{"id":741,"date":"2018-07-09T16:47:05","date_gmt":"2018-07-09T16:47:05","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=741"},"modified":"2018-07-09T16:47:05","modified_gmt":"2018-07-09T16:47:05","slug":"clarisse-dancava","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/clarisse-dancava","title":{"rendered":"Clarisse Dan\u00e7ava"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\">Secular ancila negra,<br \/>\nSob correntes paralisantes,<br \/>\nFita fl\u00e9bil, o inquieto infinito.<br \/>\n-Maravilha-se<br \/>\nE assim mesmo\u2026 Dan\u00e7a.<\/p>\n<p>Na realidade poder-se-ia dizer\u2026<\/p>\n<p>Clarice nasceu dan\u00e7ando!<\/p>\n<p>Quando ainda muito pequena, pequerrucha \u2013 mi\u00fada mesmo \u2013 j\u00e1 deu seus primeiros passos dan\u00e7ando. Seu desejo de dan\u00e7ar veio da alma, de dentro de si. Por isso ningu\u00e9m jamais soube por que se manifestou este talento em Clarice.<\/p>\n<p>\u201cPor que tanto dan\u00e7ava Clarice?\u201d<\/p>\n<p>Clarice caminhava dan\u00e7ando, banhava-se dan\u00e7ando; dan\u00e7ando sorria, dan\u00e7ando vivia. Quando um novo dia raiava, encontrava Clarice dan\u00e7ando. Mesmo \u00e0 noite se Clarice dormia e sonhava; sonhava que estava dan\u00e7ando.<\/p>\n<p>Clarice que muito sorria pouco falava. N\u00e3o pedia, n\u00e3o reclamava.<\/p>\n<p>\u201cClarice somente dan\u00e7ava!\u201d<\/p>\n<p>Assim crescia Clarice, dan\u00e7ando. O sol ao surgir parecia vir lhe saudar todos os dias e que s\u00f3 resplandecia para v\u00ea-la dan\u00e7ar e sorrir. Na sua alegria Clarice dan\u00e7ava, era assim dan\u00e7ando que a Deus agradecia, e dan\u00e7ando dia adentro permanecia. Enfim, quando o crep\u00fasculo retornava n\u00e3o raro a encontrava dan\u00e7ando.<\/p>\n<p>Quando Clarice dan\u00e7ava, dan\u00e7ava toda Clarice. Dan\u00e7avam seus olhos, seu dorso, seu sorriso. At\u00e9 seus crespos cabelos negros, no ar, pareciam dan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Aos quinze anos, n\u00e3o era somente devido a suas dan\u00e7as, sempre originais, que Clarice a todos encantava, tamb\u00e9m pelo seu talhe j\u00e1 belo, esguio, faceiro, um tanto quanto altivo.<\/p>\n<p>Clarice comemorou seus dezesseis anos dan\u00e7ando. Na festa do anivers\u00e1rio de Clarice ningu\u00e9m dan\u00e7ou. N\u00e3o, n\u00e3o dan\u00e7aram os parentes, n\u00e3o dan\u00e7aram os convidados, nem mesmo os n\u00e3o esperados; porque todos apenas queriam v\u00ea-la dan\u00e7ando.<\/p>\n<p>Naquele dia foi tanto o deslumbramento das pessoas que os pais de Clarice sentiram n\u2019alma orgulho e felicidade por terem gerado o talentoso ser. Al\u00e9m do mais, a Clarice deles apenas dan\u00e7ava e estava ali sob todos os seus cuidados.<\/p>\n<p>\u201cQue mal haveria em dan\u00e7ar, n\u00e3o h\u00e1 no mundo inteiro pessoas que se expressam dan\u00e7ando?\u201d<\/p>\n<p>\u201cQue ganham muito, muito dinheiro dan\u00e7ando?\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o seria a dan\u00e7a t\u00e3o antiga quanto o caminhar da humanidade?\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o era poss\u00edvel haver algo do mal no fato da Clarice deles dan\u00e7ar! Al\u00e9m do mais, o mundo parecia mais v\u00edvido e menos impuro ante a graciosidade de sua Clarice dan\u00e7ando.<\/p>\n<p>Um dia os pais sentiram falta de Clarice. Procuraram-na. Muitos, nos arredores, houveram visto a pequena passar, por\u00e9m n\u00e3o souberam informar aonde ela fora. Na verdade, n\u00e3o ousaram atestar se Clarice passara indo ou se Clarice passara vindo. Isto porque se lembraram apenas de t\u00ea-la visto dan\u00e7ando.<\/p>\n<p>No dia seguinte, encontraram a irrequieta menininha imersa nos florais do jardim da cidade. Era quase noite e chovia; entretanto, Clarice dan\u00e7ava. Por entre os pingos da chuva seu corpo realizava contornos no espa\u00e7o. Seus p\u00e9s pareciam sintonizar com o tamborilar do cair da chuva. De modo t\u00e3o lindo dan\u00e7ava, que as pessoas paravam para observar e ali permaneciam, aplaudindo Clarice, dan\u00e7ando com Clarice.<\/p>\n<p>Seus pr\u00f3ximos sabiam que seus olhos nem-sempre-verdes entravam numa singular apatia quando ela n\u00e3o estava dan\u00e7ando; e sobrevinha-lhe um ap\u00e1tico semblante demonstrando que quando ela n\u00e3o podia dan\u00e7ar o seu cora\u00e7\u00e3o inquietava-se sofrendo, e como era lindo ver Clarice dan\u00e7ar!<\/p>\n<p>Seguindo insuflados conselhos dos amigos, os pais de Clarice levaram-na ao Dr. analista. Ent\u00e3o, Clarice pediu ao douto para dan\u00e7ar. Quando Clarice dan\u00e7ou, o m\u00e9dico compreendeu que se havia algu\u00e9m doente, os doentes eram eles pr\u00f3prios. O que Clarice ofertava a todos era demasiado singelo e puro para aquelas pessoas compreenderem. Toda a cl\u00ednica aplaudiu e dan\u00e7ou com Clarice.<\/p>\n<p>Decidiu-se ent\u00e3o que a pequena Clarice poderia dan\u00e7ar. Decidiu-se como se fosse correto impedir aquele corpinho esbelto de sair cabriolando no ar, misturando-se aos compassos musicais. Assim, desta vez, n\u00e3o foi feita a injun\u00e7\u00e3o comum e (Ave!) permitiram que Clarice dan\u00e7asse.<\/p>\n<p>Agora Clarice era menina-mo\u00e7a mais bela da regi\u00e3o. No col\u00e9gio a queriam dan\u00e7ando. Em casa, os irm\u00e3os, os parentes, os vizinhos se reuniam para v\u00ea-la dan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Certo dia, resolveram levar a terna e ainda ing\u00eanua Clarice para uma academia de dan\u00e7a profissional. Nas r\u00e1pidas semanas seguintes Clarice aprendera os segredos da salsa, os passos marcados da valsa, a disciplina e altivez dos cl\u00e1ssicos. \u201cAo requebrar-se no samba parecia criada entre os bambas\u201d. Dan\u00e7ava o can-can, o vira, o afox\u00e9. Dan\u00e7ava nas \u00f3peras, brilhava nas dan\u00e7as dos orix\u00e1s do candombl\u00e9.<\/p>\n<p>O mestre ent\u00e3o disse que Clarice estava pronta. Nada mais tinha para ensinar para Clarice.<\/p>\n<p>\u201cEla \u00e9 a pr\u00f3pria arte da dan\u00e7a..\u201d.<\/p>\n<p>Recomendou-a aos melhores empres\u00e1rios que ele conhecia. Aqueles que foram ver Clarice dan\u00e7ar quase n\u00e3o acreditaram\u2026<\/p>\n<p>Disputaram entre si o direito de contrat\u00e1-la. Dispuseram e discutiram com os pais dela motivos e acordos contratuais, lan\u00e7amentos e excurs\u00f5es, passeios, lucros e estadias, que Clarice com seu talento pagaria.<\/p>\n<p>No dia da \u201cpremi\u00e8re\u201d novamente chovia. Clarice adentrou ao palco, confusa e impressionada com todo aquele aparato. Bem notou como a assist\u00eancia estava lotada. L\u00e1 estavam seus pais, seus amigos, muitos conhecidos e desconhecidos da cidade.<\/p>\n<p>Pouco Clarice havia dan\u00e7ado e eles come\u00e7aram a aplaudir. Durante todo o tempo eles aplaudiram. Mal se podia ver, mal se podia ouvir. Quando Clarice terminou, aplaudiam todos:<\/p>\n<p>\u2013 Aplaudim-na o diretor, os m\u00fasicos, a plat\u00e9ia e o bilheteiro.<\/p>\n<p>Vieram as grandes excurs\u00f5es e ao mundo Clarice encantou.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o entendia bem por que ficar t\u00e3o longe dos seus para dan\u00e7ar; mas sempre divinamente dan\u00e7ou. Encantados, os leigos a aplaudiam, os cr\u00edticos aplaudiam.<\/p>\n<p>\u2013 os artistas aplaudiam.<\/p>\n<p>Assim o tempo fora passando. Clarice se destacava nos palcos, nos v\u00eddeos, nos jornais. Onde no mundo, a pequena Clarice estava, a bilheteria superfaturava.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que notaram que Clarice dan\u00e7ava demais\u2026<\/p>\n<p>\u201cClarice dan\u00e7ava demais, DEMAIS !\u201d<\/p>\n<p>Clarice vivia dan\u00e7ando! Colhia flores dan\u00e7ando? \u201cBeijava as crian\u00e7as dan\u00e7ando\u201d; Abra\u00e7ava os amigos dan\u00e7ando\u2026<\/p>\n<p>Estivessem seus p\u00e9s cal\u00e7ados ou nus\u2026<\/p>\n<p>\u201cQue perigo\u2026 Tamb\u00e9m dan\u00e7ava!\u201d<\/p>\n<p>Algu\u00e9m, se pedisse para seus passos demonstrar \u2013 \u201cQue preju\u00edzo!\u201d \u2013 graciosamente partia Clarice dan\u00e7ando.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o \u201cpara sua pr\u00f3pria seguran\u00e7a\u201d que impuseram para Clarice: Fora do palco ela n\u00e3o poderia dan\u00e7ar (Cl\u00e1usula contratual).<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m seus p\u00e9s teriam de ser mantidos cal\u00e7ados, intocados, presos e oleados.<\/p>\n<p>No dia que Clarice dan\u00e7ava na platibanda do topo do edif\u00edcio\u2026<\/p>\n<p>\u2013 A plat\u00e9ia n\u00e3o aplaudia\u2026 seus pais n\u00e3o entendiam, seu empres\u00e1rio blasfemava.<\/p>\n<p>Na verdade, ela n\u00e3o estava se importando de estar ali, rompendo cl\u00e1usulas contratuais.<\/p>\n<p>Da borda da laje do alt\u00edssimo edif\u00edcio de fria arquitetura de cimento e a\u00e7o, Clarice perscrutou o horizonte e maravilhou-se, pois achou que todo o hemisf\u00e9rio dan\u00e7ava.<\/p>\n<p>Dan\u00e7avam os astros, dan\u00e7avam as nuvens, dan\u00e7avam as mar\u00e9s, dan\u00e7avam as galeras e as gaivotas, ao ritmo da brisa do mar. Clarice viu tamb\u00e9m que imersas na mesma brisa flu\u00eddica as folhas das copas das \u00e1rvores dan\u00e7avam.<\/p>\n<p>Ela agora se sentia mais alegre, liberta; porquanto realmente concebia haver dan\u00e7a em tudo.<\/p>\n<p>\u201cEm tudo? Nem tanto\u2026 \u201c<\/p>\n<p>Observou que algo estava inerte l\u00e1 embaixo.<\/p>\n<p>\u201cMesmo assim, a seu redor v\u00e1rias pessoas dan\u00e7avam.\u201d<\/p>\n<p>De repente, pode ver melhor\u2026 Era seu pr\u00f3prio corpo!<\/p>\n<p>Mas que import\u00e2ncia poderia isto ter? Era apenas uma infinit\u00e9sima parte de mat\u00e9ria do universo paralisada.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do mais, ela nunca compreendera bem essas coisas.<\/p>\n<p>Ela agora finalmente se sentia em um verdadeiro estado de \u00eaxtase; fascinada! Percebera que dispunha diante de si de todo o infinito para poder livremente dan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Foi assim que a pequena Terps\u00edcore partiu\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Dan\u00e7ando no ar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Secular ancila negra, Sob correntes paralisantes, Fita fl\u00e9bil, o inquieto infinito. -Maravilha-se E assim mesmo\u2026 Dan\u00e7a. Na realidade poder-se-ia dizer\u2026 Clarice nasceu dan\u00e7ando! 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