{"id":877,"date":"2018-07-09T23:19:05","date_gmt":"2018-07-09T23:19:05","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=877"},"modified":"2018-07-09T23:20:11","modified_gmt":"2018-07-09T23:20:11","slug":"aventura-indiana-traduzida-pelo-ignorante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/aventura-indiana-traduzida-pelo-ignorante","title":{"rendered":"Aventura Indiana Traduzida pelo Ignorante"},"content":{"rendered":"<p>Durante a sua estada na \u00cdndia, Pit\u00e1goras aprendeu com os ginossofistas, como todos sabem, a linguagem dos animais e das plantas. Passeando um dia por um campo \u00e0 beira-mar, ouviu estas palavras: \u201cQue desgra\u00e7a a minha ter nascido relva! Mal chego a duas polegadas de altura, vem logo um monstro devorador, um animal horr\u00edvel, que me aplastra com seus largos p\u00e9; a sua boca \u00e9 armada com uma dupla fila de foices cortantes, com a qual me arranca, me tritura e me engole. Os homens, chamam a esse monstro de ovelha. N\u00e3o creio que haja no mundo mais abomin\u00e1vel criatura.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">Pit\u00e1goras avan\u00e7ou alguns passos e topou com uma ostra que bocejava sobre um rochedo. O fil\u00f3sofo ainda n\u00e3o havia adotado essa admir\u00e1vel lei que nos pro\u00edbe comer aos animais nossos semelhantes. Ia, pois, engolir a ostra, quando a pobre pronunciou estas comoventes palavras: \u201c\u00d3 Natureza! Como \u00e9 feliz a relva, que \u00e9, como eu, obra tua! Ela, depois de cortada, renasce: \u00e9 imortal. E n\u00f3s, miser\u00e1veis ostras, em v\u00e3o somos defendidas por uma dupla coura\u00e7a; e uns celerados nos comem \u00e0s d\u00fazias, ao almo\u00e7o, e tudo se acaba para sempre. Que terr\u00edvel o destino de uma ostra, e como s\u00e3o b\u00e1rbaros os homens!\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">Pit\u00e1goras estremeceu; sentiu a enormidade do crime que ia praticar: debulhado em pranto, pediu perd\u00e3o \u00e0 ostra e colocou-a cuidadosamente sobre o seu rochedo.<\/p>\n<p align=\"justify\">De regresso \u00e0 cidade, a meditar profundamente sobre essa aventura, viu aranhas que comiam moscas, andorinhas que comiam aranhas, gavi\u00f5es que comiam andorinhas. \u201cEsse pessoal todo \u2013 dizia ele consigo \u2013 n\u00e3o tem a m\u00ednima filosofia\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ao entrar na cidade, foi Pit\u00e1goras atropelado, contundido, derrubado por uma multid\u00e3o de cretinos e cretinas que corriam a gritar: \u201cBem feito! Bem feito! \u00c9 mesmo merecido!\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2014 \u201cQuem? O qu\u00ea? Como!\u201d \u2013 disse Pit\u00e1goras, erguendo-se do ch\u00e3o. E a gente sempre a correr, exclamando: \u201cAh! como n\u00e3o vai ser bom v\u00ea-los cozer!\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">Pit\u00e1goras julgou que falavam de lentilhas ou quaisquer outros legumes; absolutamente: tratava-se de dois pobres hindus. \u201cAh, sem d\u00favida \u2013 pensou Pit\u00e1goras \u2013 s\u00e3o dois grandes fil\u00f3sofos que est\u00e3o cansados da vida e querem renascer sob outra forma; \u00e9 um prazer mudar de casa, embora se fique sempre mal alojado; de gostos n\u00e3o se discute.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">Avan\u00e7ou com a multid\u00e3o at\u00e9 a pra\u00e7a p\u00fablica e foi l\u00e1 que viu uma grande pira acesa e, defronte a essa pira, um banco a que chamavam tribunal, e, nesse banco, uns ju\u00edzes, e esses ju\u00edzes seguravam todos uma cauda de vaca e usavam todos um barrete que se assemelhava perfeitamente \u00e0s duas orelhas do animal que transportou Sileno, quando este veio outrora \u00e0 \u00cdndia em companhia de Baco, depois de atravessarem a seco o mar Eritreu e terem feito parar o sol e a lua, como vem fielmente descrito nas \u00d3rficas.<\/p>\n<p align=\"justify\">Entre esses ju\u00edzes havia um excelente homem conhecido de Pit\u00e1goras. O s\u00e1bio da \u00cdndia explicou ao s\u00e1bio de Samos em que consistia a festa que iam oferecer ao povo indiano.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cOs dois hindus\u201d \u2013 disse ele \u2013 \u201cn\u00e3o t\u00eam o m\u00ednimo desejo de ser queimados; os meus graves confrades condenaram ambos a esse supl\u00edcio: um por haver dito que a subst\u00e2ncia de Xaca n\u00e3o \u00e9 a subst\u00e2ncia de Brama; e o outro, por haver suspeitado que se podia agradar ao Ser Supremo pela simples virtude, sem que seja preciso, \u00e0 hora da morte, segurar uma vaca pela cauda; pois que, dizia ele, a gente pode ser sempre virtuoso, mas nem sempre se encontra uma vaca \u00e0 m\u00e3o. De tal forma se horrorizaram as boas mulheres da cidade com t\u00e3o her\u00e9ticas proposi\u00e7\u00f5es que n\u00e3o deram descanso aos juizes enquanto estes n\u00e3o mandaram os dois infelizes para a fogueira.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">Pit\u00e1goras considerou que, desde a relva at\u00e9 o homem, h\u00e1 sobejos motivos de aborrecimento. No entanto, fez que os ju\u00edzes, e at\u00e9 mesmo os devotos, ouvissem a voz da raz\u00e3o; e foi essa a \u00fanica vez em que tal coisa aconteceu.<\/p>\n<p align=\"justify\">Em seguida foi pregar toler\u00e2ncia em Crotona; mas um intolerante lhe ateou fogo \u00e0 casa: e Pit\u00e1goras morreu queimado, ele que tirara dois hindus da fogueira\u2026<\/p>\n<p align=\"justify\">Salve-se quem puder!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante a sua estada na \u00cdndia, Pit\u00e1goras aprendeu com os ginossofistas, como todos sabem, a linguagem dos animais e das plantas. 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