{"id":715,"date":"2018-07-09T16:20:46","date_gmt":"2018-07-09T16:20:46","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=715"},"modified":"2018-07-09T16:27:54","modified_gmt":"2018-07-09T16:27:54","slug":"o-duende-da-mercearia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-duende-da-mercearia","title":{"rendered":"O Duende da Mercearia"},"content":{"rendered":"<p>Era uma vez um estudante, um aut\u00eantico estudante; vivia num s\u00f3t\u00e3o e n\u00e3o possu\u00eda nada. E era uma vez um merceeiro, um aut\u00eantico merceeiro; vivia no r\u00e9s-do-ch\u00e3o e era dono do pr\u00e9dio inteiro. E foi por isso que o duende decidiu morar com o merceeiro. Al\u00e9m disso, todos os Natais recebia uma tigela de papa de aveia com um grande peda\u00e7o de manteiga l\u00e1 dentro. O merceeiro tinha posses para isso, de maneira que o duende continuava a morar na loja. H\u00e1 por aqui algures uma moral, se a procurarem bem.<\/p>\n<p>Uma noite, o estudante entrou na mercearia pela porta das traseiras para comprar um peda\u00e7o de queijo e velas. Fez as compras e depois pagou, e o merceeiro e a mulher acenaram-lhe com a cabe\u00e7a e disseram \u00abboa noite\u00bb. A mulher, contudo, era bem capaz de fazer mais do que acenar; era muito faladora \u2014 falava, falava, falava. Tinha o que se chama o h\u00e1bito de falar pelos cotovelos, disso n\u00e3o havia d\u00favida. O estudante tamb\u00e9m fez um aceno \u2014 e foi nessa altura que viu qualquer coisa escrita no papel que embrulhava o queijo e parou para ler. Era uma p\u00e1gina de um velho livro de poemas, uma p\u00e1gina que nunca devia ter sido arrancada.<\/p>\n<p>\u2014 Tenho aqui mais desse livro, se quiser \u2014 disse o merceeiro. \u2014 Dei a uma velhota alguns gr\u00e3os de caf\u00e9 por ele. Pode ficar com o resto por seis dinheiros, se estiver interessado.<\/p>\n<p>\u2014 Obrigado \u2014 respondeu o estudante. \u2014 D\u00ea-mo em vez do queijo. Passo bem s\u00f3 com p\u00e3o. \u00c9 uma pena usar um livro destes para papel de embrulho! O senhor \u00e9 muito boa pessoa e bastante pr\u00e1tico, mas percebe tanto de poesia como aquela banheira ali ao canto.<\/p>\n<p>Ora isto foi uma frase indelicada, especialmente aquela parte respeitante \u00e0 banheira, mas o merceeiro riu-se, e o estudante tamb\u00e9m; afinal de contas, fora apenas uma brincadeira. Mas o duende ficou aborrecido por algu\u00e9m se atrever a falar assim com o merceeiro \u2014 ainda por cima o senhorio, uma pessoa importante que era dono do pr\u00e9dio todo e vendia manteiga da melhor qualidade.<\/p>\n<p>Nessa noite, quando a loja estava fechada e toda a gente, excepto o estudante, estava na cama, o duende entrou no quarto do merceeiro em bicos de p\u00e9s e roubou \u00e0 mulher do merceeiro o dom de falar pelos cotovelos, porque ela n\u00e3o precisava dele enquanto dormia. A seguir, fez com que cada objecto em que tocava ficasse capaz de exprimir as suas opini\u00f5es t\u00e3o bem como a mulher do merceeiro. Mas s\u00f3 podia falar um de cada vez, o que era uma b\u00ean\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o desatavam todos a falar ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Primeiro, o duende deu o dom de falar pelos cotovelos \u00e0 banheira onde se guardavam os jornais velhos.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 mesmo verdade que n\u00e3o percebes nada de poesia? \u2014 perguntou.<\/p>\n<p>\u2014 Claro que percebo! \u2014 respondeu a banheira. \u2014 A poesia \u00e9 uma coisa que vem no fim das folhas dos jornais e que as pessoas costumam recortar. Acho at\u00e9 que tenho mais poesia dentro de mim do que o estudante; e, apesar disso, sou apenas uma humilde banheira, comparada com o merceeiro.<\/p>\n<p>Depois, o duende deu o dom de falar pelos cotovelos ao moinho de caf\u00e9. Meu Deus, que chinfrineira! Depois, deu-o ao pote de manteiga, e depois \u00e0 caixa registadora. Todos eram da mesma opini\u00e3o da banheira e as opini\u00f5es da maioria t\u00eam de ser respeitadas.<\/p>\n<p>\u2014 Agora posso p\u00f4r o estudante no seu lugar! \u2014 exclamou o duende.<\/p>\n<p>E l\u00e1 foi em bicos de p\u00e9s, pela escada das traseiras acima, at\u00e9 ao s\u00f3t\u00e3o onde morava o estudante. Havia luz l\u00e1 dentro. O duende espreitou pelo buraco da fechadura e viu o estudante a ler o velho livro da loja.<\/p>\n<p>Que grande claridade havia no quarto! Do livro sa\u00eda um brilhante raio de luz, que se tornou num tronco de \u00e1rvore, de uma nobre \u00e1rvore que subiu e espalhou os seus ramos por cima do estudante. As folhas eram novas e verdes, e cada flor tinha o rosto de uma linda rapariga, algumas com olhos escuros e misteriosos e outras com olhos azuis cintilantes. Cada fruto era uma estrela luminosa e o ar estava impregnado de um belo som de can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O duende nunca tinha visto nem ouvido falar de tais maravilhas; e muito menos seria capaz de as imaginar. Portanto, ficou ali \u00e0 porta, em bicos de p\u00e9s, a espreitar, de olhos muito abertos, at\u00e9 que a luz se apagou. O estudante devia ter assoprado a vela e ido para a cama \u2014 mas o duende continuava sem ser capaz de arredar p\u00e9. Parecia-lhe ouvir a linda m\u00fasica, que ainda ecoava no ar, ajudando o estudante a adormecer.<\/p>\n<p>\u2014 Isto custa a crer \u2014 murmurou o duende para consigo. \u2014 Nunca esperei nada do g\u00e9nero. Acho que vou ficar no s\u00f3t\u00e3o com o estudante. \u2014 Depois pensou um bocado e suspirou: \u2014 Tenho de ser sensato; o estudante n\u00e3o tem papas de aveia.<\/p>\n<p>E portanto, \u00e9 claro, voltou para baixo, para a mercearia. Ainda bem que o fez, porque a banheira tinha quase esgotado o dom de falar pelos cotovelos, contando todas as not\u00edcias dos jornais que estavam guardados dentro dela. Tinha falado para um lado e estava prestes a virar-se para o outro e a continuar quando o duende devolveu o dom de falar pelos cotovelos \u00e0 mulher do merceeiro adormecida. E, a partir dessa altura, todas as coisas da loja, desde a caixa registadora at\u00e9 \u00e0 lenha, seguiram as opini\u00f5es da banheira; tinham-lhe tanto respeito que, depois daquilo, quando o merceeiro lia nos jornais cr\u00edticas de pe\u00e7as ou de livros, pensavam que ele tinha aprendido tudo com a banheira.<\/p>\n<p>Mas o duende j\u00e1 n\u00e3o aguentava ficar ali sentado a ouvir toda a sabedoria e bom senso pronunciados na loja; assim que via luz atrav\u00e9s das frinchas da porta do s\u00f3t\u00e3o, parecia ser atra\u00eddo para l\u00e1 por cordelinhos, e tinha de subir a escada e p\u00f4r-se a espreitar pelo buraco da fechadura. Sempre que o fazia, sentia-se invadido por uma sensa\u00e7\u00e3o de indiz\u00edvel grandeza \u2014 a esp\u00e9cie de sensa\u00e7\u00e3o que se tem quando se v\u00ea o mar encapelado com ondas t\u00e3o fortes que o pr\u00f3prio Deus podia vir montado nelas! Que maravilha seria sentar-se debaixo da \u00e1rvore com o estudante! Mas era imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Entretanto, contentava-se com o buraco da fechadura. Olhava atrav\u00e9s dele todas as noites, ali parado no patamar deserto, mesmo quando o vento do Outono come\u00e7ou a soprar pela claraboia, fazendo-o quase morrer de frio. Mas ele nem o sentia at\u00e9 a luz se apagar no quartinho do s\u00f3t\u00e3o e a m\u00fasica se calar a pouco e pouco, ficando apenas o uivar do vento. Brr! Ent\u00e3o, sentia como estava gelado e descia sem fazer barulho para o seu canto secreto da loja, quente e confort\u00e1vel. Em breve viria a tigela de papas de aveia do Natal, com o seu grande peda\u00e7o de manteiga. Sim, o merceeiro era a escolha certa.<\/p>\n<p>Mas uma noite, j\u00e1 bem tarde, o duende acordou com uma grande agita\u00e7\u00e3o \u00e0 sua volta. Estavam pessoas a bater nos estores, o guarda-nocturno apitava: havia fogo, e toda a rua parecia estar em chamas. Que casa \u00e9 que estava a arder? Aquela ou a do lado? Onde era o fogo? Que gritos! Que p\u00e2nico! Que agita\u00e7\u00e3o! A mulher do merceeiro estava t\u00e3o desorientada que tirou os brincos de ouro das orelhas e meteu-os num bolso, para salvar pelo menos alguma coisa\u2026 O merceeiro foi a correr buscar os seus valores, a criadita foi buscar o seu xaile de seda que tinha comprado com o ordenado. Toda a gente foi a correr buscar aquilo a que dava mais valor.<\/p>\n<p>E o duende fez o mesmo. Num pulo ou dois subiu a escada e entrou no quarto do estudante, que estava calmamente \u00e0 janela, vendo o inc\u00eandio na casa em frente. O duende pegou no livro maravilhoso, que estava em cima da mesa, meteu-o dentro do bon\u00e9 vermelho e agarrou-se a ele com os dois bracitos. A coisa mais preciosa da casa estava salva!<\/p>\n<p>Depois, foi a correr para cima do telhado, mesmo para o alto da chamin\u00e9, e ficou ali sentado, iluminado pelas chamas da casa a arder do outro lado da rua, sempre firmemente agarrado ao bon\u00e9 vermelho com o tesouro l\u00e1 dentro.<\/p>\n<p>Agora sabia para onde o seu cora\u00e7\u00e3o o puxava: estudante?, merceeiro? \u2014 a escolha era clara.<\/p>\n<p>Mas, quando o fogo ficou extinto e o duende j\u00e1 tinha tido tempo para pensar com mais calma, bem\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Divido o tempo entre eles \u2014 decidiu. \u2014 N\u00e3o sou capaz de abandonar o merceeiro, por causa das papas de aveia.<\/p>\n<p>Mesmo coisa de ser humano, francamente! Tamb\u00e9m n\u00f3s gostamos de nos dar bem com o merceeiro por causa das papas de aveia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era uma vez um estudante, um aut\u00eantico estudante; vivia num s\u00f3t\u00e3o e n\u00e3o possu\u00eda nada. E era uma vez um merceeiro, um aut\u00eantico merceeiro; vivia no r\u00e9s-do-ch\u00e3o e era dono do pr\u00e9dio inteiro. 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