{"id":854,"date":"2018-07-09T23:12:09","date_gmt":"2018-07-09T23:12:09","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=854"},"modified":"2019-02-18T14:21:39","modified_gmt":"2019-02-18T14:21:39","slug":"a-atriz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/a-atriz","title":{"rendered":"A Atriz"},"content":{"rendered":"<p>Existiu outrora uma grande atriz. Uma mulher que alcan\u00e7ara tamanhos triunfos que todo o mundo da arte a adorava, curvado a seus p\u00e9s.<\/p>\n<p>O incenso da adora\u00e7\u00e3o perfumara-lhe a vida por muitos anos e vedara-lhe os olhos para as outras coisas, de sorte que ela a nada mais aspirava.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, chegou o dia em que conheceu um homem, a quem amou com toda a for\u00e7a da alma. Ent\u00e3o sua arte, seus triunfos e as nuvens de incenso nada mais significaram para ela \u2013 o amor era toda a sua vida. Mas embora pensasse assim, o homem que ela amava tornou-se ciumento \u2013 ciumento do p\u00fablico que n\u00e3o mais lhe interessava.<\/p>\n<p>Pediu-lhe que desistisse da sua carreira e abandonasse o palco para sempre. Ela acedeu sem resist\u00eancia, e disse:<\/p>\n<p>\u2013 O amor \u00e9 melhor do que a arte, melhor do que a fama, melhor do que a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>E logo abandonou alegremente o palco e todos os triunfos para dedicar sua vida ao homem que amava.<\/p>\n<p>O tempo transcorreu, o amor do homem come\u00e7ou rapidamente a diminuir e a mulher que tudo havia sacrificado por ele perecebeu-o; a certeza disso caiu-lhe n`alma como a neblina fria do entardecer, envolvendo-a da cabe\u00e7a aos p\u00e9s numa mortalha de desespero. Tratava-se, por\u00e9m, de uma mulher corajosa, decidida, e embora com a m\u00e1goa estampada no rosto, n\u00e3o se deixou abater. Compreendeu que teria de sobrepujar a crise da sua vida, a crise da qual dependia o seu destino.<\/p>\n<p>Com perspic\u00e1cia e cruel clarivid\u00eancia, sentiu a realidade que lhe despeda\u00e7ava o cora\u00e7\u00e3o. Sacrificara a carreira ao seu amor e agora este amor lhe fugia. Se n\u00e3o encontrasse meios para reanimar a chama que bruxuelava e breve se apagaria totalmente, se conservaria solit\u00e1ria em meio aos escombros de sua vida arruinada.<\/p>\n<p>E a mulher, que fora uma grande atriz, percebera que a sua arte, em vez de ser-lhe um est\u00edmulo ou uma inspira\u00e7\u00e3o nesta fase penosa da vida, demonstrara o contr\u00e1rio \u2013 era desvantagem e obst\u00e1culo. Alheara-se da orienta\u00e7\u00e3o dos diretores de cena e das id\u00e9ias e conselhos dos autores. At\u00e9 ent\u00e3o nada fizera sem eles \u2013 cada pensamento, cada entona\u00e7\u00e3o de voz e, mesmo, cada gesto era-lhe sugerido, pois esta \u00e9 a arte do ator. E, agora, quando se via obrigada a pensar, criar e agir por si mesma, sentia-se desamparada, sem recursos, como uma crian\u00e7a repentinamente \u00e0s voltas com um grande problema. Mas \u00e0 medida que os dias se passavam, impunha-se cada vez mais a\u00e7\u00e3o pronta e en\u00e9rgica.<\/p>\n<p>Um dia, quando andava de um lado para o outro, com o g\u00e9rmen selvagem do desespero crescendo-lhe no \u00edntimo a cada minuto que passava, um homem foi v\u00ea-la. Ele fora empres\u00e1rio do teatro onde ela trabalhara. Viera pedir-lhe que representasse numa nova pe\u00e7a. Ela recusou. Que iria fazer no palco com essa arte falsa que transforma aqueles que a praticam em fantoches, fantoches irremedi\u00e1veis, movidos por cord\u00e9is manejados pelas m\u00e3os dos autores e diretores de cena?<\/p>\n<p>Agora ela se encontrava face a face com a verdadeira trag\u00e9dia da vida, ao lado da qual todas as falsas tristezas do palco nada mais eram sen\u00e3o lantejoulas e bambinelas. Contudo, o empres\u00e1rio insistiu, dizendo-lhe que a oferta significava dinheiro para ele, zumbindo-lhe em torno com a persist\u00eancia de uma mosca no outono, que n\u00e3o quer ser enxotada.<\/p>\n<p>N\u00e3o quereria pelo menos ler a pe\u00e7a? Para livar-se dele, leu-a, e reconheceu que a trag\u00e9dia impressa era a trag\u00e9dia da sua pr\u00f3pria vida. A mesma situa\u00e7\u00e3o: o problema estava resolvido.<\/p>\n<p>O destino viera em aux\u00edlio da atriz numa pe\u00e7a teatral. Ela devia represent\u00e1-la dominando inteiramente cada detalhe do enredo. Estudou, ent\u00e3o, a parte que lhe competia e a representou para um grande audit\u00f3rio. Atuou com fervor do g\u00eanio que jamais ultrapassara durante a sua carreira e o aplauso que retumbou de todos os lados foi a homenagem irresist\u00edvel tributada pelos esp\u00edritos e cora\u00e7\u00f5es dos homens \u00e0queles que possuem g\u00eanio.<\/p>\n<p>Quando tudo chegou ao fim, ela voltou para casa fatigada e um tanto surpresa com os gritos e aplausos da multid\u00e3o ainda lhe ressoando nos ouvidos. Dera-lhe o m\u00e1ximo, pusera-lhe aos p\u00e9s o poder e a maravilha da sua alma. Tudo que lhe restava agora era um sentimento de impot\u00eancia e fragilidade. Chegara \u00e0 casa entristecida e carregada de flores. Repentinamente, observou que havia dois pratos na mesa preparada para a ceia e lembrou-se de que, nesta noite, fora resolvido o seu destino. Esquecera-o at\u00e9 ent\u00e3o. Naquele momento o homem que ela amara entrou, indagando:<\/p>\n<p>\u2013 Cheguei na hora?<\/p>\n<p>Ela olhou para o rel\u00f3gio, e respondeu:<\/p>\n<p>\u2013 Chegaste na hora, mas demasiadamente tarde.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existiu outrora uma grande atriz. Uma mulher que alcan\u00e7ara tamanhos triunfos que todo o mundo da arte a adorava, curvado a seus p\u00e9s. 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