{"id":689,"date":"2018-07-09T12:38:28","date_gmt":"2018-07-09T12:38:28","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=689"},"modified":"2018-07-09T12:39:03","modified_gmt":"2018-07-09T12:39:03","slug":"drama-humilde","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/drama-humilde","title":{"rendered":"Drama Humilde"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\">Os encontros d\u00e3o encanto \u00e0s viagens. Quem nunca ter\u00e1 sentido a alegria de, a cinq\u00fcenta l\u00e9guas do torr\u00e3o natal, inesperadamente dar de rosto com um parisiense, um colega de col\u00e9gio, um vizinho de campo? Quem n\u00e3o ter\u00e1 passado uma noite, de olhos abertos, na pequena dilig\u00eancia tilintante das regi\u00f5es onde o vapor ainda n\u00e3o chegou, ao lado de uma desconhecida apenas vislumbrada \u00e0 luz da lanterna, no momento em que subia no ve\u00edculo, \u00e0 porta de uma casa branca, numa cidadezinha qualquer?<\/p>\n<p align=\"justify\">E pela manh\u00e3, ainda com o esp\u00edrito e os ouvidos entorpecidos pelo cont\u00ednuo tilintar dos guizos ou pela trepida\u00e7\u00e3o sonora das vidra\u00e7as, como \u00e9 agrad\u00e1vel ver a nossa bonita vizinha de cabelos alvoro\u00e7ados descerrar as p\u00e1lpebras, correr o olhar em torno e com a ponta dos dedos finos alisar os cabelos rebeldes, ajeitar o chap\u00e9u, verificar com m\u00e3o experiente se o colete n\u00e3o saiu do lugar, se a cintura est\u00e1 firme e a saia n\u00e3o se amarrotou muito!<\/p>\n<p align=\"justify\">Ela tamb\u00e9m nos lan\u00e7a um olhar frio e curioso. Depois se aconchega a um canto e parece unicamente ocupada com a paisagem.<\/p>\n<p align=\"justify\">Contra a nossa vontade, n\u00e3o deixamos de observ\u00e1-la, contra a nossa vontade continuamos a pensar nela. Quem ser\u00e1? De onde vem? Para onde ir\u00e1? Relutantes, esbo\u00e7amos mentalmente um pequeno romance. \u00c9 bonita; parece encantadora! Feliz aquele que\u2026 Talvez a vida fosse deliciosa ao seu lado\u2026 Quem sabe? Seria talvez a mulher reclamada pelo nosso cora\u00e7\u00e3o, nossos sonhos, nosso temperamento.<\/p>\n<p align=\"justify\">E como \u00e9 delicioso, tamb\u00e9m, o despeito que sentimos ao v\u00ea-la descer diante da cancela de uma casa de campo! Um homem a espera, tendo ao lado duas crian\u00e7as e duas criadas. Recebe-a nos bra\u00e7os, beija-a e coloca-a no ch\u00e3o. Ela se inclina, ergue os pequenos, que lhe estendem as m\u00e3os, acaricia-os ternamente; e enveredam por uma al\u00e9ia, afastando-se, enquanto as criadas recebem as bagagens atiradas do toldo pelo cocheiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">Adeus! \u00c9 o fim. Nunca mais a veremos, nunca mais. Digamos adeus \u00e0 mo\u00e7a que passou a noite ao nosso lado. N\u00e3o a conhecemos mais, nem sequer lhe falamos; mesmo assim, a sua partida nos entristece um pouco. Adeus!<\/p>\n<p align=\"justify\">Conservo muitas dessas lembran\u00e7as de viagem, algumas alegres, outras melanc\u00f3licas.<\/p>\n<p align=\"justify\">Encontrava-me em Auvergne, vagando por entre aquelas encantadoras montanhas francesas, nem altas demais, nem escarpadas demais, \u00edntimas, familiares. Havia subido ao monte Sancy e entrava num pequeno albergue, junto a uma capela de tomaria chamada Nossa Senhora de Vassivi\u00e8re, quando avistei uma senhora idosa, esquisita e rid\u00edcula, que almo\u00e7ava sozinha a uma mesa, ao fundo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Teria no m\u00ednimo setenta anos, alta, seca, angulosa, com cabelos brancos enrolados em carac\u00f3is nas t\u00eamporas, de acordo com modas j\u00e1 passadas. Vestida como uma inglesa errante, despreocupada e grotescamente, como se vestem as pessoas indiferentes \u00e0 pr\u00f3pria apar\u00eancia, ela comia uma omelete e bebia \u00e1gua.<\/p>\n<p align=\"justify\">Tinha um aspecto singular, olhos inquietos, rosto de algu\u00e9m a quem a vida maltratou. Involuntariamente eu a fitava, indagando comigo mesmo: \u201cQuem ser\u00e1? Que esp\u00e9cie de vida ter\u00e1 essa mulher? Por que estar\u00e1 vagando sozinha por estas montanhas?\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">Ela pagou a conta e depois se levantou para partir, ajeitando nos ombros um incr\u00edvel xalezinho, cujas pontas lhe pendiam dos bra\u00e7os. Apanhou num canto um longo bast\u00e3o de viagem recoberto de nomes gravados a ferro em brasa, e depois se afastou, ereta, tesa, com o passo de um carteiro que se p\u00f5e a caminho.<\/p>\n<p align=\"justify\">Um guia esperava-a junto \u00e0 porta. Afastaram-se. Acompanhei-os com o olhar enquanto desciam o vale, ao longo do caminho assinalado por uma fila de grandes cruzes de madeira. Ela era mais alta do que o companheiro e parecia andar mais depressa do que ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">Duas horas mais tarde eu avan\u00e7ava pelos rebordos de um enorme funil, em cujo fundo, dentro de uma vasta e maravilhosa cova de verdura, se encontra o lago Pavin, t\u00e3o redondo que parece tra\u00e7ado a compasso, t\u00e3o claro e t\u00e3o azul que se diria uma onda de anil tombada do c\u00e9u, t\u00e3o belo que desejar\u00edamos viver numa choupana, l\u00e1 na vertente do bosque que domina a cratera dentro da qual dorme a \u00e1gua tranq\u00fcila e fria.<\/p>\n<p align=\"justify\">L\u00e1 estava ela, de p\u00e9, im\u00f3vel, contemplando aquele len\u00e7ol transparente no fundo do vulc\u00e3o extinto. Fitava-o como se quisesse varar com o olhar as suas misteriosas profundezas, povoadas, segundo contavam, por trutas grandes como monstros, que devoram todos os outros peixes. Ao passar junto dela, tive a impress\u00e3o de que duas l\u00e1grimas rolavam de seus olhos. Mas ela se afastou com largas passadas, a fim de reunir-se ao seu guia, que permanecera numa taverna, ao sop\u00e9 da encosta, no caminho do lago. N\u00e3o tornei a rev\u00ea-la nesse dia.<\/p>\n<p align=\"justify\">No dia seguinte, ao cair da noite, cheguei ao Castelo de Murol. A velha fortaleza, gigantesca torre erigida no alto do pico do mesmo nome, ao centro de um amplo vale, no cruzamento de tr\u00eas pequenas v\u00e1rzeas, projeta-se contra o c\u00e9u, escura, cheia de fendas e protuber\u00e2ncias, mas toda redonda, da larga base circular aos arruinados torre\u00f5es da cumeeira.<\/p>\n<p align=\"justify\">Impressiona, mais do que qualquer outra ru\u00edna, por causa da sua grandeza singela, da sua majestade, do seu ar de velhice, grave e imponente. Mant\u00e9m-se de p\u00e9, sozinha, alta como uma montanha, rainha morta, mas ainda rainha dos vales desdobrados abaixo dela. Atingimo-la atrav\u00e9s da encosta de pinheiros que lhe d\u00e1 acesso, penetramos no seu interior por uma porta estreita e estacamos junto \u00e0s muralhas, no primeiro recinto, que domina a regi\u00e3o inteira.<\/p>\n<p align=\"justify\">Dentro, salas em ru\u00ednas, escadas sem degraus, cavidades misteriosas, subterr\u00e2neos, masmorras, muros reduzidos \u00e0 metade, ab\u00f3badas que continuam de p\u00e9 n\u00e3o se sabe como, um labirinto de pedras, de fendas, onde cresce o mato e animais rastejam. Eu vagava, sozinho, por entre aqueles escombros.<\/p>\n<p align=\"justify\">De s\u00fabito, divisei, atr\u00e1s de uns restos de muro, um ser, uma esp\u00e9cie de fantasma, como se fosse o esp\u00edrito da velha e arruinada morada.<\/p>\n<p align=\"justify\">Tive um sobressalto de surpresa, quase de medo. Depois, reconheci a senhora idosa com quem j\u00e1 me encontrara por duas vezes. Chorava. Chorava grossas l\u00e1grimas e apertava o len\u00e7o na m\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Voltei-me, decidido a ir embora. Ent\u00e3o, vexada por haver sido surpreendida, ela se dirigiu a mim:<br \/>\n\u2013 \u00c9 verdade, estou chorando\u2026 N\u00e3o \u00e9 coisa que me aconte\u00e7a muitas vezes.<\/p>\n<p>Balbuciei, confuso, n\u00e3o sabendo o que responder:<br \/>\n\u2013 Pe\u00e7o-lhe perd\u00e3o por t\u00ea-la perturbado. Sem d\u00favida, a senhora sofreu algum grande desgosto.<\/p>\n<p>Ela murmurou:<br \/>\n\u2013 Sim\u2026 N\u00e3o\u2026 Sou igual a um c\u00e3o sem dono.<\/p>\n<p>E, levando o len\u00e7o aos olhos, p\u00f4s-se a solu\u00e7ar.<\/p>\n<p>Segurei-lhe as m\u00e3os, tentando acalm\u00e1-la, emocionado com aquelas l\u00e1grimas contagiantes.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o ela me contou a sua hist\u00f3ria, como se n\u00e3o mais quisesse ser a \u00fanica a suportar o peso da sua m\u00e1goa:<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2013 Oh!\u2026 Oh!\u2026 Se o senhor soubesse\u2026 em que estado de ang\u00fastia eu vivo\u2026 em que estado de ang\u00fastia\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cEu era feliz. . . Tenho uma casa l\u00e1. . . na minha terra. N\u00e3o quero mais voltar, nunca mais voltarei, \u00e9 por demais doloroso.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cTenho um filho\u2026 \u00c9 ele! \u00c9 ele! Os filhos n\u00e3o sabem\u2026 \u00c9 t\u00e3o curto o tempo que temos para viver! Se eu o visse, agora, talvez nem o reconhecesse mais! Como eu amava meu filho! Mesmo antes de ter nascido, quando o sentia bulir dentro do meu corpo. E mais tarde, ent\u00e3o! Como o beijei, como o acariciei, como lhe quis! Se o senhor soubesse quantas noites passei olhando-o dormir, quantas noites passei pensando nele! Amava-o loucamente. Quando fez oito anos, seu pai internou-o num col\u00e9gio. Foi o fim. N\u00e3o me pertencia mais. \u00d3h, meu Deus! Ele vinha aos domingos, apenas, e mais nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cDepois foi para o col\u00e9gio, em Paris. S\u00f3 nos visitava quatro vezes por ano, e de cada vez eu me surpreendia diante das mudan\u00e7as operadas na sua pessoa, surpreendia-me ao ach\u00e1-lo mais alto sem t\u00ea-lo visto crescer. Roubaram-me sua inf\u00e2ncia, sua confian\u00e7a, sua ternura, que de outra forma n\u00e3o se teria desprendido de mim, roubaram-me a alegria de v\u00ea-lo crescer, de v\u00ea-lo transformar-se em homenzinho.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cS\u00f3 o via quatro vezes por ano! Imagine! A cada uma de suas visitas, seu corpo, seu olhar, seus gestos, sua voz, seu riso, n\u00e3o eram mais os mesmos, n\u00e3o eram mais meus. Uma crian\u00e7a muda depressa; e, se n\u00e3o estamos presentes para acompanhar suas transforma\u00e7\u00f5es, \u00e9 t\u00e3o triste! N\u00e3o a reencontramos mais!<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cHouve um ano em que chegou com uma penugem no rosto! Ele, o meu filho! Fiquei estupefata\u2026 e triste, o senhor acredita? Mal ousava abra\u00e7\u00e1-lo. Seria ele meu filhinho, meu pequenino de cabelos louros e crespos de antigamente, meu querido, meu amado filho que eu tivera, ainda em cueiros, nos joelhos, que sugara meu leite com os pequenos l\u00e1bios \u00e1vidos, aquele rapag\u00e3o moreno, que n\u00e3o sabia mais acarinhar-me, que parecia amar-me como se cumprisse um dever, que me chamava \u2018minha m\u00e3e\u2019 convencionalmente, e que me beijava a testa quando eu teria querido esmag\u00e1-lo nos bra\u00e7os?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cMeu marido morreu. Depois foi a vez de meu pai, e em seguida perdi minhas duas irm\u00e3s. Quando a morte entra numa casa, \u00e9 como se quisesse ceifar o m\u00e1ximo para n\u00e3o precisar voltar t\u00e3o cedo. S\u00f3 deixa vivas uma ou duas pessoas, para que chorem as outras.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cFiquei sozinha. Nessa ocasi\u00e3o meu filho estudava direito. E eu esperava viver e morrer ao seu lado.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cFui reunir-me a ele, a fim de vivermos juntos. Adotara h\u00e1bitos de rapaz; fez-me compreender que o incomodava. Afastei-me. Fiz mal; por\u00e9m, sofria demasiadamente por sentir-me importuna, eu, a m\u00e3e. Retornei \u00e0 minha casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cQuase n\u00e3o o vi mais, quase.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cCasou-se. Que alegria! Finalmente nos reunir\u00edamos para sempre. Teria netos. Ele desposara uma inglesa que tomou avers\u00e3o por mim. Por qu\u00ea? Ser\u00e1 que percebeu que eu o amava demais?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cMais uma vez fui obrigada a afastar-me. Vi-me sozinha. \u00c9 verdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cDepois ele partiu para a Inglaterra. Ia morar com eles, os pais de sua mulher. 0 senhor compreende? Eles se apoderaram de meu filho! Roubaram-no de mim! Ele me escreve todos os meses. Nos primeiros tempos vinha visitar-me. Agora n\u00e3o vem mais.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cFaz quatro anos que o vi pela \u00faltima vez! Tinha o rosto enrugado e cabelos brancos. Seria poss\u00edvel? Meu filho, aquele homem quase velho? Minha criancinha toda cor-de-rosa de outrora? Provavelmente nunca mais o reverei.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cE agora viajo o ano inteiro. Vou para a direita, vou para a esquerda, como o senhor v\u00ea, sem que ningu\u00e9m me acompanhe.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cSou igual a um c\u00e3o sem dono. Adeus, senhor, n\u00e3o fique junto de mim, sinto-me perturbada por ter-lhe contado essas coisas todas.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">E, ao tornar a descer a colina, voltando-me, avistei a velha senhora de p\u00e9 no muro em ru\u00ednas, contemplando os montes, o amplo vale e o lago Chambon, perdido na dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p align=\"justify\">E o vento fazia tremular, como se fossem bandeiras, a barra do seu vestido e o pequeno e estranho xale que usava aos ombros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os encontros d\u00e3o encanto \u00e0s viagens. Quem nunca ter\u00e1 sentido a alegria de, a cinq\u00fcenta l\u00e9guas do torr\u00e3o natal, inesperadamente dar de rosto com um parisiense, um colega de col\u00e9gio, um vizinho de campo? 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