{"id":708,"date":"2018-07-09T16:19:10","date_gmt":"2018-07-09T16:19:10","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=708"},"modified":"2018-07-09T16:27:55","modified_gmt":"2018-07-09T16:27:55","slug":"o-firme-soldado-de-chumbo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-firme-soldado-de-chumbo","title":{"rendered":"O Firme Soldado de Chumbo"},"content":{"rendered":"<p class=\"maius\">Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irm\u00e3os, porque tinham sido todos feitos da mesma colher de cozinha. Tinham armas aos ombros e olhavam em frente, muito elegantes nos seus uniformes encarnados e azuis. \u2014 Soldados de chumbo! \u2014 foi a primeira coisa que ouviram neste mundo, quando levantaram a tampa da caixa onde estavam.<\/p>\n<p class=\"maius\">Um rapazinho tinha dado esse grito e batido as palmas; tinham-lhos dado como prenda de anos, e ele colocou-os em cima de uma mesa. Os soldados eram todos iguais uns aos outros \u2014 excepto um, que s\u00f3 tinha uma perna; fora o \u00faltimo a ser moldado e j\u00e1 n\u00e3o havia chumbo que chegasse. No entanto, mantinha-se de p\u00e9 t\u00e3o bem como os outros que tinham duas pernas, e \u00e9 ele o her\u00f3i desta hist\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"maius\">Na mesa onde os colocaram havia muitos outros brinquedos, mas aquele em que se reparava logo era um castelo de papel. Pelas suas janelinhas via-se o interior das salas. \u00c0 frente havia pequenas \u00e1rvores \u00e0 volta de um peda\u00e7o de espelho, a fingir que era um lago. Cisnes de cera pareciam flutuar na sua superf\u00edcie e olhavam para o seu reflexo. Toda a cena era um encanto, mas o mais bonito de tudo era uma menina que estava \u00e0 porta; tamb\u00e9m ela era feita de papel, mas tinha uma fina saia de musselina, uma estreita fita azul cruzada nos ombros, como se fosse um xaile, presa por uma brilhante lantejoula quase do tamanho da cara. A encantadora criaturinha tinha os bra\u00e7os estendidos, porque era uma bailarina; tinha mesmo uma perna t\u00e3o levantada que o soldado de chumbo nem conseguia v\u00ea-la; ent\u00e3o ele pensou que ela s\u00f3 tinha uma perna, tal como ele.<\/p>\n<p class=\"maius\">\u201cOra a\u00ed est\u00e1 a mulher que me conv\u00e9m\u201d, pensou ele. \u201cMas \u00e9 t\u00e3o importante; ela vive num castelo, e eu tenho uma caixa\u2026 e estamos vinte e cinco l\u00e1 dentro! N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para ela, com certeza. Mas posso tentar conhec\u00ea-la.\u201d<\/p>\n<p class=\"maius\">Ent\u00e3o, deitou-se ao comprido atr\u00e1s de uma caixa de rap\u00e9 que estava em cima da mesa; da\u00ed podia ver bem a dan\u00e7arina de papel, que continuava de p\u00e9 numa s\u00f3 perna sem perder o equil\u00edbrio.<\/p>\n<p class=\"maius\">Quando anoiteceu, todos os outros soldados de chumbo foram guardados na caixa e as crian\u00e7as foram para a cama. Nessa altura, os brinquedos come\u00e7aram a brincar; jogaram \u00e0s visitas, \u00e0s escolas, \u00e0s batalhas e \u00e0s festas. Os soldados de chumbo chocalhavam na caixa, porque tamb\u00e9m queriam brincar, mas n\u00e3o conseguiam levantara tampa. Os quebra-nozes davam cambalhotas e a pena da ard\u00f3sia rangia a escrever; o barulho era tanto que o can\u00e1rio acordou e se meteu na conversa \u2014 melhor ainda, f\u00ea-lo em verso. Os dois \u00fanicos que n\u00e3o se mexeram foram o soldado de chumbo e a pequena bailarina; ela continuava apoiada na ponta do p\u00e9, com os bra\u00e7os estendidos; ele parado firmemente na sua \u00fanica perna, sem nunca tirar os olhos dela.<\/p>\n<p class=\"maius\">O rel\u00f3gio bateu a meia-noite. Crac! \u2014 a tampa da caixa de rap\u00e9 abriu-se e saltou de l\u00e1 de dentro um duendezinho negro. N\u00e3o havia rap\u00e9 dentro da caixa \u2014 afinal era um truque, um boneco que saltava de uma caixa.<\/p>\n<p>\u2014 Soldado de chumbo! \u2014 guinchou o duende. \u2014 Deixa de olhar para ela!<\/p>\n<p class=\"maius\">Mas o soldado de chumbo fingiu n\u00e3o ouvir.<\/p>\n<p>\u2014 Muito bem, ent\u00e3o amanh\u00e3 vais ver! \u2014 disse o duende.<\/p>\n<p class=\"maius\">Quando amanheceu e as crian\u00e7as se levantaram outra vez, puseram o soldado de chumbo no parapeito da janela. Pode ter sido culpa do duende, ou talvez de uma corrente de ar \u2014 seja como for, a janela abriu-se de repente, e o soldado de chumbo caiu da altura de tr\u00eas andares para a rua. Foi uma queda terr\u00edvel! A perna apontava para cima, tinha a cabe\u00e7a para baixo, e acabou por ficar com a baioneta espetada entre as pedras da cal\u00e7ada.<\/p>\n<p class=\"maius\">A criada e o rapazinho foram para a rua \u00e0 procura dele, mas, embora quase o pisassem, n\u00e3o conseguiram v\u00ea-lo. Se ele tivesse gritado: \u201cEstou aqui!\u201d, t\u00ea-lo-iam encontrado facilmente, mas ele achou que n\u00e3o era um comportamento correcto come\u00e7ar a gritar estando fardado.<\/p>\n<p class=\"maius\">Depois, come\u00e7ou a chover; ca\u00edam grossas pingas \u2014 era um valente aguaceiro. Quando acabou, passaram por ali dois rapazitos da rua.<\/p>\n<p>\u2014 Olha! Disse um deles. \u2014 Est\u00e1 aqui um soldado de chumbo. Vamos met\u00ea-lo num barco.<\/p>\n<p class=\"maius\">Fizeram um barco de papel de jornal, puseram o soldado de chumbo no meio e fizeram-no deslizar pela valeta cheia de \u00e1gua. L\u00e1 foi ele a toda a velocidade e os dois rapazitos corriam a seu lado a bater palmas. Meu Deus, que grandes ondas havia naquela valeta, que mar\u00e9s! Tinha sido uma grande chuvada. O barco de papel balan\u00e7ava para baixo e para cima, por vezes andando \u00e0s voltas, at\u00e9 o soldado de chumbo ficar completamente tonto. Mas manteve-se firme como sempre, sem mexer um m\u00fasculo, sempre a olhar em frente e com a arma ao ombro.<\/p>\n<p class=\"maius\">De repente, o barco entrou num t\u00fanel. Oh, como estava escuro, t\u00e3o escuro como na caixa l\u00e1 em casa!<\/p>\n<p class=\"maius\">\u201cPara onde irei agora?\u201d, pensou o soldado de chumbo. \u201cSim, isto deve ser obra do duende. Ah! Se ao menos a jovem estivesse aqui no barco comigo, n\u00e3o me importava que a escurid\u00e3o fosse duas vezes maior.\u201d<\/p>\n<p class=\"maius\">Subitamente, da sua casa no t\u00fanel, saiu uma grande ratazana da \u00e1gua.<\/p>\n<p>\u2014 Tens passaporte? \u2014 perguntou. \u2014 N\u00e3o podes entrar sem passaporte!<\/p>\n<p class=\"maius\">Mas o soldado de chumbo n\u00e3o disse uma palavra; limitou-se a segurar a arma ainda com mais for\u00e7a. O barco seguiu em frente, e, atr\u00e1s dele, a ratazana, a persegui-lo. Ai! Como ela rangia os dentes e gritava para os paus e palhas que boiavam na \u00e1gua:<\/p>\n<p>\u2014 Obriguem-no a parar! Agarrem-no! N\u00e3o pagou a portagem! N\u00e3o mostrou o passaporte!<\/p>\n<p class=\"maius\">Mas nada conseguia fazer parar o barco, porque a corrente era cada vez mais forte. O soldado de chumbo avistou a luz do dia no fim do t\u00fanel, mas, ao mesmo tempo, ouviu um rugido que bem podia ter assustado o homem mais valente. Imaginem! Mesmo no fim do t\u00fanel, a corrente desembocava num grande canal. Era t\u00e3o terr\u00edvel para ele como seria para n\u00f3s um mergulho numa gigantesca queda de \u00e1gua.<\/p>\n<p class=\"maius\">Mas como podia ele parar? J\u00e1 estava perto da beira. O barco continuou a sua corrida, e o pobre soldado de chumbo aguentou-se o mais firme poss\u00edvel \u2014 ningu\u00e9m podia dizer que tivesse piscado um olho.<\/p>\n<p class=\"maius\">De repente, o pequeno barco rodopiou tr\u00eas ou quatro vezes e encheu-se de \u00e1gua at\u00e9 acima; que podia acontecer sen\u00e3o afundar-se?! O soldado de chumbo ficou de p\u00e9, com \u00e1gua at\u00e9 ao pesco\u00e7o; o barco afundava-se cada vez mais, com o papel a ficar todo mole, at\u00e9 que, por fim, a \u00e1gua cobriu a cabe\u00e7a do soldado de chumbo. Ele pensou na linda bailarina que nunca mais veria e lembrou-se da letra de uma can\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p><em>Em frente, em frente, soldado do imp\u00e9rio!<br \/>\nN\u00e3o receies o perigo nem o cemit\u00e9rio!<\/em><\/p>\n<p class=\"maius\">Depois, o barco de papel desfez-se completamente.<\/p>\n<p class=\"maius\">O soldado de chumbo caiu e foi logo engolido por um peixe.<\/p>\n<p class=\"maius\">Oh, como estava escuro na barriga do peixe! Ainda era pior do que o t\u00fanel e muito mais apertado. Mas a coragem do soldado de chumbo manteve-se inalter\u00e1vel; l\u00e1 ficou, firme como sempre, ainda de arma ao ombro. O peixe nadava que nem um louco, virava-se e revirava-se, e depois ficou absolutamente quieto. Qualquer coisa luziu como um rel\u00e2mpago \u2014 e ent\u00e3o tudo \u00e0 sua volta ficou claro como o dia e uma voz gritou:<\/p>\n<p>\u2014 O soldado de chumbo!<\/p>\n<p class=\"maius\">O peixe tinha sido pescado, levado para a pra\u00e7a, vendido e levado para a cozinha, onde a cozinheira o cortara com uma grande faca. Pegou no soldado, segurando-o pela cintura com o polegar e o indicador, e levou-o para a sala, para que toda a fam\u00edlia visse a extraordin\u00e1ria perso-nagem que tinha viajado dentro do peixe. Mas o soldado de chumbo n\u00e3o se sentia nada orgulhoso. Puseram-no de p\u00e9 em cima da mesa e ent\u00e3o \u2014 bem, o mundo \u00e9 assim mesmo! \u2014 ele viu que estava na mesma sala onde as suas aventuras tinham come\u00e7ado; l\u00e1 estavam as mesmas crian\u00e7as; l\u00e1 estavam os mesmos brinquedos; l\u00e1 estava o belo castelo de papel com a graciosa bailarina \u00e0 porta. Continuava apoiada num perna, com a outra bem levantada no ar. Ah! Ela tamb\u00e9m era firme! O soldado de chumbo estava profundamente comovido; gostaria de ter chorado l\u00e1grimas de chumbo, mas isso n\u00e3o era comportamento de um soldado. Olhou para ela, e ela olhou para ele, mas n\u00e3o trocaram uma palavra.<\/p>\n<p class=\"maius\">E ent\u00e3o aconteceu uma coisa estranha. Um dos rapazinhos pegou no soldado de chumbo e atirou-o para a lareira. N\u00e3o tinha qualquer motivo para fazer isto; deve ter sido outra vez culpa do duende da caixa de rap\u00e9.<\/p>\n<p class=\"maius\">O soldado de chumbo ficou emoldurado pelas chamas. O calor era intenso, mas se vinha do lume ou do seu amor ardente ele n\u00e3o sabia. As suas cores brilhantes j\u00e1 tinham desaparecido \u2014 mas se tinham sido lavadas pela \u00e1gua durante a viagem ou pelo seu desgosto ningu\u00e9m sabia. Olhou para a linda bailarina, e ela olhou para ele; sentiu que estava a derreter-se, mas continuou firme, de arma ao ombro. Subitamente, a porta abriu-se; uma aragem apanhou a bailarina de papel, que voo como uma s\u00edlfide direitinha \u00e0 lareira e ao soldado de chumbo, que a esperava; a\u00ed se transformou numa chama e desapareceu.<\/p>\n<p class=\"maius\">O soldado tamb\u00e9m derreteu rapidamente, ficando reduzido a um montinho de chumbo; e no dia seguinte, quando a criada limpou a lareira, encontrou-o entre as cinzas \u2014 do feitio de um cora\u00e7\u00e3ozinho de chumbo. E a bailarina? Dela s\u00f3 encontraram a lantejoula, preta como a fuligem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irm\u00e3os, porque tinham sido todos feitos da mesma colher de cozinha. Tinham armas aos ombros e olhavam em frente, muito elegantes nos seus uniformes encarnados&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[31],"class_list":["post-708","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-hans-christian-andersen"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/708","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=708"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/708\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":712,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/708\/revisions\/712"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=708"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=708"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=708"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}