{"id":711,"date":"2018-07-09T16:20:11","date_gmt":"2018-07-09T16:20:11","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=711"},"modified":"2018-07-09T16:27:54","modified_gmt":"2018-07-09T16:27:54","slug":"a-familia-feliz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/a-familia-feliz","title":{"rendered":"A Fam\u00edlia Feliz"},"content":{"rendered":"<p class=\"maius\">A maior folha verde que temos neste pa\u00eds \u00e9 com certeza a folha da bardana. Uma menina podia us\u00e1-la como avental; se a pusesse na cabe\u00e7a quando chovia, faria de guarda-chuva \u2014 \u00e9 t\u00e3o grande como isso. Nenhuma bardana cresce sozinha; n\u00e3o, onde h\u00e1 uma, h\u00e1 sempre muitas outras. S\u00e3o um lindo espect\u00e1culo \u2014 e todo esse esplendor costumava ser a comida dos carac\u00f3is. H\u00e1 um g\u00e9nero especial de carac\u00f3is que vive nas folhas, uma esp\u00e9cie de caracol que os ricos costumavam cozinhar e comer. Murmuravam \u00abDelicioso!\u00bb quando os comiam. E foi por isso que se come\u00e7ou a plantar bardanas.<\/p>\n<p class=\"maius\">Ora, havia uma velha mans\u00e3o onde h\u00e1 muito tempo que se tinha deixado de comer carac\u00f3is. Os carac\u00f3is estavam mesmo quase extintos, mas n\u00e3o as bardanas, que cresciam e se multiplicavam. Espalhavam-se pelos caminhos e pelos canteiros de flores at\u00e9 n\u00e3o se ter m\u00e3o nelas: o jardim era uma aut\u00eantica floresta de bardanas. Aqui e ali, havia uma macieira ou uma ameixieira; se n\u00e3o fosse isso, nem se percebia que tinha havido ali um jardim. Havia bardanas por todo o lado \u2014 e entre elas viviam os dois \u00fanicos sobreviventes dos carac\u00f3is, ambos muit\u00edssimo velhos.<\/p>\n<p class=\"maius\">Eles pr\u00f3prios n\u00e3o sabiam que idade tinham, mas lembravam-se muito bem que, em tempos, tinha havido ali muitos mais, que a fam\u00edlia tinha vindo do estrangeiro e que tinha sido especialmente para ela que a floresta de bardanas fora plantada. Nunca tinham sa\u00eddo dali, embora\u00a0<em>soubessem<\/em>\u00a0que havia uma outra coisa no Mundo chamada mans\u00e3o. L\u00e1, era onde os\u00a0<em>cozinhavam<\/em>, era onde eles ficavam pretos e onde eram depois postos numa travessa de prata; mas o que acontecia depois ningu\u00e9m sabia. Quanto a isso, n\u00e3o imaginavam o que se sentia ao ser cozinhado e posto numa travessa de prata, mas parecia que era muito interessante e, com certeza, muito fino. O escaravelho, o sapo e a minhoca foram interrogados sobre o assunto, mas nenhum deles tinha sido cozinhado ou colocado numa travessa de prata.<\/p>\n<p class=\"maius\">Os velhos carac\u00f3is brancos eram os aristocratas daquele mundo \u2014 disso n\u00e3o tinham a menor d\u00favida. A floresta existia s\u00f3 para eles, tal como a antiga mans\u00e3o e a sua travessa de prata.<\/p>\n<p class=\"maius\">Passavam os dias numa felicidade tranquila e isolada e, como n\u00e3o tinham filhos, adoptaram um pequeno caracol vulgar, que criaram como se fosse deles. O pequeno n\u00e3o cresceu, porque n\u00e3o passava de um caracol vulgar. No entanto, os velhotes, especialmente a m\u00e3e-caracol, achavam sempre que ele tinha crescido um bocadinho desde o dia anterior. E quando o pai-caracol parecia n\u00e3o ver a diferen\u00e7a, ela pedia-lhe que apalpasse a pequena casca. E ele l\u00e1 apalpava e concordava que ela tinha raz\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"maius\">Um dia caiu uma grande chuvada.<\/p>\n<p>\u2014 Ouve o tum-tum-tum nas folhas da bardana! \u2014 exclamou o pai-caracol.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, e olha que alguns pingos est\u00e3o a passar \u2014 respondeu a m\u00e3e-caracol. \u2014 Olha, escorrem pelos caules. Meu Deus, vai ficar tudo molhado aqui em baixo! Ainda bem que temos as nossas belas casas, uma para cada um e outra para o nosso pequeno! Realmente, devemos ser os animais mais favorecidos! V\u00ea-se bem que somos os pr\u00edncipes deste mundo. Cada um de n\u00f3s tem uma casa sua assim que nasce, al\u00e9m de uma floresta inteira plantada para n\u00f3s. \u00c0s vezes penso onde \u00e9 que ela acabar\u00e1 e o que haver\u00e1 depois dela\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Nada! \u2014 respondeu o pai-caracol. Ningu\u00e9m pode viver melhor em outro lugar e n\u00e3o estou interessado em ir mais longe.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, mas eu estou! \u2014 continuou a m\u00e3e-caracol. \u2014 Gostaria\u00a0<em>mesmo<\/em>\u00a0de ir at\u00e9 \u00e0 mans\u00e3o e de ser cozinhada, seja l\u00e1 isso o que for, e colocada na travessa de prata. Todos os nossos antepassados passaram por isso, o que mostra que deve ser qualquer coisa de especial.<\/p>\n<p>\u2014 A mans\u00e3o \u00e9 bem capaz de j\u00e1 se ter desmoronado \u2014 disse o pai-caracol. \u2014 Ou de estar coberta por bardanas e as pessoas nem poderem sair de l\u00e1. Seja como for, n\u00e3o precisas de estar com tanta pressa. Andas sempre numa lufa-lufa, e agora o pequeno est\u00e1 a ficar como tu! Em tr\u00eas dias quase chegou ao cimo daquele caule; fico tonto s\u00f3 de o ver rastejar daquela maneira!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o estejas sempre a p\u00f4r defeitos na crian\u00e7a \u2014 disse a m\u00e3e-caracol. \u2014 Ele rasteja com tanto cuidado! Tenho a certeza de que h\u00e1-de dar-nos grandes alegrias. E, afinal, n\u00e3o \u00e9 ele a nossa raz\u00e3o de viver? Olha, j\u00e1 pensaste onde havemos de lhe arranjar uma noiva? N\u00e3o achas que por a\u00ed, nalgum s\u00edtio desta floresta de bardanas, pode haver algu\u00e9m da nossa esp\u00e9cie?<\/p>\n<p>\u2014 Bem, acho que h\u00e1 muitas lesmas e coisas parecidas, dessas que andam por a\u00ed sem casa pr\u00f3pria \u2014 respondeu o velho caracol. \u2014 Mas isso para n\u00f3s seria descer, apesar de elas terem muitas peneiras. No entanto, podemos encarregar as formigas de procurar. Andam sempre numa az\u00e1fama, para um lado e para o outro; como se tivessem muito que fazer; podem muito bem saber de uma esposa para o nosso caracolzinho.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, sim \u2014 disseram as formigas \u2014, conhecemos a noiva mais linda; mas \u00e9 capaz de ser dif\u00edcil, porque \u00e9 uma rainha.<\/p>\n<p>\u2014 Isso n\u00e3o tem qualquer import\u00e2ncia! \u2014 exclamou o velho caracol. \u2014 E tem casa?<\/p>\n<p>\u2014 Tem um pal\u00e1cio! \u2014 retorquiram as formigas. \u2014 Um magn\u00edfico pal\u00e1cio de formigas com setecentos corredores.<\/p>\n<p>\u2014 Obrigada! \u2014 disse a m\u00e3e-caracol. \u2014 O nosso filho n\u00e3o vai para um formigueiro! Se \u00e9 o melhor que podem arranjar, vamos encarregar os mosquitos brancos do assunto; eles voam at\u00e9 muito longe, com chuva ou com sol, e conhecem todos os cantos da floresta.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, sabemos de uma esposa para ele \u2014 responderam os mosquitos. \u2014 A uns cem passos de homem daqui, numa groselheira-brava, vive uma pequena caracoleta com casa. Vive sozinha, e est\u00e1 em muito boa idade de casar. E s\u00f3 a cem passos de homem daqui.<\/p>\n<p>\u2014 Bem \u2014 disse o velho casal \u2014, ela que venha c\u00e1 ter com ele. Ele \u00e9 dono de uma floresta inteira e ela s\u00f3 tem uma groselheira!<\/p>\n<p class=\"maius\">Ent\u00e3o, os mosquitos foram buscar a jovem caracoleta. Levaram oito dias a fazer a viagem, mas isso n\u00e3o desagradou aos pais; mostrava que ela tamb\u00e9m pertencia a uma boa fam\u00edlia de carac\u00f3is.<\/p>\n<p class=\"maius\">E chegou o dia do casamento. Seis pirilampos fizeram o melhor que podiam para fornecer a ilumina\u00e7\u00e3o, mas, \u00e0 parte isso, foi um acontecimento bastante pacato, porque os velhos carac\u00f3is n\u00e3o gostavam muito de festas e par\u00f3dias. A m\u00e3e-caracol fez um discurso encantador, porque o pai-caracol estava demasiado comovido para falar. E depois entregaram toda a floresta ao jovem casal, afirmando, como sempre, que aquele era o melhor lugar do Mundo e que, se o jovem par vivesse uma vida honesta e respeit\u00e1vel e tivesse muitos filhos, ainda podiam um dia ir \u00e0 mans\u00e3o e ser \u00abcozinhados\u00bb (fosse qual fosse o significado de tal coisa\u2026) e colocados numa travessa de prata.<\/p>\n<p class=\"maius\">Depois do discurso, os velhos carac\u00f3is meteram-se em casa e n\u00e3o tornaram a sair. Adormeceram. Os dois jovens passaram a reinar na floresta e tiveram muitos filhos, mas nunca foram cozinhados nem postos numa travessa de prata, de maneira que chegaram \u00e0 conclus\u00e3o de que a mans\u00e3o tinha ru\u00eddo e que as pessoas tinham morrido todas. E, como n\u00e3o havia ningu\u00e9m para os contradizer, devia ser verdade. E a chuva batia nas folhas das bardanas para eles terem m\u00fasica, e o Sol brilhava para iluminar a floresta com muitas cores, e foram muito felizes; toda a fam\u00edlia foi muito feliz; pedem mesmo ter a certeza de que nunca houve fam\u00edlia mais feliz!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A maior folha verde que temos neste pa\u00eds \u00e9 com certeza a folha da bardana. 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