{"id":685,"date":"2018-07-09T12:37:41","date_gmt":"2018-07-09T12:37:41","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=685"},"modified":"2018-07-09T12:39:04","modified_gmt":"2018-07-09T12:39:04","slug":"a-mascara","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/a-mascara","title":{"rendered":"A M\u00e1scara"},"content":{"rendered":"<p>Havia naquela noite um baile \u00e0 fantasia no Elis\u00e9e Montmartre. Era por ocasi\u00e3o da mi-careme, e, como a \u00e1gua atrav\u00e9s da comporta de uma represa, a multid\u00e3o despejava-se no corredor iluminado que leva ao sal\u00e3o de baile. O irresist\u00edvel apelo da orquestra, estrondeando como uma tempestade musical, atravessava as paredes e o teto, espalhava-se pelo bairro e ia despertar, nas ruas e a t\u00e9 no fundo das casas vizinhas, aquele invenc\u00edvel desejo de saltar, de aquecer-se e divertir-se que dormita no \u00edntimo do animal humano.<\/p>\n<p>E os freq\u00fcentadores da festa tamb\u00e9m vinham dos quatro cantos de Paris, pessoas de todas as classes sociais, amantes de divers\u00f5es barulhentas, um tanto quanto licenciosas, tocadas de libertinagem. Eram empregados, c\u00e1ftens, mulheres alegres, que conheciam toda esp\u00e9cie de len\u00e7\u00f3is, do mais grosseiro algod\u00e3o \u00e0 mais fina batista, mulheres ricas, velhas e cheias de diamantes, e mulheres pobres, de dezesseis anos, desejosas de divertir-se, de entregar-se a homens, de gastar dinheiro. Elegantes casacas negras \u00e0 cata de carne mo\u00e7a, de prim\u00edcias defloradas, por\u00e9m saborosas, erravam por entre aquela multid\u00e3o aquecida, procuravam, pareciam farejar, enquanto os mascarados eram impelidos, sobretudo, pelo desejo de divertir-se. Quartetos famosos de dan\u00e7arinos j\u00e1 tinham reunido em torno das suas piruetas um largo c\u00edrculo de assistentes. Aquela cerca ondulante, aquela massa buli\u00e7osa de mulheres e de homens, que rodeava os quatro dan\u00e7arinos, torcia-se como uma serpente, ora se aproximando, ora se afastando, de acordo com os deslocamentos operados pelos artistas. As duas mulheres, cujas coxas pareciam ligadas ao corpo por molas de borracha, moviam as pernas com incr\u00ed\u00a0 vel agilidade. Atiravam-nas para cima com tanta viol\u00eancia que pareciam voar em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s nuvens, depois subitamente as afastavam como se tivessem sido rasgadas at\u00e9 a metade do ventre e, fazendo-as deslizar, uma para a frente, a outra para tr\u00e1s, tocavam o solo com o corpo com um movimento r\u00e1pido, c\u00f4mico e repulsivo.<\/p>\n<p>Os dois cavalheiros pulavam, moviam agilmente os p\u00e9s, agitavam-se, sacudindo os bra\u00e7os levantados como cotos de asas sem penas e, sob as m\u00e1scaras, percebia-se a sua respira\u00e7\u00e3o ofegante.<\/p>\n<p>Um destes \u00faltimos, que participava da mais reputada das quadrilhas como substituto de uma celebridade ausente, o belo Songe au Gosse, e que se esfor\u00e7ava para acompanhar a infatig\u00e1vel Ar\u00eate-de-Vau, executava figuras curiosas, que despertavam a alegria e o sarcasmo do p\u00fablico.<\/p>\n<p>Era magro, vestia-se como um janota e usava uma bonita m\u00e1scara envernizada, uma m\u00e1scara de bigodes louros, frisados, e toucada por uma peruca anelada.<\/p>\n<p>Lembrava uma figura de cera do Museu Gr\u00e9vin, estranha e fant\u00e1stica caricatura de p\u00e1gina de figurino, e dan\u00e7ava com esfor\u00e7ada compenetra\u00e7\u00e3o, por\u00e9m desajeitadamente, com entusiasmo grotesco. Parecia enferrujado ao lado dos outros, ao tentar imitar-lhes as piruetas; parecia tolhido, pesado como um c\u00e3o fraldeiro que brincasse com galgos. Encorajavam-no alguns aplausos zombeteiros. E, \u00e9brio de entusiasmo, ele sacudia as pernas com tal frenesi que, de repente, levado por um impulso violento, foi dar de cabe\u00e7a contra a muralha dos assistentes, que se entreabriu para deix\u00e1-lo passar\u00a0 e depois tornou a fechar-se em torno daquele corpo inerte,\u00a0estendido de borco, o dan\u00e7arino inanimado.<\/p>\n<p>Alguns homens o levantaram, carregararn-no. Algu\u00e9m gritou: \u201cUm m\u00e9dico!\u201d Apresentou-se um cavalheiro ainda jovem, muito elegante, de casaca negra com grandes p\u00e9rolas na camisa branca. \u201cSou professor da faculdade\u201d, declarou, com entona\u00e7\u00e3o modesta. Deixaram-no passar e ele se dirigiu a uma saleta cheia de caixas de documentos, como o escrit\u00f3rio de um procurador, onde o dan\u00e7arino, ainda desacordado, fora estendido sobre cadeiras. Antes de tudo o m\u00e9dico procurou retirar a m\u00e1scara, e percebeu que fora fixada de maneira\u00a0\u00a0embara\u00e7osa, com uma por\u00e7\u00e3o de pequenos fios de metal; estes a atavam habilmente \u00e0s bordas da peruca, e encerravam a cabe\u00e7a inteira numa s\u00f3lida ligadura, cujo segredo seria\u00a0preciso conhecer. O pr\u00f3prio pesco\u00e7o estava envolto numa pele artificial que prolongava o queixo, e aquela pele de luva, pintada da cor da carne, prendia-se na gola da camisa.<\/p>\n<p>Foi preciso cortar aquilo tudo com grandes tesouras; e depois de ter feito no surpreendente conjunto um talho que ia do ombro \u00e0 t\u00eampora, o m\u00e9dico entreabriu a carapa\u00e7a e descobriu um rosto gasto e envelhecido, magro, p\u00e1lido e enrrugado. Tamanha foi a surpresa dos que tinham trazido o jovem mascarado de cabelos negros, que ningu\u00e9m se riu nem pronunciou uma \u00fanica palavra.<\/p>\n<p>Contemplavam o triste rosto que descansava sobre a cadeira, de olhos fechados, cabelos brancos, alguns longos, caindo da fronte sobre o rosto, e curtos os que lhe guarneciam as faces e o queixo; e, ao lado daquela lament\u00e1vel cabe\u00e7a, a pequena e bonita m\u00e1scara envernizada, a m\u00e1scara jovem, que continuava a sorrir.<\/p>\n<p>O desconhecido voltou a si depois de ter permanecido longamente desacordado; parecia, por\u00e9m, t\u00e3o fraco, t\u00e3o doente, que o m\u00e9dico receou alguma complica\u00e7\u00e3o perigosa.<\/p>\n<p>\u2013 Onde mora o senhor? \u2013 indagou.<\/p>\n<p>O velho dan\u00e7arino pareceu revolver a mem\u00f3ria, e depois se lembrou e deu o nome de uma rua que nenhum dos presentes conhecia. Foi preciso pedir-lhe algumas explica\u00e7\u00f5es sobre o bairro. Forneceu-as com enorme dificuldade, com uma lentid\u00e3o e uma incerteza que bem traiam a confus\u00e3o da sua mente.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico declarou:<\/p>\n<p>\u2013 Eu mesmo irei lev\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Acometera-o a curiosidade de saber quem seria aquele estranho bailarino, de verificar onde morava aquele saltador fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>E pouco depois um carro de pra\u00e7a levou ambos ao outro lado das colinas de Montmartre.<\/p>\n<p>Desceram na frente de um pr\u00e9dio alto, de aspecto pobre, com urna escada viscosa e constru\u00eddo entre dois terrenos baldios, um desses pr\u00e9dios eternamente inacabados, crivados de janelas, nichos imundos que abrigam uma multid\u00e3o de seres maltrapilhos e miser\u00e1veis.<\/p>\n<p>Segurando-se fortemente ao corrim\u00e3o, um rolo de madeira que girava e no qual a m\u00e3o ficava grudada, amparou at\u00e9 o quarto andar o anci\u00e3o aturdido, que come\u00e7ava a recuperar as for\u00e7as.<\/p>\n<p>Abriu-se a porta \u00e0 qual bateram e apareceu uma mulher, tamb\u00e9m velha, asseada, com uma touca de noite muito branca emoldurando-lhe a cabe\u00e7a de ossos fortes e tra\u00e7os acentuados, um desses rostos grandes, rudes e bons, que freq\u00fcentemente possuem as fi\u00e9is e ativas esposas de oper\u00e1rios. Exclamou:<\/p>\n<p>\u2013 Meu Deus! O que teve ele?<\/p>\n<p>Explicado o incidente com vinte palavras, ela se tranq\u00fcilizou e tranq\u00fcilizou o pr\u00f3prio m\u00e9dico, contando que aquela mesma aventura j\u00e1 acontecera antes, muitas vezes.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 preciso deit\u00e1-lo, doutor, mais nada; ele dormir\u00e1 e amanh\u00e3 acordar\u00e1 outro.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico observou:<\/p>\n<p>\u2013 Mas ele mal pode falar!<\/p>\n<p>\u2013 Oh! N\u00e3o \u00e9 nada, um pouco de bebida, mais nada. Ele n\u00e3o jantou para sentir-se leve, e depois bebeu dois copos de absinto para animar-se. O senhor v\u00ea, o absinto lhe ativa as pernas, mas lhe tira as id\u00e9ias e as palavras. N\u00e3o \u00e9 adequado \u00e0 sua idade dan\u00e7ar como faz. N\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 mesmo esperan\u00e7a de que ele tome ju\u00edzo algum dia!<\/p>\n<p>Surpreso, o m\u00e9dico insistiu:<\/p>\n<p>Mas por que dan\u00e7a ele desse jeito, velho como est\u00e1? Ela ergueu os ombros, vermelha sob a a\u00e7\u00e3o da c\u00f3lera que \u00a0pouco a pouco a excitava:<\/p>\n<p>\u2013 Ah, sim, por qu\u00ea? Para falar a verdade, \u00e9 para que o imaginem mo\u00e7o embaixo da m\u00e1scara, para que as mulheres ainda o julguem um galanteador e lhe digam libertinagens ao ouvido, para esfregar-se na pele dessas mulheres, peles sujas de perfumes, de p\u00f3s e cremes \u2026 Ah! \u00c9 incr\u00edvel! Imagine, doutor, a vida que tenho levado durante os quarenta anos que isto vai durando\u2026 Primeiro, por\u00e9m, precisamos deit\u00e1-lo, para que ele n\u00e3o se sinta mal. N\u00e3o se importa de judar-me? Quando fica neste estado, \u00e9 muito dif\u00edcil para mim lidar com ele sozinha.<\/p>\n<p>O velho estava sentado na cama, com jeito de b\u00eabedo, os longos cabelos brancos ca\u00eddos no rosto.<\/p>\n<p>Sua companheira observava-o com olhos enternecidos e furiosos. Continuou:<\/p>\n<p>\u2013 Repare como tem uma bonita cabe\u00e7a para a idade; n\u00e3o precisava disfar\u00e7ar-se de malandro para que o supusessem mo\u00e7o. \u00c9 uma l\u00e1stima! N\u00e3o \u00e9 verdade que ele tem uma bela cabe\u00e7a, doutor? Espere, vou mostr\u00e1-la ao senhor antes que ele se deite.<\/p>\n<p>\u2013 Encaminhou-se para uma mesa sobre a qual estavam colocados a bacia de m\u00e3os, o jarro de \u00e1gua, o sab\u00e3o, o pente e a escova. Apanhou a escova, voltou para junto da cama e, depois de lidar por uns momentos com a cabeleira embara\u00e7ada do b\u00eabedo, deu-lhe \u00e0 cabe\u00e7a a apar\u00eancia de um modelo de pintor, com grandes madeixas ca\u00eddas no pesco\u00e7o. Recuou a fim de contempl\u00e1-lo e observou:<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o \u00e9 verdade que est\u00e1 bem para a sua idade?<\/p>\n<p>\u2013 Muito bem \u2013 concordou o m\u00e9dico, que come\u00e7ava a divertir-se bastante.<\/p>\n<p>\u2013 E se o senhor o tivesse conhecido quando tinha vinte e cinco anos! \u2013 exclamou ela. \u2013 Mas \u00e9 preciso p\u00f4-lo na cama; sem isso, os seus absintos lhe ficariam dando voltas na barriga. Olhe, doutor, quer puxar a manga? .. Mais em cima \u2026 Assim \u2026 Bem \u2026 Agora a cal\u00e7a \u2026 Espere, vou tirar-lhe os sapatos \u2026 Est\u00e1 bem. Agora, conserve-o de p\u00e9 para que eu arrume a cama. .. Pronto\u2026 Vamos deit\u00e1-lo. .. Se pensa que ele se afastar\u00e1 daqui a pouco para ceder-me lugar, o senhor est\u00e1 enganado. Terei que arranjar um cantinho, seja onde for. Isso n\u00e3o o preocupa. Ah, que estr\u00f3ina!<\/p>\n<p>Ao sentir que estava estendido debaixo das cobertas, o velho fechou os olhos, tornou a abri-los e novamente os fechou, enquanto uma en\u00e9rgica determina\u00e7\u00e3o de dormir se lhe refletia no rosto satisfeito.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico indagou, depois de observ\u00e1-lo com acrescido interesse:<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o, ele gosta de fingir-se de mo\u00e7o nos bailes \u00e0 fantasia?<\/p>\n<p>\u2013 Em todos, doutor, e s\u00f3 volta pela manh\u00e3, num estado que ningu\u00e9m pode imaginar. Veja, \u00e9 a tristeza que o leva aos sal\u00f5es, e que o obriga a colocar um rosto de papel\u00e3o sobre o pr\u00f3prio. Sim, a tristeza de n\u00e3o ser mais o que j\u00e1 foi, e tamb\u00e9m de n\u00e3o obter mais o mesmo sucesso que j\u00e1 obteve!<\/p>\n<p>O velho dormia, agora, e come\u00e7ava a roncar. Ela contemplou-o com ar apiedado e prosseguiu:<\/p>\n<p>\u2013 Ah! Saiba o senhor que este homem j\u00e1 fez muito sucesso! Muito mais do que seria de supor, mais do que senhores elegantes da sociedade, mais do que todos os tenores e todos os generais.<\/p>\n<p>Realmente? Que fazia ele?<\/p>\n<p>\u2013 Oh! O senhor vai ficar surpreendido, no come\u00e7o, pois n\u00e3o o conheceu nos seus belos tempos. Quando o encontrei, tamb\u00e9m num baile, porque ele sempre os freq\u00fcentou, fiquei presa, ao v\u00ea-lo, presa como um peixe no anzol. Ele era bonito, doutor, bonito a ponto de fazer vir l\u00e1grimas aos olhos quando o fit\u00e1vamos, com seus cabelos negros como um corvo, crespos, e uns olhos negros do tamanho de janelas. Ah, sim, era um belo rapaz. Nessa noite ele me levou consigo, e n\u00e3o mais o deixei, nunca, nem por um s\u00f3 dia, apcsar de tudo! Oh! Fez-me comer fogo!<\/p>\n<p>O m\u00e9dico indagou: \u2013 Casaram-se?<\/p>\n<p>Ela respondeu, com simplicidade:<\/p>\n<p>\u2013 Sim \u2026 Sem isso ele me teria largado, como largou as outras. Fui sua mulher e sua criada, tudo, tudo quanto quis \u2026 e fez-me chorar \u2026 l\u00e1grimas que n\u00e3o lhe deixei ver! Pois me descrevia as suas aventuras \u2026 a mim \u2026 a mim \u2026 doutor, sem compreender o mal que me fazia ouvi-lo falar \u2026<\/p>\n<p>\u2013 Afinal, que profiss\u00e3o tinha?<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 verdade \u2026 Esqueci-me de contar. Era o primeiro ajudante de Martel, mas um primeiro ajudante como n\u00e3o houve outro igual. .. Um artista de dez francos a hora, em m\u00e9dia \u2026<\/p>\n<p>\u2013 Martel? Quem \u00e9 esse Martel? \u2026<\/p>\n<p>O cabeleireiro, doutor, o grande cabeleireiro da \u00d3pera, de quem todas as atrizes eram freguesas. Sim, todas as atrizes, mesmo as mais emproadas, faziam quest\u00e3o de ser penteadas por Ambroise, e davam-lhe gratifica\u00e7\u00f5es que o enriqueceram. Ah, doutor, todas as mulheres s\u00e3o iguais, sim, todas. Quando um homem lhes agrada, elas o tomam. \u00c9 t\u00e3o f\u00e1cil. .. e causa tanta m\u00e1goa quando a gente sabe! Pois ele me contava tudo .. .\u201d N\u00e3o podia calar-se \u2026 N\u00e3o, n\u00e3o podia. Essas coisas causam tanto prazer aos homens! Talvez mais ainda quando as contam do que quando as fazem \u2026<\/p>\n<p>\u201cQuando o via regressar, \u00e0 noite, um pouco p\u00e1lido, com um jeito satisfeito, o olhar brilhante, dizia comigo mesma: \u201cMais uma. Tenho a certeza de que arranjou mais uma.\u201d E sentia vontade de interrog\u00e1-lo, uma vontade que me dilacerava o cora\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m vontade de nada saber, de impedir que falasse quando a isso se dispusesse. E nos entreolh\u00e1vamos.<\/p>\n<p>\u201cSabia bem que ele n\u00e3o se calaria, que ia tocar no assunto. Sentia-o pelo seu jeito, pelo jeito risonho com que me dava a entender: \u201cTive uma boa, hoje, Madeleine\u201d. Fingia nada ver, nada perceber; e punha a mesa; trazia a sopa; sentava-me \u00e0 frente dele.<\/p>\n<p>\u201cNaqueles momentos, doutor, era como se esmagassem com uma pedra, no meu corpo, a minha amizade por ele. Doia, sim, e bastante. Mas ele n\u00e3o percebia, n\u00e3o sabia; tinha necessidade de contar aquilo a algu\u00e9m, de gabar-se, de mostrar que era amado. .. E s\u00f3 a mim podia contar. .. O senhor compreende. .. S\u00f3 a mim. \u201d Ent\u00e3o \u2026 eu precisava escut\u00e1-lo e engolir aquilo como se fosse veneno.<\/p>\n<p>\u201cEle come\u00e7ava a tomar a sopa e depois dizia: \u201c- Mais uma, Madeleine.<\/p>\n<p>\u201cEu pensava: \u201cPronto. Meu Deus, que homem! Por que fui encontr\u00e1-lo?<\/p>\n<p>\u201cE ele continuava: \u2013 Mais uma, e bem bonita! \u2013 Tratava-se de uma pequena do Vaudeville ou ent\u00e3o de uma pequena das Variet\u00e9s, ou tamb\u00e9m de alguma dessas senhoras do teatro, das mais importantes, das mais conhecidas. Dava-me seus nomes, descrevia-me seus m\u00f3veis, e tudo, tudo, sim, tudo, senhor \u2026 Pormenores que me dilaceravam o cora\u00e7\u00e3o. E ele insistia, e recome\u00e7ava a hist\u00f3ria, do come\u00e7o ao fim, t\u00e3o contente que eu fingia rir-me para que n\u00e3o se zangasse comigo.<\/p>\n<p>\u201cTalvez nem tudo fosse verdade! Gostava tanto de gabar-se que seria muito capaz de inventar coisas desse g\u00eanero! Mas tamb\u00e9m podia ser verdade! Nessas noites, ele se queixava de cansa\u00e7o, queria deitar-se logo depois da ceia. Ce\u00e1vamos \u00e0s onze horas, pois nunca ele regressava mais cedo, por causa dos penteados dos saraus.<\/p>\n<p>\u201cQuando terminava de contar a sua aventura, fumava cigarros, passeava pelo quarto e era t\u00e3o bonito, com seus bigodes e seus cabelos crespos, que eu ponderava: \u201c\u00c9 verdade, mesmo, o que me contou. J\u00e1 que sou louca por esse homem, por que as outras tamb\u00e9m n\u00e3o se apaixonariam?\u201d Ah! Muitas vezes tive vontade de chorar, de gritar, de fugir, de atirar-me pela janela, enquanto tirava a mesa e ele continuava a fumar. Bocejava, abrindo a boca para mostrar qu\u00e3o cansado estava, e dizia duas ou tr\u00eas vezes, antes de meter-se na cama: \u201cMeu Deus, como vou dormir bem esta noite!\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o lhe guardo rancor, pois n\u00e3o sabia quanto me magoava. N\u00e3o, n\u00e3o podia saber! Gostava de gabar-se das mulheres como um pav\u00e3o que desdobra a cauda. Chegara ao ponto de achar que todas o olhavam e o desejavam.<\/p>\n<p>\u201cFoi duro para ele quando envelheceu.<\/p>\n<p>\u201cOh, doutor, ao ver seu primeiro cabelo branco, senti uma emo\u00e7\u00e3o que me fez perder o f\u00f4lego, e depois uma alegria \u2013 uma alegria perversa, mas t\u00e3o grande, t\u00e3o grande!!! Disse comigo mesma: \u201c\u00c9 o fim \u2026 \u00e9 o fim \u2026 \u201d Pareceu-me que iam tirar-me de uma pris\u00e3o. Seria meu, s\u00f3 meu, quando as outras n\u00e3o o quisessem mais.<\/p>\n<p>\u201cEra de manh\u00e3, est\u00e1vamos na cama. Ele ainda dormia, e me inclinava para despert\u00e1-lo, beijando-o, quando divisei nos seus cabelos, na t\u00eampora, um fiozinho que brilhava como prata. Que surpresa! N\u00e3o teria acreditado que aquilo fosse poss\u00edvel! Primeiro pensei em arranc\u00e1-lo, para que ele n\u00e3o o visse! Por\u00e9m, examinando melhor, avistei outro, um pouco acima. Cabelos brancos! Ele ia ter cabelos brancos! Meu cora\u00e7\u00e3o pulsava e eu transpirava; contudo, estava bem contente, no fundo!<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 feio pensar assim, mas tive prazer em cuidar da casa naquela manh\u00e3, antes de acord\u00e1-lo; e quando ele abriu os olhos espontaneamente, eu lhe disse:<\/p>\n<p>\u201c- Sabe o que descobri enquanto voc\u00ea dormia? \u201c- N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201c- Descobri que est\u00e1 com cabelos brancos.<\/p>\n<p>\u201cEle teve um sobressalto de despeito, que o p\u00f4s sentado como se eu lhe tivesse feito c\u00f3cegas, e observou, com uma express\u00e3o m\u00e1:<\/p>\n<p>\u201c- N\u00e3o \u00e9 verdade!<\/p>\n<p>\u201c- Sim, na t\u00eampora esquerda. S\u00e3o quatro. \u201cEle saltou da cama para correr ao espelho.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o encontrou os cabelos brancos. Ent\u00e3o lhe mostrei o primeiro, aquele crespinho, mais embaixo. E comentei:<\/p>\n<p>\u201c- N\u00e3o \u00e9 de admirar, com a vida que voc\u00ea leva. Daqui a dois anos estar\u00e1 acabado.<\/p>\n<p>\u201cPois bem, doutor, eu falava a verdade: ningu\u00e9m o reconheceria dois anos depois. Como \u00e9 poss\u00edvel um homem mudar t\u00e3o depressa! Ainda era bonito, mas ia perdendo a frescura, e as mulheres j\u00e1 n\u00e3o o procuravam mais. Ah, que vida dura levei naqueles tempos! Bem boas ele me fez sofrer! Nada lhe agradava, absolutamente nada! Abandonou sua profiss\u00e3o para fabricar chap\u00e9us, e perdeu dinheiro. Depois quis ser ator e falhou, e em seguida come\u00e7ou a freq\u00fcentar bailes p\u00fablicos. Afinal, teve o bom senso de guardar um pouco de dinheiro, com o qual vivemos. D\u00e1, mas n\u00e3o \u00e9 grande coisa! E dizer-se que houve um momento em que podia ser considerado quase rico!<\/p>\n<p>\u201cO senhor viu o que ele faz agora. \u00c9 uma esp\u00e9cie de del\u00edrio que o possui. Precisa sentir-se jovem, precisa dan\u00e7ar com mulheres que cheirem a perfume e a brillhantina. Coitado do meu querido velho!\u201d<\/p>\n<p>Emocionada, prestes a chorar, ela contemplava o velho marido, que roncava. Depois, aproximando-se com passos cautelosos, beijou-lhe os cabelos. O m\u00e9dico levantara-se e preparava-se para retirar-se, n\u00e3o encontrando o que dizer ante aquele estranho caso.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, ao v\u00ea-lo sair, ela indagou:<\/p>\n<p>\u2013 Assim mesmo, n\u00e3o quer deixar o seu endere\u00e7o? Se ele piorar, irei cham\u00e1-lo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Havia naquela noite um baile \u00e0 fantasia no Elis\u00e9e Montmartre. 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