{"id":751,"date":"2018-07-09T16:52:07","date_gmt":"2018-07-09T16:52:07","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=751"},"modified":"2018-07-09T16:54:33","modified_gmt":"2018-07-09T16:54:33","slug":"retrato-de-uma-londrina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/retrato-de-uma-londrina","title":{"rendered":"Retrato de uma Londrina"},"content":{"rendered":"<p>Ningu\u00e9m pode se considerar\u00a0expert\u00a0sobre Londres se n\u00e3o conhecer um verdadeiro\u00a0cockney; se n\u00e3o dobrar numa rua lateral, longe das lojas e dos teatros, e bater em uma porta particular numa rua de casas particulares.<\/p>\n<p>Casas particulares em Londres t\u00eam tend\u00eancia a serem muito parecidas. A porta se abre para um vest\u00edbulo escuro, ergue-se uma escada estreita; do patamar superior abre-se uma dupla sala de estar e nessa dupla sala de estar v\u00ea-se dois sof\u00e1s, um de cada lado de um fogo crepitante, seis poltronas e tr\u00eas compridas janelas dando para a rua. Sempre \u00e9 mat\u00e9ria de consider\u00e1vel conjectura o que acontece na segunda metade da sala dos fundos debru\u00e7ando-se para os jardins de outras casas. Mas \u00e9 com a sala de estar da frente que estamos preocupados; pois era ali que\u00a0Mrs. Crowe sentava-se sempre numa poltrona junto ao fogo; era ali que sua exist\u00eancia transcorria; era ali que ela servia o ch\u00e1.<\/p>\n<p>Que tenha nascido no campo, embora estranho, parece ser um fato; que ela \u00e0s vezes deixasse a cidade, naquelas semanas de ver\u00e3o em que Londres n\u00e3o \u00e9 Londres, tamb\u00e9m \u00e9 verdade. Mas para onde ia ou o que fazia quando sa\u00eda de Londres, quando sua poltrona estava vazia, sua lareira apagada e a mesa desfeita, ningu\u00e9m sabia ou podia imaginar. Pois conceber\u00a0Mrs.\u00a0Crowe com seu vestido preto, seu v\u00e9u e seu chap\u00e9u caminhando num campo de nabos ou subindo um monte de pasto est\u00e1 al\u00e9m da mais desvairada imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ali, junto \u00e0 lareira no inverno ou \u00e0 janela no ver\u00e3o, sentara-se ela por 60 anos \u2014 mas n\u00e3o sozinha. Havia sempre algu\u00e9m na poltrona oposta, fazendo uma visita. E antes que o primeiro visitante estivesse sentado por dez minutos, a porta sempre se abria e a criada Maria, de olhos e dentes proeminentes, que por 60 anos abrira a porta, abria-a mais uma vez e anunciava um segundo visitante; e a seguir um terceiro, e logo depois um quarto.<\/p>\n<p>Nunca se soube de um t\u00eate-\u00e0-t\u00eate com\u00a0Mrs. Crowe. Ela n\u00e3o gostava de t\u00eate-\u00e0-t\u00eates. Era uma peculiaridade que compartilhava com muitas anfitri\u00e3s, a de nunca ser especialmente \u00edntima de algu\u00e9m. Por exemplo, havia sempre um homem idoso no canto junto ao arm\u00e1rio; e que parecia tanto fazer parte daquela admir\u00e1vel mob\u00edlia do s\u00e9culo XVIII quanto seus pegadores de bronze. Mas\u00a0Mrs. Crowe sempre se dirigia a ele como\u00a0Mr. Graham; nunca John, nunca William; embora, \u00e0s vezes, o chamasse de \u201ccaro\u00a0Mr. Graham\u201d como para sublinhar que j\u00e1 o conhecia havia 60 anos.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que n\u00e3o desejava intimidade, desejava conversa. A intimidade \u00e9 um dos caminhos para o sil\u00eancio, e\u00a0Mrs. Crowe abominava o sil\u00eancio. Era preciso haver conversa, e que esta fosse geral e que abarcasse tudo. N\u00e3o devia ser profunda demais nem inteligente demais, pois se progredisse muito nessas dire\u00e7\u00f5es algu\u00e9m certamente se sentiria de fora, e ficaria sentado ali, balan\u00e7ando a x\u00edcara de ch\u00e1, sem dizer nada.<\/p>\n<p>Portanto, a sala de estar de\u00a0Mrs. Crowe tinha pouco em comum com os celebrados sal\u00f5es dos memorialistas. Gente inteligente ia l\u00e1 com freq\u00fc\u00eancia \u2014 ju\u00edzes, m\u00e9dicos, membros do parlamento, escritores, m\u00fasicos, viajantes, jogadores de p\u00f3lo, atores e completos an\u00f4nimos \u2014, mas se algu\u00e9m dissesse uma coisa brilhante isto era sentido quase como uma gafe, um acidente que se ignorava, como um acesso de espirros ou alguma cat\u00e1strofe com um bolinho. A conversa de que\u00a0Mrs. Crowe gostava e que a inspirava era uma vers\u00e3o glorificada do mexerico da cidade. A cidade era Londres, e o mexerico era sobre a vida de Londres. Mas o grande dom de\u00a0Mrs. Crowe consistia em tornar a grande metr\u00f3pole t\u00e3o pequena quanto uma aldeia, com uma igreja, um solar e 25 chal\u00e9s.\u00a0Mrs. Crowe tinha informa\u00e7\u00e3o de primeira m\u00e3o sobre cada pe\u00e7a, cada exposi\u00e7\u00e3o de pintura, cada julgamento, cada caso de div\u00f3rcio. Ela sabia quem estava casando, quem estava morrendo, quem estava na cidade e quem estava fora. Ela mencionava o fato de que acabara de ver o carro de\u00a0ladyUmphleby passar, e arriscava o palpite de que ia visitar a filha cujo beb\u00ea nascera na noite anterior, exatamente como uma mulher da aldeia fala sobre a esposa do juiz de paz dirigindo at\u00e9 a esta\u00e7\u00e3o para receber\u00a0Mr. John, que estaria voltando da cidade.<\/p>\n<p>E enquanto\u00a0Mrs. Crowe fazia essas observa\u00e7\u00f5es pelos \u00faltimos 50 anos ou algo assim, adquiria um surpreendente arquivo sobre a vida de outras pessoas. Quando\u00a0Mr. Smedley, por exemplo, disse que sua filha estava noiva de Arthur Beecham,\u00a0Mrs. Crowe observou imediatamente que nesse caso ela seria uma prima em terceiro grau de\u00a0Mrs. Pirebrace, e num certo sentido sobrinha de\u00a0Mrs. Burns, pelo primeiro casamento com\u00a0Mr. Minchin de Blackwater Grange. Mas\u00a0Mrs. Crowe n\u00e3o era nem um pouco esnobe. Era apenas uma cultivadora de rela\u00e7\u00f5es; e sua surpreendente habilidade nesse campo servia para dar um car\u00e1ter familiar e uma personalidade dom\u00e9stica \u00e0s suas colheitas, pois muitas pessoas se espantariam de serem primos em vig\u00e9simo grau, se soubessem disso.<\/p>\n<p>Portanto, ser admitido na casa de\u00a0Mrs. Crowe significava tornar-se membro de um clube, e o pagamento exigido era a contribui\u00e7\u00e3o com um n\u00famero de t\u00f3picos de mexerico por ano. O primeiro pensamento de muita gente quando a casa incendiava ou os canos rebentavam ou a criada fugia com o mordomo deve ter sido: \u201cVou correr at\u00e9\u00a0Mrs. Crowe e lhe contar isso.\u201d Mas nisso tamb\u00e9m as distin\u00e7\u00f5es precisavam ser observadas. Certas pessoas tinham o direito de aparecer na hora do almo\u00e7o; outras, em maior n\u00famero, podiam ir entre cinco e sete horas. A classe que tinha o privil\u00e9gio de jantar com\u00a0Mrs. Crowe era pequena. Talvez somente\u00a0Mr. Graham e\u00a0Mrs. Burke realmente jantassem com ela, pois\u00a0Mrs. Crowe n\u00e3o era rica. Seu vestido preto estava um tantinho gasto; seu broche de diamante era sempre o mesmo broche de diamante. Sua refei\u00e7\u00e3o favorita era ch\u00e1, porque a mesa do ch\u00e1 pode ser suprida economicamente, e h\u00e1 uma elasticidade no ch\u00e1 que combinava com o temperamento greg\u00e1rio de\u00a0Mrs. Crowe. Mas fosse almo\u00e7o ou ch\u00e1, a refei\u00e7\u00e3o mostrava um car\u00e1ter distinto, exatamente como um vestido ou a j\u00f3ia que usava combinavam com ela \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o, traziam em si uma moda pr\u00f3pria. Haveria um bolo especial, um pudim especial, algo peculiar \u00e0 casa e tanto parte dela quanto Maria, a velha criada, ou\u00a0Mr. Graham, o velho amigo, ou o velho\u00a0chintz\u00a0da poltrona, ou o velho carpete no assoalho.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que\u00a0Mrs. Crowe deve ter sa\u00eddo algumas vezes, convidada para almo\u00e7os e ch\u00e1s de outras pessoas. Mas em sociedade ela parecia furtiva, fragment\u00e1ria e incompleta, como se tivesse meramente passado para uma espiada no casamento ou na reuni\u00e3o noturna ou no funeral, a fim de recolher as migalhas de not\u00edcias de que precisava para completar seu pr\u00f3prio estoque. Por isso, era raramente induzida a sentar-se; estava sempre voando. Parecia deslocada entre as mesas e cadeiras dos outros; precisava ter seus pr\u00f3prios\u00a0chintzes, seu pr\u00f3prio arm\u00e1rio e seu pr\u00f3prio\u00a0Mr. Graham junto a ele a fim de ser completamente ela pr\u00f3pria. \u00c0 medida que os anos foram passando, as pequenas incurs\u00f5es no mundo exterior praticamente cessaram.\u00a0Mrs. Crowe construiu seu ninho de modo t\u00e3o compacto e completo que o mundo exterior n\u00e3o tinha uma pena ou um graveto a lhe acrescentar. Al\u00e9m disso, seus pr\u00f3prios camaradas lhe eram t\u00e3o fi\u00e9is que podia confiar neles para transmitir qualquer noticiazinha que ela devesse acrescentar \u00e0 sua cole\u00e7\u00e3o. Era desnecess\u00e1rio que abandonasse a pr\u00f3pria poltrona junto ao fogo no inverno, ou junto \u00e0 janela no ver\u00e3o. E com a passagem dos anos seu conhecimento n\u00e3o se tornou mais profundo \u2014 a profundidade n\u00e3o era a linha de nossa anfitri\u00e3 \u2014 e sim mais redondo e completo. Deste modo, se uma nova pe\u00e7a fazia um grande sucesso,\u00a0Mrs. Crowe conseguia no dia seguinte n\u00e3o s\u00f3 registrar o fato com uma pitada de mexerico divertido dos bastidores, como tamb\u00e9m podia remeter-se a outras estr\u00e9ias, nos anos 1880, 1890, e descrever o que Ellen Terry usara, o que Duse tinha feito, o que o querido\u00a0Mr. Henry James comentara \u2014 nada muito not\u00e1vel talvez; mas enquanto falava, era como se todas as p\u00e1ginas da vida de Londres nos \u00faltimos 50 anos fossem levemente folheadas para sua divers\u00e3o. Havia muitas, e suas ilustra\u00e7\u00f5es eram vivas e brilhantes, e de pessoas famosas; mas\u00a0Mrs. Crowe de modo nenhum vivia no passado, de modo nenhum o exaltava acima do presente.<\/p>\n<p>Na verdade, era sempre a \u00faltima p\u00e1gina, o momento presente que mais importava. O delicioso de Londres era que sempre dava ao indiv\u00edduo algo novo para observar, algo fresco sobre o que falar. Era preciso apenas manter os olhos abertos e sentar em sua pr\u00f3pria poltrona das cinco \u00e0s sete horas todos os dias da semana. Enquanto\u00a0Mrs. Crowe sentava-se com os convidados em torno de si, dava de tempos em tempos uma r\u00e1pida olhadela de p\u00e1ssaro por sobre o ombro para a janela, como se tivesse meio olho na rua, meio ouvido para os carros e \u00f4nibus e os gritos dos jornaleiros l\u00e1 fora. Ora, algo novo podia estar acontecendo naquele mesmo instante. N\u00e3o se podia passar tempo demais no passado: n\u00e3o se devia dar uma aten\u00e7\u00e3o total ao presente.<\/p>\n<p>Nada era mais caracter\u00edstico e talvez um pouco desconcertante do que a ansiedade com a qual\u00a0Mrs. Crowe erguia os olhos e interrompia a frase no meio quando a porta sempre se abria e Maria, que se tornara muito corpulenta e um pouco surda, anunciava uma nova visita. Quem estaria prestes a entrar? O que teria a acrescenta \u00e0 conversa? Mas sua habilidade em extrair fosse o que fosse que poderiam oferecer e sua destreza em atirar a not\u00edcia no cotidiano, eram tais que nenhum dano ocorria; e fazia parte de seu peculiar triunfo que a porta jamais se abrisse com demasiada freq\u00fc\u00eancia; o c\u00edrculo nunca ultrapassava sua possibilidade de controle.<\/p>\n<p>Assim, para conhecer Londres n\u00e3o apenas como um espet\u00e1culo deslumbrante, um mercado, uma corte, uma colmeia de ind\u00fastria, mas como um lugar onde pessoas se encontram, conversam, riem, casam-se e morrem, pintam, escrevem e atuam, mandam e legislam, era essencial conhecer Mrs. Crowe. Era em sua sala de estar que os in\u00fameros fragmentos da vasta metr\u00f3pole pareciam juntar-se num todo animado, compreens\u00edvel, divertido e agrad\u00e1vel. Viajantes ausentes por anos, homens esgotados e ressecados pelo sol, rec\u00e9m-chegados da \u00cdndia ou da \u00c1frica, de remotas viagens e aventuras entre selvagens e tigres, iam direto para a casinha na rua quieta para serem conduzidos novamente ao cora\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o numa \u00fanica pernada. Mas nem a pr\u00f3pria Londres podia manter Mrs. Crowe viva para sempre. E \u00e9 fato que um dia ela j\u00e1 n\u00e3o estava sentada na poltrona junto ao fogo quando o rel\u00f3gio bateu cinco horas; Maria n\u00e3o abriu a porta; Mr. Graham separara-se do arm\u00e1rio.\u00a0Mrs. Crowe est\u00e1 morta; e Londres, embora Londres ainda exista, jamais ser\u00e1 de novo a mesma cidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ningu\u00e9m pode se considerar\u00a0expert\u00a0sobre Londres se n\u00e3o conhecer um verdadeiro\u00a0cockney; se n\u00e3o dobrar numa rua lateral, longe das lojas e dos teatros, e bater em uma porta particular numa rua de casas particulares. 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