{"id":701,"date":"2018-07-09T12:46:08","date_gmt":"2018-07-09T12:46:08","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=701"},"modified":"2018-07-09T13:01:11","modified_gmt":"2018-07-09T13:01:11","slug":"o-chamado-de-cthulhu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-chamado-de-cthulhu","title":{"rendered":"O Chamado de Cthulhu"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">\u00c9 conceb\u00edvel que tais grandes poderes ou seres tenham sobrevivido\u2026 sobrevivido de um passado extremamente remoto, quando a consci\u00eancia era provavelmente manifestada em formas e contornos surgidos muito antes do advento da esp\u00e9cie humana\u2026 formas das quais somente a poesia e a lenda preservaram uma t\u00eanue mem\u00f3ria e chamaram-nas de deuses, monstros, criaturas m\u00edticas das mais variadas esp\u00e9cies\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>ALGERNON BLACKWOOD<\/em><\/p>\n<p><strong>I. O HORROR NA ARGILA<\/strong><\/p>\n<p>A coisa mais misericordiosa do mundo, creio eu, \u00e9 a incapacidade da mente humana em correlacionar todo o seu conte\u00fado. Vivemos numa pl\u00e1cida ilha de ignor\u00e2ncia em meio a negros mares de infinito, e n\u00e3o est\u00e1 escrito pela Provid\u00eancia que devemos viajar longe. As ci\u00eancias, cada uma progredindo em sua pr\u00f3pria dire\u00e7\u00e3o, t\u00eam at\u00e9 agora nos causado pouco dano; mas um dia a jun\u00e7\u00e3o do conhecimento dissociado abrir\u00e1 vis\u00f5es t\u00e3o terr\u00edveis da realidade e de nossa apavorante situa\u00e7\u00e3o nela, que provavelmente ficaremos loucos por causa dessa revela\u00e7\u00e3o ou fugiremos dessa luz mortal rumo \u00e0 paz e \u00e0 seguran\u00e7a de uma nova Idade das Trevas.<\/p>\n<p>Os teosofistas fizeram conjecturas sobre a apavorante imensid\u00e3o do ciclo c\u00f3smico, do qual nosso mundo e a ra\u00e7a humana constituem meros incidentes transit\u00f3rios. Eles aludiram a estranhas sobreviv\u00eancias em termos que congelariam o nosso sangue se n\u00e3o fossem mascarados por ameno otimismo. Mas! n\u00e3o foi deles que veio o vislumbre das eras proibidas que me arrepiam quando nelas penso e me enlouquecem quando com elas sonho; esse vislumbre, como todos os pavorosos vislumbres da verdade, cintilou quando juntei duas pe\u00e7as separadas no caso, uma velha not\u00edcia de jornal e as anota\u00e7\u00f5es de um professor j\u00e1 falecido. Espero que ningu\u00e9m mais venha a fazer essa jun\u00e7\u00e3o; com certeza, se eu viver, nunca fornecerei voluntariamente elo algum de t\u00e3o nefasta cadeia. Acho que o professor tamb\u00e9m pretendia guardar segredo sobre a parte que ele conhecia, e que teria destru\u00eddo suas anota\u00e7\u00f5es se a morte s\u00fabita n\u00e3o o tivesse levado antes.<\/p>\n<p>Meu conhecimento da coisa come\u00e7ou no inverno de 1926 a 1927 com a morte do meu tio-av\u00f4, George Gamell Angell, professor em\u00e9rito de l\u00ednguas sem\u00edticas da Universidade Brown, em Providence, Rhode Island. O professor Angell gozava de grande renome como autoridade em inscri\u00e7\u00f5es antigas e a ele recorriam com freq\u00fc\u00eancia diretores de importantes museus, de modo que seu falecimento, aos noventa e dois anos de idade, deve ser lembrado por muitos. A n\u00edvel local, esse interesse foi intensificado pela obscuridade da causa mortes. O professor retornava do navio de Newport quando caiu de repente, segundo testemunhas, ap\u00f3s ter sido empurrado por um negro com jeito de marinheiro, sa\u00eddo de um dos suspeitos e escuros p\u00e1tios na encosta \u00edngreme que formava um atalho entre o cais e a casa do finado na rua Williams. Os m\u00e9dicos foram incapazes de achar qualquer dist\u00farbio vis\u00edvel, mas conclu\u00edram, ap\u00f3s perplexa discuss\u00e3o, que alguma obscura les\u00e3o card\u00edaca, agravada pela subida brusca de t\u00e3o \u00edngreme colina por t\u00e3o idoso homem, fora respons\u00e1vel pelo \u00f3bito. Naquela \u00e9poca n\u00e3o vi motivo algum para discordar desse diagn\u00f3stico, mas ultimamente sinto-me inclinado a questionar e mais do que questionar.<\/p>\n<p>Como herdeiro e executor do meu tio-av\u00f4, que morrera vi\u00favo e sem filhos, esperava-se que eu examinasse seus pap\u00e9is cuidadosamente, e com esse prop\u00f3sito levei todos os seus arquivos e caixas para minha resid\u00eancia em Boston. Grande parte do material que organizei ser\u00e1 publicado mais tarde pela Sociedade Arqueol\u00f3gica Americana, mas havia uma caixa que eu achei extremamente enigm\u00e1tica e que me senti um tanto avesso a mostr\u00e1-la a outros olhos. Havia sido fechada com cadeado e n\u00e3o encontrei a chave at\u00e9 que me ocorreu examinar o chaveiro pessoal que o professor levava sempre no bolso. Consegui, de fato, abri-la, mas ent\u00e3o pareceu-me que foi s\u00f3 para dar de cara com outro segredo ainda maior e mais imperme\u00e1vel. Pois qual poderia ser o significado do estranho baixo-relevo de argila e das esparsas anota\u00e7\u00f5es, coment\u00e1rios e recortes que achei? Teria o meu tio, nos \u00faltimos anos de vida, se tornado cr\u00e9dulo das mais superficiais imposturas? Resolvi que procuraria o exc\u00eantrico escultor respons\u00e1vel por essa aparente perturba\u00e7\u00e3o da paz de esp\u00edrito de um velho.<\/p>\n<p>O baixo-relevo era um tosco ret\u00e2ngulo com menos de dois dedos de espessura e uns doze a quinze cent\u00edmetros de comprimento, obviamente de origem moderna. O seu desenho, contudo, nada tinha de moderno na atmosfera e no que sugeria; pois, embora os caprichos do cubismo e do futurismo sejam muitos e desvairados, n\u00e3o reproduzem com freq\u00fc\u00eancia aquela regularidade cr\u00edptica que se insinua na escrita pr\u00e9-hist\u00f3rica. E a maior parte daqueles desenhos com certeza parecia algum tipo de escrita, ainda que a minha mem\u00f3ria, bastante familiarizada com os pap\u00e9is e cole\u00e7\u00f5es do meu tio, n\u00e3o conseguisse identific\u00e1-la ou sequer suspeitar de suas afilia\u00e7\u00f5es mais remotas.<\/p>\n<p>Acima desses hier\u00f3glifos aparentes havia uma figura de evidente inten\u00e7\u00e3o pict\u00f3rica, embora sua execu\u00e7\u00e3o impressionista impedisse uma id\u00e9ia muito clara de sua natureza. Parecia um tipo de monstro, ou de s\u00edmbolo representando um monstro, cuja forma s\u00f3 uma mente doentia poderia conceber. Se eu disser que minha algo extravagante imagina\u00e7\u00e3o lhe atribu\u00eda ao mesmo tempo os tra\u00e7os de um polvo, de um drag\u00e3o e de uma caricatura humana, n\u00e3o estarei sendo infiel ao esp\u00edrito da coisa. Uma cabe\u00e7a polpuda e tentaculada encimava um corpo grotesco e escamoso dotado de asas rudimentares; mas era o contorno geral do todo que chocava. Atr\u00e1s da figura havia uma vaga sugest\u00e3o de cen\u00e1rio de arquitetura cicl\u00f3pica.<\/p>\n<p>Essa singularidade era acompanhada, al\u00e9m de uma pilha de recortes de jornal, por escritos com a caligrafia mais recente do professor Angell, sem qualquer pretens\u00e3o a estilo liter\u00e1rio. O que parecia ser o documento principal tinha por t\u00edtulo \u201cCULTO DE CTHULHU\u201d em letras de f\u00f4rma, para evitar a leitura incorreta de palavra t\u00e3o inaudita. Esse manuscrito estava dividido em duas se\u00e7\u00f5es, a primeira das quais intitulada \u201c1925 -Sonho e Interpreta\u00e7\u00e3o do Sonho de H. A. Wilcox, Rua Thomas, 7, Providence, R. L\u201d, e a segunda, \u201cNarrativa do Inspetor John R. Lagrasse, Rua Bienville, 121, Nova Orleans, La., na reuni\u00e3o de 1908 da S. A. A. \u2013 Notas do Mesmo, &amp; Relato do Prof. Webb\u201d. Todos os demais manuscritos eram notas breves, sendo algumas delas relatos de sonhos esquisitos de diferentes pessoas, cita\u00e7\u00f5es de livros e revistas teos\u00f3ficas (principalmente de A Atl\u00e2ntlda e a Perdida Lem\u00faria de W. Scott-Elliott) ou ainda coment\u00e1rios sobre antiqu\u00edssimos e ainda remanescentes sociedades secretas e cultos proibidos,\u00a0 com refer\u00eancias a trechos de comp\u00eandios de mitologia e antropologia tais como O Ramo de Ouro, de James G. Frazer, e Culto \u00e0s Bruxas na Europa Ocidental, de Miss Murray. Os recortes referiam-se basicamente a doen\u00e7as mentais raras e surtos de alucina\u00e7\u00f5es coletivas na primavera de 1925.<\/p>\n<p>A primeira metade do manuscrito principal narrava uma est\u00f3ria muito peculiar. Aparentemente no dia 1 \u00b0 de mar\u00e7o de 1925, um mo\u00e7o magro, moreno, de aspecto neur\u00f3tico e excitado, visitou o professor Angell trazendo consigo o singular baixo-relevo de argila, que estava ent\u00e3o recente e \u00famido. Seu cart\u00e3o trazia o nome de Henry Anthony Wilcox e meu tio reconhecera-o como o filho mais novo de uma excelente fam\u00edlia que ele conhecia superficialmente, e que estivera estudando escultura na Escola de Desenho de Rhode Island e vivendo sozinho no edif\u00edcio Fleur-de-Lys perto daquela institui\u00e7\u00e3o. Wilcox era um jovem precoce de reconhecido talento por\u00e9m grande excentricidade, e desde a inf\u00e2ncia despertara aten\u00e7\u00e3o devido \u00e0s est\u00f3rias esdr\u00faxulas e aos sonhos bizarros que tinha o h\u00e1bito de contar. Ele chamava a si mesmo de \u201cpsiquicamente hipersens\u00edvel\u201d, mas a gente convencional da antiga cidade comercial considerava-o apenas \u201cesquisit\u00e3o\u201d. Sem nunca se misturar muito com os seus, gradualmente afastara-se do conv\u00edvio social e s\u00f3 era conhecido de um pequeno grupo de estetas de outras cidades. Mesmo o Clube de Arte de Providence, ansioso por preservar seu conservadorismo, desistira de t\u00ea-lo entre seus membros.<\/p>\n<p>Na ocasi\u00e3o da visita, continuava o manuscrito do professor, o escultor pediu abruptamente a assist\u00eancia do conhecimento arqueol\u00f3gico de seu anfitri\u00e3o para identificar os hier\u00f3glifos do baixo-relevo. Falava de um jeito sonhador e afetado que denotava pose e aliena\u00e7\u00e3o; e foi com certa rispidez que meu tio respondeu-lhe, pois a not\u00f3ria frescura do tablete indicava rela\u00e7\u00e3o com tudo menos com arqueologia. A r\u00e9plica do jovem Wilcox, que impressionou meu tio o bastante para que este a recordasse e a registrasse textualmente, foi feita num tom fantasticamente po\u00e9tico que deve ter caracterizado toda a sua conversa e que desde ent\u00e3o verifiquei ser bem pr\u00f3prio dele; ele disse: \u201cRealmente \u00e9 novo, pois o fiz na noite passada durante um sonho que tive com cidades estranhas; e sonhos s\u00e3o mais antigos do que a cismarenta Tiro, a contemplativa Esfinge ou a Babil\u00f4nia dos jardins suspensos.\u201d<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que ele come\u00e7ou a narrativa desconexa que subitamente despertou uma mem\u00f3ria adormecida e conquistou o interesse febril do meu tio. Um leve tremor de terra ocorrera na noite anterior, o mais intenso registrado na Nova Inglaterra em anos, e afetara vivamente a imagina\u00e7\u00e3o de Wilcox. Este, ao se recolher, tivera um sonho sem precedentes, com grandes cidades cicl\u00f3picas de blocos tit\u00e2nicos e mon\u00f3litos que alcan\u00e7avam o c\u00e9u, todos gotejando lodo verde e impregnados de horror latente. Hier\u00f3glifos cobriam as paredes e colunas, e de algum ponto indeterminado, abaixo, vinha uma voz que n\u00e3o era uma voz, e sim uma sensa\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica que s\u00f3 a fantasia poderia transmudar em som, mas que ele tentou traduzir num amontoado quase impronunci\u00e1vel de letras: \u201cCthulhu fhtagn \u201c.<\/p>\n<p>Essa mix\u00f3rdia verbal foi a chave para a lembran\u00e7a que excitou e perturbou o professor Angell. Ele interrogou o escultor com min\u00facia cient\u00edfica e estudou com intensidade quase fren\u00e9tica o baixo-relevo no qual o rapaz se encontrara trabalhando, enregelado e apenas com suas roupas de dormir, quando acordou, at\u00f4nito. Meu tio culpou sua velhice, Wilcox disse depois, por sua demora em reconhecer tanto os hier\u00f3glifos quanto o desenho pict\u00f3rico. Muitas das perguntas dele pareceram altamente despropositadas ao visitante, especialmente as que tentavam relacionar a figura com cultos ou sociedades estranhas; e Wilcox n\u00e3o p\u00f4de compreender as repetidas promessas de sil\u00eancio que recebeu em troca de sua confiss\u00e3o de ser membro de alguma difundida irmandade m\u00edstica ou pag\u00e3. Quando o professor Angell se convenceu de que o escultor realmente desconhecia qualquer culto ou sistema de ci\u00eancia oculta, assediou seu visitante com pedidos de que viesse relatar-lhe futuramente os sonhos que voltasse a ter. Isso deu frutos regulares, pois ap\u00f3s a primeira entrevista o manuscrito registra visitas di\u00e1rias do rapaz, durante as quais ele narrava fragmentos surpreendentes de sua imag\u00edstica noturna, centrada sempre num assustador panorama cicl\u00f3pico de megalitos escuros e gotej antes, com uma voz ou intelig\u00eancia subterr\u00e2nea clamando monotonamente em enigm\u00e1ticos impactos sens\u00f3rios. Os dois sons mais freq\u00fcentemente repetidos eram aqueles traduzidos pelas letras \u201d Cthulhu \u201d e \u201cR\u2019lyeh \u201c.<\/p>\n<p>No dia 23 de mar\u00e7o, continuava o manuscrito, Wilcox n\u00e3o apareceu; em sua resid\u00eancia informaram que ele havia sido acometido por uma esp\u00e9cie desconhecida de febre e levado para a casa de sua fam\u00edlia na rua Waterman. Havia gritado \u00e0 noite, acordando v\u00e1rios outros artistas do pr\u00e9dio, e manifestara desde ent\u00e3o apenas alterna\u00e7\u00f5es de inconsci\u00eancia e del\u00edrio. Meu tio telefonou imediatamente para a fam\u00edlia, e a partir da\u00ed acompanhou o caso de perto, indo muitas vezes ao consult\u00f3rio do Dr. Tobey, o m\u00e9dico encarregado, na Rua Thayer. A mente febril do rapaz aparentemente ocupava-se de coisas estranh\u00edssimas, e o doutor de vez em quando estremecia ao falar delas. Essas coisas n\u00e3o somente repetiam o que ele sonhara antes, mas tamb\u00e9m inclu\u00edam uma coisa gigantesca \u201ccom milhas de altura\u201d que caminhava ou se movia. Em nenhum momento descrevera o objeto, mas ocasionais palavras fren\u00e9ticas, conforme repetidas pelo Dr. Tobey, convenceram o professor de que devia tratar-se da inomin\u00e1vel monstruosidade que Wilcox procurara representar em sua escultura do sono. Refer\u00eancias a esse objeto, acrescentou o doutor, eram invariavelmente prel\u00fadio \u00e0 queda do rapaz na letargia. Sua temperatura, curiosamente, n\u00e3o estava muito acima da normal; mas todo o seu estado parecia indicar antes febre do que perturba\u00e7\u00e3o mental.<\/p>\n<p>No dia 2 de abril, por volta das 3 da tarde, todos os sinais da enfermidade de Wilcox desapareceram subitamente. Sentou-se empertigado na cama, at\u00f4nito por encontrar-se em casa e ignorando completamente o que acontecera em sonho ou realidade desde a noite de 22 de mar\u00e7o. Tendo recebido alta do m\u00e9dico, voltou para o seu alojamento tr\u00eas dias depois; por\u00e9m n\u00e3o foi mais de nenhuma serventia para o professor Angell. Todos os vest\u00edgios de sonhos bizarros haviam desaparecido com a convalescen\u00e7a, e meu tio n\u00e3o registrou mais seus sonhos ap\u00f3s uma semana de relatos in\u00fateis e irrelevantes de vis\u00f5es absolutamente normais.<\/p>\n<p>Neste ponto terminava a primeira parte do manuscrito, mas refer\u00eancias a algumas das anota\u00e7\u00f5es dispersas deram-me muito o que pensar, tanto, na verdade, que somente o enraizado ceticismo que ent\u00e3o constitu\u00eda minha filosofia pode explicar o fato de que eu continuava duvidando do artista. As anota\u00e7\u00f5es em quest\u00e3o eram aquelas que descreviam os sonhos de v\u00e1rias pessoas durante o mesmo per\u00edodo em que o jovem Wilcox tivera as suas estranhas vis\u00f5es. Meu tio, ao que parece, havia rapidamente organizado um esquema prodigiosamente amplo de investiga\u00e7\u00e3o entre quase todos os amigos que podia interrogar sem impertin\u00eancia, pedindo-lhes relatos de seus sonhos de todas as noites e datas de quaisquer vis\u00f5es incomuns a partir de certo dia. A receptividade ao seu pedido parece ter variado; mas ele deve ter recebido, no m\u00ednimo, mais respostas do que um homem normal poderia dar conta sem uma secret\u00e1ria. Essa correspond\u00eancia original n\u00e3o foi preservada, por\u00e9m suas anota\u00e7\u00f5es constitu\u00edam um resumo abrangente e realmente significativo dela. As pessoas comuns da sociedade e do mundo dos neg\u00f3cios o tradicional \u201csal da terra\u201d da Nova Inglaterra \u2013 deram um resultado quase completamente negativo, embora casos esparsos de impress\u00f5es noturnas desagrad\u00e1veis mas indefinidas apare\u00e7am aqui e ali, sempre entre 23 de mar\u00e7o e 2 de abril \u2013 o per\u00edodo de del\u00edrio do jovem Wilcox. Os homens de ci\u00eancia n\u00e3o foram afetados em grau muito maior, apesar de quatro casos de descri\u00e7\u00e3o vaga sugerirem vislumbres fugazes de paisagens estramb\u00f3ticas, e de um caso mencionar certo pavor de algo anormal.<\/p>\n<p>Foi dos artistas e poetas que as respostas pertinentes vieram, e tenho certeza de que o p\u00e2nico teria se instaurado se eles tivessem podido comparar as anota\u00e7\u00f5es. Como eu n\u00e3o tinha as cartas originais, meio que suspeitei que o compilador houvesse feito perguntas tendenciosas ou organizado a correspond\u00eancia em concord\u00e2ncia com o que ele havia latentemente resolvido ver. Por essa raz\u00e3o continuei a achar que Wilcox, tendo tomado conhecimento das informa\u00e7\u00f5es que o meu tio possu\u00eda, estivera pregando uma pe\u00e7a no veterano cientista. Essas respostas de estetas contavam uma hist\u00f3ria perturbadora. Entre 28 de fevereiro e 2 de abril uma grande propor\u00e7\u00e3o deles havia sonhado com coisas bizarras, sonhos cuja intensidade era incomensuravelmente maior durante o per\u00edodo do del\u00edrio do escultor. Cerca de um quarto das respostas falava de cenas e de sons que nada diferiam dos que Wilcox descrevera, e alguns desses sonhadores confessaram um medo agudo da coisa gigantesca e inomin\u00e1vel vis\u00edvel no final. Um dos casos, que a anota\u00e7\u00e3o descreve com particular \u00eanfase, era ser\u00edssimo. O indiv\u00edduo em quest\u00e3o, um arquiteto de grande renome, inclinado \u00e0 teosofia e ao ocultismo, foi acometido de loucura violenta na data da crise do jovem Wilcox, e expirou v\u00e1rios meses mais tarde ap\u00f3s gritar incessantemente que o salvassem das garras de uma besta que escapara do inferno. Se o meu tio tivesse se referido a esses casos por nome e n\u00e3o apenas por n\u00famero, eu teria tentado obter alguma corrobora\u00e7\u00e3o e feito alguma investiga\u00e7\u00e3o pessoal; do jeito que estava, consegui localizar somente uns poucos missivistas. Todos estes, no entanto, confirmaram as anota\u00e7\u00f5es plenamente. Muitas vezes tenho me perguntado se todas as pessoas interrogadas pelo professor se sentiram t\u00e3o perplexas quanto aquele grupo. Sorte deles nunca terem recebido explica\u00e7\u00e3o nenhuma.<\/p>\n<p>Os recortes de jornal, como j\u00e1 disse, mencionavam casos de p\u00e2nico, manias e excentricidades ocorridos durante o per\u00edodo em quest\u00e3o. O professor Angell deve ter empregado um escrit\u00f3rio especializado na coleta de recortes, pois o n\u00famero de artigos era tremendo, e as fontes espalhavam-se por todo o planeta. Um recorte falava de um suic\u00eddio noturno em Londres, onde um son\u00e2mbulo pulara de uma janela ap\u00f3s um grito lancinante. Outro consistia numa carta desconexa ao editor de um jornal na Am\u00e9rica do Sul, em que um fan\u00e1tico, baseado em vis\u00f5es que tivera, predizia um futuro calamitoso. Um despacho da Calif\u00f3rnia descrevia uma col\u00f4nia de teosofistas envergando em massa t\u00fanicas brancas \u00e0 espera de certo \u201cglorioso advento\u201d que nunca chegava, ao passo que not\u00edcias da \u00edndia falavam reservadamente sobre graves tumultos nativos por volta do fim de mar\u00e7o. Orgias de vodu multiplicaram-se no Haiti e postos avan\u00e7ados na \u00c1frica reportaram murm\u00farios agourentos. Oficiais norte-americanos nas Filipinas encontraram hostilidade por parte de certas tribos nessa \u00e9poca e policiais de Nova Iorque foram atacados por multid\u00f5es de levantinos hist\u00e9ricos na noite de 22 para 23 de mar\u00e7o. O oeste da Irlanda tamb\u00e9m foi infestado de rumores inacredit\u00e1veis e lendas, e um pintor fant\u00e1stico chamado Ardois-Bonnot exibiu um delirante quadro intitulado Pa\u00edsagem On\u00edrica no sal\u00e3o de primavera de Paris de 1926.E t\u00e3o numerosos s\u00e3o os tumultos registrados em hosp\u00edcios que s\u00f3 por milagre a fraternidade m\u00e9dica deixou de notar estranhos paralelismos e tirar conclus\u00f5es mistificadas. Em suma, um surpreendente punhado de recortes, e \u00e9 com assombro que me lembro hoje do empedernido racionalismo com que os pus de lado. Mas eu estava ent\u00e3o convencido de que o jovem Wilcox tivera conhecimento dos assuntos antigos mencionados pelo professor.<\/p>\n<p><strong>II. O RELATO DO INSPETOR LEGRASSE<\/strong><\/p>\n<p>Os assuntos antigos que haviam feito o sonho e o baixo-relevo do escultor t\u00e3o significativos para o meu tio constitu\u00edam o tema da segunda metade do seu longo manuscrito. Parece que anteriormente o professor Angell tinha visto uma vez os contornos infernais da inominada monstruosidade, confundira-se diante dos hier\u00f3glifos desconhecidos e escutara as agourentas s\u00edlabas que s\u00f3 podem ser grafadas como \u201cCthulhu\u201d; e tudo isso interligado de forma t\u00e3o espantosa e horr\u00edvel, que n\u00e3o \u00e9 de admirar que tenha perseguido o jovem Wilcox com perguntas e exig\u00eancias de informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Essa pr\u00e9via experi\u00eancia ocorrera em 1908, dezessete anos antes, quando a Sociedade Arqueol\u00f3gica Americana realizou seu encontro anual em Saint Louis. O professor Angell, como convinha a algu\u00e9m de sua autoridade e realiza\u00e7\u00f5es, tivera um papel proeminente em todas as delibera\u00e7\u00f5es, e foi um dos primeiros a serem abordados por diversos leigos que aproveitaram a oportunidade para fazer perguntas e pedir opini\u00e3o de peritos sobre certos problemas.<\/p>\n<p>O principal desses leigos, que em breve se tornaria o foco de interesse de toda a reuni\u00e3o, foi um homem de meia-idade e apar\u00eancia convencional que tinha viajado desde Nova Orleans para obter certa informa\u00e7\u00e3o especial imposs\u00edvel de obter de qualquer fonte local. Seu nome era John Raymond Legrasse e sua profiss\u00e3o era a de inspetor de pol\u00edcia. Trazia com ele a raz\u00e3o de sua visita, uma grotesca, repulsiva e aparentemente antiqu\u00edssima estatueta de pedra cuja origem n\u00e3o conseguia determinar.<\/p>\n<p>N\u00e3o se deve imaginar que o inspetor Legrasse tivesse o menor interesse em arqueologia; ao contr\u00e1rio, seu desejo de esclarecimento era movido por considera\u00e7\u00f5es puramente profissionais. A estatueta, \u00eddolo, fetiche ou o que quer que fosse, fora capturada alguns meses antes nas florestas pantanosas do sul de Nova Orleans durante uma batida policial num suposto culto de vodu; e t\u00e3o singulares e medonhos eram os ritos ligados \u00e0 pe\u00e7a, que a pol\u00edcia de imediato percebeu que dera de cara com um culto sinistro totalmente desconhecido para eles e infinitamente mais diab\u00f3lico que o mais negro dos c\u00edrculos africanos de vodu. Sobre a sua origem, al\u00e9m das est\u00f3rias esdr\u00faxulas e inacredit\u00e1veis arrancadas aos membros capturados, absolutamente nada p\u00f4de ser descoberto. Da\u00ed a ansiedade da pol\u00edcia por qualquer conhecimento de coisas antigas que pudesse ajud\u00e1-la a identificar o s\u00edmbolo aterrador e, atrav\u00e9s dele, descobrir a fonte daquele culto.<\/p>\n<p>O inspetor Legrasse n\u00e3o estava de forma alguma preparado para a sensa\u00e7\u00e3o que a sua interven\u00e7\u00e3o causou. Um simples olhar ao objeto fora suficiente para lan\u00e7ar os homens de ci\u00eancia ali reunidos num estado de tensa excita\u00e7\u00e3o, e eles n\u00e3o perderam tempo em se amontoar ao redor dele para encarar de perto a diminuta imagem cuja profunda estranheza e apar\u00eancia de antig\u00fcidade genu\u00edna e abismal indicavam panoramas arcaicos ainda por revelar. Nenhuma escola conhecida de escultura animara aquele terr\u00edvel objeto, e no entanto s\u00e9culos, at\u00e9 mil\u00eanios pareciam gravados em sua ba\u00e7a e esverdeada superf\u00edcie de pedra n\u00e3o identificada.<\/p>\n<p>A imagem, que foi finalmente passada devagar de m\u00e3o em m\u00e3o para exame mais atento e cuidadoso, tinha entre quinze e dezoito cent\u00edmetros de altura e era de elaborado artesanato. Representava um monstro vagamente antrop\u00f3ide, mas com uma cabe\u00e7a semelhante \u00e0 de um polvo e cujo rosto era uma massa de tent\u00e1culos, de corpo escamoso com aspecto el\u00e1stico, prodigiosas garras nas patas dianteiras e traseiras, e asas longas e estreitas atr\u00e1s. Essa coisa, que parecia imbu\u00edda de assustadora e inatural malignidade, tinha uma corpul\u00eancia algo intumescida e estava agachada amea\u00e7adoramente sobre um bloco retangular ou pedestal coberto de caracteres indecifr\u00e1veis. As pontas das asas tocavam a beirada traseira do bloco, o assento ocupava o centro e as compridas e recurvadas garras das patas traseiras dobradas sobre si mesmas, agarravam a beirada dianteira e estendiam-se por um quarto da altura do pedestal. A cabe\u00e7a cefal\u00f3pode estava inclinada para frente, de modo que as extremidades dos tent\u00e1culos faciais varriam as costas das maci\u00e7as patas dianteiras que agarravam os joelhos dos membros traseiros. 0 aspecto geral era anormalmente vivido, e ainda mais sutilmente assustador pelo fato de sua origem ser totalmente desconhecida. Embora sua vasta, espantosa e incalcul\u00e1vel antig\u00fcidade fosse ineg\u00e1vel, a estatueta n\u00e3o apresentava liga\u00e7\u00e3o com nenhum tipo de arte pertencente \u00e0 mocidade da civiliza\u00e7\u00e3o, ou, na verdade, a qualquer \u00e9poca.<\/p>\n<p>O seu pr\u00f3prio material era um mist\u00e9rio, pois a pedra lisa e negro-esverdeada com pintas douradas ou iridescentes e estrias n\u00e3o se assemelhava a nada familiar \u00e0 geologia ou \u00e0 mineralogia. Os caracteres ao longo da base eram igualmente intrigantes, e nenhum dos cientistas ali presentes, apesar de representarem metade do conhecimento mundial nesse campo, teve a menor no\u00e7\u00e3o sequer da mais remota filia\u00e7\u00e3o ling\u00fc\u00edstica deles. Tal como o tema e o material, esses caracteres pertenciam a alguma coisa horrivelmente distante e alheia \u00e0 humanidade como a conhecemos, algo que sugeria de forma assustadora antigos e profanos ciclos de vida dos quais nosso mundo e nossas concep\u00e7\u00f5es n\u00e3o fazem parte.<\/p>\n<p>No entanto, enquanto os v\u00e1rios cientistas balan\u00e7avam a cabe\u00e7a e admitiam-se derrotados perante o enigma trazido pelo inspetor, havia na reuni\u00e3o um homem a quem pareceram estranhamente familiares aquelas monstruosas forma e escrita, e que ent\u00e3o falou com certa hesita\u00e7\u00e3o do pouco que sabia a respeito. Ele era o falecido William Channing Webb, professor de antropologia na Universidade de Princeton e explorador de consider\u00e1vel renome.<\/p>\n<p>O professor Webb participara, quarenta e oito anos antes, de uma expedi\u00e7\u00e3o \u00e0 Groenl\u00e2ndia e \u00e0 Isl\u00e2ndia em busca de inscri\u00e7\u00f5es r\u00fanicas, que n\u00e3o conseguiu achar; e ao percorrer a costa oeste da Groenl\u00e2ndia havia encontrado uma singular tribo de esquim\u00f3s degenerados cuja religi\u00e3o, uma curiosa forma de culto ao diabo, provocou-lhe calafrios com sua repel\u00eancia e deliberada sede de sangue. Tratava-se de um credo do qual os outros esquim\u00f3s pouco sabiam, e que s\u00f3 mencionavam com estremecimentos de horror, dizendo que vinha de eras terrivelmente antigas, anteriores \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do mundo. Al\u00e9m de ritos inenarr\u00e1veis e sacrif\u00edcios humanos, havia alguns esquisitos rituais heredit\u00e1rios dirigidos a um supremo diabo anci\u00e3o ou tornasuk, dos quais o professor Webb fizera uma cuidadosa transcri\u00e7\u00e3o fon\u00e9tica com a ajuda de um idoso angekok ou bruxo-sacerdote, grafando os sons em caracteres romanos o melhor que p\u00f4de. Por\u00e9m, o que mais interessava era o fetiche que esse culto idolatrava e em torno do qual dan\u00e7avam quando a aurora boreal lambia os picos gelados. Segundo declarou o professor, tratava-se de um tosco baixo relevo de pedra que compreendia uma figura medonha e algumas inscri\u00e7\u00f5es cr\u00edpticas; e, at\u00e9 onde podia afirmar, coincidia, nos aspectos essenciais, com a coisa bestial que se tornara centro das aten\u00e7\u00f5es na reuni\u00e3o.<\/p>\n<p>Essas informa\u00e7\u00f5es, recebidas com assombro e emo\u00e7\u00e3o pelos presentes \u00e0 reuni\u00e3o, foram ainda mais emocionantes para o inspetor Legrasse, que imediatamente come\u00e7ou a assediar o seu informante com perguntas. Tendo anotado e transcrito um ritual oral entre os sect\u00e1rios brejeiros que seus homens haviam prendido, pediu ao professor que procurasse lembrar o melhor que pudesse das s\u00edlabas anotadas entre os esquim\u00f3s diabolistas. Seguiu-se ent\u00e3o uma exaustiva compara\u00e7\u00e3o de detalhes e um momento de boquiaberto sil\u00eancio, quando tanto o detetive quanto o cientista concordaram na identidade virtual da frase comum aos dois ritos infernais t\u00e3o distantes um do outro como se pertencessem a mundos diferentes. O que, essencialmente, tanto os bruxos esquim\u00f3s quanto os sacerdotes brejeiros da Louisiana entoavam aos seus \u00eddolos era algo semelhante ao que vai abaixo, sendo as divis\u00f5es entre palavras supostas por analogia com as quebras tradicionais na frase quando cantada em voz alta:<\/p>\n<p><em>\u201cPh\u2019nglui mglw\u2019nafh Cthulhu R\u2019lyeh wgah\u2019naglfhtagn.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Nesse ponto Legrasse levava vantagem sobre o professor Webb, pois v\u00e1rios dos seus prisioneiros mesti\u00e7os haviam-lhe repetido o que celebrantes mais velhos haviam-lhes dito sobre o significado dessas palavras. Esse texto dizia mais ou menos o seguinte:<\/p>\n<p><em>\u201cNa sua casa em R\u2019lyeh, Cthulhu morto espera sonhando.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, em resposta \u00e0s urgentes solicita\u00e7\u00f5es de todos, o inspetor Legrasse narrou, t\u00e3o detalhadamente quanto poss\u00edvel, sua experi\u00eancia com os id\u00f3latras dos p\u00e2ntanos, contando uma est\u00f3ria \u00e0 qual pude ver que o meu tio atribu\u00eda enorme import\u00e2ncia. Fazia lembrar os sonhos mais desvairados dos mit\u00f4manos e teosofistas, al\u00e9m de revelar um grau surpreendente de imagina\u00e7\u00e3o c\u00f3smica, que nunca se esperaria entre aqueles marginais e p\u00e1rias da sociedade.<\/p>\n<p>No dia 1 \u00b0 de novembro de 1907 chegara \u00e0 pol\u00edcia de Nova Orleans um chamado fren\u00e9tico da regi\u00e3o de p\u00e2ntanos e lagoas ao sul. Os grileiros de l\u00e1, na maioria descendentes primitivos, mas de boa \u00edndole, dos homens de Lafitte, estavam tomados do mais absoluto p\u00e2nico por causa de uma coisa desconhecida que viera sobre eles \u00e0 noite. Tratava-se de vodu, aparentemente, mas de uma esp\u00e9cie de vodu muito mais terr\u00edvel do que qualquer outra que j\u00e1 tinham visto; e algumas de suas mulheres e crian\u00e7as haviam desaparecido desde que o mal\u00e9volo tant\u00e3 come\u00e7ara a bater incessantemente bem para dentro das sombrias florestas, onde nenhum morador da regi\u00e3o se aventurava. Ouviam-se gritos insanos e berros apavorantes, c\u00e2nticos que gelavam o sangue e chamas demon\u00edacas que bruxuleavam; e ningu\u00e9m mais suportava aquilo, acrescentou o assustado mensageiro.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o um grupo de vinte policiais, em duas carruagens e um autom\u00f3vel, havia partido no Fim da tarde com o tr\u00eamulo grileiro como guia. No fim da estrada transit\u00e1vel desceram e chapinharam por milhas em sil\u00eancio, em meio aos terr\u00edveis bosques de ciprestes onde nunca raiava o dia. Medonhas ra\u00edzes e malignas barbas-de-velho dificultavam a caminhada, e de vez em quando uma pilha de pedras \u00famidas ou fragmentos de uma parede apodrecida intensificavam, com sua sugest\u00e3o de povoa\u00e7\u00e3o s\u00f3rdida, uma ang\u00fastia que cada \u00e1rvore mal formada e a profus\u00e3o de fungos contribu\u00eda para criar. Por fim, a aldeia dos grileiros, um ajuntamento miser\u00e1vel de cabanas, ficou \u00e0 vista, e moradores hist\u00e9ricos acorreram para refugiar-se em volta do grupo de lanternas balou\u00e7antes. O som abafado dos tant\u00e3s j\u00e1 se ouvia ao longe, bem longe; e um grito agudo como um guincho vinha em intervalos desiguais quando o vento mudava de dire\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m um clar\u00e3o avermelhado parecia filtrar-se atrav\u00e9s da p\u00e1lida vegeta\u00e7\u00e3o rasteira, oriundo de avenidas intermin\u00e1veis de noite selvagem. Todos os assustados grileiros recusaram-se terminantemente a dar um passo sequer rumo \u00e0quele culto \u00edmpio, de modo que o inspetor Legrasse e seus dezenove colegas embrenharam-se sem guia nas arcadas negras de terror pelas quais nenhum deles jamais passara antes.<\/p>\n<p>A regi\u00e3o em que agora se aventuravam os policiais era tradicionalmente de m\u00e1 reputa\u00e7\u00e3o, desconhecida e inexplorada pelos brancos. Corriam lendas sobre um lago oculto nunca contemplado por mortais, no qual vivia uma gigantesca e disforme criatura poliposa branca com olhos luminosos; e os grileiros sussurravam que diabos com asas de morcego voavam para fora de cavernas nas entranhas da terra \u00e0 meia-noite para adorar aquele ser. Diziam que ele estivera l\u00e1 antes de D\u2019Iberville, antes de La Salle, antes dos \u00edndios e antes mesmo dos saud\u00e1veis animais e p\u00e1ssaros das florestas. A criatura era o pesadelo encarnado e v\u00ea-la significava morrer. Mas tamb\u00e9m fazia os homens sonharem, por isso sabiam que deviam manter-se afastados. A atual orgia vodu ocorria, de fato, no limite daquela \u00e1rea amaldi\u00e7oada, da\u00ed o pr\u00f3prio local do culto ter talvez aterrorizado os grileiros mais do que os sons chocantes e os incidentes.<\/p>\n<p>S\u00f3 a poesia ou a loucura poderiam descrever fielmente os barulhos ouvidos pelos homens de Legrasse ao avan\u00e7arem pelos atoleiros negros rumo ao clar\u00e3o vermelho e aos tant\u00e3s abafados. Existem sons caracter\u00edsticos de homens e caracter\u00edsticos de bestas, e \u00e9 pavoroso escutar um quando a fonte deveria produzir o outro. A f\u00faria animal e a licenciosidade orgi\u00e1stica ali eram ati\u00e7adas a n\u00edveis demon\u00edacos por uivos e \u00eaxtases guinchantes que reverberavam por aqueles bosques cobertos de noite como tempestades pestilenciais emanadas dos abismos do inferno. De vez em quando as ulula\u00e7\u00f5es menos organizadas cessavam, e do que parecia um coro bem treinado de vozes roucas, elevava-se como uma ladainha aquela frase ou ritual nefando:<\/p>\n<p><em>\u201cPh\u2019nglul\u2019 mglw\u2019nafh Cthulhu R\u2019lych wgah\u2019naglfhtagn. \u201c<\/em><\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que os homens, tendo alcan\u00e7ado um local onde as \u00e1rvores eram mais finas, de repente avistaram o pr\u00f3prio espet\u00e1culo. Quatro deles cambalearam, um desfaleceu e dois emitiram um grito fren\u00e9tico que a louca cacofonia da orgia afortunadamente encobriu. Legrasse jogou \u00e1gua do p\u00e2ntano no rosto do homem desmaiado e todos ficaram tr\u00eamulos e quase hipnotizados de horror.<\/p>\n<p>Numa clareira natural do p\u00e2ntano havia uma ilha de relva com cerca de meio hectare, sem \u00e1rvores e toleravelmente seca. Nela saltava e se retorcia uma indescrit\u00edvel horda de anormalidade humana, que s\u00f3 um Sime ou um Angarola poderiam pintar. Sem roupa alguma, aquelas criaturas h\u00edbridas zurravam, berravam e se contorciam ao redor de uma monstruosa fogueira circular, no meio da qual erguia-se, revelado por ocasionais frestas na cortina de chamas, um imponente mon\u00f3lito de granito com uns dois metros e meio de altura; em cima dele, numa pequenez incongruente, jazia a nefasta estatueta. De um amplo c\u00edrculo de dez cadafalsos dispostos a intervalos regulares, com o mon\u00f3lito cingido de chamas ao centro, pendiam de ponta-cabe\u00e7a os corpos atrozmente mutilados dos indefesos grileiros que haviam desaparecido. Era dentro desse c\u00edrculo que a roda de adoradores pulava e rugia da esquerda para a direita numa bacanal sem fim entre o anel de cad\u00e1veres e o anel de fogo.<\/p>\n<p>Pode ter sido s\u00f3 imagina\u00e7\u00e3o, como podem ter sido apenas ecos, que induziram um dos homens, um excit\u00e1vel hisp\u00e2nico, a julgar ter ouvido respostas antifonais ao ritual, vindas de um distante e penumbroso ponto no fundo da floresta de antigas lendas e horrores. Mais tarde encontrei e interroguei esse homem, Joseph D. Galvez, que mostrou ter uma imagina\u00e7\u00e3o delirante; de fato, ele chegou ao extremo de sugerir ter escutado um leve rufiar de grandes asas e vislumbrado olhos fulgurantes bem como um montanhoso vulto branco al\u00e9m das \u00e1rvores remotas mas eu suponho que ele andara assimilando muita supersti\u00e7\u00e3o local.<\/p>\n<p>Na verdade, a pausa horrorizada dos homens foi de dura\u00e7\u00e3o relativamente curta. O dever vinha em primeiro lugar; e embora houvesse quase cem celebrantes naquela horda, a pol\u00edcia confiou em suas armas de fogo e investiu resolutamente contra a nauseante turba. Por cinco minutos o alarido e o caos resultantes foram indescrit\u00edveis. Golpes selvagens foram vibrados, tiros foram disparados e fugas ocorreram, mas no final Legrasse p\u00f4de contar uns quarenta e sete soturnos prisioneiros, os quais for\u00e7ou a vestirem-se depressa e formar uma fila entre duas fileiras de policiais. Cinco dos adoradores jaziam mortos e dois gravemente feridos foram carregados em padiolas improvisadas por seus camaradas. A imagem sobre o mon\u00f3lito foi, \u00e9 l\u00f3gico, cuidadosamente removida e levada embora por Legrasse.<\/p>\n<p>Interrogados na chefatura de pol\u00edcia ap\u00f3s uma jornada tensa e extenuante, verificou-se que todos os prisioneiros eram de classe social \u00ednfima, mesti\u00e7os e mentalmente perturbados. A maioria era de marinheiros, e um magote de negros e mulatos, quase todos das \u00edndias Ocidentais ou portugueses das ilhas de Cabo Verde, dava uma tintura de vodu ao culto heterog\u00eaneo. Antes, por\u00e9m, que muitas perguntas fossem feitas, ficou claro que se tratava de algo muito mais profundo e antigo do que o fetichismo negro. Degradadas e ignorantes que eram, aquelas criaturas atinham-se com surpreendente consist\u00eancia \u00e0 id\u00e9ia central de seu credo abomin\u00e1vel.<\/p>\n<p>Eles adoravam, segundo disseram, os Grandes Antigos, que viveram muitas eras antes da exist\u00eancia do homem e que chegaram ao rec\u00e9m-criado mundo vindos do c\u00e9u. Esses Antigos haviam agora desaparecido no interior da terra e sob o mar; por\u00e9m, mesmo mortos, haviam transmitido seus segredos em sonhos ao primeiro homem, que instaurou um culto que jamais morrera. Era esse o culto que professavam, e os prisioneiros afirmaram que ele sempre existira e sempre existiria, oculto em distantes locais desertos e sombrios por todo o mundo, at\u00e9 o tempo em que o sumo sacerdote Cthulhu, de sua escura morada na poderosa cidade de R\u2019lyeh, sob as \u00e1guas do mar, se levantasse e pusesse de novo a terra sob seu dom\u00ednio. Um dia ele chamaria, quando as estrelas estivessem prontas, e o culto secreto estaria sempre \u00e0 espera para libert\u00e1-lo.<\/p>\n<p>At\u00e9 l\u00e1, nada mais seria dito. Havia um segredo que nem a tortura poderia extrair. A humanidade n\u00e3o estava de forma alguma sozinha entre os seres conscientes da terra, pois formas sa\u00edam das trevas para visitar os poucos fi\u00e9is. Mas esses n\u00e3o eram os Grandes Antigos. Nenhum homem jamais vira os Antigos. O \u00eddolo esculpido representava o grande Cthulhu, mas ningu\u00e9m poderia dizer se os outros eram ou n\u00e3o exatamente como ele. Ningu\u00e9m era capaz hoje em dia de ler a antiga escrita, por\u00e9m as coisas eram transmitidas por tradi\u00e7\u00e3o oral. O c\u00e2ntico ritual n\u00e3o era o segredo \u2013 este nunca era falado em voz alta, apenas sussurrado. O c\u00e2ntico significava apenas isto: \u201cNa sua casa em R\u2019lyeh, Cthulhu morto espera sonhando\u201d.<\/p>\n<p>Apenas dois dos prisioneiros foram considerados s\u00e3os o bastante para serem enforcados; os demais foram internados em diversas institui\u00e7\u00f5es. Todos negaram participa\u00e7\u00e3o nos assassinatos rituais e asseveraram que estes haviam sido obra dos Asas Negras, que tinham vindo a eles oriundos do seu imemorial ponto de encontro na floresta assombrada. Mas desses misteriosos aliados nenhum relato coerente p\u00f4de ser obtido. A maior parte do que a pol\u00edcia conseguiu averiguar veio de um mesti\u00e7o fabulosamente idoso chamado Castro, que afirmava ter viajado a portos long\u00ednquos e falado com l\u00edderes imortais do culto nas montanhas da China.<\/p>\n<p>O velho Castro recordava-se de fragmentos de medonhas lendas que empalideciam as especula\u00e7\u00f5es dos teosofistas e faziam homem e mundo parecerem recentes e ef\u00eameros. Houve \u00e9pocas em que outros Seres dominavam a terra, e Eles haviam erigido cidades colossais. De acordo com o que os chineses imortais lhe haviam dito, vest\u00edgios desses Seres podiam ainda ser encontrados nas rochas cicl\u00f3picas em ilhas do Pac\u00edfico. Todos Eles haviam morrido muitas eras antes da chegada do homem, mas havia artes capazes de faz\u00ea-los reviver quando as estrelas retornassem \u00e0s posi\u00e7\u00f5es certas no ciclo da eternidade. Eles mesmos tinham vindo das estrelas e trazido consigo Suas imagens.<\/p>\n<p>Esses Grandes Antigos, prosseguiu Castro, n\u00e3o se compunham inteiramente de carne e ossos. Tinham forma \u2013 n\u00e3o o provava aquela imagem talhada nas estrelas? -, mas essa forma n\u00e3o era feita de mat\u00e9ria. Quando as estrelas assumiam a configura\u00e7\u00e3o correta, Eles podiam transportar-se de um mundo para outro pelo espa\u00e7o sideral; mas quando as estrelas n\u00e3o eram favor\u00e1veis, Eles n\u00e3o podiam viver. Contudo, embora j\u00e1 n\u00e3o vivessem, Eles nunca verdadeiramente morriam. Jaziam todos em suas moradas de pedra na grande cidade de R\u2019lyeh, preservados pelos encantamentos do poderoso Cthulhu para uma gloriosa ressurrei\u00e7\u00e3o quando as estrelas e a terra estivessem mais uma vez prontas para Eles. Chegado esse tempo, por\u00e9m, alguma for\u00e7a exterior precisaria liberar Seus corpos. Os encantamentos que Os preservavam intactos tamb\u00e9m Os impediam de fazer o movimento inicial, e tudo que podiam fazer era ficar despertos nas trevas e meditar, enquanto milh\u00f5es de anos se escoavam. Sabiam de tudo o que acontecia no universo, pois comunicavam-se por telepatia. Mesmo naquele instante conversavam em Suas tumbas. Quando, ap\u00f3s infind\u00e1veis eras de caos o primeiro homem surgiu, os Grandes Antigos falaram aos mais sens\u00edveis dentre eles dando forma aos seus sonhos, pois s\u00f3 assim Sua linguagem conseguia alcan\u00e7ar as mentes carnosas dos mam\u00edferos.<\/p>\n<p>Em seguida, sussurrou Castro, aqueles primeiros homens formaram o culto ao redor de pequenos \u00eddolos que os Grandes lhes haviam mostrado, \u00eddolos trazidos de estrelas sombrias na noite dos tempos. Aquele culto jamais morreria at\u00e9 que as estrelas ficassem prop\u00edcias de novo, e ent\u00e3o os sacerdotes secretos tirariam o grande Cthulhu da Sua tumba para que Este fizesse reviver os Seus s\u00faditos e retomasse o Seu dom\u00ednio sobre a terra. O tempo seria f\u00e1cil de reconhecer, pois por essa \u00e9poca a humanidade j\u00e1 teria se tornado como os Grandes Antigos: livres, selvagens, al\u00e9m do bem e do mal, ignorando leis e preceitos morais, com todo mundo gritando, matando e farreando em meio a feroz alegria. Ent\u00e3o os Antigos, libertados, ensinar-lhes-iam novas formas de berrar e matar e farrear com alegria desenfreada, e toda a terra se inflamaria num holocausto de \u00eaxtase e liberdade. At\u00e9 l\u00e1, cabia ao culto, mediante ritos apropriados, manter viva a mem\u00f3ria daqueles procedimentos antediluvianos e prefigurar a profecia da volta d\u2019Eles.<\/p>\n<p>Em priscas eras homens eleitos haviam falado com os sepultados Antigos em sonhos, mas ent\u00e3o algo acontecera: a grande cidade de pedra de R\u2019lyeh, com seus mon\u00f3litos e sepulcros, afundara sob as ondas, e as \u00e1guas profundas, repletas do \u00fanico mist\u00e9rio primordial que nem o pensamento pode atravessar, haviam interrompido o interc\u00e2mbio espectral. Mas a mem\u00f3ria nunca morreu, e os sumos sacerdotes diziam que a cidade emergiria de novo quando as estrelas se alinhassem corretamente. Ent\u00e3o vieram das profundezas da terra os seus esp\u00edritos negros, bolorentos e trevosos, cheios de rumores ancestrais colhidos em cavernas sob esquecidos leitos oce\u00e2nicos. Mas deles o velho Castro n\u00e3o ousou falar muito. Calou-se apressadamente, e n\u00e3o houve persuas\u00e3o ou sutileza capaz de extrair-lhe mais informa\u00e7\u00f5es sobre o assunto. Curiosamente, evitou tamb\u00e9m mencionar o tamanho dos Antigos. A respeito do culto, afirmou crer que sua sede ficava nos desertos inacess\u00edveis da Ar\u00e1bia, onde Irem, a Cidade dos Pilares, sonha oculta e intacta. N\u00e3o tinha rela\u00e7\u00e3o com os cultos de bruxaria europeus e, exceto por seus membros, era virtualmente desconhecido. Nenhum livro jamais aludiu diretamente a ele, embora os chineses imortais dissessem que havia duplos sentidos no Necronomicon, do \u00e1rabe louco Abdul Alhazred, que os iniciados poderiam interpretar como quisessem, especialmente o pol\u00eamico d\u00edstico:<\/p>\n<p>N\u00e3o est\u00e1 morto o que pode eternamente jazer, E com estranhas eras pode at\u00e9 a morte morrer.<\/p>\n<p>Legrasse, bastante impressionado e n\u00e3o pouco estupefato, havia investigado em v\u00e3o sobre as afilia\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas do culto. Aparentemente Castro dissera a verdade ao afirmar que era totalmente secreto. As autoridades da Universidade de Tulane n\u00e3o puderam dar esclarecimento algum tanto a respeito do culto quanto da imagem, e agora o detetive viera consultar as maiores autoridades do pa\u00eds, sem nada obter al\u00e9m da est\u00f3ria da Groenl\u00e2ndia contada pelo professor Webb.<\/p>\n<p>O interesse febril despertado na reuni\u00e3o por Legrasse e sua narrativa, corroborada pela estatueta, encontra eco na subseq\u00fcente correspond\u00eancia dos que estavam presentes, embora haja escassa men\u00e7\u00e3o ao incidente na publica\u00e7\u00e3o formal da sociedade. Cautela \u00e9 a preocupa\u00e7\u00e3o m\u00e1xima daqueles que est\u00e3o acostumados \u00e0 charlatanice e impostura ocasionais. Legrasse emprestou a imagem por algum tempo ao professor Webb, mas com a morte deste, foi-lhe devolvida e com ele permanecia quando a vi, n\u00e3o faz muito tempo.\u00a0 \u00c9 uma coisa verdadeiramente medonha,\u00a0 e inequivocamente aparentada \u00e0 escultura sonhada e esculpida pelo jovem Wilcox.<\/p>\n<p>N\u00e3o me surpreendeu que a narrativa do escultor tivesse alvoro\u00e7ado o meu tio, pois que id\u00e9ias poderiam ocorrer-lhe, ap\u00f3s saber o que Legrasse descobrira sobre o culto, ao ouvir um rapaz sens\u00edvel dizer-lhe que sonhara n\u00e3o somente a figura e os hier\u00f3glifos exatos da imagem encontrada no p\u00e2ntano e do demon\u00edaco baixo-relevo da Groenl\u00e2ndia, como tamb\u00e9m escutara em seus sonhos pelo menos tr\u00eas das palavras precisas da f\u00f3rmula emitida tanto pelos diabolistas esquim\u00f3s quanto pelos mesti\u00e7os da Louisiana? Foi a coisa mais natural que o professor Angell iniciasse uma investiga\u00e7\u00e3o aprofundada, ainda que eu privadamente suspeitasse que o jovem Wilcox ouvira falar do culto de maneira indireta e tivesse inventado uma s\u00e9rie de sonhos para intensificar e manter o mist\u00e9rio, \u00e0s custas do meu tio. As narrativas de sonhos e os recortes coletados pelo professor eram, \u00e9 claro, forte corrobora\u00e7\u00e3o; mas o meu racionalismo e a extravag\u00e2ncia da coisa toda levaram-me a adotar o que julguei ser a conclus\u00e3o mais sensata. Assim, depois de estudar detidamente o manuscrito mais uma vez e de correlacionar as anota\u00e7\u00f5es teos\u00f3ficas e antropol\u00f3gicas na narrativa feita por Legrasse sobre o culto, fiz uma viagem a Providence para ver o escultor e repreend\u00ea-lo devidamente por divertir-se \u00e0s custas de um homem letrado e idoso.<\/p>\n<p>Wilcox ainda vivia sozinho no edif\u00edcio Fleur-de-Lys, na Rua Thomas, uma hedionda imita\u00e7\u00e3o vitoriana da arquitetura bret\u00e3 do s\u00e9culo xv1, que pavoneia sua fachada de estuque em meio \u00e0s lindas casas coloniais na antiga colina, e \u00e0 sombra do mais espl\u00eandido campan\u00e1rio georgiano dos Estados Unidos. Encontrei-o trabalhando em seus aposentos, e de imediato constatei, a julgar pelas suas pe\u00e7as espalhadas, que seu talento era de fato profundo e original. Acredito que um dia ele ser\u00e1 aclamado como um dos grandes decadentistas, pois cristalizou na argila e um dia refletir\u00e1 no m\u00e1rmore os pesadelos e fantasias que Arthur Machen evoca na prosa e Clark Ashton Smith torna vis\u00edvel no verso e na pintura.<\/p>\n<p>Moreno, franzino e de aspecto algo desleixado, ele se voltou languidamente ao me ouvir bater \u00e0 porta e, sem se levantar, perguntou-me a que vinha. Quando eu lhe disse quem eu era, ele demonstrou certo interesse; pois meu tio despertara-lhe a curiosidade ao investigar seus sonhos estranhos, embora nunca tivesse explicado a raz\u00e3o do seu interesse. Eu tampouco expliquei, mas procurei sutilmente fazer com que se abrisse comigo.<\/p>\n<p>Em pouco tempo fiquei convencido da sua absoluta sinceridade, pois falou nos sonhos de um modo inequ\u00edvoco. Os sonhos e o res\u00edduo subconsciente deles haviam influenciado profundamente a sua arte, e ele me mostrou uma est\u00e1tua m\u00f3rbida cujos contornos quase me fizeram estremecer com a for\u00e7a de seu poder de negra evoca\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se lembrava de ter visto o original daquilo, exceto no seu pr\u00f3prio baixo-relevo on\u00edrico, mas os contornos haviam-se formado insensivelmente sob suas m\u00e3os. Era, sem d\u00favida, o vulto gigantesco que ele entrevira no seu del\u00edrio. Deixou claro nada saber sobre o culto secreto, salvo o que o infatig\u00e1vel interrogat\u00f3rio do meu tio deixara escapar; e de novo me esforcei por imaginar algum modo pelo qual ele pudesse ter recebido as estranhas impress\u00f5es.<\/p>\n<p>Falou de seus sonhos num modo estranhamente po\u00e9tico, fazendo-me ver com assustadora nitidez a \u00famida cidade cicl\u00f3pica de lodosa pedra verde (cuja geometria, ele enfatizou singularmente, estava \u201ctoda errada\u201d) e escutar com apavorada expectativa a evoca\u00e7\u00e3o incessante e quase mental oriunda do subterr\u00e2neo da terra: \u201cCthulhu fhtagn\u201d, \u201cCthulhu lhtagn\u201d.<\/p>\n<p>Essas palavras tinham feito parte daquele ritual macabro que falava do morto Cthulhu \u00e0 espera, sonhando, na sua tumba de pedra em R\u2019lyeh, e senti-me profundamente abalado, apesar do meu racionalismo. Eu tinha certeza de que Wilcox ouvira falar no culto por acaso, mas logo se esquecera dele em meio \u00e0 massa de suas leituras e imagina\u00e7\u00e3o igualmente bizarras. Mais tarde, em virtude da impressionabilidade do mo\u00e7o, a lembran\u00e7a achara express\u00e3o subconsciente em sonhos, no baixo-relevo e na medonha est\u00e1tua que eu agora via, de modo que sua impostura sobre o meu tio fora totalmente inocente. O rapaz, ao mesmo tempo meio afetado e ligeiramente mal-educado, n\u00e3o era do tipo que eu jamais poderia vir a gostar; mas eu estava ao menos disposto a reconhecer tanto o seu g\u00eanio quanto a sua honestidade. Despedi-me dele amigavelmente, desejando-lhe todo o sucesso que seu talento promete.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o do culto continuava a me fascinar, e \u00e0s vezes eu tinha vis\u00f5es de fama pessoal obtida gra\u00e7as a pesquisas sobre sua origem e conex\u00f5es. Visitei Nova Orleans, conversei com Legrasse e outros participantes da batida policial, vi a monstruosa imagem e at\u00e9 entrevistei alguns prisioneiros mesti\u00e7os ainda vivos; o velho Castro, infelizmente, j\u00e1 morrera havia alguns anos. O que ouvi ent\u00e3o, de forma t\u00e3o n\u00edtida e em primeira m\u00e3o, embora n\u00e3o fosse mais que uma confirma\u00e7\u00e3o detalhada daquilo que meu tio escrevera, voltou a me estimular, pois tive a certeza de estar na pista de uma religi\u00e3o muito real, muito secreta e muito antiga, cuja descoberta faria de mim um antrop\u00f3logo de renome. Minha atitude era ainda de absoluto materialismo, como gostaria que ainda fosse, e descartei com inexplic\u00e1vel m\u00e1 vontade a coincid\u00eancia entre os relatos de sonhos e os esquisitos recortes colecionados pelo professor Angell.<\/p>\n<p>Uma coisa que comecei a suspeitar e que agora infelizmente eu sei; \u00e9 que a morte do meu tio nada teve de natural. Ele caiu de uma ladeira estreita que sa\u00eda de um antigo cais repleto de mesti\u00e7os estrangeiros, ap\u00f3s um descuidado empurr\u00e3o de um marinheiro negro. N\u00e3o esqueci o sangue misto e atividades navais dos membros do culto na Louisiana, e n\u00e3o me surpreenderia se viesse a ouvir falar de m\u00e9todos secretos e agulhas envenenadas t\u00e3o implac\u00e1veis e antigas quanto os rituais e credos cr\u00edpticos. \u00c9 verdade que Legrasse e seus homens foram deixados em paz; mas na Noruega, um certo homem do mar, que viu coisas, morreu. Ser\u00e1 que as investiga\u00e7\u00f5es mais profundas do meu tio, ap\u00f3s o encontro com o escultor, n\u00e3o poderiam ter chegado a ouvidos sinistros? Eu acho que o professor Angell morreu porque sabia demais ou estava prestes a saber demais. Se terei o mesmo fim que ele, \u00e9 o que me resta saber, pois agora eu tamb\u00e9m sei demais.<\/p>\n<p><strong>III. A LOUCURA QUE VEIO DO MAR<\/strong><\/p>\n<p>Se aprouver aos c\u00e9us conceder-me algum dia uma b\u00ean\u00e7\u00e3o, pedirei que seja o esquecimento total dos resultados do mero acaso que fixou meus olhos num certo peda\u00e7o perdido de papel que forrava uma prateleira. N\u00e3o era algo com que eu normalmente trope\u00e7aria no curso da minha rotina di\u00e1ria, pois tratava-se de um velho n\u00famero de um jornal australiano, o Sydney Bulletin, de 18 de abril de 1925. A not\u00edcia escapara at\u00e9 mesmo ao escrit\u00f3rio de recortes que, na \u00e9poca de sua publica\u00e7\u00e3o, coletava avidamente material para a pesquisa do meu tio.<\/p>\n<p>Eu havia praticamente deixado de lado minhas investiga\u00e7\u00f5es sobre o que o professor Angell chamava \u201cCulto de Cthulhu\u201d, e estava visitando um letrado amigo em Paterson, Nova Jersey, curador de um museu local e renomado mineralogista. Um dia, examinando amostras de reserva colocadas desordenadamente sobre as prateleiras de uma sala nos fundos do museu, meu olhar foi atra\u00eddo por uma estranha gravura num dos velhos jornais espalhados debaixo das pedras. Era o exemplar do Sydney Bulletin a que me referi, pois meu amigo tinha amplas liga\u00e7\u00f5es em todos os pa\u00edses imagin\u00e1veis; e a figura era uma litografia de uma horrorosa estatueta de pedra quase id\u00eantica \u00e0 que Legrasse encontrara no p\u00e2ntano.<\/p>\n<p>Ansiosamente afastando da folha de jornal os preciosos esp\u00e9cimes minerais, estudei a not\u00edcia detalhadamente, mas fiquei desapontado ao ver que n\u00e3o era muito extensa. O que sugeria, no entanto, era de imensa import\u00e2ncia para minha investiga\u00e7\u00e3o algo desalentada, e rasguei cuidadosamente o recorte a fim de empreender a\u00e7\u00e3o imediata. Dizia o seguinte:<\/p>\n<p>NAVIO ABANDONADO ENCONTRADO NO MAR<\/p>\n<p><em>Vigilant chega rebocando iate neozeland\u00eas armado e avariado.\u00a0<\/em><em>Encontrados a bordo um sobrevivente e um morto. Est\u00f3ria de batalha desesperada e mortes em alto-mar. Marinheiro salvo recusa-se a dar detalhes da estranha experi\u00eancia. Misterioso \u00eddolo achado em seu poder. Ser\u00e1 aberto Inqu\u00e9rito.<\/em><\/p>\n<p>O cargueiro da Morrison Co., Vigilant, proveniente de Valpara\u00edso, atracou esta manh\u00e3 no porto de Darling, trazendo a reboque o avariado e inutilizado, mas fortemente armado, iate a vapor Alert, com matr\u00edcula de Dunedin, N. Z., que fora avistado no dia 12 de abril na latitude sul 34\u00b0 21\u2032, longitude oeste 152\u00b0 17\u2032, com um homem vivo e um morto a bordo.<\/p>\n<p>O Vigilant deixou Valpara\u00edso a 25 de mar\u00e7o e, no dia 2 de abril, sua rota foi consideravelmente desviada para sul por fort\u00edssimas tempestades e ondas monstruosas. Em 12 de abril foi avistado o barco \u00e0 deriva, e embora aparentemente abandonado pela tripula\u00e7\u00e3o, foram encontrados a bordo um sobrevivente em estado de semi-del\u00edrio e um homem com evid\u00eancias de estar morto h\u00e1 mais de uma semana.<\/p>\n<p>O sobrevivente agarrava um horr\u00edvel \u00eddolo de pedra de origem desconhecida e cerca de um p\u00e9 de altura, a respeito de cuja natureza as autoridades da Universidade de Sydney, da Royal Society e do Museu de College Street confessaram a mais absoluta ignor\u00e2ncia, e que o sobrevivente afirma ter encontrado na cabina do iate, num pequeno relic\u00e1rio esculpido, de formato comum.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s recuperar a consci\u00eancia, esse homem narrou uma est\u00f3ria excessivamente estranha de pirataria e chacina. Seu nome \u00e9 Gustaf Johansen, noruegu\u00eas de alguma instru\u00e7\u00e3o, e servira como segundo-oficial da escuna Emma, de Auckland, que zarpou de Callao a 20 de fevereiro, com tripula\u00e7\u00e3o de onze homens.<\/p>\n<p>A Emma, disse ele, foi retardada e largamente desviada de seu curso na dire\u00e7\u00e3o sul pela grande tempestade de 1<sup>\u00b0<\/sup>\u00a0de mar\u00e7o; no dia 22 desse m\u00eas, na latitude sul 49\u00b0 51\u2032 e longitude oeste 128\u00b0 34\u2032, encontrou o Alert, tripulado por um esquisito e mal-encarado grupo de canacas e mesti\u00e7os. Recebendo ordem perempt\u00f3ria de voltar, o capit\u00e3o Collins recusou-se, ao que o estranho grupo abriu fogo violentamente e sem aviso sobre a escuna, com uma bateria peculiarmente pesada de canh\u00f5es de bronze que faziam parte do equipamento do iate.<\/p>\n<p>Os homens da Emma reagiram, prosseguiu o sobrevivente, e embora a escuna come\u00e7asse a afundar devido a tiros que a atingiram abaixo da linha de flutua\u00e7\u00e3o, conseguiram abordar a embarca\u00e7\u00e3o inimiga e lutar corpo a corpo com os selvagens sobre o conv\u00e9s do iate, sendo for\u00e7ados a mat\u00e1-los todos, o n\u00famero destes sendo ligeiramente maior, por causa de seu modo feroz e desesperado, ainda que despreparado, de lutar.<\/p>\n<p>Tr\u00eas homens da Emma, incluindo o capit\u00e3o Collins e o primeiro-oficial Green, foram mortos, e os oito restantes, sob comando do segundo-oficial Johansen, prosseguiram viagem no iate capturado, seguindo na dire\u00e7\u00e3o original a fim de constatar se havia alguma raz\u00e3o para a ordem de retornar que tinham recebido.<\/p>\n<p>No dia seguinte, ao que parece, desembarcaram numa pequena ilha, embora n\u00e3o conste a exist\u00eancia de ilha alguma naquela parte do oceano. Seis homens morreram em terra, ainda que Johansen seja estranhamente reticente sobre essa parte da est\u00f3ria, limitando-se a afirmar que ca\u00edram num abismo rochoso.<\/p>\n<p>Parece que mais tarde ele e um companheiro voltaram ao iate e tentaram prosseguir viagem, mas foram atingidos pela tempestade do dia 2 de abril.<\/p>\n<p>A partir desse dia at\u00e9 seu resgate no dia 12, o homem se lembra de pouca coisa, e n\u00e3o se recorda sequer de quando William Briden, seu companheiro, morreu. A morte de Briden n\u00e3o revela causa aparente e provavelmente deveu-se a choque emocional ou exposi\u00e7\u00e3o cont\u00ednua \u00e0s intemp\u00e9ries.<\/p>\n<p>Not\u00edcias recebidas de Dunedin informam que o Alert era bem conhecido por l\u00e1 como navegador de cabotagem e que gozava de m\u00e1 reputa\u00e7\u00e3o nos meios mar\u00edtimos. Era de propriedade de um curioso grupo de mesti\u00e7os cujas freq\u00fcentes reuni\u00f5es e viagens noturnas aos bosques despertavam consider\u00e1vel curiosidade; zarpara com grande pressa logo depois da tempestade e dos tremores de terra de 1<sup>\u00b0<\/sup>\u00a0de marco.<\/p>\n<p>Nosso correspondente em Auckland atribui \u00e0 Emma e sua tripula\u00e7\u00e3o uma reputa\u00e7\u00e3o excelente, e Johansen \u00e9 descrito como homem s\u00f3brio e valoroso.<\/p>\n<p>Amanh\u00e3 o almirantado abrir\u00e1 inqu\u00e9rito sobre o incidente, no qual ser\u00e3o feitos todos os esfor\u00e7os para induzir Johansen a falar mais do que at\u00e9 o momento.<\/p>\n<p>Isso era tudo, juntamente com a foto da imagem infernal; mas que sucess\u00e3o de id\u00e9ias desencadeou na minha mente! Aqui estavam novos tesouros de informa\u00e7\u00e3o sobre o Culto de Cthulhu, bem como evid\u00eancias de que possu\u00eda estranhos interesses no mar tanto quanto em terra. Que motivo levara a tripula\u00e7\u00e3o de mesti\u00e7os a ordenar o retorno da Emma enquanto navegavam com aquele medonho \u00eddolo? Qual era a ilha desconhecida onde seis membros da tripula\u00e7\u00e3o da Emma haviam morrido e sobre a qual o imediato Johansen guardava tanto segredo? O que haveria descoberto a investiga\u00e7\u00e3o do almirantado e o que se saberia em Dunedin sobre aquele culto nefasto? E o mais surpreendente de tudo: que profunda e sobrenatural liga\u00e7\u00e3o de datas era essa que dava um significado maligno e agora ineg\u00e1vel aos v\u00e1rios epis\u00f3dios t\u00e3o cuidadosamente anotados por meu tio?<\/p>\n<p>A 1<sup>\u00b0<\/sup>\u00a0de mar\u00e7o (nosso 28 de fevereiro, segundo a hora do meridiano de Greenwich) haviam ocorrido o terremoto e a tempestade. De Dunedin o Alert e sua revoltante tripula\u00e7\u00e3o haviam zarpado ansiosamente, como se atendessem a um imperioso chamado, enquanto do outro lado da terra poetas e artistas haviam come\u00e7ado a sonhar com uma estranha e lodosa cidade cicl\u00f3pica, e um jovem escultor moldara durante o sono a forma do tem\u00edvel Cthulhu. A 23 de mar\u00e7o a tripula\u00e7\u00e3o da Emma desembarcava numa ilha desconhecida, deixando ali seis mortos; e na mesma data os sonhos de homens sens\u00edveis assumiam grande nitidez e se ensombreciam com o pavor da persegui\u00e7\u00e3o maligna de um monstro gigantesco, ao passo que um arquiteto enlouquecia e um escultor mergulhava repentinamente em total del\u00edrio! E o que dizer daquela tempestade de 2 de abril \u2013 data em que cessaram todos os sonhos da cidade lodosa e Wilcox emergiu inc\u00f3lume do cativeiro de sua estranha febre? O que dizer de tudo isso e das alus\u00f5es do velho Castro sobre os Antigos, submersos filhos das estrelas cujo reinado estava pr\u00f3ximo, do fervoroso culto que lhes era dedicado e do dom\u00ednio que tenham sobre os sonhos? Estaria eu cambaleando \u00e0 beira de horrores c\u00f3smicos al\u00e9m da capacidade humana de suport\u00e1-los? Se assim fosse, deveriam ser horrores apenas da mente, pois de alguma forma o dia 2 de abril pusera fim a qualquer amea\u00e7a monstruosa que iniciara seu ass\u00e9dio contra a alma da humanidade.<\/p>\n<p>Naquela noite, ap\u00f3s um dia inteiro de telegramas apressados e tomada de provid\u00eancias, despedi-me do meu anfitri\u00e3o e embarquei num trem para S\u00e3o Francisco. Em menos de um m\u00eas estava em Dunedin, onde, contudo, descobri que pouco se sabia acerca dos estranhos membros do culto que haviam freq\u00fcentado as velhas tavernas do cais. A ral\u00e9 do porto era comum demais para fazer jus a qualquer men\u00e7\u00e3o especial, embora se falasse vagamente sobre uma excurs\u00e3o terra adentro que aqueles mesti\u00e7os haviam feito, e durante a qual t\u00eanues batidas de tambor e labaredas vermelhas nas colinas distantes tinham-se feito notar.<\/p>\n<p>Em Auckland soube que Johansen havia retornado com os cabelos loiros totalmente brancos ap\u00f3s um interrogat\u00f3rio superficial e inconcludente em Sydney, e que depois vendera sua pequena casa na Rua Oeste e zarpara com a esposa para seu antigo lar em Oslo. Nem aos seus amigos quis contar sobre a sua eletrizante experi\u00eancia mais do que contara aos oficiais do almirantado, e o m\u00e1ximo que puderam fazer foi dar-me o endere\u00e7o dele em Oslo.<\/p>\n<p>Depois disso fui a Sydney e conversei sem proveito algum com marinheiros e integrantes do tribunal mar\u00edtimo. Vi o Alert, agora vendido e sendo usado como cargueiro no Cais Circular, em Sydney Cove, mas nada ganhei com a visita \u00e0 neutra embarca\u00e7\u00e3o. A imagem agachada, com sua cabe\u00e7a de polvo, corpo de drag\u00e3o, asas escamosas e pedestal coberto de hier\u00f3glifos era conservada no Museu de Hyde Park, e eu a estudei detidamente, constatando ser obra de rematada e art\u00edstica malignidade, dotada do mesmo mist\u00e9rio profundo, assustadora antig\u00fcidade e estranheza alien\u00edgena de material que eu observara no esp\u00e9cime menor de Legrasse. O curador me contou que os ge\u00f3logos consideravam-na um monstruoso enigma, pois juravam n\u00e3o haver no mundo rocha igual \u00e0quela. Ent\u00e3o me lembrei, com um calafrio, do que o velho Castro dissera a Legrasse sobre os primordiais Grandes: \u201cTinham vindo das estrelas, trazendo consigo Suas imagens\u201d.<\/p>\n<p>Abalado por uma revolu\u00e7\u00e3o mental como nunca experimentara antes, resolvi visitar o imediato Johansen em Oslo. Embarcando rumo a Londres, mal cheguei l\u00e1 e tomei imediatamente um navio para a capital norueguesa, onde desembarquei em um dia de outono nos bem cuidados cais \u00e0 sombra do Egeberg.<\/p>\n<p>O endere\u00e7o de Johansen, segundo apurei, ficava na Cidade Velha do rei Harold Haardrada, o bairro que manteve vivo o nome de Oslo durante os s\u00e9culos em que a capital mascarou-se sob o nome de \u201cCristi\u00e2nia\u201d. Fiz o breve trajeto de t\u00e1xi, e foi com o cora\u00e7\u00e3o palpitante que bati \u00e0 porta de um antigo e belo edif\u00edcio com fachada de estuque. Atendeu-me uma mulher de rosto triste vestida de preto, e a decep\u00e7\u00e3o se abateu sobre mim quando ela me informou, num ingl\u00eas tr\u00f4pego, que Gustaf Johansen havia morrido.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o sobrevivera muito tempo ap\u00f3s o seu regresso, contou-me sua vi\u00fava, pois os acontecimentos no mar em 1925 haviam-no al quebrado. Johansen n\u00e3o contara \u00e0 esposa mais do que contara ao p\u00fablico, por\u00e9m deixara um longo manuscrito \u2013 sobre \u201cassuntos t\u00e9cnicos\u201d, segundo disse \u2013 escrito em ingl\u00eas, com o prop\u00f3sito evidente de salvaguard\u00e1-la do perigo de uma leitura casual. Durante um passeio por uma vi ela estreita pr\u00f3xima \u00e0s docas de Gothenburg, fora derrubado por um pesado fardo de jornais ca\u00eddo da janela de um s\u00f3t\u00e3o. Dois marinheiros de Lascar imediatamente ajudaram-no a levantar-se, mas antes que a ambul\u00e2ncia chegasse, ele j\u00e1 estava morto. Os m\u00e9dicos n\u00e3o encontraram causa espec\u00edfica para o \u00f3bito, atribuindo-o a problemas card\u00edacos e constitui\u00e7\u00e3o debilitada.<\/p>\n<p>Senti ent\u00e3o remoer-me as entranhas aquele obscuro terror que nunca mais me deixar\u00e1 at\u00e9 que eu tamb\u00e9m venha a repousar, \u201cacidentalmente\u201d ou de outra forma. Tendo persuadido a vi\u00fava de que minha liga\u00e7\u00e3o com os \u201cassuntos t\u00e9cnicos\u201d de seu marido davam-me direito ao manuscrito, levei o documento comigo e comecei a l\u00ea-lo no navio de volta a Londres.<\/p>\n<p>A reda\u00e7\u00e3o era simples e sem eleg\u00e2ncia de estilo \u2013 tentativa de marinheiro ing\u00eanuo de compor um di\u00e1rio a posteri\u00f3ri \u2013 e procurava reconstituir, dia a dia, aquela \u00faltima e fat\u00eddica viagem. N\u00e3o h\u00e1 por que transcrev\u00ea-lo na \u00edntegra com toda a sua ilegibilidade e redund\u00e2ncias, mas narrarei o essencial do seu conte\u00fado para mostrar por que o barulho da \u00e1gua contra o casco do navio tornou-se t\u00e3o insuport\u00e1vel para mim que tampei meus ouvidos com algod\u00e3o.<\/p>\n<p>Johansen, gra\u00e7as a Deus, n\u00e3o sabia de tudo, mesmo tendo visto a cidade e a Coisa, mas nunca voltarei a dormir calmamente de novo ao pensar nos horrores que espreitam incessantemente a vida no tempo e no espa\u00e7o, e naquelas \u00edmpias blasf\u00eamias oriundas de imemoriais estrelas que sonham nas profundezas do mar, conhecidas e adoradas por um culto de pesadelo pronto e ansioso por solt\u00e1-las sobre o mundo assim que outro terremoto traga de novo \u00e0 tona sua monstruosa cidade de pedra.<\/p>\n<p>A viagem de Johansen havia come\u00e7ado exatamente como ele contou ao almirantado. A escuna Emma, com lastro, deixara Auckland a 20 de fevereiro, e sentira toda a for\u00e7a da tempestade causada pelo terremoto que deve ter feito emergir os horrores que preencheram os sonhos de tantos homens. Recuperado o controle da embarca\u00e7\u00e3o, esta prosseguia normalmente quando foi abordada pelo Alert a 22 de mar\u00e7o, e pude sentir a tristeza do imediato ao descrever o bombardeio e afundamento do seu barco. Dos satanistas trigueiros do Alert ele fala com significativo horror. Havia neles algo de peculiarmente abomin\u00e1vel que fazia com que a sua destrui\u00e7\u00e3o parecesse quase um dever, e Johansen demonstra ing\u00eanua surpresa frente \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o de desumanidade levantada contra o seu grupo durante os trabalhos da corte de inqu\u00e9rito. Ent\u00e3o, levados adiante pela curiosidade no iate capturado, sob o comando de Johansen, os homens avistaram uma enorme coluna de pedra que se projetava fora do mar, e na latitude sul 47\u00b0 9\u2032 e longitude oeste 126\u00b0 43\u2032, deram com um litoral de lama, lodo e alvenaria cicl\u00f3pica coberta de musgo que n\u00e3o podia ser outra coisa sen\u00e3o a subst\u00e2ncia tang\u00edvel do supremo terror do planeta \u2013 a cadav\u00e9rica cidade-pesadelo de R\u2019lyeh, constru\u00edda h\u00e1 incont\u00e1veis eras antes da Hist\u00f3ria pelos gigantescos e nefastos vultos procedentes das estrelas sem luz. Ali jaziam o grande Cthulhu e suas hordas, ocultos em verdes criptas lodosas de onde finalmente, ap\u00f3s ciclos incalcul\u00e1veis, emitiam os pensamentos que infundem medo nos sonhos dos sens\u00edveis e conclamam imperiosamente os fi\u00e9is a uma peregrina\u00e7\u00e3o de liberta\u00e7\u00e3o e restaura\u00e7\u00e3o. Johansen nada suspeitava sobre isso, mas Deus sabe que ele logo veria o bastante!<\/p>\n<p>Suponho que apenas o cume de uma montanha, a revoltante cidadela coroada por um mon\u00f3lito, onde estava sepultado o grande Cthulhu, emergiu verdadeiramente das \u00e1guas. Quando penso na extens\u00e3o de tudo o que pode estar \u00e0 espreita l\u00e1 embaixo, quase tenho vontade de me matar de uma vez. Johansen e seus homens estavam boquiabertos perante a c\u00f3smica majestade daquela gotejante Babil\u00f4nia de dem\u00f4nios ancestrais, e devem ter adivinhado, sem maior orienta\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o se tratava de nada proveniente deste ou de qualquer planeta s\u00e3o. Perplexo temor diante do incr\u00edvel tamanho dos blocos de pedra esverdeados, da estonteante altura do grande mon\u00f3lito esculpido e da assombrosa identidade entre as colossais est\u00e1tuas e baixos-relevos e a esdr\u00faxula imagem encontrada no relic\u00e1rio do Alert, \u00e9 flagrante em cada linha da assustada descri\u00e7\u00e3o do imediato.<\/p>\n<p>Sem ter qualquer no\u00e7\u00e3o da escola art\u00edstica a que se d\u00e1 o nome de futurismo, Johansen chegou a algo muito pr\u00f3ximo quando falou sobre a cidade; pois, ao inv\u00e9s de descrever qualquer estrutura ou edif\u00edcio definidos, ele se refere apenas \u00e0s amplas impress\u00f5es de vastos \u00e2ngulos e superf\u00edcies de pedra superf\u00edcies grandes demais para pertencer a qualquer coisa correta ou apropriada nesta terra, e \u00edmpias com aquelas horr\u00edveis imagens e hier\u00f3glifos. Menciono a alus\u00e3o dele a \u00e2ngulos porque sugere algo que Wilcox me dissera sobre seus arrepiantes sonhos; ele havia dito que a geometria do local do sonho era anormal, n\u00e3o-euclidiana, e perturbadoramente repleta de esferas e dimens\u00f5es alheias \u00e0s nossas. Agora um marujo iletrado sentia a mesma coisa encarando a terr\u00edvel realidade.<\/p>\n<p>Johansen e seus homens desembarcaram numa lamacenta encosta daquela monstruosa acr\u00f3pole, e galgaram com dificuldade os tit\u00e2nicos blocos escorregadios que n\u00e3o poderiam ser uma escada para mortais. No c\u00e9u, o pr\u00f3prio sol parecia distorcido quando visto atrav\u00e9s do miasma polarizador que subia daquela pervers\u00e3o encharcada de mar, e uma serpenteante amea\u00e7a e suspense pareciam espreitar de soslaio naqueles insanamente ilus\u00f3rios \u00e2ngulos de rocha talhada, onde um segundo olhar mostrava concavidade ap\u00f3s o primeiro ter mostrado convexidade.<\/p>\n<p>Algo muito pr\u00f3ximo ao pavor j\u00e1 sobreviera a todos os exploradores antes que coisa mais definida do que pedra, lodo e algas fosse vista. Cada um deles teria fugido se n\u00e3o temesse a zombaria dos demais, e foi com entusiasmo m\u00ednimo que procuraram \u2013 em v\u00e3o, como se veria \u2013 alguma pequena lembran\u00e7a para levar consigo.<\/p>\n<p>Foi Rodrigues, o portugu\u00eas, que galgou o p\u00e9 do mon\u00f3lito e gritou o que havia encontrado. Os demais seguiram-no e olharam cheios de curiosidade a imensa porta esculpida com o j\u00e1 familiar baixo relevo da lula-drag\u00e3o. Segundo Johansen, era como uma enorme porta de celeiro; e todos julgaram ser uma porta devido ao dintel, umbral e batente ornamentados em volta, embora n\u00e3o conseguissem determinar se era plana como um al\u00e7ap\u00e3o ou obl\u00edqua como uma porta externa de por\u00e3o. Como Wilcox diria, a geometria daquele lugar era toda errada. N\u00e3o se podia ter certeza de que o mar e a terra fossem horizontais, da\u00ed a posi\u00e7\u00e3o relativa de tudo o mais parecer fantasmagoricamente vari\u00e1vel.<\/p>\n<p>Briden empurrou a pedra em diversos lugares, sem resultado. Em seguida Donovan tateou delicadamente as beiradas, pressionando cada ponto em separado. Escalou interminavelmente a grotesca cornija de pedra \u2013 isto \u00e9, dir\u00edamos \u201cescalar\u201d se a coisa n\u00e3o fosse mesmo horizontal \u2013 enquanto os homens se perguntavam, at\u00f4nitos, corno alguma porta no universo poderia ser t\u00e3o vasta. Ent\u00e3o, muito devagar e suavemente, o painel de meio hectare de extens\u00e3o p\u00f4s-se a ceder para dentro na parte de cima, ao que puderam constatar que estava equilibrada.<\/p>\n<p>Donovan deslizou ou de alguma forma propulsou-se para baixo ou ao longo do batente e veio juntar-se aos companheiros, e todos assistiram \u00e0 estranha recess\u00e3o do portal monstruosamente esculpido. Naquela fantasia de distor\u00e7\u00e3o prism\u00e1tica, ele se movia anomalamente em sentido diagonal, subvertendo todas as regras da mat\u00e9ria e da perspectiva.<\/p>\n<p>A abertura era negra, de uma escurid\u00e3o quase palp\u00e1vel. Aquela tenebrosidade tinha, com efeito, uma qualidade positiva, pois escurecia partes das paredes internas que deveriam estar claras, e na verdade se evolava como fuma\u00e7a de seu imemorial aprisionamento, visivelmente eclipsando o sol \u00e0 medida em que se esquivava pelo c\u00e9u encolhido e convexo com esvoa\u00e7antes asas membranosas. O fedor que subiu das rec\u00e9m-abertas profundezas era insuport\u00e1vel, e logo depois Hawkins, que tinha ouvido apurado, julgou captar um asqueroso chapinhar vindo l\u00e1 de baixo. Todos ficaram atentos, e continuavam atentos quando Aquilo assomou babosamente \u00e0 vista e, \u00e0s apalpadelas, espremeu Sua gelatinosa imensid\u00e3o verde atrav\u00e9s da passagem negra para fora, ganhando o ar contaminado daquela pe\u00e7onhenta cidade de loucura.<\/p>\n<p>A caligrafia do pobre Johansen quase cedeu ao escrever essa parte. Dos seis homens que n\u00e3o voltaram ao navio, ele acha que dois morreram de puro pavor naquele instante amaldi\u00e7oado. A Coisa n\u00e3o pode ser descrita \u2013 n\u00e3o existem palavras capazes de expressar tais abismos de loucura estridente e imemorial, tais contradi\u00e7\u00f5es alien\u00edgenas de toda mat\u00e9ria, for\u00e7a e harmonia c\u00f3smica. Uma montanha caminhava, ou cambaleava! Deus! N\u00e3o admira que do outro lado da terra um grande arquiteto enlouquecesse e o pobre Wilcox delirasse de febre naquele instante telep\u00e1tico! A Criatura dos \u00eddolos, o verde e pegajoso rebento das estrelas, despertara para reclamar o que era seu. As estrelas estavam novamente alinhadas, e o que um culto milenar falhara em fazer por f\u00e9, um bando de marinheiros inocentes fizera por acaso. Ap\u00f3s trilh\u00f5es de anos, o grande Cthulhu estava solto mais uma vez, e \u00e1vido de prazer.<\/p>\n<p>Tr\u00eas homens foram varridos pelas fl\u00e1cidas garras antes que algu\u00e9m pudesse se voltar para fugir. Que descansem em paz, se \u00e9 que h\u00e1 algum descanso no universo. Foram eles Donovan, Guerrera e Angstrom. Parker escorregou enquanto os outros tr\u00eas disparavam freneticamente sobre panoramas intermin\u00e1veis de rocha esverdeada rumo ao bote, e Johansen jura que ele foi tragado por um \u00e2ngulo de alvenaria que n\u00e3o devia estar l\u00e1, um \u00e2ngulo que, sendo agudo, comportava-se como se fosse obtuso. De modo que somente Briden e Johansen alcan\u00e7aram o bote, e remaram desesperadamente para o Alert enquanto a montanhosa monstruosidade descia desajeitadamente pelas pedras limosas e hesitava, cambaleante, \u00e0 beira d\u2019\u00e1gua.<\/p>\n<p>O vapor continuava a sair do iate a despeito da sa\u00edda de todos os homens para a praia, portanto bastou alguns momentos de febril corre-corre entre rodas e motores para fazer o Alert partir. Lentamente, em meio aos horrores distorcidos daquele indescrit\u00edvel e infernal cen\u00e1rio, o iate come\u00e7ou a singrar as \u00e1guas mort\u00edferas, enquanto sobre as pedras lavradas daquela praia sepulcral que n\u00e3o pertencia a este planeta, a Coisa tit\u00e2nica vinda das estrelas espumava e vozeava como Polifemo praguejando contra o navio de Odisseu em fuga. Ent\u00e3o, mais ousado que o lend\u00e1rio ciclope, o grande Cthulhu deslizou oleosamente para dentro d\u2019\u00e1gua e come\u00e7ou a perseguir o iate, erguendo ondas com suas bra\u00e7adas de pot\u00eancia c\u00f3smica. Briden olhou para tr\u00e1s e enlouqueceu, com ocasionais acessos de riso, at\u00e9 que a morte foi encontr\u00e1-lo certa noite na cabina, enquanto Johansen errava pelo conv\u00e9s a delirar.<\/p>\n<p>Mas Johansen ainda n\u00e3o se rendera. Sabendo que a Coisa alcan\u00e7aria facilmente o Alert antes que o vapor atingisse a press\u00e3o m\u00e1xima, optou por uma sa\u00edda desesperada: regulando o motor para velocidade total, correu como um raio ao conv\u00e9s e reverteu o tim\u00e3o. O mar cobriu-se de remoinhos e espuma, e enquanto o vapor subia cada vez mais, o valente noruegu\u00eas dirigiu a nave contra a abomina\u00e7\u00e3o gelatinosa que o perseguia erguendo-se das imundas ondas espumantes como o castelo de popa de um gale\u00e3o demon\u00edaco. A medonha cabe\u00e7a de polvo com tent\u00e1culos retorcendo-se chegava quase \u00e0 altura do gurup\u00e9s do resoluto iate, mas Johansen prosseguiu inabalavelmente.<\/p>\n<p>Houve um estouro como o de uma bexiga rebentando, o derrame de uma nojeira lamacenta como a que jorra de um peixe-lua partido, um fedor como de mil sepulturas abrindo-se de chofre e um som que o cronista negou-se a registrar. Por um instante o barco foi emporcalhado por uma nuvem verde, acre e cegante, e logo depois havia apenas um empe\u00e7onhado fervilhar \u00e0 r\u00e9, onde \u2013 Deus do C\u00e9u! a espalhada plasticidade daquele inomin\u00e1vel rebento sideral estava nebulosamente recompondo-se na sua execr\u00e1vel forma original, distanciando-se cada vez mais \u00e0 medida em que o Alert ganhava velocidade de seu vapor ascendente.<\/p>\n<p>Isso foi tudo. Depois disso Johansen limitou-se a contemplar o \u00eddolo na cabina e a providenciar comida para si e para o man\u00edaco risonho do seu lado. N\u00e3o tentou navegar depois daquela fa\u00e7anha, pois a experi\u00eancia como que lhe esvaziara a alma. Sobreveio ent\u00e3o a tempestade de 2 de abril e uma concentra\u00e7\u00e3o de nuvens que lhe obscureceram a consci\u00eancia. Teve uma sensa\u00e7\u00e3o de turbilh\u00e3o espectral por l\u00edquidos golfos de infinito, de Jornadas estupefacientes atrav\u00e9s de universos girat\u00f3rios numa cauda de cometa, e de mergulhos hist\u00e9ricos das profundezas do inferno at\u00e9 a lua e da lua de volta \u00e0s profundezas do inferno, tudo isso animado por um coro gargalhante dos deuses ancestrais, disformes e hil\u00e1rios, e dos zombeteiros dem\u00f4nios do T\u00e1rtaro, verdes e com asas de morcego.<\/p>\n<p>Sa\u00eddo desse sonho veio o socorro \u2013 o Vigilant, a corte do almirantado, as ruas de Dunedin e a longa viagem de volta ao lar, \u00e0 velha casa \u00e0s margens do Egeberg. N\u00e3o podia falar nada \u2013 t\u00ea-lo-iam julgado louco. Ele haveria de escrever o que sabia antes que a morte chegasse, mas era necess\u00e1rio que sua esposa de nada desconfiasse. A morte viria como uma b\u00ean\u00e7\u00e3o se ao menos obliterasse as lembran\u00e7as.<\/p>\n<p>Esse foi o documento que eu li, e que ent\u00e3o coloquei na caixa de metal junto com o baixo-relevo e os pap\u00e9is do professor Angell. A eles acrescentarei este meu relato -prova da minha sanidade, no qual reuni as pe\u00e7as de algo que, espero, nunca mais ningu\u00e9m volte a decifrar. Vi tudo o que o universo pode conter de horror, e depois disso at\u00e9 mesmo os c\u00e9us primaveris e as flores de ver\u00e3o ser\u00e3o veneno para mim. Mas n\u00e3o creio que minha vida ser\u00e1 longa. Como meu tio se foi, como o pobre Johansen se foi, tamb\u00e9m eu irei. Sei demais, e o culto ainda vive.<\/p>\n<p>Cthulhu tamb\u00e9m vive ainda, acredito, naquele precip\u00edcio de pedra que o vem abrigando desde a inf\u00e2ncia do sol. Sua amaldi\u00e7oada cidade tornou a afundar, pois o Vigilant percorreu aquela regi\u00e3o ap\u00f3s a tempestade de abril; mas seus adoradores na terra ainda urram, saltam e matam ao redor de \u00eddolos sobre mon\u00f3litos em locais ermos e solit\u00e1rios.<\/p>\n<p>Ele deve ter sido surpreendido pelo afundamento quando se achava no seu abismo negro, do contr\u00e1rio o mundo inteiro estaria agora berrando de pavor e frenesi. Quem sabe qual ser\u00e1 o final? O que emergiu pode afundar, e o que afundou pode emergir. A repugn\u00e2ncia suprema aguarda sonhando nas profundezas e a podrid\u00e3o paira sobre as prec\u00e1rias cidades dos homens. O tempo vir\u00e1\u2026 mas n\u00e3o devo, nem posso pensar! S\u00f3 me resta a esperan\u00e7a de que, se eu n\u00e3o sobreviver a este manuscrito, meus testamenteiros tenham mais precau\u00e7\u00e3o que aud\u00e1cia e impe\u00e7am que outros olhos o vejam.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 conceb\u00edvel que tais grandes poderes ou seres tenham sobrevivido\u2026 sobrevivido de um passado extremamente remoto, quando a consci\u00eancia era provavelmente manifestada em formas e contornos surgidos muito antes do advento da esp\u00e9cie humana\u2026 formas&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[30],"class_list":["post-701","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-h-p-lovecraft"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/701","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=701"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/701\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":710,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/701\/revisions\/710"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=701"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=701"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=701"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}