{"id":900,"date":"2019-02-12T22:36:44","date_gmt":"2019-02-12T22:36:44","guid":{"rendered":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/?p=900"},"modified":"2019-02-12T22:36:44","modified_gmt":"2019-02-12T22:36:44","slug":"filomena-borges","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/filomena-borges","title":{"rendered":"Filomena Borges"},"content":{"rendered":"<p>I<\/p>\n<p>Sabemos que \u00e9 geral a ansiedade por descobrir o mist\u00e9rio em que se envolve a individualidade conhecida pelo nome que encima estas linhas.<\/p>\n<p>De h\u00e1 alguns dias conhec\u00edamos parte do romance \u2013 se romance podemos chamar a uma hist\u00f3ria tristemente verdadeira \u2013 de que \u00e9 hero\u00edna, protagonista, v\u00edtima, e n\u00e3o sabemos que mais, aquela mulher que \u00e9 hoje c\u00e9lebre por andar o seu nome por toda esta popula\u00e7\u00e3o, repetido de boca em boca.<\/p>\n<p>E sab\u00edamos da sua hist\u00f3ria, porque n\u00f4-la referira a pessoa que assina a carta que abaixo transcrevemos, e que, tendo dela ligeira not\u00edcia, dirigira-se pessoalmente a tomar informa\u00e7\u00f5es, e voltara trazendo-as, e as mais preciosas.<\/p>\n<p>Encetaremos, pois, brevemente, a hist\u00f3ria da vida de Filomena Borges, escrita pelo conhecido romancista Alu\u00edzio Azevedo.<\/p>\n<p>Eis a carta que ele nos enviou:<\/p>\n<p>\u201cSr. Redator da Gazeta de Not\u00edcias. \u2013 N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de interesse pr\u00f3prio que me traz ao seu conceituado jornal. Tamb\u00e9m n\u00e3o venho tratar de pol\u00edtica, nem de ci\u00eancia nem de literatura. N\u00e3o.<\/p>\n<p>Meu fim \u00fanico, dirigindo-me a V. S., \u00e9 cumprir um dever de consci\u00eancia, um dever de justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Neste instante, Sr. Redator, acabo de chegar da casa de Filomena Borges, e \u00e9 ainda dominado por uma impress\u00e3o violenta que lhe escrevo estas linhas.<\/p>\n<p>Nunca imaginei que o \u00f3dio, a intriga e a inveja conseguissem tanto! Nunca me persuadi de que o esp\u00edrito do mal fosse t\u00e3o longe!<\/p>\n<p>Bem sei que Filomena n\u00e3o \u00e9 um modelo de virtudes dom\u00e9sticas; bem sei que na febre de suas paix\u00f5es mais de um futuro se tem estiolado; bem sei que muito cora\u00e7\u00e3o ainda hoje sangra a ferida de seus \u00f3sculos vermelhos.<\/p>\n<p>Mas ser\u00e1 ela porventura a maior culpada de tudo isso, ser\u00e1 ela a \u00fanica respons\u00e1vel pelo mal que fez e pelas fortunas que destruiu?!<\/p>\n<p>N\u00e3o caber\u00e1 alguma parte dessa culpa a nossa sociedade, aos nossos costumes, \u00e0 nossa educa\u00e7\u00e3o, e finalmente ao triste meio onde cresceu e palpitou essa desventurada e formosa criatura?!<\/p>\n<p>As mulheres s\u00e3o fatalmente aquilo que os homens decretam que elas sejam.<\/p>\n<p>Filomena Borges \u00e9 um produto leg\u00edtimo dos v\u00edcios e da covardia de seus pais.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o a educassem no falso luxo; se n\u00e3o lhe ensinassem todas as mis\u00e9rias de uma pobreza sem coragem e sem dignidade; se n\u00e3o a vendessem ao primeiro noivo rico e brutal que a desejou: Filomena Borges seria talvez neste instante o melhor modelo das m\u00e3es de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Eu tamb\u00e9m a detestava; eu tamb\u00e9m a temia. N\u00e3o foi sem escr\u00fapulo que cheguei ao lado dela. Mas. depois que a encarei de perto; depois que lhe sondei todos os arrebatamentos da alma apaixonada; depois que a ouvi nesses momentos terr\u00edveis da desgra\u00e7a em que se n\u00e3o pode fingir, ah! ent\u00e3o compreendi que, melhor do que o desprezo, merecia a infeliz, compaix\u00e3o e consolo.<\/p>\n<p>Hoje ningu\u00e9m ignora o que h\u00e1 a respeito dessa pobre criatura desamparada; todos sabem a persegui\u00e7\u00e3o de que ela \u00e9 v\u00edtima, e toda a grande tempestade de c\u00f3lera que lhe paira sobre a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Formaram-se grupos, inventaram-se clubes para a perseguir. Homens poderosos e mulheres felizes pedem o seu quinh\u00e3o de vingan\u00e7a, como esfomeados que exigem p\u00e3o. Multiplicam-se as cartas, os artigos., os cart\u00f5es postais, os ditos maldizentes, as pequenas conversas intrigantes; e, todavia, Filomena Borges, a tem\u00edvel, a medonha Filomena, chora e pede por amor de i)eus que n\u00e3o a condenem sem a ter ouvido.<\/p>\n<p>Ainda ontem um cidad\u00e3o, cujo nome abstenho-me por ora de citar, chegou a quebrar-lhe os vidros da janela, depois de me dirigir da rua os maiores insultos. Um capit\u00e3o do ex\u00e9rcito jurou que lhe havia de meter uma bala no miolos, se ela n\u00e3o tratasse quanto antes de sair do Rio de Janeiro. A Sra. baronesa X\u2026 m\u00e3e de tr\u00eas rapazes, e em v\u00e9speras de ser av\u00f3, remeteu-lhe unia carta, que faria temer um oficial de artilharia.<\/p>\n<p>E, no fim de contas, qual \u00e9 o motivo de tanta guerra?! De que lado esta a raz\u00e3o?!<\/p>\n<p>Isso s\u00f3 o p\u00fablico decidir\u00e1, depois de ler o apanhado de todos os fatos, o extrato de todos os documentos, que me foi permitido descobrir a respeito de Filomena Borges.<\/p>\n<p>N\u00e3o hei de inventar, nem esconder cousa alguma; a verdade aparecer\u00e1 nua e limpa, ainda que tenha de arcar com o ressentimento de algumas pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Rio, 4 de outubro.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Alu\u00edzio Azevedo<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">O Pa\u00eds, Outubro de 1883.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>Antes de principiar<\/p>\n<p>\u2013 Leste Filomena Borges!<\/p>\n<p>\u2013 Li.<\/p>\n<p>\u2013 Que tal?<\/p>\n<p>\u2013 Uhm! Assim!\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2013 Pouco enredo\u2026 pouca forma\u2026 e, com franqueza, achei tudo aquilo falso.<\/p>\n<p>\u2013 Falso? N\u00e3o! Isso tem paci\u00eancia. Tudo aquilo \u00e9 vasado na observa\u00e7\u00e3o e na verdade!<\/p>\n<p>\u2013 Talvez seja por isso mesmo! Nesse caso h\u00e1 excesso de fidelidade e a cousa parece falsa. \u00c0s vezes um retrato a \u00f3leo \u00e9 mais verdadeiro do que uma fotografia.<\/p>\n<p>\u2013 Ora essa!.<\/p>\n<p>\u2013 Parece-te unia asneira o que acabas de ouvir, mas n\u00e3o \u00e9, acredita! Nada \u00e9 t\u00e3o inveross\u00edmil como a pr\u00f3pria verdade, quando ela se apresenta com toda a brutalidade de seu peso.<\/p>\n<p>\u2013 Est\u00e1s metaf\u00edsico, homem!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o sei se estou metaf\u00edsico, o que te afian\u00e7o, \u00e9 que n\u00e3o gostei da tal Filomena Borges, t\u00e3o apregoada, t\u00e3o ansiosamente esperada. Confesso, achei-a fraca, desengra\u00e7ada, in\u00fatil. Pode ser, se o romance n\u00e3o fosse t\u00e3o anunciado, que eu achasse bom, por\u00e9m puxaram tanto pela minha curiosidade, tanto mexeram comigo, que, palavra de honra, esperava outra cousa.<\/p>\n<p>\u2013 Ora! Isso n\u00e3o \u00e9 cr\u00edtica!<\/p>\n<p>\u2013 Mas que queres, filho\u2026 Tenho eu culpa que a tal Filomena, uma mulher que leva o seu histerismo \u00e0 loucura, n\u00e3o me haja agradado?! Tenho eu culpa de n\u00e3o poder suportar o tal Borges com a sua ingenuidade pulha?\u2026 O Guterres, com a sua m\u00e1 l\u00edngua; o Barroso, sempre feliz em p\u00fablico e desgra\u00e7ado consigo mesmo? Sou o respons\u00e1vel por n\u00e3o acreditar naquela vi\u00fava Perdig\u00e3o, naquele Barradinhas, naquele Urso?!\u2026 N\u00e3o! Tem paci\u00eancia! Mas o tal Alu\u00edzio pode limpar as m\u00e3os \u00e0 parede! \u2013 O seu novo romance \u00e9 um atentado contra a verdade!<\/p>\n<p>\u2013 Ora, deixa-te disso! Tu mesmo, na tua vida, atravessaste j\u00e1 algumas das situa\u00e7\u00f5es que se encontram em Filomena Borges; tu mesmo j\u00e1 passaste por muitos daqueles transes; n\u00e3o negues! Bem sabes que eu conhe\u00e7o a tua vida tanto como a minha!\u2026<\/p>\n<p>\u2013 De acordo! Convenho que a\u00ed esteja descrita muita cousa que se tenha dado comigo. Mas ser\u00e1 isso uma raz\u00e3o para gostar do livro\u2026 N\u00e3o me parece que seja!\u2026 Eu quero que um livro me fa\u00e7a rir ou chorar, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida; mas, com os diabos! quero que ele me fa\u00e7a rir com os rid\u00edculos alheios, e chorar com as dores que n\u00e3o s\u00e3o minhas! Quero chorar para me divertir, e n\u00e3o para sofrer, percebes tu?<\/p>\n<p>\u2013 Mas, filho, olha que est\u00e1s a cair em contradi\u00e7\u00e3o, porque, se todos pensarem como tu pensas, n\u00e3o haver\u00e1 meio de fazer um romance real!<\/p>\n<p>\u2013 Sim; mas \u00e9 que h\u00e1 umas tantas verdades que est\u00e3o conosco, em nossa intelig\u00eancia, e que, todavia n\u00e3o existem na vida de ningu\u00e9m; por exemplo\u2026<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o! n\u00e3o cites! J\u00e1 vejo que n\u00e3o chegaremos a um acordo; quanto mais citares, \u00e9 pior!<\/p>\n<p>Eu, por mim, digo-te ingenuamente: n\u00e3o desgostei de Filomena Borges. Achei-a fora do comum, despretensiosa e divertida.<\/p>\n<p>\u2013 S\u00e3o opini\u00f5es! Eu n\u00e3o lhe descobri nenhuma dessas qualidades! N\u00e3o sei qual seja o fundo filos\u00f3fico daquela obra, n\u00e3o sei o que ela prove, o que ela afirme!<\/p>\n<p>\u2013 Nem eu, mas fico satisfeito em saber que ela divertiu, que ela me prendeu a aten\u00e7\u00e3o por muitos dias! E, digo-te agora: certas cenas que encontrei ali, fizeram-me pensar\u2026 Acredito que em tudo aquilo h\u00e1 uma inten\u00e7\u00e3o muito acentuada, h\u00e1 a inten\u00e7\u00e3o de\u2026<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 in\u00fatil continuares! J\u00e1 sei do que me vais falar, e a esse respeito temos conversado!<\/p>\n<p>\u2013 O que eu vejo, \u00e9 que \u00e9 muito dif\u00edcil escrever romances no Brasil!\u2026 O pobre escritor tem a lutar com dois terr\u00edveis elementos \u2013 o p\u00fablico e o cr\u00edtico. O p\u00fablico que sustenta a obra e o cr\u00edtico que a julga e \u00e0s vezes a inutiliza; o p\u00fablico que compra um livro para aprender, e o cr\u00edtico que exige que o livro sustente as suas id\u00e9ias e pense justamente com ele \u2013 cr\u00edtico.<\/p>\n<p>\u2013 E da\u00ed?<\/p>\n<p>Da\u00ed \u00e9 que tudo isso seria muito razo\u00e1vel, se o p\u00fablico caminhasse ao lado do cr\u00edtico; mas assim n\u00e3o sucede \u2013 aquele navega ainda no romantismo de 1820, e este n\u00e3o admite literatura que n\u00e3o esteja sujeita \u00e0s regras de 1883. A dificuldade est\u00e1 em agradar a ambos, ou, ao menos, n\u00e3o desagradar totalmente a nenhum dos dois. Isso, quero crer, \u00e9 a grande preocupa\u00e7\u00e3o de Filomena Borges. Ela tanto pertence ao p\u00fablico como pertence ao cr\u00edtico.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 este o di\u00e1logo que se travar\u00e1 depois do \u00faltimo folhetim de Filomena Borges?<\/p>\n<p>Pode ser. Em todo o caso, a obra principiar\u00e1 a sair de amanh\u00e3 em diante no rodap\u00e9 desta folha, e o leitor que a julgue \u00e0 vontade, que diga o que entender, que a condene ou que a proteja, porque eu c\u00e1 tenho as minhas raz\u00f5es para n\u00e3o a ter feito melhor nem pior.<\/p>\n<p>Boa ou m\u00e1, esta \u00e9 a \u00fanica Filomena Borges, leg\u00edtima, verdadeira, a Filomena Borges da \u201cGazeta de Not\u00edcias\u201d, aquela que mandou o seu cart\u00e3o a v\u00e1rios cavalheiros desta cidade e aquela de quem at\u00e9 hoje se tem ocupado a nossa imprensa e o nosso p\u00fablico.<\/p>\n<p>Sirva isso de resposta \u00e0s cartas dos Srs. A. P. Ramos de Almeida, Niemeyer, L\u2026., O. Borges, P. de Oliveira e tantos outros que me honraram com as suas letras; como igualmente sirva de r\u00e9plica ao Sr. J\u00falio Alberto Machado, que n\u00e3o teve o menor escr\u00fapulo em aproveitar aquele nome para t\u00edtulo de um romance de sua folha, e, outrossim, ao velhaco que publicou h\u00e1 pouco tempo um detest\u00e1vel fasc\u00edculo intitulado: Filomena Borges, a mulher dem\u00f4nio.<\/p>\n<p>O p\u00fablico que evite as contrafa\u00e7\u00f5es e desconfie das Filomenas que n\u00e3o trouxerem o seguinte carimbo:<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Alu\u00edzio Azevedo<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Gazeta de Not\u00edcias, 1883<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>I Sabemos que \u00e9 geral a ansiedade por descobrir o mist\u00e9rio em que se envolve a individualidade conhecida pelo nome que encima estas linhas. De h\u00e1 alguns dias conhec\u00edamos parte do romance \u2013 se romance&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[17],"class_list":["post-900","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-aluisio-azevedo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/900","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=900"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/900\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":901,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/900\/revisions\/901"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=900"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=900"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/rubensbraz.com\/contos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=900"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}