{"id":694,"date":"2018-07-09T12:45:05","date_gmt":"2018-07-09T12:45:05","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=694"},"modified":"2018-07-09T12:46:57","modified_gmt":"2018-07-09T12:46:57","slug":"dagon","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/dagon","title":{"rendered":"Dagon"},"content":{"rendered":"<p>Escrevo isso debaixo de uma tens\u00e3o mental consider\u00e1vel j\u00e1 que esta noite poderei n\u00e3o estar mais vivo. Se um centavo e no final de meu suprimento da droga que, s\u00f3 ela, consegue tornar minha vida toler\u00e1vel, j\u00e1 n\u00e3o consigo suportar a tortura e irei atirar-me dessa janela de s\u00f3t\u00e3o na rua esqu\u00e1lida l\u00e1 em baixo. N\u00e3o pensem que minha depend\u00eancia da morfina tenha-me tornado um fraco ou degenerado. Quando houverem lido estas p\u00e1ginas rabiscadas \u00e0s pressas, poder\u00e3o imaginar, mesmo sem nunca perceber plenamente, por que preciso do olvido ou da morte.<\/p>\n<p>Foi num dos trechos mais abertos e pouco freq\u00fcentados do vasto Pac\u00edfico que o paquete onde eu era comiss\u00e1rio de bordo foi capturado pelo vaso de guerra alem\u00e3o. A grande guerra estava, ent\u00e3o, em seu in\u00edcio, e as for\u00e7as mar\u00edtimas do b\u00e1rbaro ainda n\u00e3o haviam mergulhado por completo em sua posterior degrada\u00e7\u00e3o. Sendo assim, nossa embarca\u00e7\u00e3o foi tomada como leg\u00edtima presa, enquanto n\u00f3s, membros de sua tripula\u00e7\u00e3o, fomos tratados com toda a equidade e considera\u00e7\u00e3o que nos eram devidas como prisioneiros navais. Era t\u00e3o liberal, de fato, a disciplina de nossos captores, que cinco dias depois de nos tomarem, consegui escapar, sozinho, num pequeno barco equipado com \u00e1gua e provis\u00f5es para muito tempo.<\/p>\n<p>Quando enfim me vi livre e \u00e0 deriva, n\u00e3o tinha muita no\u00e7\u00e3o de minha localiza\u00e7\u00e3o. Como nunca havia sido um navegador experiente, eu s\u00f3 podia imaginar, vagamente, pelo sol e as estrelas, que estava um pouco ao sul do Equador. Da latitude eu nada sabia, e n\u00e3o havia ilha nem linha costeira \u00e0 vista. O tempo manteve-se firme e durante dias sem conta eu vaguei sem destino debaixo de um sol escaldante, esperando a passagem de algum navio ou ser atirado \u00e0s praias de alguma terra inabit\u00e1vel. Mas n\u00e3o surgiu navio nem terra e comecei a me desesperar em minha solid\u00e3o sobre a ondulante vastid\u00e3o de intermin\u00e1vel azul.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a aconteceu enquanto eu dormia. Seus detalhes eu jamais saberei, pois, embora agitado e povoado de sonhos, tive um sono cont\u00ednuo. Quando afinal despertei, descobri-me meio tragado pela extens\u00e3o lamacenta de um infernal lodo negro que se estendia \u00e0 minha volta em mon\u00f3tonas ondula\u00e7\u00f5es at\u00e9 onde minha vista alcan\u00e7ava e onde, a certa dist\u00e2ncia, estava enterrado meu barco.<\/p>\n<p>Embora se possa perfeitamente imaginar que minha primeira sensa\u00e7\u00e3o seria de espanto com uma transforma\u00e7\u00e3o t\u00e3o prodigiosa e inesperada de cen\u00e1rio, eu, na verdade, fiquei mais horrorizado do que espantado, pois havia no ar e no solo putrefato um car\u00e1ter sinistro que me arrepiou at\u00e9 o \u00e2mago de meu ser. A regi\u00e3o toda fedia com as carca\u00e7as de peixes apodrecidos e outras coisas menos descrit\u00edveis que eu vi projetadas da lama abjeta da intermin\u00e1vel plan\u00edcie. Talvez eu n\u00e3o devesse esperar transmitir em meras palavras a indiz\u00edvel repugn\u00e2ncia que pode existir num sil\u00eancio absoluto e numa imensid\u00e3o est\u00e9ril. N\u00e3o havia nada ao alcance do ouvido e da vis\u00e3o, salvo uma vasta extens\u00e3o de lodo preto, mas ainda assim o car\u00e1ter absoluto do sil\u00eancio e a homogeneidade da paisagem me oprimiram com um medo nauseante.<\/p>\n<p>O sol ardia no alto de um c\u00e9u sem nuvens que me parecia quase negro em sua impiedade, com se refletisse o p\u00e2ntano escuro que tinha embaixo de meus p\u00e9s. Arrastando-me para dentro do barco encalhado, percebi que apenas uma teoria poderia explicar minha situa\u00e7\u00e3o: por algum tipo de erup\u00e7\u00e3o vulc\u00e2nica sem precedentes, parte do leito do oceano devia ter sido impelida para a superf\u00edcie, expondo regi\u00f5es que durante incont\u00e1veis milh\u00f5es de anos ficaram submersas debaixo de profundezas aqu\u00e1ticas imensur\u00e1veis. Era t\u00e3o grande a extens\u00e3o da nova terra que se elevava por baixo de mim, que n\u00e3o consegui captar o mais t\u00eanue ru\u00eddo do oceano, por mais que for\u00e7asse os ouvidos. Tamb\u00e9m n\u00e3o havia qualquer ave marinha para pilhar as coisas mortas.<\/p>\n<p>Durante muitas horas, eu fiquei sentado, pensando e ruminando, no barco que estava ca\u00eddo de lado e produzia um pouco de sombra \u00e0 medida que o sol ia seguindo seu curso no c\u00e9u. Com o avan\u00e7o do dia, o ch\u00e3o foi ficando menos pegajoso, indicando que ficaria seco o bastante para permitir que andasse sobre ele dentro de pouco tempo. Dormi muito pouco naquela noite e, no dia seguinte, preparei um farnel com \u00e1gua e comida para uma excurs\u00e3o terrestre em busca do mar desaparecido e de um poss\u00edvel resgate.<\/p>\n<p>Na terceira manh\u00e3, verifiquei que o solo j\u00e1 estava bem seco e permitiria que se caminhasse sem problemas sobre ele. O cheiro de peixe era enlouquecedor, mas eu estava concentrado demais em coisas s\u00e9rias para me importar com desgra\u00e7a t\u00e3o pequena, e parti ousadamente para um destino incerto. Caminhei a duras penas durante o dia todo na dire\u00e7\u00e3o oeste, guiado por um outeiro distante que se destacava em altura dos outros que existiam no deserto acidentado. Acampei naquela noite, e, no dia seguinte, segui avan\u00e7ando para o outeiro, embora aquele objeto parecesse estar pouca coisa mais perto do que da primeira vez em que o vira. Na quarta noite, atingi a base do monte, que se mostrou muito mais alto do que parecera \u00e0 dist\u00e2ncia. Um vale interposto destacava seu perfil da superf\u00edcie geral. Exausto demais para subir, dormi \u00e0 sombra da colina.<\/p>\n<p>N\u00e3o entendo por que meus sonhos foram t\u00e3o agitados naquela noite, mas, antes da curva fantasticamente acentuada da lua minguante ter-se erguido muito alto acima do lado oriental da plan\u00edcie, acordei suando frio, decidido a n\u00e3o me deixar adormecer de novo. As vis\u00f5es como as que havia tido eram demais para suporta-las de novo. E sob o brilho do luar, percebi como foram insensatas as minhas caminhadas diurnas. Sem o ardor do sol escaldante, minha jornada teria-me custado menos energia. Agora, enfim, eu me sentia perfeitamente capas de realizar a escalada que me havia intimidado ao entardecer. Apanhei ent\u00e3o o farnel e encaminhei-me para a crista da eleva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 tive a oportunidade de mencionar que a monotonia constante da plan\u00edcie ondulada era-me uma fonte de impreciso horror, mas creio que meu horror ficou maior quando alcancei o cume do monte e olhei para o outro lado, para um imenso vale ou canh\u00e3o cujos recessos negros a lua ainda n\u00e3o se havia erguido o suficiente para iluminar. Senti-me no limiar do mundo, olhando, por sobre a borda, para um caos insond\u00e1vel de escurid\u00e3o perp\u00e9tua. Em meio a meu terror, perpassaram curiosas reminisc\u00eancias do \u201cPara\u00edso Perdido\u201d 1 e da tenebrosa ascens\u00e3o de Sat\u00e3 pelos reinos informe das trevas.<\/p>\n<p>A medida que a Lua foi subindo ao c\u00e9u, pude notar que as encostas do vale n\u00e3o eram t\u00e3o perpendiculares quanto eu imaginara. Sali\u00eancias e afloramentos de rocha forneciam apoios perfeitos para uma descida, al\u00e9m de que, cerca de trinta metros abaixo, o declive tornava-se bastante ameno.<\/p>\n<p>Impelido por um impulso que n\u00e3o consigo precisar, fui descendo com dificuldade pelas rochas at\u00e9 parar na encosta menos \u00edngreme abaixo, de onde fitei as profundezas est\u00edgias onde nenhuma luz jamais penetrara.<\/p>\n<p>De repente, minha aten\u00e7\u00e3o foi tra\u00edda por um objeto enorme e singular na vertente oposta erguendo-se abruptamente a cerca de cem jardas \u00e0 minha frente, um objeto de brilho esbranqui\u00e7ado sob os raios da Lua ascendente. De in\u00edcio imaginei que se tratasse de uma simples rocha gigantesca, mas estava pouco consciente de que seu contorno e sua posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o eram uma obra puramente natural. Um exame mais de perto encheu-me de sensa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o consigo exprimir, pois, apesar de seu tamanho imenso e sua posi\u00e7\u00e3o num abismo que ficara escondido no fundo do mar desde a juventude do mundo, percebi que o estranho objeto era um mon\u00f3lito bem moldado cujo vulto maci\u00e7o havia conhecido o artesanato e, talvez, a adora\u00e7\u00e3o de criaturas vivas e pensantes.<\/p>\n<p>Pasmo e assustado, mas n\u00e3o sem um certo fr\u00eamito de prazer do cientista ou do arque\u00f3logo, examinei com maior aten\u00e7\u00e3o o meu entorno. A Lua, agora no z\u00eanite, brilhava intensamente, misteriosamente, sobre os penhascos abissais que ladeavam o abismo, revelando um extenso curso d\u2019\u00e1gua que corria sinuoso em seu fundo at\u00e9 se perder de vista em ambas as dire\u00e7\u00f5es e quase lambia meus p\u00e9s enquanto eu estava ali, parado, na encosta. Do outro lado do vale, as leves ondula\u00e7\u00f5es da \u00e1gua ro\u00e7avam a base do cicl\u00f3peo mon\u00f3lito, sobre cuja superf\u00edcie eu podia agora distinguir inscri\u00e7\u00f5es e entalhes toscos. A escrita estava em um sistema de hier\u00f3glifos que eu n\u00e3o conhecia e que era diferente de tudo que eu j\u00e1 vira em livros, consistindo, me sua maior parte, de s\u00edmbolos aqu\u00e1ticos estilizados como peixes, enguias, polvos, crust\u00e1ceos, moluscos, baleias, coisas assim. Era patente que diversos caracteres representavam coisas marinhas desconhecidas do mundo moderno, mas cujas formas, em decomposi\u00e7\u00e3o, eu havia observado na plan\u00edcie erguida do oceano.<\/p>\n<p>Foram os entalhes decorativos, por\u00e9m, que mais me extasiavam. Havia um arranjo de baixos-relevos, bem vis\u00edvel acima da \u00e1gua interposta por conta de seu enorme tamanho, cuja tem\u00e1tica teria invocado a inveja de Dor\u00e9<a href=\"https:\/\/contosdocovil.wordpress.com\/wp-includes\/js\/tinymce-277\/plugins\/paste\/blank.htm#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Imagino que aquelas coisas deviam supostamente ilustrar pessoas \u2013 ao menos um certo tipo de pessoas, embora as criaturas fossem mostradas divertindo-se como peixes nas \u00e1guas de alguma gruta marinha ou venerando algum santu\u00e1rio em forma de mon\u00f3lito tamb\u00e9m ao que tudo indica submerso. De seus rostos e formas, n\u00e3o ouso falar com detalhes; sua mera lembran\u00e7a me deixa aturdido. De um grotesco al\u00e9m da imagina\u00e7\u00e3o de um Poe ou de um Bulwer, tinham um perfil infernalmente humano apesar das m\u00e3os e apesar das m\u00e3os e p\u00e9s palmados, dos l\u00e1bios chocantemente largos e fl\u00e1cidos, dos olhos saltados e v\u00edtreos, e outras fei\u00e7\u00f5es ainda menos agrad\u00e1veis de se lembrar. O curioso \u00e9 que pareciam ter sido cinzelados muito fora de propor\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao cen\u00e1rio de fundo, pois uma das criaturas era mostrada no ato de matar uma baleia representada com um tamanho um pouco maior do que o seu, mas naquele momento eu achei que eram apenas os deuses imagin\u00e1rios de alguma tribo primitiva, navegante e pescadora, alguma tribo cujos derradeiros descendentes teriam parecido muitas eras antes do primeiro ancestral do Homem de Piltdown ou de Neanderthal haver nascido. Extasiado diante daquele inesperado vislumbre de um passado al\u00e9m da imagina\u00e7\u00e3o do mais ousado antrop\u00f3logo, fiquei ali cismado enquanto a Lua provocava curiosos reflexos no pl\u00e1cido canal \u00e0 minha frente.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, de repente, eu a vi. Com uma leve agita\u00e7\u00e3o para indicar sua subida \u00e0 superf\u00edcie, a coisa emergiu para fora s das \u00e1guas escuras. Enorme, polif\u00eamica e repugnante, ela disparou como um monstro fabuloso de um pesadelo para o mon\u00f3lito, ao redor do qual arrojou seus gigantescos brancos escamosos enquanto inclinava a cabe\u00e7a horripilante, produzindo sons ritmados. Pensei ter enlouquecido, ent\u00e3o.<\/p>\n<p>De minha subida fren\u00e9tica da encosta e do penhasco, de minha delirante jornada de volta para o barco encalhado, pouco me recordo. Creio que cantei muito e ri como louco quando era incapaz de cantar. Tenho vagas recorda\u00e7\u00f5es de uma grande tempestade algum tempo depois de alcan\u00e7ar o barco. De qualquer forma, sei que ouvi o ribombar de trov\u00f5es e outros ru\u00eddos que a natureza produz somente em seus humores mais terr\u00edveis.<\/p>\n<p>Quando sai das trevas, estava num hospital de San Francisco, para onde fora levado pelo capit\u00e3o de um navio americano que recolhera meu barco no meio do oceano. Em meu del\u00edrio, falei muito, mas descobri que n\u00e3o deram muita aten\u00e7\u00e3o \u00e0s minhas palavras. Meus salvadores n\u00e3o sabiam nada a respeito de alguma terra que houvesse aflorado no Pac\u00edfico, e eu n\u00e3o julguei necess\u00e1rio insistir em algo que sabia que eles n\u00e3o poderiam acreditar. Procurei certa vez um famoso etn\u00f3logo e o diverti com perguntas curiosas sobre a antiga lenda filistina de Dagon, o Deus-Peixe<a href=\"https:\/\/contosdocovil.wordpress.com\/wp-includes\/js\/tinymce-277\/plugins\/paste\/blank.htm#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, mas, percebendo logo que ele era um racionalista incorrig\u00edvel, n\u00e3o insisti nas perguntas.<\/p>\n<p>\u00c9 durante a noite, especialmente quando a lua est\u00e1 muito curva e minguante, que eu vejo a coisa. Tentei a morfina, mas a droga deu-me apenas um al\u00edvio tempor\u00e1rio e arrastou-me para suas garras como um escravo sem esperan\u00e7a. Sim, tendo escrito um relato completo para a informa\u00e7\u00e3o ou a desdenhosa divers\u00e3o de meus semelhantes, agora pretendo acabar com tudo. Muitas vezes me pergunto se tudo n\u00e3o teria passado de pura fantasmagoria \u2013 uma simples fantasia febril enquanto eu jazia, castigado pelo sol e delirante, naquele barco descoberto depois de minha fuga do vaso de guerra alem\u00e3o. Isso eu me pergunto, mas sempre me vem uma vis\u00e3o terrivelmente pavorosa em resposta. N\u00e3o consigo pensar no mar profundo sem estremecer com as coisas inomin\u00e1veis que podem, neste exato momento, estar arrastando-se e espoj ando-se em seu leito lamacento, adorando seus antigos \u00eddolos de pedra e cinzelando \u00e0 sua pr\u00f3pria e detest\u00e1vel semelhan\u00e7a em obeliscos submarinos de granito encharcado. Sonho com o dia em que elas poder\u00e3o ascender acima dos vagalh\u00f5es para arrastar para o fundo, com suas garras f\u00e9tidas, os remanescentes de uma humanidade debilitada, exaurida pela guerra \u2013 o dia em que a terra poderia afundar e o escuro leito do oceano erguer-se em meio a um pandem\u00f4nio universal.<\/p>\n<p>O fim est\u00e1 pr\u00f3ximo. Ou\u00e7o um ru\u00eddo \u00e0 porta, como se um imenso corpo viscoso a estivesse for\u00e7ando. Ela n\u00e3o me encontrar\u00e1. Deus,\u00a0<em>aquela m\u00e3o!\u00a0<\/em>A janela! A janela!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrevo isso debaixo de uma tens\u00e3o mental consider\u00e1vel j\u00e1 que esta noite poderei n\u00e3o estar mais vivo. 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