que o rei seu pai fizera, e julgar melhor que ele. A fim de ter um pretexto de destituir Alibe de seu cargo, pediu-lhe, a conselho de seus cortes\u00e3os invejosos, que lhe levasse uma cimitarra guarnecida de diamantes, de imenso valor, que o rei seu av\u00f4 costumava cingir nos combates. O x\u00e1 Abas mandara outrora tirar dessa cimitarra todos os seus belos diamantes e Alibe provou, com boas testemunhas, que tal coisa fora feita por ordem do falecido rei, antes de lhe ser dado o cargo.<\/p>\n<p>Quando os inimigos de Alibe viram que n\u00e3o mais podiam servir-se desse pretexto para perd\u00ea-lo, aconselharam ao x\u00e1 Sefi que lhe pedisse para fazer, dentro de quinze dias, um invent\u00e1rio rigoroso de todas as alfaias preciosas, cuja guarda lhe incumbia. Ao cabo de quinze dias, pediu para ver pessoalmente todas as coisas. Alibe abriu-lhe todas as portas e mostrou-lhe tudo que ele guardava. Nada faltava: tudo estava limpo, bem arrumado e conservado com muito zelo. O rei, muito surpreso de encontrar por toda parte tanta ordem e cuidado, quase modificara sua disposi\u00e7\u00e3o a favor de Alibe, quando avistou, na extremidade de uma grande galeria cheia de espl\u00eandidas alfaias; uma porta de ferro, com tr\u00eas enormes fechaduras. \u201c\u2018\u00c9 a\u00ed, disseram-lhe ao ouvido os cortes\u00e3os invejosos, que Alibe escondeu todas as coisas preciosas que desviou. \u201cLogo o rei gritou encolerizado: \u201cQue guardou a\u00ed? Mostre-mo!\u201d<\/p>\n<p>A essas palavras Alibe atirou-se a seus p\u00e9s, suplicando-lhe, em nome de Deus, que n\u00e3o lhe tirasse o que ele possu\u00eda de mais precioso sobre a terra: N\u00e3o \u00e9 justo que eu perca num momento o que me resta e que representa meu derradeiro recurso, ap\u00f3s haver trabalhado tantos anos junto ao rei seu pai. Tirai, se quiserdes, o restante, mas deixai-me isso.\u201d<\/p>\n<p>O rei n\u00e3o teve a menor d\u00favida de que se tratava de um tesouro mal adquirido que Alibe reunira; falou em tom mais alto e fez absoluta quest\u00e3o de que lhe abrissem a portar. Afinal, Alibe, que estava com a chave, abriu-a pessoalmente. Depararam apenas com o cajado, a flauta e o traje de pastor que Alibe possu\u00edra outrora, e que muitas vezes revia com j\u00fabilo, receoso de esquecer sua primitiva condi\u00e7\u00e3o: \u201cEis, disse, \u00f3 grande rei, os preciosos restos de minha antiga felicidade; nem a fortuna, nem vosso poder, puderam privar-me deles; eis meu tesouro que conservo para me enriquecer, quando me tiverdes tornado pobre. Retomai tudo o mais, deixai-me estas queridas lembran\u00e7as de meu primeiro estado; ei-los, meus verdadeiros bens, que jamais me faltar\u00e3o. Ei-los, estes bens singelos, inocentes, sempre caros \u00e0queles que sabem contentar-se com o necess\u00e1rio, porque n\u00e3o se atormentam absolutamente com o sup\u00e9rfluo; ei-los, estes bens que nunca me causaram um instante de dificuldade; \u00f3 queridos instrumentos de uma vida simples e feliz! S\u00f3 a v\u00f3s amo, convosco \u00e9 que desejo viver e morrer. Porque foi preciso que outros bens enganadores me viessem iludir e perturbar minha vida? Eu vo-las restituo, grande rei, todas as riquezas que me vierem de vossa liberalidade; conservo apenas as que possu\u00eda quando o rei vosso pai, veio, com suas merc\u00eas, tornar-me infortunado.\u201d<\/p>\n<p>O rei, ao ouvir essas palavras, compreendeu a inoc\u00eancia de Alibe e indignando-se com os cortes\u00e3os que o quiseram perder, expulsou-os. Alibe tornou-se o seu principal auxiliar e foi incumbido dos neg\u00f3cios mais reservados. Mas todos os dias tornava a ver seu cajado, sua flauta e seu antigo traje, que conservava sempre prontos em seu tesouro, a fim de retom\u00e1-los, mal o destino inconstante perturbasse a sua situa\u00e7\u00e3o. Morreu, na extrema velhice, sem nunca ter querido, nem mandado punir seus inimigos, nem reunir fortuna alguma, deixando apenas a seus parentes o com que viverem na condi\u00e7\u00e3o de pastor, que lhe pareceu sempre a mais segura e a mais feliz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O X\u00e1 Abas, rei da P\u00e9rsia, durante uma viagem, distanciou-se de todo o seu s\u00e9quito a fim de passar pelo campo sem ser reconhecido e para a\u00ed apreciar o povo em toda a sua liberdade&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[25],"class_list":["post-656","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-fenelon"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/656","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=656"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/656\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":659,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/656\/revisions\/659"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=656"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=656"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=656"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}