{"id":878,"date":"2018-07-09T23:19:46","date_gmt":"2018-07-09T23:19:46","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=878"},"modified":"2018-07-09T23:20:11","modified_gmt":"2018-07-09T23:20:11","slug":"aventura-da-memoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/aventura-da-memoria","title":{"rendered":"Aventura da Mem\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p>O g\u00eanero humano pensante, isto \u00e9, a cent\u00e9sima-mil\u00e9sima parte do g\u00eanero humano, quando muito, acreditara por muito tempo, ou pelo menos por muitas vezes o repetira, que n\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos id\u00e9ias sen\u00e3o por interm\u00e9dio dos sentidos, e que a mem\u00f3ria era o \u00fanico instrumento com o qual pod\u00edamos reunir duas id\u00e9ias e duas palavras.<\/p>\n<p align=\"justify\">Eis por que J\u00fapiter, s\u00edmbolo da natureza, se enamorou, \u00e0 primeira vista, de Mnem\u00f3sine, deusa da mem\u00f3ria; e desse casamento nasceram as nove Musas, que inventaram todas as artes.<\/p>\n<p align=\"justify\">Este dogma, no qual se fundam todos os nossos conhecimentos, foi universalmente aceito, e at\u00e9 mesmo a Nonsobre o adotou, embora se tratasse de uma verdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">Algum tempo depois surgiu um argumentador, metade ge\u00f4metra, metade lun\u00e1tico, o qual se p\u00f4s a argumentar contra os cinco sentidos e contra a mem\u00f3ria. E disse ao reduzido grupo do g\u00eanero humano pensante:<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2014 At\u00e9 agora estivestes enganados, porque os vossos sentidos s\u00e3o in\u00fateis, porque as id\u00e9ias s\u00e3o inatas em v\u00f3s, antes de que qualquer dos vossos sentidos possa ter operado; porque j\u00e1 t\u00ednheis todas as no\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias quando viestes ao mundo; porque j\u00e1 sab\u00edeis tudo sem nunca haver sentido nada; todas as vossas id\u00e9ias, nascidas convosco, se achavam presentes em vossa intelig\u00eancia, chamada alma, e sem aux\u00edlio da mem\u00f3ria. Esta mem\u00f3ria n\u00e3o serve para coisa alguma.<\/p>\n<p align=\"justify\">A Nonsobre condenou tal proposi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o porque fosse rid\u00edcula mas porque era nova. No entanto, quando em seguida um ingl\u00eas come\u00e7ou a provar, e a provar longamente, que n\u00e3o havia id\u00e9ias inatas, que nada era t\u00e3o necess\u00e1rio como os cinco sentidos, que a mem\u00f3ria muito servia para reter as coisas recebidas pelos cinco sentidos, a Nonsobre condenou suas pr\u00f3prias id\u00e9ias, visto que eram agora as mesmas de um ingl\u00eas. Ordenou por conseguinte ao g\u00eanero humano que acreditasse dali por diante nas id\u00e9ias inatas, e perdesse toda e qualquer cren\u00e7a nos cinco sentidos e na mem\u00f3ria. O g\u00eanero humano, em vez de obedecer, p\u00f4s-se a rir da Nonsobre, a qual entrou em tamanha f\u00faria, que quis mandar queimar a um fil\u00f3sofo. Pois dissera esse fil\u00f3sofo que era imposs\u00edvel formar id\u00e9ia completa de um queijo sem o ter visto e comido; e chegou o celerado a afirmar que os homens e mulheres jamais poderiam fazer trabalhos de tape\u00e7aria se n\u00e3o tivessem agulhas e dedos para as enfiar.<\/p>\n<p align=\"justify\">Os liolistas juntaram-se \u00e0 Nonsobre pela primeira vez na vida; e os sejanistas, inimigos mortais dos liolistas, reuniram-se por um momento a estes. Chamaram em seu aux\u00edlio os antigos dicast\u00e9ricos; e todos eles, antes de morrer, baniram unanimemente a mem\u00f3ria e os cinco sentidos, e mais o autor que dissera bem dessa meia d\u00fazia de coisas.<\/p>\n<p align=\"justify\">Um cavalo que estava presente ao julgamento estatu\u00eddo por aqueles senhores, embora n\u00e3o pertencesse \u00e0 mesma esp\u00e9cie e houvesse muita coisa que os diferenciava, tal como a estatura, a voz, as crinas e as orelhas, esse cavalo, dizia eu, que tanto possu\u00eda senso como sentidos, contou a hist\u00f3ria a P\u00e9gaso, na minha estrebaria, e P\u00e9gaso, com a sua ordin\u00e1ria vivacidade, foi repeti-la \u00e0s Musas.<\/p>\n<p align=\"justify\">As Musas que, durante uns cem anos, vinham singularmente favorecendo o pa\u00eds, por tanto tempo b\u00e1rbaro, onde se passava esta cena, ficaram muito escandalizadas; amavam ternamente a Mem\u00f3ria, ou Mnem\u00f3sine, sua m\u00e3e, \u00e0 qual essas nove filhas s\u00e3o credoras de tudo quanto sabem. Irritou-as a ingratid\u00e3o dos homens. N\u00e3o satirizaram os antigos dicast\u00e9ricos, os liolistas, os sejanistas e a Nonsobre, porque as s\u00e1tiras n\u00e3o corrigem ningu\u00e9m, irritam os tolos e os tornam ainda piores. Elas imaginaram um meio de esclarec\u00ea-los, punindo-os. Os homens haviam blasfemado contra a mem\u00f3ria; as Musas lhes tiraram esse dom dos deuses, a fim de que aprendessem de uma vez por todas, a que se fica reduzido sem o seu aux\u00edlio.<\/p>\n<p align=\"justify\">Aconteceu, pois, que durante uma bela noite todos os c\u00e9rebros se obscureceram, de modo que no dia seguinte, de manh\u00e3, todos se acordaram sem a m\u00ednima lembran\u00e7a do passado. Alguns dicast\u00e9rios, deitados com as suas mulheres, quiseram aproximar-se delas por um resto de instinto Independente da mem\u00f3ria. As mulheres, que s\u00f3 muito raramente possuem o instinto de entrar em contato com os maridos, repeliram asperamente as suas desagrad\u00e1veis car\u00edcias, e a maioria dos casais acabou aos tapas.<\/p>\n<p align=\"justify\">Alguns senhores, encontrando um chap\u00e9u, serviram-se dele para certas necessidades que nem a mem\u00f3ria nem, o bom senso justificam. E senhoras empregaram para o mesmo uso as bacias de rosto. Os criados, esquecidos do contrato que haviam feito com os patr\u00f5es, entraram no quarto dos mesmos, sem saber onde se achavam; mas, como o homem nasceu curioso, abriram todas as gavetas; e, como o homem ama naturalmente o brilho da prata e do ouro, sem ter para isso necessidade de mem\u00f3ria, apanharam tudo o que estava a seu alcance. Os patr\u00f5es quiseram bradar contra ladr\u00e3o; mas, tendo-lhes sa\u00eddo do c\u00e9rebro a id\u00e9ia de ladr\u00e3o, n\u00e3o p\u00f4de a palavra lhes chegar \u00e0 l\u00edngua. Cada qual, tendo esquecido o seu idioma, articulava sons informes. Era muito pior que em Babel, onde cada um inventava imediatamente uma l\u00edngua nova. A inata inclina\u00e7\u00e3o dos criados mo\u00e7os pelas mulheres bonitas se manifestou com tal prem\u00eancia que os atrevidos se lan\u00e7aram irrefletidamente sobre as primeiras mulheres ou raparigas que encontraram, fossem elas taberneiras ou presidentas; e estas, esquecidas das leis do pudor, deixaram-se manobrar com toda liberdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">Foi preciso almo\u00e7ar; ningu\u00e9m sabia o que fazer para isso. Ningu\u00e9m fora ao mercado, nem para vender nem para comprar. Os criados tinham vestido a roupa dos patr\u00f5es, e os patr\u00f5es a dos criados. Todo mundo se olhava aparvalhado. Os que tinham mais jeito para obter o necess\u00e1rio (e era a gente do povo) conseguiram um pouco com que viver; aos outros, faltou-lhes tudo. O ministro e o arcebispo andavam inteiramente nus, e seus palefreneiros passeavam, uns de h\u00e1bito vermelho, outros com dalm\u00e1ticas: tudo estava confundido, iam todos morrer de mis\u00e9ria e de fome, por falta de m\u00fatuo entendimento.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ao cabo de alguns dias, as Musas tiveram piedade dessa pobre ra\u00e7a: elas s\u00e3o boas afinal, embora algumas vezes fa\u00e7am sentir aos maus a sua c\u00f3lera; suplicaram, pois, \u00e0 m\u00e3e, que devolvesse \u00e0queles blasfemos a mem\u00f3ria que lhes havia tirado. Mnem\u00f3sine desceu \u00e0 regi\u00e3o dos contr\u00e1rios, onde t\u00e3o temerariamente a tinham insultado, e falou-lhes nos seguintes termos:<\/p>\n<p align=\"justify\">\u2014 Perd\u00f4o-vos, imbecis; mas lembrai-vos de que sem sentido n\u00e3o h\u00e1 mem\u00f3ria e sem mem\u00f3ria n\u00e3o h\u00e1 senso.<\/p>\n<p align=\"justify\">Os dicast\u00e9ricos agradeceram-lhe secamente, e decidiram fazer-lhe uma admoesta\u00e7\u00e3o. Os sejanistas publicaram toda essa aventura na sua gazeta; viu-se que ainda n\u00e3o estavam curados. Os liolistas transformaram o caso numa intriga de corte. Mestre Coger, pasmado da aventura e sem compreender patavina daquilo tudo, disse a seus alunos do quinto ano este belo axioma: Non magis musis quam hominibus infensa est ista quae vocatur memoria. (O que se chama mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 mais infenso \u00e0s musas que aos homens).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O g\u00eanero humano pensante, isto \u00e9, a cent\u00e9sima-mil\u00e9sima parte do g\u00eanero humano, quando muito, acreditara por muito tempo, ou pelo menos por muitas vezes o repetira, que n\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos id\u00e9ias sen\u00e3o por interm\u00e9dio dos&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[42],"class_list":["post-878","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-voltaire"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/878","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=878"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/878\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":882,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/878\/revisions\/882"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=878"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=878"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=878"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}