{"id":876,"date":"2018-07-09T23:18:51","date_gmt":"2018-07-09T23:18:51","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=876"},"modified":"2018-07-09T23:20:11","modified_gmt":"2018-07-09T23:20:11","slug":"o-carregador-zarolho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/o-carregador-zarolho","title":{"rendered":"O Carregador Zarolho"},"content":{"rendered":"<p>Os dois olhos que temos em nada melhoram a nossa condi\u00e7\u00e3o; serve-nos um para ver os bens, e o outro para ver os males da vida. Muita gente possui o mau h\u00e1bito de fechar o primeiro, e poucos fecham o segundo; eis por que h\u00e1 tantas pessoas que prefeririam ser cegos a ver, tudo o que v\u00eaem. Felizes os zarolhos que s\u00f3 s\u00e3o privados desse olho mau que estraga tudo quanto a gente olha! Era o caso de Mesrour.<\/p>\n<p align=\"justify\">Seria preciso ser cego para n\u00e3o ver que Mesrour era zarolho. Era-o de nascen\u00e7a; mas era um zarolho t\u00e3o satisfeito com a sua condi\u00e7\u00e3o que jamais se lembrara de desejar outro olho. N\u00e3o eram os dons da fortuna que o consolavam dos malef\u00edcios da natureza, pois n\u00e3o passava de um simples carregador e n\u00e3o tinha outro tesouro sen\u00e3o os seus ombros; mas era feliz, e mostrava que mais um olho e menos trabalho pouco contribuem para a felicidade. O dinheiro e o apetite lhe vinham sempre em propor\u00e7\u00e3o com o exerc\u00edcio que fazia; trabalhava de manh\u00e3, comia e bebia de tarde, dormia de noite, e considerava cada dia como uma vida \u00e0 parte, de modo que a preocupa\u00e7\u00e3o do futuro jamais lhe perturbava o gozo do presente. Era (como o vedes) ao mesmo tempo zarolho, carregador e fil\u00f3sofo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Viu por acaso passar numa suntuosa carruagem uma grande princesa que tinha um olho mais do que ele, o que n\u00e3o o impediu de ach\u00e1-la muito bela, e, como os zarolhos n\u00e3o diferem dos outros homens sen\u00e3o em que t\u00eam um olho de menos, apaixonou-se perdidamente pela princesa. Dir\u00e3o talvez que, quando se \u00e9 carregador e zarolho, o melhor \u00e9 a gente n\u00e3o se apaixonar, principalmente por uma grande princesa e, o que \u00e9 mais, uma princesa que tem dois olhos; no entanto, como n\u00e3o h\u00e1 amor sem esperan\u00e7a, e como o nosso carregador amava, ousou esperar.<\/p>\n<p align=\"justify\">Tendo mais pernas que olhos, e boas pernas, seguiu durante quatro l\u00e9guas o carro da sua deusa, que seis grandes cavalos brancos puxavam velozmente. Era moda, naqueles tempos, entre as damas, viajar sem lacaios e sem cocheiro, conduzindo elas pr\u00f3prias o carro; queriam os maridos que elas andassem sempre sozinhas, para ficar mais seguros da sua virtude; o que \u00e9 diametralmente oposto ao parecer dos moralistas, que dizem que n\u00e3o h\u00e1 virtude na solid\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mesrour continuava a correr junto \u00e0s rodas do carro, voltando seu olho bom na dire\u00e7\u00e3o da dama, espantada de ver um zarolho com tamanha agilidade. Enquanto ele provava assim o quanto se \u00e9 infatig\u00e1vel quando se ama, um animal selvagem, perseguido por ca\u00e7adores, atravessou a estrada, espantando os cavalos, que tomaram o freio nos dentes e j\u00e1 arrastavam a bela para um precip\u00edcio. Seu novo apaixonado, ainda mais assustado do que ela, embora a princesa o estivesse bastante, cortou as correias com maravilhosa habilidade; somente os seis cavalos deram o salto mortal, e a dama, que n\u00e3o estava menos branca do que eles, apenas passou por um grande susto.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2014 Quem quer que sejas \u2013 disse-lhe ela; \u2013 jamais esquecerei que te devo a vida; pede-me o que quiseres: tudo o que tenho est\u00e1 a teu dispor.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00a0\u2014 Ah! com muito mais raz\u00e3o \u2013 respondeu Mesrour \u2013 posso eu oferecer-vos outro tanto; mas, assim fazendo, sempre vos oferecerei menos; pois s\u00f3 tenho um olho, e v\u00f3s tendes dois; mas um olho que vos contempla vale mais que dois olhos que n\u00e3o v\u00eaem os vossos.<\/p>\n<p align=\"justify\">A dama sorriu: pois as galanterias de um zarolho s\u00e3o sempre galanterias; e as galanterias sempre fazem sorrir.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2014 Eu desejaria dar-te um outro olho \u2013 disse ela \u2013 mas s\u00f3 a tua m\u00e3e podia dar-te esse presente; mas continua a acompanhar-me.<\/p>\n<p align=\"justify\">Dizendo essas palavras, desce ela do carro e prossegue o caminho a p\u00e9; seu c\u00e3ozinho tamb\u00e9m desceu e marchava ao lado da dona, ladrando para a estranha figura do seu escudeiro. Fa\u00e7o mal em lhe dar o t\u00edtulo de escudeiro, porque, por mais que ele lhe oferecesse o bra\u00e7o, n\u00e3o quis a dama aceit\u00e1-lo, sob o pretexto de que o bra\u00e7o estava muito sujo; e ides ver agora como a princesa foi v\u00edtima de seu pr\u00f3prio asseio. Tinha ela uns pequeninos p\u00e9s, e uns sapatinhos ainda menores, de maneira que n\u00e3o era feita para longas caminhadas, nem estava devidamente cal\u00e7ada para isso.<\/p>\n<p align=\"justify\">Lindos pezinhos consolam de ter pernas d\u00e9beis, quando se passa a vida numa espregui\u00e7adeira, em meio de uma por\u00e7\u00e3o de peralvilhos; mas de que servem sapatos bordados e lantejoulados em um caminho pedregoso, onde s\u00f3 podem ser vistos por um carregador e, ainda por cima, por um carregador que s\u00f3 tem um olho?<\/p>\n<p align=\"justify\">Melinade (\u00e9 este o nome da dama, que tive minhas raz\u00f5es para calar at\u00e9 agora, visto que ainda n\u00e3o fora inventado), Melinade avan\u00e7ava como podia, amaldi\u00e7oando o seu sapateiro, escorchando os p\u00e9s, e dando um mau jeito a cada passo. Fazia hora e meia que ela marchava como as grandes damas, isto \u00e9, j\u00e1 fizera perto de um quarto de l\u00e9gua, quando tombou de fadiga.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mesrour, cujos servi\u00e7os ela recusara enquanto estava de p\u00e9, hesitava em lhos oferecer, por medo de a macular com o seu contato; pois bem sabia que n\u00e3o estava limpo (a dama claramente lho dera a entender), e a compara\u00e7\u00e3o que fizera em caminho entre a sua pessoa e a da sua amada ainda lho mostrava com maior clareza. Tinha ela um leve vestido cor de prata, semeado de guirlandas, que lhe ressaltava a beleza do talhe; e ele, um blus\u00e3o pardacento, todo manchado, rasgado e remendado, e de tal maneira que os remendos ficavam ao lado dos buracos e n\u00e3o por baixo, onde estariam mais no seu lugar. Havia comparado as suas m\u00e3os musculosas e cobertas de calos com as duas pequenas m\u00e3os mais brancas e delicadas do que l\u00edrios. Vira enfim os lindos cabelos loiros de Melinade, que se entremostravam atrav\u00e9s de um v\u00e9u de gaze, penteados em tran\u00e7as e cachos; e ele, para colocar ao lado disso, n\u00e3o tinha mais que umas eri\u00e7adas crinas negras, cujo \u00fanico ornamento era um turbante roto.<\/p>\n<p align=\"justify\">No entanto Melinade tenta erguer-se, mas tomba em seguida, e t\u00e3o desastradamente, que o que ela deixou ver a Mesrour tirou-lhe o pouco de raz\u00e3o que a vista de seu rosto pudera deixar-lhe. Esqueceu que era carregador, que era zarolho, e n\u00e3o mais pensou na dist\u00e2ncia que a fortuna pusera entre ambos; mal se lembrou que amava, pois faltou \u00e0 delicadeza que dizem insepar\u00e1vel de um verdadeiro amor, e que \u00e0s vezes lhe constitui o encanto, e muitas vezes o aborrecimento; serviu-se dos direitos \u00e0 brutalidade que lhe dava a sua condi\u00e7\u00e3o de carregador; foi brutal e feliz. A princesa, ent\u00e3o, estava, sem d\u00favida desmaiada, ou lamentava a sua sorte; mas, como tinha um esp\u00edrito justo, aben\u00e7oava decerto o destino pelo fato de todo infort\u00fanio trazer consigo o seu pr\u00f3prio consolo.<\/p>\n<p align=\"justify\">A noite estendera os v\u00e9us no horizonte, e ocultava na sua sombra a verdadeira felicidade de Mesrour e a pretensa desgra\u00e7a de Melinade; Mesrour desfrutava os prazeres dos perfeitos amantes, e desfrutava-os como carregador, quer dizer (para vergonha da humanidade) da maneira mais perfeita; os desmaios de Melinade voltavam-lhe a cada momento, e a cada momento o seu amante recuperava for\u00e7as.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2014 Poderoso Maom\u00e9 \u2013 disse ele uma vez, como homem arrebatado, mas como p\u00e9ssimo cat\u00f3lico, \u2013 s\u00f3 o que falta \u00e0 minha felicidade \u00e9 ser sentida por aquela que a causa; enquanto estou no teu para\u00edso, divino profeta, concede-me ainda um favor, o de ser para os olhos de Melinade o que ela seria para os meus olhos, se houvesse luz.<\/p>\n<p align=\"justify\">Acabou de rezar e continuou a gozar. A aurora, sempre demasiado diligente para os amantes, surpreendeu a ambos na atitude onde ela pr\u00f3pria poderia ter sido surpreendida um momento antes, com Titono. Mas qual n\u00e3o foi o espanto de Melinade quando, abrindo os olhos aos primeiros raios do dia, viu-se num lugar encantado, com um homem de nobre estrutura, cujo rosto se assemelhava ao astro cuja volta a terra aguardava! Tinha faces de rosa, l\u00e1bios de coral; seus grandes olhos, ao mesmo tempo ternos e vivos, exprimiam e inspiravam vol\u00fapia; seu carcaz de ouro, ornado de pedrarias, pendia-lhe do ombro e s\u00f3 o prazer fazia ressoar as suas flechas; sua longa cabeleira, presa por um atilho de diamantes, flutuava-lhe livremente sobre os rins, e um tecido transparente, bordado de p\u00e9rolas lhe servia de veste, sem nada ocultar da beleza do seu corpo.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2014 Onde estou, e quem \u00e9s \u2013 exclamou Melinade no auge da surpresa.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2014 Estais \u2013 respondeu ele \u2013 com o miser\u00e1vel que teve a ventura de vos salvar a vida, e que t\u00e3o bem cobrou o seu trabalho.<\/p>\n<p align=\"justify\">Melinade, t\u00e3o satisfeita quanto espantada, lamentou que a metamorfose de Mesrour n\u00e3o tivesse come\u00e7ado mais cedo. Aproxima-se de um magn\u00edfico pal\u00e1cio que lhe atra\u00edra o olhar e l\u00ea esta inscri\u00e7\u00e3o na porta: \u201cAfastai-vos, profanos; estas portas s\u00f3 se abrir\u00e3o para o senhor do anel.\u201d Mesrour aproxima-se por sua vez para ler a mesma inscri\u00e7\u00e3o, mas viu outros caracteres e leu estas palavras: \u201cBate sem receio.\u201d Bateu, e em seguida as portas se abriram por si mesmas com fragor. Os dois amantes entraram, ao som de mil vozes e de mil instrumentos, num vest\u00edbulo de m\u00e1rmore de Paros; dali passaram para uma sala soberba, onde os esperava h\u00e1 mil duzentos e cinq\u00fcenta anos um festim delicioso, sem que nenhum dos pratos houvesse esfriado: puseram-se \u00e0. mesa e foram servidos cada um por mil escravas da maior formosura; a refei\u00e7\u00e3o foi entremeada de concertos e dan\u00e7as; e, quando terminou, todos os g\u00eanios vieram, na maior ordem, em diferentes grupos, com vestu\u00e1rios t\u00e3o suntuosos qu\u00e3o singulares, prestar juramento de fidelidade ao senhor do anel, e beijar o dedo sagrado que o carregava.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ora, havia em Bagdad um mu\u00e7ulmano muito devoto que, n\u00e3o podendo ir lavar-se na mesquita, fazia a \u00e1gua da mesquita vir \u00e0 sua casa, mediante uma pequena retribui\u00e7\u00e3o que pagava ao sacerdote. Acabava ele de fazer a quinta ablu\u00e7\u00e3o, a fim de se preparar para a quinta prece. E a sua criada, rapariga estouvada e muito pouco devota, desembara\u00e7ou-se da \u00e1gua santa lan\u00e7ando-a pela janela. A \u00e1gua caiu sobre um infeliz profundamente adormecido junto a um marco que lhe servia de apoio. Acordou-se com o choque. Era o pobre Mesrour que, voltando do seu passeio encantado, perdera na viagem o anel de Salom\u00e3o. Deixara as soberbas vestes e retomara o seu blus\u00e3o; seu belo carcaz de ouro havia-se transformado num porta-fardos de madeira e, para c\u00famulo da desgra\u00e7a, tinha deixado um dos olhos no caminho. Lembrou-se ent\u00e3o de que bebera na v\u00e9spera grande quantidade de aguardente, que lhe adormentara os sentidos e aquecera a imagina\u00e7\u00e3o. E Mesrour, que at\u00e9 aquele instante amara essa bebida por gosto, come\u00e7ou a am\u00e1-la por gratid\u00e3o, e voltou alegremente ao trabalho, resolvido a empregar o sal\u00e1rio daquele dia na aquisi\u00e7\u00e3o dos meios para tornar a ver a sua querida Melinade. Qualquer outro ficaria desolado de ser um m\u00edsero zarolho depois de ter tido dois lindos olhos; de sofrer as recusas das varredeiras do pal\u00e1cio depois de haver gozado os favores de uma princesa mais bela do que as amantes do califa; e de estar a servi\u00e7o de todos os burgueses de Bagdad depois de haver reinado sobre todos os g\u00eanios; mas Mesrour n\u00e3o possu\u00eda o olho que v\u00ea o lado mau das coisas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os dois olhos que temos em nada melhoram a nossa condi\u00e7\u00e3o; serve-nos um para ver os bens, e o outro para ver os males da vida. 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