{"id":734,"date":"2018-07-09T16:27:00","date_gmt":"2018-07-09T16:27:00","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=734"},"modified":"2018-07-09T16:27:52","modified_gmt":"2018-07-09T16:27:52","slug":"o-patinho-feio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-patinho-feio","title":{"rendered":"O Patinho Feio"},"content":{"rendered":"<p class=\"maius\">Estava muito agrad\u00e1vel no campo. O ar rescendia a Ver\u00e3o; o milho estava amarelo; a aveia estava pronta a ser ceifada; as medas de feno nos prados pareciam pequenas colinas de erva e a cegonha passeava por cima delas com as suas longas pernas vermelhas. A toda a volta dos campos havia bosques e florestas com fundos lagos de \u00e1gua fresca. Sim, estava mesmo muito agrad\u00e1vel no campo. E, brilhando ao sol, podia ver-se uma velha mans\u00e3o rodeada por um fosso. Grandes folhas de azedas cresciam nas paredes at\u00e9 \u00e0 \u00e1gua; algumas eram t\u00e3o grandes que uma crian\u00e7a podia ficar de p\u00e9 debaixo delas. \u00c0 sombra podia-se at\u00e9 pensar que se estava numa florestazinha secreta e primitiva.<\/p>\n<p class=\"maius\">Era a\u00ed que uma pata chocava os seus ovos no ninho. Por\u00e9m, j\u00e1 estava a ficar bastante farta, porque os patinhos nunca mais apareciam; quanto a visitas, quase n\u00e3o as tinha; os outros patos preferiam nadar no fosso a ir ter com ela debaixo das grandes folhas para conversar.<\/p>\n<p class=\"maius\">Por fim, os ovos come\u00e7aram a estalar, um a seguir ao outro.<\/p>\n<p>\u2014 Pip, pip!<\/p>\n<p class=\"maius\">O ninho ficou cheio de avezinhas que deitavam as cabe\u00e7as fora das cascas.<\/p>\n<p>\u2014 Quac, quac! \u2014 disse a m\u00e3e. \u2014 Depressa, depressa! E as criaturinhas sa\u00edram o mais depressa que puderam e olharam \u00e0 sua volta, no abrigo de folhas verdes; e a m\u00e3e deixou-as olhar \u00e0 vontade, porque o verde faz bem aos olhos.<\/p>\n<p>\u2014 Como o mundo \u00e9 grande! \u2014 disseram os pequenos.<\/p>\n<p class=\"maius\">\u00c9 claro que agora tinham muito mais espa\u00e7o do que dentro dos ovos.<\/p>\n<p>\u2014 Pensam que o mundo \u00e9 s\u00f3 isto, seus patetas? \u2014 perguntou a m\u00e3e. \u2014 Ora! O mundo estende-se muito para al\u00e9m do outro lado do jardim, mesmo at\u00e9 ao campo do vig\u00e1rio. Embora, verdade seja dita, eu nunca tenha l\u00e1 estado. J\u00e1 c\u00e1\u00a0<em>est\u00e3o<\/em>\u00a0todos, n\u00e3o est\u00e3o? \u2014 Levantou-se do ninho. \u2014 N\u00e3o, tu ainda n\u00e3o. Ainda falta o ovo maior. Quanto tempo demorar\u00e1 ainda? Estou mesmo farta disto, se querem saber.<\/p>\n<p class=\"maius\">E l\u00e1 tornou a deitar-se.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, que tal v\u00e3o as coisas? \u2014 perguntou uma velha pata que veio visit\u00e1-la.<\/p>\n<p>\u2014 Este ovo est\u00e1 a demorar um tempo horr\u00edvel \u2014 disse a m\u00e3e pata. \u2014 N\u00e3o h\u00e1 meio de estalar! Mas olhe para os outros! S\u00e3o os patinhos mais bonitos que j\u00e1 vi, tal e qual o pai, aquela peste, que nunca vem visitar-me!<\/p>\n<p>\u2014 Deixe l\u00e1 ver o ovo \u2014 disse a velha pata. \u2014 Ah! Acredite no que lhe digo, isso \u00e9 um ovo de peru. Uma vez aconteceu-me a mesma coisa e nem calcula o trabalho que tive com os mi\u00fados! Como eram perus, tinham medo da \u00e1gua, e\u00a0<em>n\u00e3o consegui<\/em>\u00a0met\u00ea-los l\u00e1. Deixe ver. \u00c9, \u00e9 um ovo de peru. Deixe-o ficar e v\u00e1 ensinar os outros a nadar.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, vou aguentar um pouco mais \u2014 respondeu a pata. \u2014 J\u00e1 aqui estou h\u00e1 tanto tempo que mais vale acabar o trabalho.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 bem, fa\u00e7a como quiser \u2014 respondeu a velha pata, e foi-se embora.<\/p>\n<p class=\"maius\">Por fim, o grande ovo estalou.<\/p>\n<p>\u2014Pip, pip! \u2014 disse o jovem, saindo c\u00e1 para fora.<\/p>\n<p class=\"maius\">Mas que grande e que feio que ele era! A m\u00e3e olhou para ele.<\/p>\n<p>\u2014 Que grande patinho! \u2014 pensou. \u2014 Ser\u00e1 mesmo um peru? Bem, j\u00e1 vamos ver; h\u00e1-de ir para a \u00e1gua, nem que eu tenha de o empurrar.<\/p>\n<p class=\"maius\">No dia seguinte, o tempo estava lindo, e a m\u00e3e pata saiu com todos os filhos e desceu at\u00e9 ao fosso, onde mergulhou.<\/p>\n<p>\u2014 Quac, quac! \u2014 chamou ela.<\/p>\n<p class=\"maius\">E, um atr\u00e1s do outro, os patinhos saltaram para a \u00e1gua. Ficaram com as cabe\u00e7as debaixo de \u00e1gua, mas vieram logo \u00e0 tona, e em breve nadavam afanosamente. As suas patinhas mexiam-se naturalmente, e l\u00e1 estavam todos \u2014 at\u00e9 o feio cinzento nadava com os outros.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, isto n\u00e3o \u00e9 um peru! \u2014 exclamou a m\u00e3e. \u2014 Que bem que ele usa as patas e que direito que nada. \u00c9 meu filho, isso n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida. Realmente, \u00e9 bem bonito, se virmos bem. Quac, quac! Venham comigo, meninos; venham conhecer o mundo e as outras aves da quinta; mas fiquem perto de mim, para ningu\u00e9m os pisar. E cuidado com o gato!<\/p>\n<p class=\"maius\">E l\u00e1 foram para o p\u00e1tio da quinta. A\u00ed havia um barulho horr\u00edvel e grande agita\u00e7\u00e3o, porque duas fam\u00edlias discutiam por causa da cabe\u00e7a de uma enguia \u2014 e afinal quem a apanhou foi o gato.<\/p>\n<p>\u2014 O mundo \u00e9 assim \u2014 disse a m\u00e3e pata.<\/p>\n<p class=\"maius\">Ficou com \u00e1gua no bico, porque tamb\u00e9m ela teria gostado de apanhar a cabe\u00e7a da enguia.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1, usem as pernas; despachem-se e fa\u00e7am uma v\u00e9nia \u00e0 velha pata que est\u00e1 ali! E a pessoa mais importante da quinta; os antepassados dela vieram da Espanha e, como v\u00eaem, tem um pedacinho de pano vermelho atado a uma pata. Isso \u00e9 uma coisa muito especial: significa que ningu\u00e9m a pode matar e que tanto os homens como os animais t\u00eam de a tratar com respeito. Venham! N\u00e3o metam os p\u00e9s para dentro! Um patinho bem educado anda com os p\u00e9s bem afastados, como o pai e a m\u00e3e. V\u00e1! Fa\u00e7am uma v\u00e9nia e digam: \u00abQuac!\u00bb.<\/p>\n<p class=\"maius\">Os patinhos fizeram o que ela lhes disse, mas os outros patos do p\u00e1tio olharam para eles e disseram em voz alta:<\/p>\n<p>\u2014 L\u00e1 vamos ter de aturar estes, como se j\u00e1 n\u00e3o f\u00f4ssemos bastantes! E, meu Deus!, que patinho t\u00e3o esquisito aquele! N\u00e3o o queremos com certeza por aqui.<\/p>\n<p class=\"maius\">E um pato esvoa\u00e7ou em direc\u00e7\u00e3o ao patinho cinzento e deu-lhe uma bicada no pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Deixa-o em paz \u2014 disse a m\u00e3e. \u2014 Ele n\u00e3o est\u00e1 a incomodar ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o, mas \u00e9 muito grande e tem um ar esquisito \u2014 respondeu o pato que o tinha bicado. \u2014Tem de ser metido na ordem.<\/p>\n<p>\u2014 Bela fam\u00edlia \u2014 comentou a velha pata com o paninho vermelho \u00e0 volta da perna. \u2014 Os patinhos s\u00e3o todos bonitos, excepto\u00a0<em>aquele<\/em>, n\u00e3o pode ser. Se ao menos a m\u00e3e pudesse tornar a faz\u00ea-lo!<\/p>\n<p>\u2014 Isso \u00e9 imposs\u00edvel, Vossa Senhoria \u2014 disse a m\u00e3e pata. \u2014 \u00c9 verdade que n\u00e3o \u00e9 bonito, mas tem bom feitio e nada t\u00e3o bem como os outros. Atrevo-me at\u00e9 a dizer que, quando for crescido, \u00e9 capaz de vir a ser mais bonito e talvez, com o tempo, um pouco mais pequeno. Ficou tempo de mais dentro do ovo e foi isso que lhe estragou o aspecto. \u2014 Ajeitou-lhe a penugem do pesco\u00e7o e alisou-lhe uma penita ou outra. \u2014 Al\u00e9m disso \u2014 acrescentou \u2014, \u00e9 um pato, por isso n\u00e3o tem muita import\u00e2ncia se \u00e9 bonito ou feio. \u00c9 saud\u00e1vel, tenho a certeza, e h\u00e1-de vingar neste mundo.<\/p>\n<p>\u2014 Seja como for, os outros patinhos s\u00e3o encantadores \u2014 retorquiu a velha pata. \u2014 Bom, estejam \u00e0 vontade, e se encontrarem uma cabe\u00e7a de enguia podem trazer-ma.<\/p>\n<p class=\"maius\">Isto foi o primeiro dia; depois, a sina do patinho cinzento piorou. Que infeliz se sentia por ser t\u00e3o feio! Era perseguido por todos. Os patos tentavam dar-lhe bicadas; as galinhas tamb\u00e9m; e a rapariga que dava de comer aos animais empurrava-o com o p\u00e9. At\u00e9 os irm\u00e3os e as irm\u00e3s estavam contra ele e diziam:<\/p>\n<p>\u2014 Feio! Era bem feito que o gato te apanhasse!<\/p>\n<p class=\"maius\">A m\u00e3e tamb\u00e9m dizia em voz baixa:<\/p>\n<p>\u2014 Quem me dera que estivesses longe\u2026<\/p>\n<p class=\"maius\">E ent\u00e3o ele foi-se embora. Primeiro, voou por cima da sebe \u2014 e os passarinhos nos arbustos voaram alarmados.<\/p>\n<p class=\"maius\">\u00ab\u00c9 por eu ser t\u00e3o feio\u00bb, pensou o patinho, fechando os olhos.<\/p>\n<p class=\"maius\">Mas continuou o seu caminho. Por fim, chegou aos charcos onde vivem os patos bravos e ficou l\u00e1 deitado toda a noite, porque estava muito cansado e triste.<\/p>\n<p class=\"maius\">De manh\u00e3, os patos bravos apareceram e observaram o seu novo companheiro.<\/p>\n<p>\u2014 Que esp\u00e9cie de criatura \u00e9s tu? \u2014 perguntaram.<\/p>\n<p class=\"maius\">O patinho virou-se para cada um e cumprimentou-os o mais amavelmente que p\u00f4de.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9s mesmo feio, l\u00e1 isso \u00e9s! \u2014 disse um pato bravo. \u2014 Mas isso pouco importa, desde que n\u00e3o cases com nenhuma das nossas filhas.<\/p>\n<p class=\"maius\">Pobrezinho do patinho. A ideia de casar nem sequer lhe tinha vindo \u00e0 cabe\u00e7a. Tudo o que queria era deitar-se e descansar nos juncos e beber um pouco da \u00e1gua do charco.<\/p>\n<p class=\"maius\">Ali ficou durante dois dias, at\u00e9 que apareceram dois gansos selvagens \u2014 dois jovens machos. Tamb\u00e9m tinham nascido h\u00e1 pouco, mas eram muito vivos e descarados.<\/p>\n<p>\u2014 Ol\u00e1, amigo \u2014 disseram. \u2014 \u00c9s t\u00e3o feio que gostamos de ti. Que tal vires connosco quando voarmos para mais longe? Num charco perto daqui h\u00e1 umas lindas gansas, belas raparigas, com um \u00abquac!\u00bb que vale a pena ouvir. Com o teu aspecto esquisito pode ser que tenhas sorte com elas.<\/p>\n<p class=\"maius\">Nesse momento ouviu-se \u00abbang!, bang!\u00bb e ambos os alegres gansos ca\u00edram mortos nos juncos. A \u00e1gua ficou vermelha de sangue. Outra vez \u00abbang!, bang!\u00bb \u2014 e um bando de gansos selvagens levantou voo dos juncos. Era uma grande ca\u00e7ada. Os desportistas estavam a toda a volta do charco; alguns estavam mesmo empoleirados nas \u00e1rvores. Fumo azul subia como nuvens dentro e fora dos ramos escuros e ficava a pairar sobre a \u00e1gua. Os c\u00e3es faziam tchac!, tchac!, pela lama, esmagando os juncos. O pobre patinho estava aterrorizado; quando tentava precisamente esconder a cabe\u00e7a debaixo da asa um c\u00e3o enorme e assustador parou em frente dele com a l\u00edngua de fora e os olhos a brilharem de uma maneira horr\u00edvel. Encostou o focinho ao patinho, arreganhou os dentes agu\u00e7ados e depois \u2014 tchac!, foi-se embora sem lhe tocar.<\/p>\n<p>\u2014 Oh, gra\u00e7as a Deus! \u2014 suspirou o patinho. \u2014 Sou t\u00e3o feio que at\u00e9 o c\u00e3o pensa duas vezes antes de me morder. E ficou muito quieto enquanto ouvia os tiros, um ap\u00f3s outro, guincharem e troarem pelos juncos. O dia j\u00e1 ia longo quando o barulho parou; mas a pobre criatura nem ent\u00e3o se atreveu a mexer-se. Por fim, levantou a cabe\u00e7a, espreitou cautelosamente em redor e apressou-se a fugir do charco t\u00e3o depressa quanto p\u00f4de. Correu por campos e prados, mas o vento soprava t\u00e3o forte contra ele que era dif\u00edcil avan\u00e7ar.<\/p>\n<p class=\"maius\">Perto da noite, chegou a um casinhoto miser\u00e1vel; estava em tal estado que nem sabia para que lado havia de cair, de modo que continuava de p\u00e9. O vento soprava com tanta for\u00e7a que o patinho teve de se sentar para n\u00e3o ser levado por ele, mas o vento parecia ficar cada vez mais forte. Ent\u00e3o notou que a porta j\u00e1 n\u00e3o tinha uma dobradi\u00e7a e estava pendurada de tal modo que ele conseguia esgueirar-se l\u00e1 para dentro, e foi isso mesmo que fez.<\/p>\n<p class=\"maius\">No casinhoto vivia uma velhota com um gato e uma galinha. O gato, a quem ela chamava\u00a0<em>Filhinho<\/em>, sabia arquear as costas e fazer ronrom; tamb\u00e9m fazia fa\u00edscas, mas s\u00f3 quando lhe faziam festas ao contr\u00e1rio. A galinha tinha umas pernitas curtas e por isso chamava-se\u00a0<em>Pinta-Pernas-Curtas<\/em>. Punha muitos ovos, e a velhota gostava dela como se fosse sua filha.<\/p>\n<p class=\"maius\">Quando amanheceu, repararam logo no estranho pequeno visitante. O gato come\u00e7ou a fazer ronrom, e a galinha a cacarejar.<\/p>\n<p>\u2014 O que \u00e9 que aconteceu? \u2014 perguntou a velhota, olhando a toda a volta.<\/p>\n<p class=\"maius\">Mas j\u00e1 n\u00e3o via muito bem, de modo que tomou o pequeno rec\u00e9m-chegado por uma pata adulta.<\/p>\n<p>\u2014 Ora isto \u00e9 que \u00e9 sorte! \u2014 exclamou ela. \u2014 Agora vou ter ovos de pata\u2026 desde que n\u00e3o seja um pato. Bem, veremos\u2026<\/p>\n<p class=\"maius\">E o patinho ficou \u00e0 experi\u00eancia durante tr\u00eas semanas, mas n\u00e3o apareceram ovos.<\/p>\n<p class=\"maius\">O gato era o senhor da casa, e a galinha a senhora. Passavam a vida a dizer \u00abN\u00f3s e o mundo\u2026\u00bb, porque pensavam que eram metade do mundo e, claro, a metade melhor. O patinho achava que podia haver outras opini\u00f5es sobre o assunto, mas a galinha n\u00e3o queria ouvir falar nisso.<\/p>\n<p>\u2014 Sabes p\u00f4r ovos? \u2014 perguntou. \u2014 N\u00e3o? Ent\u00e3o, faz o favor de guardar as tuas opini\u00f5es para ti pr\u00f3prio!<\/p>\n<p class=\"maius\">O gato perguntou:<\/p>\n<p>\u2014 Sabes arquear as costas e fazer ronrom ou soltar fa\u00edscas? N\u00e3o? Ent\u00e3o o melhor que tens a fazer \u00e9 ficares calado quando as pessoas sensatas est\u00e3o a falar.<\/p>\n<p class=\"maius\">De maneira que o patinho se sentava a um canto e aborrecia-se. Vinham-lhe \u00e0 ideia pensamentos sobre o ar livre e o sol, e depois uma saudade extraordin\u00e1ria de flutuar na \u00e1gua. Por fim, n\u00e3o p\u00f4de deixar de falar nisso \u00e0 galinha.<\/p>\n<p>\u2014 Que ideia t\u00e3o disparatada! \u2014 exclamou ela. \u2014 O teu mal \u00e9 n\u00e3o teres nada que fazer; por isso \u00e9 que tens essas fantasias. P\u00f5e mas \u00e9 uns ovos ou tenta fazer ronrom que isso passa-te.<\/p>\n<p>\u2014 Mas \u00e9 t\u00e3o delicioso flutuar na \u00e1gua \u2014 disse o patinho. \u2014 \u00c9 t\u00e3o bom baixar a cabe\u00e7a e mergulhar at\u00e9 ao fundo!<\/p>\n<p>\u2014\u00a0<em>Deve<\/em>\u00a0ser \u00f3ptimo! \u2014 disse a galinha sarcasticamente. \u2014 N\u00e3o deves estar bom da cabe\u00e7a! Pergunta ao gato, que \u00e9 a pessoa mais inteligente que conhe\u00e7o, se\u00a0<em>ele<\/em>\u00a0gosta de flutuar na \u00e1gua ou de mergulhar at\u00e9 ao fundo. N\u00e3o fa\u00e7as caso da minha opini\u00e3o; pergunta \u00e0 nossa dona, a velhota: n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m mais s\u00e1bio no mundo inteiro. Achas que ela quer flutuar ou meter a cabe\u00e7a dentro de \u00e1gua?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o compreendes\u2026 \u2014 disse o patinho tristemente.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, se n\u00f3s n\u00e3o te compreendemos, ningu\u00e9m compreender\u00e1. Nunca saber\u00e1s tanto como o gato ou a velhota, para j\u00e1 n\u00e3o falar de mim. N\u00e3o tenhas peneiras, mi\u00fado, e agradece as coisas boas que te t\u00eam acontecido. N\u00e3o encontraste um quarto quente e companheiros elegantes, com quem podes aprender muito se prestares aten\u00e7\u00e3o? Mas tu s\u00f3 dizes disparates; nem sequer \u00e9s uma companhia alegre. Acredita que o que te digo \u00e9 para teu bem. V\u00e1, faz um esfor\u00e7o e p\u00f5e uns ovos ou, pelo menos, aprende a fazer ronrom e a deitar fa\u00edscas.<\/p>\n<p>\u2014 Acho que o melhor \u00e9 ir por esse mundo fora \u2014 respondeu o patinho.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o vai \u2014 exclamou a galinha.<\/p>\n<p class=\"maius\">E o patinho l\u00e1 foi. Boiou na \u00e1gua e mergulhou; mas parecia-lhe que os outros patos n\u00e3o faziam caso dele por ele ser feio.<\/p>\n<p class=\"maius\">At\u00e9 que chegou o Outono: as folhas do bosque ficaram castanhas e amarelas; o vento apanhava-as e fazia-as rodopiar como loucas; at\u00e9 o c\u00e9u parecia gelado; as nuvens pairavam, pesadas com granizo e neve, e o corvo, empoleirado numa sebe, gritava \u00abcr\u00e1, cr\u00e1\u00bb por causa do frio. S\u00f3 de olhar para aquilo ficava-se logo a tremer. Foi um tempo dif\u00edcil tamb\u00e9m para o patinho.<\/p>\n<p class=\"maius\">Uma tarde, com o c\u00e9u avermelhado pelo p\u00f4r do Sol, um bando de grandes aves maravilhosas ergueu-se dos juncos. O patinho nunca tinha visto aves t\u00e3o belas. Eram de um branco brilhante, com longos pesco\u00e7os graciosos \u2014 na verdade, eram cisnes. Emitindo um estranho som, abriram as espl\u00eandidas asas e voaram para longe, para terras mais quentes e lagos que n\u00e3o gelavam. Voaram at\u00e9 bem alto e o patinho feio ficou muito excitado; andava \u00e0 roda, \u00e0 roda, na \u00e1gua, e chamou-os com uma voz t\u00e3o alta e estranha que at\u00e9 ele pr\u00f3prio se assustou. Oh, nunca esqueceria aquelas aves maravilhosas, aquelas aves felizes! Assim que a \u00faltima desapareceu, mergulhou mesmo at\u00e9 ao fundo e, quando voltou de novo \u00e0 superf\u00edcie, estava excitad\u00edssimo. N\u00e3o sabia como se chamavam as aves; n\u00e3o sabia de onde tinham vindo nem para onde voavam \u2014 mas sentia-se mais atra\u00eddo por elas do que por qualquer outra coisa.<\/p>\n<p class=\"maius\">No Inverno ficou ainda mais frio. O patinho tinha de nadar \u00e0s voltas na \u00e1gua para esta n\u00e3o gelar, mas cada noite a parte sem gelo se tornava mais pequena. Depois, tinha de bater com os p\u00e9s a toda a hora, para quebrar a superf\u00edcie; por fim, acabou por ficar estafado. Parou e depressa gelou completamente.<\/p>\n<p class=\"maius\">De manh\u00e3 cedo apareceu um campon\u00eas. Vendo a ave, foi at\u00e9 l\u00e1, partiu o gelo com os socos de madeira e levou-a para casa, para a mulher. Pouco tempo depois, o patinho reanimou-se. As crian\u00e7as queriam brincar com ele, mas ele julgava que queriam fazer-lhe mal e, assustado, voou para dentro da selha do leite. O leite salpicou a sala toda; a mulher deu um grito e deitou as m\u00e3os \u00e0 cabe\u00e7a; depois, o patinho voou para dentro da cuba da manteiga, depois para o barril da farinha, e depois saiu. Meu Deus, que espect\u00e1culo! A mulher, ainda aos gritos, atirou-lhe o ati\u00e7ador da lareira; as crian\u00e7as, rindo e guinchando, ca\u00edam umas por cima das outras, tentando apanhar o patinho. Felizmente, a porta estava aberta; l\u00e1 foi ele a correr para os arbustos e para a neve rec\u00e9m-ca\u00edda e a\u00ed ficou meio entontecido.<\/p>\n<p class=\"maius\">Mas seria demasiado triste contar-vos todas as dificuldades e infelicidades por que ele teve de passar durante aquele Inverno cruel. Um dia, estava a tentar aconchegar-se entre os juncos do charco quando o Sol come\u00e7ou a enviar novamente raios quentes; as cotovias cantavam; que maravilha! Tinha chegado a Primavera. O patinho ergueu as asas. Pareciam mais fortes do que antes, e levaram-no velozmente para longe; antes de perceber o que estava a acontecer, encontrou-se num lindo jardim cheio de macieiras em flor, com lilases perfumados que pendiam dos seus longos ramos mesmo at\u00e9 um riacho sinuoso. E ent\u00e3o, mesmo em frente dele, saindo das sombras das folhas, apareceram tr\u00eas magn\u00edficos cisnes brancos, agitando as penas enquanto deslizavam pela \u00e1gua. O patinho reconheceu as maravilhosas aves e sentiu uma estranha tristeza.<\/p>\n<p>\u2014 Vou voar at\u00e9 \u00e0quelas nobres aves, mesmo que me matem \u00e0 bicada por me atrever a aproximar-me, feio como sou. Mas n\u00e3o me importo\u2026 \u00e9 melhor ser morto por umas criaturas t\u00e3o espl\u00eandidas do que apanhar bicadas de patos e galinhas e pontap\u00e9s da rapariga da quinta ou ter de aguentar outro Inverno como o \u00faltimo.<\/p>\n<p class=\"maius\">Voou para a \u00e1gua e nadou em direc\u00e7\u00e3o aos magn\u00edficos cisnes. Estes viram-no e vieram ter com ele a toda a velocidade, agitando a plumagem.<\/p>\n<p>\u2014V\u00e1, matem-me \u2014 disse o pobre patinho curvando a cabe\u00e7a mesmo at\u00e9 \u00e0 \u00e1gua enquanto esperava pelo fim.<\/p>\n<p class=\"maius\">Mas o que \u00e9 que viu ele reflectido em baixo? Observou-se bem \u2014 j\u00e1 n\u00e3o era uma desajeitada ave feia e cinzenta. Era igual \u00e0s orgulhosas aves brancas ali ao p\u00e9: era um cisne!<\/p>\n<p class=\"maius\">N\u00e3o interessa nascer num terreiro de patos quando se sai de um ovo de cisne.<\/p>\n<p class=\"maius\">Sentiu-se feliz por ter sofrido tantas dificuldades, porque agora dava valor \u00e0 sua boa sorte e ao lar que finalmente tinha encontrado. Os majestosos cisnes nadaram \u00e0 sua volta e acariciaram-no com admira\u00e7\u00e3o com os bicos. Umas criancinhas apareceram no jardim e atiraram p\u00e3o para a \u00e1gua e a mais pequenina gritou alegremente:<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 mais um!<\/p>\n<p class=\"maius\">E as outras disseram, encantadas:<\/p>\n<p>\u2014 E verdade, apareceu mais um cisne!<\/p>\n<p class=\"maius\">Bateram palmas e dan\u00e7aram de contentamento; depois foram a correr contar aos pais. Deitaram mais p\u00e3o e bolo para a \u00e1gua e todos disseram:<\/p>\n<p>\u2014 O novo \u00e9 o mais bonito de todos. Olhem que belo que \u00e9, aquele novo!<\/p>\n<p class=\"maius\">E os cisnes mais velhos curvaram as cabe\u00e7as diante dele.<\/p>\n<p class=\"maius\">Ele sentia-se muito envergonhado e escondeu a cabe\u00e7a debaixo de uma asa; n\u00e3o sabia o que fazer. Estava quase feliz de mais, porque um bom cora\u00e7\u00e3o nunca \u00e9 orgulhoso nem vaidoso. Lembrava-se dos tempos em que tinha sido perseguido e desprezado, e agora ouvia toda a gente dizer que era a mais bela de todas aquelas maravilhosas aves brancas. Os lilases curvaram os ramos at\u00e9 \u00e0 \u00e1gua para o saudarem; o Sol enviou o seu calor amigo, e a jovem ave, com o cora\u00e7\u00e3o cheio de alegria, agitou as penas, ergueu o pesco\u00e7o esguio e exclamou:<\/p>\n<p>\u2014 Nunca pensei que alguma vez pudesse sentir tamanha felicidade quando era o patinho feio!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estava muito agrad\u00e1vel no campo. O ar rescendia a Ver\u00e3o; o milho estava amarelo; a aveia estava pronta a ser ceifada; as medas de feno nos prados pareciam pequenas colinas de erva e a cegonha&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[31],"class_list":["post-734","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-hans-christian-andersen"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/734","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=734"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/734\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":737,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/734\/revisions\/737"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=734"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=734"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=734"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}