{"id":731,"date":"2018-07-09T16:26:09","date_gmt":"2018-07-09T16:26:09","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=731"},"modified":"2018-07-09T16:27:52","modified_gmt":"2018-07-09T16:27:52","slug":"a-pequena-vendedora-de-fosforos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/a-pequena-vendedora-de-fosforos","title":{"rendered":"A Pequena Vendedora de F\u00f3sforos"},"content":{"rendered":"<p>Era v\u00e9spera de Natal. Fazia um frio intenso; j\u00e1 estava escurecendo e ca\u00eda neve. Mas a despeito de todo o frio, e da neve, e da noite, que ca\u00eda rapidamente, uma crian\u00e7a, uma menina descal\u00e7a e de cabe\u00e7a descoberta, vagava pelas ruas. Ela estava cal\u00e7ada quando saiu de casa, mas os chinelos eram muito grandes, pois eram os que a m\u00e3e usara, e escaparam-lhe dos pezinhos gelados quando atravessava correndo uma rua para fugir de dois carros que vinham em disparada.\u00a0N\u00e3o p\u00f4de achar um dos chinelos e o outro apanhou-o um rapazinho, que saiu correndo, gritando que aquilo ia servir de ber\u00e7o aos seus filhos quando os tivesse. A menina continuou a andar, agora com os p\u00e9s nus e gelados. Levava no avental velhinho uma por\u00e7\u00e3o de pacotes de f\u00f3sforos. Tinha na m\u00e3o uma caixinha: n\u00e3o conseguira vender uma s\u00f3 em todo o dia, e ningu\u00e9m lhe dera uma esmola \u2014 nem um s\u00f3 cruzeiro.<\/p>\n<p>Assim, morta de fome e de frio, ia se arrastando penosamente, vencida pelo cansa\u00e7o e des\u00e2nimo \u2014 a imagem viva da mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Os flocos de neve ca\u00edam, pesados, sobre os lindos cachos louros que lhe emolduravam graciosamente o rosto; mas a menina nem dava por isso. Via, pelas janelas das casas, as luzes que brilhavam l\u00e1 dentro. Sentia-se na rua um cheiro bom de pato assado \u2014 era a v\u00e9spera de Natal \u2014; isso sim, ela n\u00e3o esquecia.<\/p>\n<p>Achou um canto, formado pela sali\u00eancia de uma casa, e acocorou-se ali, com os p\u00e9s encolhidos, para abrig\u00e1-los ao calor do corpo; mas cada vez sentia mais frio. N\u00e3o se animava a voltar para casa, porque n\u00e3o tinha vendido uma \u00fanica caixinha de f\u00f3sforos, e n\u00e3o ganhara um vint\u00e9m. Era certo que levaria algumas lambadas. Al\u00e9m disso, em sua casa fazia tanto frio como na rua, pois s\u00f3 havia o abrigo do telhado, e por ele entrava uivando o vento, apesar dos trapos e das palhas com que lhe tinham tapado as enormes frestas.<\/p>\n<p>Tinha as m\u00e3ozinhas t\u00e3o geladas\u2026 estavam duras de frio. Quem sabe se acendendo um daqueles f\u00f3sforos pequeninos sentiria algum calor? Se se animasse a tirar um ao menos da caixinha, e risc\u00e1-lo na parede para acend\u00ea-lo\u2026 Ritch!. Como estalou, e faiscou, antes de pegar fogo!<\/p>\n<p>Deu uma chama quente, bem clara, e parecia mesmo uma vela quando ela o abrigou com a m\u00e3o. E era uma vela esquisita aquela! Pareceu-lhe logo que estava sentada diante de uma grande estufa, de p\u00e9s e ma\u00e7anetas de bronze polido. Ardia nela um fogo magn\u00edfico, que espalhava suave calor. E a meninazinha ia estendendo os p\u00e9s enregelados, para aquec\u00ea-los, e\u2026 tss! Apagou-se o clar\u00e3o! Sumiu-se a estufa, t\u00e3o quentinha, e ali ficou ela, no seu canto gelado, com um f\u00f3sforo apagado na m\u00e3o. S\u00f3 via a parede escura e fria.<\/p>\n<p>Riscou outro. Onde batia a luz, a parede tornava-se transparente como um v\u00e9u, e ela via tudo l\u00e1 dentro da sala. Estava posta a mesa. Sobre a toalha alv\u00edssima via-se, fumegando entre toda aquela porcelana t\u00e3o fina, um belo pato assado, recheado de ma\u00e7\u00e3s e ameixas. Mas o melhor de tudo foi que o pato saltou do prato, e, com a faca ainda cravada nas costas, foi indo pelo assoalho direto \u00e0 menina, que estava com tanta fome, e\u2026<\/p>\n<p>Mas \u2014 o que foi aquilo? No mesmo instante acabou-se o f\u00f3sforo, e ela tornou a ver somente a parede nua e fria na noite escura. Riscou outro f\u00f3sforo, e \u00e0quela luz resplandecente viu-se sentada debaixo de uma linda \u00e1rvore de Natal! Oh! Era muito maior e mais ricamente decorada do que aquela que vira, naquele mesmo Natal, ao espiar pela porta de vidro da casa do negociante rico. Entre os galhos, milhares de velinhas. Estampas coloridas, como as que via nas vitrinas das lojas, olhavam para ela. A crian\u00e7a estendeu os bra\u00e7os diante de tantos esplendores, e ent\u00e3o, ent\u00e3o\u2026 apagou-se o f\u00f3sforo. Todas as luzinhas da \u00e1rvore de Natal foram subindo, subindo, mais alto, cada vez mais alto, e de repente ela viu que eram estrelas, que cintilavam no c\u00e9u. Mas uma caiu, l\u00e1 de cima, deixando uma esteira de poeira luminosa no caminho.<\/p>\n<p>\u2014 Morreu algu\u00e9m \u2014 disse a crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Porque sua av\u00f3, a \u00fanica pessoa que a amara no mundo, e que j\u00e1 estava morta, lhe dizia sempre que, quando uma estrela desce, \u00e9 que uma alma subiu para o c\u00e9u.<\/p>\n<p>Agora ela acendeu outro f\u00f3sforo; e desta vez foi a av\u00f3 quem lhe apareceu, a sua boa av\u00f3, sorridente e luminosa, no esplendor da luz.<\/p>\n<p>\u2014 Vov\u00f3! \u2014 gritou a pobre menina. Leva-me contigo\u2026 J\u00e1 sei que, quando o f\u00f3sforo se apagar, tu vais desaparecer, como sumiram a estufa quente, o pato assado e a linda \u00e1rvore de Natal!<\/p>\n<p>E a coitadinha p\u00f4s-se a riscar na parede todos os f\u00f3sforos da caixa, para que a av\u00f3 n\u00e3o se desvanecesse. E eles ardiam com tamanho brilho, que parecia dia, e nunca ela vira a vov\u00f3 t\u00e3o grandiosa, nem t\u00e3o bela! E ela tomou a neta nos bra\u00e7os, e voaram ambas, em um halo de luz e de alegria, mais alto, e mais alto, e mais longe\u2026 longe da Terra, para um lugar, l\u00e1 em cima, onde n\u00e3o h\u00e1 mais frio, nem fome, nem sede, nem dor, nem medo, porque elas estavam, agora, no c\u00e9u com Deus.<\/p>\n<p>A luz fria da madrugada achou a menina sentada no canto, entre as casas, com as faces coradas e um sorriso de felicidade. Morta. Morta de frio, na noite de Natal.<\/p>\n<p>A luz do Natal iluminou o pequenino corpo, ainda sentado no canto, com a m\u00e3ozinha cheia de f\u00f3sforos queimados.<\/p>\n<p>\u2014 Sem d\u00favida, ela quis aquecer-se \u2014 diziam.<\/p>\n<p>Mas\u2026 ningu\u00e9m soube que lindas vis\u00f5es, que vis\u00f5es maravilhosas lhe povoaram os \u00faltimos momentos, nem com que j\u00fabilo tinha entrado com a av\u00f3 nas gl\u00f3rias do Natal no Para\u00edso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era v\u00e9spera de Natal. 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