{"id":697,"date":"2018-07-09T12:44:25","date_gmt":"2018-07-09T12:44:25","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=697"},"modified":"2018-07-09T12:46:57","modified_gmt":"2018-07-09T12:46:57","slug":"o-depoimento-de-randolph-carter","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-depoimento-de-randolph-carter","title":{"rendered":"O Depoimento de Randolph Carter"},"content":{"rendered":"<p>Repito-vos, cavalheiros, que vosso interrogat\u00f3rio \u00e9 in\u00fatil. Detende-me aqui para sempre, se quiserdes; prendei-me ou executai-me se tendes necessidade de uma v\u00edtima para propiciar a ilus\u00e3o a que chamais justi\u00e7a. N\u00e3o posso por\u00e9m, dizer mais do que j\u00e1 disse. Contei-vos, com toda a sinceridade, tudo de que me lembro. Nada foi distorcido ou escamoteado, e se alguma coisa permanecer vaga, \u00e9 apenas devido \u00e0 nuvem escura que caiu sobre meu esp\u00edrito \u2013 essa nuvem e a natureza nebulosa dos horrores que a fizeram abater-se sobre mim.<\/p>\n<p>Digo mais uma vez: n\u00e3o sei do que foi feito de Harley Warren, embora pense \u2013 quaserezo para isso \u2013 que ele est\u00e1 em oblivio pac\u00edfico, se \u00e9 que existe, em algum lugar, coisa t\u00e3o bem aventurada. \u00c9 verdade que por cinco anos fui seu melhor amigo e que, em parte compartilhei de suas terr\u00edveis pesquisas sobre o desconhecido. N\u00e3o negarei, conquanto minha mem\u00f3ria esteja insegura e vaga, que essa vossa testemunha nos possa ter visto juntos, na estrada de Gainsville, caminhando na dire\u00e7\u00e3o do P\u00e2ntano do Cipreste Grande \u00e0s onze e meia daquela noite tenebrosa. Que lev\u00e1vamos lanternas el\u00e9tricas, p\u00e1s e um curioso rolo de fio, a que se prendiam certos instrumentos, eu mesmo me disponho a afirmar, pois todas essas coisas desempenharam um papel importante naquela cena hedionda que continua gravada \u00e0 fogo em minha mem\u00f3ria abalada. Mas com rela\u00e7\u00e3o ao que se seguiu e ao motivo pelo qual fui encontrado sozinho e aturdido na margem do p\u00e2ntano, na manh\u00e3 seguinte, devo insistir em que nada sei, salvo o que j\u00e1 vos narrei repetidamente. Dizei-me que nada existe no p\u00e2ntano ou em suas proximidades que pudesse constituir o cen\u00e1rio daquele epis\u00f3dio aterrador. Respondo que que eu nada sabia al\u00e9m do que vi. Vis\u00e3o ou pesadelo, pode ter sido \u2013 e vis\u00e3o ou pesadelo espero desesperadamente que tenha sido \u2013 mas, no entanto, \u00e9 tudo o quanto minha mente reteu do que ocorreu naquelas horas chocantes depois que sa\u00edmos da vista dos homens. E por que Harley Warren n\u00e3o voltou, somente ele ou seu espectro \u2013 ou alguma coisa inomin\u00e1vel que n\u00e3o sei descrever \u2013 poder\u00e3o dizer.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 tive ocasi\u00e3o de afirmar, eu conhecia bem, e de certa forma dividia, os estudos fant\u00e1sticos de Harley Warren. De sua vasta cole\u00e7\u00e3o de livros estranhos e raros sobre temas interditos, li todos os escritos nas l\u00ednguas que domino, contudo esses s\u00e3o poucos em compara\u00e7\u00e3o aos escritos em idiomas que desconhe\u00e7o. Na maioria, acredito, s\u00e3o em \u00e1rabe; e o comp\u00eandio de demon\u00edaca inspira\u00e7\u00e3o que acarretou a trag\u00e9dia \u2013 o livro que levava no bolso ao abandonar o mundo \u2013 estava escrito em caracteres que jamais vi em parte alguma. Warren jamais se disp\u00f4s a me dizer o que havia naquele livro. Quanto \u00e0 natureza de nossos estudos\u2026 precisarei repetir ainda uma vez que j\u00e1 n\u00e3o conservo deles plena compreens\u00e3o? Parece-me at\u00e9 misericordioso que seja assim, pois eram estudos terr\u00edveis, que eu levava a cabo mais por relutante fascina\u00e7\u00e3o que por inclina\u00e7\u00e3o verdadeira. Warren sempre me dominou e \u00e0s vezes eu o temia. Lembro-me como estremeci ante sua express\u00e3o facial na noite anterior ao fato hediondo, enquanto ele falava sem cessar de sua teoria \u2013 por que certos cad\u00e1veres nunca se decomp\u00f5em mas permanecem \u00cdntegros em suas tumbas por mil anos. No entanto, j\u00e1 n\u00e3o o temo mais, pois suspeito que ele conheceu horrores al\u00e9m do meu alcance. Agora temo por ele.<\/p>\n<p>Mais uma vez repito: n\u00e3o tenho nenhuma lembran\u00e7a clara de nosso intuito naquela noite. Decerto teria muito a ver com o livro que Warren levava consigo \u2013 aquele livro antigo, num alfabeto indecifr\u00e1vel e que lhe chegara da \u00edndia um m\u00eas antes \u2013 mas juro que n\u00e3o sei o que esper\u00e1vamos encontrar. Vossa testemunha declara que nos viu \u00e0s onze e meia na estrada de Gainsville, seguindo na dire\u00e7\u00e3o do P\u00e2ntano do Cipreste Grande. \u00c9 prov\u00e1vel que isso seja verdade, mas n\u00e3o me lembro com nitidez. A imagem cauterizada em minha alma \u00e9 apenas de uma cena, e deve ter sido bem depois da meia noite, pois via-se uma p\u00e1lida lua crescente no c\u00e9u vaporoso.<\/p>\n<p>O lugar era um cemit\u00e9rio antigo. T\u00e3o antigo que eu me sobressaltava ante os in\u00fameros ind\u00edcios de anos imemoriais. Era numa depress\u00e3o profunda e \u00famida, coberta de mato alto, musgo e curiosas ervas rasteiras, envolvido por um vago fedorque minha fantasia ociosa associava absurdamente a pedras putrefatas. Por toda a parte havia sinais de abandono e decrepitude e eu parecia perseguido pela id\u00e9ia de Warren: n\u00f3s \u00e9ramos as primeiras criaturas vivas a invadir um sil\u00eancio letal de s\u00e9culos. Sobre a borda do vale, uma lua crescente, l\u00e2nguida e enlanguescente, espreitava atrav\u00e9s dos vapores repulsivos que pareciam emanar de catacumbas ignotas, e seus raios d\u00e9beis e bruxuleantes faziam-me discernir um aglomerado repelente de l\u00e1pides,\u00a0 urnas, cenot\u00e1fios e mausol\u00e9us, todos esboroantes, cobertos de musgo e manchados de umidade, e em parte ocultos pela luxuri\u00e2ncia obscena da vegeta\u00e7\u00e3o insalubre.<\/p>\n<p>A primeira impress\u00e3o vivida que tenho de minha pr\u00f3pria presen\u00e7a nessa necr\u00f3pole terr\u00edvel refere-se ao ato de deter-me com Warren diante de um certo sepulcro semi obliterado e de arrojar em seu interior certos fardos que, aparentemente estiv\u00e1ramos carregando. Notei ent\u00e3o que trazia comigo uma lanterna el\u00e9trica e duas p\u00e1s, ao passo que meu companheiro portava uma lanterna semelhante e um aparelho telef\u00f4nico port\u00e1til. N\u00e3o se disse qualquer palavra, pois o local e a miss\u00e3o pareciam-nos conhecidos. E sem delongas tomamos das p\u00e1s e come\u00e7amos a afastar as ervas, agrama e a terra da cova rasa e arcaica. Ap\u00f3s expormos toda a sua superf\u00edcie, que consistia em tr\u00eas imensas lages de granito, recuamos alguns passos para examinar o ossu\u00e1rio. Warren parecia estar fazendo alguns c\u00e1lculos mentais. Depois voltou ao sepulcro e, usando a p\u00e1 como alavanca, tentou erguer a laje que ficava mais pr\u00f3xima de uma ru\u00edna de pedra e que pode ter sido outrora um monumento. N\u00e3o conseguindo seu intento, fez un gesto para que eu o auxiliasse. Por fim, nossos esfor\u00e7os combinados fizeram com que a pedra se soltasse. Levantamo-la e a arredamos do lugar.<\/p>\n<p>Com a remo\u00e7\u00e3o da laje, ficou \u00e0 vista uma abertura negra, da qual irrompeu um efluxo de gases miasm\u00e1ticos, t\u00e3o nauseantes que saltamos para tr\u00e1s, tomados de horror. Ap\u00f3s um intervalo, entretanto, aproximamo-nos novamente da cova e achamos as exala\u00e7\u00f5es menos intoler\u00e1veis. Nossas lanternas revelaram o alto de um lance de degraus, dos quais gotejava um licor repugnante e que eram delimitados por paredes \u00famidas recobertas de bolor. E agora, pela primeira vez minha mem\u00f3ria registra emiss\u00e3o de palavras. Warran falava-me longamente, em sua c\u00e1lida voz de tenor, uma voz singularmente inc\u00f3lume ao ambiente l\u00fagubre.<\/p>\n<p>\u201cPe\u00e7o perd\u00e3o por pedir-te que permane\u00e7as na superf\u00edcie\u201d, disse ele, \u201cmas seria criminoso permitir que algu\u00e9m de nervos t\u00e3o fr\u00e1geis descesse at\u00e9 l\u00e1. N\u00e3o podes imaginar, mesmo pelo que leste e pelo que eu te disse, as coisas que terei de ler e de fazer. Trata-se de um trabalho diab\u00f3lico, Carter , e duvido que algum homem que n\u00e3o tenha a sensibilidade empedernida pudesse ver aquelas coisas e voltar vivo e s\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 desejo ofender-te e Deus sabe o quanto eu gostaria de levar-te comigo. Mas de certa forma a responsabilidade \u00e9 minha e eu n\u00e3o seria capaz de arrastar um feixe de nervos como tu \u00e0 morte ou \u00e0 loucura quase certa. Digo-te, n\u00e3o podes imaginar o que seja realmente a coisa! Mas prometomanter-te informadode cada passo meu pelo telefone \u2013 v\u00eas que disponho de fio suficiente para chegar ao centro da terra e voltar!\u201d<\/p>\n<p>Ainda ressoam em minha mem\u00f3ria essas palavras, pronunciadas tranq\u00fcilamente. E ainda me recordo de meus protestos. Eu parecia desesperadamente ansioso por acompanhar meu amigo para aquelas profundezas sepulcrais, mas ele se mostrava de uma obtina\u00e7\u00e3o inflex\u00edvel. A certo momento, amea\u00e7ou abandonar a expedi\u00e7\u00e3o caso eu insistisse. A amea\u00e7a tinha peso, pois s\u00f3 ele possu\u00eda a chave do que procur\u00e1vamos. De tudo isso ainda me lembro, muito embora j\u00e1 n\u00e3o saiba que esp\u00e9cie de coisa busc\u00e1vamos. Depois de haver obtido minha relutante aquiesc\u00eancia a seu plano, Warren pegou o rolo de fio e ajustou seus instrumentos. A um gesto seu, peguei um destes e sentei-me numa l\u00e1pide vetusta e descolorida, junto da abertura rec\u00e9m-exposta. Depois ele apertou-me a m\u00e3o, sobra\u00e7ou o rolo de fio e desapareceu naquele indescrit\u00edvel ossu\u00e1rio.<\/p>\n<p>Durante um minuto ainda percebi o brilho da lanterna e escutei o ro\u00e7agar do fio, enquanto Warren o estendia pelo ch\u00e3o; mas o brilho da luz sumiu repentinamente, como se ele houvesse dobrado uma esquina na escada de pedra e quase ao mesmo tempo o som cessou igualmente. Eu estava s\u00f3, por\u00e9m ligado \u00e0s profundezas desconhecidas por aqueles cord\u00e9is m\u00e1gicos cuja superf\u00edcie isolada verdejava sobre os raios esfor\u00e7ados do exangue quarto-crescente.<\/p>\n<p>A cada momento eu consultava o rel\u00f3gio, \u00e0 luz da lanterna el\u00e9trica e, tomado de ansiedade febril, procurava ouvir alguma coisa no receptor do telefone. Entretanto, durante mais de um quarto de hora nada ouvi. Ent\u00e3o o instrumento emitiu um estalido e eu chamei meu amigo com voz tensa. Por apreensivo que me sentisse, eu n\u00e3o estava preparado entretanto para as palavras que subiram daquela cova hedionda, em tons mais alarmados e hesitantes do que eu j\u00e1 havia escutado de Harley Warren. Ele, que se despedira de mim com tamanha calma havia pouco, agora me chamava l\u00e1 de baixo num sussurro titubeante, mais pressago que um grito sonor\u00edssimo:<\/p>\n<p>\u201cMeu Deus! Se pudesse ver o que estou vendo!\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o pude Responder. Mudo, s\u00f3 fiz esperar. Ouvi novamente as palavras agitadas:<\/p>\n<p>Carter, \u00e9 terr\u00edvel\u2026 monstruoso\u2026 inacredit\u00e1vel!\u201d<\/p>\n<p>Dessa vez a voz n\u00e3o me faltou e despejei no aparelho um jorro de indaga\u00e7\u00f5es excitadas. Aterrorizado, n\u00e3o cessava de repetir:\u201dWarren, o que foi? O que foi?\u201d<\/p>\n<p>Mais uma vez escutei a voz de meu amigo, ainda repassada de medo e agora aparentemente impregnada de desespero:<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o posso dizer-te, Carter! \u00c9 demasiado incr\u00edvel\u2026 n\u00e3o ouso contar\u2026 nenhum homem poderia saber e sobreviver\u2026 Santo Deus! Jamais sonhei com isso!\u201d<\/p>\n<p>Voltou o sil\u00eancio, apenas quebrado pela torrente de perguntas sobressaltadas que eu fazia. Ouvi ent\u00e3o novamente a voz de Warren, num tom de delirante consterna\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cCarter! Pelo amor de Deus, rep\u00f5e a Laje no lugar e sai disso se puderes! Deixa tudo mais e corre\u2026 \u00e9 tua \u00faltima oportunidade! Faz o que eu digo e n\u00e3o pe\u00e7a explica\u00e7\u00f5es!\u201d<\/p>\n<p>Eu escutava, mas s\u00f3 conseguia repetir minhas perguntas fren\u00e9ticas. Em meu redor estavam as tumbas, a escurid\u00e3o e as sombras; abaixo de mim, algum perigo que sobrepujava o alcance da imagina\u00e7\u00e3o humana. Mas meu amigo corria mais perigo que eu e sobre meu medo passou um vago ressentimento de que ele me julgasse capaz de abandon\u00e1-lo em tal situa\u00e7\u00e3o. Novos estalidos e ap\u00f3s uma pausa, ouvi o grito angustiado de Carter:<\/p>\n<p>\u201cTe manda! Pelo amor de Deus, p\u00f5e a laje no lugar e te manda, Carter!\u201d<\/p>\n<p>Alguma coisa na g\u00edria juvenil de meu companheiro, evidentemente transtornado, liberou minhas faculdades. Formei e gritei uma resolu\u00e7\u00e3o, \u201cWarren, ag\u00fcenta! Vou descer!\u201d No entanto, diante dessa proposta o tom de meu interlocutor transformou-se num grito de completo desespero:<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o! N\u00e3o compreendes! \u00c9 tarde demais\u2026 e por minha pr\u00f3pria culpa. P\u00f5e a laje no lugar e corre\u2026 n\u00e3o h\u00e1 mais nada que tu ou outra pessoa possa fazer!\u201d<\/p>\n<p>Seu tom de voz mudou novamente, adquirindo dessa vez mais suavidade, como que traduzindo resigna\u00e7\u00e3o sem esperan\u00e7a. Contudo, para mim ele permanecia tenso de ansiedade.<\/p>\n<p>\u201cDepressa\u2026 antes que seja tarde demais!\u201d<\/p>\n<p>Tentei n\u00e3o lhe dar ouvidos. Tentei quebrar a paralisia que me detinha e cumprir minhs promessa de descer para ajud\u00e1-lo. Seu pr\u00f3ximo murm\u00fario, todavia, ainda me encontrou inerte, preso de puro horror.<\/p>\n<p>\u201cCarter\u2026 corre! N\u00e3o adianta\u2026 tens de ir\u2026 antes um que dois\u2026 a laje\u2026\u201d<\/p>\n<p>Uma pausa, mais estalidos, e depois a voz d\u00e9bil de Warren:<\/p>\n<p>\u201cQuase acabado agora\u2026 n\u00e3o dificultes ainda mais\u2026 cobre esses degraus malditos e foge para salvar a vida\u2026 est\u00e1s perdendo tempo\u2026 adeus, Carter\u2026 n\u00e3o voltarei a ver-te.\u201d<\/p>\n<p>Nesse ponto, o murm\u00fario de Warren converteu-se em grito, um grito que aos poucos se transmudou em uivo, carregado de todo o horror das eras\u2026<\/p>\n<p>\u201cMalditas coisas infernais\u2026 legi\u00f5es\u2026 meu Deus! Te manda! Te manda! TE MANDAAAAA\u00dc!<\/p>\n<p>\u201cDepois disso, caiu o sil\u00eancio. Ignoro por quantos \u00e9ons permaneci sentado ali, estupefato. Sussurrando, murmurando, gritando, berrando naquele telefone. Vezes sem conta, no transcurso daqueles \u00e9ons, sussurrei, murmurei, chamei, gritei e berrei \u201cWarrren! Warren; Responde\u2026 est\u00e1s a\u00ed?<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que sobreveio o c\u00famulo do horror\u2026 a cois ainacredit\u00e1vel, inimagin\u00e1vel, quase impronunci\u00e1vel. J\u00e1 disse que foi como se passassem \u00e9ons depois de Warren emitir sua derradeira advert\u00eancia desesperada, e que apenas meus gritos quebravam agora o sil\u00eancio horr\u00edfico. Contudo depois de algum tempo houve um novo estalido no telefone e eu apurei os ouvidos. Mais uma vez chamei: \u201cWarren est\u00e1s a\u00ed?, e como resposta ouvi aquilo que lan\u00e7ou essa nuvem sobre minha alma. N\u00e3o tento, senhores, explicar aquilo\u2026 aquela voz\u2026 nem posso abalan\u00e7ar-me a descrev\u00ea-la em min\u00facia, uma vez que as palavras iniciais roubaram minha consci\u00eancia e criaram um vazio mental que se estende ao momento em que despertei no Hospital. Direi que a voz era profunda? Cava? Gelatinosa? Remota? Sobrenatural? Inumana? Desencarnada? Que direi? Ela marcou o fim de minha experi\u00eancia e \u00e9 o fim de minha hist\u00f3ria. Eu a escutei, e de nada mais tomei conhecimento\u2026 escutei-a enquanto permanecia sentado, petrificado naquele cemit\u00e9rio desconhecido do vale, em meio \u00e0s pedras carcomidas e aos t\u00famulos em ru\u00ednas, junto \u00e0 vegeta\u00e7\u00e3o p\u00fatrida e aos vapores miasm\u00e1ticos\u2026 escutei-a subindo das profundezas mais absconsas daquele maldito sepulcro aberto, enquanto assistia \u00e0 dan\u00e7a de sombras amorfas, necr\u00f3fagas, \u00e0 luz morti\u00e7a de uma lua exangue.<\/p>\n<p>E o que ela disse foi:<\/p>\n<p><strong>\u201cIDIOTA, WARREN EST\u00c1 MORTO!\u201d<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Repito-vos, cavalheiros, que vosso interrogat\u00f3rio \u00e9 in\u00fatil. Detende-me aqui para sempre, se quiserdes; prendei-me ou executai-me se tendes necessidade de uma v\u00edtima para propiciar a ilus\u00e3o a que chamais justi\u00e7a. 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