{"id":720,"date":"2018-07-09T16:24:22","date_gmt":"2018-07-09T16:24:22","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=720"},"modified":"2018-07-09T16:27:53","modified_gmt":"2018-07-09T16:27:53","slug":"o-rolxinol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-rolxinol","title":{"rendered":"O Rolxinol"},"content":{"rendered":"<p class=\"maius\">Sabem com certeza que na China o imperador \u00e9 chin\u00eas e que todas as outras pessoas s\u00e3o chinesas tamb\u00e9m. Esta hist\u00f3ria aconteceu h\u00e1 muitos anos, mas \u00e9 precisamente por isso que devem ouvi-la agora, antes que seja esquecida.<\/p>\n<p class=\"maius\">O pal\u00e1cio do imperador era o melhor do Mundo, todo ele constru\u00eddo da mais rara porcelana \u2014 n\u00e3o tinha pre\u00e7o, mas era t\u00e3o fr\u00e1gil e delicado que era preciso tomar todo o cuidado quando se andava l\u00e1 dentro. O jardim do pal\u00e1cio estava coberto de flores maravilhosas, nunca vistas em outro lado; as mais bonitas de todas tinham sininhos de prata, que tocavam para se saber sempre que passava algu\u00e9m.<\/p>\n<p class=\"maius\">Sim, tudo no jardim do imperador tinha sido muito bem planeado, e ele estendia-se at\u00e9 t\u00e3o longe que nem o jardineiro fazia a menor ideia onde acabava. Se se fosse sempre andando chegava-se a uma bela floresta com \u00e1rvores muito altas e lagos muito fundos. A floresta ia at\u00e9 ao mar, que era azul e tamb\u00e9m muito fundo; grandes navios podiam navegar mesmo por baixo dos ramos das \u00e1rvores. Nesses ramos vivia um rouxinol que cantava t\u00e3o bem que at\u00e9 o pobre pescador, com todas as suas dificuldades, parava de deitar as redes todas as noites para o ouvir.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, que maravilha! \u2014 dizia ele.<\/p>\n<p class=\"maius\">Mas depois tinha de continuar a trabalhar e esquecia-se da ave. Contudo, na noite seguinte, assim que o rouxinol tornava a cantar, o pescador erguia os olhos das redes e dizia mais uma vez:<\/p>\n<p>\u2014 Ah, que maravilha!<\/p>\n<p class=\"maius\">Vinham viajantes de todos os pa\u00edses do Mundo para admirar a cidade, o pal\u00e1cio e os jardins do imperador. Mas, assim que ouviam o rouxinol, todos diziam:<\/p>\n<p>\u2014 Isto \u00e9 o melhor de tudo!<\/p>\n<p class=\"maius\">E, quando voltavam aos seus pa\u00edses, continuavam a falar da ave. S\u00e1bios escreveram livros sobre a cidade e o pal\u00e1cio, mas o rouxinol era elogiado mais do que todas as outras maravilhas, e poetas escreveram emocionantes poemas sobre a ave da floresta perto do mar.<\/p>\n<p class=\"maius\">Estes livros eram lidos em todo o mundo, e, um dia, alguns deles chegaram \u00e0s m\u00e3os do imperador. L\u00e1 ficou ele, sentado na sua cadeira dourada, a ler sem parar; de vez em quando acenava com a cabe\u00e7a. Estava contente com as espl\u00eandidas descri\u00e7\u00f5es do seu reino. Ent\u00e3o, chegou \u00e0 frase: \u201cMas, apesar de todas estas maravilhas, nada se compara ao rouxinol.\u201d<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9 isto?! \u2014 exclamou o imperador. \u2014 O rouxinol? Nunca ouvi falar dele. Imaginem! As coisas que aprendemos nos livros!<\/p>\n<p class=\"maius\">Ent\u00e3o mandou chamar o camareiro.<\/p>\n<p>\u2014 Vi aqui neste livro que temos uma ave admir\u00e1vel chamada rouxinol \u2014 disse o imperador. \u2014 Parece que \u00e9 a melhor coisa do meu vasto imp\u00e9rio. Por que \u00e9 que ningu\u00e9m me falou dele?<\/p>\n<p>\u2014 Bem \u2014 respondeu o camareiro \u2014, nunca ouvi ningu\u00e9m falar nessa criatura. De certeza que nunca foi apresentada na corte.<\/p>\n<p>\u2014 Quero que venha aqui esta noite cantar para mim \u2014 disse o imperador. \u2014 \u00c9 uma vergonha que toda a gente saiba o que possuo e eu n\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2014 Nunca ouvi falar nele \u2014 repetiu o camareiro \u2014, mas vou procur\u00e1-lo e hei-de encontr\u00e1-lo!<\/p>\n<p class=\"maius\">Sim, mas onde? O camareiro subiu e desceu todas as escadas, andou por todos os sal\u00f5es e corredores, mas, de todas as pessoas que encontrou, nenhuma tinha ouvido falar do rouxinol. Voltou apressado \u00e0 presen\u00e7a do imperador e disse-lhe que aquilo devia ser uma hist\u00f3ria inventada pelos escritores.<\/p>\n<p>\u2014 Vossa Majestade Imperial n\u00e3o deve acreditar em tudo o que aparece escrito. As coisas que os autores inventam! \u00c9 mesmo magia negra!<\/p>\n<p>\u2014 Mas o livro onde eu soube da ave \u2014 afirmou o imperador \u2014 foi-me enviado pelo poderoso imperador do Jap\u00e3o, portanto n\u00e3o pode ser mentira! Quero ouvir o rouxinol! Quero ouvi-lo esta noite.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0<em>Tsing-pe<\/em>! \u2014 respondeu o camareiro.<\/p>\n<p class=\"maius\">E l\u00e1 foi ele outra vez escada abaixo e escada acima, por todos os sal\u00f5es e corredores; metade da corte andava a correr atr\u00e1s dele. Por fim, encontraram uma pobre rapariguinha na cozinha.<\/p>\n<p>\u2014 O rouxinol? \u2014 perguntou ela. \u2014 Meu Deus! Claro que sei! Que bem que ele canta! A maior parte das noites deixam-me levar para casa alguns restos de comida para a minha m\u00e3e, que est\u00e1 doente. Vivemos perto do lago, do outro lado da floresta. E quando volto para o pal\u00e1cio, cansada, sento-me um bocadinho e fico a ouvi-lo cantar.<\/p>\n<p>\u2014 Rapariguinha! \u2014 exclamou o camareiro \u2014, ofere\u00e7o-te um lugar permanente na cozinha e dou-te licen\u00e7a para veres o imperador a jantar se nos levares at\u00e9 ao rouxinol. A sua presen\u00e7a \u00e9 exigida esta noite na corte.<\/p>\n<p class=\"maius\">Ent\u00e3o, partiram em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 floresta onde o rouxinol costumava cantar; mais de metade da corte foi com eles. Enquanto iam andando, uma vaca mugiu.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! \u2014 exclamou um pajem. \u2014 J\u00e1 estou a ouvi-lo! Para um animalzinho t\u00e3o pequeno faz um barulho extraordin\u00e1rio. Mas, sabem, tenho a certeza de j\u00e1 o ter ouvido.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o, aquilo \u00e9 uma vaca a mugir! \u2014 exclamou a rapariguinha. \u2014 Ainda temos de andar muito.<\/p>\n<p class=\"maius\">As r\u00e3s come\u00e7aram a coaxar num charco.<\/p>\n<p>\u2014 Maravilhoso! \u2014 exclamou o capel\u00e3o do imperador. \u2014 J\u00e1 estou a ouvir a can\u00e7\u00e3o! Parecem mesmo sininhos de igreja!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o, isso s\u00e3o r\u00e3s \u2014 disse a rapariguinha da cozinha. \u2014 Mas devemos estar quase a ouvi-lo.<\/p>\n<p class=\"maius\">Ent\u00e3o, o rouxinol come\u00e7ou a cantar.<\/p>\n<p>\u2014 L\u00e1 est\u00e1 ele! \u2014 disse a rapariguinha. \u2014 Oi\u00e7am! Olhem! Est\u00e1 ali! \u2014 e apontou para um passarinho cinzento por entre os ramos.<\/p>\n<p>\u2014 Ser\u00e1 poss\u00edvel? \u2014 exclamou o camareiro. \u2014 Nunca pensei que fosse assim. Parece t\u00e3o vulgar! T\u00e3o simples! Talvez tenha perdido a cor quando viu todas estas visitas importantes.<\/p>\n<p>\u2014 Rouxinolzinho! \u2014 chamou a rapariguinha. \u2014 O nosso gracioso imperador gostaria muito que cantasses para ele.<\/p>\n<p>\u2014 Com o maior prazer \u2014 disse o rouxinol, continuando a cantar t\u00e3o bem que era um encanto ouvi-lo.<\/p>\n<p>\u2014 Parecem mesmo sinos de vidro \u2014 disse o camareiro. \u2014 N\u00e3o percebo como \u00e9 que nunca o t\u00ednhamos ouvido. Vai ser um \u00eaxito na corte!<\/p>\n<p>\u2014 Querem que torne a cantar para o imperador? \u2014 perguntou o rouxinol, que pensava que uma das visitas era o imperador.<\/p>\n<p>\u2014 Excelent\u00edssimo rouxinol \u2014 disse o camareiro \u2014, tenho a honra e o prazer de o convidar para um concerto no pal\u00e1cio esta noite, onde encantar\u00e1 Sua Majestade Imperial com as suas lindas cantigas.<\/p>\n<p>\u2014 Soam melhor na floresta \u2014 afirmou o rouxinol.<\/p>\n<p class=\"maius\">Apesar disso, foi com eles de boa vontade quando ouviu dizer que era desejo do imperador.<\/p>\n<p class=\"maius\">Entretanto, que limpezas iam pelo pal\u00e1cio! As paredes e o soalho de porcelana brilhavam, lustrosos, \u00e0 luz de milhares de luzes douradas. Mesmo no meio do grande sal\u00e3o, junto do trono do imperador, estava um poleiro dourado para o rouxinol. Toda a corte estava presente, e a pequena criadinha da cozinha teve autoriza\u00e7\u00e3o para ficar atr\u00e1s da porta, porque j\u00e1 tinha o t\u00edtulo oficial de Verdadeira Criada de Cozinha. Todos os olhos estavam postos no passarinho cinzento quando o imperador lhe fez sinal que come\u00e7asse.<\/p>\n<p class=\"maius\">Ent\u00e3o, o rouxinol cantou t\u00e3o bem que o imperador ficou com os olhos cheios de l\u00e1grimas, que lhe escorreram pelas faces; e o rouxinol continuou a cantar ainda melhor, de modo que cada nota foi direitinha ao cora\u00e7\u00e3o do imperador. Este ficou muito satisfeito; o rouxinol, declarou ele, iria receber o seu sapato dourado para usar ao pesco\u00e7o. Mas este agradeceu e recusou, porque j\u00e1 se sentia recompensado.<\/p>\n<p>\u2014 Vi l\u00e1grimas nos olhos do imperador. Pode l\u00e1 haver alguma d\u00e1diva maior do que essa? As l\u00e1grimas de um imperador t\u00eam um poder estranho. J\u00e1 fui suficientemente recompensado.<\/p>\n<p class=\"maius\">E cantou mais uma can\u00e7\u00e3o com a sua voz maviosa.<\/p>\n<p>\u2014 Muito espirituoso, muito divertido; a criatura \u00e9 namoradeira \u2014 diziam as damas da corte, enchendo as bocas de \u00e1gua para fazerem um ru\u00eddo de gargarejo.<\/p>\n<p class=\"maius\">Por que \u00e9 que n\u00e3o haviam de ser tamb\u00e9m rouxin\u00f3is? At\u00e9 os lacaios e as criadas de quarto acenavam, com ar de aprova\u00e7\u00e3o, o que significa muito, porque estes s\u00e3o sempre os mais dif\u00edceis de contentar. N\u00e3o havia d\u00favida: o rouxinol era um \u00eaxito.<\/p>\n<p class=\"maius\">Ficaria na corte e teria uma gaiola s\u00f3 para si, com autoriza\u00e7\u00e3o para ir apanhar ar duas vezes durante o dia e uma vez \u00e0 noite. Seria acompanhado, em cada excurs\u00e3o, por doze criados, cada um a segurar firmemente uma fita de seda atada a uma patinha da ave. N\u00e3o, essas sa\u00eddas n\u00e3o eram muito divertidas.<\/p>\n<p class=\"maius\">Um dia, chegou um grande embrulho para o imperador. Trazia uma palavra escrita por fora: ROUXINOL.<\/p>\n<p>\u2014 Olha! Outro livro sobre a nossa famosa ave! \u2014 exclamou o imperador.<\/p>\n<p class=\"maius\">Mas n\u00e3o era um livro; era um pequeno brinquedo mec\u00e2nico dentro de una caixa, um rouxinol de corda. Tinha o feitio de um verdadeiro, mas estava coberto de diamantes, rubis e safiras. Quando se lhe dava corda, cantava uma das can\u00e7\u00f5es que o verdadeiro passarinho costumava cantar, e a sua cauda andava para baixo e para cima, brilhando em prata e ouro. A volta do pesco\u00e7o trazia uma fita, onde estava escrito: \u201cO rouxinol do imperador do Jap\u00e3o nada vale comparado com o rouxinol do imperador da China.\u201d<\/p>\n<p>\u2014 Que maravilha! \u2014 disseram todos.<\/p>\n<p class=\"maius\">E o mensageiro que tinha trazido o presente recebeu o t\u00edtulo de Principal Portador Imperial de Rouxin\u00f3is.<\/p>\n<p>\u2014 Agora t\u00eam de cantar juntos. Que dueto que vai ser!<\/p>\n<p class=\"maius\">Ent\u00e3o os dois passarinhos tiveram de cantar juntos, mas n\u00e3o foi um \u00eaxito. O problema era que o verdadeiro rouxinol cantava \u00e0 sua maneira e a can\u00e7\u00e3o do outro sa\u00eda de uma m\u00e1quina.<\/p>\n<p>\u2014 Isto n\u00e3o \u00e9 vergonha nenhuma \u2014 afirmou o Mestre da M\u00fasica Imperial. \u2014 Est\u00e1 perfeitamente afinado: na realidade, ele at\u00e9 podia ser um dos meus alunos.<\/p>\n<p class=\"maius\">Ent\u00e3o, o p\u00e1ssaro de corda foi posto a cantar sozinho. Agradou quase tanto \u00e0 corte como o verdadeiro, e evidentemente que era muito mais bonito \u00e0 vista, todo brilhante, como uma pulseira ou um alfinete de peito. Cantou a mesma can\u00e7\u00e3o trinta e tr\u00eas vezes sem se cansar. Os cortes\u00f5es n\u00e3o se importariam de a ouvir mais umas vezes, mas o imperador achou que era a vez do verdadeiro.<\/p>\n<p class=\"maius\">Mas onde\u00a0<em>estava<\/em>\u00a0o rouxinol? Tinha voado pela janela, para a sua floresta verdejante, sem ningu\u00e9m dar por isso.<\/p>\n<p>\u2014 Tch, tch, tch! \u2014 fez o imperador, aborrecido. \u2014 Que significa isto?<\/p>\n<p class=\"maius\">E os cortes\u00e3os resmungavam e franziam as testas.<\/p>\n<p>\u2014 Mas temos aqui o melhor! \u2014 disseram.<\/p>\n<p class=\"maius\">E o rouxinol de corda teve de cantar outra vez.<\/p>\n<p class=\"maius\">Era a trig\u00e9sima quarta vez que o ouviam, mas ainda n\u00e3o sabiam bem a can\u00e7\u00e3o. Era dif\u00edcil de aprender. E o Mestre da M\u00fasica Imperial teceu \u00e0 ave os mais altos elogios: era superior ao rouxinol vivo, n\u00e3o apenas na apar\u00eancia exterior, mas tamb\u00e9m no que tinha l\u00e1 dentro.<\/p>\n<p>\u2014 Sabem, senhores e senhoras e, acima de todos, Vossa Majestade Imperial, com o verdadeiro rouxinol nunca se sabe o que vai acontecer, mas com a ave de corda tem-se a certeza; \u00e9 tudo f\u00e1cil: podemos abri-la e ver como pensa, como cada nota segue a outra com precis\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2014 Era isso mesmo o que eu estava a pensar \u2014 ouviu-se aqui e ali.<\/p>\n<p class=\"maius\">E, na segunda-feira seguinte, o Mestre da M\u00fasica Imperial foi autorizado a mostrar publicamente o p\u00e1ssaro ao povo. Tamb\u00e9m ele devia ouvi-lo cantar, tinha declarado o imperador. E assim foi. E ficaram todos t\u00e3o entusiasmados como se estivessem tontos de beberem muito ch\u00e1, um antigo costume chin\u00eas. Disseram todos:<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p class=\"maius\">E levantaram os indicadores e acenaram com as cabe\u00e7as.<\/p>\n<p class=\"maius\">Mas o pobre pescador, que tinha ouvido o verdadeiro rouxinol, afirmou:<\/p>\n<p>\u2014 L\u00e1 bonito \u00e9\u2026 e at\u00e9 parece o rouxinol\u2026 Mas parece que falta qualquer coisa, n\u00e3o sei bem\u2026<\/p>\n<p class=\"maius\">O verdadeiro rouxinol foi banido do reino do imperador.<\/p>\n<p class=\"maius\">O p\u00e1ssaro artificial recebeu um lugar especial numa almofada de seda junto da cama do imperador; empilhados \u00e0 volta estavam todos os presentes que lhe tinham dado, todo o ouro e j\u00f3ias. Foi distinguido com o t\u00edtulo de Principal Trovador Imperial da Mesa-de-Cabeceira, Primeira Classe \u00e0 Esquerda, porque at\u00e9 os imperadores t\u00eam o cora\u00e7\u00e3o do lado esquerdo. O Mestre da M\u00fasica Imperial escreveu um solene trabalho em vinte e cinco volumes sobre o p\u00e1ssaro mec\u00e2nico. Era muito extenso e erudito, cheio das mais dif\u00edceis palavras chinesas. Mas toda a gente fingiu que o tinha lido e compreendido. Ningu\u00e9m queria passar por est\u00fapido!<\/p>\n<p class=\"maius\">Tudo isto continuou durante um ano, at\u00e9 que o imperador, a corte e o resto do povo chin\u00eas sabiam de cor cada notazinha da can\u00e7\u00e3o do passarinho de corda; mas, por isso mesmo, cada vez gostavam mais dela. Podiam cant\u00e1-la em coro \u2014 e faziam-no.<\/p>\n<p class=\"maius\">Os rapazitos da rua andavam por todo o lado a cantar:\u00a0<em>rrr, trrr, piu, piu, piu,<\/em>\u00a0e o imperador tamb\u00e9m cantava \u2014 um som maravilhoso, n\u00e3o havia d\u00favida.<\/p>\n<p class=\"maius\">Mas, uma noite, precisamente quando o p\u00e1ssaro de corda estava a cantar e o imperador, deitado na cama, o ouvia, qualquer coisa fez \u201ccrac!\u201d dentro do p\u00e1ssaro. Brrrr! O mecanismo continuou a rodar, e a m\u00fasica parou. O imperador saltou da cama e mandou chamar o seu m\u00e9dico. Mas de que servia o m\u00e9dico? Ent\u00e3o foram buscar o relojoeiro, e este, depois de muitas resmungadelas e mexidelas no p\u00e1ssaro, conseguiu arranj\u00e1-lo mais ou menos. Mas preveniu toda a gente de que tinha de ser usado muito poucas vezes; as pe\u00e7as estavam quase gastas por completo e n\u00e3o era poss\u00edvel substitu\u00ed-las sem estragar o som.<\/p>\n<p class=\"maius\">Que golpe horr\u00edvel! N\u00e3o se atreviam a p\u00f4r o p\u00e1ssaro a cantar mais do que uma vez por ano, e mesmo isso j\u00e1 era um risco. Contudo, nessas ocasi\u00f5es anuais, o Mestre da M\u00fasica Imperial fazia sempre um discurso cheio de palavras dif\u00edceis, dizendo que o p\u00e1ssaro estava t\u00e3o bom como sempre \u2014 e, claro, uma vez que ele dizia que sim, era porque ele estava t\u00e3o bom como sempre\u2026<\/p>\n<p class=\"maius\">Passaram cinco anos, e uma grande tristeza abateu-se sobre o pa\u00eds. O povo era muito amigo do imperador, mas ele estava gravemente doente e n\u00e3o se esperava que sobrevivesse. J\u00e1 tinha sido escolhido novo imperador, e a multid\u00e3o esperava nas ruas que o camareiro lhe desse not\u00edcias. Como estava o imperador? O camareiro abanava a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"maius\">Frio e p\u00e1lido, o imperador jazia no seu leito real. Na verdade, a corte achava que j\u00e1 tinha morrido e foi a correr saudar o seu sucessor. Os criados de quarto foram a correr coscuvilhar uns com os outros e as criadas juntaram-se todas para beberem caf\u00e9. Tinham sido estendidos panos pretos em todos os sal\u00f5es e corredores para amortecer o som dos passos, de maneira que o pal\u00e1cio parecia muito, muito sossegado.<\/p>\n<p class=\"maius\">Mas o imperador ainda n\u00e3o tinha morrido. P\u00e1lido e im\u00f3vel, jazia na sua magn\u00edfica cama com longos cortinados de veludo e pesados cord\u00f5es dourados. Atrav\u00e9s de uma janela aberta l\u00e1 no alto, a Lua brilhava sobre o imperador e o p\u00e1ssaro artificial.<\/p>\n<p class=\"maius\">O pobre imperador mal podia respirar; sentia como se tivesse qualquer coisa a pesar-lhe sobre o cora\u00e7\u00e3o. Abriu os olhos e viu a Morte sentada sobre ele. A Morte tinha a coroa de ouro do imperador na cabe\u00e7a, numa das m\u00e3os segurava a espada imperial de ouro e na outra a espl\u00eandida bandeira imperial. E, por entre os cortinados de veludo, espreitavam estranhos rostos: alguns horr\u00edveis e outros belos e bondosos. Eram as boas e as m\u00e1s ac\u00e7\u00f5es do imperador, que olhavam para ele, enquanto a Morte se sentava sobre o seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Lembras-te?\u2026 Lembras-te?\u2026 \u2014 diziam os rostos baixinho, um a seguir ao outro.<\/p>\n<p class=\"maius\">E contaram e lembraram tantas coisas que a testa do imperador acabou por ficar coberta de suor.<\/p>\n<p>\u2014 Nunca soube\u2026 nunca percebi\u2026 \u2014 gritou ele. \u2014 M\u00fasica, m\u00fasica! Toquem o grande tambor da China! Salvem-me destas vozes!<\/p>\n<p class=\"maius\">Mas as vozes n\u00e3o se calavam. Continuavam sempre, enquanto a Morte acenava com a cabe\u00e7a, como um mandarim, a tudo o que diziam.<\/p>\n<p>\u2014 M\u00fasica! D\u00eaem-me m\u00fasica! \u2014 pedia o imperador. \u2014 Belo passarinho dourado, canta, pe\u00e7o-te que cantes! Dei-te ouro e coisas preciosas; pendurei o meu sapato dourado ao teu pesco\u00e7o com as minhas pr\u00f3prias m\u00e3os. Canta, pe\u00e7o-te, canta!<\/p>\n<p class=\"maius\">Mas o p\u00e1ssaro estava silencioso; n\u00e3o havia ningu\u00e9m para lhe dar corda, e sem corda n\u00e3o tinha voz. E a Morte continuava a olhar fixamente para o imperador com as grandes \u00f3rbitas vazias. Tudo estava calado, terrivelmente calado.<\/p>\n<p class=\"maius\">Ent\u00e3o de repente, perto da janela, soou a mais bela can\u00e7\u00e3o. Era o verdadeiro rouxinol, que se tinha empoleirado num ramo l\u00e1 fora. Sabendo do mal do imperador, o passarinho tinha voltado para o confortar e trazer-lhe esperan\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"maius\">\u00c0 medida que cantava, as firmas fantasmag\u00f3ricas foram desaparecendo, at\u00e9 se desvanecerem. O sangue come\u00e7ou a correr mais depressa pelo corpo do imperador. A pr\u00f3pria Morte ficou presa \u00e0 can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Canta mais, canta mais, pequeno rouxinol! \u2014 pediu a Morte.<\/p>\n<p>\u2014 Canto, se me deres a grande espada de ouro\u2026 sim, e a bandeira imperial\u2026 e a coroa do imperador\u2026<\/p>\n<p class=\"maius\">E a Morte devolveu cada um dos tesouros em troca de uma can\u00e7\u00e3o e o rouxinol continuou a cantar. Cantou sobre o calmo adro da igreja onde cresciam as rosas brancas, onde as flores do sabugueiro cheiravam t\u00e3o bem, onde a erva fresca est\u00e1 sempre verde por causa das l\u00e1grimas dos que ali choram os seus mortos. Ent\u00e3o, a Morte encheu-se de saudades do seu jardim e saiu pela janela, flutuando como um nevoeiro gelado.<\/p>\n<p>\u2014 Obrigado, obrigado! \u2014 disse o imperador. \u2014 Passarinho celestial, sei quem \u00e9s! Eu bani-te do meu reino e, no entanto, s\u00f3 tu vieste ajudar-me, e afastaste os horr\u00edveis fantasmas da minha cama e libertaste o meu cora\u00e7\u00e3o da Morte. Como hei-de recompensar-te?<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 me recompensaste \u2014 respondeu o rouxinol. \u2014 Quando cantei para ti da primeira vez ca\u00edram-te l\u00e1grimas dos olhos e essa d\u00e1diva n\u00e3o posso esquecer. Essas s\u00e3o as j\u00f3ias que n\u00e3o se compram nem se vendem. Mas agora tens de dormir para ficares bom e forte. Olha, vou cantar para ti.<\/p>\n<p class=\"maius\">E cantou e o imperador caiu num sono calmo e reparador.<\/p>\n<p class=\"maius\">O Sol brilhava sobre ele atrav\u00e9s da janela quando acordou, restaurado, desaparecidas a fraqueza e a doen\u00e7a. Nenhum dos criados tinha l\u00e1 entrado ainda, porque todos pensavam que ele estava morto.<\/p>\n<p>\u2014 Tens de ficar sempre comigo \u2014 disse o imperador. \u2014 Mas s\u00f3 cantas quando quiseres. E, quanto ao p\u00e1ssaro de corda, vou parti-lo em mil bocados.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o fa\u00e7as isso \u2014 respondeu o rouxinol. \u2014 Fez o que p\u00f4de por ti. Guarda-o. Eu n\u00e3o posso morar num pal\u00e1cio, mas deixa-me ir e vir \u00e0 minha vontade, e \u00e0 noite empoleiro-me neste ramo, junto da tua janela, e canto para ti. Hei-de trazer-te felicidade, mas tamb\u00e9m pensamentos s\u00e9rios. Hei-de cantar sobre as pessoas felizes do teu reino, mas tamb\u00e9m sobre os que se sentem tristes. Cantarei sobre o bem e o mal, que t\u00eam estado sempre \u00e0 nossa volta, mas que t\u00eam sempre escondido de ti. Os passarinhos voam em todas as direc\u00e7\u00f5es, at\u00e9 ao pescador, \u00e0 casinha do trabalhador, at\u00e9 junto de tantos que est\u00e3o longe de ti e da tua corte magn\u00edfica. Amo o teu cora\u00e7\u00e3o mais do que a tua coroa, apesar de a coroa ter algo de m\u00e1gico. Sim, hei-de voltar, mas tens de me prometer uma coisa.<\/p>\n<p>\u2014 O que quiseres! \u2014 exclamou o imperador.<\/p>\n<p class=\"maius\">Tinha-se levantado e vestido as suas roupas imperiais e segurava a espada dourada junto do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 A \u00fanica coisa que te pe\u00e7o \u00e9 isto: n\u00e3o digas a ningu\u00e9m que tens um amigo passarinho que te conta tudo. \u00c9 melhor guardar segredo.<\/p>\n<p class=\"maius\">E, com estas palavras, o rouxinol voou para longe. Os criados vieram ver o amo morto, mas ficaram ali especados!<\/p>\n<p>\u2014 Bom dia! \u2014 disse o imperador.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sabem com certeza que na China o imperador \u00e9 chin\u00eas e que todas as outras pessoas s\u00e3o chinesas tamb\u00e9m. 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