{"id":699,"date":"2018-07-09T12:45:23","date_gmt":"2018-07-09T12:45:23","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=699"},"modified":"2018-07-09T12:46:57","modified_gmt":"2018-07-09T12:46:57","slug":"a-coisa-no-umbral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/a-coisa-no-umbral","title":{"rendered":"A Coisa no Umbral"},"content":{"rendered":"<p align=\"left\">Morgan n\u00e3o \u00e9 um literato; na verdade, ele mal consegue falar ingl\u00eas com algum grau de coer\u00eancia. \u00c9 isso o que me faz estranhar as palavras que ele escreveu, embora outros tenham gargalhado.<\/p>\n<p align=\"left\">Ele estava sozinho na noite em que aconteceu. Subitamente uma vontade incontrol\u00e1vel de escrever lhe assomou, e tomando a pena na m\u00e3o ele escreveu o seguinte:<\/p>\n<p align=\"left\">Meu nome \u00e9 Howard Phillips. Vivo na Rua College, 66, em Providence, Rhode Island. A 24 de novembro de 1927 \u2013 pois n\u00e3o sei sequer em que ano estamos agora \u2013 adormeci e sonhei, e desde ent\u00e3o tem sido incapaz de despertar.<\/p>\n<p align=\"left\">Meu sonho teve in\u00edcio num p\u00e2ntano \u00famido e atulhado de juncos que jazia sob um c\u00e9u cinzento de outono, com um desfiladeiro encapelado de rochas cobertas de liquens elevando-se ao norte. Impelido por alguma motiva\u00e7\u00e3o obscura, ascendi \u00e0 uma fenda ou fissura nesse gigantesco precip\u00edcio, notando enquanto o fazia que as bocas negras de muitos buracos terr\u00edveis estendendo-se de ambas as partes at\u00e9 as profundezas do plat\u00f4 de pedra.<\/p>\n<p align=\"left\">Em v\u00e1rios pontos a passagem era coberta pelo chocalhar das partes superiores da fissura estreita; esses lugares sendo excessivamente escuros, e proibindo a percep\u00e7\u00e3o de tais buracos que possam ter existido ali. Em tal espa\u00e7o escuro senti consci\u00eancia de um singular acesso de p\u00e2nico, como se alguma sutil e incorp\u00f3rea emana\u00e7\u00e3o do abismo estivesse engolindo meu esp\u00edrito; mas a escurid\u00e3o era grande demais para que eu pudesse perceber a fonte de meu alarme.<\/p>\n<p align=\"left\">Concluindo, emergi sobre um plat\u00f4 de rocha musgosa e solo pobre, iluminado por um p\u00e1lido luar que havia substitu\u00eddo o orbe moribundo do dia. Lan\u00e7ando meus olhos ao redor, n\u00e3o vi objeto vivo; mas estava sens\u00edvel a uma como\u00e7\u00e3o muito peculiar que vinha muito abaixo de mim, entre os sussurrantes vest\u00edgios do p\u00e2ntano pestilento que eu havia acabado de abandonar. Depois de caminhar por uma certa dist\u00e2ncia, encontrei os trilhos enferrujados de uma ferrovia de rua, e as placas comidas de cupins ainda seguravam o trole em boas condi\u00e7\u00f5es. Acompanhando esta linha, logo dei com um carro amarelo de vest\u00edbulos de n\u00famero 1852 \u2013 de um tipo de dois vag\u00f5es comum entre 1900 e 1910. N\u00e3o estava tinindo, mas evidentemente preparado para partir; o trole estando no fio e o freio a\u00e9reo de quando em vez pulsando abaixo do ch\u00e3o. Entrei a bordo e olhei em v\u00e3o pelo interruptor de luz \u2013 notando, enquanto o fazia, a aus\u00eancia de cabineiro, que assim implicavam a aus\u00eancia do motorneiro. Ent\u00e3o sentei-me num dos bancos cruzados do ve\u00edculo. Ouvi um farfalhar na grama esparsa \u00e0 esquerda, e vi as formar escuras de dois homens caminhando ao luar. Tinham os quepes de uma companhia ferrovi\u00e1ria, e n\u00e3o pude duvidar de que fossem o condutor e o motorneiro. Ent\u00e3o um deles\u00a0<em>fungou\u00a0<\/em>com presteza singular, e elevou o rosto para uivar para a lua. O outro caiu de quatro para correr na dire\u00e7\u00e3o do carro. Levantei-me de um salto e corri como louco para fora daquele carro e atravessei intermin\u00e1veis l\u00e9guas de plat\u00f4 at\u00e9 que a exaust\u00e3o me for\u00e7ou a parar: fazendo isto n\u00e3o porque o condutor tivesse ca\u00eddo de quatro, mas porque o rosto do motorneiro era um simples cone branco com um tent\u00e1culo vermelho como sangue na ponta\u2026<\/p>\n<p align=\"left\">Eu estava ciente de que apenas sonhava, mas a pr\u00f3pria consci\u00eancia n\u00e3o me foi agrad\u00e1vel.<\/p>\n<p align=\"left\">Desde aquela noite pavorosa, tenho rezado apenas para despertar: isso n\u00e3o acontece!<\/p>\n<p align=\"left\">Ao inv\u00e9s disso eu me encontro com um\u00a0<em>habitante\u00a0<\/em>deste terr\u00edvel mundo dos sonhos! Aquela primeira noite deu lugar \u00e0 aurora, e caminhei sem rumo pelos p\u00e2ntanos solit\u00e1rios. Quando a noite veio, eu ainda caminhava, esperando acordar. Mas subitamente abri caminho entre os juncos e vi \u00e0 minha frente o antigo bonde: e, a um lado, uma coisa com rosto em forma de conte levantava sua cabe\u00e7a e uivava estranhamente para o luar que se derramava!<\/p>\n<p align=\"left\">Tem sido a mesma coisa todo dia. A noite sempre me leva \u00e0quele lugar de horror. Tenho tentado n\u00e3o me mover com a chegada da noite, mas devo andar em meu sonambulismo, pois sempre acordo com a coisa de terror uivando \u00e0 minha frente na p\u00e1lida luz do luar, e viro-me e fujo como um louco.<\/p>\n<p align=\"left\">Deus! Quando despertarei?<\/p>\n<p align=\"left\">Foi isso o que Morgan escreveu. Eu iria \u00e0 Rua College 66, em Providence, mas tenho medo do que posso encontrar l\u00e1.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Morgan n\u00e3o \u00e9 um literato; na verdade, ele mal consegue falar ingl\u00eas com algum grau de coer\u00eancia. \u00c9 isso o que me faz estranhar as palavras que ele escreveu, embora outros tenham gargalhado. 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