{"id":867,"date":"2018-07-09T23:18:06","date_gmt":"2018-07-09T23:18:06","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=867"},"modified":"2018-07-09T23:20:12","modified_gmt":"2018-07-09T23:20:12","slug":"cosi-sancta-um-pequeno-mal-por-um-grande-bem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/cosi-sancta-um-pequeno-mal-por-um-grande-bem","title":{"rendered":"Cosi-Sancta \u2013 Um Pequeno Mal por um Grande Bem"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 uma das tantas m\u00e1ximas falsamente acreditadas, essa de que n\u00e3o \u00e9 permitido fazer um pequeno mal de que possa resultar um bem maior. Mas era assim que pensava Santo Agostinho, como se pode depreender da narrativa desta pequena aventura acontecida na sua diocese, sob o proconsulado de Sept\u00edmio Acindino, e que vem no livro da Cidade de Deus.<\/p>\n<p align=\"justify\">Havia em Hipona um velho cura, grande inventor de confrarias, confessor de todas as raparigas da vizinhan\u00e7a, e que passava por homem inspirado de Deus, pois costumava deitar sortes, of\u00edcio de que se desempenhava assaz passavelmente.<\/p>\n<p align=\"justify\">Levaram-lhe um dia uma jovem chamada Cosi-Sancta; era a mais bela criatura da prov\u00edncia. Tinha pais jansenistas que a haviam educado nos princ\u00edpios da mais r\u00edgida virtude; e, de todos os pretendentes que tivera, n\u00e3o houvera um s\u00f3 que lhe causasse um momento de distra\u00e7\u00e3o nas suas preces. Fazia alguns dias que fora ela prometida a um velhote encarquilhado, chamado Capito, conselheiro do presidial de Hipona. Era um homenzinho brusco e rabugento a quem n\u00e3o faltava intelig\u00eancia, mas que era r\u00edspido de conversa\u00e7\u00e3o, escarninho, e amante de brincadeiras de mau gosto; e, de resto, ciumento como um veneziano, e que por nada no mundo se teria conformado em ser amigo dos galanteadores da esposa. A jovem criatura fazia o poss\u00edvel para am\u00e1-lo, pois que ele deveria ser seu marido; mas por maior boa-f\u00e9 com que se empenhasse em tal coisa n\u00e3o conseguia nada.<\/p>\n<p align=\"justify\">Foi pois consultar o seu cura para saber se seria feliz no casamento. O nosso padre disse-lhe num tom prof\u00e9tico:<\/p>\n<p align=\"justify\">Minha filha, a tua virtude causar\u00e1 desgra\u00e7as, mas ser\u00e1s um dia canonizada por teres sido tr\u00eas vezes infiel a teu esposo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Esse espantoso or\u00e1culo escandalizou cruelmente a inoc\u00eancia da bela rapariga. Ela p\u00f4s-se a chorar; depois pediu explica\u00e7\u00f5es, julgando que tais palavras ocultavam, algum sentido m\u00edstico; mas a \u00fanica explica\u00e7\u00e3o que conseguiu foi que as tr\u00eas vezes n\u00e3o deviam ser interpretadas como tr\u00eas encontros com o mesmo amante, mas sim como tr\u00eas aventuras diferentes.<\/p>\n<p align=\"justify\">Cosi-Sancta p\u00f4s-se ent\u00e3o aos gritos; chegou at\u00e9 a dizer algumas inj\u00farias ao bom do cura, e jurou que nunca seria canonizada. E no entanto o foi, como j\u00e1 ides ver.<\/p>\n<p align=\"justify\">Casou-se pouco depois: as n\u00fapcias foram espl\u00eandidas; ela suportou muito bem todos os maus discursos que teve de ouvir, todos os trocadilhos sem gra\u00e7a, todas as grosserias mal disfar\u00e7adas com que costumam constranger o pudor das noivas. Dan\u00e7ou de bom grado com alguns jovens muito bem parecidos e com os quais o marido n\u00e3o simpatizou absolutamente.<\/p>\n<p align=\"justify\">E foi deitar-se ao lado do pequeno Capito, com um pouco de repugn\u00e2ncia. Passou boa parte da noite a dormir; e acordou-se muito pensativa. Mas o assunto das suas cismas n\u00e3o era tanto o marido, e sim um jovem chamado Ribaldos, que lhe tomara conta do pensamento, sem que ela propriamente o suspeitasse. Esse jovem parecia formado pelas m\u00e3os do Amor, de quem tinha as gra\u00e7as, a ousadia e o esp\u00edrito travesso; era um pouco indiscreto, mas s\u00f3 com aquelas que no fundo assim queriam: era a coqueluche de Hipona. Incompatibilizara todas as mulheres da cidade umas com as outras e, por sua vez, estava incompatibilizado com todos os maridos e todas as m\u00e3es. Amava, de ordin\u00e1rio, por estouvamento, e um pouco por vaidade; mas amou Cosi-Sancta por gosto, e tanto mais perdidamente quanto mais dif\u00edcil se lhe antolhava a conquista.<\/p>\n<p align=\"justify\">Cumprimentos, felicitava-o por sua boa fisionomia e seu esp\u00edrito arejado e galante. Perdia para ele no jogo, e todos os dias lhe fazia alguma pequena confid\u00eancia. Cosi-Sancta achava-o a criatura mais am\u00e1vel do mundo. J\u00e1 o amava mais do que supunha; era verdade que n\u00e3o o suspeitava, mas o marido suspeitou por ela. Embora tivesse todo o amor-pr\u00f3prio que um homenzinho possa ter, n\u00e3o deixou de desconfiar que as visitas de Ribaldos n\u00e3o eram somente para ele. Rompeu com este sob qualquer pretexto, e proibiu-lhe a entrada em casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">Cosi-Sancta ficou muito aborrecida, mas n\u00e3o ousou diz\u00ea-lo; e Ribaldos, cujo amor crescera com as dificuldades, passava todo o tempo a espiar uma oportunidade para a ver. Disfar\u00e7ou-se de monge, de vendedor de roupas, de apresentador de t\u00edteres. Mas n\u00e3o fez o bastante para triunfar de sua amada, e fez demasiado para que n\u00e3o fosse reconhecido pelo esposo. Se Cosi-Sancta estivesse em combina\u00e7\u00e3o com ele, saberiam ambos como tomar as necess\u00e1rias medidas para que o marido nada suspeitasse; mas, visto que ela combatia as suas inclina\u00e7\u00f5es, e nada tinha a censurar-se, salvava tudo, fora as apar\u00eancias, e o marido a julgava culpabil\u00edssima.<\/p>\n<p align=\"justify\">O homenzinho, que era muito col\u00e9rico e que imaginava que a sua honra dependia da fidelidade da mulher, ultrajou-a cruelmente, e puniu-a pelo fato de a acharem bela. E Cosi-Sancta se viu na mais horr\u00edvel situa\u00e7\u00e3o em que possa estar uma mulher: acusada injustamente e maltratada por um marido a quem era fiel, e dilacerada por uma paix\u00e3o violenta que procurava dominar.<\/p>\n<p align=\"justify\">Achou que, se o seu apaixonado parasse com as persegui\u00e7\u00f5es, poderia o marido parar com as injusti\u00e7as, e que ela se daria por muito feliz curando-se de um amor que nada mais alimentava. Nessa inten\u00e7\u00e3o, aventurou-se a escrever a Ribaldos a seguinte carta:<\/p>\n<p align=\"justify\">Se tendes virtude, deixai de tornar-me infeliz: v\u00f3s me amais, e o vosso amor me exp\u00f5e \u00e0s suspeitas e \u00e0s viol\u00eancias de um senhor que eu me impus para o resto da vida. Quem dera que fosse esse o \u00fanico risco em que eu incorro! Por piedade, deixai de perseguir-me; conjuro-vos a isso por este mesmo amor que constitui vossa desgra\u00e7a e a minha, e que jamais vos poder\u00e1 fazer feliz.<\/p>\n<p align=\"justify\">N\u00e3o previra a pobre Cosi-Sancta que uma carta t\u00e3o terna, embora t\u00e3o virtuosa, causasse um efeito inteiramente contr\u00e1rio ao que esperava. S\u00f3 serviu para inflamar mais do que nunca o cora\u00e7\u00e3o de seu enamorado, que resolveu expor a vida para avistar-se com ela.<\/p>\n<p align=\"justify\">Capito, que era assaz tolo para querer ser informado de tudo e que tinha bons espi\u00f5es, foi avisado de que Ribaldos se disfar\u00e7ara em carmelita pedinte para ir implorar caridade \u00e0 sua mulher. Julgou-se perdido: imaginou que um h\u00e1bito de carmelita era muito mais perigoso que qualquer outro para a honra de um marido. Contratou alguns homens para darem uma sova no irm\u00e3o Ribaldos, no que foi muito bem servido. O jovem, ao entrar na casa, foi recebido pelos tais senhores: por mais que bradasse que era um honrado carmelita e que n\u00e3o era assim que se tratavam pobres religiosos, recebeu valente sova, vindo a morrer dali a quinze dias de um golpe que recebera na cabe\u00e7a. Choraram-no todas as mulheres da cidade. Cosi-Sancta ficou inconsol\u00e1vel. O pr\u00f3prio Capito aborreceu-se muito, mas por outro motivo: \u00e9 que se metera numa terr\u00edvel situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ribaldos era parente do proc\u00f4nsul Acindino. Quis esse romano dar um castigo exemplar \u00e0quele assass\u00ednio, e, como outrora tivera algumas quest\u00f5es com o presidia de Hispano, n\u00e3o se incomodou em achar tal pretexto para enforcar um conselheiro; e ainda mais se agradou de que a sorte coubesse a Capito, que era na verdade o mais vaidoso e insuport\u00e1vel togado da regi\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Cosi-Sancta vira pois assassinarem o seu apaixonado, e estava prestes a ver enforcarem o marido; e tudo isso por ter sido virtuosa. Porque, como j\u00e1 disse, se houvesse concedido seus favores a Ribaldos, o marido teria sido muito menos enganado.<\/p>\n<p align=\"justify\">Eis como se cumprira a metade da predi\u00e7\u00e3o do cura. Cosi-Sancta lembrou-se ent\u00e3o do or\u00e1culo, e muito se arreceou de cumprir o resto. Mas, tendo refletido que n\u00e3o se pode vencer o destino, entregou-se \u00e0 Provid\u00eancia, que a levou ao fim pelos mais honestos caminhos do mundo.<\/p>\n<p align=\"justify\">O proc\u00f4nsul Asinino era um homem mais debochado que voluptuoso, que muito pouco se divertia nas preliminares, um sujeito brutal, sem cerim\u00f4nias, verdadeiro her\u00f3i de guarni\u00e7\u00e3o, muito temido na prov\u00edncia, e com quem todas as mulheres de Hispano haviam tido um caso, unicamente para evitar complica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mandou chamar a senhora Cosi-Sancta. Ela chegou banhada em l\u00e1grimas, o que n\u00e3o deixava de lhe aumentar os encantos.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2014 Vosso marido, Senhora, vai ser enforcado, e s\u00f3 de v\u00f3s depende a sua salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2014 Eu daria a minha vida pela sua \u2013 respondeu-lhe a dama.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2014 Ha! mas n\u00e3o \u00e9 isso que se vos pede \u2013 replicou o proc\u00f4nsul.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2014 Que \u00e9 preciso ent\u00e3o fazer? \u2013 indagou ela.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2014 Desejo apenas uma de vossas noites \u2013 tornou o proc\u00f4nsul.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2014 Elas n\u00e3o me pertencem \u2013 disse Cosi-Sancta. \u2013 S\u00e3o um bem de meu marido. Darei meu sangue para salv\u00e1-lo, mas n\u00e3o posso dar a minha honra.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2014 Mas se vosso marido consentir? \u2013 perguntou o proc\u00f4nsul.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2014 Ele \u00e9 o propriet\u00e1rio \u2013 respondeu a dama \u2013 e cada qual tem o direito de dispor dos seus bens como lhe aprouver. Mas conhe\u00e7o meu marido, n\u00e3o abrir\u00e1 m\u00e3o de nada; \u00e9 um sujeitinho cabe\u00e7udo, que preferir\u00e1 deixar-se enforcar a permitir que me toquem com um dedo.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2014 \u00c9 o que veremos \u2013 disse o juiz, encolerizado.<\/p>\n<p align=\"justify\">Imediatamente manda chamar o criminoso; prop\u00f5e-lhe ou a forca ou um par de ornamentos: n\u00e3o havia outra alternativa. O homenzinho come\u00e7ou com coisas. Mas afinal fez o que qualquer outro teria feito no seu lugar. Sua esposa, por pura caridade, salvou-lhe a vida. E foi essa a primeira das tr\u00eas vezes.<\/p>\n<p align=\"justify\">No mesmo dia o seu filho caiu doente de uma enfermidade assaz extraordin\u00e1ria e que nenhum m\u00e9dico de Hipona conhecia. S\u00f3 havia um que estava a par dos segredos dessa doen\u00e7a, mas que morava em \u00c1quila, a algumas l\u00e9guas de Hipona. Era ent\u00e3o proibido que um m\u00e9dico estabelecido numa cidade sa\u00edsse desta para ir exercer em outra a sua profiss\u00e3o. Cosi-Sancta viu-se obrigada a ir procur\u00e1-lo pessoalmente em \u00c1quila, com um irm\u00e3o que tinha e a quem estimava muito. No caminho foi detida por salteadores. O chefe dos referidos cavalheiros achou-a muito bonita. E, como o irm\u00e3o de Cosi-Sancta estava prestes a ser morto, aproximou-se e disse-lhe que, se ela tivesse um pouco de complac\u00eancia, n\u00e3o lhe matariam o irm\u00e3o e que isso afinal n\u00e3o lhe custaria nada. A coisa era urgente. Cosi-Sancta acabava de salvar a vida do marido, a quem n\u00e3o amava; ia perder um irm\u00e3o a quem estimava muito; por outro lado, alarmava-a o perigo de seu filho; n\u00e3o havia um minuto a perder. Ela encomendou-se a Deus, e fez tudo o que quiseram. E foi essa a segunda das tr\u00eas vezes.<\/p>\n<p align=\"justify\">No mesmo dia chegou em \u00c1quila e foi ter com o m\u00e9dico. Era um desses m\u00e9dicos da moda que as mulheres mandam chamar quando t\u00eam vapores ou quando n\u00e3o t\u00eam absolutamente nada. Era confidente de umas e amante de outras; homem polido, condescendente, um pouco estremecido ali\u00e1s com a Faculdade, contra a qual fizera a prop\u00f3sito uns bem aplicados gracejos.<\/p>\n<p align=\"justify\">Cosi-Sancta lhe exp\u00f4s a doen\u00e7a do filho e ofereceu-lhe um sest\u00e9rcio grande. (E notai que um desses sest\u00e9rcios corresponde, em moeda de Fran\u00e7a, a mais de mil escudos.)<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2014 N\u00e3o \u00e9. com essa moeda que eu pretendo ser pago, Senhora \u2013 respondeu o galante m\u00e9dico. \u2013 Eu pr\u00f3prio vos ofereceria todos os meus haveres, se quis\u00e9sseis cobrar as curas que podeis fazer: curai-me apenas do mal que me causais, e eu devolverei a sa\u00fade a vosso filho.<\/p>\n<p align=\"justify\">A proposta pareceu extravagante \u00e0 dama, mas o destino a acostumara \u00e0s coisas mais estranhas. O m\u00e9dico era um teimoso que n\u00e3o queria outro pre\u00e7o pelo seu rem\u00e9dio. Cosi-Sancta n\u00e3o tinha o marido \u00e0 m\u00e3o, para o consultar. Mas como deixar morrer um filho a quem adorava, por falta daquele pequeno aux\u00edlio que ela lhe poderia dar?! Era t\u00e3o boa m\u00e3e quanto boa irm\u00e3. Comprou o rem\u00e9dio pelo pre\u00e7o que lhe pediram. E foi essa a \u00faltima das tr\u00eas vezes.<\/p>\n<p align=\"justify\">Voltou a Hipona com o irm\u00e3o, que n\u00e3o cessava de agradecer-lhe, durante o caminho, a coragem com que lhe salvara a vida.<\/p>\n<p align=\"justify\">Assim Cosi-Sancta, por ter sido, demasiado virtuosa, fez morrer o seu amado e condenar o marido \u00e0 morte, e, por ter sido complacente, conservou os dias do irm\u00e3o, do filho e do marido. Acharam que uma mulher como essa era muito necess\u00e1ria em uma fam\u00edlia, canonizaram-na ap\u00f3s a morte, por ter feito tanto bem a seus parentes, mortificando-se, e gravaram-lhe no t\u00famulo: UM PEQUENO MAL POR UM GRANDE BEM.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 uma das tantas m\u00e1ximas falsamente acreditadas, essa de que n\u00e3o \u00e9 permitido fazer um pequeno mal de que possa resultar um bem maior. 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