{"id":683,"date":"2018-07-09T12:37:20","date_gmt":"2018-07-09T12:37:20","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=683"},"modified":"2018-07-09T12:39:04","modified_gmt":"2018-07-09T12:39:04","slug":"o-medo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-medo","title":{"rendered":"O Medo"},"content":{"rendered":"<p>Depois de jantarmos, retornamos ao conv\u00e9s do navio. Diante de n\u00f3s, a superf\u00edcie lisa do Mediterr\u00e2neo refletia uma lua tranq\u00fcila. O enorme navio sulcava as \u00e1guas sob um c\u00e9u semeado de estrelas, e a esteira branca que deixava para tr\u00e1s brincava em espumas, parecendo retorcer-se em claridades t\u00e3o buli\u00e7osas, que se poderia dizer que a luz da lua estava fervendo.<\/p>\n<p>Seis ou sete homens permanec\u00edamos ali, em silenciosa admira\u00e7\u00e3o, enquanto viaj\u00e1vamos para a \u00c1frica distante. O capit\u00e3o retomou a conversa que hav\u00edamos tido durante o jantar:<\/p>\n<p>\u2014 Sim, naquele dia eu tive medo. Meu navio permaneceu seis horas a\u00e7oitado pelas ondas, com um penhasco encravado no ventre. Por sorte, \u00e0 noite passou um navio mercante ingl\u00eas, que nos viu e nos recolheu.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o um dos presentes resolveu contestar a express\u00e3o usada pelo capit\u00e3o. Era um homem alto, de cara bronzeada pelo sol, com aspecto grave; um desses homens que \u00e0 primeira vista nos d\u00e3o a impress\u00e3o de haver percorrido vastos pa\u00edses desconhecidos em meio a incessantes perigos, e cujo olhar sereno parecia guardar, na sua profundidade, algo das estranhas paisagens que vira; um desses homens que adivinhamos dotado de t\u00eampera extraordin\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u2014 Capit\u00e3o, o Sr. diz que teve medo, mas n\u00e3o o creio. O Sr. parece enganar-se sobre a palavra e sobre a sensa\u00e7\u00e3o que teve. Um homem en\u00e9rgico como o senhor nunca sente medo diante do perigo. Sente emo\u00e7\u00e3o, nervosismo, ansiedade, mas medo \u00e9 outra coisa.<\/p>\n<p>\u2014 Discordo! Asseguro-vos que tive medo!<\/p>\n<p>\u2014 Permita-me que lhe explique. At\u00e9 os homens mais intr\u00e9pidos podem ter medo. Mas o medo \u00e9 algo espantoso, uma sensa\u00e7\u00e3o atroz, como uma desintegra\u00e7\u00e3o da alma, um espasmo horr\u00edvel do pensamento e do cora\u00e7\u00e3o, cuja simples recorda\u00e7\u00e3o d\u00e1 estremecimentos de ang\u00fastia. Mas quando se \u00e9 valente, isso n\u00e3o ocorre nem diante de uma batalha, nem diante da morte inevit\u00e1vel nem diante de nenhuma das formas conhecidas do perigo. Acontece em certas circunst\u00e2ncias anormais, sob certas influ\u00eancias misteriosas e diante de riscos indefinidos. O verdadeiro medo \u00e9 como uma reminisc\u00eancia dos fant\u00e1sticos terrores primitivos. Um homem que acredita em fantasmas, e que imagina ver um espectro na noite, deve experimentar o medo em todo seu espantoso horror.<\/p>\n<p>Eu descobri o que de fato \u00e9 o medo h\u00e1 uns dez anos, em pleno dia. E pude experiment\u00e1-lo tamb\u00e9m no \u00faltimo inverno, numa noite de dezembro. Na verdade, passei j\u00e1 por muitas situa\u00e7\u00f5es, muitos reveses, muitas aventuras que pareciam mortais: em certa ocasi\u00e3o, uns ladr\u00f5es me deixaram como morto; na Am\u00e9rica, fui condenado \u00e0 forca por motivo de rebeli\u00e3o; na China, fui jogado ao mar, da proa de um navio. Cada vez que me julguei perdido, tomei minhas decis\u00f5es imediatamente, sem vacilar, e at\u00e9 mesmo sem pensar. Mas isso n\u00e3o \u00e9 o medo.<\/p>\n<p>Observem, senhores, que entre os orientais a vida n\u00e3o conta para nada. Logo se resignam. As noites s\u00e3o claras, \u00f3rf\u00e3s das sombrias inquietudes que atormentam os c\u00e9rebros nos pa\u00edses frios. No Oriente pode-se conhecer o p\u00e2nico, mas se ignora o medo. Vou narrar-lhes o que me aconteceu na \u00c1frica.<\/p>\n<p>Percorria eu as grande plan\u00edcies ao sul de Ouargla. \u00c9 um dos mais estranhos pa\u00edses do mundo. Os senhores conhecem a areia fina, a areia lisa das intermin\u00e1veis praias do oceano. Imaginem agora o pr\u00f3prio oceano convertido em areia, em meio a um furac\u00e3o. Imaginem uma tempestade silenciosa das ondas im\u00f3veis de p\u00f3 amarelo. Essas ondas desiguais s\u00e3o altas como montanhas, encrespadas como torrentes desencadeadas, mas maiores ainda, e estriadas como a \u00e1gata. Sobre esse mar furioso, mudo e sem movimento, o sol devorador do Sul lan\u00e7a sua chama implac\u00e1vel e direta. Tem-se que subir nessas ondas de cinza dourada, subir mais uma vez, mais outra, subir sem cessar, sem descanso e sem prote\u00e7\u00e3o. Os animais se atolam at\u00e9 os joelhos, e resvalam ao descer pela outra vertente das surpreendentes colinas.<\/p>\n<p>\u00c9ramos dois amigos, escoltados por oito spahis seguidos de quatro camelos com seus cameleiros. \u00cdamos por aquele deserto ardente sem falar, assolados pelo calor, pelo cansa\u00e7o e pela sede. Subitamente um dos homens deu um grito, e todos paramos e permanecemos im\u00f3veis, surpreendidos por um inexplic\u00e1vel fen\u00f4meno que os viajantes dessas regi\u00f5es perdidas conhecem bem. Em algum lugar, perto de n\u00f3s, numa dire\u00e7\u00e3o indeterminada, soava um misterioso tambor, o misterioso tambor das dunas. Soava claramente, ora mais vibrante ora menos, cessando e logo recome\u00e7ando seu som fant\u00e1stico. Os \u00e1rabes, espantados, olhavam-se uns aos outros. Um deles disse:<\/p>\n<p>\u2014 A morte vem para cima de n\u00f3s.<\/p>\n<p>De repente meu companheiro, meu amigo quase como um irm\u00e3o, caiu do cavalo, de bru\u00e7os, mortalmente atingido pela insola\u00e7\u00e3o. Durante duas horas, enquanto eu procurava em v\u00e3o salv\u00e1-lo, aquele tambor, sempre imposs\u00edvel de localizar, me aturdia os ouvidos com seu ru\u00eddo mon\u00f3tono, intermitente, inexplic\u00e1vel. Ent\u00e3o senti que o medo, o verdadeiro medo, o horr\u00edvel medo, me penetrava at\u00e9 \u00e0 medula dos ossos, diante daquele cad\u00e1ver querido, naquela depress\u00e3o vergastada pelo sol entre quatro montes de areia, enquanto o eco desconhecido nos lan\u00e7ava, a duzentas l\u00e9guas do povoado franc\u00eas mais pr\u00f3ximo, o dobre r\u00e1pido de um inating\u00edvel tambor. Naquele dia eu compreendi o que \u00e9 ter medo. Mas houve uma outra vez em que compreendi melhor ainda\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Perd\u00e3o, senhor, mas o que era esse tambor? \u2014 interrompeu o capit\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei. Ningu\u00e9m sabe. Os oficiais que depararam com esse surpreendente ru\u00eddo geralmente o atribuem ao eco aumentado, multiplicado, desmesuradamente insuflado pelas ondula\u00e7\u00f5es das dunas, de um granizo de areia que o vento lan\u00e7a contra uma mata de ervas secas, pois j\u00e1 se notou que o fen\u00f4meno sempre se produz nas proximidades de pequenas plantas queimadas pelo sol, duras como o pergaminho. Segundo essa teoria, aquele tambor nada mais seria do que uma esp\u00e9cie de reflexo ampliado desse som. Mas eu s\u00f3 vim a saber disso mais tarde.<\/p>\n<p>Agora vou lhes contar minha segunda sensa\u00e7\u00e3o de medo. Aconteceu no inverno passado, num bosque do Noroeste da Fran\u00e7a. O c\u00e9u estava t\u00e3o sombrio naquele dia, que a noite caiu duas horas mais cedo. Era meu guia um campon\u00eas, que caminhava ao meu lado por uma trilha estreita numa floresta de abetos. O vento arrancava dessas \u00e1rvores uma esp\u00e9cie de alarido. Por entre as copas das \u00e1rvores eu via as nuvens que corriam, como que fugindo de um cataclismo. \u00c0s vezes, ante uma forte lufada de vento, todo o bosque se inclinava no mesmo sentido, com um gemido de sofrimento, e o frio me invadia, apesar do meu passo r\u00e1pido e da minha grossa roupa de l\u00e3.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos que chegar \u00e0 casa de um guarda florestal, para jantar e dormir. N\u00e3o estava muito distante, e eu me encontrava ali como ca\u00e7ador. Meu guia \u00e0s vezes levantava os olhos e murmurava: \u201cQue tempo triste!\u201d Falou-me sobre as pessoas para cuja casa nos dirig\u00edamos. O pai havia matado um ca\u00e7ador furtivo, dois anos antes, e desde ent\u00e3o andava preocupado, como que atormentado por uma lembran\u00e7a. Seus filhos, j\u00e1 casados, moravam com ele.<\/p>\n<p>A escurid\u00e3o era profunda, e eu n\u00e3o via nada ao redor de mim. As ramagens de todas as \u00e1rvores, ao agitar-se, enchiam a noite de um rumor incessante. Afinal vi uma luz, e meu guia chamou a uma porta. Ouvimos gritos de mulheres l\u00e1 dentro. Logo depois, uma voz de homem, como que estrangulada, perguntou: \u201cQuem est\u00e1 a\u00ed?\u201d Meu guia se identificou, a porta se abriu e entramos.<\/p>\n<p>A cena que vimos \u00e9 imposs\u00edvel de esquecer. Um homem velho, de cabelos brancos e com olhar arregalado e fixo, como de louco, nos aguardava de p\u00e9 no meio da cozinha, tendo na m\u00e3o uma espingarda carregada. Dois rapazes com peda\u00e7os de pau guardavam a porta. Na obscuridade, percebemos duas mulheres ajoelhadas, com os rostos voltados para a parede. Identificamo-nos, explicamos o motivo de nossa presen\u00e7a ali, e ent\u00e3o o velho largou a arma e deu ordens para que nos preparassem acomoda\u00e7\u00f5es. As duas mulheres continuavam im\u00f3veis, ent\u00e3o ele me explicou: \u201cH\u00e1 exatamente dois anos, numa noite como esta, eu matei um homem. Quando se completou um ano, ele veio chamar-me, e esta noite eu estou certo de que voltar\u00e1 novamente. Por isso estamos todos intranquilos\u201d.<\/p>\n<p>Procurei tranq\u00fciliz\u00e1-los o melhor que pude, mas intimamente estava satisfeito por ter chegado exatamente naquela noite e presenciar aquele espet\u00e1culo de terror supersticioso. Contei algumas hist\u00f3rias, e acabei por acalm\u00e1-los quase por completo.<\/p>\n<p>Perto da lareira, um cachorro velho e quase cego \u2014 um desses c\u00e3es que nos lembram alguma pessoa conhecida \u2014 dormia com o focinho entre as patas. Fora, a tormenta a\u00e7oitava a choupana. Por uma estreita vidra\u00e7a eu via passar, projetadas por grandes rel\u00e2mpagos, as sombras de \u00e1rvores agitadas pelo vento. Apesar dos meus esfor\u00e7os, aquela gente estava dominada por um terror profundo. Cada vez que eu parava de falar, todos os ouvidos estavam atentos ao menor ru\u00eddo. Cansado desses temores imbecis, eu j\u00e1 ia recolher-me quando o velho pulou da cadeira e pegou de novo a espingarda, balbuciando com voz tr\u00eamula: \u201cA\u00ed est\u00e1! A\u00ed est\u00e1! J\u00e1 o estou ouvindo!\u201d<\/p>\n<p>As duas mulheres voltaram a cair de joelhos, cobrindo os rostos, e os filhos pegaram de novo os seus paus. J\u00e1 ia eu tentar novamente tranq\u00fciliz\u00e1-los, quando o cachorro despertou bruscamente, levantou a cabe\u00e7a, esticou o pesco\u00e7o, olhando para a lareira com seu olhar quase apagado, e lan\u00e7ou um desses ganidos l\u00fagubres, que fazem estremecer os caminhantes quando cruzam de noite locais ermos. Todos os olhos se voltaram para o animal, que permanecia agora im\u00f3vel sobre as patas, como obcecado por uma vis\u00e3o. O c\u00e3o se p\u00f4s a ganir frente a algo invis\u00edvel, desconhecido, espantoso sem d\u00favida, pois todo seu pelo estava eri\u00e7ado. L\u00edvido, o guarda gritou: \u201cEle o est\u00e1 farejando! Est\u00e1 farejando! Ele estava exatamente a\u00ed, quando o matei!\u201d<\/p>\n<p>As mulheres, como loucas, fizeram coro aos ganidos do cachorro. Um grande calafrio me percorreu a espinha. A vis\u00e3o do animal naquele lugar, naquela hora, em meio a pessoas apavoradas, era algo horr\u00edvel. Durante uma meia hora o c\u00e3o ganiu sem mover-se. Um medo espantoso me ia penetrando. Medo de qu\u00ea? L\u00e1 sei eu. Era medo, pura e simplesmente.<\/p>\n<p>Permanecemos im\u00f3veis, l\u00edvidos, \u00e0 espera de um acontecimento horrendo, com o ouvido atento, o cora\u00e7\u00e3o agitado, transtornados ao menor ru\u00eddo. O cachorro se p\u00f4s a dar voltas ao redor da cozinha, farejando as paredes, sem cessar de gemer. O animal nos punha loucos. Ent\u00e3o o meu guia se lan\u00e7ou sobre ele, numa esp\u00e9cie de paroxismo de terror furioso, agarrou-o, abriu uma porta de tr\u00e1s, que dava para uma esp\u00e9cie de cercado, e o lan\u00e7ou para fora da casa.<\/p>\n<p>O cachorro se calou logo, e permanecemos algum tempo envoltos num sil\u00eancio ainda mais terr\u00edvel. De repente, todos tivemos uma esp\u00e9cie de sobressalto: algo deslizava contra a parede externa, em dire\u00e7\u00e3o ao bosque. Depois passou junto \u00e0 porta, que pareceu apalpar com m\u00e3os tr\u00eamulas. Novo sil\u00eancio durante uns dois minutos, que nos deixou aterrorizados. Depois voltou, ro\u00e7ando sempre a parede, como uma crian\u00e7a com suas unhas. Subitamente apareceu junto \u00e0 vidra\u00e7a uma cabe\u00e7a branca, com dois olhos luminosos como os das feras, e emitiu um gemido \u2014 um murm\u00fario como de quem se lamenta.<\/p>\n<p>Nesse momento se ouviu um ru\u00eddo formid\u00e1vel. O velho havia disparado sua arma, e em seguida os filhos se precipitaram para a vidra\u00e7a, cobrindo-a com o tampo de uma grande mesa que reviraram. Com o estr\u00e9pito do inesperado disparo, senti tal ang\u00fastia no cora\u00e7\u00e3o, na alma e no corpo, que me imaginei prestes a perder os sentidos, disposto a morrer de medo. Continuamos ali at\u00e9 o amanhecer, incapazes de mover-nos, de dizer uma palavra, crispados, desvairados. Ningu\u00e9m se atreveu a abrir a porta antes de entrever alguma claridade fora, pelas frestas das madeiras.<\/p>\n<p>Ao lado do muro, junto \u00e0 porta, jazia o corpo do velho cachorro, com o focinho desfeito por uma bala. Havia sa\u00eddo do cercado, e procurara abrir alguma passagem junto \u00e0 porta.<\/p>\n<p>Naquela noite eu n\u00e3o corri nenhum perigo. Mas preferiria voltar a enfrentar todos os riscos mais terr\u00edveis que j\u00e1 enfrentei, para n\u00e3o ter de viver aquele \u00fanico minuto em que o tiro foi disparado na cabe\u00e7a que surgiu na vidra\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de jantarmos, retornamos ao conv\u00e9s do navio. Diante de n\u00f3s, a superf\u00edcie lisa do Mediterr\u00e2neo refletia uma lua tranq\u00fcila. 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