{"id":894,"date":"2018-12-10T13:17:43","date_gmt":"2018-12-10T13:17:43","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=894"},"modified":"2018-12-10T13:17:43","modified_gmt":"2018-12-10T13:17:43","slug":"tres-tesouros-perdidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/tres-tesouros-perdidos","title":{"rendered":"Tr\u00eas Tesouros Perdidos"},"content":{"rendered":"<p>Uma tarde, eram quatro horas, o sr. X\u2026 voltava \u00e0 sua casa para jantar. O apetite que levava n\u00e3o o fez reparar em um cabriol\u00e9 que estava parado \u00e0 sua porta. Entrou, subiu a escada, penetra na sala e\u2026 d\u00e1 com os olhos em um homem que passeava a largos passos como agitado por uma interna afli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Cumprimentou-o polidamente; mas o homem lan\u00e7ou-se sobre ele e com uma voz alterada, diz-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 Senhor, eu sou F\u2026, marido da senhora Dona E\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Estimo muito conhec\u00ea-lo, responde o sr. X\u2026; mas n\u00e3o tenho a honra de conhecer a senhora Dona E\u2026<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o a conhece! N\u00e3o a conhece! \u2026 quer juntar a zombaria \u00e0 inf\u00e2mia?<\/p>\n<p>\u2014 Senhor!\u2026<\/p>\n<p>E o sr. X\u2026 deu um passo para ele.<\/p>\n<p>\u2014 Alto l\u00e1!<\/p>\n<p>O sr. F\u2026 , tirando do bolso uma pistola, continuou:<\/p>\n<p>\u2014 Ou o senhor h\u00e1 de deixar esta corte, ou vai morrer como um c\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2014 Mas, senhor, disse o sr. X\u2026, a quem a eloq\u00fc\u00eancia do sr. F\u2026 tinha produzido um certo efeito, que motivo tem o senhor?\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Que motivo! \u00c9 boa! Pois n\u00e3o \u00e9 um motivo andar o senhor fazendo a corte \u00e0 minha mulher?<\/p>\n<p>\u2014 A corte \u00e0 sua mulher! n\u00e3o compreendo!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o compreende! oh! n\u00e3o me fa\u00e7a perder a estribeira.<\/p>\n<p>\u2014 Creio que se engana\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Enganar-me! \u00c9 boa! \u2026 mas eu o vi\u2026 sair duas vezes de minha casa\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Sua casa!<\/p>\n<p>\u2014 No Andara\u00ed\u2026 por uma porta secreta\u2026 Vamos! ou\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Mas, senhor, h\u00e1 de ser outro, que se pare\u00e7a comigo\u2026<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o; n\u00e3o; \u00e9 o senhor mesmo\u2026 como escapar-me este ar de tolo que ressalta de toda a sua cara? Vamos, ou deixar a cidade, ou morrer\u2026 Escolha!<\/p>\n<p>Era um dilema. O sr. X\u2026 compreendeu que estava metido entre um cavalo e uma pistola. Pois toda a sua paix\u00e3o era ir a Minas, escolheu o cavalo.<\/p>\n<p>Surgiu, por\u00e9m, uma obje\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, senhor, disse ele, os meus recursos\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Os seus recursos! Ah! tudo previ\u2026 descanse\u2026 eu sou um marido previdente.<\/p>\n<p>E tirando da algibeira da casaca uma linda carteira de couro da R\u00fassia, diz-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 Aqui tem dois contos de r\u00e9is para os gastos da viagem; vamos, parta! parta imediatamente. Para onde vai?<\/p>\n<p>\u2014 Para Minas.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! a p\u00e1tria do<br \/>\nfg(517,\u2019Tiradentes\u2019)<br \/>\nTiradentes! Deus o leve a salvamento\u2026 Perd\u00f4o-lhe, mas n\u00e3o volte a esta corte\u2026 Boa viagem!<\/p>\n<p>Dizendo isto, o sr. F\u2026 desceu precipitadamente a escada, e entrou no cabriol\u00e9, que desapareceu em uma nuvem de poeira.<\/p>\n<p>O sr. X\u2026 ficou por alguns instantes pensativo. N\u00e3o podia acreditar nos seus olhos e ouvidos; pensava sonhar. Um engano trazia-lhe dois contos de r\u00e9is, e a realiza\u00e7\u00e3o de um dos seus mais caros sonhos. Jantou tranq\u00fcilamente, e da\u00ed a uma hora partia para a terra de<br \/>\nfg(167,\u2019Gonzaga\u2019)<br \/>\nGonzaga, deixando em sua casa apenas um moleque encarregado de instruir, pelo espa\u00e7o de oito dias, aos seus amigos sobre o seu destino.<\/p>\n<p>No dia seguinte, pelas onze horas da manh\u00e3, voltava o sr. F\u2026 para a sua ch\u00e1cara de Andara\u00ed, pois tinha passado a noite fora.<\/p>\n<p>Entrou, penetrou na sala, e indo deixar o chap\u00e9u sobre uma mesa, viu ali o seguinte bilhete:<\/p>\n<p>\u201cMeu caro esposo! Parto no paquete em companhia do teu amigo P\u2026 Vou para a Europa. Desculpa a m\u00e1 companhia, pois melhor n\u00e3o podia ser. \u2014 Tua E\u2026\u201d<\/p>\n<p>Desesperado, fora de si, o sr. F\u2026 lan\u00e7a-se a um jornal que perto estava: o paquete tinha partido \u00e0s oito horas.<\/p>\n<p>\u2014 Era P\u2026 que eu acreditava meu amigo\u2026 Ah! maldi\u00e7\u00e3o! Ao menos n\u00e3o percamos os dois contos! Tornou a meter-se no cabriol\u00e9 e dirigiu-se \u00e0 casa do sr. X\u2026, subiu; apareceu o moleque.<\/p>\n<p>\u2014 Teu senhor?<\/p>\n<p>\u2014 Partiu para Minas.<\/p>\n<p>O sr. F\u2026 desmaiou.<\/p>\n<p>Quando deu acordo de si estava louco\u2026 louco varrido!<\/p>\n<p>Hoje, quando algu\u00e9m o visita, diz ele com um tom lastimoso:<\/p>\n<p>\u2014 Perdi tr\u00eas tesouros a um tempo: uma mulher sem igual, um amigo a toda prova, e uma linda carteira cheia de encantadoras notas\u2026 que bem podiam aquecer-me as algibeiras!\u2026<\/p>\n<p>Neste \u00faltimo ponto, o doido tem raz\u00e3o, e parece ser um doido com ju\u00edzo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma tarde, eram quatro horas, o sr. X\u2026 voltava \u00e0 sua casa para jantar. 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