{"id":686,"date":"2018-07-09T12:38:08","date_gmt":"2018-07-09T12:38:08","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=686"},"modified":"2018-07-09T12:39:04","modified_gmt":"2018-07-09T12:39:04","slug":"mademoiselle-fifi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/mademoiselle-fifi","title":{"rendered":"Mademoiselle Fifi"},"content":{"rendered":"<p>O major comandante prussiano, conde de Farlsberg, acabava de ler sua correspond\u00eancia, com as costas afundadas numa ampla poltrona estofada e as botas pousados no elegante m\u00e1rmore da lareira, onde as esporas, no decurso dos tr\u00eas meses em que ocupava o castelo de Uville, haviam tra\u00e7ado dois fundos orif\u00edcios, dia a dia um pouco mais escavados.<\/p>\n<p>Uma x\u00edcara de caf\u00e9 fumegava sobre uma mesa redonda de marchetaria, manchada pelos licores, queimada pelos charutos, talhada pelo canivete do oficial, que \u00e0s vezes tra\u00e7ava sobre o gracioso m\u00f3vel algarismos ou desenhos, ao capricho da sua indolente fantasia.<\/p>\n<p>Tendo terminado a leitura das cartas e percorrido os jornais alem\u00e3es que seu ordenan\u00e7a lhe trouxera, levantou-se, e depois de ativar o fogo com tr\u00eas ou quatro enormes achas de lenha verde, das \u00e1rvores que derrubavam do parque para se aquecer, aproximou-se da janela.<\/p>\n<p>A chuva ca\u00eda a c\u00e2ntaros, uma chuva normanda que se diria atirada por m\u00e3o furiosa, uma chuva enviesada, espessa como uma cortina, formando uma esp\u00e9cie de muro de listras obl\u00edquas, uma chuva fustigante, tudo salpicando, tudo inundando, verdadeira chuva dos arredores de Rouen, esse vaso noturno da Fran\u00e7a.<br \/>\nO oficial contemplou longamente os relvados cheios d\u2019\u00e1gua, e ao longe o Andelle engrossado, que transbordava. Tamborilava contra a vidra\u00e7a uma valsa do Reno, quando um rumor f\u00ea-lo voltar-se. Era seu imediato, o bar\u00e3o de Kelweigstein, que ocupava o posto equivalente ao de capit\u00e3o.<\/p>\n<p>O major era um gigante de esp\u00e1duas largas, com longa barba em forma de leque, abrindo-se sobre o peito como um guardanapo. Da cabe\u00e7a aos p\u00e9s, a sua pessoa avantajada dava a id\u00e9ia de um pav\u00e3o militar, um pav\u00e3o cuja cauda se desdobrasse no queixo. Tinha olhos azuis, frios e tranq\u00fcilos, uma das faces lanhada por um golpe de sabre, recebido na guerra da \u00c1ustria, e diziam-no homem t\u00e3o reto quanto oficial destemido.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o, homenzinho corado, de ventre proeminente, estreitamente cintado, usava muito curta a barba vermelha, cujos fios cor de fogo fariam supor, quando batidos por certos reflexos, que seu rosto fora esfregado com f\u00f3sforo. Dois dentes perdidos numa noite de p\u00e2ndega, sem que ao menos se lembrasse como, faziam-no cuspir palavras espessas, nem sempre intelig\u00edveis. Era calvo apenas no alto do cr\u00e2nio, tonsurado como um frade, com uma coroa de cabelinhos frisados, dourados e brilhantes orlando aquele c\u00edrculo de carne nua.<\/p>\n<p>O comandante apertou-lhe a m\u00e3o, e em seguida engoliu de um s\u00f3 trago a sua x\u00edcara de caf\u00e9, a sexta nessa manh\u00e3, enquanto escutava do seu subordinado a rela\u00e7\u00e3o dos incidentes ocorridos em servi\u00e7o. Depois ambos se aproximaram da janela, comentando que aquilo n\u00e3o era nem um pouco divertido. Homem sossegado, casado em sua p\u00e1tria, o major adaptava-se facilmente \u00e0 situa\u00e7\u00e3o. O bar\u00e3o, por\u00e9m, bo\u00eamio incorrig\u00edvel, freq\u00fcentador de lupanares, impetuoso conquistador, irritava-se com estar encerrado havia tr\u00eas meses naquela posi\u00e7\u00e3o perdida, numa castidade obrigat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Ouvindo algu\u00e9m bater \u00e0 porta, o comandante mandou entrar e um de seus soldados aut\u00f4matos apareceu, anunciando pela sua simples presen\u00e7a que o almo\u00e7o estava servido.<\/p>\n<p>Na sala de refei\u00e7\u00e3o encontraram tr\u00eas oficiais de posto inferior: um tenente, Otto de Gossling; dois subtenentes, Fritz Schcenaubourg e o marqu\u00eas Wilhem d\u2019Eyrik, lourinho orgulhoso e brutal com seus subordinados, duro para com os vencidos e violento como uma arma de fogo.<\/p>\n<p>Desde que entrara na Fran\u00e7a, os companheiros do marqu\u00eas d\u2019Eyrik s\u00f3 o tratavam por Mademoiselle Fifi. Devia a alcunha ao seu andar requebrado, \u00e0 sua cintura fina que se diria comprimida por espartilho, ao seu rosto p\u00e1lido onde mal repontava um bigode incipiente, e tamb\u00e9m ao h\u00e1bito que adquirira de, para expressar seu soberano desprezo pelos seres e pelas coisas, servir-se a todo momento da locu\u00e7\u00e3o francesa fi, fi donc, que pronunciava com ligeiro sibilo.<\/p>\n<p>A sala de jantar do castelo de Uville era uma pe\u00e7a ampla e imponente. Os espelhos de cristal antigo, agora estrelados de balas, e as requintadas tape\u00e7arias de Flandres, dilaceradas por golpes de sabre e despregadas em alguns lugares, denunciavam as ocupa\u00e7\u00f5es de Mlle. Fifi nas suas horas de lazer. Nas paredes, tr\u00eas retratos de fam\u00edlia \u2014 um guerreiro de armadura, um cardeal e um presidente fumando longo cachimbo de porcelana \u2014 enquanto uma nobre dama de busto espartilhado, na sua moldura desdourada pelos anos, exibia um enorme bigode desenhado a carv\u00e3o.<\/p>\n<p>O almo\u00e7o dos oficiais decorreu quase em sil\u00eancio naquele sal\u00e3o mutilado, ensombrecido pela embriaguez, confrangedor pelo seu aspecto de derrota, tornado s\u00f3rdido como um ch\u00e3o de taberna o seu antigo soalho de carvalho.<\/p>\n<p>Terminada a refei\u00e7\u00e3o, \u00e0 hora de fumar, puseram-se a falar, como faziam todos os dias, do t\u00e9dio que experimentavam. As garrafas de conhaque e de licores passavam de m\u00e3o em m\u00e3o, e todos, recostados nas cadeiras, bebiam vagarosamente, em goles repetidos, conservando o cachimbo no canto da boca, longo tubo curvo rematado pelo ovo de faian\u00e7a, sarapintado como para seduzir hotentotes. Mal os copos se esvaziavam, tornavam a ench\u00ea-los, com um gesto de resignada lassid\u00e3o. Mlle. Fifi quebrava o seu, a toda hora, e imediatamente um soldado lhe apresentava outro.<\/p>\n<p>Envolvia-os uma cerra\u00e7\u00e3o feita de fuma\u00e7a acre, e pareciam engolfar-se numa embriaguez triste e entorpecedora, naquela ebriedade melanc\u00f3lica das pessoas que nada t\u00eam com que se ocupar.<\/p>\n<p>Subitamente, o bar\u00e3o se aprumou. Sacudia-o um assomo de revolta. Praguejou:<\/p>\n<p>\u2014 Com todos os diabos! Isto assim n\u00e3o pode continuar! Afinal, \u00e9 preciso inventar qualquer coisa para fazer!<\/p>\n<p>O tenente Otto e o subtenente Fritz, dois alem\u00e3es dotados de caracter\u00edsticas fisionomias pesadas e graves, indagaram:<\/p>\n<p>\u2014 O que podia ser, capit\u00e3o?<\/p>\n<p>Ele refletiu alguns segundos, e depois observou:<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea? Ora, \u00e9 preciso organizar uma festa, caso o comandante o permita.<\/p>\n<p>O major largou o cachimbo:<\/p>\n<p>\u2014 Que festa, capit\u00e3o?<\/p>\n<p>O bar\u00e3o aproximou-se:<\/p>\n<p>\u2014 Encarrego-me de tudo, comandante. Mandarei o ajudante de ordens a Rouen, e ele nos trar\u00e1 algumas damas. Sei onde encontr\u00e1-las. Uma ceia ser\u00e1 preparada aqui. Ali\u00e1s, nada falta, e passaremos uma noitada divertida.<\/p>\n<p>O conde de Farlsberg meneou os ombros com um sorriso:<\/p>\n<p>\u2014 O senhor est\u00e1 louco, meu amigo.<\/p>\n<p>Mas todos os oficiais se tinham levantado e rodeavam o superior, suplicando:<\/p>\n<p>\u2014 Comandante, consinta, por favor. \u00c9 t\u00e3o triste a nossa vida aqui.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 bem \u2014 concordou finalmente o major.<\/p>\n<p>Sem perder tempo, o bar\u00e3o mandou chamar o ajudante de ordens. Era um velho subtenente, a quem jamais ningu\u00e9m vira rir-se, mas que cumpria fanaticamente todas as ordens de seus superiores, fossem quais fossem.<\/p>\n<p>Perfilado, rosto impass\u00edvel, recebeu as instru\u00e7\u00f5es do bar\u00e3o. Retirou-se em seguida, e cinco minutos mais tarde um grande carro militar, coberto com um toldo encerado estendido \u00e0 maneira de c\u00fapula, deslocava-se apressadamente sob a chuva torrencial, ao galope de quatro cavalos.<\/p>\n<p>Imediatamente um fr\u00eamito perpassou pelos esp\u00edritos, despertando-os. Os corpos languidamente recostados se aproximaram, animaram-se os rostos e todos se puseram a conversar.<\/p>\n<p>Embora o aguaceiro continuasse a cair com a mesma intensidade, o major afirmou que j\u00e1 estava menos escuro, e o tenente Otto anunciou, convicto, que o c\u00e9u ia clarear. O pr\u00f3prio Mlle. Fifi parecia inquieto. Levantava-se, tornava a sentar-se. Seu olhar claro e duro procurava algo para quebrar. De repente, fitando a dama de bigodes, o lourinho puxou o rev\u00f3lver:<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o assistir\u00e1 a nada disso \u2014 declarou ele.<\/p>\n<p>Sem se levantar da cadeira, fez pontaria, e duas balas sucessivamente furaram os dois olhos do retrato.<\/p>\n<p>Exclamou depois:<\/p>\n<p>\u2014 Agora vamos fazer a mina!<\/p>\n<p>E as palestras interromperam-se, como se um novo e poderoso interesse a todos empolgasse. \u201cFazer mina\u201d era a inven\u00e7\u00e3o de Mlle. Fifi, sua maneira de destruir, seu divertimento predileto.<\/p>\n<p>Ao abandonar o castelo, o seu leg\u00edtimo propriet\u00e1rio, conde Fernand d\u2019Amoys d\u2019Uville, n\u00e3o tivera tempo para transportar nem esconder coisa alguma, salvo a prataria oculta no oco de uma parede. Como era muito rico e munificente, o sal\u00e3o do castelo, cuja porta se abria para a sala de jantar, apresentava antes da fuga precipitada o aspecto de uma galeria de museu. Telas, desenhos e aquarelas de pre\u00e7o pendiam das paredes. Dispostos sobre os m\u00f3veis e aparadores, e nas vitrines elegantes, mil bibel\u00f4s, porcelanas, estatuetas, figurinhas de Saxe e bonecos da China, marfins antigos e cristais de Veneza, enchendo o vasto aposento com a sua presen\u00e7a preciosa e rara.<\/p>\n<p>Pouco restava de tudo aquilo. N\u00e3o que os objetos houvessem sido pilhados, pois tal coisa o major conde de Farlsberg n\u00e3o teria permitido. Por\u00e9m, de quando em quando, Mlle. Fifi preparava uma mina, e ent\u00e3o os oficiais realmente se divertiam durante quinze minutos.<\/p>\n<p>O marquesinho foi ao sal\u00e3o buscar o material de que precisava. Trouxe um bule de ch\u00e1 de porcelana chinesa, fam\u00edlia r\u00f3sea, sobremaneira fr\u00e1gil, que encheu de p\u00f3lvora. Introduziu no bico, com delicadeza, um longo peda\u00e7o de estopim, e apressou-se em levar essa m\u00e1quina infernal ao compartimento vizinho. Acendeu-o e regressou r\u00e1pido, depois de fechar a porta. Os alem\u00e3es esperaram de p\u00e9, o rosto sorridente espelhando uma curiosidade infantil. Assim que a explos\u00e3o estremeceu o castelo, precipitaram-se todos para o sal\u00e3o.<\/p>\n<p>Mlle. Fifi, o primeiro a entrar, batia freneticamente as m\u00e3os diante de uma V\u00eanus de terracota, cuja cabe\u00e7a afinal saltara. Cada um deles apanhou cacos de porcelana, admirando os estranhos recortes dos estilha\u00e7os, verificando os estragos novos e atribuindo outros a uma explos\u00e3o anterior. E o major considerava com ar paternal o vasto sal\u00e3o, violentamente abalado por aquela metralha \u00e0 maneira de Nero e coalhado de fragmentos de objetos de arte. Foi o primeiro a sair, depois de observar com bonomia:<\/p>\n<p>\u2014 Desta vez foi um sucesso.<\/p>\n<p>Mas tamanho turbilh\u00e3o de fuma\u00e7a invadira a sala de jantar, misturando-se ao fumo dos cachimbos, que ningu\u00e9m mais conseguia respirar. O comandante abriu a janela, e os oficiais, que haviam retornado para beber um \u00faltimo copo de conhaque, foram-se aproximando.<\/p>\n<p>O ar \u00famido penetrou no aposento, trazendo consigo uma esp\u00e9cie de poeira d\u2019\u00e1gua e um cheiro de inunda\u00e7\u00e3o. Puseram-se a contemplar as enormes \u00e1rvores, vergadas pelo aguaceiro, o amplo vale obscurecido pela aglomera\u00e7\u00e3o de nuvens baixas e sombrias, e bem ao longe o campan\u00e1rio da igreja, alteando-se como uma flecha cinzenta no meio da chuva torrencial.<\/p>\n<p>Desde que eles tinham chegado, os sinos da igreja haviam deixado de tocar. Era a \u00fanica resist\u00eancia com que os invasores tinham deparado nos arredores: a do campan\u00e1rio. O vig\u00e1rio absolutamente n\u00e3o se recusara a abrigar e alimentar soldados prussianos. Concordara at\u00e9 em beber uma garrafa de cerveja ou de bordeaux com o comandante inimigo, que muitas vezes o utilizava como intermedi\u00e1rio volunt\u00e1rio. Por\u00e9m, n\u00e3o lhe pedissem uma s\u00f3 badalada de seu sino! Mais depressa se deixaria fuzilar. Era a sua maneira de protestar contra a invas\u00e3o: protesto pac\u00edfico, protesto de sil\u00eancio, o \u00fanico, segundo dizia, adequado a um sacerdote, homem de do\u00e7ura e n\u00e3o de sangue. E todos, numa circunfer\u00eancia de dez l\u00e9guas, gabavam a firmeza, o hero\u00edsmo do Pe. Chantavoine, que ousava afirmar o luto p\u00fablico e proclam\u00e1-lo atrav\u00e9s do obstinado mutismo da sua igreja.<\/p>\n<p>A aldeia inteira, entusiasmada com essa resist\u00eancia, mostrava-se disposta a apoiar at\u00e9 o fim o seu pastor, disposta a tudo afrontar, pois considerava esse protesto t\u00e1cito como um desagravo \u00e0 honra nacional. Os camponeses tinham a impress\u00e3o de que a p\u00e1tria lhes devia mais do que a Blefort e a Strasbourg; parecia-lhes ter dado um exemplo equivalente, e que haviam imortalizado o nome da aldeia. Com exce\u00e7\u00e3o disso, nada recusavam aos prussianos vencedores.<\/p>\n<p>Tanto o comandante como os oficiais se riam dessa inofensiva coragem. Como a regi\u00e3o inteira se mostrava obediente e submissa para com eles, de boa vontade toleravam aquele silencioso patriotismo.<\/p>\n<p>Apenas o pequeno marqu\u00eas Wilhem teria gostado de for\u00e7ar o sino a tocar. Irritava-o a condescend\u00eancia pol\u00edtica do seu superior em rela\u00e7\u00e3o ao p\u00e1roco, e todos os dias insistia com o comandante para que o deixasse fazer \u201cding-don-don\u201d uma vez, uma \u00fanica vez, somente para divertir-se um pouco. Fazia tal pedido com requebros felinos, meiguices femininas e as do\u00e7uras na voz que teria uma amante obcecada por um desejo. Mas o comandante n\u00e3o cedia, e para consolar-se Mlle. Fifi \u201cfazia mina\u201d no castelo de Uville.<br \/>\nDurante alguns momentos, os cinco homens permaneceram agrupados no mesmo lugar, aspirando a umidade. Enfim, soltando uma risada pastosa, o tenente Fritz assim se expressou:<\/p>\n<p>\u2014 Aquelas senhorritas tecididamente n\u00e3o terr\u00e3o uma tempo ponito para sua passeio.<\/p>\n<p>Logo em seguida eles se separaram. Cada um retomou seu servi\u00e7o, e o capit\u00e3o ocupou-se com os m\u00faltiplos preparativos do jantar.<\/p>\n<p>Ao cair da noite, quando novamente se encontraram, puseram-se a rir, vendo-se todos faceiros e reluzentes como nos dias de revista solene, os cabelos lustrosos, perfumados e limpos. Os cabelos do comandante se haviam tornado menos grisalhos do que pela manh\u00e3, e o capit\u00e3o fizera a barba, s\u00f3 conservando o bigode ruivo, que lhe parecia uma chama sob o nariz.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante a chuva, deixaram a janela aberta, e de vez em quando um deles ia escutar. \u00c0s seis horas e dez minutos, o bar\u00e3o percebeu um rodar long\u00ednquo. Todos se alvoro\u00e7aram, e o enorme carro n\u00e3o tardou em aproximar-se, sem deter o galope dos quatro cavalos esbaforidos, enlameados at\u00e9 \u00e0s costas.<\/p>\n<p>Cinco mulheres desceram no patamar, cinco bonitas raparigas escolhidas a dedo por um companheiro do capit\u00e3o. N\u00e3o se tinham feito rogar, certas de que seriam bem pagas. Conheciam os prussianos, que h\u00e1 tr\u00eas meses ag\u00fcentavam, e sabiam tirar partido tanto dos homens como das coisas. \u201cS\u00e3o exig\u00eancias da profiss\u00e3o\u201d \u2014 explicavam, a caminho, sem d\u00favida para acalmar o secreto prurido de uns restos de consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Imediatamente entraram na sala de jantar. Iluminada, esta ainda parecia mais l\u00fagubre, deixando perceber o lament\u00e1vel estado a que fora reduzida. A mesa farta de carnes, com a rica baixela e a prataria encontrada na parede onde a escondera seu propriet\u00e1rio, conferia-lhe o aspecto de uma taverna, na qual bandidos fossem cear depois de uma pilhagem. Radiante, o capit\u00e3o apossou-se das raparigas como de objetos familiares, aquilatando-as como dispensadoras de prazer. Como os tr\u00eas mais mo\u00e7os se apressavam em fazer sua escolha, op\u00f4s-se categoricamente, atribuindo-se a partilha, que seria feita dentro da maior eq\u00fcidade, tendo-se em conta as patentes, a fim de que a hierarquia fosse respeitada.<\/p>\n<p>Assim sendo, no prop\u00f3sito de evitar qualquer discuss\u00e3o, qualquer contesta\u00e7\u00e3o, qualquer suspeita de parcialidade, alinhou-as pela estatura, e dirigindo-se \u00e0 mais alta, indagou com voz de comando:<\/p>\n<p>\u2014 Seu nome?<\/p>\n<p>\u2014 Pamela.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00famero um, a chamada Pamela, adjudicada ao comandante.<\/p>\n<p>Em seguida, depois de beijar em sinal de posse a Blondine, a segunda, ofereceu ao comandante Otto a rechonchuda Amanda, Eva ao subtenente Fritz, e Raquel, a mais baixa de todas, ao mais mo\u00e7o dos oficiais, o marquesinho Wilhem d\u2019Eyrik. Raquel era morena muito jovem, de olhos negros como borr\u00f5es de tinta, uma judia, cujo nariz adunco confirmava a regra que caracteriza sua ra\u00e7a,<\/p>\n<p>Todas eram gordas e bonitas, sem fisionomias muito marcadas, como se as pr\u00e1ticas quotidianas e a vida comum nos prost\u00edbulos as tivessem tornado parecidas de rosto e de porte.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas jovens tencionavam subir com as suas damas, sob o pretexto de oferecer-lhes escovas e sab\u00e3o para se lavarem. Prudentemente o capit\u00e3o se op\u00f4s, declarando que estavam bastante limpas para sentarem-se \u00e0 mesa, e argumentando que aqueles que subissem poderiam propor permutas, com isso perturbando os outros pares. Sua experi\u00eancia deu-lhe ganho de causa.<\/p>\n<p>Sentaram-se. O pr\u00f3prio comandante parecia encantado. Colocou Pamela \u00e0 sua direita, Blondine \u00e0 sua esquerda, e observou, ao desdobrar o guardanapo:<\/p>\n<p>\u2014 O senhor teve uma \u00f3tima id\u00e9ia, capit\u00e3o.<\/p>\n<p>Os tenentes Otto e Fritz, afetando polidez como se tratassem com senhoras da sociedade, intimidavam um pouco as suas vizinhas. Mas o bar\u00e3o de Kelweigstein, entregue ao seu prazer predileto, soltava palavras picantes, galanteava em franc\u00eas do Reno, e seus cumprimentos de taverna, expectorados pela abertura dos dois dentes partidos, chegavam \u00e0s raparigas de envolto a uma metralha de saliva.<\/p>\n<p>De resto, elas n\u00e3o compreendiam coisa alguma, e sua intelig\u00eancia s\u00f3 pareceu despertar quando ele come\u00e7ou a cuspir-lhes palavras obscenas, express\u00f5es cruas, que o seu sotaque estropiava. Ent\u00e3o, todas ao mesmo tempo puseram-se a rir como loucas, repetindo as palavras que o bar\u00e3o se comprazia em deformar, a fim de obrig\u00e1-las a proferir obscenidades. Vomitavam tais obscenidades sem hesitar, b\u00eabedas desde as primeiras garrafas de vinho. Tendo assim voltado a ser elas mesmas, e aberto a porta aos h\u00e1bitos, bebiam em todos os copos, cantavam coplas francesas e trechos de can\u00e7\u00f5es alem\u00e3s aprendidas nos seus contatos quotidianos com o inimigo.<\/p>\n<p>Bem depressa os homens, tamb\u00e9m embriagados, puseram-se a berrar e a quebrar a baixela, enquanto \u00e0s suas costas, impass\u00edveis, os soldados os serviam.<\/p>\n<p>O comandante era o \u00fanico a guardar a compostura.<\/p>\n<p>Tinham chegado \u00e0 sobremesa. O champanhe estava sendo servido. O comandante levantou-se, e no mesmo tom que empregaria para erguer um brinde \u00e0 imperatriz Augusta, saudou:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c0s nossas damas!<\/p>\n<p>Foi o in\u00edcio de uma s\u00e9rie de toasts, de galanterias de soldados b\u00eabedos misturadas a gracejos obscenos, que a ignor\u00e2ncia do idioma tornava ainda mais brutais. Um por um eles se levantaram, tentando mostrar-se espirituosos, esfor\u00e7ando-se por parecer engra\u00e7ados. E as mulheres embriagadas, olhos vagos, l\u00e1bios pastosos, aplaudiam freneticamente.<\/p>\n<p>Na prov\u00e1vel inten\u00e7\u00e3o de acrescentar um toque galante \u00e0 orgia, mais uma vez o capit\u00e3o ergueu o copo e proferiu:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c0s nossas vit\u00f3rias sobre os cora\u00e7\u00f5es!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o tenente Otto, esp\u00e9cie de urso da Floresta Negra, retesou-se, inflamado, saturado de bebidas.<\/p>\n<p>Subitamente possu\u00eddo de patriotismo alco\u00f3lico, gritou:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c0s nossas vit\u00f3rias sobre a Fran\u00e7a!<\/p>\n<p>Por mais b\u00eabedas que estivessem, as mulheres calaram-se. Raquel, tr\u00eamula, retrucou:<\/p>\n<p>\u2014 Fique sabendo: conhe\u00e7o franceses diante dos quais voc\u00ea n\u00e3o falaria assim.<\/p>\n<p>O marquesinho p\u00f4s-se a rir, pois o vinho o deixara muito alegre:<\/p>\n<p>\u2014 Ah! ah! ah! Nunca vi esses franceses. Mal aparecemos, eles somem!<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea est\u00e1 mentindo, seu sujo! \u2014 gritou-lhe ao rosto a rapariga, exasperada.<br \/>\nDurante um segundo ele fixou nela os olhos claros, tal como os fixava nas telas quando as furava a tiros de rev\u00f3lver, e depois soltou uma risada.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! Quanto a isso, beleza, acaso estar\u00edamos aqui se eles fossem valentes? Somos donos dos franceses! A Fran\u00e7a \u00e9 nossa! \u2014 Levantou-se, estendeu o copo at\u00e9 ao centro da mesa, e repetiu: \u2014 A Fran\u00e7a \u00e9 nossa, assim como os franceses, os bosques, os campos e as casas da Fran\u00e7a!<\/p>\n<p>Completamente b\u00eabedos, subitamente dominados por um entusiasmo militar, um entusiasmo de brutos, os outros tamb\u00e9m empunharam os copos, vociferando:<\/p>\n<p>\u2014 Viva a Pr\u00fassia! \u2014 e esvaziaram os copos de um s\u00f3 trago.<\/p>\n<p>As raparigas n\u00e3o protestavam, emudecidas e presas do medo. A pr\u00f3pria Raquel calava-se, impotente para responder. Foi ent\u00e3o que o marquesinho colocou sobre a cabe\u00e7a da judia a ta\u00e7a de champanha que tornara a encher, e gritou:<\/p>\n<p>\u2014 A n\u00f3s tamb\u00e9m todas as mulheres da Fran\u00e7a!<\/p>\n<p>Raquel se p\u00f4s de p\u00e9 rapidamente, derramando sobre seus cabelos o c\u00e1lice de champanhe, que em seguida caiu ao ch\u00e3o, espatifando-se. Com os l\u00e1bios tr\u00eamulos, afrontava com o olhar o oficial, que continuava a rir-se. E balbuciou, com voz sufocada pela c\u00f3lera:<\/p>\n<p>\u2014 Isso\u2026 isso n\u00e3o \u00e9 verdade! Absolutamente voc\u00eas n\u00e3o ter\u00e3o as mulheres da Fran\u00e7a!<\/p>\n<p>Ele se sentou, para rir-se mais \u00e0 vontade, e procurando imitar o sotaque parisiense:<\/p>\n<p>\u2014 Essa \u00e9 pem poa, pem poa, enton que veiu facer aqui, pequena?<\/p>\n<p>Interdita, ela se calou, t\u00e3o perturbada que n\u00e3o podia compreender bem o que ele dizia. Depois, assim que alcan\u00e7ou o sentido daquelas palavras, retorquiu, indignada e veemente:<\/p>\n<p>\u2014 Eu\u2026 eu\u2026 n\u00e3o sou mulher, sou prostituta. \u00c9 o que serve para voc\u00eas, prussianos.<\/p>\n<p>Nem bem terminara, e ele j\u00e1 a esbofeteara com for\u00e7a. Ao v\u00ea-lo erguer a m\u00e3o outra vez, enlouquecida pela raiva, Raquel apanhou na mesa uma faca, e bruscamente cravou-a no pesco\u00e7o do marquesinho, bem no c\u00f4ncavo onde come\u00e7a o peito. A palavra que articulava foi cortada na garganta, e ele se quedou de boca escancarada, com olhar terr\u00edvel.<\/p>\n<p>Um bramido ergueu-se, e todos se levantaram em tumulto. Por\u00e9m, depois de atirar sua cadeira \u00e0s pernas do tenente Otto, que se estatelou no ch\u00e3o, Raquel correu \u00e0 janela, abriu-a antes que conseguissem alcan\u00e7\u00e1-la, e desapareceu na noite, sob a chuva que continuava a cair.<\/p>\n<p>Dois minutos depois, Mlle. Fifi morria. Ent\u00e3o Fritz e Otto desembainharam as espadas e quiseram trucidar as outras mulheres. N\u00e3o sem dificuldade, o major impediu o mortic\u00ednio e mandou fech\u00e1-las num quarto, sob a guarda de dois soldados.<\/p>\n<p>Tal como se dispusesse militares para um combate, o major organizou a persegui\u00e7\u00e3o \u00e0 fugitiva, plenamente convencido de que seria capturada. Cinq\u00fcenta homens, fustigados por amea\u00e7as, foram lan\u00e7ados ao parque. Duzentos outros esquadrinharam os bosques e as casas do vale.<\/p>\n<p>A mesa, instantaneamente desocupada, servia agora de leito mortu\u00e1rio. Os quatro oficiais, dissipada a embriaguez, r\u00edgidos e perfilados junto \u00e0s janelas, com a fisionomia de guerreiros em servi\u00e7o, sondavam a noite.<\/p>\n<p>A chuva torrencial continuava. Um marulhar cont\u00ednuo enchia as trevas, murm\u00fario ondeante de \u00e1gua que cai e de \u00e1gua que escorre, de \u00e1gua que goteja e de \u00e1gua que esguicha.<\/p>\n<p>De repente ressoou um tiro, depois outro, muito ao longe. Durante algumas horas, de quando em quando repercutiram detona\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas ou distantes, assim como gritos para reunir e palavras estranhas, lan\u00e7adas como apelos por vozes guturais. Pela manh\u00e3 todos regressaram. Dois soldados haviam sido mortos e tr\u00eas outros feridos por companheiros, durante a ca\u00e7ada, na confus\u00e3o daquela persegui\u00e7\u00e3o noturna.<\/p>\n<p>Raquel n\u00e3o fora encontrada.<\/p>\n<p>Em conseq\u00fc\u00eancia, os habitantes do lugar foram submetidos a um regime de terror, as casas revistadas, toda a regi\u00e3o percorrida, explorada, revolvida. A judia parecia n\u00e3o haver deixado um \u00fanico vest\u00edgio da sua passagem.<\/p>\n<p>Informado, o general ordenou que se abafasse o caso, para n\u00e3o dar maus exemplos ao ex\u00e9rcito, e infligiu uma pena disciplinar ao comandante, que por sua vez puniu seus inferiores. O general dissera:<\/p>\n<p>\u2014 Ningu\u00e9m faz guerra para se divertir e meter-se com mulheres da vida.<\/p>\n<p>E o conde de Farlsberg, exasperado, resolveu vingar-se sobre a regi\u00e3o. Como necessitasse de um pretexto para exercer livremente as suas repres\u00e1lias, mandou chamar o vig\u00e1rio e deu-lhe ordem para tocar o sino por ocasi\u00e3o do sepultamento do marqu\u00eas d\u2019Eyrik. Contra a sua expectativa, o sacerdote mostrou-se d\u00f3cil, humilde, cheio de defer\u00eancia.<\/p>\n<p>Quando o corpo de Mlle. Fifi, carregado por soldados, precedido, cercado e acompanhado por soldados que marchavam de armas embaladas, deixou o castelo de Uville a caminho do cemit\u00e9rio, pela primeira vez o sino dobrou a finados, mas com um ritmo vivo, como se m\u00e3o amiga o acariciasse.<\/p>\n<p>Ressoou tamb\u00e9m \u00e0 noite, no dia seguinte, e todos os dias da\u00ed em diante. Repicou todas as vezes que desejaram. Mesmo durante a noite, acontecia-lhe agitar-se sozinho, de manso, e lan\u00e7ar \u00e0 sombra duas ou tr\u00eas sonoridades, tomado de estranhas alegrias, despertado n\u00e3o se sabia por qu\u00ea. Os camponeses do lugar deram-no como enfeiti\u00e7ado, e ningu\u00e9m, salvo o vig\u00e1rio e o sacrist\u00e3o, se aproximava do campan\u00e1rio.<br \/>\n\u00c9 que uma pobre rapariga vivia l\u00e1 no alto, na ang\u00fastia e na solid\u00e3o, alimentada \u00e0s escondidas por aqueles dois homens.<\/p>\n<p>No alto permaneceu at\u00e9 a retirada das tropas alem\u00e3s. Certa noite, tendo pedido emprestado a carro\u00e7a do padeiro, o pr\u00f3prio vig\u00e1rio conduziu sua prisioneira \u00e0s portas de Rouen. Algum tempo depois um patriota a desposou, entusiasmado pela bela a\u00e7\u00e3o que praticara.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O major comandante prussiano, conde de Farlsberg, acabava de ler sua correspond\u00eancia, com as costas afundadas numa ampla poltrona estofada e as botas pousados no elegante m\u00e1rmore da lareira, onde as esporas, no decurso dos&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[29],"class_list":["post-686","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-guy-de-maupassant"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/686","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=686"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/686\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":690,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/686\/revisions\/690"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=686"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=686"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=686"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}