{"id":748,"date":"2018-07-09T16:50:04","date_gmt":"2018-07-09T16:50:04","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=748"},"modified":"2018-07-09T16:50:04","modified_gmt":"2018-07-09T16:50:04","slug":"a-porta-e-o-pinheiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/a-porta-e-o-pinheiro","title":{"rendered":"A Porta e o Pinheiro"},"content":{"rendered":"<div>O conde detestava certo bar\u00e3o alem\u00e3o, forasteiro em Roma.<\/div>\n<div>N\u00e3o importam as raz\u00f5es desse \u00f3dio, mas, como tinha o firme prop\u00f3sito de vingar-se, com o m\u00ednimo de perigo, ele as manteve secretas at\u00e9 do bar\u00e3o. De fato, tal \u00e9 a primeira lei da vingan\u00e7a, j\u00e1 que \u00f3dio revelado \u00e9 \u00f3dio, impotente.<\/div>\n<p>O conde era curioso e minucioso; tinha algo de artista; executava tudo com uma perfei\u00e7\u00e3o t\u00e3o exata que se estendia n\u00e3o s\u00f3 aos fins como tamb\u00e9m aos meios ou instrumentos. Certo dia cavalgava ele pelas regue iras e chegou a um caminho lamacento que se perdia nos p\u00e2ntanos que circundam Roma. \u00c0 direita havia uma antiga tumba romana; \u00e0 esquerda uma casa abandonada no meio de um jardim de sempre-vivas. Esse caminho conduziu-o a um campo de ru\u00ednas, em cujo centro, no declive de uma colina, viu uma porta aberta e, n\u00e3o muito longe, um solit\u00e1rio pinheiro atrofiado, n\u00e3o maior que um arbusto. O local era deserto e secreto; o conde pressentiu que algo favor\u00e1vel o espreitava na solid\u00e3o; amarrou o cavalo ao pinheiro, acendeu a luz com o isqueiro e penetrou na colina. A porta dava para um corredor de constru\u00e7\u00e3o romana; este corredor, a uns vinte passos, se bifurcava. O conde tornou pela direita e chegou, tateando na escurid\u00e3o, a uma esp\u00e9cie de barra que ia de uma parede \u00e0 outra. Avan\u00e7ando o p\u00e9, encontrou uma borda de pedra polida, e logo depois o v\u00e1cuo. Interessado, juntou uns galhos secos e acendeu o fogo. \u00c0 sua frente havia um po\u00e7o profundissimo; sem duvida algum alde\u00e3o, que o havia usado para tirar \u00e1gua, teria colocado a barra. O conde apoiou-se na roldana e olhou o po\u00e7o, demoradamente. Era uma obra romana e, como todas as desse povo, parecia constru\u00edda para a eternidade. Suas paredes eram lisas e verticais: o desditoso que ca\u00edsse no fundo n\u00e3o teria salva\u00e7\u00e3o. \u201cUm impulso me trouxe a este lugar\u201d, pensava o conde. \u201cCom que fim? Que consegui eu? Por que fui enviado a olhar este po\u00e7o?\u201d A roldana cedeu; o conde esteve a ponto de cair. Saltou para tr\u00e1s, para salvar-se, e apagou com o p\u00e9 as ultimas brasas do fogo. Fui enviado para aqui a fim de morrer?\u201d, disse com temor. Teve uma inspira\u00e7\u00e3o. Arrastou-se at\u00e9 a boca do po\u00e7o e levantou o bra\u00e7o, tateando: duas hastes estavam sustentando a roldana; agora esta pendia de uma delas. O conde a rep\u00f4s de modo que cedesse ao primeiro apoio. Saiu \u00e0 luz do dia, como um doente. No outro dia, enquanto passeava com o bar\u00e3o, mostrou-se preocupado. Interrogado pelo bar\u00e3o, admitiu finalmente que o havia abatido um estranho sonho. Queria interessar ao bar\u00e3o \u2013 homem supersticioso que fingia desdenhar as supersti\u00e7\u00f5es. O conde, instado pelo seu amigo, disse-lhe abruptamente que se precatasse, porque havia sonhado com ele. Como \u00e9 obvio, o bar\u00e3o n\u00e3o descansou at\u00e9 que lhe contaram o sonho.<\/p>\n<div>\u2014 Pressinto \u2014disse o conde com aparente tristeza\u2014 que esta narra\u00e7\u00e3o ser\u00e1 infausta; algo me diz. Entretanto, se para nenhum dos dois pode haver paz at\u00e9 que voc\u00ea a ou\u00e7a, carregue voc\u00ea com a culpa. Este era o sonho: Vi-o cavalgando, n\u00e3o sei onde, mas devia ser perto de Roma; de um lado havia um antigo sepulcro, outro um jardim de sempre-vivas. Eu o chamava, voltava a gritar que n\u00e3o prosseguisse, em uma esp\u00e9cie de transe de terror. Ignoro se voc\u00ea me ouviu, porque seguiu para frente. O caminho levou-o a um local deserto entre ru\u00ednas, onde havia uma porta numa ladeira e, perto da porta, um pinheiro disforme. Voc\u00ea apeou-se (apesar de minhas suplicas), ateou o cavalo ao pinheiro, abriu a porta e entrou resolutamente. Dentro estava escuro, mas no sonho eu continuava vendo-o e pedindo-lhe que voltasse. Voc\u00ea seguiu a parede da direita, dobrou outra vez pela direita e chegou a uma c\u00e2mara na qual havia um po\u00e7o e uma roldana. Ent\u00e3o, n\u00e3o sei por que, meu alarme cresceu e tornei a gritar-lhe que ainda estava em tempo e que abandonasse o vest\u00edbulo. Essa foi a palavra que empreguei no sonho e ent\u00e3o lhe atribui um sentido preciso; mas agora, acordado, n\u00e3o sei o que significava para mim. Voc\u00ea n\u00e3o escutou minha suplica; apoiou-se na roldana e olhou demoradamente a \u00e1gua do po\u00e7o. Ent\u00e3o lhe revelaram alguma coisa. N\u00e3o creio haver sabido do que era, mas o pavor me arrancou do sonho, e acordei chorando e tremendo. E agora lhe agrade\u00e7o de cora\u00e7\u00e3o o haver insistido. Este sonho estava-me oprimindo, e, agora que o narrei \u00e0 luz do dia, parece-me terr\u00edvel.<\/div>\n<div>\u2014 Talvez \u2014disse o bar\u00e3o.<\/div>\n<p>\u2014 Tem alguns pormenores estranhos. Revelaram-me alguma coisa, disse voc\u00ea? Sim, \u00e9 um sonho raro. Divertir\u00e1 os nossos amigos.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei \u2014disse o conde. \u2014 Estou quase arrependido. Esque\u00e7amo-lo. \u2014 De acordo \u2014disse o bar\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o falaram mais do sonho. Da\u00ed a poucos dias, o conde convidou-o a sair a cavalo; o outro aceitou. Ao regressar a Roma o conde sofreou o cavalo, tapou os olhos e deu um grito.<\/p>\n<p>\u2014 Que aconteceu? \u2014disse o bar\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Nada \u2014gritou o conde. \u2014 N\u00e3o \u00e9 nada. Voltemos depressa a Roma.<\/p>\n<p>Mas o bar\u00e3o havia olhado a seu redor e, \u00e0 m\u00e3o esquerda, viu um caminho lamacento com uma tumba e um jardim de sempre-vivas.<\/p>\n<p>\u2014 Sim \u2014respondeu com a voz mudada. \u2014 Voltemos a Roma imediatamente. Temo que voc\u00ea se ache indisposto.<\/p>\n<p>\u2014 Por favor \u2014gritou o conde. \u2014 Voltemos a Roma, quero me deitar.<br \/>\nRegressaram em silencio. O conde, que fora convidado para uma festa, deitou-se, alegando que tinha febre. No dia seguinte, o bar\u00e3o havia desaparecido; algu\u00e9m achou seu cavalo atado ao pinheiro. Isto foi um assass\u00ednio?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O conde detestava certo bar\u00e3o alem\u00e3o, forasteiro em Roma. 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