{"id":692,"date":"2018-07-09T12:42:11","date_gmt":"2018-07-09T12:42:11","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=692"},"modified":"2018-07-09T12:46:57","modified_gmt":"2018-07-09T12:46:57","slug":"o-horror-no-museu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-horror-no-museu","title":{"rendered":"O Horror no Museu"},"content":{"rendered":"<p>Foi apenas curiosidade o que levou Stephen Jones ao Museu Rogers pela primeira vez. Algu\u00e9m lhe falara a respeito do estranho lugar subterr\u00e2neo na Southwark Street, do outro lado do rio, onde criaturas de cera muito mais horrendas que as piores ef\u00edgies do Madame Tussaud estavam expostas; e num dia de abril ele resolveu entrar para conferir que tipo de desapontamento iria ter. Curiosamente, n\u00e3o se desapontou. Afinal, alguma coisa diferente e not\u00e1vel estava ali. Decerto, os velhos lugares-comuns sanguin\u00e1rios n\u00e3o poderiam faltar: Landru, Doutor Crippen, Madame Demers, Rizzio, Lady Jane Grey, infind\u00e1veis v\u00edtimas da guerra e da revolu\u00e7\u00e3o, e monstros como Gilles de Rais e o Marqu\u00eas de Sade; mas tamb\u00e9m outras coisas que aceleraram sua respira\u00e7\u00e3o e o fizeram permanecer at\u00e9 ouvir o toque de fechar. O homem que tinha montado aquela cole\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia ser um charlat\u00e3o ordin\u00e1rio. Havia imagina\u00e7\u00e3o, e at\u00e9 um toque de genialidade doentia, em algumas das pe\u00e7as.<\/p>\n<p>Mais tarde ele se informou sobre George Rogers. O homem tinha sido da equipe do Tussaud, mas algum problema ocorrera que resultara em sua demiss\u00e3o. Ouviram-se rumores acerca de sua sanidade mental e not\u00edcias sobre suas loucas formas de adora\u00e7\u00e3o secreta; embora, finalmente, o sucesso de seu pr\u00f3prio museu no por\u00e3o acabasse embotando o gume de algumas cr\u00edticas, ao mesmo tempo em que agu\u00e7ava a ponta insidiosa de outras. Teratologia e iconografia do pesadelo eram seus passatempos; e ele teve mesmo a prud\u00eancia de alojar discretamente algumas de suas piores ef\u00edgies numa alcova especial, destinada somente aos adultos. Foi essa alcova que tanto fascinou Jones. Havia coisas h\u00edbridas e disformes que s\u00f3 a fantasia seria capaz de gerar, moldadas com arte diab\u00f3lica e coloridas de um modo horrivelmente real\u00edstico.<\/p>\n<p>Algumas eram figuras de mitos bem conhecidos: g\u00f3rgonas, quimeras, drag\u00f5es, ciclopes e todos os seus arrepiantes cong\u00eaneres. Outras tinham sido tiradas de mais obscuros e s\u00f3 furtivamente murmurados ciclos de lendas subt\u00e9rreas: o negro e disforme Tsathoggua, o multitentacular Cthulhu, o trombudo Chaugnar Faugn, e outras indiz\u00edveis blasf\u00eamias extra\u00eddas de livros proibidos como o\u00a0Necronomicon,\u00a0o\u00a0Livro de Eibon\u00a0ou o\u00a0Unaussprechlichen Kulten,\u00a0de Von Junzt. Mas as piores eram cria\u00e7\u00f5es originais de Rogers, representando formas que nenhuma narrativa da antiguidade teria alguma vez ousado descrever. Muitas eram repulsivas par\u00f3dias das formas da vida org\u00e2nica que conhecemos, enquanto outras pareciam ter sido sacadas de sonhos febris de outros planetas e gal\u00e1xias. As mais selvagens pintadas por Clark Ashton Smith podem sugerir algumas; mas nada se compararia ao efeito de pungente, repelente terror gerado pelas suas grandes dimens\u00f5es e delirante acabamento artesanal e pelas condi\u00e7\u00f5es de luz diabolicamente perspicazes sob as quais eram exibidas.<\/p>\n<p>Stephen Jones, como um descompromissado\u00a0connoisseur\u00a0do bizarro na arte, procurara Rogers pessoalmente no sombrio escrit\u00f3rio e est\u00fadio que ficava atr\u00e1s do sal\u00e3o de teto abobadado do museu \u2013 uma cripta de aspecto demon\u00edaco, obscuramente iluminada por janelas de correr poeirentas, dispostas horizontalmente no n\u00edvel dos paralelep\u00edpedos de um p\u00e1tio escondido. Nesse lugar \u00e9 que se fazia a manuten\u00e7\u00e3o das imagens, e ali, tamb\u00e9m, algumas tinham sido produzidas.<\/p>\n<p>Bra\u00e7os de cera, pernas, cabe\u00e7as e torsos jaziam em grotesca desordem sobre v\u00e1rios bancos, ao passo que nas prateleiras das estantes se viam perucas, dentes e olhos morti\u00e7os de vidro espalhados indiscriminadamente. Vestimentas de todos os tipos pendiam de ganchos; e numa dada alcova havia grandes pilhas de cera cor-de-carne e prateleiras repletas de latas de tinta e pinc\u00e9is de todos os formatos. No centro do c\u00f4modo estava a grande forja para preparar a cera a ser moldada, sua larga boca ocupada por um vasto\u00a0container\u00a0de ferro com al\u00e7as, ao qual se ligava um tubo que permitiria despejar a cera derretida com um simples toque de dedo.<\/p>\n<p>Outras coisas, na cripta penumbrosa, seriam mais dif\u00edceis de descrever: partes isoladas de entidades problem\u00e1ticas cujas formas agrupadas eram fantasmas de del\u00edrio. Numa das extremidades via-se uma porta de madeira maci\u00e7a, trancada por um cadeado de tamanho incomum, sobre a qual se achava pintado um s\u00edmbolo bastante peculiar. Jones, que j\u00e1 tivera acesso ao tem\u00edvel\u00a0Necronomicon,\u00a0estremeceu involuntariamente ao reconhecer aquele s\u00edmbolo. Este expositor, refletiu, deve ser algu\u00e9m de um saber desconcertantemente vasto acerca dos assuntos d\u00fabios e negros.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a palestra de Rogers n\u00e3o o desapontou. Era um homem alto, esguio e assaz desalinhado, os grandes olhos negros brilhando em combust\u00e3o em meio a uma face p\u00e1lida e mal barbeada. N\u00e3o se incomodou com o aparecimento de Jones e antes pareceu saudar a ocasi\u00e3o de poder se abrir com uma pessoa interessada. Sua voz era de uma profundidade e de uma resson\u00e2ncia singulares, mal dissimulando uma ponta de intensidade represa, que bordejava mesmo com o fervor. Jones n\u00e3o se espantou de que muitos o tivessem julgado louco.<\/p>\n<p>A cada nova visita (e as visitas se tornaram habituais com o passar das semanas), Jones encontraria Rogers mais comunicativo, mais inclinado \u00e0s confid\u00eancias. No princ\u00edpio, tinha havido rumores de cren\u00e7as e pr\u00e1ticas estranhas, da parte do expositor, e mais tarde esses rumores se expandiram em hist\u00f3rias, n\u00e3o obstante umas poucas e estranhas fotografias corroborantes, cuja extravag\u00e2ncia ro\u00e7aria pelo c\u00f4mico. Foi em junho, numa noite em que Jones trouxera uma garrafa de bom u\u00edsque e p\u00f4de conversar mais livremente com seu anfitri\u00e3o, que o discurso realmente insano despontou. Antes disso, haviam surgido hist\u00f3rias delirantes demais \u2013 relatos de viagens ao Tibete, ao interior da \u00c1frica, ao deserto da Ar\u00e1bia, ao vale do Amazonas, ao Alasca e a certas ilhas pouco conhecidas do Pac\u00edfico Sul, al\u00e9m de declara\u00e7\u00f5es acerca de ter lido livros monstruosos como os fragmentos Pnac\u00f3ticos e os cantos Dhol atribu\u00eddos ao maligno e inumano Leng -, mas nada disso fora t\u00e3o inequivocamente insano quanto o que veio \u00e0 tona, sob o influxo do u\u00edsque, naquele anoitecer de junho.<\/p>\n<p>Mais abertamente, Rogers passou a se gabar de ter encontrado certas coisas na natureza que ningu\u00e9m encontrara antes e de ter trazido \u00e0 luz evid\u00eancias de tais descobertas. De acordo com sua arenga, tinha ido mais longe do que qualquer outro na interpreta\u00e7\u00e3o desses livros obscuros e primevos que estudara, e fora orientado por eles para certos lugares remotos onde ins\u00f3litos remanescentes se ocultavam \u2013 remanescentes de \u00e9ons de ciclos de vidas mais antigos que a humanidade e em alguns casos conectados com outras dimens\u00f5es e outros mundos, mundos e dimens\u00f5es com os quais a comunica\u00e7\u00e3o seria frequente em dias pr\u00e9-humanos. Jones se maravilhava com uma fantasia t\u00e3o capaz de conjurar semelhantes no\u00e7\u00f5es e se perguntava qual seria a real hist\u00f3ria mental de Rogers. Teria sido o seu trabalho em meio ao grotesco m\u00f3rbido do Madame Tussaud o ponto de partida para suas fugas imaginativas ou se tratava de uma tend\u00eancia inata, da qual a escolha de sua ocupa\u00e7\u00e3o fora apenas uma das manifesta\u00e7\u00f5es? De qualquer modo, o trabalho do homem estava como que ligado a essas no\u00e7\u00f5es. Mesmo agora n\u00e3o havia que se equivocar com o curso de suas mais negras sugest\u00f5es acerca das monstruosidades de pesadelo ocultas atr\u00e1s da porta onde se lia \u201cPara adultos somente\u201d. Infenso ao rid\u00edculo, ele tentava sugerir que nem todas essas anormalidades demon\u00edacas eram artificiais.<\/p>\n<p>Foi mesmo o ceticismo e o espanto de Jones diante dessas declara\u00e7\u00f5es irrespond\u00edveis que acabaram quebrando a crescente cordialidade. Rogers \u2013 estava claro \u2013 se levava muito a s\u00e9rio, pois agora se tornava moroso e ressentido, continuando a tolerar Jones somente ao pre\u00e7o de um incontido impulso de romper o muro de sua incredulidade urbana e complacente. Contos e sugest\u00f5es delirantes de ritos e sacrif\u00edcios prestados a inomin\u00e1veis deuses antigos continuavam; e aqui e ali Rogers mostraria ao h\u00f3spede uma das ultrajantes blasf\u00eamias na alcova reservada e apontaria detalhes dif\u00edceis de conciliar mesmo com a mais refinada artesania humana. Jones prosseguiu, fascinado, com suas visitas, embora soubesse que tinha desmerecido os interesses de seu anfitri\u00e3o. \u00c0s vezes, tentaria animar Rogers com um fingido assentimento a alguma sugest\u00e3o ou asser\u00e7\u00e3o maluca, mas o magro expositor raramente se deixaria enganar por essas t\u00e1ticas.<\/p>\n<p>A tens\u00e3o atingiu o \u00e1pice mais tarde, em setembro. Jones entrou casualmente no museu, num certo entardecer, e perambulava pelos corredores sombrios, cujo horror lhe era agora familiar, quando ouviu um som bastante sinistro, proveniente do est\u00fadio de Rogers. Outros o ouviram tamb\u00e9m e, nervosamente, sa\u00edram em disparada, enquanto os ecos reverberavam atrav\u00e9s do grande por\u00e3o de teto arqueado. Os tr\u00eas assistentes trocaram olhares significativos; um deles, um sujeito negro e taciturno, com ar de estrangeiro, que sempre servira Rogers como reparador e desenhista assistente, sorriu de um modo que pareceu intrigar seus colegas e que tocou profundamente alguma faceta da sensibilidade de Jones. Parecia o ganido ou o uivo de um c\u00e3o e era um som que s\u00f3 poderia ser produzido sob condi\u00e7\u00f5es do mais extremo terror e agonia combinados. Seu frenesi agudo, angustiado, era impressionante de ouvir e, em toda a sua grotesca anormalidade, continha algo duplamente aterrorizante. Jones se lembrou de que n\u00e3o eram permitidos cachorros no museu.<\/p>\n<p>Estava prestes a ir at\u00e9 a porta que conduzia ao est\u00fadio, quando o atendente negro o deteve com uma palavra e um gesto. O Sr. Rogers \u2013 o homem disse, numa voz suave e algo acentuada que n\u00e3o escondia qualquer coisa de apolog\u00e9tico e sard\u00f4nico \u2013 tinha sa\u00eddo, e havia ordens expressas para n\u00e3o deixar que ningu\u00e9m entrasse no est\u00fadio durante sua aus\u00eancia. Quanto \u00e0quele uivo, proviera certamente de alguma coisa l\u00e1 fora, do p\u00e1tio aos fundos do museu. A vizinhan\u00e7a estava cheia de vira-latas, cujas brigas costumavam ser chocantemente barulhentas. N\u00e3o havia c\u00e3es em parte alguma do museu. Mas, se o Sr. Jones quisesse ver o Sr. Rogers, poderia encontr\u00e1-lo antes da hora de fechar.<\/p>\n<p>Depois disso, Jones galgou os velhos degraus de pedra at\u00e9 a rua e examinou com curiosidade os esqu\u00e1lidos arredores. Os edif\u00edcios magros, decr\u00e9pitos \u2013 que uma vez foram resid\u00eancias, mas que agora eram na maioria lojas e armaz\u00e9ns \u2013 eram de fato muito antigos. Alguns deles eram de um tipo que parecia remontar \u00e0 \u00e9poca dos Tudors, e um fedor algo miasm\u00e1tico pairava sutilmente por toda a regi\u00e3o. Ao lado da casa sombria cujo por\u00e3o servia de museu havia uma passagem em arco, n\u00e3o muito alta, cortada por um caminho de pedras escuras, e foi por ela que Jones enveredou na vaga expectativa de encontrar o p\u00e1tio dos fundos e ajeitar em sua mente, de um modo mais confort\u00e1vel, o caso do cachorro. O p\u00e1tio, obscurecido na fraca luz do entardecer, estava cercado ao fundo por muros mais feios e intangivelmente amea\u00e7adores do que as fachadas decadentes do casario vetusto e maligno. N\u00e3o se via nenhum cachorro. Jones se perguntou como o resultado de tamanho frenesi poderia ter se desvanecido t\u00e3o depressa e t\u00e3o completamente.<\/p>\n<p>Apesar da declara\u00e7\u00e3o do assistente de que nenhum cachorro tinha estado no museu, Jones examinou com nervosismo as tr\u00eas pequenas janelas do est\u00fadio subterr\u00e2neo, estreitos e horizontais ret\u00e2ngulos colados ao piso onde a erva crescia, seus vidros ostensivos a mirar repulsivamente e sem curiosidade como os olhos de um peixe morto. \u00c0 sua esquerda um lance carcomido de degraus conduzia a uma obscura porta de pesadas dobradi\u00e7as. Um impulso lhe veio de se abaixar sobre os paralelep\u00edpedos \u00famidos e partidos e espiar l\u00e1 dentro, na possibilidade de que os espessos cortinados verdes, movidos por longos cord\u00f5es que desciam at\u00e9 um n\u00edvel alcan\u00e7\u00e1vel, n\u00e3o poderiam ser afastados. As superf\u00edcies externas estavam grossas de poeira, mas quando as esfregou com o len\u00e7o percebeu que n\u00e3o havia nenhuma cortina obstruindo a vis\u00e3o.<\/p>\n<p>T\u00e3o penumbroso era o interior do por\u00e3o que pouca coisa se podia ver, mas a grotesca parafern\u00e1lia se deixava lobrigar espectralmente aqui e ali, enquanto Jones observava janela por janela. Parecia evidente, a princ\u00edpio, que ningu\u00e9m estava dentro; no entanto, quando ele espiou atrav\u00e9s da janela da extrema direita \u2013 aquela mais pr\u00f3xima do caminho de entrada -, avistou um brilho ao fundo do compartimento que o fez estacar surpreendido. N\u00e3o havia raz\u00e3o para que nenhuma luz estivesse ali. Tratava-se de uma parte interna do c\u00f4modo, e ele n\u00e3o podia lembrar-se de haver nenhuma l\u00e2mpada el\u00e9trica ou a g\u00e1s perto daquele ponto. Uma outra olhadela definiu o brilho como sendo um largo ret\u00e2ngulo vertical, e um pensamento lhe ocorreu. Era naquela dire\u00e7\u00e3o que ele tinha sempre reparado na grande porta de madeira com o imenso cadeado \u2013 a porta que nunca era aberta e sobre a qual se estampava cruamente aquele pavoroso s\u00edmbolo cr\u00edptico proveniente dos documentos fragment\u00e1rios de uma magia ancestral e proibida. Devia estar aberta agora, e havia uma luz l\u00e1 dentro. Toda a sua especula\u00e7\u00e3o anterior sobre o lugar aonde aquela porta levaria e sobre o que haveria por tr\u00e1s foi ent\u00e3o renovada, com uma intensidade triplamente inquietadora.<\/p>\n<p>Jones perambulou a esmo pela opressiva localidade at\u00e9 pr\u00f3ximo das seis horas, quando voltou ao museu para procurar Rogers. Dificilmente poderia dizer por que ansiava tanto em ver o homem assim de imediato; contudo devem ter influ\u00eddo nessa disposi\u00e7\u00e3o algumas suspeitas subconscientes acerca daquele uivo canino da tarde, terrivelmente dif\u00edcil de situar, e acerca do brilho naquela porta perturbadora do interior, que usualmente permanecia fechada com o maci\u00e7o cadeado. Os assistentes estavam de sa\u00edda quando ele chegou, e achou que Orabona, o negro assistente de apar\u00eancia estrangeira, o olhava com uma curiosidade sub-rept\u00edcia e contida. N\u00e3o gostava daquele olhar, mesmo tendo visto o sujeito dirigi-lo ao seu patr\u00e3o noutras ocasi\u00f5es.<\/p>\n<p>O sal\u00e3o de teto abaulado parecia aterrorizante em seu abandono, mas ele o atravessou velozmente e bateu na porta do escrit\u00f3rio e est\u00fadio. A resposta demorou a vir, embora se ouvissem passos l\u00e1 dentro. Finalmente, em resposta a uma segunda batida, a fechadura estalou, e o antigo portal de seis pain\u00e9is rangeu relutantemente antes de p\u00f4r \u00e0 mostra o vulto devastado e de olhar febricitante de George Rogers. Logo de sa\u00edda ficou claro que o expositor se achava num estado de esp\u00edrito incomum. Havia uma curiosa mistura de relut\u00e2ncia e de real avidez em sua sauda\u00e7\u00e3o, e seu modo de falar derivava para extravag\u00e2ncias do tipo mais incr\u00edvel e horripilante.<\/p>\n<p>Antigos deuses sobreviventes \u2013 inomin\u00e1veis sacrif\u00edcios \u2013 a outra natureza al\u00e9m daquela, artificial, dos horrores da alcova \u2013 toda a lengalenga usual, mas pronunciada num tom de confian\u00e7a algo crescente. Obviamente, refletiu Jones, a loucura do pobre o estava dominando mais e mais. Vez por outra, Rogers lan\u00e7aria olhadelas furtivas em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 porta trancada no final do c\u00f4modo ou em dire\u00e7\u00e3o a um peda\u00e7o de \u00e1spera aniagem que jazia no ch\u00e3o, n\u00e3o muito distante dele, sob o qual algum objeto pequeno parecia estar colocado. Jones ficou mais nervoso \u00e0 medida que os momentos passavam e come\u00e7ou a se sentir t\u00e3o hesitante em mencionar os estranhos eventos da tarde quanto h\u00e1 pouco tinha estado ansioso por faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>O tom sepulcralmente grave da voz de Rogers quase se partia sob a excita\u00e7\u00e3o de seu del\u00edrio febril.<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea se lembra \u2013 gritou \u2013 do que eu lhe contei acerca daquela cidade em ru\u00ednas da Indochina onde os tcho-tchos viviam? Teve de admitir que estive l\u00e1, quando viu as fotografias, mesmo se achasse que eu fiz \u00e0s escuras aquele nadador oblongo de cera. Se voc\u00ea o tivesse visto contorcendo-se nos po\u00e7os subterr\u00e2neos como eu vi\u2026<\/p>\n<p>\u201cBem, este \u00e9 maior ainda. Nunca lhe falei sobre este, porque desejava trabalhar as \u00faltimas partes antes de fazer qualquer an\u00fancio. Quando voc\u00ea vir os instant\u00e2neos, saber\u00e1 que a geografia n\u00e3o poderia ter sido falsificada; e eu creio que tenho outro meio de prov\u00e1-lo. N\u00e3o se trata de nenhuma mistura de cera que fiz. Voc\u00ea nunca o viu, porque os experimentos n\u00e3o me permitiriam mant\u00ea-lo em exibi\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>O exibidor olhou de um modo estranho para a porta trancada.<\/p>\n<p>\u2013 Tudo prov\u00e9m daquele longo ritual no oitavo fragmento pnac\u00f3tico. Quando me dei conta, vi que poderia ter apenas um significado. Havia coisas no norte antes que a terra de Lomar \u2013 antes que a humanidade existisse; e esta era uma delas. Vasculhamos tudo at\u00e9 o Alasca, partindo de Fort Morton at\u00e9 Nootak, mas a coisa estava l\u00e1, como sab\u00edamos que estaria. Grandes ru\u00ednas cicl\u00f3picas, cobrindo acres inteiros. Havia sobrado menos do que esper\u00e1ramos, mas ap\u00f3s tr\u00eas milh\u00f5es de anos o que se poderia desejar? E n\u00e3o estavam as lendas esquim\u00f3s todas na dire\u00e7\u00e3o certa? N\u00e3o pod\u00edamos for\u00e7ar um deles a ir conosco, e tivemos de esquiar de volta at\u00e9 Nome em busca de americanos. Orabona n\u00e3o tinha utilidade naquele clima, tornou-se taciturno e odioso.<\/p>\n<p>\u201cMais tarde lhe contarei do modo como a encontramos. Quando removemos o gelo dos pilonos da ru\u00edna central, a escadaria era exatamente como pensamos que seria. Viam-se ainda alguns entalhes, e n\u00e3o houve problemas em impedir que os yankees nos seguissem ao entrarmos. Orabona tremia como uma folha \u2013 voc\u00ea nunca suporia, vendo o modos insolentes que ele exibe por aqui. Ele conhecia o bastante sobre as velhas lendas, para estar devidamente amedrontado. A luz externa tinha acabado, mas nossos archotes mostravam o bastante. Vimos os ossos de outros que tinham existido antes de n\u00f3s \u00e9ons atr\u00e1s, quando o clima era quente. Alguns desses ossos eram de coisas que voc\u00ea n\u00e3o poderia sequer imaginar. No terceiro n\u00edvel abaixo, encontramos o trono de marfim, do qual os fragmentos tanto falavam \u2013 e posso lhe dizer que n\u00e3o estava vazio.<\/p>\n<p>\u201cA coisa no trono n\u00e3o se movia, e ent\u00e3o percebemos que Ele precisava ser alimentado por algum sacrif\u00edcio. Mas n\u00e3o pretend\u00edamos acord\u00e1-Lo. Melhor lev\u00e1-Lo para Londres primeiro. Orabona e eu nos arrojamos \u00e0 superf\u00edcie da grande caixa, mas quando O embalamos, vimos que n\u00e3o poder\u00edamos subir com Ele os tr\u00eas lances de degraus. Esses degraus n\u00e3o foram constru\u00eddos para seres humanos, suas dimens\u00f5es nos dificultavam. De qualquer modo, era pesado em excesso. Tivemos de chamar os americanos para O tirarmos de l\u00e1. N\u00e3o estavam nada animados a entrar no lugar, mas certamente a coisa pior j\u00e1 estava dentro da caixa. Dissemos a eles que se tratava de uma pe\u00e7a de marfim esculpido, material arqueol\u00f3gico; e, ao verem o trono entalhado, provavelmente acreditaram em n\u00f3s. \u00c9 um espanto que n\u00e3o tenham suspeitado de um tesouro oculto e que n\u00e3o tenham exigido uma parte. Devem ter contado estranhas hist\u00f3rias acerca de Nome, mais tarde; embora eu duvide de que tenham retornado \u00e0s ru\u00ednas, mesmo pelo trono de marfim.\u201d<\/p>\n<p>Rogers fez uma pausa, procurou em sua escrivaninha e tirou um envelope com fotografias de tamanho grande. Extraindo uma e colocando-a com a face virada para baixo \u00e0 sua frente, passou as restantes a Jones. O conjunto era certamente espantoso: colinas cobertas de gelo, tren\u00f3s puxados por c\u00e3es, homens envolvidos em peles, e vastas ru\u00ednas decadentes contra um fundo de neve \u2013 ru\u00ednas cujos contornos bizarros e cujos blocos enormes de pedra dificilmente poderiam ser descritos. Uma vista \u00e0 luz do\u00a0flash\u00a0mostrava uma incr\u00edvel c\u00e2mara interior com entalhes selvagens e um trono curioso cujas propor\u00e7\u00f5es n\u00e3o poderiam ter sido desenhadas para um ocupante humano. Os entalhes da alvenaria gigantesca \u2013 altas paredes peculiarmente abobadadas<\/p>\n<p>\u2013 eram grandemente simb\u00f3licos e envolviam tanto desenhos completamente desconhecidos quanto certos hier\u00f3glifos citados de modo sombrio em legendas obscenas.\u00a0 Sobre o trono estampava-se o mesmo s\u00edmbolo temer\u00e1rio que se via pintado acima da porta de madeira da oficina. Jones lan\u00e7ou um olhar nervoso \u00e0quele portal fechado. Com toda certeza, Rogers andara por lugares estranhos e vira coisas estranhas. Entretanto aquela fotografia louca do interior podia ser facilmente uma fraude \u2013 tirada de um cen\u00e1rio bem montado. N\u00e3o se deve ser t\u00e3o cr\u00e9dulo. Mas Rogers continuava.<\/p>\n<p>\u2013 Bem, embarcamos a caixa num navio que sa\u00eda de Nome e chegamos a Londres sem nenhum problema. Foi a primeira vez em que trouxemos alguma coisa com chances de estar viva. N\u00e3o o coloquei em exibi\u00e7\u00e3o, porque havia algo mais importante a fazer por Ele. Precisava do alimento sacrificial, pois se tratava de um deus. Obviamente eu n\u00e3o poderia Lhe dar o tipo de sacrif\u00edcios que Ele costumaria receber em sua \u00e9poca, pois tais coisas n\u00e3o existem agora. Mas havia outras que podiam servir. O sangue \u00e9 a vida, voc\u00ea sabe. Mesmo os l\u00eamures e os elementais que s\u00e3o mais velhos do que a terra h\u00e3o de vir quando o sangue de homens ou animais for oferecido sob as condi\u00e7\u00f5es corretas.<\/p>\n<p>A express\u00e3o na face do narrador estava se tornando mais e mais alarmante e repulsiva, o que fez Jones estremecer em sua cadeira. Rogers pareceu notar o nervosismo de seu h\u00f3spede e prosseguiu, com um sorriso distintamente mau:<\/p>\n<p>\u2013 Foi no \u00faltimo ano que O consegui e desde ent\u00e3o tenho tentado ritos e sacrif\u00edcios. Orabona n\u00e3o tem sido de muita ajuda, pois esteve sempre contra a id\u00e9ia de despert\u00e1-Lo. Ele O odeia, provavelmente porque teme o que Ele poder\u00e1 vir a significar. Carrega uma pistola durante todo o tempo, para se proteger \u2013 tolo, como se houvesse prote\u00e7\u00e3o humana contra Ele! Se alguma vez o vir sacar a pistola, o estrangularei. Queria que eu O matasse e fizesse uma ef\u00edgie d\u2019Ele. Mas j\u00e1 tracei meus planos e estou chegando ao topo, a despeito de todos os covardes como Orabona e dos malditos c\u00e9ticos de nariz empinado como voc\u00ea, Jones! J\u00e1 entoei os cantos e realizei certos sacrif\u00edcios, e na semana passada a transi\u00e7\u00e3o ocorreu. O sacrif\u00edcio foi \u2013 recebido e apreciado!<\/p>\n<p>Rogers lambia mesmo os l\u00e1bios, enquanto Jones se mantinha incomodamente r\u00edgido. O expositor parou e se ergueu, cruzando o c\u00f4modo em dire\u00e7\u00e3o ao peda\u00e7o de aniagem para o qual vinha olhando frequentemente. Abaixando-se, agarrou um dos cantos e voltou a falar:<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea j\u00e1 riu bastante de minha obra \u2013 e agora \u00e9 hora de conhecer alguns fatos. Orabona me diz que voc\u00ea ouviu um cachorro ganir por aqui esta tarde. Sabe o que isso significava?<\/p>\n<p>Jones olhava. Apesar de toda a sua curiosidade, teria preferido ir embora sem obter maiores luzes acerca do ponto que tanto o intrigara. Mas Rogers foi inexor\u00e1vel e come\u00e7ou a levantar o quadrado de aniagem. Debaixo dele jazia uma massa retorcida e quase disforme que Jones demorou a classificar. Seria alguma coisa que vivera e que algum agente comprimira, privara de todo o sangue, espica\u00e7ara em mil lugares e costurara num monte mole e desossado de puro grotesco? Ap\u00f3s um instante, Jones compreendeu o que poderia ser. Era o que restara de um cachorro \u2013 um cachorro, talvez de tamanho consider\u00e1vel e de uma cor esbranqui\u00e7ada. A ra\u00e7a estava al\u00e9m de qualquer reconhecimento, porque a distor\u00e7\u00e3o tinha acontecido de um modo inomin\u00e1vel e ultrajante. Grande parte do p\u00ealo fora queimada por algum tipo de \u00e1cido, e a pele exposta e exangue estava marcada por inumer\u00e1veis feridas de incis\u00f5es circulares. A forma de tortura necess\u00e1ria para obter semelhantes resultados teria sido inimagin\u00e1vel.<\/p>\n<p>Eletrizado por uma pura repulsa que ultrapassava seu crescente desgosto, Jones explodiu num grito:<\/p>\n<p>\u2013 Seu s\u00e1dico maldito, seu demente, voc\u00ea faz uma coisa dessas e ainda ousa vir falar a um homem decente!<\/p>\n<p>Rogers rep\u00f4s a aniagem com um ricto maligno de desd\u00e9m e encarou sem furioso h\u00f3spede. Suas palavras portavam uma calma pouco natural:<\/p>\n<p>\u2013 Ora, seu tolo, pensa que eu fiz isto? O que dizer? N\u00e3o \u00e9 humano e n\u00e3o tem inten\u00e7\u00e3o de ser. Sacrificar \u00e9 meramente oferecer. Eu dei a Ele o cachorro. O que aconteceu \u00e9 obra d\u2019Ele, n\u00e3o minha. Precisava ser alimentado com a oferta e a tomou \u00e0 sua pr\u00f3pria maneira. Mas deixe-me mostrar a voc\u00ea com o que Ele se parece.<\/p>\n<p>Enquanto Jones hesitava, o outro foi at\u00e9 sua escrivaninha e apanhou a fotografia que tinha colocado com a face para baixo. Agora, estendia-a com um olhar curioso. Jones recebeu-a e examinou-a de um modo quase mec\u00e2nico. Ap\u00f3s um momento, o olhar do visitante se tornou mais concentrado e mais absorto, pois a for\u00e7a sat\u00e2nica do objeto representado tinha um efeito quase hipn\u00f3tico. Certamente, Rogers tinha se superado em modelar o pesadelo fe\u00e9rico que a c\u00e2mera capturara. A coisa era obra de um g\u00eanio f\u00e9rvido e infernal, e Jones se perguntou como o p\u00fablico reagiria quando fosse colocada em exibi\u00e7\u00e3o. Algo t\u00e3o monstruoso n\u00e3o tinha direito de existir \u2013 provavelmente a mera contempla\u00e7\u00e3o do mesmo, depois que fora feito, teria completado o desajuste na mente de quem o fizera, levando-o a uma adora\u00e7\u00e3o com sacrif\u00edcios brutais. S\u00f3 uma firme sanidade poderia resistir \u00e0 sugest\u00e3o insidiosa de que tal blasf\u00eamia era \u2013 ou teria sido -alguma forma ex\u00f3tica e m\u00f3rbida de vida efetiva.<\/p>\n<p>A coisa na imagem estava agachada ou se balan\u00e7ava sobre o que parecia ser uma engenhosa reprodu\u00e7\u00e3o do trono monstruosamente entalhado da outra fotografia curiosa. Descrev\u00ea-la com qualquer palavra comum teria sido imposs\u00edvel, pois o que quer que seja de minimamente parecido com ela jamais ocorreu \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o da humanidade s\u00e3. Representava alguma forma vagamente conectada com os vertebrados deste planeta \u2013 embora n\u00e3o se pudesse ter certeza disso. Sua complei\u00e7\u00e3o era cicl\u00f3pica, j\u00e1 que mesmo agachada sua altura dava quase duas vezes a de Orabona, o qual aparecia ao seu lado. Examinando atentamente, seria poss\u00edvel tra\u00e7ar suas aproxima\u00e7\u00f5es com as fei\u00e7\u00f5es corporais dos vertebrados superiores.<\/p>\n<p>Havia um torso quase globular, com seis longos e sinuosos membros terminando em patas de crust\u00e1ceo. Da extremidade superior protuberava, como uma bolha, um gl\u00f3bulo subsidi\u00e1rio; seu tri\u00e2ngulo de tr\u00eas olhos fixos de peixe, sua tromba de um p\u00e9 de comprimento e evidentemente flex\u00edvel, e um sistema lateral distendido, semelhante a guelras, sugerindo que se tratava de uma cabe\u00e7a. Grande parte do corpo era coberta pelo que a princ\u00edpio parecia ser p\u00ealos, mas que a um exame mais atento provava ser uma densa flora\u00e7\u00e3o de tent\u00e1culos negros e delgados ou filamentos de suc\u00e7\u00e3o, cada qual terminando numa boca que sugeriria uma cabe\u00e7a de \u00e1spide. Sobre a cabe\u00e7a e abaixo da tromba os tent\u00e1culos tendiam a ser mais longos e grossos, marcados com tiras espiraladas \u2013 sugerindo as tradicionais serpentes-madeixas da Medusa. Insinuar que aquilo podia ter uma express\u00e3o parece paradoxal; no entanto Jones sentiu que aquele tri\u00e2ngulo de olhos protuberantes de peixe e aquela tromba pousada obliquamente exalavam um ar de \u00f3dio, voracidade e gritante crueldade, incompreens\u00edvel aos humanos porque se misturava a outras emo\u00e7\u00f5es estranhas a este mundo e a este sistema solar. Nessa anormalidade bestial, refletiu, Rogers devia ter despejado de uma s\u00f3 vez toda a sua maligna insanidade e todo o seu inaudito g\u00eanio escult\u00f3rico. A coisa era incr\u00edvel \u2013 e, n\u00e3o obstante, a fotografia provava sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Rogers interrompeu suas divaga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2013 Bem, o que acha d\u2019Ele? Ainda tem d\u00favidas sobre o que estra\u00e7alhou o cachorro e o sugou inteiro com um milh\u00e3o de bocas? Precisava de alimento \u2013 e precisar\u00e1 de mais. Ele \u00e9 um deus, e eu sou o primeiro sacerdote de Sua hierarquia final.\u00a0I\u00e4! Shub-Niggurath!\u00a0O Bode com os seus Mil Jovens!<\/p>\n<p>Jones baixou a fotografia, com desgosto e pena.<\/p>\n<p>\u2013 Olhe aqui, Rogers, \u00e9 melhor abandonar isso. Existem limites, voc\u00ea sabe. \u00c9 um grande trabalho, e tudo o mais, mas n\u00e3o faz bem a voc\u00ea. Melhor n\u00e3o o ver mais \u2013 deixar que Orabona o quebre e tentar esquec\u00ea-lo. E deixe-me rasgar essa reprodu\u00e7\u00e3o bestial tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Com um resmungo, Rogers arrebatou a fotografia e devolveu-a \u00e0 escrivaninha.<\/p>\n<p>\u2013 Idiota \u2013 voc\u00ea \u2013 e ainda pensa que Ele seja uma fraude! Ainda acha que eu O fiz e ainda acha que minhas figuras n\u00e3o s\u00e3o mais que cera inerte! Ora, que se dane, voc\u00ea saber\u00e1. N\u00e3o agora, porque Ele est\u00e1 descansando ap\u00f3s o sacrif\u00edcio, mas mais tarde. Oh, sim, voc\u00ea n\u00e3o duvidar\u00e1 de Seu poder ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto Rogers olhava para a porta interna com o cadeado, Jones apanhou seu chap\u00e9u e sua bengala de um banco pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>\u2013 Muito bem, Rogers, deixe para mais tarde. Preciso ir agora, mas o procurarei de novo amanh\u00e3 ao entardecer. Reflita sobre meu conselho e veja se n\u00e3o faz sentido. Pergunte a Orabona o que ele acha tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Rogers arreganhou os dentes de um modo animalesco.<\/p>\n<p>\u2013 Precisa ir agora, hein? Com medo, afinal! Com medo, apesar de toda a fanfarronice! Voc\u00ea diz que as ef\u00edgies s\u00e3o apenas cera e, no entanto, d\u00e1 o fora quando come\u00e7o a provar que n\u00e3o o s\u00e3o. Voc\u00ea \u00e9 como os demais que aceitam minha aposta de que n\u00e3o ousam passar uma noite inteira no museu \u2013 chegam valentemente, mas depois de uma hora gritam e esmurram a porta implorando para sair! Quer que eu consulte Orabona, hein? Voc\u00eas dois \u2013 sempre contra mim! Voc\u00eas querem barrar o estabelecimento de Seu reino vindouro!<\/p>\n<p>Jones manteve a calma.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o, Rogers, n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m contra voc\u00ea. E n\u00e3o estou com medo de suas figuras, tamb\u00e9m, at\u00e9 porque admiro sua arte. Mas estamos ambos um pouco excitados esta noite, e imagino que algum descanso nos far\u00e1 bem.<\/p>\n<p>Outra vez Rogers barrou a sa\u00edda de seu h\u00f3spede.<\/p>\n<p>\u2013 Sem medo, hein? Ent\u00e3o por que est\u00e1 t\u00e3o aflito em sair? Olhe aqui, voc\u00ea tem ou n\u00e3o tem coragem de ficar aqui sozinho no escuro? Por que tanta pressa, se voc\u00ea n\u00e3o acredita n\u2019Ele?<\/p>\n<p>Uma nova id\u00e9ia parecia ter ocorrido a Rogers, e Jones olhou-o atentamente.<\/p>\n<p>\u2013 Ora, n\u00e3o tenho nenhuma pressa em especial; mas de que adiantaria eu permanecer sozinho aqui? O que isso provaria? Minha \u00fanica obje\u00e7\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 confort\u00e1vel para dormir. Que benef\u00edcio traria para qualquer de n\u00f3s?<\/p>\n<p>Dessa vez, foi a Jones que ocorreu uma id\u00e9ia. Ele prosseguiu, num tom de concilia\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2013 Pense bem, Rogers; apenas lhe perguntei o que seria provado se eu ficasse, quando n\u00f3s dois o sabemos. Seria provado que suas ef\u00edgies s\u00e3o apenas ef\u00edgies, e que voc\u00ea n\u00e3o devia deixar sua imagina\u00e7\u00e3o fluir como tem flu\u00eddo ultimamente. Suponha que eu fique. Se eu me mantiver firme \u00a0at\u00e9 o amanhecer, voc\u00ea aceitar\u00e1 uma nova vis\u00e3o das coisas, tirar\u00e1 umas f\u00e9rias e deixar\u00e1 que Orabona destrua essa sua nova coisa? Vamos l\u00e1, n\u00e3o \u00e9 um jogo honesto?<\/p>\n<p>A express\u00e3o na face do expositor era dif\u00edcil de decifrar. Parecia \u00f3bvio que ele estivesse pensando r\u00e1pido e que sobre um emaranhado de emo\u00e7\u00f5es conflitantes o triunfo maligno o estava dominando. Sua voz soou embargada, quando respondeu:<\/p>\n<p>\u2013 Honesto o bastante! Se voc\u00ea se mantiver firme, aceitarei seu conselho. Sairemos para jantar e depois retornaremos. Trancarei voc\u00ea no c\u00f4modo de exibi\u00e7\u00e3o e irei para casa. Pela manh\u00e3, retornarei antes de Orabona \u2013 ele chega meia hora antes dos outros \u2013 e verei como voc\u00ea est\u00e1. Mas n\u00e3o o tente, a menos que esteja muito seguro de seu ceticismo. Outros fraquejaram \u2013 a oportunidade \u00e9 sua. E suponho que umas batidas na porta de fora sempre trar\u00e3o um policial. Voc\u00ea poder\u00e1 n\u00e3o gostar, depois de algum tempo \u2013 e estar\u00e1 no mesmo edif\u00edcio, mas n\u00e3o no mesmo c\u00f4modo que Ele.<\/p>\n<p>Quando atravessaram a porta dos fundos em dire\u00e7\u00e3o ao p\u00e1tio sombrio, Rogers levou consigo o peda\u00e7o de aniagem com seu repulsivo conte\u00fado. Pr\u00f3ximo ao centro do p\u00e1tio havia um bueiro, cuja tampa o expositor ergueu em sil\u00eancio e com um acento de arrepiante familiaridade. Com inv\u00f3lucro e tudo, o fardo desceu ao obl\u00edvio de uma cloaca labir\u00edntica. Jones estremeceu e instintivamente se esquivou ao contato da vampiresca figura ao seu lado, enquanto sa\u00edam para a rua.<\/p>\n<p>Num t\u00e1cito consentimento m\u00fatuo, n\u00e3o jantaram juntos, mas concordaram em se encontrar \u00e0s sete diante do museu.<\/p>\n<p>Jones apanhou um t\u00e1xi e respirou aliviado depois que cruzou a Ponte Waterloo e sentiu que se aproximava da Strand alegremente iluminada. Satisfez-se com um caf\u00e9 frugal e em seguida se recolheu a casa em Portland Place, para tomar um banho e apanhar algumas coisas. Perguntou-se, um tanto improficuamente, o que Rogers estaria fazendo. Tinha ouvido que o homem possu\u00eda uma casa vasta e penumbrosa em Walworth Road, repleta de livros obscuros e proibidos, parafern\u00e1lias ocultas e imagens de cera que preferia n\u00e3o colocar em exposi\u00e7\u00e3o. Orabona, sabia-se, vivia num setor separado dessa mesma casa.<\/p>\n<p>\u00c0s onze, Jones encontrou Rogers \u00e0 sua espera junto \u00e0 porta do por\u00e3o na Southwark Street. Trocaram escassas palavras, mas cada qual parecia lutar com uma tens\u00e3o amea\u00e7adora. Concordaram em que somente o sal\u00e3o de exibi\u00e7\u00e3o deveria compor o cen\u00e1rio da vig\u00edlia, e Rogers n\u00e3o insistiu para que o outro se alojasse na alcova \u201cpara adultos\u201d dos supremos horrores. O expositor, ap\u00f3s apagar todas as luzes do est\u00fadio, fechou a porta daquela cripta com uma das chaves de seu volumoso molho. Sem sequer um aperto de m\u00e3os, atravessou a porta da rua, trancou-a atr\u00e1s de si e galgou os desgastados degraus que conduziam ao pavimento l\u00e1 fora. Enquanto o som de suas passadas esmorecia, Jones se deu conta de que a longa e tediosa vig\u00edlia havia come\u00e7ado.<\/p>\n<p>Mais tarde, na treva absoluta do grande por\u00e3o arqueadado, Jones amaldi\u00e7oou sua pr\u00f3pria ingenuidade infantil, que o tinha colocado ali. Durante a primeira meia hora, acendeu e apagou sua lanterna de bolso a intervalos regulares, mas estar sentado agora num dos bancos do expositor, em plena escurid\u00e3o, tornara-se uma tarefa enervante. A cada vez que a lanterna faiscava, algum objeto m\u00f3rbido e grotesco aparecia \u2013 uma guilhotina, algum inomin\u00e1vel monstro h\u00edbrido, uma face barbada, repleta de malignidade, ou um corpo com emana\u00e7\u00f5es vermelhas escorrendo de uma garganta cortada. Jones sabia que nenhuma realidade sinistra se ligava a essas coisas, mas ap\u00f3s a primeira meia hora preferiu n\u00e3o as ver mais.<\/p>\n<p>Por que se dera ao trabalho do provocar aquele maluco ele mal podia dizer. Teria sido muito mais simples deix\u00e1-lo entregue a si mesmo ou ter chamado um especialista. Provavelmente, refletiu, influenciara-o o sentimento de empatia que um artista tem por outro. Havia suficiente genialidade em Rogers para torn\u00e1-lo merecedor de toda oportunidade poss\u00edvel de que algu\u00e9m o ajudasse a se livrar de sua crescente mania. Qualquer homem que pudesse imaginar e construir as coisas incrivelmente vivas que ele tinha produzido n\u00e3o estaria distante de uma real grandeza. Ele tinha a fantasia de um Sime ou de um Dor\u00e9 reunida ao artesanato minucioso e cient\u00edfico de um Blatschka. Com efeito, ele dera ao mundo do pesadelo aquilo que os Blatschkas, com seus modelos de plantas maravilhosamente acurados, feitos com vidro finamente retorcido e colorido, tinham dado ao mundo da bot\u00e2nica.<\/p>\n<p>A meia-noite as batidas de um rel\u00f3gio distante filtraram-se atrav\u00e9s da escurid\u00e3o, e Jones se sentiu animado pela mensagem de um mundo exterior que ainda vivia. A c\u00e2mara de teto arqueado do museu assemelhava-se a um t\u00famulo \u2013 perturbadora em sua extrema solid\u00e3o. Mesmo um camundongo teria sido uma companhia razo\u00e1vel; e, no entanto, Rogers aventara que \u2013 por \u201ccertas raz\u00f5es\u201d, conforme dissera \u2013 camundongos ou quaisquer insetos jamais se aproximaram do lugar. Era bastante curioso, conquanto parecesse verdade. A imobilidade e o sil\u00eancio eram virtualmente totais. Se ao menos alguma coisa produzisse um som! Ele agitou os p\u00e9s, e os ecos repercutiram na quietude absoluta. Tossiu, mas havia o que quer que fosse de zombeteiro nas reverbera\u00e7\u00f5es em\u00a0staccato.\u00a0Ele n\u00e3o podia, reconheceu, simplesmente conversar consigo mesmo. Isso significaria uma desintegra\u00e7\u00e3o nervosa. O tempo parecia escoar com uma lentid\u00e3o anormal e desconcertante. Ele poderia jurar que horas inteiras tinham transcorrido desde que acendera a lanterna pela \u00faltima vez durante a vig\u00edlia, por\u00e9m mal havia batido meia-noite.<\/p>\n<p>Teria desejado que seus sentidos n\u00e3o fossem t\u00e3o extraordinariamente agu\u00e7ados. Alguma coisa na quietude e na escurid\u00e3o parecia t\u00ea-los afiado, de modo que respondiam \u00e0s mais ligeiras excita\u00e7\u00f5es com uma nitidez que dificilmente se consideraria normal. Seus ouvidos pareciam, \u00e0s vezes, captar um d\u00e9bil, evasivo sussurro que n\u00e3o se poderia sem erro identificar como sendo o rumor das ruas esqu\u00e1lidas l\u00e1 fora; e ele pensou em coisas vagas e irrelevantes, como a m\u00fasica das esferas ou a vida ignota, inacess\u00edvel, de dimens\u00f5es alien\u00edgenas pressionando contra a nossa. Rogers n\u00e3o raro especulava sobre tais coisas.<\/p>\n<p>Os espectros de luz flutuante sobre seus olhos repletos de treva pareciam inclinados a assumir curiosas simetrias de padr\u00e3o e movimento. Ele frequentemente se indagara acerca desses estranhos raios provenientes do insond\u00e1vel abismo que cintila diante de n\u00f3s na aus\u00eancia de toda ilumina\u00e7\u00e3o terrestre, mas nunca conhecera nenhum que se comportasse tal como esses se comportavam. Faltava-lhes a repousante err\u00e2ncia das manchas de luz ordin\u00e1ria \u2013 como se sugerindo alguma vontade ou prop\u00f3sito al\u00e9m de qualquer concep\u00e7\u00e3o terrestre.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o veio aquela sugest\u00e3o de estranhos estremecimentos. Nada estava aberto; no entanto, a despeito da geral imobilidade do ar, Jones sentiu que a atmosfera n\u00e3o parecia uniformemente parada. Havia varia\u00e7\u00f5es intang\u00edveis de press\u00e3o \u2013 n\u00e3o decididas o suficiente para sugerir o repugnante patear de entidades desconhecidas. Estava anormalmente frio tamb\u00e9m. Ele n\u00e3o gostou de nada disso. O ar pareceu-lhe salgado, como se se houvesse misturado \u00e0 salinidade de \u00e1guas subterr\u00e2neas, e havia a vaga impress\u00e3o de algum odor de inef\u00e1vel mofo. Durante o dia, ele nunca reparara que as figuras de cera tivessem odor. Mesmo agora aquela impress\u00e3o incerta n\u00e3o correspondia ao cheiro que figuras de cera devessem ter. Assemelhava-se mais ao discreto odor dos esp\u00e9cimes num museu de hist\u00f3ria natural. Curioso, em vista das declara\u00e7\u00f5es de Rogers de que suas figuras n\u00e3o eram de todo artificiais \u2013 de fato, tal declara\u00e7\u00e3o \u00e9 que levava a imagina\u00e7\u00e3o a conjurar a suspeita olfativa. \u00c9 preciso que se reaja aos excessos da imagina\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o foram tais coisas que puseram louco o pobre Rogers?<\/p>\n<p>No entanto a extrema solid\u00e3o do lugar era amedrontadora. Mesmo as badaladas mais distantes pareciam provir de golfos c\u00f3smicos. Isso fez com que Jones se lembrasse daquela fotografia insana que Rogers lhe mostrara \u2013 a c\u00e2mara horrendamente entalhada com o trono cr\u00edptico que o sujeito alegara ser parte de uma ru\u00edna de tr\u00eas milh\u00f5es de anos localizada em ermos temidos e inacess\u00edveis do \u00c1rtico. Talvez Rogers tivesse ido ao Alasca, mas aquela foto n\u00e3o seria mais que uma encena\u00e7\u00e3o. N\u00e3o havia como ser de outro modo, com todos aqueles entalhes e aqueles s\u00edmbolos terr\u00edveis. E aquela forma monstruosa, que se supunha ter sido encontrada sobre o trono \u2013 que arroubo de m\u00f3rbida fantasia! Jones se perguntou a que dist\u00e2ncia realmente estaria da insana obra-prima de cera \u2013 provavelmente ela estaria guardada atr\u00e1s daquela maci\u00e7a porta com o cadeado, que levava a algum recesso para al\u00e9m da oficina. Mas de nada serviria conjeturar acerca de uma imagem de cera. N\u00e3o estava aquela mesma sala repleta de tais coisas, algumas delas pouco menos horr\u00edveis do que o tem\u00edvel \u201cEle\u201d? E, para al\u00e9m de um delgado biombo \u00e0 esquerda, estava a alcova \u201cPara adultos somente\u201d, com seus inomin\u00e1veis fantasmas de del\u00edrio.<\/p>\n<p>A proximidade das inumer\u00e1veis formas de cera come\u00e7ou a bulir mais e mais com os nervos de Jones \u00e0 medida que os minutos avan\u00e7avam. Ele conhecia o museu bem o bastante para n\u00e3o se sentir livre de suas imagens usuais nem mesmo na escurid\u00e3o total. Na verdade, a escurid\u00e3o tinha o efeito de adicionar \u00e0s imagens lembradas algumas nuan\u00e7as imaginativas realmente perturbadoras. A guilhotina parecia ranger, e a face barbada de Landru \u2013 o carrasco de suas cinquenta esposas \u2013 se contorcia em express\u00f5es de monstruosa amea\u00e7a. Da garganta cortada de Madame Demers parecia emanar um horr\u00edvel som borbulhante, enquanto a v\u00edtima sem cabe\u00e7a e pernas de um esquartejador tentava se aproximar mais e mais sobre suas amputa\u00e7\u00f5es sangrentas. Jones passou a fechar seus olhos na expectativa de que isso pudesse afastar as imagens, mas descobriu que era in\u00fatil. Al\u00e9m disso, quando ele fechava os olhos os padr\u00f5es estranhos e despropositados das manchas de luz se tornavam mais pronunciados e inquietadores.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, subitamente, ele come\u00e7ou a tentar reter as imagens que antes tinha se esfor\u00e7ado para banir. Tentou ret\u00ea-las porque estavam dando lugar a outras mais assustadoras. Contra a vontade, sua mem\u00f3ria se p\u00f4s a reconstruir as blasf\u00eamias n\u00e3o-humanas que espreitavam pelos cantos mais obscuros, e essas demon\u00edacas forma\u00e7\u00f5es h\u00edbridas se enroscavam e se sacudiam em sua dire\u00e7\u00e3o como se tentando envolv\u00ea-lo num c\u00edrculo. O negro Tsathoggua se converteu, de uma g\u00e1rgula semelhante a um sapo, numa linha longa e sinuosa com centenas de p\u00e9s rudimentares; e um delgado e flex\u00edvel abutre noturno estendeu suas asas como se para avan\u00e7ar e sufocar o vigilante. Jones segurou-se para n\u00e3o gritar. Reconheceu que estava revertendo aos terrores tradicionais de sua inf\u00e2ncia e determinou usar sua raz\u00e3o adulta para conter os fantasmas. Ajudou um pouco, percebeu, piscar a luz novamente. Por medonhas que fossem as imagens mostradas, n\u00e3o o eram tanto quanto as que sua fantasia sacava da extrema escurid\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas houve reca\u00eddas. Mesmo \u00e0 luz da lanterna ele n\u00e3o podia deixar de suspeitar que um furtivo e ligeiro tremor se verificava no biombo que escondia a terr\u00edvel alcova \u201cpara adultos, somente\u201d. Sabia o que estava ali atr\u00e1s e estremecia. A imagina\u00e7\u00e3o evocava as formas chocantes do fabuloso Youg-Sothoth \u2013 um mero aglomerado de globos iridescentes, mas ainda assim estupendo em sua maligna sugestividade. N\u00e3o estaria aquela massa amaldi\u00e7oada flutuando lentamente em sua dire\u00e7\u00e3o e se chocando contra a divis\u00f3ria em seu caminho? Uma pequena protuber\u00e2ncia na tela \u00e0 direita sugeria o chifre pontudo de Gnoph-keh, a coisa peluda, mitol\u00f3gica, dos gelos de Greenland, que \u00e0s vezes caminhava sobre duas pernas, \u00e0s vezes sobre quatro, e \u00e0s vezes sobre seis. Para tirar isso da cabe\u00e7a, Jones se arrojou num \u00edmpeto contra a alcova infernal, com a lanterna acesa \u00e0 sua frente. Certamente, nenhum de seus receios se comprovou. No entanto n\u00e3o estariam os longos tent\u00e1culos faciais do grande Cthulhu movendo-se realmente, de um modo lento e insidioso? Sabia que eram flex\u00edveis, mas n\u00e3o havia notado que o sopro de ar causado pelo seu pr\u00f3prio avan\u00e7o fosse suficiente para coloc\u00e1-los em movimento.<\/p>\n<p>Retornando a seu assento do lado de fora da alcova, fechou os olhos e deixou que as manchas sim\u00e9tricas de luz fizessem seu estrago. O rel\u00f3gio distante deu uma \u00fanica batida. Teria sido apenas uma? Acendeu a lanterna sobre seu rel\u00f3gio e viu que era precisamente uma hora. Seria penoso, decerto, esperar at\u00e9 de manh\u00e3. Rogers s\u00f3 chegaria por volta das oito horas, antes mesmo de Orabona. Haveria luz l\u00e1 fora, no por\u00e3o principal, bem antes que isso ocorresse, mas nenhum raio penetraria ali. Todas as janelas neste por\u00e3o tinham sido bloqueadas pelas tr\u00eas mais pequenas que davam para o p\u00e1tio. Uma p\u00e9ssima vig\u00edlia, ao que tudo indicava.<\/p>\n<p>Seus ouvidos captavam maiores alucina\u00e7\u00f5es agora \u2013 pois ele poderia jurar que estava ouvindo passadas furtivas e inexor\u00e1veis na oficina, para al\u00e9m da porta trancada. N\u00e3o havia que ficar pensando no horror chamado \u201cEle\u201d, que Rogers se privara de exibir. A coisa era uma contamina\u00e7\u00e3o \u2013 havia enlouquecido o seu criador e agora mesmo a sua imagem suscitava atemorizantes fantasias. Jazia, obviamente, por detr\u00e1s daquela pesada porta de madeira com o cadeado. As passadas seriam, certamente, pura imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o julgou ter ouvido a chave girar na porta do est\u00fadio. Acendendo a lanterna, nada mais viu que o vetusto portal de seis folhas em sua posi\u00e7\u00e3o costumeira. Outra vez apelou para a treva e fechou seus olhos, mas veio em seguida uma alucinante ilus\u00e3o de rangido \u2013 n\u00e3o a guilhotina, desta vez, mas o lento e furtivo abrir-se da porta do est\u00fadio. Ele n\u00e3o gritaria. Se gritasse, estaria perdido. Ouviu-se uma esp\u00e9cie de patear ou de remexer, e estava avan\u00e7ando lentamente em dire\u00e7\u00e3o a ele. Precisava manter o controle sobre si mesmo. N\u00e3o fizera o mesmo quando o inomin\u00e1vel em forma de c\u00e9rebro tentou acu\u00e1-lo? A movimenta\u00e7\u00e3o parecia mais pr\u00f3xima, e sua resolu\u00e7\u00e3o lhe faltava. Ele n\u00e3o gritou, mas apenas gaguejou uma intima\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2013 Quem est\u00e1 a\u00ed? Quem \u00e9 voc\u00ea? O que voc\u00ea quer?<\/p>\n<p>N\u00e3o houve resposta, por\u00e9m a agita\u00e7\u00e3o prosseguia. Jones n\u00e3o soube o que mais temia fazer \u2013 se acender a lanterna ou se ficar quieto no escuro, enquanto a coisa avan\u00e7ava sobre ele. Esta coisa era diferente \u2013 sentiu no fundo \u2013 dos outros terrores do anoitecer. Seus dedos e sua garganta funcionavam espasmodicamente. O sil\u00eancio era imposs\u00edvel, e o suspense da escurid\u00e3o extrema come\u00e7ava a se revelar a mais intoler\u00e1vel das condi\u00e7\u00f5es. Outra vez gritou, histericamente: \u201cAlto! Quem est\u00e1 a\u00ed?\u201d \u2013 enquanto acendia o facho esclarecedor. Ent\u00e3o, paralisado pelo que viu, deixou cair a lanterna e gritou \u2013 n\u00e3o uma s\u00f3, mas muitas vezes.<\/p>\n<p>Vinha contorcendo-se em sua dire\u00e7\u00e3o a forma gigantesca e blasfema de algo que n\u00e3o era inteiramente macaco nem inteiramente um inseto. Sua carapa\u00e7a pendia solta sobre o corpo, e o seu rudimento rugoso de cabe\u00e7a \u2013 olhos morti\u00e7os \u2013 balan\u00e7ava de um lado para o outro como a de um b\u00eabado. Suas patas dianteiras estavam estendidas, com as garras abertas, e todo o seu corpo exalava malignidade, a despeito de sua completa aus\u00eancia de express\u00e3o. Ap\u00f3s os gritos e a volta da escurid\u00e3o, a criatura saltou e, num instante, manteve Jones preso ao ch\u00e3o. N\u00e3o houve luta, porque o vigilante desmaiou.<\/p>\n<p>A inconsci\u00eancia de Jones n\u00e3o deve ter durado mais que um instante, pois a coisa inomin\u00e1vel o estava arrastando atrav\u00e9s da escurid\u00e3o quando ele come\u00e7ou a se recobrar. O que o despertou foram os sons que a coisa emitia \u2013 ou, antes, a voz com que os produzia. Era uma voz humana e algo familiar. Somente uma criatura viva poderia estar por tr\u00e1s daqueles acentos \u00e1speros e febris que entoavam cantos a algum horror desconhecido.<\/p>\n<p>\u2013\u00a0I\u00e4! I\u00e4! \u2013\u00a0uivava. \u2013 Estou chegando, \u00f3 Rhan-Tegoth, chegando com o alimento. Tu esperaste muito e te alimentaste mal, mas agora ter\u00e1s o que foi prometido. E ainda mais, pois que, em vez de Orabona, ter\u00e1s algu\u00e9m de alto n\u00edvel que duvidou de ti. Poder\u00e1s esprem\u00ea-lo e sug\u00e1-lo, com todas as suas d\u00favidas, e te fortalecer\u00e1s assim. E ap\u00f3s, entre os homens, ele h\u00e1 de ser mostrado como um monumento \u00e0 tua gl\u00f3ria. Rhan-Tegoth, infinito e invenc\u00edvel, sou teu escravo e teu sumo sacerdote. Est\u00e1s faminto, e te alimentarei. Li o sinal e te conduzi. Com sangue te nutrirei, e h\u00e1s de me nutrir com poder.\u00a0I\u00e4!\u00a0Shub-Niggurath! O Bode com os Mil Jovens!<\/p>\n<p>Num instante, todos os terrores da noite abandonaram Jones como um manto que se despe. Ele se tornou de novo senhor de sua mente, pois reconhecia o perigo muito terreno e material com que tinha de lidar. N\u00e3o era nenhum monstro de f\u00e1bula, mas um louco perigoso. Era Rogers, vestindo alguma fantasia de pesadelo produzida por seu pr\u00f3prio engenho insano, e prestes a realizar algum apavorante sacrif\u00edcio ao deus-dem\u00f4nio que ele mesmo moldara na cera. Claramente, ele devia ter penetrado na oficina pela porta do p\u00e1tio, envergado seu disfarce e ent\u00e3o avan\u00e7ado para sua v\u00edtima acuada e alquebrada pelo medo. Sua for\u00e7a era prodigiosa, e se ele devia ser impedido, cumpria agir rapidamente. Contando com a confian\u00e7a do louco em sua inconsci\u00eancia, Jones decidiu surpreend\u00ea-lo, aproveitando-se de um relaxamento do abra\u00e7o. O contato com alguma mob\u00edlia mostrou-lhe que estava cruzando o c\u00f4modo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s trevas do est\u00fadio.<\/p>\n<p>Com a for\u00e7a que nos concede o medo mortal, Jones deu um s\u00fabito arranco, saindo da posi\u00e7\u00e3o meio deitada na qual estava sendo arrastado. Por um instante, viu-se livre das m\u00e3os do man\u00edaco at\u00f4nito, e num outro instante um golpe de sorte na escurid\u00e3o colocou suas pr\u00f3prias m\u00e3os na goela oculta do perseguidor. Simultaneamente, Rogers o agarrou de novo, e sem maiores avisos estavam os dois atracados numa luta desesperada de vida e morte. O preparo atl\u00e9tico de Jones, sem sombra de d\u00favida, era sua \u00fanica salva\u00e7\u00e3o; pois seu louco advers\u00e1rio, livre de qualquer inibi\u00e7\u00e3o com respeito a jogo limpo, dec\u00eancia ou mesmo autopreserva\u00e7\u00e3o, era uma m\u00e1quina de selvagem destrui\u00e7\u00e3o t\u00e3o formid\u00e1vel quanto qualquer lobo ou pantera.<\/p>\n<p>Urros guturais pontuavam \u00e0s vezes a horr\u00edvel peleja na treva. Sangue jorrava, vestes rasgavam-se, e Jones por fim sentiu de fato, entre os dedos, a garganta do man\u00edaco, despida de sua m\u00e1scara espectral. N\u00e3o disse palavra alguma, mas aplicou cada fragmento de sua energia na defesa de sua vida. Rogers chutava, esmurrava, cabeceava, mordia, arranhava e se debatia \u2013 e no entanto encontrava for\u00e7as para emitir algumas frases ocasionais. A maior parte do que dizia aflorava num jarg\u00e3o repleto de refer\u00eancias ao \u201cEle\u201d ou \u201cRhan-Tegoth\u201d, e para os nervos desgastados de Jones era como se os gritos ecoassem rosnados e latidos demon\u00edacos a uma infinita dist\u00e2ncia. Por \u00faltimo, estavam rolando no ch\u00e3o, revirando bancos ou se chocando contra as paredes e as funda\u00e7\u00f5es de tijolos da fornalha central. Pr\u00f3ximo ao fim, Jones n\u00e3o estava certo de poder se salvar, mas o acaso interveio a seu favor. Um golpe de seu joelho contra o peito de Rogers produziu um relaxamento geral, e no momento seguinte ele reconheceu que tinha vencido.<\/p>\n<p>Embora mal pudesse aguentar-se, Jones se levantou e apalpou as paredes \u00e0 procura do interruptor \u2013 pois sua lanterna sumira juntamente com grande parte de suas roupas. Enquanto avan\u00e7ava, arrastou consigo seu oponente inerte, temendo um ataque s\u00fabito quando o mesmo se recobrasse. Encontrando a caixa dos interruptores, remexeu-a at\u00e9 que deparou com o acionador direito. Ent\u00e3o, quando a ca\u00f3tica desordem do est\u00fadio explodiu numa s\u00fabita cintila\u00e7\u00e3o, p\u00f4s-se a amarrar Rogers com cordas e correias que facilmente descobriu \u00e0 sua volta. O disfarce do sujeito<\/p>\n<p>\u2013 ou o que restara dele \u2013 parecia feito de uma esp\u00e9cie estranh\u00edssima de couro. Por alguma raz\u00e3o, a carne de Jones se retraiu ao toc\u00e1-lo; e parecia exalar-se daquilo um odor ferruginoso e alien\u00edgena. Por baixo, entre as roupas normais, estava o molho de chaves de Rogers, que o exaltado vencedor arrebatou como seu passaporte final para a liberdade. As cortinas sobre as pequenas janelas de correr estavam todas cuidadosamente cerradas, e ele as deixou ficar assim.<\/p>\n<p>Lavando o sangue da batalha com uma bacia conveniente, Jones vestiu as mais ordin\u00e1rias -sempre ruins \u2013 roupas que conseguiu encontrar nos cabides do vestu\u00e1rio. Experimentando a porta para o p\u00e1tio, descobriu que a tranca n\u00e3o exigia uma chave pelo lado de dentro. No entanto ele conservou consigo o molho de chaves, de modo a poder voltar com ajuda \u2013 pois, obviamente, o melhor a fazer era chamar um alienista. N\u00e3o havia telefone no museu, mas n\u00e3o seria demorado encontrar um restaurante noturno ou uma farm\u00e1cia que dispusesse de um. Tinha quase aberto a porta, quando uma torrente de repulsivas impreca\u00e7\u00f5es, proveniente do c\u00f4modo, lhe informou que Rogers \u2013 cujos ferimentos mais vis\u00edveis se restringiam a um sulco longo e profundo na face esquerda \u2013 recobrara a consci\u00eancia.<\/p>\n<p>\u2013 Tolo! Filhote de Noth-Yidik e efl\u00favio de K\u2019thun! Filho dos c\u00e3es que uivam no\u00a0maelstrom\u00a0de Azathoth! Voc\u00ea teria sido sagrado e imortal, e agora est\u00e1 traindo a Ele e ao Seu sacerdote! Mas cuidado \u2013 pois Ele tem fome! Teria sido Orabona \u2013 aquele maldito c\u00e3o trai\u00e7oeiro, sempre pronto a me trair a mim e a Ele \u2013 mas darei a honra a voc\u00ea. Agora, ambos precisamos ter cuidado, pois Ele n\u00e3o \u00e9 gentil com seu sacerdote.<\/p>\n<p>\u201cI\u00e4! I\u00e4!\u00a0A vingan\u00e7a est\u00e1 pr\u00f3xima! Sabe que voc\u00ea teria se tornado imortal? Olhe para a fornalha! H\u00e1 um fogo pronto a ser aceso, e existe cera no caldeir\u00e3o. Eu teria feito com voc\u00ea o que fiz com outras criaturas outrora viventes. Eh! Voc\u00ea, que declarou serem apenas cera todas as minhas ef\u00edgies, teria se tornado uma ef\u00edgie de cera tamb\u00e9m! A fornalha estava preparada! Depois que Ele se houvesse nutrido, e voc\u00ea tivesse ficado como aquele cachorro que lhe mostrei, eu teria tornado imortais os seus restos compactados e perfurados! A cera seria o bastante. N\u00e3o viu como sou um grande artista? Cera sobre cada poro \u2013 cera sobre cada polegada de voc\u00ea \u2013\u00a0I\u00e4! I\u00e4!\u00a0E para todo o sempre o mundo teria olhado para a sua carcassa mofina e se espantado de que eu pudesse imaginar e produzir semelhante coisa! Eh! e Orabona teria sido o pr\u00f3ximo, e outros depois dele -e assim cresceria minha fam\u00edlia de cera!<\/p>\n<p>\u201cC\u00e3o \u2013 ainda acha que fiz todas as ef\u00edgies? Por que n\u00e3o dizer: preservei? Reconhece agora os estranhos lugares pelos quais andei e as coisas estranhas que trouxe comigo. Covarde \u2013 voc\u00ea nunca teria peito para encarar o rastejante dimensional cuja pele eu vesti para assust\u00e1-lo \u2013 a mera vis\u00e3o de sua forma viva, ou sequer um pensamento dela, o mataria de medo num instante!\u00a0I\u00e4! I\u00e4!\u00a0Ele aguarda faminto pelo sangue que \u00e9 vida!\u201d<\/p>\n<p>Rogers, encostado \u00e0 parede, oscilava para a frente e para tr\u00e1s em suas amarras.<\/p>\n<p>\u2013 Ou\u00e7a, Jones, se eu o deixar ir, voc\u00ea me deixar\u00e1 ir tamb\u00e9m? \u00c9 preciso que Seu sumo sacerdote cuide d\u2019Ele. Orabona ser\u00e1 suficiente para mant\u00ea-Lo vivo. Podia ter sido voc\u00ea, mas voc\u00ea rejeitou a honra. N\u00e3o o importunarei mais. Deixe-me ir, e compartilharei com voc\u00ea o poder que Ele me trar\u00e1.\u00a0I\u00e4! I\u00e4!\u00a0Grande \u00e9 Rhan-Tegoth! Deixe-me ir! Deixe-me ir! Ele est\u00e1 morrendo de fome l\u00e1 embaixo, atr\u00e1s daquela porta, e se Ele morrer os Antigos nunca mais retornar\u00e3o. Eh! Eh! Deixe- me ir!<\/p>\n<p>Jones apenas balan\u00e7ou a cabe\u00e7a, embora a enormidade das id\u00e9ias do expositor o revoltasse. Rogers, olhando agora alucinadamente para a porta de madeira com o cadeado, batia mais e mais com a cabe\u00e7a contra a parede de tijolos e esmurrava com os cotovelos bem atados. Jones temeu que ele se machucasse, e avan\u00e7ou para amarr\u00e1-lo um pouco mais firmemente a algum objeto estacion\u00e1rio. Encolhendo-se, Rogers se desviou dele e come\u00e7ou a emitir uma s\u00e9rie de uivos fren\u00e9ticos, cuja inumanidade extrema e monstruosa era estarrecedora e cujo volume agudo era quase inacredit\u00e1vel. Parecia imposs\u00edvel que uma garganta humana produzisse ru\u00eddos t\u00e3o altos e cortantes, e Jones sentiu que se continuassem n\u00e3o haveria necessidade de pedir ajuda por telefone. N\u00e3o demoraria para que um policial viesse investigar, mesmo admitindo-se que n\u00e3o havia vizinhos para ouvir entre os armaz\u00e9ns daquele distrito deserto.<\/p>\n<p>Aquela criatura toda amarrada, que tinha come\u00e7ado a se contorcer ao longo do piso, agora alcan\u00e7ava a porta com o cadeado e batia trovejantemente com a cabe\u00e7a contra ela. Jones receou amarr\u00e1-lo ainda mais e desejou que a luta o tivesse deixado exausto o suficiente. Essa sequ\u00eancia violenta dava-lhe horrivelmente nos nervos, e ele come\u00e7ou a sentir o retorno das indescrit\u00edveis inquieta\u00e7\u00f5es que havia sentido no escuro. Tudo o que presenciara acerca de Rogers e do museu era t\u00e3o infernalmente m\u00f3rbido e sugestivo de negras vis\u00f5es de al\u00e9m vida! Era inquietador pensar na obra-prima em cera, de genialidade anormal, que naquele momento deveria estar \u00e0 espreita, quase \u00e0 m\u00e3o, na escurid\u00e3o que havia do outro lado da pesada porta com o cadeado.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, alguma coisa aconteceu que trouxe mais um arrepio \u00e0 espinha de Jones e fez com que cada p\u00ealo de seu corpo \u2013 mesmo os suaves tufos nos dorsos das m\u00e3os \u2013 se arrepiasse com um vago medo que n\u00e3o permitia classifica\u00e7\u00e3o. Rogers, subitamente, parara de gritar e de bater com a cabe\u00e7a contra a maci\u00e7a porta de madeira e lutava para se assentar, a cabe\u00e7a pendida para um lado como se ouvindo alguma coisa com aten\u00e7\u00e3o. Inopinadamente, um sorriso de diab\u00f3lico triunfo se estampou em seu rosto, e ele come\u00e7ou a falar de um modo inintelig\u00edvel outra vez -agora num sussurro grave que contrastava estranhamente como seu anterior uivo estent\u00f3rico.<\/p>\n<p>\u2013 Escute, tolo! Escute bem! Ele me ouviu e est\u00e1 vindo. Pode ouvi-Lo chapinhar para fora de seu tanque l\u00e1 no fundo da eclusa? Eu a fiz bem funda, porque n\u00e3o havia nada melhor para Ele. Trata-se de um anf\u00edbio, sabe? \u2013 voc\u00ea viu as guelras na fotografia. Chegou \u00e0 terra vindo da pl\u00fambea Yuggoth, onde as cidades jazem no fundo de um mar aquecido. N\u00e3o pode ficar de p\u00e9 ali \u2013 alto demais -, tem de se sentar ou de se agachar. D\u00ea-me as chaves \u2013 precisamos deix\u00e1-Lo sair e nos ajoelharmos diante dele. Ent\u00e3o sairemos \u00e0 procura de um c\u00e3o ou de um gato \u2013 ou quem sabe de algum b\u00eabado \u2013 para lhe dar o sustento de que Ele precisa!<\/p>\n<p>N\u00e3o foi tanto o que o doido dissera, mas o modo como o dissera, que atingiu Jones t\u00e3o profundamente. A confian\u00e7a e a sinceridade extremas, insanas, que havia naquele sussurro louco eram lamentavelmente contagiantes. A imagina\u00e7\u00e3o, tremendo est\u00edmulo, acharia uma amea\u00e7a ativa naquela demon\u00edaca figura de cera que espreitava oculta para al\u00e9m das grossas t\u00e1buas. Mirando a porta com inusitado fasc\u00ednio, Jones reparou que ela exibia v\u00e1rias rachaduras, conquanto nenhum sinal de tratamento violento era vis\u00edvel daquele lado. Ele se perguntou que dimens\u00f5es teria o c\u00f4modo ou despensa por tr\u00e1s dela e de que modo estaria colocada a figura de cera. A id\u00e9ia do man\u00edaco de um tanque com uma eclusa era t\u00e3o conjetur\u00e1vel quanto todas as suas outras fabula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Logo, num instante terr\u00edvel, Jones n\u00e3o teve for\u00e7as sequer para respirar. A correia de couro que segurava para dar o \u00faltimo la\u00e7o em Rogers escorregou de suas m\u00e3os, e um espasmo de tremor convulsionou-o da cabe\u00e7a aos p\u00e9s. Devia saber que o lugar o levaria \u00e0 loucura, como fizera com Rogers \u2013 e agora estava louco. Estava louco, pois agora sofria alucina\u00e7\u00f5es mais esquisitas do que quaisquer outras que o tinham assaltado naquela noite. O louco convocava-o a ouvir o chapinhar de um monstro m\u00edtico no tanque que estava para al\u00e9m da porta \u2013 e agora, Deus poderoso, ele o ouvia!<\/p>\n<p>Rogers percebeu o espasmo de horror que se estampou no rosto de Jones e o transformou numa m\u00e1scara de expectativa e de medo. Casquinou:<\/p>\n<p>\u2013 Afinal, tolo, acredita! Afinal voc\u00ea sabe! Ouve-O, e Ele vem! D\u00ea-me as chaves, tolo -precisamos fazer a rever\u00eancia e Lhe servir!<\/p>\n<p>Mas Jones estava longe de prestar aten\u00e7\u00e3o em quaisquer palavras humanas, loucas ou s\u00e3s. Uma paralisia f\u00f3bica o colocou im\u00f3vel e semi-inconsciente, imagens selvagens precipitando-se de modo fantasmag\u00f3rico em sua imagina\u00e7\u00e3o. Ouviu-se um chapinhar. Ouviu-se um patear ou um bul\u00edcio, como o de grandes patas \u00famidas contra uma superf\u00edcie s\u00f3lida. Alguma coisa se aproximava. Suas narinas foram invadidas por um fedor, proveniente das frinchas daquela porta de pesadelo, ao mesmo tempo semelhante e distinto daquele que emana das jaulas dos mam\u00edferos nos jardins zool\u00f3gicos do Regent\u2019s Park.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o sabia mais se Rogers estava falando ou n\u00e3o. Tudo o que fosse real se desvanecera, e ele era uma est\u00e1tua ob sedada por sonhos e alucina\u00e7\u00f5es t\u00e3o antinaturais que se tornavam quase objetivas e independentes dele. Pensou ter ouvido um farejar ou um grunhir proveniente do abismo para al\u00e9m da porta; quando um s\u00fabito ru\u00eddo, como o de um latido ou de uma trombeta, assaltou seus ouvidos, n\u00e3o teve certeza se teria vindo do man\u00edaco amarrado, cuja imagem dan\u00e7ava diante de sua vista abalada. A fotografia daquela maldita coisa oculta de cera insistia em flutuar atrav\u00e9s de sua consci\u00eancia. Tal coisa n\u00e3o tinha o direito de existir. N\u00e3o o havia deixado louco?<\/p>\n<p>Mesmo enquanto refletia, uma nova evid\u00eancia de loucura lhe ocorreu. Alguma coisa, pensou, estava bulindo com a tranca da pesada porta com o cadeado. Estava batendo e arranhando e empurrando as grandes t\u00e1buas. Ouvia-se um martelar contra a madeira resistente, que se tornou mais e mais pronunciado. A fedentina era horr\u00edvel. E agora o assalto contra aquela porta pelo lado de dentro se tornava uma saraivada maligna, determinada, como os ribombos num campo de batalha. Houve um ominoso estrondo \u2013 um despeda\u00e7amento \u2013 uma onda de fedor \u2013 uma t\u00e1bua que ca\u00eda \u2013 uma pata negra terminando numa pin\u00e7a de caranguejo\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Socorro! Socorro! Deus me ajude!\u2026 Aaaaaaa!.<\/p>\n<p>Com grande esfor\u00e7o Jones consegue, hoje em dia, recordar-se de que sua paralisia f\u00f3bica explodiu na libera\u00e7\u00e3o de um s\u00fabito frenesi de fuga autom\u00e1tica. Ora, ele provavelmente viveu uma daquelas fugas loucas e selvagens dos mais loucos pesadelos, pois parece que atravessou num \u00edmpeto a cripta em desordem, de um \u00fanico salto, escancarou a porta de sa\u00edda, que se fechou e se trancou \u00e0s suas costas com um estampido, disparou escada acima, saltando de tr\u00eas em tr\u00eas degraus, e cruzou alucinada e desorientadamente o p\u00e1tio cal\u00e7ado de pedras em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s ruas esqu\u00e1lidas de Southwark.<\/p>\n<p>Aqui a mem\u00f3ria p\u00e1ra. Jones n\u00e3o sabe como chegou a casa, e n\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancias de que tenha apanhado um t\u00e1xi. Provavelmente, venceu todo o trajeto guiado por um instinto cego \u2013 atrav\u00e9s da Ponte Waterloo, ao longo do Strand e de Charing Cross, at\u00e9 as alturas de Haymarket e Regent Street e at\u00e9 sua pr\u00f3pria vizinhan\u00e7a. Ele ainda usava a inusitada barafunda das roupas do museu, quando se tornou consciente o bastante para chamar o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Uma semana mais tarde, os especialistas em nervos permitiram que ele deixasse o leito e sa\u00edsse ao ar livre.<\/p>\n<p>Mas ele n\u00e3o contou muita coisa aos especialistas. Sobre toda a sua experi\u00eancia pendia um v\u00e9u de loucura e pesadelo, e ele concluiu que o sil\u00eancio era a melhor op\u00e7\u00e3o. Quando se levantou, perscrutou atentamente todos os pap\u00e9is que se acumularam desde aquela noite medonha, mas n\u00e3o encontrou nenhuma refer\u00eancia a nada de estranho no museu. O quanto, afinal, de tudo aquilo tinha sido realidade? Onde terminava a realidade e come\u00e7ava o sonho m\u00f3rbido? Teria sua mente se despeda\u00e7ado naquela escura c\u00e2mara de exibi\u00e7\u00e3o, e teria sido toda a luta com Rogers apenas uma fantasmagoria da febre? Teria ajudado em sua recupera\u00e7\u00e3o se ele conseguisse assentar alguns desses pontos enlouquecedores. Ele devia ter visto aquela maldita fotografia da imagem de cera denominada \u201cEle\u201d, pois c\u00e9rebro algum sen\u00e3o o de Rogers seria capaz de conceber semelhante blasf\u00eamia.<\/p>\n<p>Duas semanas transcorreram antes que ele tivesse coragem de retornar a Southwark Street. Partiu durante uma manh\u00e3, quando o maior volume de atividade s\u00e3 estava ocorrendo naqueles antigos arredores de lojas e armaz\u00e9ns. A placa do museu ainda estava l\u00e1, e quando se aproximou viu que o lugar ainda estava aberto. O porteiro fez uma aceno de apraz\u00edvel reconhecimento, enquanto ele cobrava coragem para entrar, e na c\u00e2mara arqueada l\u00e1 embaixo um assistente tocou animadamente no quepe. Talvez tudo tivesse sido apenas um sonho. Ousaria bater na porta do est\u00fadio e procurar por Rogers?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Orabona avan\u00e7ou para cumpriment\u00e1-lo. Sua negra cara lambida tinha algo de sard\u00f4nico, mas Jones sentiu que n\u00e3o era inamistosa. O outro falou, com uma ponta de sotaque:<\/p>\n<p>\u2013 Bom dia, Sr. Jones. Faz tempo que n\u00e3o o vemos por aqui. Deseja ver o Sr. Rogers? Lamento, mas ele n\u00e3o se encontra. Foi chamado para algum neg\u00f3cio na Am\u00e9rica e teve de ir. Sim, foi bem repentino. Estou no comando agora, aqui e na casa. Procuro manter o alto padr\u00e3o do Sr. Rogers -at\u00e9 que ele volte.<\/p>\n<p>O estrangeiro sorriu \u2013 talvez apenas por afabilidade. Jones mal sabia o que responder, mas se esfor\u00e7ou para balbuciar algumas perguntas sobre o dia seguinte \u00e0 sua \u00faltima visita. Orabona pareceu interessado nas perguntas, e teve o maior cuidado ao responder.<\/p>\n<p>\u2013 Oh, sim, Sr. Jones, o vinte e oito do m\u00eas passado. Lembro-me dele por muitas raz\u00f5es. Pela manh\u00e3 \u2013 antes que o Sr. Rogers chegasse, voc\u00ea compreende? \u2013 encontrei o est\u00fadio numa verdadeira barafunda. Havia muita \u2013 limpeza \u2013 por fazer. O trabalho da noite anterior durara at\u00e9 tarde, veja voc\u00ea. Um importante esp\u00e9cime novo, dado o seu processo secund\u00e1rio de cozimento. Assumi todo o controle quando cheguei.<\/p>\n<p>\u201cEra um esp\u00e9cime dif\u00edcil de preparar \u2013 mas, naturalmente, o Sr. Rogers havia me ensinado o bastante. Ele \u00e9, como se sabe, um grande artista. Quando chegou, ajudou-me a completar o esp\u00e9cime \u2013 ajudou-me bem materialmente, lhe asseguro \u2013 mas saiu logo, sem sequer cumprimentar os homens. Como lhe disse, foi chamado de repente. Havia importantes rea\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas envolvidas. Faziam muito barulho \u2013 de fato, algumas pessoas l\u00e1 fora imaginam ter ouvido v\u00e1rios tiros de pistola \u2013 uma id\u00e9ia bem peculiar!<\/p>\n<p>\u201cQuanto ao novo esp\u00e9cime \u2013 \u00e9 um assunto lament\u00e1vel. Trata-se de uma grande obra-prima, desenhada e executada, voc\u00ea compreende, pelo Sr. Rogers. Ele ver\u00e1 o que aconteceu quando retornar.\u201d<\/p>\n<p>Outra vez Orabona sorriu.<\/p>\n<p>A pol\u00edcia, voc\u00ea sabe. N\u00f3s o colocamos em exibi\u00e7\u00e3o h\u00e1 uma semana, e aconteceram dois ou tr\u00eas desmaios. Um pobre coitado teve um ataque epil\u00e9tico diante dele. Compreende, um pouquinho \u2013 mais forte \u2013 que o resto. Maior, por causa de uma coisa. Naturalmente, estava na alcova \u2018para adultos\u2019. No dia seguinte, dois homens da Scotland Yard deram uma olhada e disseram que era m\u00f3rbido demais para ser exibido. Disseram que t\u00ednhamos de remov\u00ea-lo. Foi um grande embara\u00e7o \u2013 tamanha obra-prima de arte \u2013 mas eu n\u00e3o me senti com autoridade para recorrer \u00e0 justi\u00e7a na aus\u00eancia do Sr. Rogers. Ele detestaria semelhante publicidade, com a pol\u00edcia envolvida mas quando retornar \u2013 quando retornar\u2026<\/p>\n<p>Por uma ou outra raz\u00e3o, Jones sentiu uma onda crescente de desconforto e repulsa. Mas Orabona prosseguia:<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea \u00e9 um conhecedor, Sr. Jones. Estou certo de que n\u00e3o violo nenhuma lei oferecendo-lhe uma demonstra\u00e7\u00e3o particular. Pode ser que \u2013 de acordo, evidentemente, com a vontade do Sr. Rogers \u2013 venhamos a destruir o esp\u00e9cime algum dia \u2013 mas seria um crime.<\/p>\n<p>Jones teve um forte \u00edmpeto de recusar ver a coisa e fugir precipitadamente, mas Orabona j\u00e1 o conduzia pelo bra\u00e7o com um entusiasmo de artista. A alcova \u201cadulta\u201d, apinhada de inomin\u00e1veis horrores, n\u00e3o tinha visitantes. Num canto distante, um largo nicho fora coberto por uma cortina, e em dire\u00e7\u00e3o a ele \u00e9 que avan\u00e7ou o sorridente auxiliar.<\/p>\n<p>Voc\u00ea deve saber, Sr. Jones, que o t\u00edtulo deste esp\u00e9cime \u00e9 \u201cO Sacrif\u00edcio a Rhan-Tegoth\u201d. Jones ficou violentamente abalado, mas Orabona n\u00e3o pareceu notar.<\/p>\n<p>O deus colossal e informe \u00e9 uma personagem de certas lendas obscuras que o Sr. Rogers tinha estudado. Tudo bobagem, com certeza, como voc\u00ea tantas vezes asseverou ao Sr. Rogers. Sup\u00f5e-se que tenha vindo do espa\u00e7o sideral e que tenha vivido no \u00c1rtico h\u00e1 tr\u00eas milh\u00f5es de anos. Tratava seus sacrif\u00edcios de modo bastante peculiar e horr\u00edvel, como ver\u00e1. O Sr. Rogers o realizou com muita vivacidade e imagina\u00e7\u00e3o \u2013 mesmo quanto \u00e0 face da v\u00edtima.<\/p>\n<p>Em meio a violentos tremores, Jones se agarrou ao corrim\u00e3o de bronze em frente ao nicho velado. Esteve mesmo para erguer a m\u00e3o e impedir Orabona quando viu a cortina deslizar, mas um conflituoso impulso o deteve. O estrangeiro sorria triunfalmente.<\/p>\n<p>\u2013 Contemple!<\/p>\n<p>Jones sentiu-se girar, mesmo agarrado ao corrim\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 Deus! \u2013 Deus do c\u00e9u!<\/p>\n<p>Com bons dez p\u00e9s de altura, a despeito de sua postura agachada, rastejante, expressiva de infinita malignidade c\u00f3smica, uma monstruosidade de horror inacredit\u00e1vel aparecia saindo de um trono cicl\u00f3pico de marfim coberto de relevos grotescos. No par central de suas seis pernas, segurava uma coisa amassada, esmagada, distorcida e exangue, perfurada por um milh\u00e3o de picadelas e em alguns pontos corro\u00edda por algum \u00e1cido pungente. Somente a macilenta cabe\u00e7a da v\u00edtima, pendendo invertida num dos lados, dava mostras de representar qualquer coisa de humana.<\/p>\n<p>O monstro em si dispensaria qualquer t\u00edtulo, para quem tivesse visto certa fotografia infernal. Aquela desgra\u00e7ada imagem tinha sido mais que fiel e no entanto n\u00e3o podia comportar todo o horror que havia no gigantesco objeto real. O torso globular \u2013 a sugest\u00e3o de cabe\u00e7a algo semelhante a uma bolha \u2013 a tromba de um p\u00e9 de comprimento \u2013 as guelras salientes \u2013 a monstruosa penugem das ventosas em forma de \u00e1spide \u2013 os seis membros sinuosos com suas patas negras e pin\u00e7as de caranguejo \u2013 Deus! a familiaridade da pata negra terminando numa pin\u00e7a de caranguejo!\u2026<\/p>\n<p>O sorriso de Orabona era simplesmente hediondo. Jones engasgou e fitou aquela exibi\u00e7\u00e3o medonha com um fasc\u00ednio crescente que o perturbou e o deixou perplexo. Que irrevelado horror o estava prendendo e for\u00e7ando a olhar por mais um pouco e a procurar por detalhes? Aquilo tinha enlouquecido Rogers\u2026 Rogers, o artista supremo\u2026 disse que n\u00e3o eram artificiais\u2026<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ele localizou a coisa que o atra\u00eda. Era a cabe\u00e7a pendente da macilenta v\u00edtima de cera e alguma coisa que ela implicava. Essa cabe\u00e7a n\u00e3o era inteiramente destitu\u00edda de uma face, e aquela face era familiar. Parecia-se com a face enlouquecida do pobre Rogers. Jones examinou melhor, mal sabendo por que o fazia. N\u00e3o era natural que um egotista moldasse suas pr\u00f3prias fei\u00e7\u00f5es em sua obra-prima? Haveria alguma coisa mais que a vis\u00e3o subconsciente tivesse capturado e ultrapassado em infinito terror?<\/p>\n<p>A cera da face ressequida tinha sido manuseada com inigual\u00e1vel destreza. Aquelas picadas -qu\u00e3o perfeitamente reproduziam a mir\u00edade de feridas de algum modo infligidas \u00e0quele pobre c\u00e3o! Mas havia algo mais. Na bochecha esquerda podia-se vislumbrar uma irregularidade que parecia transcender o esquema geral \u2013 como se o escultor tivesse procurado cobrir um defeito de sua primeira modelagem. Quanto mais Jones olhava para ela, mais ela o terrificava misteriosamente \u2013 e ent\u00e3o, de s\u00fabito, ele se lembrou de uma circunst\u00e2ncia que levou seu horror ao \u00e1pice. Aquela noite de abomina\u00e7\u00e3o \u2013 a luta \u2013 o louco amarrado \u2013 e o corte longo e profundo na face esquerda do verdadeiro Rogers vivo\u2026<\/p>\n<p>Jones, abandonando o desesperado apoio do corrim\u00e3o, tombou num desmaio total. Orabona continuava a sorrir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi apenas curiosidade o que levou Stephen Jones ao Museu Rogers pela primeira vez. 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