{"id":721,"date":"2018-07-09T16:22:17","date_gmt":"2018-07-09T16:22:17","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=721"},"modified":"2018-07-09T16:27:54","modified_gmt":"2018-07-09T16:27:54","slug":"o-anjo-e-a-flor-do-campo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-anjo-e-a-flor-do-campo","title":{"rendered":"O Anjo e a Flor do Campo"},"content":{"rendered":"<p>\u2013 Sempre que sucede morrer uma crian\u00e7a boa, desce um anjo do c\u00e9u a busc\u00e1-la, e, depois de a recolher em seu rega\u00e7o, desdobra as asas brancas, dadas pelo Criador, afim de ir percorrendo em seguida todos os s\u00edtios com que na terra a crian\u00e7a mais simpatizou. As flores que nesta digress\u00e3o apanham, levam-nas ambos ao Pai Celeste, para ele as fazer l\u00e1 reflorir no emp\u00edreo mais formosas e odor\u00edferas, imarcesc\u00edveis mesmo. Deus ent\u00e3o aconchega ao peito essas flores, \u2013 e na que mais lhe apraz deposita um beijo. Esse beijo tem o cond\u00e3o miraculoso de inocular na flor anima\u00e7\u00e3o e voz.<\/p>\n<p>Destarte a flor transfigurada passa a tomar parte tamb\u00e9m nos harmoniosos coros dos bem-aventurados. Assim falava um anjo de Deus na ocasi\u00e3o de transportar para a mans\u00e3o celestial uma crian\u00e7a morta. E a crian\u00e7a escutava o anjo, absorta, embevecida, como se a envolvessem cintilantes brumas de um sonho fagueiro. E o anjo, conchegando ao rega\u00e7o a criancinha, voava naquele momento por sobre os s\u00edtios, de que cila mais tinha gostado em vida, \u2013 jardins esmaltados de flores lind\u00edssimas.<\/p>\n<p>\u2013 Quais destas queres, perguntava o anjo, que daqui levemos para l\u00e1 plantarmos no c\u00e9u?<\/p>\n<p>Aconteceu passarem por junto de uma roseira magn\u00edfica. M\u00e3os daninhas, por\u00e9m, de qualquer mal-intencionado, haviam barbaramente praticado o acto brutal de quebrar-lhe o tronco, por forma que os desditosos ramos, carregadinhos de rubros bot\u00f5es prestes quase a desabrocharem, pendiam tristemente imurchecidos, enquanto de todo n\u00e3o secassem.<\/p>\n<p>\u2013 Que d\u00f3 que me faz o pobrezinho do arbusto! exclamou a crian\u00e7a. Ah! que se pud\u00e9ssemos lev\u00e1-lo connosco para ir l\u00e1 no c\u00e9u reverdecer e reflorir!\u2026<br \/>\nFez-lhe o anjo a vontade e apanhou a roseira. Depois continuaram a colher flores de variadas castas, at\u00e9 reunirem um volumoso bra\u00e7ado.<br \/>\n\u2013 Parece-me que bastam agora j\u00e1 essas que levamos, observou a crian\u00e7a.<br \/>\nO anjo fez um aceno de condescend\u00eancia, mas sem remontar ainda o voo para o firmamento. Come\u00e7ava a pronunciar-se cada vez mais a escurid\u00e3o da noite incipiente. Reinava em torno um sil\u00eancio profund\u00edssimo. Nisto aconteceu passarem quase rentes com uma ruazita estreita e sombria, em cujo pavimento jaziam dispersos, abandonados, desprezados por entre o lixo do solo, fragmentos de loi\u00e7a quebrada, vidros partidos, chinelos velhos, farrapos e trapalhadas, que denunciavam esse conjunto de perip\u00e9cias sempre mais ou menos inerentes a qualquer mudan\u00e7a de domic\u00edlio. Algum morador, que dali se ausentara, \u2013 ao transportar para a nova resid\u00eancia seus pobres tarecos, havia certamente arremessado \u00e0 rua a in\u00fatil frandulagem de que j\u00e1 n\u00e3o precisava.<\/p>\n<p>Por entre estes destro\u00e7os mostrou o anjo \u00e0 crian\u00e7a os cacos de um vazito de flores. Junto aos cacos viam-se os torr\u00f5es esboroados da terra que em tempo enchera o vaso. A um desses torr\u00f5es prendiam-se ainda as ra\u00edzes de uma singela planta campestre, com a sua florinha de mimosas cores imurchecida j\u00e1 e quase esfolhada, suja de p\u00f3, amachucada e pisada pelos p\u00e9s dos transeuntes. E, ao mostrar-lha, disse o anjo \u00e0 crian\u00e7a:<\/p>\n<p>\u2013 Levaremos tamb\u00e9m esta, coitada!, no caminho te irei contando os motivos.<\/p>\n<p>Depois come\u00e7ou a erguer, a erguer o voo para o c\u00e9u. Foi ent\u00e3o que o anjo deu princ\u00edpio \u00e0 narrativa seguinte :<\/p>\n<p>\u2013 Ali, naquela rua sombria que tu viste, morava numa esp\u00e9cie de toca uma criancinha enfermi\u00e7a. Era um pequenito que nascera infezado e raqu\u00edtico. Sua mol\u00e9stia cong\u00e9nita impunha-lhe a necessidade trist\u00edssima de permanecer quase sempre na cama. Se alguma vez acontecia sentir melhoras, o mais que lograva era percorrer o quarto em roda, amparado nas muletas. Quando chegava o estio, entravam-lhe pela janela uns raios de sol a iluminarem-lhe o acanhado \u00e2mbito do seu miser\u00e1vel domic\u00edlio. A crian\u00e7a aproveitava ent\u00e3o a visita fugitiva daquelas ondula\u00e7\u00f5es luminosas e nelas se aquecia, e nelas buscava revivificar-se, como se fora aquilo a ben\u00e9fica influ\u00eancia de um higi\u00e9nico passeio pelo campo. Este pequenito nunca em sua vida tinha pois podido apreciar a magn\u00edfica verdura das florestas, e delas s\u00f3 podia formar uma long\u00ednqua ideia por algum ramo de faia que o filho do vizinho lhe trazia de tempos a tempos, como lembran\u00e7a. Pegava ent\u00e3o no ramo, e dependurava-o por sobre a cabeceira, fazendo assim de conta que estava repousando \u00e0 sombra de virente arvoredo, com as ondula\u00e7\u00f5es doiradas de um sol em perspectiva e um delicioso chilreio de mil passaritos a encher-lhe de m\u00fasica os ouvidos. Numa bela manh\u00e3 de primavera trouxeram-lhe umas flores do campo; casualmente uma destas vinha ainda com a raiz intacta. Tira-se de cuidados o pequeno, e trata de plantar cautelosamente o vegetalzito num vazinho de barro, que da\u00ed por diante ficou constituindo o seu constante enlevo, poisado no parapeito da janela, \u00e0 ilharga do leito em que jazia. Plantado por m\u00e3os carinhosas, regado, tratado, acariciado, o vegetal campestre soube na sua humildade agradecer os afagos de tanta solicitude; em breve lhe pulularam vi\u00e7osos rebentos; e todos os anos se desatava em novas flores, como a festejar o seu desvelado cultor. Para o pobre doentinho era aquilo o seu estimado jardim, o seu \u00fanico tesouro neste mundo; queria-lhe com todo o afecto da sua alma; prodigalizava-lhe os seus mais encarecidos mimos; da \u00e1gua, que bebia, dava-lhe sempre as prim\u00edcias; colocava-o de modo que nunca perdesse um raio sequer do sol que escassamente lhe entrava pela janela. E a humilde planta vegetava e desenvolvia-se; revestia-se cada vez mais de folhedo; toucava-se de bot\u00f5es que desabrochavam em flores; irradiava-lhe perfumes; parecia at\u00e9 sorrir-lhe com requintes de galanteio. Por sua parte o pequenito, \u2013 quando afinal Deus o chamou \u00e0 sua eterna presen\u00e7a, \u2013 o pequenito, antes de soltar o derradeiro suspiro, inclinou-se comovido para a sua verde companheira e segredou-lhe de mansinho, muito de mansinho, as suas ternas, \u00faltimas despedidas. Faz agora um ano, que o pobre enfermo faleceu; e durante este ano todo l\u00e1 ficou desprezada, esquecida a um canto, no mesmo parapeito da esguia fresta, a planta campesina em que outrora havia docemente concentrado seus cuidados e alegrias o infantil doentinho. Faltando-lhe os mimos, a que se acostumara, pouco a pouco murchou e se foi o triste vegetal mirrando, at\u00e9 que o pr\u00f3prio vaso agora lhe deitaram \u00e0 rua, como in\u00fatil pejamento, por ocasi\u00e3o de sair dali quem habitava naquela mi\u00ad ser\u00e1vel toca. Foi esta a flor, que ora acab\u00e1mos de cuidadosamente recolher de entre o lixo da rua; e, se em nosso ramalhete a arrecadei com tanto carinho, \u00e9 porque, \u2013 onde a v\u00eas, amachucada, espezinhada, \u2014 causou j\u00e1 mais alegrias e mais enlevos, do que se fora uma flor rar\u00edssima no jardim de uma rainha!<\/p>\n<p>\u2013 E como \u00e9 que tu sabes os pormenores todos dessa hist\u00f3ria? perguntou a crian\u00e7a ao anjo.<\/p>\n<p>\u2013 Como \u00e9 que os sei? \u00e9 porque se passaram comigo estas particularidades; o pequenito das muletas sou eu; n\u00e3o querias que reconhecesse a minha estimad\u00edssima flor?<\/p>\n<p>A crian\u00e7a olhou ent\u00e3o deslumbrada para o rosto esplendoroso do anjo. Chegavam naquele momento \u00e0s luminosas portas da privilegiada mans\u00e3o, em que ningu\u00e9m respira sen\u00e3o j\u00fabilo inef\u00e1vel e felicidade eterna.<\/p>\n<p>Quando o Pai do C\u00e9u estreitou em seus bra\u00e7os o corpinho da criancita morta, sentiu esta, como por encanto, despontarem-lhe milagrosamente nas costas duas azas brancas, muito brancas, de plu magem fina, acetinada, exactamente iguais \u00e0s do anjo que o transportara.<\/p>\n<p>E ambos de m\u00e3os dados, agora perfeitamente id\u00eanticos na sua ess\u00eancia imut\u00e1vel, ambos gracio samente unidos em fraternal amplexo, foram ent\u00e3o voando risonhos pela estrelada amplid\u00e3o do emp\u00ed reo.<\/p>\n<p>Em seguida recolheu Deus no rega\u00e7o as flores que os rec\u00e9m-chegados lhe haviam trazido; todas amimou e agasalhou por igual; \u2013 mas na pobre planta que o anjo apanhara de entre o lixo, nessa, como se quis esse distingui-la com o privativo selo da sua espe\u00adcial predilec\u00e7\u00e3o, depositaram seus divinos l\u00e1bios um beijo.<\/p>\n<p>\u00c9 logo a florinha dos campos, que abandonada e desprezada jazera na lama da rua, de pronto renasceu transfigurada; brotou-lhe instantaneamente voz; incorporada no grupo infinito das criaturas ang\u00e9licas que flutuam em torno do Omnipotente, ficou simultaneamente com estas entoando os solenes c\u00e2nticos da felicidade celeste.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2013 Sempre que sucede morrer uma crian\u00e7a boa, desce um anjo do c\u00e9u a busc\u00e1-la, e, depois de a recolher em seu rega\u00e7o, desdobra as asas brancas, dadas pelo Criador, afim de ir percorrendo em&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[31],"class_list":["post-721","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-hans-christian-andersen"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/721","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=721"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/721\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":724,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/721\/revisions\/724"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=721"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=721"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=721"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}