{"id":719,"date":"2018-07-09T16:21:48","date_gmt":"2018-07-09T16:21:48","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=719"},"modified":"2018-07-09T16:27:54","modified_gmt":"2018-07-09T16:27:54","slug":"cinco-na-mesma-vagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/cinco-na-mesma-vagem","title":{"rendered":"Cinco na Mesma Vagem"},"content":{"rendered":"<p>Numa vagem estavam cinco ervilhas. Estavam ainda verdes e verde era tamb\u00e9m a vagem; por esta raz\u00e3o acreditavam que o mundo era verde; \u2013 que o leitor se considere na posi\u00e7\u00e3o das ervilhas, e facilmente perceberia esta ilus\u00e3o. Cresceu a vagem, cresciam as ervilhas, tendo sempre o cuidado de se conservarem bem alinhadas e nas respectivas dist\u00e2ncias.<br \/>\nO sol aquecia a vagem; a chuva e as gotas de orvalho a tornavam clara e transparente, e assim, durante o dia, gozavam as ervilhas uma doce claridade e durante a noite as trevas lhes favoreciam o sono. Mas, crescendo, tornaram-se s\u00e9rias e cismadoras.<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o ficaremos sempre aqui? disse uma delas. Muitas coisas h\u00e1-de haver l\u00e1 fora dignas de admira\u00e7\u00e3o. Passaram algumas semanas e elas amareleceram.<\/p>\n<p>\u2013 Agora est\u00e1 tudo amarelo, diziam as cinco ervilhas; muitas voltas d\u00e1 o mundo.<\/p>\n<p>Subitamente sentiram uma viva como\u00e7\u00e3o; um homem arrancara a vagem e a lan\u00e7ara num cesto com muitas outras.<br \/>\n\u2013 Ora enfim, vamos ter a liberdade, disseram as ervilhas; e esperavam com impaci\u00eancia o grande e venturoso momento.<br \/>\n\u2013 Qual de n\u00f3s ir\u00e1 mais longe no mundo, e chegar\u00e1 a uma posi\u00e7\u00e3o mais elevada? disse a mais pequena das cinco. Em breve o saberemos.<br \/>\n\u2013 Seja feita a vontade do Senhor! disse a maior, com sincera resigna\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTraz! abriu-se a vagem: e as cinco ervilhas rolaram na m\u00e3ozita dum rapaz.<br \/>\n\u2013 Oh! que belas balas para a minha espingarda! exclamou ele, e meteu uma no tubo de lata e largou a espiral.<br \/>\n\u2013 Vou correr mundo, pensou a ervilha cheia de entusiasmo. E desapareceu. O rapaz introduziu a segunda no cano.<br \/>\n\u2013 Agora vou parar ao sol, pensou a ervilha, descrevendo a sua par\u00e1bola. Que vagem t\u00e3o quentinha que hei-de ter l\u00e1.<\/p>\n<p>As tr\u00eas ervilhas restantes, menos ambiciosas, assustaram-se vendo as grandes cambalhotas das suas companheiras, e deixaram-se escorregar e cair no ch\u00e3o; mas o rapazito apanhou-as tamb\u00e9m, dando lhes o mesmo destino.<br \/>\n\u2013 Chegou a minha vez, disse a \u00faltima, cumpra-se a vontade do Senhor! e foi cair na janela duma casa pobre, antes uma choupana, numa fenda cheia de musgo e terra.<br \/>\nO musgo em breve cercou e envolveu o pequeno gr\u00e3o. Na choupana morava uma infeliz mulher que vivia de fazer recados e de pesados trabalhos. Aceitava os trabalhos mais custosos, porque era forte e corajosa e\u2026 era m\u00e3e; e a_ filha, uma crian\u00e7a p\u00e1lida e loura, flutuava, havia quase um ano, entre a vida e a morte.<\/p>\n<p>\u2013 Tamb\u00e9m esta vai para o c\u00e9u, dizia a pobre m\u00e3e; vai juntar-se \u00e0 irm\u00e3zinha. Meu Deus! j\u00e1 me levastes uma, deixai-me esta, Senhor! Est\u00e1s t\u00e3o doente, t\u00e3o fraca, parece-me que n\u00e3o escapas, filha!<\/p>\n<p>Chegou a primavera, e, uma manh\u00e3, quando a m\u00e3e ia sair, o sol, rompendo a neve iluminou com tal intensidade a janela da choupana, que a doente olhou para l\u00e1 admirada.<br \/>\n\u2013 Parece-me, disse ela, ver o que quer que \u00e9, a tremer, ali na janela. Que \u00e9?<br \/>\nA m\u00e3e abriu a janela.<br \/>\n\u2013 Olha a gra\u00e7a! disse ela, \u00e9 uma ervilha que est\u00e1 aqui entre o musgo; j\u00e1 tem umas folhinhas; como viria ela aqui parar?<br \/>\n\u2013 N\u00e3o a arranque, m\u00e3e, deixe ver se ela cresce muito\u2026<br \/>\n\u2013 N\u00e3o, filha, n\u00e3o a arranco. Queres v\u00ea-la mais de perto?<br \/>\nE aproximou o leito da janela, para que a filha visse melhor a planta delicada; depois abra\u00e7ou-a e saiu.<br \/>\n\u00c0 noite, assim que entrou, disse-lhe a pequena:<br \/>\n\u2013 J\u00e1 estou melhor, fez-me bem o calor do sol, e, olhe, vendo como a ervilha ali nasceu e vai crescendo, pensei que me havia de curar e que o sol e o ar me fariam bem.<br \/>\n\u2014 Queira Deus! respondeu a m\u00e3e, ainda assim com bem pouca esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>No dia seguinte a pobrezinha rodeou a ervilha com um pequeno cani\u00e7ado; passados dias as hastes verdes e sarmentosas se entrela\u00e7avam cheias de vi\u00e7o e frescura, e n\u00e3o tardou muito a aparecer a primeira flor.<\/p>\n<p>\u2013 Feliz press\u00e1gio! pensou a m\u00e3e, e come\u00e7ou a ter tamb\u00e9m esperan\u00e7as na cura da pobre crian\u00e7a. A doentinha falava j\u00e1 com mais anima\u00e7\u00e3o; levantava-se e assentava-se sem ajuda, e olhava sempre com o maior prazer, com afei\u00e7\u00e3o at\u00e9, a planta que revestira a janela com um cortinado de verdura. Uma semana mais tarde, podia ela j\u00e1 estar algumas horas fora do leito, todos os dias. Assentava-se junto da janela e a\u00ed, em companhia das flores alvas e rosadas, gozava da suavidade do ar e do calor do sol.<br \/>\n\u2014 Foi o bom Deus, dizia a alegre m\u00e3e, foi o bom Deus, minha filha, que fez crescer a pobre planta numa fenda cheia de musgo para que o seu aspecto alegrasse os teus olhos e nos desse a ambas coragem e esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>E as outras ervilhas? que seria feito delas? Uma ca\u00edra num telhado e foi engolida por um pombo, e a mesma sorte tiveram as outras duas; sempre serviram para alguma cousa. A outra, a tal que desejava ir para o sol, caiu mesmo no meio da regueira, e a\u00ed ficou, na lama, cada vez mais inchada.<\/p>\n<p>\u2013 Se isto continua, dizia ela, arrebentarei sem d\u00favida. Estou certa que nenhuma outra ervilha atingiu um t\u00e3o colossal desenvolvimento; das cinco que est\u00e1vamos na mesma vagem sou eu a mais not\u00e1vel, mas muito mais not\u00e1vel.<br \/>\nTalvez minhas irm\u00e3s tenham alcan\u00e7ado posi\u00e7\u00f5es eminentes? Mas o importante \u00e9 engordar.<\/p>\n<p>Um dia a rapariga da choupana, completamente restabelecida, os olhos brilhantes, as faces rosadas, aproximou-se da janela, elevou ao c\u00e9u as m\u00e3ozinhas postas e do \u00edntimo do seu cora\u00e7\u00e3o agradeceu a Deus o ter-lhe restitu\u00eddo a sa\u00fade, e o ter poupado \u00e1 m\u00e3e a dor imensa de ver morrer a sua ultima filha; e depois inclinou o olhar sobre a planta, que tinha as folhas ainda verdes, mas cujas flores haviam j\u00e1 sido substitu\u00eddas por formosas vagens.<\/p>\n<p>\u2013 E tu, minha pobre planta, verde como a esperan\u00e7a e que foste para mim o primeiro sinal da protec\u00e7\u00e3o divina, tu n\u00e3o tardar\u00e1s a amarelecer e a secar. Mas eu n\u00e3o te esquecerei; colherei os teus gr\u00e3os e todos os anos os teus descendentes crescer\u00e3o tratados pelas minhas m\u00e3os aqui nesta janela; e as suas flores ser\u00e3o sempre para mim as mais encantadoras e mimosas. E a ervilha, confiada nesta promessa da inocente, regozijou-se pensando que o beneficio dela seria \u00fatil \u00e0 sua posteridade.<\/p>\n<p>\u2013 Seja feita a vontade do Senhor! repetia ela. Pobre ervilha como sou, a minha exist\u00eancia limita-se a uma esta\u00e7\u00e3o; mas como \u00e9 agrad\u00e1vel pensar que hei-de sobreviver nos filhos, e que eles ser\u00e3o ainda protegidos pelas recorda\u00e7\u00f5es que eu deixar! N\u00e3o ser\u00e1 este um modo de ir longe, bem longe no mundo?<\/p>\n<p>E no entretanto a regueira l\u00e1 ia levando a sua \u00e1gua f\u00e9tida e turva, murmurando:<\/p>\n<p>\u2013 C\u00e1 levo a minha ervilha. Tanto engordou, tanto se saturou de lama, que se desfez em podrid\u00e3o. N\u00e3o deixou nem um g\u00e9rmen, nem uma lembran\u00e7a. Serviu apenas para ajuntar alguns \u00e1tomos sem nome aos que eu tenho j\u00e1 e que servem para alimentar a terra e os animais imundos. Fim dos ambiciosos! Querem a princ\u00edpio ir para o sol e quando lhes sucede cair na lama, acham-se t\u00e3o bem, t\u00e3o no seu elemento que n\u00e3o pedem mais nada. A este respeito as ervilhas parecem-se muito com os homens.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa vagem estavam cinco ervilhas. 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