{"id":866,"date":"2018-07-09T23:17:25","date_gmt":"2018-07-09T23:17:25","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=866"},"modified":"2018-07-09T23:20:12","modified_gmt":"2018-07-09T23:20:12","slug":"elogio-historico-da-razao-pronunciado-em-uma-academia-de-provincia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/elogio-historico-da-razao-pronunciado-em-uma-academia-de-provincia","title":{"rendered":"Elogio Hist\u00f3rico da Raz\u00e3o Pronunciado em uma Academia de Prov\u00edncia"},"content":{"rendered":"<p>Fez Erasmo, no s\u00e9culo XVI, o elogio da Loucura. V\u00f3s me ordenais que vos fa\u00e7a o elogio da Raz\u00e3o. Essa Raz\u00e3o, com efeito, s\u00f3 costuma ser festejada duzentos ano ap\u00f3s sua inimiga, e \u00e0s vezes muito mais tarde; e existem na\u00e7\u00f5es onde ela ainda n\u00e3o foi vista.<\/p>\n<p>Era t\u00e3o desconhecida entre n\u00f3s, no tempo do. druidas, que nem sequer tinha nome em nossa l\u00edngua. C\u00e9sar n\u00e3o a levou nem \u00e0 Su\u00ed\u00e7a, nem a Autan, nem a Paris, que n\u00e3o passava ent\u00e3o de uma aldeola de pescadores; e ele pr\u00f3prio quase a n\u00e3o conhecia.<\/p>\n<p>Possu\u00eda tantas e tamanhas qualidades que a Raz\u00e3o n\u00e3o pode encontrar lugar em meio delas. Esse magn\u00e2nimo insensato saiu de nosso pa\u00eds devastado para ir devastar o seu e para deixar-se mimosear com vinte e tr\u00eas punhaladas por vinte e tr\u00eas outros ilustres furiosos que estavam longe de emparelhar com ele.<\/p>\n<p>O sicambro Clodvich, ou Cl\u00f3vis, cerca de quinhentos anos depois, veio exterminar parte da nossa na\u00e7\u00e3o e subjugar a outra. N\u00e3o se ouviu falar em raz\u00e3o, nem no seu ex\u00e9rcito nem nas nossas infelizes aldeias, a n\u00e3o ser na raz\u00e3o do mais forte.<\/p>\n<p>Apodrecemos por muito tempo nessa horr\u00edvel e aviltante barb\u00e1rie, da qual as Cruzadas n\u00e3o nos tiraram. Foi essa, ao mesmo tempo a mais universal, a mais atroz, a mais rid\u00edcula e desgra\u00e7ada das loucuras. A essas long\u00ednquas cruzadas, sucedeu a abomin\u00e1vel loucura da guerra civil e sagrada que exterminou tanta gente da l\u00edngua de OC e da l\u00edngua de OIL. A Raz\u00e3o n\u00e3o tinha como achar-se ali. Em Roma reinava ent\u00e3o a Pol\u00edtica, que tinha como ministras suas duas irm\u00e3s, a Velhacaria e a Avareza. Via-se a Ignor\u00e2ncia, o Fanatismo, a F\u00faria, percorrerem sob suas ordens a Europa toda; a Pobreza lhes seguia o rastro; a Raz\u00e3o ocultava-se num po\u00e7o, como a Verdade sua filha. Ningu\u00e9m sabia onde ficava esse po\u00e7o, e, se o farejassem, ali teriam descido para degolar m\u00e3e e filha.<\/p>\n<p>Depois que os turcos tomaram Constantinopla, redobrando os espantosos males da Europa, dois ou tr\u00eas gregos, ao fugir, tombaram nesse po\u00e7o, ou antes, nessa caverna, semimortos de fadiga, de fome e de medo.<\/p>\n<p>A Raz\u00e3o recebeu-os com humanidade, deu-lhes de comer sem distin\u00e7\u00e3o de carnes (coisa que jamais haviam conhecido em Constantinopla). Receberam dela algumas instru\u00e7\u00f5es, em pequeno n\u00famero: pois a Raz\u00e3o n\u00e3o \u00e9 prolixa. Obrigou-os a jurar que n\u00e3o revelariam o local do seu retiro. Partiram, e chegaram, depois de muito andar, \u00e0 corte de Carlos Quinto e Francisco I.<\/p>\n<p>Receberam-nos ali como a prestidigitadores que viessem fazer seus passes de m\u00e1gica para distrair a ociosidade dos cortes\u00e3os e das damas, no intervalo de seus encontros galantes. Os ministros dignaram-se olh\u00e1-los nos momentos de folga que lhes pudessem permitir a lufa-lufa dos neg\u00f3cios. Chegaram at\u00e9 a ser acolhidos pelo imperador e pelo rei de Fran\u00e7a, que lhes lan\u00e7aram um olhar de passagem, quando iam ter com suas amantes. Mas eles colheram melhor fruto nas pequenas cidades, onde encontraram alguns burgueses que ainda tinham, n\u00e3o se sabia como, algum vislumbre de senso comum.<\/p>\n<p>Esses fl\u00e9beis clar\u00f5es se extinguiram em toda a Europa, entre as guerras civis que a assolaram. Duas ou tr\u00eas fa\u00edscas de raz\u00e3o n\u00e3o podiam aclarar o mundo no meio das tochas ardentes e das fogueiras que o fanatismo acendeu durante tantos anos. A Raz\u00e3o e sua filha ocultaram-se mais do que nunca.<\/p>\n<p>Os disc\u00edpulos de seus primeiros ap\u00f3stolos suicidaram-se, com exce\u00e7\u00e3o de alguns que foram bastante desavisados para irem apregoar a Raz\u00e3o desarrazoadamente, e fora de tempo: isso lhes custou a vida, como a S\u00f3crates; mas ningu\u00e9m prestou aten\u00e7\u00e3o \u00e0 coisa. Nada mais desagrad\u00e1vel do que ser enforcado obscuramente. Por tanto tempo se havia a gente ocupado com noites de S. Bartolomeu, massacres da Holanda, cadafalsos da Hungria, e assass\u00ednios de reis, que n\u00e3o havia nem tempo, nem suficiente liberdade de esp\u00edrito para pensar nos crimes mi\u00fados e nas calamidades secretas que inundavam o mundo, de um extremo a outro.<\/p>\n<p>A Raz\u00e3o, informada do que ocorria por alguns exilados que se haviam refugiado no seu retiro, sentiu-se tomada de compaix\u00e3o, embora n\u00e3o passe por ser muito terna. Sua filha que \u00e9 mais ousada do que ela, animou-a a que fosse ver o mundo e tratasse de cur\u00e1-lo. Apareceram as duas, falaram mas encontraram tantos malvados interessados em contradiz\u00ea-las, tantos imbecis a soldo desses malvados, tantos indiferentes apenas preocupados consigo mesmos e com o momento atual e que n\u00e3o se importavam nem com elas nem com seus inimigos, que resolveram ambas voltar muito sabiamente para o seu asilo.<\/p>\n<p>Todavia, algumas sementes dos frutos que elas carregam sempre consigo, e que haviam espalhado, germinaram na terra; e at\u00e9 sem apodrecer.<\/p>\n<p>Enfim, h\u00e1 algum tempo lhes deu vontade de ir em peregrina\u00e7\u00e3o a Roma, disfar\u00e7adas e an\u00f4nimas, por medo da Inquisi\u00e7\u00e3o. Logo de chegada, dirigiram-se ao cozinheiro do papa Ganganelli \u2013 Clemente XIV. Sabiam que era o menos ocupado cozinheiro de Roma. Pode-se at\u00e9 dizer que era, depois de vossos confessores, o homem mais folgado da sua profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse homem, depois de ter servido \u00e0s duas peregrinas uma refei\u00e7\u00e3o quase t\u00e3o frugal quanto a do papa, levou-as \u00e0 presen\u00e7a de Sua Santidade, a quem encontraram lendo os Pensamentos de Marco Aur\u00e9lio. O papa reconheceu os disfarces e beijou-as cordialmente, apesar da etiqueta.<\/p>\n<p>\u201c\u2013- Minhas Senhoras, se eu pudesse imaginar que estavam neste mundo, ter-lhes-ia feito a primeira visita.&#8221;<\/p>\n<p>Ap\u00f3s os cumprimentos, trataram de neg\u00f3cios. Logo no dia seguinte, Ganganelli abulia a bula In coena Domini, um dos maiores monumentos da loucura humana, que por tanto tempo ultrajara a todos os potentados. No outro dia, tomou a resolu\u00e7\u00e3o de destruir a companhia de Garasse, de Guiguard, de Garnet, de Busenbaum, de Malagrida, de Paulian, de Patouillet, de Nonnotte; e a Europa bateu palmas. No terceiro dia, diminuiu impostos de que o povo se queixava. Animou a agricultura e todas as artes; fez-se estimado de todos aqueles que passavam por inimigos de seu posto. Disseram ent\u00e3o, em Roma, que n\u00e3o havia mais que uma na\u00e7\u00e3o e uma lei no mundo.<\/p>\n<p>As duas peregrinas, at\u00f4nitas e satisfeitas, despediram-se do papa, que lhes fez presente, n\u00e3o de agnus e de rel\u00edquias, mas de uma boa carruagem para continuarem a viajar. A Raz\u00e3o e a Verdade n\u00e3o tinham at\u00e9 ent\u00e3o o h\u00e1bito de andar a gosto.<\/p>\n<p>Visitaram toda a It\u00e1lia, e surpreenderam-se de encontrar, em vez do maquiavelismo, uma verdadeira emula\u00e7\u00e3o entre os pr\u00edncipes e as rep\u00fablicas, desde Parma a Turim, para ver quem tornaria seus s\u00faditos mais honrados, mais ricos e mais felizes.<\/p>\n<p>Minha filha \u2013 dizia a Raz\u00e3o \u00e0 Verdade, \u2013 creio que o osso reinado bem poderia come\u00e7ar, ap\u00f3s t\u00e3o longa pris\u00e3o. Alguns dos profetas que nos foram visitar no po\u00e7o devem ter sido mesmo muito poderosos em palavras e obras, para assim mudarem a face da terra. Bem v\u00eas que tudo vem tarde. Era preciso passar pelas trevas da ignor\u00e2ncia e da mentira antes de entrar em teu pal\u00e1cio de luz, de que foste escorra\u00e7ada comigo durante tantos s\u00e9culos. Acontecer\u00e1 conosco O que aconteceu com a Natureza; esteve ela coberta de um v\u00e9u, e toda desfigurada, durante inumer\u00e1veis s\u00e9culos. Afinal chegou um Galileu, um Cop\u00e9rnico, um Newton, que a mostraram quase nua, fazendo os homens se enamorarem dela.<\/p>\n<p>Assim conversando, chegaram a Veneza. O que consideraram mais atentamente foi um procurador de S. Marcos que segurava um grande par de tesouras, diante de uma mesa toda coberta de jarras, de bicos e de plumas negras.<\/p>\n<p>Ah! \u2013 exclamou a Raz\u00e3o, \u2013 Deus me perdoe, lustrissimo Signor, mas creio que essa \u00e9 uma das tesouras que levava para o meu po\u00e7o, quando ali me refugiei com minha filha! Como a obteve Vossa Excel\u00eancia, e que faz com ela?<\/p>\n<p>\u2013- Lustrissima Signora \u2013 respondeu o procurador, \u2013 bem pode ser que a tesoura tenha pertencido outrora a Vossa Excel\u00eancia; mas foi um chamado Fra Paolo que no-la trouxe h\u00e1 muito, e dela nos servimos para cortar as garras da Inquisi\u00e7\u00e3o, que vedes espalhadas sobre esta mesa.<\/p>\n<p>Essas plumas negras pertenciam a harpias que vinham comer o alimento da rep\u00fablica; n\u00f3s lhes aparamos todos os dias as unhas e a ponta do bico. Se n\u00e3o fora essa precau\u00e7\u00e3o, teriam acabado por devorar tudo; nada teria sobrado para os grandes, nem para os pregadi, nem para os cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>Se passardes pela Fran\u00e7a, talvez encontreis em Paris vosso outro par de tesouras, em poder de um ministro espanhol, que as empregava da mesma forma que n\u00f3s em seu pa\u00eds, e que ser\u00e1 um dia aben\u00e7oado pelo g\u00eanero humano..<\/p>\n<p>Depois de terem assistido \u00e0 \u00d3pera veneziana, partiram as duas viajantes para a Alemanha. Viram com satisfa\u00e7\u00e3o esse pa\u00eds, que no tempo de Carlos Magno n\u00e3o passava de uma floresta imensa entrecortada de p\u00e2ntanos, coberto agora de cidades florescentes e tranq\u00fcilas; esse pa\u00eds, povoado de soberanos outrora b\u00e1rbaros e pobres, e agora todos polidos e magn\u00edficos; esse pa\u00eds, cujo sacerd\u00f3cio, nos tempos antigos, s\u00f3 era constitu\u00eddo por feiticeiras, que ent\u00e3o imolavam criaturas humanas sobre pedras grosseiramente talhadas; esse pa\u00eds que fora depois inundado por seu pr\u00f3prio sangue, para saber ao certo se a coisa era in, cum, sub, ou n\u00e3o; esse pa\u00eds que enfim acolhia ao seio tr\u00eas religi\u00f5es inimigas, espantadas de viver pacificamente juntas.<\/p>\n<p>\u201cLouvado seja Deus! \u2013 disse a Raz\u00e3o. \u2013 Essa gente veio afinal a mim, \u00e0 for\u00e7a de dem\u00eancia.&#8221;<\/p>\n<p>Conduziram-nas \u00e0 presen\u00e7a de uma imperatriz muito mais que sensata, pois era generosa. T\u00e3o contentes ficaram com ela as peregrinas, que n\u00e3o levaram em conta alguns costumes que as chocaram; mas ambas se enamoraram do imperador seu filho.<\/p>\n<p>Redobrou-lhes o espanto ao chegarem \u00e0 Su\u00e9cia. \u201cComo!&#8221; \u2013 diziam, \u2013 \u201cuma revolu\u00e7\u00e3o t\u00e3o dif\u00edcil e no entanto t\u00e3o r\u00e1pida! t\u00e3o perigosa e no entanto t\u00e3o pacifica! E, desde esse grande dia, nem um s\u00f3 dia perdido para a pr\u00e1tica do bem, e tudo isso na idade que \u00e9 t\u00e3o raramente a da raz\u00e3o! Bem fizemos em sair de nosso esconderijo quando esse grande acontecimento enchia de admira\u00e7\u00e3o a Europa inteira!&#8221;<\/p>\n<p>Dali, atravessaram \u00e0s pressas a Pol\u00f4nia. \u201cAh! minha m\u00e3e, que contraste! \u2013 exclamou a Verdade. \u2013 D\u00e1-me at\u00e9 vontade de voltar para o po\u00e7o. Eis no que d\u00e1 ter esmagado sempre a mais \u00fatil por\u00e7\u00e3o do g\u00eanero humano e tratado aos lavradores \u2013 pior do que eles tratam aos animais que os servem! Esse caos de anarquia s\u00f3 podia redundar em ru\u00edna: j\u00e1 o haviam predito claramente. Lamento um monarca virtuoso, s\u00e1bio e humano; e ouso esperar que ele seja feliz, pois os outros reis come\u00e7am a s\u00ea-lo, e as vossas luzes se comunicam gradualmente.<\/p>\n<p>\u201cVamos ver \u2013 continuou ela \u2013 uma transforma\u00e7\u00e3o mais favor\u00e1vel e surpreendente. Vamos a essa imensa regi\u00e3o hiperb\u00f3rea, t\u00e3o b\u00e1rbara h\u00e1 oitenta anos e hoje t\u00e3o esclarecida e invenc\u00edvel. Vamos contemplar aquela que cumpriu o milagre de uma nova cria\u00e7\u00e3o\u2026&#8221; L\u00e1 acorreram, e confessaram que n\u00e3o lhes haviam exagerado.<\/p>\n<p>N\u00e3o cessavam de admirar o quanto mudara o mundo em alguns anos. Conclu\u00edram que talvez um dia o Chile e as Terras Centrais fossem o centro da civiliza\u00e7\u00e3o e do bom gosto e que se teria de ir ao p\u00f3lo ant\u00e1rtico para aprender a viver.<\/p>\n<p>Chegadas que foram \u00e0 Inglaterra, disse a Verdade \u00e0 sua m\u00e3e:<\/p>\n<p>\u2013- Parece-me que a felicidade desta na\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 constitu\u00edda como a das outras; foi mais louca, mais fan\u00e1tica, mais cruel e mais infeliz do que qualquer uma das que eu conhe\u00e7o; e eis que instituiu um governo \u00fanico, no qual conservou tudo o que a monarquia tem de \u00fatil e tudo o que uma rep\u00fablica tem de necess\u00e1rio. \u00c9 superior na guerra, nas leis, nas artes, no com\u00e9rcio. Apenas a vejo embara\u00e7ada com a Am\u00e9rica setentrional, que conquistou num extremo do universo, e com as mais belas prov\u00edncias da \u00cdndia, subjugadas no outro extremo. Como carregar\u00e1 ela esses dois fardos da sua felicidade?<\/p>\n<p>\u2013- O peso \u00e9 consider\u00e1vel \u2013 disse a Raz\u00e3o, \u2013 mas, desde que ela me escute um pouco, h\u00e1 de encontrar alavancas que o tornar\u00e3o mais leve.<\/p>\n<p>Afinal a Raz\u00e3o e a Verdade passaram pela Fran\u00e7a, onde j\u00e1 haviam feito algumas apari\u00e7\u00f5es, tendo sido dali escorra\u00e7adas. \u201cN\u00e3o vos lembrais \u2013 dizia a Verdade \u00e0 sua m\u00e3e \u2013 do grande desejo que tivemos de nos estabelecer entre os franceses nos belos dias de Luis XIV? Mas as impertinentes querelas dos jesu\u00edtas e dos jansenistas nos obrigaram a fugir em seguida. N\u00e3o mais nos chegam agora os apelos cont\u00ednuos do povo. Ou\u00e7o as aclama\u00e7\u00f5es de vinte milh\u00f5es de homens que aben\u00e7oam os C\u00e9us. Este acontecimento, dizem uns, \u00e9 tanto mais jubiloso porquanto n\u00e3o nos custa nada essa alegria. Bradam outros: O luxo n\u00e3o \u00e9 mais que vaidade. Os empregos acumulados, as despesas sup\u00e9rfluas, os lucros extraordin\u00e1rios, tudo isso vai ser cortado. E t\u00eam raz\u00e3o. Todo e qualquer novo imposto ser\u00e1 abolido. E nisso n\u00e3o t\u00eam raz\u00e3o: pois cumpre que cada particular pague alguma coisa em proveito da felicidade geral.<\/p>\n<p>\u201cAs leis v\u00e3o ser uniformes. Nada mais desej\u00e1vel, mas nada t\u00e3o dif\u00edcil. V\u00e3o ser distribu\u00eddos, aos indigentes que trabalham, e sobretudo aos pobres oper\u00e1rios, os bens imensos de certos ociosos que fizeram voto de pobreza. Essa gente de m\u00e3o-morta n\u00e3o mais ter\u00e1, por sua vez, escravos de m\u00e3o-morta. N\u00e3o mais se ver\u00e3o esbirros de monges escorra\u00e7ar da casa paterna \u00f3rf\u00e3os reduzidos \u00e0 mendicidade, para enriquecerem com os seus despojos a um convento no gozo de direitos senhoriais, que s\u00e3o os direitos dos antigos conquistadores. N\u00e3o mais se ver\u00e3o fam\u00edlias inteiras pedindo inutilmente esmola \u00e0 porta do convento que as despoja. Praza aos C\u00e9us. Nada \u00e9 mais digno de um rei. O rei da Sardenha acabou com esse abomin\u00e1vel abuso, Queira Deus que esse abuso seja exterminado em Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o ouvis, minha m\u00e3e, todas essas vozes que dizem: Os casamentos de cem mil fam\u00edlias \u00fateis ao Estado n\u00e3o mais ser\u00e3o considerados concubinagens; e os filhos n\u00e3o mais ser\u00e3o declarados bastardos pela lei? A natureza, a justi\u00e7a e v\u00f3s, minha m\u00e3e, tudo reclama para esse assunto um s\u00e1bio regulamento, que seja compat\u00edvel com o repouso do Estado e com os direitos de todos os homens.<\/p>\n<p>\u201cTornar-se-\u00e1 a profiss\u00e3o de soldado t\u00e3o digna que ningu\u00e9m mais ser\u00e1 tentado a desertar. A coisa \u00e9 poss\u00edvel mas delicada&#8221;.<\/p>\n<p>\u201cAs pequenas faltas n\u00e3o ser\u00e3o punidas como grandes crimes, pois que em tudo \u00e9 preciso propor\u00e7\u00e3o. Uma lei b\u00e1rbara, obscuramente enunciada, mal interpretada n\u00e3o mais far\u00e1 perecer nas barras de ferro e nas chamas a jovens indiscretos e imprudentes, como se tivessem assassinado os pr\u00f3prios pais.&#8221;<\/p>\n<p>Deveria ser este o primeiro axioma da justi\u00e7a penal.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o mais ser\u00e3o confiscados os bens de um pai de fam\u00edlia, pois os filhos n\u00e3o devem morrer de fome por causa das faltas dos pais, e o rei n\u00e3o tem nenhuma necessidade desse miser\u00e1vel confisco. Maravilhoso! Isso \u00e9 digno da magnanimidade do soberano.<\/p>\n<p>\u201cA tortura, Inventada outrora pelos ladr\u00f5es de estrada para for\u00e7ar as v\u00edtimas a revelar seu tesouro, e empregada hoje em pequeno n\u00famero de na\u00e7\u00f5es, para salvar o culpado robusto e perder o inocente fraco de corpo e de esp\u00edrito, s\u00f3 ser\u00e1 utilizada nos crimes de lesa-sociedade, na pessoa do chefe, e somente para conseguir a revela\u00e7\u00e3o dos c\u00famplices. Mas tais crimes jamais ser\u00e3o cometidos. Nada melhor. Eis os votos que ou\u00e7o por toda parte, e escreverei todas essas grandes mudan\u00e7as nos meus anais, eu que sou a Verdade.&#8221;<\/p>\n<p>\u201cOu\u00e7o ainda proferir em torno de mim, em todos os tribunais, estas palavras not\u00e1veis: N\u00e3o citaremos jamais os dois poderes, pois s\u00f3 pode existir um: o do, rei, ou da lei, em uma monarquia; o da na\u00e7\u00e3o, em uma rep\u00fablica. O poder divino \u00e9 de natureza t\u00e3o diferente, t\u00e3o superior, que n\u00e3o deve ficar comprometido por uma mescla profana com as leis humanas. O infinito n\u00e3o se pode juntar ao finito. Greg\u00f3rio VII foi quem primeiro ousou chamar o infinito em seu aux\u00edlio, nas suas guerras, at\u00e9 ent\u00e3o inauditas, contra Henrique IV, imperador demasiado finito; quero dizer: limitado. Por muito tempo essas guerras ensang\u00fcentaram a Europa; mas, afinal separaram essas entidades vener\u00e1veis, que nada t\u00eam em comum: e \u00e9 o \u00fanico meio de garantir a paz.&#8221;<\/p>\n<p>\u201cEssas coisas, que proferem todos os ministros das leis, me parecem assaz fortes. Sei que n\u00e3o se reconhecem dois poderes nem na China, nem na \u00cdndia, nem na P\u00e9rsia, nem em Constantinopla, nem em Moscou, nem em Londres, etc\u2026 Mas fio-me em v\u00f3s, minha m\u00e3e. Nada escreverei que n\u00e3o me seja ditado por v\u00f3s.&#8221;<\/p>\n<p>Respondeu-lhe a Raz\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2013- Bem v\u00eas, minha filha, que eu sinto mais ou menos as mesmas coisas, e muitas outras Tudo isso demanda tempo e reflex\u00e3o. Sempre fiquei muito contente quando, em meio \u00e0s minhas dores, consegui parte do al\u00edvio que desejava.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o te lembras do tempo em que quase todos os reis da terra, estando em completa paz, se divertiam em decifrar enigmas, e em que a bela rainha de Sab\u00e1 ia em pessoa propor logogrifos a Salom\u00e3o?&#8221;<\/p>\n<p>\u2013- Sim, minha m\u00e3e; bom tempo aquele, mas n\u00e3o durou muito.<\/p>\n<p>Pois bem \u2013 tornou a m\u00e3e, \u2013 este \u00e9 infinitamente melhor; s\u00f3 se pensava ent\u00e3o em mostrar um pouco de esp\u00edrito; e vejo que h\u00e1 dez ou doze anos os europeus se v\u00eam empenhando nas artes e virtudes que abrandam a amargura da vida. Parece que em geral se combinaram para pensar mais solidamente do que o haviam feito durante milhares de s\u00e9culos. Tu, que nunca pudeste mentir, dize-me que tempo terias preferido ao presente para morar na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2013- Tenho a reputa\u00e7\u00e3o \u2013 respondeu a filha \u2013 de gostar de dizer coisas assaz duras \u00e0s pessoas entre as quais me encontro; mas confesso que s\u00f3 tenho a louvar o tempo presente, a despeito de tantos autores que s\u00f3 louvam o passado.<\/p>\n<p>\u201cDevo atestar \u00e0 posteridade que foi nesta \u00e9poca que os homens aprenderam a garantir-se de uma doen\u00e7a terr\u00edvel e mortal, tornando-a menos funesta na transmiss\u00e3o; a restituir \u00e0 vida aqueles que a perdem por afogamento; a governar e desafiar ao raio; a prover ao ponto fixo que em v\u00e3o se deseja do ocidente ao oriente. Muito mais se fez em moral. Ousou-se pedir justi\u00e7a \u00e0s leis contra leis que haviam, condenado a virtude ao supl\u00edcio; e essa justi\u00e7a foi algumas vezes obtida. 0usou-se, enfim, pronunciar o nome da toler\u00e2ncia.&#8221;<\/p>\n<p>\u2013- Pois bem, minha filha, gozemos destes belos dias; fiquemos por aqui, se durarem; e, se vierem tempestades, voltemos a nosso po\u00e7o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fez Erasmo, no s\u00e9culo XVI, o elogio da Loucura. V\u00f3s me ordenais que vos fa\u00e7a o elogio da Raz\u00e3o. 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