{"id":759,"date":"2018-07-09T21:39:16","date_gmt":"2018-07-09T21:39:16","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=759"},"modified":"2019-10-29T13:36:56","modified_gmt":"2019-10-29T13:36:56","slug":"o-capitao-do-normandy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-capitao-do-normandy","title":{"rendered":"O Capit\u00e3o do \u201cNormandy\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Na noite de 17 de mar\u00e7o de 187O, o capit\u00e3o Harvey fazia sua travessia habitual entre Southampton e Guernesey. Um nevoeiro cobria o mar. O capit\u00e3o Harvey estava de p\u00e9 no passadi\u00e7o do steamer, e manobrava cuidadosamente por causa da noite e da bruma. Os passageiros dormiam.<\/p>\n<p>O Normandy era um navio muito grande; talvez o mais bonito dos que faziam a travessia da Mancha: seiscentas toneladas, duzentos e vinte p\u00e9s ingleses de comprimento, vinte e cinco de largura; era \u201cjovem\u201d, como dizem os marinheiros: n\u00e3o tinha sete anos. Fora constru\u00eddo em 1863.<\/p>\n<p>O nevoeiro aumentava, tinha-se sa\u00eddo do rio de Southampton, estava-se em pleno mar, cerca de quinze milhas al\u00e9m das Agulhas. O paquete avan\u00e7ava devagar. Eram quatro horas da manh\u00e3.<\/p>\n<p>A escurid\u00e3o era absoluta, uma esp\u00e9cie de teto baixo rodeava o steamer; a custo avistava-se a ponta dos mastros.<\/p>\n<p>Nada t\u00e3o terr\u00edvel quanto esses navios cego; que avan\u00e7am dentro da noite.<\/p>\n<p>De s\u00fabito surge um negrume entre a bruma, fantasma e montanha, um promont\u00f3rio de sombra correndo na espuma e varando as trevas. Era o Mary, grande steamer de h\u00e9lice que vinha de Odessa e se dirigia para Grimsby com um carregamento de quinhentas toneladas de trigo; velocidade enorme, peso imenso. O Mary avan\u00e7ava direto sobre o Normandy.<\/p>\n<p>Nenhum recurso havia para evitar o choque, tamanha a rapidez com que surgem no nevoeiro esses espectros de navios. S\u00e3o encontros sem aproxima\u00e7\u00e3o. Antes de acabar de v\u00ea-lo, a pessoa est\u00e1 morta. O Mary, correndo a todo vapor, colheu o Normandy perpendicularmente ao costado e arrebentou-o.<\/p>\n<p>Ele pr\u00f3prio, avariado com o choque, parou.<\/p>\n<p>Havia no Normandy vinte e oito homens de tripula\u00e7\u00e3o, uma criada\u2026 e trinta e dois passageiros, dos quais doze eram mulheres.<\/p>\n<p>O abalo foi violent\u00edssimo. Num momento todos estavam no tombadilho: homens, mulheres, crian\u00e7as, semi-nus, correndo, gritando, chorando. A \u00e1gua entrava furiosa. A fornalha das m\u00e1quinas, alcan\u00e7ada pela inunda\u00e7\u00e3o, arquejava. Os, salva-vidas faltavam.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o Harvey, de p\u00e9 no passadi\u00e7o do comando, bradou: \u201cSil\u00eancio para todos, e aten\u00e7\u00e3o! Botes ao mar. As mulheres primeiro, os passageiros depois. Em seguida a tripula\u00e7\u00e3o. H\u00e1 sessenta pessoas para salvar\u201d.<\/p>\n<p>Eram sessenta e uma, por\u00e9m ele esquecia-se de si pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Soltaram as embarca\u00e7\u00f5es. Todos correram para elas. Esse a\u00e7odamento podia fazer os botes virarem. Ockleford, o imediato, e os tr\u00eas contra-mestres, contiveram aquela multid\u00e3o desvairada. Dormir, e de s\u00fabito, imediatamente, morrer, \u00e9 pavoroso.<\/p>\n<p>Enquanto isso, acima dos gritos e do tumulto, ouvia-se a voz grave do capit\u00e3o, e este curto di\u00e1logo ocorria nas trevas: \u201cMaquinista Locks? \u2013 Capit\u00e3o. \u2013 Como est\u00e1 a fornalha? \u2013 Submersa. \u2013 O fogo? \u2013 Apagado. \u2013 A m\u00e1quina? \u2013 Morta.\u201d<\/p>\n<p>O capit\u00e3o gritou: \u201cImediato Ockleford?\u201d O imediato respondeu: \u201cPresente\u201d. O capit\u00e3o prosseguiu: \u201cDe quantos minutos dispomos? \u2013 Vinte. \u2013 \u00c9 o bastante, disse o capit\u00e3o. Que todos embarquem, cada qual por sua vez\u201d.<\/p>\n<p>\u201cImediato Ockleford, est\u00e1 com suas pistolas? \u2013 Sim, capit\u00e3o. \u2013 Queime os miolos de qualquer homem que quiser passar antes de uma mulher\u201d.<\/p>\n<p>Todos se calaram. Ningu\u00e9m resistiu; a multid\u00e3o sentia acima de si pr\u00f3pria aquela grande alma.<\/p>\n<p>O Mary, por seu lado, descera seus botes e acudia em socorro daquele naufr\u00e1gio que era obra sua.<\/p>\n<p>O salvamento operou-se com ordem e quase sem luta. Havia, como sempre, tristes ego\u00edsmos; tamb\u00e9m houve dedica\u00e7\u00f5es pat\u00e9ticas.<\/p>\n<p>Harvey, impass\u00edvel em seu posto de comandante, ordenava, dominava, dirigia, ocupava-se com tudo e com todos, governava calmamente aquela agonia e parecia dar ordens \u00e0 pr\u00f3pria cat\u00e1strofe. Dir-se-ia que o naufr\u00e1gio lhe prestava obedi\u00eancia.<\/p>\n<p>Em determinado instante ele gritou: \u201cSalvem Clemente!\u201d<\/p>\n<p>Clemente era o grumete. Uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p>O navio diminu\u00eda vagarosamente na \u00e1gua profunda. Apressava-se o mais poss\u00edvel o vaiv\u00e9m das embarca\u00e7\u00f5es entre o Normandy e o Mary.<\/p>\n<p>\u201cDepressa!\u201d gritava o capit\u00e3o.<\/p>\n<p>No vig\u00e9simo minuto o steamer so\u00e7obrou.<\/p>\n<p>A proa afundou primeiro, depois a popa.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o Harvey, de p\u00e9 no passadi\u00e7o, n\u00e3o fez um gesto, n\u00e3o disse uma palavra, entrou im\u00f3vel no abismo. Viu-se, atrav\u00e9s da neblina sinistra, aquela est\u00e1tua negra mergulhar no oceano. Assim acabou o capit\u00e3o Harvey.<\/p>\n<p>Nenhum marinheiro da Mancha o igualava. Depois de se ter imposto a vida toda o dever de ser um homem, ele usou, ao morrer, do direito de ser um her\u00f3i.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na noite de 17 de mar\u00e7o de 187O, o capit\u00e3o Harvey fazia sua travessia habitual entre Southampton e Guernesey. Um nevoeiro cobria o mar. 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