{"id":675,"date":"2018-07-09T12:35:35","date_gmt":"2018-07-09T12:35:35","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=675"},"modified":"2018-07-09T12:36:18","modified_gmt":"2018-07-09T12:36:18","slug":"diante-da-lei","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/diante-da-lei","title":{"rendered":"Diante da Lei"},"content":{"rendered":"<p>Diante da Lei est\u00e1 um guarda. Vem um homem do campo e pede para entrar na Lei. Mas o guarda diz-lhe que, por enquanto, n\u00e3o pode autorizar-lhe a entrada. O homem considera e pergunta depois se poder\u00e1 entrar mais tarde. -\u201c\u00c9 poss\u00edvel\u201d \u2013 diz o guarda. -\u201cMas n\u00e3o agora!\u201d. O guarda afasta-se ent\u00e3o da porta da Lei, aberta como sempre, e o homem curva-se para olhar l\u00e1 dentro. Ao ver tal, o guarda ri-se e diz. -\u201cSe tanto te atrai, experimenta entrar, apesar da minha proibi\u00e7\u00e3o. Contudo, repara, sou forte. E ainda assim sou o \u00faltimo dos guardas. De sala para sala est\u00e3o guardas cada vez mais fortes, de tal modo que n\u00e3o posso sequer suportar o olhar do terceiro depois de mim\u201d.<\/p>\n<p>O homem do campo n\u00e3o esperava tantas dificuldades. A Lei havia de ser acess\u00edvel a toda a gente e sempre, pensa ele. Mas, ao olhar o guarda envolvido no seu casaco forrado de peles, o nariz agudo, a barba \u00e0 t\u00e1rtaro, longa, delgada e negra, prefere esperar at\u00e9 que lhe seja concedida licen\u00e7a para entrar. O guarda d\u00e1-lhe uma banqueta e manda-o sentar ao p\u00e9 da porta, um pouco desviado. Ali fica, dias e anos. Faz diversas dilig\u00eancias para entrar e com as suas s\u00faplicas acaba por cansar o guarda. Este faz-lhe, de vez em quando, pequenos interrogat\u00f3rios, perguntando-lhe pela p\u00e1tria e por muitas outras coisas, mas s\u00e3o perguntas lan\u00e7adas com indiferenca, \u00e0 semelhan\u00e7a dos grandes senhores, no fim, acaba sempre por dizer que n\u00e3o pode ainda deix\u00e1-lo entrar.O homem, que se provera bem para a viagem, emprega todos os meios custosos para subornar o guarda. Esse aceita tudo mas diz sempre: -\u201cAceito apenas para que te conven\u00e7as que nada omitiste\u201d.<\/p>\n<p>Durante anos seguidos, quase ininterruptamente, o homem observa o guarda. Esquece os outros e aquele afigura ser-lhe o \u00fanico obst\u00e1culo \u00e0 entrada na Lei. Nos primeiros anos diz mal da sua sorte, em alto e bom som e depois, ao envelhecer, limita-se a resmungar entre dentes. Torna-se infantil e como, ao fim de tanto examinar o guada durante anos lhe conhece at\u00e9 as pulgas das peles que ele veste, pede tamb\u00e9m \u00e0s pulgas que o ajudem a demover o guarda. Por fim, enfraquece-lhe a vista e acaba por n\u00e3o saber se est\u00e1 escuro em seu redor ou se os olhos o enganam. Mas ainda apercebe, no meio da escurid\u00e3o, um clar\u00e3o que eternamente cintila por sobre a porta da Lei. Agora a morte est\u00e1 pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>Antes de morrer, acumulam-se na sua cabe\u00e7a as experi\u00eancias de tantos anos, que v\u00e3o todas culminar numa pergunta que ainda n\u00e3o fez ao guarda. Faz-lhe um pequeno sinal, pois n\u00e3o pode mover o seu corpo j\u00e1 arrefecido. O guarda da porta tem de se inclinar at\u00e9 muito baixo porque a diferen\u00e7a de alturas acentuou-se ainda mais em detrimento do homem do campo. -\u201cQue queres tu saber ainda?\u201d, pergunta o guarda. -\u201c\u00c9s insaci\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p>-\u201cSe todos aspiram a Lei\u201d, disse o homem. -\u201cComo \u00e9 que, durante todos esses anos, ningu\u00e9m mais, sen\u00e3o eu, pediu para entrar?\u201d. O guarda da porta, apercebendo-se de que o homem estava no fim, grita-lhe ao ouvido quase inerte: -\u201cAqui ningu\u00e9m mais, sen\u00e3o tu, podia entrar, porque s\u00f3 para ti era feita esta porta. Agora vou-me embora e fecho-a\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diante da Lei est\u00e1 um guarda. Vem um homem do campo e pede para entrar na Lei. Mas o guarda diz-lhe que, por enquanto, n\u00e3o pode autorizar-lhe a entrada. 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