{"id":742,"date":"2018-07-09T16:48:02","date_gmt":"2018-07-09T16:48:02","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=742"},"modified":"2018-07-09T16:48:02","modified_gmt":"2018-07-09T16:48:02","slug":"o-noivado-infeliz-da-aurelia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-noivado-infeliz-da-aurelia","title":{"rendered":"O Noivado Infeliz da Aur\u00e9lia"},"content":{"rendered":"<p>Os fatos que se seguem foram narrados numa carta que me escreveu uma jo-vem da bela cidade de San Jos\u00e9.<\/p>\n<p>Devo esclarecer que n\u00e3o conhe\u00e7o, em absoluto, a signat\u00e1ria do referido documento, que se assina simplesmente Aur\u00e9lia-Maria \u2013 provavelmente um pseud\u00f4nimo.<\/p>\n<p>A pobre garota tem o cora\u00e7\u00e3o transtor-nado pelos infort\u00fanios que vem sofrendo. E sente-se t\u00e3o perturbada pelos conselhos, uns diferentes dos outros, de amigos ignorantes e inimigos insidiosos, que n\u00e3o sabe mais o que fazer mais para se ver livre da teia do destino, na qual parece encontrar-se presa para sempre.<\/p>\n<p>Nervosa, recorre a mim, suplicando-me que lhe dirija os meus conselhos, falando-me com uma eloq\u00fc\u00eancia extraordin\u00e1ria, que tocaria o cora\u00e7\u00e3o de uma est\u00e1tua.<\/p>\n<p>Ou\u00e7amos a sua triste hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Aur\u00e9lia tinha dezesseis anos \u2013 diz ela \u2013 quando encontrou e amou, com todo o ardor de uma alma apaixonada, um rapaz de New Jersey, chamado Wilhamson Brockinrid-ge Caruthers, quase seis anos mais velho que ela.<\/p>\n<p>Com o consentimento de seus pais, fica-ram noivos, e durante um largo per\u00edodo tudo correu muito bem, como se os noivos estivessem imunizados contra os instantes de desgra-\u00e7a que sempre tocam \u00e0 humanidade.<\/p>\n<p>Um dia, entretanto, a face da realidade transformou-se. O jovem Caruthers caiu de cama com var\u00edola, e da esp\u00e9cie mais virulenta e terr\u00edvel. Quando ficou bom, tinho o rosto desfigurado, a pele marcada pelas bexigas. J\u00e1 n\u00e3o era o mesmo, porque a sua beleza desapa-recera para sempre.<\/p>\n<p>Aur\u00e9lia pensou logo em romper o seu compromisso, mas, por uma quest\u00e3o de piedade para com o infeliz, limitou-se a transferir o casamento para depois, como que dando uma oportunidade ao pobre rapaz.<\/p>\n<p>Acontece que na v\u00e9spera do casamento, Caruthers, quando acompanhava com os olhos um bal\u00e3o que subia aos c\u00e9us, caiu, dis-tra\u00eddo, num po\u00e7o, e quebrou uma perna. Tiveram de amput\u00e1-la acima do joelho.<\/p>\n<p>Novamente Aur\u00e9lia teve a inten\u00e7\u00e3o de acabar com o noivado e novamente o amor triunfou. O casamento foi transferido e ela dei-xou que o tempo corresse.<\/p>\n<p>Outra infelicidade aguardava o noivo cai-pora. Caruthers perdeu um bra\u00e7o quando de uma descarga imprevista de um canh\u00e3o, numa festa c\u00edvica. Ainda na convalescen\u00e7a. tr\u00eas me-ses depois, teve o outro esmagado numa pren-sa agr\u00edcola.<\/p>\n<p>O cora\u00e7\u00e3o da pobre Aur\u00e9lia foi horrivel-mente machucado por essas verdadeiras cala-midades. Era enorme a sua afli\u00e7\u00e3o, por ver seu jovem noivo abandon\u00e1-la peda\u00e7o por pe-da\u00e7o e imaginar que, com esse sistema de progressiva reda\u00e7\u00e3o, com pouco nada mais restaria do rapaz. E do\u00eda-lhe verificar que nada podia fazer por ele.<\/p>\n<p>Em seu desespero, coitada, como um ne-gociante que teima num neg\u00f3cio e tem pre-ju\u00edzo regularmente, todos os dias, Aur\u00e9lia sen-tia um grande e profundo arrependimento por n\u00e3o haver casado logo de in\u00edcio com Caru-thers. antes que ele sofresse t\u00e3o alarmante de-precia\u00e7\u00e3o. Mas, encarando a situa\u00e7\u00e3o com \u00e2ni-mo firme, resolveu p\u00f4r \u00e0 prova, ainda uma vez, as lament\u00e1veis disposi\u00e7\u00f5es do seu noivo.<\/p>\n<p>Foi marcado o dia do cas\u00f3rio e de novo turvou-se o c\u00e9u com as nuvens da desilus\u00e3o. \u00c9 que Caruthers caiu doente com um acesso de erisipela e foi ent\u00e3o que perdeu um dos olhos.<\/p>\n<p>Os pais e os amigos da mo\u00e7a, tendo em vista que a sua generosa obstina\u00e7\u00e3o j\u00e1 excedia os limites normais, novamente intervieram e insistiram para que se considerasse nulo o seu noivado.<\/p>\n<p>Aur\u00e9lia chegou a hesitar, apesar da sua imensa bondade de sentimentos, por\u00e9m res-pondeu a todos que, refletindo direito sobre o assunto, verificara que n\u00e3o tinha nenhuma raz\u00e3o de queixa contra o noivo.<\/p>\n<p>Foi transferida a data do casamento, e eis que Caruthers quebra a outra perna.<\/p>\n<p>Para a pobre noiva foi bem triste o dia em que, no hospital. viu os cirurgi\u00f5es mandarem arrastar para um canto o saco que continha mais uma parte do corpo do seu amado.<\/p>\n<p>Aur\u00e9lia sentiu uma emo\u00e7\u00e3o cruel, perce-bendo que mais um peda\u00e7o do homem que iria ser seu esposo ia desaparecer. Sentiu, so-bretudo, que o campo de suas afei\u00e7\u00f5es mais puras diminu\u00eda a olhos vistos. Contudo, n\u00e3o atendeu aos rogos dos seus, quanto \u00e0 anula\u00e7\u00e3o do seu compromisso, e s\u00f3 fez mesmo transferir o casamento.<\/p>\n<p>Enfim, poucos dias antes da data fixada, aconteceu outra desgra\u00e7a. Foi o seguinte: du-rante o ano, os \u00edndios de Owen River arran-caram o couro cabeludo de um s\u00f3 homem, e este homem foi Wilhiamson Brockiridge Ca-ruthers, de New Jersey.<\/p>\n<p>Ainda assim, o pobre-diabo fez-se trans-portar imediatamente para a casa de sua noiva, o cora\u00e7\u00e3o transbordante de alegria, embo-ra tivesse perdido os cabelos para sempre. Apesar de todo o seu desgosto, ainda deu gra\u00e7as a Deus por haver-se salvo, mesmo por esse pre\u00e7o exorbitante.<\/p>\n<p>A esta altura, Aur\u00e9lia est\u00e1 indecisa quanto \u00e0 atitude que deve tomar. Ainda ama o noivo \u2013 \u00e9 o que ela me escreve em sua carta. O noivo ou o peda\u00e7o de noivo que lhe resta. Ama-o de todo o cora\u00e7\u00e3o, por\u00e9m sua fam\u00edlia se op\u00f5e terminantemente ao casamento.<\/p>\n<p>Caruthers \u00e9 pobre e n\u00e3o pode mais traba-lhar. Por sua vez, Aur\u00e9lia n\u00e3o temo necess\u00e1rio para que possam viver os dois juntos, com relativo conforto.<\/p>\n<p>\u2013 Que devo fazer? \u2013 eis o que ela me pergunta, numa indecis\u00e3o cruel.<\/p>\n<p>Esta \u00e9, com efeito, uma quest\u00e3o delicada. Quest\u00e3o cuja resposta deve decidir sobre o destino de uma mulher e de um peda\u00e7o de homem.<\/p>\n<p>Estou certo de que seria assumir uma grande responsabilidade responder indo al\u00e9m de uma simples sugest\u00e3o.<\/p>\n<p>Quanto custaria a reconstitui\u00e7\u00e3o de um Caruthers completo? Se Aur\u00e9lia tem algum recurso, deve comprar para o seu noivo muti-lado umas pernas artificiais, um olho de vidro e uma cabeleira posti\u00e7a, para torn\u00e1-lo apresen-t\u00e1vel. Feito isto, seria conveniente que lhe des-se um prazo improrrog\u00e1vel de noventa dias, ao fim do qual, se o rapaz n\u00e3o torcer o pesco-\u00e7o, poder\u00e1 arriscar-se a casar com ele.<\/p>\n<p>N\u00e3o creio que assim procedendo Aur\u00e9lia se aventure a grande risco, de qualquer ma-neira. Se Caruthers ainda uma vez cede \u00e0 ten-ta\u00e7\u00e3o estranha de quebrar alguma coisa sem-pre que se lhe apresenta a ocasi\u00e3o prop\u00edcia, sua pr\u00f3xima experi\u00eancia na certa ser\u00e1 fatal, e ent\u00e3o a pobre noiva poder\u00e1 ficar tranq\u00fcila, casada ou n\u00e3o. Casada, as pernas de pau e outros objetos, propriedade do defunto, fica-r\u00e3o como heran\u00e7a para a vi\u00fava, e assim Aur\u00e9lia n\u00e3o perder\u00e1 nada, a n\u00e3o ser, na realidade, o \u00faltimo peda\u00e7o vivo dum esposo honesto e infeliz, que durante a vida toda n\u00e3o fez outra coisa sen\u00e3o contentar os seus extraordin\u00e1rios instintos de autodestrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 tentar a sorte, portanto. Refleti bastante sobre o assunto, e este me parece o melhor partido a tomar no caso.<\/p>\n<p>Decerto, Caruthers teria agido com acerto se houvesse tentado quebrar o o pesco\u00e7o logo da primeira vez, tratando de fazer coisa definitiva. J\u00e1 que escolheu outro m\u00e9todo, dispondo-se a prolongar o sacrif\u00edcio o mais poss\u00edvel, n\u00e3o se pode critic\u00e1-lo, por haver feito o que lhe pareceu melhor. Deve-se \u00e9 procurar tirar o melhor proveito das circunst\u00e2ncias, sem o menor ressentimento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os fatos que se seguem foram narrados numa carta que me escreveu uma jo-vem da bela cidade de San Jos\u00e9. 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