{"id":875,"date":"2018-07-09T23:18:32","date_gmt":"2018-07-09T23:18:32","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=875"},"modified":"2018-07-09T23:20:11","modified_gmt":"2018-07-09T23:20:11","slug":"carta-de-um-turco-sobre-os-faquires-e-o-seu-amigo-bababec","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/carta-de-um-turco-sobre-os-faquires-e-o-seu-amigo-bababec","title":{"rendered":"Carta de um Turco sobre os Faquires e o seu Amigo Bababec"},"content":{"rendered":"<p>Quando me achava na cidade de Benar\u00e9s, \u00e0 margem do Ganges, antiga p\u00e1tria dos br\u00e2manes, procurava instruir-me. Compreendia passavelmente o hindu; escutava muito e observava tudo. Parava em casa de meu correspondente Omri, o homem mais digno que j\u00e1 conheci na vida. Era ele da religi\u00e3o dos br\u00e2manes; quanto a mim, tenho a honra de ser mu\u00e7ulmano; mas nunca trocamos uma palavra mais alta a respeito de Maom\u00e9 e de Brama. Faz\u00edamos as ablu\u00e7\u00f5es cada qual para o seu lado; beb\u00edamos da mesma limonada, com\u00edamos do mesmo arroz, como irm\u00e3os.<\/p>\n<p align=\"justify\">Fomos um dia juntos ao pagode de Gavani. Vimos ali v\u00e1rios bandos de faquires. Uns eram janguis, isto \u00e9, faquires contemplativos; e os outros eram disc\u00edpulos dos antigos ginossofistas, que levavam uma vida ativa. Possuem, como \u00e9 sabido; uma l\u00edngua erudita, que \u00e9 a dos mais antigos br\u00e2manes, e, nessa l\u00edngua, um livro chamado os Vedas. \u00c9 certamente o mais antigo livro de toda a \u00c1sia, sem excetuar o Zend Avesta.<\/p>\n<p align=\"justify\">Passei por um faquir que lia esse livro.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2014 Ah! desgra\u00e7ado infiel! \u2013 exclamou ele. \u2013 Tu me fizeste perder o n\u00famero das vogais que eu estava contando; e por isso a minha alma vai passar para o corpo de uma lebre, em vez de ir para o de um papagaio, como eu tinha motivos de crer.<\/p>\n<p align=\"justify\">Dei-lhe uma r\u00fapia para consol\u00e1-lo. Dali a alguns passos, aconteceu-me a desgra\u00e7a de espirrar, e o ru\u00eddo que fiz despertou um faquir que se achava em \u00eaxtase.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2014 Onde estou? \u2013 disse ele. \u2013 Que horr\u00edvel queda! N\u00e3o vejo mais a ponta do nariz; a luz celeste dissipou-se.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2014 Se sou o causante \u2013 disse-lhe eu \u2013 de que afinal enxergues al\u00e9m da ponta do nariz, eis uma r\u00fapia para reparar o mal. Retoma a tua luz celeste.<\/p>\n<p align=\"justify\">Depois de assim contornar discretamente a situa\u00e7\u00e3o, fui ter com os ginossofistas: v\u00e1rios deles me trouxeram uns preguinhos muito bonitos, para os fincar em meus bra\u00e7os e coxas, em honra de Brama. Comprei-lhes os pregos, com os quais mandei pregar meus tapetes. Outros dan\u00e7avam sobre as m\u00e3os; outros na corda bamba; outros andavam num p\u00e9 s\u00f3. Havia uns que carregavam correntes, outros uma sela, outros que conservavam a cabe\u00e7a dentro de uma caixa: de resto, a melhor gente do mundo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Meu amigo Omri levou-me \u00e0 cela de um dos mais famosos; chamava-se Bababec: estava nu como um macaco e trazia ao pesco\u00e7o uma grossa cadeia que pesava mais de sessenta libras. Achava-se sentado em um banco de madeira, lindamente guarnecido de pregos que lhe penetravam nas n\u00e1degas, e dir-se-ia que estava num leito de cetim. Muitas mulheres vinham consult\u00e1-lo; era o or\u00e1culo das fam\u00edlias; e pode-se dizer que gozava de grande reputa\u00e7\u00e3o. Fui testemunha da longa conversa que Omri teve com ele.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2014 Acreditas, meu pai \u2013 perguntou-lhe Omri, \u2013 que, ap\u00f3s haver passado pela prova das sete metempsicoses, possa eu chegar \u00e0 morada de Brama?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2014 Isto \u00e9 conforme \u2013 disse o faquir. \u2013 Como vives?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2014 Trato \u2013 disse Omri \u2013 de ser bom cidad\u00e3o, bom esposo, bom pai, bom amigo. Empresto dinheiro sem juros aos ricos e dou aos pobres. Incentivo a paz entre meus vizinhos.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2014 N\u00e3o metes algumas vezes pregos no \u00e2nus?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2014 Nunca, reverendo.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2014 Sinto muito: dessa maneira, s\u00f3 ir\u00e1s para o d\u00e9cimo-nono c\u00e9u; e \u00e9 uma pena.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2014 Qual! Est\u00e1 certo. Sinto-me muito contente com a minha parte. Que me importa o d\u00e9cimo-nono ou o vig\u00e9simo, contanto que eu cumpra o dever na minha peregrina\u00e7\u00e3o, e seja bem recebido na \u00faltima morada. N\u00e3o ser\u00e1 suficiente ser um homem direito neste pa\u00eds e depois um homem venturoso no pa\u00eds de Brama? Para que c\u00e9u pretendes ir ent\u00e3o, com os teus pregos e as tuas correntes?<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2014 Para o trig\u00e9simo-quinto \u2013 disse Bababec.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2014 \u00c9s muito engra\u00e7ado \u2013 replicou Omri \u2013 com isso de quereres ficar alojado acima de mim: talvez n\u00e3o seja mais que um sinal de excessiva ambi\u00e7\u00e3o. Se condenas aqueles que buscam honrarias nesta vida, por que ent\u00e3o ambicionas honrarias t\u00e3o grandes na outra? E de resto, por que motivo pretendes ser mais bem tratado do que eu? Fica sabendo que dou em esmolas, em dez dias, mais do que te custam em dez anos todos os pregos que fincas no traseiro. A Brama, pouco se lhe d\u00e1 que passes o dia nu, com uma corrente ao pesco\u00e7o. Belo servi\u00e7o prestas assim \u00e0 p\u00e1tria. Considero cem vezes mais a um homem que semeia legumes ou planta \u00e1rvores do que todos os teus camaradas que olham para a ponta do nariz ou carregam uma sela, por excesso de nobreza d\u2019alma. Depois de assim falar, Omri se abrandou, mostrou-se gentil, acarinhou-o, persuadindo-o enfim a que deixasse os pregos e as correntes, e fosse viver uma vida \u00e0s direitas, na sua companhia.<\/p>\n<p align=\"justify\">Tiraram-lhe o casc\u00e3o, aspergiram-no de perfumes, vestiram-no decentemente.<\/p>\n<p align=\"justify\">Viveu quinze dias muito sensatamente, e confessou que era mil vezes mais feliz do que antes.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mas desacreditava-se entre o povo e as mulheres n\u00e3o vinham mais consult\u00e1-lo. Ele deixou Omri e voltou a seus pregos para ter considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando me achava na cidade de Benar\u00e9s, \u00e0 margem do Ganges, antiga p\u00e1tria dos br\u00e2manes, procurava instruir-me. Compreendia passavelmente o hindu; escutava muito e observava tudo. 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