{"id":660,"date":"2018-07-09T03:14:22","date_gmt":"2018-07-09T03:14:22","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=660"},"modified":"2018-07-09T03:14:22","modified_gmt":"2018-07-09T03:14:22","slug":"uma-arvore-de-natal-e-um-casamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/uma-arvore-de-natal-e-um-casamento","title":{"rendered":"Uma \u00c1rvore de Natal e um Casamento"},"content":{"rendered":"<p>Um dia destes, vi um casamento\u2026 mas n\u00e3o, prefiro falar-vos de uma \u00e1rvore de Natal. Achei o casamento bem bonito, mas a \u00e1rvore de Natal me agradou mais. Nem sei como, olhando para o casamento, me lembrei da \u00e1rvore. Eis como o caso se passou.<\/p>\n<p>H\u00e1 cerca de cinco anos fui convidado, na v\u00e9spera de Natal, para um baile infantil. A pessoa que me convidou era um conhecido homem de neg\u00f3cios, cheio de rela\u00e7\u00f5es e maquina\u00e7\u00f5es, e, assim, n\u00e3o se h\u00e1 de estranhar que o baile infantil servisse apenas de pretexto para os pais se reunirem e, no meio da multid\u00e3o, se ocuparem de seus interesses materiais com ar inocente e surpreendido.<\/p>\n<p>Como houvesse chegado ali por acaso e n\u00e3o tivesse nenhum assunto comum com os outros, passei a noite de maneira muito independente. Havia mais um cavalheiro que, como eu, n\u00e3o tinha, decerto, conhecidos no grupo, e participava casualmente da felicidade familiar. Ele deu-me na vista antes de todos. Era um homem alto, magro, muito s\u00e9rio, vestido muito decentemente. Notava-se que a felicidade da fam\u00edlia n\u00e3o lhe comunicava a menor alegria; mal se retirava a um cantinho, cessava de sorrir e franzia as sobrancelhas espessas e negras.<\/p>\n<p>Afora o dono da casa, n\u00e3o conhecia vivalma em todo o baile. Via-se que ele se entediava horrivelmente, mas que resolvera manter at\u00e9 o fim o papel do homem que se diverte e \u00e9 feliz. Soube depois que era um provinciano vindo \u00e0 capital a algum neg\u00f3cio importante e complicado. Trouxera carta de recomenda\u00e7\u00e3o para o nosso hospedeiro, que o protegia, por\u00e9m, n\u00e3o con amore, e o convidara, por cortesia, para o baile infantil. N\u00e3o jogavam cartas com o provinciano, ningu\u00e9m lhe oferecia um charuto nem com ele entabulava conversa\u00e7\u00e3o, talvez porque reconhecessem de longe o p\u00e1ssaro pela plumagem, e, deste modo, o meu cavalheiro via-se obrigado, para ter que fazer das m\u00e3os, a alisar a noite inteira as suas su\u00ed\u00e7as. Eram, ali\u00e1s, umas su\u00ed\u00e7as realmente belas \u2013 por\u00e9m ele as acariciava com tanto zelo que a gente, ao fit\u00e1-lo, sentia-se inclinada a pensar que primeiro vieram ao inundo as su\u00ed\u00e7as e s\u00f3 depois o homem, para cofi\u00e1-las, inserido entre elas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m desse personagem, que tomava parte na felicidade do dono da casa, pai de cinco garotos bem nutridos, do modo que acabo de relatar, outro conviva ca\u00edra no meu agrado. Mas este era de aspecto completamente diverso. Era um personagem a quem os outros chamavam Juli\u00e3o Mastakovitch. Percebia-se \u00e0 primeira vista que era ele o convidado de honra. Estava para o dono da casa como este para o cavalheiro que afagava as su\u00ed\u00e7as. o dono e a dona da casa falavam-lhe com amabilidade extraordin\u00e1ria, cortejavam-no, enchiam-lhe o copo, amimavam-no, e lhe apresentavam, recomendando-os, v\u00e1rios convidados, ao passo que a ele n\u00e3o o apresentavam a ningu\u00e9m. Notei at\u00e9 uma l\u00e1grima nos olhos do hospedeiro quando Juli\u00e3o Mastakovitch observou que raras vezes passara o tempo de maneira t\u00e3o agrad\u00e1vel como naquela noite. Comecei a sentir-me acabrunhad\u00edssimo em presen\u00e7a de semelhante figura, e, depois de haver admirado as crian\u00e7as, retirei-me a um pequeno sal\u00e3o, totalmente vazio, e fui sentar-me sob o florido caramanch\u00e3o da dona da casa, o qual ocupava quase a metade de toda a pe\u00e7a.<\/p>\n<p>Eram as crian\u00e7as incrivelmente gentis, e n\u00e3o queriam, apesar de todas as exorta\u00e7\u00f5es das mam\u00e3es e das governantas, parecer-se com as pessoas grandes. Num piscar de olho desmontaram toda a \u00e1rvore de Natal, e conseguiram quebrar a metade dos brinquedos antes mesmo de saber a quem eram destinados. Achei particularmente engra\u00e7ado um menino de olhos pretos e cabelos frisados que \u00e0 viva for\u00e7a me queria matar com a sua espingarda de pau. Entretanto, mais que todos, atra\u00eda-me a aten\u00e7\u00e3o sua irm\u00e3, menina de onze anos, um amor de crian\u00e7a, meiga, cismativa, p\u00e1lida, com grandes olhos sonhadores \u00e0 flor do rosto. Parecia<\/p>\n<p>que os amiguinhos a tinham ofendido, pois veio ao sal\u00e3o onde eu estava sentado e, a um cantinho. p\u00f4s-se a brincar com as suas bonecas. Os convidados apontavam, com respeito, um rico negociante, pai da menina, e algu\u00e9m observou, cochichando, que ela j\u00e1 tinha trezentos mil rublos reservados como dote. Voltei-me para ver quem se interessava por esses pormenores, e o meu olhar caiu sobre Juli\u00e3o Mastakovitch o qual, de m\u00e3os cruzadas atr\u00e1s das costas e inclinando a cabe\u00e7a para um lado, parecia acompanhar com particular aten\u00e7\u00e3o o mexerico de alguns senhores. Pouco depois, n\u00e3o pude furtar-me a admirar a sabedoria dos anfitri\u00f5es na distribui\u00e7\u00e3o dos brindes \u00e0s crian\u00e7as. A menina que j\u00e1 tinha seus trezentos mil rublos de dote ganhou uma boneca suntuos\u00edssima.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o os presentes foram diminuindo de valor, de acordo com a diminui\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia dos pais daquelas crian\u00e7as felizes. Afinal, a \u00faltima\u2019 um menino de dez anos, magrinho, baixinho, sardento e ruivo, ganhou apenas um livrinho de contos sobre as maravilhas da natureza, Das l\u00e1grimas da sensibilidade, etc., sem estampas e at\u00e9 sem vinhetas. Filho da governanta dos meninos da casa, uma pobre vi\u00fava, era um pequeno muit\u00edssimo encolhido e t\u00edmido, metido num pobre paletozinho de nanquim. Recebido o seu livrinho, andou muito tempo \u00e0 volta dos brinquedos dos outros. Tinha uma vontade imensa de brincar com as outras crian\u00e7as, mas n\u00e3o se atrevia; claro, j\u00e1 sabia e compreendia a sua situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Gosto muito de observar crian\u00e7as. S\u00e3o sobremodo curiosas as suas primeiras manifesta\u00e7\u00f5es independentes na vida. Notei, pois, que o menino ruivo se deixava seduzir pelos brinquedos dos outros, sobretudo pelo teatro, em que ele se empenhava para representar um papel qualquer, a ponto de aviltar-se. Pegou a sorrir para os outros, a cortej\u00e1-los, deu a sua ma\u00e7\u00e3 a um pequeno gordo que j\u00e1 tinha o len\u00e7o cheio de presentes. e at\u00e9 se ofereceu para carregar outro, s\u00f3 para que n\u00e3o o afastassem do teatro. No entanto, poucos minutos ap\u00f3s um rapazinho arrogante deu-lhe uma boa surra. o ruivinho nem teve coragem de chorar. Logo apareceu sua m\u00e3e, a governanta, e ordenou-lhe n\u00e3o se intrometesse nos brinquedos alheios. O menino retirou-se para o sal\u00e3o onde estava a menina bonita. Esta o deixou aproximar-se, e as duas crian\u00e7as entraram a enfeitar a suntuosa boneca.<\/p>\n<p>Fazia j\u00e1 meia hora que eu estava sentado no caramanch\u00e3o de hera, e quase adormecera ao zunzum da conversa entre o ruivinho e a menina dos trezentos mil rublos de dote, que se entretinham a respeito da boneca, quando de repente vi entrar no sal\u00e3o Juli\u00e3o Mastakovitch. Aproveitando a distra\u00e7\u00e3o dos presentes com uma briga surgida entre as crian\u00e7as, sa\u00edra do sal\u00e3o principal sem fazer barulho.<\/p>\n<p>Notara eu, poucos minutos antes, que ele mantinha animada palestra com o pai da futura noiva rica, a quem mal acabara de conhecer, explicando-lhe as vantagens de qualquer emprego p\u00fablico sobre os demais. Parou \u00e0 porta, tomado de hesita\u00e7\u00e3o, e parecia calcular alguma coisa nas pontas dos dedos.<\/p>\n<p>\u2013 Trezentos. . . trezentos \u2013 murmurava.- Onze.. . doze.. . treze\u2026 at\u00e9 dezesseis, s\u00e3o cinco anos\u2026 Fa\u00e7amos de conta que sejam quatro por cento, s\u00e3o doze\u2026 cinco vezes doze, sessenta; estes sessenta\u2026 bem, calculados por alto, ao cabo de cinco anos ser\u00e3o quatrocentos. Est\u00e1 certo\u2026 Mas naturalmente o malandro n\u00e3o os ter\u00e1 colocado a quatro por cento! Talvez receba oito ou at\u00e9 dez por cento. Suponhamos que sejam quinhentos, no m\u00ednimo, sim, quinhentos mil, na certa. .. o excedente gasta-se no enxoval, hum\u2026<\/p>\n<p>Acabou a medita\u00e7\u00e3o, assoou-se, e, indo a sair do sal\u00e3o, s\u00fabito avistou a menina e estacou. Como eu estivesse assentado atr\u00e1s dos vasos de flores, n\u00e3o me p\u00f4de ver. Tive a impress\u00e3o de que o homem se achava muito excitado. Seria o c\u00e1lculo que operava esse efeito sobre ele, ou outro motivo qualquer? N\u00e3o sei. seja como for, o certo \u00e9 que esfregava as m\u00e3os e n\u00e3o conseguia permanecer no mesmo lugar.<\/p>\n<p>Quando a sua agita\u00e7\u00e3o chegou ao c\u00famulo, parou um instante e lan\u00e7ou um segundo olhar, muito resoluto, \u00e0 futura noiva. Quis aproximar-se dela, mas primeiro olhou em redor. Depois, como quem tem sentimentos criminosos, aproximou-se da crian\u00e7a nas pontas dos p\u00e9s. Com um sorrisinho nos l\u00e1bios, inclinou-se para ela e beijou-a na testa. A menina, n\u00e3o esperando a agress\u00e3o, gritou assustada.<\/p>\n<p>\u2013 Que \u00e9 que voc\u00ea est\u00e1 fazendo aqui, bela menina?;perguntou ele em voz baixa.<\/p>\n<p>E, olhando em torno de si, deu-lhe uma palmadinha no rosto.<\/p>\n<p>\u2013 Estamos brincando\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Com ele? \u2013 disse Juli\u00e3o Mastakovitch fitando o menino de esguelha.<\/p>\n<p>E logo acrescentou:<\/p>\n<p>\u2013 Escuta, meu amigo, por que n\u00e3o vais para o sal\u00e3o?<\/p>\n<p>O menino fitava-o sem falar, de olhos arregalados. Juli\u00e3o Mastalovitch olhou de novo em redor e aproximou-se outra vez da pequena:<\/p>\n<p>\u2013 Que \u00e9 que voc\u00ea tem a\u00ed bela menina? Uma bonequinha?- Uma bonequinha \u2013 respondeu a crian\u00e7a de cara fechada, cabisbaixa.<\/p>\n<p>\u2013 Uma bonequinha\u2026 Mas voc\u00ea sabe, gentil menina, de que \u00e9 feita a bonequinha?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o sei\u2026 \u2013 cochichou a pequena, abaixando ainda mais a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2013 De trapos, minha alma\u2026 Mas tu, meu filho, deverias ir para o sal\u00e3o brincar com os teus camaradas, \u2013 disse Juli\u00e3o Mastakovitch encarando o menino com severidade.<\/p>\n<p>As duas crian\u00e7as franziram a testa e agarraram-se pela m\u00e3o. N\u00e3o queriam separar-se.<\/p>\n<p>\u2013 Sabe voc\u00ea por que lhe deram essa bonequinha? \u2013 perguntou Juli\u00e3o Mastakovitch baixando cada vez mais a voz.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 Porque voc\u00ea \u00e9 uma crian\u00e7a boa e se comportou bem a semana toda.<\/p>\n<p>Perturbado a mais n\u00e3o poder, Juli\u00e3o Mastakovitch lan\u00e7ou mais uma vez um olhar em roda, e baixou a voz de modo que a sua pergunta, formulada em tom impaciente e embargada pela emo\u00e7\u00e3o, saiu quase impercept\u00edvel:<\/p>\n<p>\u2013 Diga-me, gentil menina: voc\u00ea gostar\u00e1 de mim se eu fizer uma visita a seus pais?<\/p>\n<p>Havendo proferido tais palavras, Juli\u00e3o Mastakovitch quis beijar a pequena mais uma vez; mas o menino, vendo-a prestes a romper no choro, puxou-a pela m\u00e3o e, compadecido, come\u00e7ou, ele pr\u00f3prio, a choramingar.<\/p>\n<p>Dessa vez Juli\u00e3o Mastakovitch aborreceu-se deveras.<\/p>\n<p>\u2013 Vai-te embora \u2013 disse ao menino \u2013 Vai para a sala brincar com os teus camaradas.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o v\u00e1, n\u00e3o \u2013 protestou a menina. \u2013 Voc\u00ea \u00e9 que deve ir-se embora. Deixe-o aqui, deixe-o \u2013 disse quase solu\u00e7ando.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m fez barulho \u00e0 porta. Assustado, Juli\u00e3o Mastakovitch ergueu no mesmo instante o corpo majestoso. O menino ruivo, por\u00e9m, assustou-se ainda mais do que ele, largou a m\u00e3o da menina e, devagarinho, ro\u00e7ando a parede, caminhou do sal\u00e3o \u00e0 sala de jantar. Para n\u00e3o despertar suspeitas, Juli\u00e3o Mastakovitch tamb\u00e9m passou \u00e0 sala de jantar. Estava vermelho feito uma lagosta e, mirando-se ao espelho, parecia at\u00e9 envergonhado de si mesmo, talvez arrependido da sua sofreguid\u00e3o. Teria sido o c\u00e1lculo feito na ponta dos dedos que o arrebatara a ponto de inspirar-lhe, apesar de toda a sua seriedade e gravidade, um procedimento de crian\u00e7a? Aproximava-se de chofre do seu objetivo, embora este n\u00e3o viesse a tornar-se um objetivo real antes de cinco anos, no m\u00ednimo.<\/p>\n<p>Acompanhei o respeit\u00e1vel cavalheiro a sala de jantar, e ali testemunhei um espet\u00e1culo curioso. Rubro de raiva e despeito, Juli\u00e3o Mastakovitch perseguia o menino ruivo, o qual, recuando cada vez mais, j\u00e1 n\u00e3o sabia para onde correr:<\/p>\n<p>\u2013 Sai daqui! Que diabo vens fazer aqui, velhaco? Vieste roubar frutas, hem? Vieste? Fora daqui, patife! Vai, fedelho, procura os teus camaradas!<\/p>\n<p>Espantado, o pequeno recorreu a um expediente extremo: foi esconder-se debaixo da mesa. Ent\u00e3o o seu perseguidor, no auge da excita\u00e7\u00e3o, puxou do bolso o grande len\u00e7o de batista e, brandindo-o, procurou enxotar o menino do seu esconderijo.<\/p>\n<p>Este se encolhia caladinho, sem se mexer. Cumpre observar que Juli\u00e3o Mastakovitch era um tanto gordo: rapaz bem nutrido, corado, barrigudo, de pernas robustas, \u2013 em uma palavra, como se costuma dizer, redondo e forte como uma noz.<\/p>\n<p>Suava, enrubescia, arfava terrivelmente. Estava exasperado por um sentimento de indigna\u00e7\u00e3o e, quem sabe, de ci\u00fame. N\u00e3o pude conter uma gargalhada. Juli\u00e3o Mastakovitch virou-se e, a despeito de toda a sua import\u00e2ncia, ficou mortalmente acanhado. Nesse instante, na porta oposta, apareceu o dono da casa. O ruivinho saiu logo do esconderijo e p\u00f4s-se a limpar os joelhos e os cotovelos. Juli\u00e3o Mastakovitch, com um gesto r\u00e1pido, levou ao nariz o len\u00e7o que tinha na m\u00e3o, seguro por uma das extremidades.<\/p>\n<p>O dono da casa fitava-nos aos tr\u00eas, perplexo, mas, como homem que conhece a vida e a considera pelo lado s\u00e9rio, resolveu aproveitar a circunst\u00e2ncia de encontrar-se quase a s\u00f3s com o seu h\u00f3spede.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 este o menino \u2013 disse indicando o ruivinho \u2013 que tive a honra de lhe recomendar\u2026<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9? \u2013 respondeu Juli\u00e3o Mastakovitch, que ainda n\u00e3o voltara inteiramente a si.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 filho da governanta de meus filhos \u2013 prosseguiu o dono da casa em tom de solicita\u00e7\u00e3o -, uma senhora pobre, vi\u00fava de um funcion\u00e1rio honesto; portanto, Juli\u00e3o Mastakovitch\u2026 se for poss\u00edvel. . .<\/p>\n<p>\u2013 Mas n\u00e3o \u00e9;exclamou sem demora Juli\u00e3o Mastakovitch. \u2013 Perdoe-me, Filipe Alexeievitch, \u00e9 totalmente imposs\u00edvel. Pedi informa\u00e7\u00f5es\u2026 No momento n\u00e3o h\u00e1 vaga, e, ainda que houvesse, j\u00e1 se tem dez candidatos, cada um mais qualificado que este..<\/p>\n<p>\u2013 Sinto muito\u2026 muit\u00edssimo..<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 pena \u2013 disse o dono da casa. \u2013 \u00c9 um menino bonzinho, modesto . . .<\/p>\n<p>\u2013 Pelo que vejo, \u00e9 um grand\u00edssimo vadio, \u2013 estourou Juli\u00e3o Mastakovitch, com uma careta hist\u00e9rica. \u2013 Sai da\u00ed, menino. Que \u00e9 que tu queres a\u00ed? Vai brincar com os teus camaradas; disse ainda, voltando-se para o ruivinho.<\/p>\n<p>N\u00e3o conseguindo mais conter-se, olhou para mim de soslaio. Por minha vez, n\u00e3o pude deixar de lhe rir deliberadamente nas barbas. Ele desviou de mim os olhos, e em voz bem alta perguntou ao dono da casa quem era aquele rapaz esquisito.<\/p>\n<p>Sa\u00edram os dois da sala cochichando. Vi que Juli\u00e3o Mastakovitch, ouvindo as explica\u00e7\u00f5es de seu hospedeiro, abanava a cabe\u00e7a, meio desconfiado.<\/p>\n<p>Ri a bom rir com os meus bot\u00f5es, e voltei ao sal\u00e3o. Rodeado de mam\u00e3es, de papais e dos donos da casa, o grande homem explicava alguma coisa com muito calor a uma senhora a quem acabavam de apresent\u00e1-lo. Esta segurava pela m\u00e3o a menina com quem, dez minutos antes, Juli\u00e3o Mastakovitch representara a sua cena no pequeno sal\u00e3o. Agora ele estava-se derramando em ext\u00e1ticos elogios \u00e0 beleza, aos talentos, \u00e0 gra\u00e7a e \u00e0 boa educa\u00e7\u00e3o da gentil menina. Manifestamente engodava a mam\u00e3ezinha, que o escutava quase com l\u00e1grimas de enlevo. Os l\u00e1bios do pai sorriam. o dono da casa alegrava-se com essas alegres efus\u00f5es. Os pr\u00f3prios convidados tomavam parte no j\u00fabilo; at\u00e9 os brinquedos das crian\u00e7as foram suspensos para n\u00e3o se perturbar a conversa. Era uma atmosfera quase religiosa.<\/p>\n<p>Logo depois, ouvi a m\u00e3e da interessante pequena, comovida at\u00e9 o fundo da alma pedir a Juli\u00e3o Mastakovitch, com express\u00f5es escolhidas, que lhe desse a subida honra de distinguir-lhe a casa com sua preciosa visita, e ele aceitou o convite com entusiasmo; enfim, ouvi os demais convidados, no momento da de despedida, expandirem-se, como o exigiam as conveni\u00eancias, em louvores comovidos ao rico negociante, a sua mulher e a sua filha, e principalmente a Juli\u00e3o Mastakovitch.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 casado esse cavalheiro? \u2013 perguntei em voz quase alta a um conhecido que estava mais perto dele.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Mastakovitch enviou-me um olhar indagador e feroz.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o \u2013 disse-me o meu conhecido, profundamente penalizado com a leviandade que eu de prop\u00f3sito cometera.<\/p>\n<p>Passava eu, h\u00e1 pouco tempo. em frente \u00e0 igreja de ***, quando um grande ajuntamento me despertou a aten\u00e7\u00e3o. Em redor falava-se de um casamento. O dia estava nublado, come\u00e7ava a chuviscar; entrei na igreja abrindo caminho atrav\u00e9s da multid\u00e3o. Logo avistei o noivo. Era um rapaz baixo, gordo, bem nutrido, de ventre ponder\u00e1vel, muito enfeitado, que corria para todos os lados, se agitava sem parar, dava ordens. Enfim, levantou-se um murm\u00fario de vozes anunciando a chegada da noiva. Fendi a turba de curiosos e vi uma jovem de admir\u00e1vel beleza, para quem a primavera apenas come\u00e7ava. Mas estava p\u00e1lida e parecia triste a linda noiva.<\/p>\n<p>Olhava distra\u00edda e tinha os olhos vermelhos, o que me deu impress\u00e3o de l\u00e1grimas recentes. A severidade cl\u00e1ssica de suas fei\u00e7\u00f5es emprestava-lhe \u00e0 beleza uma express\u00e3o algo solene. Atrav\u00e9s daquela severidade, daquela gravidade, de toda aquela tristeza, transpareciam os tra\u00e7os de uma crian\u00e7a inocente, algo de incrivelmente ing\u00eanuo, juvenil e ainda n\u00e3o formado, que parecia, sem palavras, implorar piedade.<\/p>\n<p>Ouvi observar que ela mal acabava de completar dezesseis anos. Examinando atento o noivo, nele reconheci Juli\u00e3o Mastakovitch, que eu n\u00e3o via desde cinco anos.<\/p>\n<p>Olhei para ela\u2026 Meu Deus! Fendi a multid\u00e3o outra vez para sair da igreja o mais breve poss\u00edvel. Ainda ouvi um espectador dizer que a noiva era rica, que tinha quinhentos mil rublos de dote\u2026 e n\u00e3o sei mais quanto para o enxoval.<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o o c\u00e1lculo era justo; disse comigo.<\/p>\n<p>\u2013 E sa\u00ed para a rua.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dia destes, vi um casamento\u2026 mas n\u00e3o, prefiro falar-vos de uma \u00e1rvore de Natal. 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