{"id":674,"date":"2018-07-09T12:33:33","date_gmt":"2018-07-09T12:33:33","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=674"},"modified":"2018-07-09T12:36:18","modified_gmt":"2018-07-09T12:36:18","slug":"o-jejuador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-jejuador","title":{"rendered":"O Jejuador"},"content":{"rendered":"<p>O interesse pelos jejuadores profissionais decresceu sensivelmente nos \u00faltimos dec\u00eanios. Antes, convinha aos empres\u00e1rios organizar tais espet\u00e1culos, mas atualmente isto se tornou quase imposs\u00edvel. Vivemos num mundo diferente. Houve \u00e9poca em que a cidade inteira sentia viva curiosidade pelo artista da fome, aumentando a excita\u00e7\u00e3o \u00e0 medida que o jejum se prolongava, querendo todos v\u00ea-lo ao menos uma vez por dia. Havia mesmo pessoas que compravam bilhetes para os \u00faltimos espet\u00e1culos, sentando-se desde manh\u00e3 at\u00e9 a noite diante das grades da jaula. As exibi\u00e7\u00f5es noturnas eram real\u00e7adas por archotes e, quando a temperatura era amena, levavam a jaula para o ar livre, sendo o jejuador mostrado \u00e0s crian\u00e7as como divertimento especial. Os adultos, muitas vezes consideravam aquilo pilh\u00e9ria, aceita por estar em moda, mas as crian\u00e7as ficavam boquiabertas, de m\u00e3os dadas para se sentirem mais seguras, maravilhando-se ante o homem p\u00e1lido, de costelas salientes, que vestia justas cal\u00e7as negras e n\u00e3o tinha sequer uma cadeira, sentando-se na palha espalhada no ch\u00e3o. \u00c0s vezes ele inclinava a cabe\u00e7a cortesmente, ou respondia com um sorriso constrangido \u00e0s perguntas que lhe eram feitas, estendendo de vez o bra\u00e7o atrav\u00e9s das grades, para que verificassem como estava magro. Recolhia-se depois ao seu mutismo, n\u00e3o prestando aten\u00e7\u00e3o a nada nem a ningu\u00e9m, nem mesmo ao rel\u00f3gio para ele t\u00e3o importante e que era a \u00fanica pe\u00e7a de mob\u00edlia na jaula. Ficava a olhar o vazio, de p\u00e1lpebras semicerradas, de vez em quando alcan\u00e7ando um pequeno copo d?\u00e1gua e tomando um golezinho para umedecer os l\u00e1bios.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos espectadores comuns, havia permanentemente vigias escolhidos pelo p\u00fablico, que se revezavam. Por estranho que pare\u00e7a, em geral eram a\u00e7ougueiros, em grupos de tr\u00eas, que tinham por obriga\u00e7\u00e3o observar o jejuador dia e noite, para evitar que ingerisse disfar\u00e7adamente algum alimento. Mera formalidade, institu\u00edda para tranq\u00fcilizar o povo, pois os iniciados sabiam perfeitamente bem que, fossem quais fossem as circunst\u00e2ncias, nem mesmo a for\u00e7a o artista se resolveria a quebrar o jejum, durante a prova. A honra da profiss\u00e3o o impedia. Nem todos os espectadores, naturalmente, eram capazes desta compreens\u00e3o. Freq\u00fcentemente havia grupos de vigilantes noturnos que relaxavam o cumprimento do dever, retirando-se para um canto, onde se deixavam empolgar por um jogo de cartas, com a evidente inten\u00e7\u00e3o de dar ao jejuador ensejo de tomar alimento, que eles supunham existir em algum esconderijo. Nada aborrecia mais o artista que semelhantes vigias. Faziam-no sentir-se infeliz e tornavam a abstin\u00eancia insuport\u00e1vel. \u00c0s vezes conseguia dominar suficientemente a fraqueza para cantar, o mais que lhe era poss\u00edvel, tentando provar a injusti\u00e7a de tais suposi\u00e7\u00f5es. Isto de nada adiantava, pois os homens apenas admiravam a habilidade que lhe permitia comer enquanto cantava. Apreciava mais os guardas que se sentavam perto das grades e que, n\u00e3o se contentando com a parca ilumina\u00e7\u00e3o do local, lan\u00e7avam sobre ele o clar\u00e3o direto das lanternas el\u00e9tricas que o empres\u00e1rio pusera \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o. A luz dura n\u00e3o o incomodava.<\/p>\n<p>De qualquer maneira, n\u00e3o podia mesmo dormir, mas conseguia cochilar, sob qualquer luz, fosse qual fosse a hora, mesmo quando a sala se achava repleta de espectadores ruidosos. Ficava satisfeito por poder passar uma noite insone em companhia de tais vigias, estando sempre disposto a pilheriar com eles, contendo-lhe hist\u00f3rias de sua vida n\u00f4made, qualquer coisa que os conservasse acordados para demonstrar que n\u00e3o tinha comida na jaula e era capaz de uma abstin\u00eancia que nenhum deles suportaria. Mas o momento mais feliz era quando chegava a manh\u00e3 e vinham servir aos guardas, a suas expensas, um farto desjejum, ao qual eles se atiravam com feroz apetite de homens robustos, ap\u00f3s cansativa noite de vig\u00edlia. Naturalmente havia quem alegasse ser tal refei\u00e7\u00e3o uma desleal tentativa de suborno, mas isso era ir longe demais. Quando essas pessoas eram convidadas a participar de uma noite de guarda, apenas por amor a arte, sem a expectativa do caf\u00e9 da manh\u00e3 esquivavam-se, embora continuassem teimosamente a manter suas d\u00favidas.<\/p>\n<p>Tais suspeitas, no entanto, eram inevit\u00e1veis na profiss\u00e3o. Imposs\u00edvel, naturalmente, ficar uma pessoa e observ\u00e1-lo continuamente, dia e noite, e ningu\u00e9m poderia garantir, por experi\u00eancia pr\u00f3pria, que o jejum fora rigoroso e ininterrupto. Somente o artista sabia disso, sendo, portanto, o \u00fanico realmente convicto. Mas, por outros motivos, nunca estava verdadeiramente satisfeito. Talvez n\u00e3o fosse apenas o jejum que o tivesse reduzido \u00e0quele estado de magreza que fazia com que muitas pessoas se afastassem, embora a contragosto, por n\u00e3o poderem suportar o espet\u00e1culo. A insatisfa\u00e7\u00e3o para consigo mesmo talvez fosse a verdadeira causa de seu depauperamento. S\u00f3 ele sabia o que n\u00e3o era dado a saber nem mesmo a outros iniciados: como era f\u00e1cil jejuar. A coisa mais f\u00e1cil do mundo. N\u00e3o fazia segredo disto, mas o povo n\u00e3o lhe dava cr\u00e9dito. Quando muito, consideravam-no modesto, mas a maioria achava que ele estava querendo fazer publicidade, ou, ent\u00e3o, que se tratava de um trapaceiro que descobrira meio de tornar f\u00e1cil o jejum e cinicamente o confessava.<\/p>\n<p>Ele vira-se obrigado a aceitar tal rea\u00e7\u00e3o e, com o tempo, a ela se habituara, mas a \u00edntima satisfa\u00e7\u00e3o persistia e nunca, justi\u00e7a seja feita, deixara a jaula por espont\u00e2nea vontade, quando chegava o t\u00e9rmino da prova. O prazo m\u00e1ximo fora fixado em quarenta dias pelo empres\u00e1rio, que n\u00e3o lhe permitia ir al\u00e9m, nem mesmo nas grandes cidades. Havia boas raz\u00f5es para isso. A experi\u00eancia demonstrara que, durante 40 dias, a curiosidade do p\u00fablico podia ser mantida pela press\u00e3o de an\u00fancios, mas depois disso o povo come\u00e7a a se desinteressar, diminuindo o numero de simpatizantes. Isto variava, naturalmente, de uma cidade a outra, entre este ou aquele pa\u00eds, mas em geral 40 dias era o limite.<\/p>\n<p>Assim, no 40o dia abria-se a porta da jaula engrinaldada de flores. Entusi\u00e1sticos espectadores enchiam o local, entravam na jaula, para verificar o resultado da prova, que era anunciado por meio de alto-falante. Finalmente apareciam duas mo\u00e7as, felizes por terem sido escolhidas para tal honraria. Iam ajudar o artista a descer os poucos degraus que levavam \u00e0 mesa onde se achava a refei\u00e7\u00e3o cuidadosamente preparada para um homem em suas condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas. Neste momento, o jejuador sempre se mostrava obstinado. Verdade que entregava os bra\u00e7os descarnados \u00e0s duas mo\u00e7as que sobre ele se inclinavam para auxili\u00e1-lo, mas n\u00e3o queria saber de levantar. Por que interromper o jejum especialmente neste instante, ap\u00f3s 40 dias? Ag\u00fcentara por muito tempo.: por que desistir agora, quando se achava em plena forma, ou, para ser exato, ainda n\u00e3o estava em sua melhor forma? Por que negar-lhe a fama que teria, se continuasse, a gl\u00f3ria de ser, n\u00e3o apenas o recordista da fama de todos os tempos (o que talvez j\u00e1 fosse) mas a de sobrepujar seu pr\u00f3prio feito, com uma demonstra\u00e7\u00e3o que ningu\u00e9m julgaria poss\u00edvel? Ele sabia n\u00e3o haver limite para sua resist\u00eancia. J\u00e1 que o p\u00fablico parecia admir\u00e1-lo tanto, por que n\u00e3o se mostrava mais paciente? Se ele podia suportar uma abstin\u00eancia prolongada, por que n\u00e3o ag\u00fcentavam eles o espet\u00e1culo? Al\u00e9m do mais, estava cansado, achava-se sentado confortavelmente sobre a palha, e agora lhe viam exigir que se levantasse para comer! S\u00f3 de pensar nisto sentia n\u00e1usea e somente a presen\u00e7a das mo\u00e7as o impedia de manifest\u00e1-la e, assim mesmo, com esfor\u00e7o. Fitou-as, aparentemente t\u00e3o amigas, mas na realidade cru\u00e9is; e sacudiu a cabe\u00e7a que lhe pesava no pesco\u00e7o enfraquecido. Aconteceu ent\u00e3o, o que sempre acontecia. O empres\u00e1rio adiantou-se sem dizer palavra ? a banda impossibilitava qualquer esp\u00e9cie de discurso ? ergueu os bra\u00e7os acima do artista, como que a convidar o c\u00e9u a olhar para aquela pobre criatura ali na palha, m\u00e1rtir que em verdade era, embora noutro sentido. Com exageradas precau\u00e7\u00f5es, agarrou-lhe a cintura emaciada, para que pudessem apreciar devidamente a sua fr\u00e1gil condi\u00e7\u00e3o, e entregou-o as mo\u00e7as, muito p\u00e1lidas, dando-lhes disfar\u00e7adamente uma sacudidela que fez vacilarem suas pernas tr\u00f4pegas. O artista submeteu-se agora totalmente, a cabe\u00e7a tombada sobre o peito, como se ali tivesse ido parar por acaso. O corpo foi puxado para fora, os joelhos tentavam firmar-se um no outro, no instinto de conserva\u00e7\u00e3o, as pernas se arrastavam como se ele n\u00e3o pisasse terreno firme e, apesar disso, o procurasse. Leve como pluma, tentou apoiar-se a uma das mo\u00e7as. Ofegante, ela olhou \u00e0 volta em busca de socorro, parecendo achar que o posto de honra n\u00e3o correspondia \u00e0 expectativa, e espichou o pesco\u00e7o o mais que p\u00f4de para livr\u00e1-lo do contato desagrad\u00e1vel. Vendo que era imposs\u00edvel e que sua mais feliz companheira n\u00e3o lhe vinha em aux\u00edlio, limitando-se a segurar na m\u00e3o tr\u00eamula o feixe de ossos que era a m\u00e3o do artista, rompeu em pranto, com grande gozo dos espectadores. Teve que ser substitu\u00edda por um funcion\u00e1rio, que ali se achava de prontid\u00e3o. Chegou a hora da comida e o empres\u00e1rio conseguiu enfiar alguma coisa por entre os l\u00e1bios de seu protegido, que parecia a ponto de desmaiar. Falava ao mesmo tempo, alegremente, para que ningu\u00e9m notasse o estado do jejuador. Depois, foi feito ao p\u00fablico um brinde, aparentemente instigado por um murm\u00fario do artista ao ouvido do empres\u00e1rio. A banda confirmou-o com um vigoroso rufar de tambores e o povo foi-se dissolvendo, parecendo todos satisfeitos com o que tinham visto, com exce\u00e7\u00e3o do homem que se exibira, que nunca se sentia satisfeito.<\/p>\n<p>Assim viveu muitos anos, com pequenos intervalos de recupera\u00e7\u00e3o, em plena gl\u00f3ria, admirado pelo mundo, mas apesar disto infeliz, tanto mais que ningu\u00e9m parecia levar a s\u00e9rio seu desgosto. Que palavras de conforto precisaria ele ouvir? Que mais poderia desejar? Quando uma pessoa de boa vontade, dele se apiedando, tentava consol\u00e1-lo, dizendo que o jejum devia ser a causa de sua tristeza, acontecia ver-se ele tomado de c\u00f3lera, principalmente quando a prova j\u00e1 ia adiantada. Com alarme geral, punha-se a sacudir as grades da jaula, tal animal selvagem. Mas o empres\u00e1rio tinha meios de p\u00f4r cobro a essas explos\u00f5es, com as quais o artista gostava de se exibir. Desculpava-se publicamente por tal procedimento. Devia ser relevado, dizia ele, por causa da irritabilidade provocada pela abstin\u00eancia, que pessoas bem alimentadas n\u00e3o estavam em condi\u00e7\u00f5es de compreender. Depois, numa transi\u00e7\u00e3o natural, mencionava a tamb\u00e9m incompreens\u00edvel jact\u00e2ncia do homem que se dizia capaz de jejuar por prazo maior ainda, elogiava-lhe a ambi\u00e7\u00e3o, a boa vontade, o esp\u00edrito de sacrif\u00edcio impl\u00edcitos em semelhante declara\u00e7\u00e3o. Dava em seguida o contragolpe, trazendo os fot\u00f3grafos que iriam vender ao p\u00fablico retratos onde se veria o jejuador, no quadrag\u00e9simo dia, ca\u00eddo na palha, quase morto de exaust\u00e3o. Essa distor\u00e7\u00e3o da verdade, embora conhecida do artista, tirava-lhe a coragem, deixando-o mais abatido ainda. Aquilo que era apenas conseq\u00fc\u00eancia do precoce t\u00e9rmino do jejum era apresentado como causa! Imposs\u00edvel lutar contra a geral incompreens\u00e3o. In\u00fameras vezes, com o m\u00e1ximo da boa vontade, ficava perto das grades, ouvindo palavras do empres\u00e1rio, mas, assim que chegavam os fot\u00f3grafos, ca\u00eda de novo na palha, com um gemido, e o p\u00fablico, tranq\u00fcilizado, podia de novo aproximar-se para contempl\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Anos mais tarde, quando testemunhas de tais cenas as relembravam, n\u00e3o podiam \u00e0s vezes compreend\u00ea-las. \u00c9 que, neste meio-tempo, o interesse por essas exibi\u00e7\u00f5es esmorecera, tendo acontecido quase que da noite para o dia. Talvez houvesse raz\u00f5es profundas para o fato, mas quem iria se preocupar em analis\u00e1-las? De qualquer maneira, o mimado artista da fome viu-se um belo dia abandonado pelas pessoas \u00e1vidas de divertimento, que iam agora em busca de espet\u00e1culos mais atraentes. Num derradeiro esfor\u00e7o, o empres\u00e1rio correu com ele metade da Europa, a ver se a antiga simpatia poderia ser reavivada. Em v\u00e3o. Em toda a parte, como que por secreto acordo, havia positiva repulsa pelos jejuadores profissionais. Naturalmente isto n\u00e3o poderia ter surgido assim t\u00e3o de repente. Muitos dos sintomas ominosos, aos quais eles n\u00e3o tinham dado suficiente aten\u00e7\u00e3o, ou que haviam mesmo sido ignorados na embriaguez do triunfo, voltavam agora \u00e0 mem\u00f3ria, embora fosse tarde demais. O interesse pelos jejuadores certamente teria o seu recrudescimento, um dia, mas isto n\u00e3o era consolo para os que atualmente viviam. Que poderia ent\u00e3o fazer o artista da fome? Fora aplaudido por milhares de pessoas e n\u00e3o queria agora conformar-se com exibi\u00e7\u00f5es em barracas de feira, nas aldeias. Quanto a adotar outra profiss\u00e3o, n\u00e3o somente estava muito velho, como era fan\u00e1tico pela sua. Assim, despediu-se do empres\u00e1rio, companheiro de uma carreira inigual\u00e1vel, e firmou contrato com um grande circo. Para n\u00e3o ferir a pr\u00f3pria susceptibilidade, evitou ler-lhe as cl\u00e1usulas.<\/p>\n<p>Um circo importante, que est\u00e1 continuamente contratando e substituindo homens, animais e aparelhamento, sempre pode utilizar um artista, at\u00e9 mesmo um jejuador, contanto que n\u00e3o exija muito. No caso presente, n\u00e3o estavam os diretores interessados somente no artista, como em sua fama, durante longos anos adquirida. Considerando-se a peculiaridade de seu of\u00edcio, que n\u00e3o se prejudicara com a idade, n\u00e3o se podia dizer que ali estivesse um artista que, tendo ultrapassado a maturidade e n\u00e3o se achando mais em plena forma, viera buscar ref\u00fagio num circo. Pelo contr\u00e1rio, o jejuador afirmava ser capaz de suportar a abstin\u00eancia tanto quanto antes e disso n\u00e3o se poderia duvidar. Chegou mesmo a declarar que se lhe dessem carta branca, o que lhe foi imediatamente prometido, poderia assombrar o mundo, estabelecendo um recorde jamais alcan\u00e7ado. Tal declara\u00e7\u00e3o provocou risos nos outros profissionais, pois n\u00e3o estava sendo levada em conta a frieza do p\u00fablico, fato que o jejuador, em seu zelo, parecera ter convenientemente esquecido.<\/p>\n<p>No \u00edntimo, ele n\u00e3o deixava de perceber a verdadeira situa\u00e7\u00e3o. Conformou-se em ver sua gaiola colocada, n\u00e3o no meio da arena, como principal atra\u00e7\u00e3o, e sim fora, perto das jaulas dos animais -?local, afinal de contas ? bastante acess\u00edvel. Cartazes grandes e vistosos emolduravam a jaula, anunciando o tipo de espet\u00e1culo. Quando o p\u00fablico vinha, nos intervalos, ver as feras, tinha de passar pelo jejuador e algumas pessoas paravam, por momentos. Talvez se demorassem por mais tempo, n\u00e3o fossem os empurr\u00f5es dos que vinham atr\u00e1s, pela estreita passagem, e que n\u00e3o compreendiam o motivo pelo qual eram detidos. Isto impedia que os primeiros o examinassem com calma. Foi esta a raz\u00e3o que fez com que o artista que aguardara tais visitas como o maior acontecimento de sua vida, come\u00e7asse a tem\u00ea-las. A princ\u00edpio, mal podia esperar pelos intervalos. Era excitante ver a multid\u00e3o escoar para o seu lado, at\u00e9 que (tarde demais!) apesar do obstinado e quase consciente desejo de iludir-se, teve que se render \u00e0 evid\u00eancia. Convenceu-se de que aquelas pessoas, a julgar pela sua atitude, procuravam apenas visitar os animais. A sensa\u00e7\u00e3o mais agrad\u00e1vel sempre fora v\u00ea-los de longe. Quando se aproximavam, ficava aturdido com os gritos e insultos dos dois grupos dissidentes, sempre renovados, constitu\u00eddos, um, pelos que desejavam parar para observ\u00e1-lo (n\u00e3o por real interesse e sim por teimosia) e o segundo, por aqueles que ansiavam por ver as feras. Logo come\u00e7ou a detestar mais os primeiros. Depois que passava o maior n\u00famero, vinham os retardat\u00e1rios. Embora pudessem contempl\u00e1-lo \u00e0 vontade, apressavam-se, sem nem mesmo olh\u00e1-lo, tal o medo de chegarem atrasados \u00e0s jaulas dos animais. Raramente acontecia ter ele um golpe de sorte, quando um pai de fam\u00edlia parava com os filhos, apontando-o e explicando o fen\u00f4meno, contando hist\u00f3rias de anos passados, quando ele pr\u00f3prio assistira a espet\u00e1culos mais emocionantes. As crian\u00e7as, sem nada entender, pois nem na escola e nem em casa haviam sido preparadas para isto (que lhes importava o jejum?) indicavam, pelo brilho dos olhos, que dias mais auspiciosos estavam para vir. Talvez as coisas corressem melhor, pensava o artista, se n\u00e3o o tivessem colocado t\u00e3o perto dos animais. Isto tornava ao povo f\u00e1cil a escolha, mesmo n\u00e3o se levando em considera\u00e7\u00e3o que ele sofria com o cheiro desagrad\u00e1vel, a inquieta\u00e7\u00e3o das feras \u00e0 noite, a passagem dos peda\u00e7os de carne crua, o ru\u00eddo na hora de serem alimentados, coisas que o deprimiam profundamente. Mas n\u00e3o ousava queixar-se. Afinal de contas, devia aos animais a aflu\u00eancia de tantas pessoas e sempre podia haver algu\u00e9m que o notasse e lembrasse de sugerir lugar mais isolado para a gaiola, caso ele chamasse aten\u00e7\u00e3o para sua exist\u00eancia e para o fato de, na realidade, nada mais ser do que um obst\u00e1culo \u00e0 passagem do p\u00fablico.<\/p>\n<p>Pequeno obst\u00e1culo, n\u00e3o havia d\u00favida, e que cada vez menor se tornava. As pessoas familiarizavam-se com a estranha id\u00e9ias de que delas se esperava, nestes tempos, que se interessassem pelo artista da fome, e esta familiaridade era justamente o veredito contra ele. Poderia jejuar \u00e0 vontade e era o que fazia, mas nada agora o salvaria. O povo passava, indiferente. Fosse algu\u00e9m explicar a arte do jejum! Quem n\u00e3o a apreciasse espontaneamente, jamais chegaria a compreend\u00ea-la. Os belos cartazes foram tornando-se sujos e ileg\u00edveis e acabaram sendo em parte arrancados. A pequena tabuleta indicando o n\u00famero de dias, havia muito marcava a mesma data, pois nem mesmo este pequeno esfor\u00e7o parecia \u00fatil aos funcion\u00e1rios. Assim sendo, o artista continuava jejuando e jejuando, como antes fora seu sonho. Isto n\u00e3o o incomodava, como ele soubera, que n\u00e3o o incomodaria. Mas ningu\u00e9m mais contava os dias, ningu\u00e9m.; nem mesmo o artista sabia que recorde estaria ele batendo e seu cora\u00e7\u00e3o se confrangia. Quando, de vez em quando, um passante se detinha e zombava do velho deitado ali no ch\u00e3o, falando em fraude, tratava-se da mais est\u00fapida mentira jamais inventada pela indiferen\u00e7a e mal\u00edcia humanas. N\u00e3o era o artista que estava trapaceando. Ele trabalhava honestamente; o mundo, sim, o lograva, privando-o da merecida recompensa.<\/p>\n<p>Muitos dias se passaram e tamb\u00e9m aquilo chegou ao fim. Um fiscal apareceu ali e perguntou aos funcion\u00e1rios por que se desperdi\u00e7ava uma jaula que continha apenas um monte de palha suja. Ningu\u00e9m soube responder at\u00e9 que um deles, notando o cartaz com o n\u00famero de dias, lembrou do artista da fome. Enfiaram um pau na palha e o descobriram.<\/p>\n<p>\u2013 Ainda est\u00e1 jejuando? ? perguntou o inspetor. ? Quando, em nome dos c\u00e9us, pretende parar?<\/p>\n<p>\u2013 Perdoem-me todos ? murmurou o artista. Somente o fiscal, que tinha o ouvido perto das grades, conseguiu entend\u00ea-lo.<\/p>\n<p>\u2013 Claro que o perdoamos ? respondeu, batendo na testa, como a indicar aos empregados o estado mental do jejuador.<\/p>\n<p>\u2013 Sempre desejei que admirassem minha resist\u00eancia.<\/p>\n<p>\u2013 Claro que a admiramos ? disse o fiscal, amavelmente.<\/p>\n<p>\u2013 Mas n\u00e3o deviam admirar.<\/p>\n<p>\u2013 Est\u00e1 certo, n\u00e3o admiramos, ent\u00e3o, mas por que diz isto?<\/p>\n<p>\u2013 Porque tenho que jejuar, n\u00e3o posso evit\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u2013 Que tipo voc\u00ea \u00e9! ? exclamou o inspetor ? Por que n\u00e3o pode evit\u00e1-lo?<\/p>\n<p>\u2013 Porque n\u00e3o consegui encontrar comida a meu gosto ? respondeu o artista, erguendo um pouco a cabe\u00e7a e falando junto ao ouvido do outro, para que n\u00e3o se perdesse uma s\u00edlaba. ? Se a tivesse encontrado, creia que n\u00e3o teria feito nada disto e me empanturraria como o senhor ou qualquer outro.<\/p>\n<p>Foram estas suas ultimas palavras, mas n\u00e3o olhos apagados restava a firme, embora n\u00e3o mais orgulhosa, certeza de que continuaria a jejuar.<\/p>\n<p>\u2013 Pois bem, limpem isto aqui!? ordenou o fiscal.<\/p>\n<p>Enterraram o artista da fome, com palha e tudo. Em seu lugar, puseram uma jovem pantera. At\u00e9 mesmo as pessoas mais insens\u00edveis acharam agrad\u00e1vel ver o animal selvagem pulando na jaula que durante muito tempo t\u00e3o l\u00fagubre parecera. A pantera ia muito bem. A comida que lhe convinha era trazida pontualmente pelos empregados e ela nem mesmo dava impress\u00e3o de sentir a aus\u00eancia de liberdade. Aquele nobre corpo, provido ao m\u00e1ximo de todo o necess\u00e1rio, parecia trazer em si a pr\u00f3pria liberdade. A alegria de viver flu\u00eda de suas faces com tal ardor, que aos espectadores n\u00e3o era dif\u00edcil suportar o choque. Mas enchiam-se de coragem, comprimindo-se \u00e0 volta da jaula, e acabavam n\u00e3o querendo mais se afastar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O interesse pelos jejuadores profissionais decresceu sensivelmente nos \u00faltimos dec\u00eanios. Antes, convinha aos empres\u00e1rios organizar tais espet\u00e1culos, mas atualmente isto se tornou quase imposs\u00edvel. Vivemos num mundo diferente. 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