{"id":725,"date":"2018-07-09T16:24:34","date_gmt":"2018-07-09T16:24:34","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=725"},"modified":"2018-07-09T16:27:53","modified_gmt":"2018-07-09T16:27:53","slug":"o-trigo-mourisco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-trigo-mourisco","title":{"rendered":"O Trigo Mourisco"},"content":{"rendered":"<p class=\"maius\">Muitas vezes, ap\u00f3s uma trovoada, ao passar-se por um campo de trigo mourisco, pode ver-se como ficou todo chamuscado. \u00c9 como se o fogo tivesse passado por ele e o campon\u00eas d\u00e1-nos a explica\u00e7\u00e3o seguinte: \u201cFoi um raio!\u201d Mas porqu\u00ea? Pois vou contar-lhes o que disse a um pardal um velho salgueiro que se encontrava perto dum campo de trigo mourisco e ainda l\u00e1 est\u00e1. \u00c9 um salgueiro grande e vener\u00e1vel, mas enrugado e velho, um pouco rachado ao meio, com uma fenda onde crescem ervas e sar\u00e7as. A \u00e1rvore est\u00e1 um pouco tombada para a frente, e os ramos pendem para o solo, como se fossem uma longa cabeleira verde.<\/p>\n<p class=\"maius\">Em toda a volta havia campos de cereal, de centeio, de cevada e de aveia, a bela aveia que, quando est\u00e1 sazonada, parece um enorme bando de pequeninos can\u00e1rios amarelos pousados num ramo. Os cereais s\u00e3o assim uma b\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus e quanto mais pesados est\u00e3o, mais baixos se inclinam em humildade.<\/p>\n<p>Mas havia tamb\u00e9m um campo de trigo mourisco, bem perto do velho salgueiro, que n\u00e3o queria nunca inclinar-se como os outros cereais; sempre se mantinha direito, orgulhoso e altivo.<\/p>\n<p>\u2014 Sou t\u00e3o rico como a espiga de trigo \u2014 disse ele. \u2014 Sou, al\u00e9m disso, mais bonito. As 15 minhas flores s\u00e3o t\u00e3o belas como as da macieira, e \u00e9 um regalo olhar para mim e para a minha flora\u00e7\u00e3o. Conheces algo de mais belo, velho salgueiro? O salgueiro abanou a cabe\u00e7a, como quem diz \u201cpois claro que conhe\u00e7o\u201d, mas o trigo mourisco inchou de orgulho e exclamou: \u2014 \u00c1rvore est\u00fapida, t\u00e3o velha est\u00e1s que te crescem ervas na barriga!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o rebentou uma terr\u00edvel trovoada. Todas as flores dobraram as folhas ou inclinaram as cabe\u00e7as, enquanto passava a trovoada sobre elas. S\u00f3 o trigo mourisco continuava com a cabe\u00e7a erguida, no seu orgulho.<\/p>\n<p>\u2014 Abaixa a cabe\u00e7a, como n\u00f3s! \u2014 disseram as flores.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenho nenhuma necessidade disso! \u2014 respondeu o trigo mourisco.<\/p>\n<p>\u2014 Abaixa a cabe\u00e7a como n\u00f3s! \u2014 gritou o trigo. \u2014 Vem a\u00ed o Anjo da Tempestade! Tem asas e com elas alcan\u00e7a tanto o c\u00e9u l\u00e1 em cima como a terra c\u00e1 em baixo. Pode ceifar-te sem teres sequer tempo de pedir-lhe merc\u00ea.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 bem, mas eu n\u00e3o vergo! \u2014 retorquiu o trigo mourisco.<\/p>\n<p>\u2014 Anda, fecha as flores e dobra as folhas! \u2014 disse o velho salgueiro. \u2014 N\u00e3o olhes para cima, para os raios, quando as nuvens rebentam. Nem os pr\u00f3prios homens o podem fazer, pois que por eles \u00e9 poss\u00edvel olhar para dentro do C\u00e9u, mas isso \u00e9 bastante para os cegar. E o que nos aconteceria a n\u00f3s, plantas da terra, se o ous\u00e1ssemos fazer, n\u00f3s que somos muito menos?<\/p>\n<p>\u2014 Muito menos? \u2014 disse o trigo mourisco. \u2014 Pois vou mesmo olhar para dentro do C\u00e9u! E foi isso que fez, com presun\u00e7\u00e3o e orgulho. Caiu ent\u00e3o uma fa\u00edsca t\u00e3o grande que parecia que toda a terra ardia em chamas.<\/p>\n<p>Quando o mau tempo passou, sentiram-se as flores e os cereais numa atmosfera calma e pura, refrescada pela chuva; mas o trigo mourisco ficara completamente queimado, reduzido a carv\u00e3o pelo raio. Era agora uma erva in\u00fatil e morta no campo.<\/p>\n<p>O velho salgueiro agitava os ramos ao vento e deixava tombar grandes gotas de \u00e1gua das suas folhas verdes, como se chorasse. Os pardais perguntaram-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 Porque est\u00e1s a chorar? N\u00e3o \u00e9 tudo maravilhoso? Repara como brilha o sol e deslizam as nuvens. N\u00e3o sentes o perfume das flores e dos arbustos? Porque choras, pois, velho salgueiro?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o salgueiro falou-lhes do orgulho e da presun\u00e7\u00e3o do trigo mourisco e do seu castigo. \u00c9 sempre assim. Eu, que escrevi este conto, ouvi-o duns pardais. Contaram-mo uma tarde em que lhes pedi uma hist\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muitas vezes, ap\u00f3s uma trovoada, ao passar-se por um campo de trigo mourisco, pode ver-se como ficou todo chamuscado. \u00c9 como se o fogo tivesse passado por ele e o campon\u00eas d\u00e1-nos a explica\u00e7\u00e3o seguinte:&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[31],"class_list":["post-725","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-hans-christian-andersen"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/725","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=725"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/725\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":727,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/725\/revisions\/727"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=725"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=725"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=725"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}